cristina costa

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INTRODUÇÃO

O conhecimento como característica da humanidade

Nas várias espécies animais existentes sobre a Terra encontramos formas de relacionamento que nos fazem pensar na existência de regularidades

que ordenam sua vida comunitária. Percebemos facilmente que

os diversos animais se agrupam, convivem, se acasalam, sobrevivem e

se reproduzem de forma mais ou menos ordenada, em função de sua

Potencialidade e do ambiente em que vivem.

A preservação da espécie e seu aprimoramento parecem ser, como afirmou Darwin na sua teoria sobre a Evolução das espécies, o objetivo Das suas formas de vida, convivência e sociabilidade. Assim, os animais: e desenvolvem estilos próprios de vida que lhes permitem a reprodução e a sobrevivência. Estabelecem para isso modelos de vida complexos, com sistemas de acasalamento, alojamento, migração, defesa e alimentação.

O homem, como uma dentre as várias espécies existentes, também desenvolveu processos de convivência, reprodução, acasalamento e defesa. Desse modo apresenta uma série de atividades "instintivas", isto é, ações e reações que se desenvolvem de forma mecânica, dispensando o aprendizado, como respirar, engatinhar, sentir fome, medo, frio. Além disso, porém, quer por dificuldades impostas pelo ambiente, quer por particularidades da própria espécie, o homem também desenvolveu habilidades que dependem de aprendizado. Assim, as crianças aprendem a comer, beber e dormir em horários regulares, aprendem a brincar e a obedecer; mais tarde, aprenderão a trabalhar, comerciar, administrar, governar.

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O homem precisa de aprendizado para desenvolver formas peculiares de comportamento.

O homem, portanto, se distingue das demais espécies existentes porque nem todo seu comportamento se desenvolve automaticamente em sua relação com a natureza, nem se transmite à sua descendência pêlos genes. Ele é o único animal que necessita de aprendizado para adquirir diferenciadas formas de comportamento.

Muitas lendas e mitos relatam a história de heróis que, mesmo crescendo no isolamento, tornaram-se humanos — Rômulo e Remo, Tarzan, Mogli — e apresentaram comportamentos compatíveis com o resto da humanidade. Entretanto, para se tornar humano, o homem tem de aprender com seus semelhantes uma série de atitudes que lhe seriam impossíveis desenvolver no isolamento. Já entre os demais animais, se separarmos uma cria de seu grupo de origem, ela apresentará, com o tempo, as mesmas capacidades e atitudes de seus semelhantes, pois essas decorrem sobretudo de características genéticas.

O cineasta alemão Werner Herzog trata justamente desse tema em seu filme O enigma de Raspar Hauser, de 1976. Ele mostra como um homem criado longe de outros seres de sua espécie é incapaz de se humanizar, revelando apenas características genéticas instintivas e animais.

Portanto, para que um bebê humano se transforme em um homem propriamente dito, capaz de agir, viver e se reproduzir como tal, é necessário um longo aprendizado, pelo qual as antigas gerações transmitem às mais novas suas experiências e conhecimentos. Essa característica, essencialmente humana, só se tornou possível porque o homem tem a capacidade de criar sistemas de símbolos, como a linguagem, por meio dos quais dá significado às suas experiências vividas e as transmite a seus semelhantes.

As capacidades próprias dos animais se desenvolvem de maneira predominantemente instintiva e se transmitem aos descendentes pela carga genética. O homem, por sua vez, deve transmitir suas experiências e interpretações da realidade por uma série ordenada de símbolos. Por isso, dizemos que o Homo sapiens é a única espécie que pensa, isto é, que é capaz de transformar a sua

O Homo sapiens é capaz de comunicar sua experiência vivida através de um discurso significativo.

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Experiência vivida em um discurso com significado e transmiti-la aos demais seres de sua espécie e a seus descendentes. É o único capaz de imaginar ações e reações sob forma simbólica, isto é, mesmo na ausência de estímulos concretos que provoquem medo, alegria, fome ou rancor, ele pode reviver essas situações que o estimularam. Além disso, é o único a diferenciar as experiências no tempo e, em conseqüência, a projetar ações futuras.

O homem, portanto, é capaz de recriar situações e emoções, é capaz de simbolizar, de atribuir significados às coisas, de separar, agrupar, classificar o mundo que o cerca segundo determinadas características. Dessa habilidade provém a capacidade de projeção, a ideia de tempo e o esforço em preparar o futuro, características que permitem o desenvolvimento da ciência. Esse é o centro de sua capacidade simbólica e de sua humanidade.

Ao pensar, ao ser capaz de projetar, de ordenar, prever e interpretar, o em, sempre vivendo em grupos, começou a travar com o mundo ao seu ar uma relação dotada de significado, avaliação. Seu conhecimento do

mundo — organizado, comunicado e compartilhado com seus semelhantes e transmitido à descendência — se transformou em cultura humana propriamente dita. Essa elaboração simbólica da experiência fez com que os homens recriassem o mundo segundo suas necessidades e pontos de vista, traduzindo-o sob a forma de informação ou conhecimento. A partir dessa lista, do desenvolvimento dessa capacidade genuinamente humana de sentar e transformar o ambiente natural, cada grupo, compartilhando experiências comuns adaptadas ao seu modo próprio de vida, criou formas rias de sociabilidade. É por isso que encontramos formas de existente crenças e pensamento tão diversas. Porque elas não são apenas conseqüências de uma estrutura genética da espécie, mas da criação de formas ao e reação decorrentes da experiência particular vivenciada por um i de homens.

Uma vez que cada cultura tem suas próprias raízes, seus próprios significados e características, todas elas são qualitativamente comparáveis. Enquanto culturas, todas são igualmente simbólicas, fruto da capacidade cria-i do homem e adaptadas a uma vida comum em determinado espaço e • nesse contínuo recriar, compartilhar e transmitir a experiência vivida e aprendida.

»culturas humanas como processos

Foi dessa capacidade de pensar o mundo, de atribuir significado à realidade, que o homem criou o conhecimento. Desde os primeiros vestígios arqueológicos do homem sobre a Terra, percebemos que os problemas por ele enfrentados — de sobrevivência, defesa e perpetuação da espécie — lhe apareceram como obstáculos, para os quais buscou explicações sobre si mesmo o mundo em que vive.

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A pesquisa arqueológica busca desvendar a cultura humana desde os tempos mais remotos.

Os mais antigos "cemitérios" humanos, onde se encontram ossadas dispostas numa certa posição acompanhadas de alguns objetos, mostram que mesmo o ato de enterrar os mortos respondia a questões relativas à vida e à morte e implicava uma escolha da "melhor forma" de ação. Aceita pelo grupo, essa "melhor forma" tende a se repetir, transformando-se em ritual — uma ação revivida em grupo e explicada em função da resposta coletiva dada ao "para que" e ao "por que" da existência humana.

Podendo escolher, julgar, pensar sobre situações passadas e futuras, o homem passou da simples experiência imediata a explicações que lhe garantiam o conhecimento de si e do mundo à sua volta, formulando justificativas para fatos, atitudes e comportamentos. A partir do desenvolvimento dessa capacidade simbólica e da linguagem, a ação humana passou a ser intermediada pela atribuição de significados, interpretações estabelecidas e partilhadas entre os grupos humanos. Essas interpretações, a que chamamos conhecimento, criaram soluções para necessidades concretas de vida e sobrevivência e se mantiveram sempre operantes enquanto foram adequadas a tais necessidades. Quando os homens enfrentaram novos obstáculos, surgiram novas relações, tidas como mais adequadas, mais úteis às dificuldades enfrentadas. Assim, se por um lado as culturas humanas tendem à ritualização e à repetição, amparadas na tradição e no aprendizado, por outro elas representam a possibilidade de mudança e adaptação. A própria reprodução das formas de vida existentes acarreta novas necessidades, que o homem procurará satisfazer transformando o modelo existente. Podemos então conceber as diferentes culturas como essencialmente dinâmicas, desenvolvendo mecanismos de conservação e mudança num permanente ajuste.

Essa ideia da relação existente entre as culturas humanas e as condições de vida de cada agrupamento humano nos mostra que as diferenças entre as culturas não são de qualidade nem de nível: devem-se às circunstâncias que as cercam. Durante muito tempo se pensou que culturas de

sociedades iletradas ou ágrafas eram menos complexas ou menos elaboradas do que as de sociedades em que se havia desenvolvido a escrita. Hoje se sabe que os conhecimentos passados pela tradição oral, por meio de contadores de histórias são de Todas as culturas apresentam padrões igualmente abstratos e significativos.

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veiculados pela escrita. Se certas sociedades não criaram o alfabeto e a linguagem gráfica, é porque o modo de vida de tais indivíduos não lhes despertou tal necessidade, não porque sua capacidade mental fosse "inferior". A capacidade simbólica e os padrões de todas as culturas humanas são igualmente abstratos, significativos e dão respostas úteis aos problemas de compreensão do mundo.

A ciência como ramo do conhecimento

Durante séculos, o homem pensou sobre si mesmo e sobre o mundo, adquiriu conhecimentos, estabeleceu interpretações ajustadas à vida cotidiana. Entretanto, o tipo de problema que o levava a isso mudou sensivelmente conforme as culturas e o passar dos séculos. Vejamos como isso se deu na história da civilização ocidental.

Sabe-se hoje que os egípcios tinham grandes conhecimentos de geometria — palavra de origem grega que quer dizer "medição da Terra". Tais acontecimentos foram elaborados a partir da necessidade social de prever o transbordamento do Rio Nilo e restabelecer fronteiras territoriais que essas inundações extinguiam. Com uma corda dividida em treze partes por t de nós e dois homens que a manuseavam, conseguiram criar as mais itens formas geométricas, capazes de resolver seus problemas de me-• territorial. O conhecimento adquirido com o auxílio dessa técnica foi do, depois, com grande êxito, às construções arquitetônicas, tornam-se mais tarde a base do pensamento geométrico pitagórico. Entretanto, l os egípcios, esse saber não estava dissociado de outras questões fundamentais de sua cultura, como a vida após a morte, os deuses e a hierarquia entre os homens.

Foram os gregos que conceberam a ideia do saber como um fim em si mesmo, como atividade destinada a descobertas desligadas de uma finalidade prática imediata ou à solução de questões metafísicas. Menos preocupados com a religião e a vida após a morte, os gregos foram os precursores da ração de uma forma de pensar à qual se deu o nome de ciência, uma .atividade com objetivos próprios. '

O milagre grego — o espírito especulativo

Enquanto os povos antigos só se interessavam pelo mundo em que viviam como uma janela para entender todo o universo, os gregos criaram as diversas disciplinas e a filosofia. As disciplinas, ou conhecimentos específicas como a geometria, a aritmética, a astronomia, foram um passo decisivo i busca da compreensão dos princípios que movem o mundo e as coisas. Já ; tratava de uma ruptura profunda com o mundo mítico, onde as explica-r-5es ocorriam pela intervenção dos deuses ou das forças sobrenaturais. As disciplinas, por meio da sistematização e da organização do estudo de um objeto, procuram desvendar, pela razão, a causa primeira da sua formação, longe da ação dos deuses. Os egípcios elaboraram princípios de biologia e

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química porque acreditavam na ressurreição e queriam conservar os cadáveres: os gregos afirmaram que tais conhecimentos não eram domínio da religião, mas da medicina. Assim, se dedicaram à habilidade de desenvolver o conhecimento como uma atividade abstrata, desligada de sua aplicabilidade imediata ou de uma finalidade religiosa. Deram às ideias sobre o que se deve ou não se deve fazer o nome de ética, ramo da filosofia que estabelece os critérios de virtude, os valores de bem e mal do comportamento humano, fundamentando os padrões morais da sociedade. Se os povos antigos justificavam sua maneira de agir em função do que os deuses queriam, para os gregos isso fazia parte e era resultado da intenção pura e simples de pensar sobre os fatos. Isso não significa que a geometria ou a medicina grega fosse mais desenvolvida do que a egípcia, mas que, a partir de então, o homem desvinculara sua curiosidade pelo mundo das preocupações meramente práticas e passara a tratá-la como uma "atividade do espírito", importante em si mesma e, para muitos, a mais elevada dentre todas.

A filosofia, o "amor pelo conhecimento" surgia como a sistematização das informações adquiridas pelas diversas disciplinas organizadas de modo a explicar o mundo e a sua relação com o homem. Assim, surgia uma nova maneira de pensar "o porquê" e o "para que" das coisas. Surgiu um saber mais desligado das atividades religiosas, ao qual se dedicavam homens não necessariamente responsáveis pêlos cultos religiosos. Surgiram os sábios, homens cuja atividade era desvendar os segredos do mundo e do universo.

Deu-se o nome de milagre grego a este salto do conhecimento humano sobre si e a natureza, em que se abandonou a explicação mítica e o princípio da interferência das forças sobrenaturais nos destinos do homem, para dirigir-se à obtenção do saber por meio da abstração dirigida pela razão. A ideia de milagre vem da força da revolução que a filosofia grega causou sobre o homem da época e das gerações posteriores. O impacto foi tão profundo que acabou encobrindo o longo processo de construção desse novo saber.

A expansão comercial e colonizadora do período arcaico pôs o homem grego em contato com outras culturas; o estabelecimento da escravidão como base da produção das riquezas e da sobrevivência acabou liberando a abastada classe comerciante da necessidade de ter de trabalhar, dando-lhe muito tempo ocioso; o surgimento da moeda organizou a economia; a criação da escrita e das leis ordenou os direitos da comunidade e do cidadão; a consolidação da polis (cidade) rompeu o estrito círculo familiar e a rígida e hierárquica estrutura da sociedade agrícola, provocando o conflito de interesses; todos esses foram fatores decisivos para o desenvolvimento do povo grego.

Em todos esses momentos de transformação social e econômica, o pensamento racional era cada vez mais exigido para anteceder a ação. A consciência individual crescia à medida que o homem grego constatava que o destino é uma construção humana e não obra dos deuses e dos rituais míticos. Crescia nele a percepção de que era um indivíduo dotado de razão e capaz de realizar ações próprias. Este conhecimento de si e do outro rompe a anterior estrutura mítica da sociedade agrícola em que vivia, onde o

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homem se condicionava a agir e pensar conforme os ensinamentos que se acreditava terem sido transmitidos pêlos deuses aos ancestrais e que permaneceram inalterados por séculos, enquanto as sociedades se reproduziam sem alteração. Esse destino predeterminado era imposto pela própria sociedade que, por meio dos rituais, condicionava o indivíduo a seguir as normas existentes e a garantir, assim, sua sobrevivência. A consciência era uma consciência coletiva, única; desobedecer-lhe seria falta gravíssima, que implicaria a punição não apenas de quem rompeu as regras, mas de toda a comunidade, uma vez que não se concebia o indivíduo fora da coletividade. O fim desse processo é o abandono da estrutura mítica para a explicação do mundo e a procura de explicações científicas e filosóficas para os fenômenos humanos, antes considerados propriedade exclusiva de forças transcendentais. -

A razão a serviço do indivíduo e da sociedade

Enquanto a sociedade comercial e manufatureira desenvolvida pêlos gregos perdurou através do Império Romano, a razão esteve a serviço do homem e da sociedade. Porém, após a queda do Império, quando a Europa retorna à estrutura de uma sociedade agrária e teocrática, que submete a razão e a filosofia à teologia, a razão deixa de ser a melhor forma de explicação do mundo. Durante a Idade Média, período de grande poder da Igreja Católica, a razão passou a ser considerada um instrumento auxiliar da fé. A Igreja Católica usava a razão (inicialmente pêlos ensinamentos de Platão, depois com os ensinamentos de Aristóteles) como forma de manter seu poder e divulgar a fé. A fé ou a crença, como nas sociedades agrícolas míticas, passaram novamente a condicionar o comportamento humano e a sociedade, e a explicá-los. Apenas as ordens religiosas, isoladas nos mosteiros, tinham acesso a textos de filosofia, geometria e astronomia. A população laica deixou de participar desse saber.

No Renascimento, entretanto, o homem volta aos textos antigos e redescobre o prazer de investigar o mundo, descobrir as leis de sua organização como atividade com valor em si mesma, independente de suas implicações religiosas e metafísicas. Nos últimos quatrocentos anos, e em particular a partir do século XVII, vimos assistindo ao crescente progresso desse conhecimento — a ciência — destinado à descoberta das relações entre as coisas, das leis que regem o mundo natural, organizando as ideias e interpretações do ponto de vista lógico-científico. Aprimoraram-se as técnicas e os utensílios de medição, e a imprensa e os demais meios de comunicação levaram a

Transmissão cada vez maior de informações e de saber. No seio desse movimento de ideias, surgiu no século XIX uma ciência nova — a sociologia, a ciência da sociedade. O surgimento da sociologia significou o aparecimento da preocupação do homem com o seu mundo e a sua vida em grupo, numa nova perspectiva, livre das tradições morais e religiosas.

Desencadeou-se então a preocupação com as regras que organizavam a vida social. Regras que pudessem ser observadas, medidas e comprovadas.

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Com a sociologia, as questões relativas à vida social deixaram de ser tratadas como tema religioso ou de senso comum. das, capazes de dar ao homem explicações plausíveis, num mundo onde passou a imperar o racionalismo, isto é, a crença no poder da razão humana de alcançar a verdade. Regras, enfim, que tornassem possível prever e controlar os fenômenos sociais.

Portanto, o aparecimento da sociologia significou que as questões concernentes às relações entre os homens deixaram de ser apenas matéria religiosa e do senso comum: passaram a interessar também aos cientistas. A constituição desse campo do conhecimento significou, antes de mais nada, que as relações entre os homens mereciam ser conhecidas e formuladas por uma nova forma de linguagem e discurso — o científico —, o qual, na sociedade moderna, adquiriu o estatuto de "verdade".

A partir de então o homem começou a elaborar métodos e instrumentos de análise capazes de explicar e interpretar sua experiência social de maneira científica. Isso equivaleu a criar, como nas demais ciências, métodos de averiguação e medição e a fazer formulações sobre a sociedade que pudessem ser comprovadas empiricamente — isto é, pela observação e experimentação —, de modo a tomar a ação social humana explicável em termos de regularidades e previsões.

• O pensamento relativo às ligações do homem com seus semelhantes passava assim a outra esfera de abstração, a outra maneira de formular problemas, ligada à necessidade de descobrir leis de interpretação e previsão dos acontecimentos.

Com o desenvolvimento da sociologia, multiplicaram-se os métodos e técnicas de investigação da vida social.

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A sociologia: um conhecimento de todos

Desde o século XEX, quando a sociologia foi criada ou reconhecida como campo de conhecimento explorável pelo procedimento científico, até a atualidade, inúmeros estudos se desenvolveram. Como nas demais ciências, estabeleceu-se uma comunicação permanente entre pesquisadores, permitindo um acúmulo de princípios e informações de modo a submeter as teorias a comprovação, questionamento, revisão.

Criou-se também um jargão científico, isto é, um vocabulário próprio com conceitos que designam aspectos precisos da vida social. De tal forma se alastraram os resultados das pesquisas sociológicas que, hoje, boa parte desse vocabulário faz parte da vida cotidiana. Palavras e expressões como contexto social, movimentos sociais, classes, estratos, camadas, conflito social, são usadas no dia-a-dia das pessoas e profusamente veiculadas pêlos meios de comunicação de massa.

Nos discursos políticos, referências às "classes dominantes", às "pressões sociais" emergem como se fossem de domínio público, como se todos, políticos e eleitores soubessem exatamente o que elas designam.

As pesquisas de opinião de qualquer tipo veiculam os resultados de procedimentos metodológicos amplamente usados nas pesquisas científicas, e os leitores percebem de maneira mais ou menos geral seu significado. Quando se diz que um governante conta com o apoio de 60% da população de uma cidade, por exemplo, as pessoas entendem que um grupo de pesquisadores empreendeu uma pesquisa que arguiu um número delimitado de cidadãos a respeito da gestão desse governante e que esses cidadãos expressaram sua opinião. Compreendem que, de cada 100 pessoas arguidas, 60 manifestaram-

-e favoráveis às medidas tomadas pelo governante.

E, quando se diz, após algum tempo, que a popularidade desse governante cresceu 10%, sabemos que nova pesquisa foi feita nos mesmos mol-:es da anterior e, de cada 100 cidadãos, agora são 70 que se mostraram favoráveis à atuação governamental.

Esse simples raciocínio, utilizado não só nas pesquisas de caráter político mas em quaisquer outras que pretendem verificar a adesão das pessoas

-. certas ideias — ou a frequência a espetáculos, ou o número de espectadores i e um programa de televisão —, decorre da aceitação generalizada dos conhecimentos básicos da sociologia.

Isso ocorre porque foi possível constatar e verificar uma regularidade nos fatos sociais. Essa regularidade responde às leis da vida social e essas Vis científicas são passíveis de serem observadas e apreendidas. Disso resultado

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