cristina costa

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3. Ao cientista cabe, segundo Weber, estabelecer conexões entre a motivação dos indivíduos e os efeitos de sua ação no meio social. Procedendo assim, Weber analisa os valores do catolicismo e do protestantismo, mostrando que os últimos revelam a tendência ao racionalismo econômico que predominará no capitalismo.

4. Para constituir o tipo ideal de capitalismo ocidental moderno, Weber estuda as diversas características das atividades econômicas em diversas épocas e lugares, antes e após o surgimento das atividades mercantis e da indústria. E, conforme seus preceitos, constrói um tipo gradualmente estruturado a partir de suas manifestações particulares tomadas à realidade histórica. Assim, diz ser o capitalismo, na sua forma típica, uma organização econômica racional assentada no trabalho livre e orientada para um mercado real, não para a mera especulação ou rapinagem. O capitalismo promove a separação entre empresa e residência, a utilização técnica de conhecimentos científicos e o surgimento do direito e da administração racionalizados.

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Análise histórica e método compreensivo

Weber teve uma contribuição importantíssima para o desenvolvimento da sociologia. Em meio a uma tradição filosófica peculiar, a alemã, e vivendo os problemas de seu país, diversos dos da França e da Inglaterra na mesma época, pôde trazer uma nova visão, não influenciada pêlos ideais políticos nem pelo racionalismo positivista de origem anglo-francesa.

Sua contribuição para a sociologia tornou-o referência obrigatória. Mostrou, em seus estudos, a fecundidade da análise histórica e da compreensão qualitativa dos processos históricos e sociais.

Embora polêmicos, seus trabalhos abriram as portas para as particularidades históricas das sociedades e para a descoberta do papel da subjetividade na ação e na pesquisa social. Weber desenvolveu suas análises de forma mais independente das ciências exatas e naturais. Foi capaz de compreender a especificidade das ciências humanas como aquelas que estudam o homem como um ser diferente dos demais e, portanto, sujeito a leis de ação e comportamento próprios.

Outros sociólogos alemães puseram em prática o método compreensivo de Weber, como Sombart, também um estudioso do capitalismo ocidental. Weber desenvolveu também trabalhos na área de história econômica buscando as leis de desenvolvimento das sociedades. Estudou ainda, com base em fontes históricas, as relações entre o meio urbano e o agrário e o acúmulo de capital auferido pelas cidades por meio dessas relações.

Atividades

Os trechos de autoria de Weber, selecionados para estes exercícios, foram tirados de A ética protestante e o espírito do capitalismo.

1 . Nas seguintes afirmações de Weber percebemos de que modo a motivação para a ação é algo sentido pelo sujeito sob a forma de valores e modelos de conduta. Analise-as segundo essa perspectiva.

a) "A oportunidade de ganhar mais era menos atrativa do que a de trabalhar menos. Ele não perguntava: quanto posso ganhar por dia se trabalhar tanto quanto possível, mas: quanto devo trabalhar a fim de ganhar o salário que ganhava anteriormente e que era suficiente para minhas necessidades." (p. 38)

b) "Na verdade, esta ideia peculiar do dever profissional, tão familiar a nós hoje, mas, na realidade, tão pouco evidente, é a maior característica da 'ética social' da cultura capitalista e, em certo sentido, sua base fundamental." (p. 33) •

2. "Parece bastante evidente que qualquer um que seja obrigado a basear-se em traduções e, ainda mais, no uso e avaliação de fontes monumentais, documentárias ou literárias, tem de valer-se de t uma literatura especializada muitas vezes altamente controvertida (...) Deduz-se de tudo isso o

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caráter perfeitamente provisório desses trabalhadores, principalmente as partes referentes à Ásia. Somente o especialista está habilitado a um julgamento definitivo." (p. 13)

Sabendo que Weber pressupõe certa parcialidade do cientista em relação ao objeto de estudo, isto é, um interesse próprio em nível de motivação, por que razões ele considera parte de suas conclusões como provisórias? E, ainda, do que é capaz o cientista quando tem em mãos técnicas eficazes de análise? :

  1. "Tudo é feito em termos de balanço: a previsão inicial no começo da empresa, ou antes de qualquer decisão individual; o balanço final para verificação do lucro obtido. Por exemplo, a previsão inicial de uma transação por comenda (primeiras empresas de compra e venda surgidas na Idade Média) pode ser a constatação do valor monetário dos bens transacionados — enquanto esses não assumirem forma monetária — e o seu balanço final pode equivaler a uma distribuição do lucro ou das perdas ao término da operação. Na medida em que as operações são racionais, toda ação individual das partes é baseada em cálculo." (p. 5)

Como Max Weber explica, nessa passagem, o espírito do capitalismo?

4. Ao definir a ação capitalista como "aquela que se baseia na expectativa de lucro através da utilização das oportunidades de troca, isto é, nas possibilidades pacíficas de lucro" (p. 4), como Weber aplica seu conceito de ação social?

  1. Weber afirma que o trabalho do cientista parte justamente de seu interesse pelo objeto de estudo e de sua visão particular sobre o assunto, opondo-se assim à objetividade e à neutralidade pregadas pêlos positivistas franceses. Como essa ideia aparece no trecho a seguir?

"Devemos desenvolver no curso da discussão, como seu resultado mais importante, a melhor formulação conceituai do que entendemos aqui por espírito do capitalismo, isto é, a melhor do ponto de vista que nos interessa. Este ponto de vista, ; ademais, não é, de modo algum, o único possível a partir do qual o fenômeno histórico que estamos investigando possa ser analisado." (p. 28)

  1. Qual é a diferença, para Weber, entre ação e relação social?

  2. Qual a importância da história para Weber• '

8. Weber afirma que a ação social é uma ação com sentido, que orienta o comportamento de quem age. Observe a sua classe e procure descobrir o sentido da ação de algum colega nesse momento. " "?

9. Como Weber concebe a objetividade científica? . 10. Vamos aplicar a metodologia de Weber na construção do tipo ideal. Procure diversos relatos — em livros, revistas ou jornais — sobre o mesmo acontecimento e procure definir com base nos elementos comuns dessas fontes.

11 O que é método compreensivo?

12. O que os dados estatísticos revelaram a Weber sobre a relação entre protestantismo e capitalismo?

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13. De que maneira o protestantismo gera condutas adequadas ao capitalismo?

14. Que diferenças Weber estabelece entre as atitudes e as visões de mundo de católicos e protestantes

Aplicação de conceitos

  1. Leia a notícia a seguir:

Jovem, solteiro e ansioso para ver Alá

O terrorista suicida islâmico se tornou a mais temida figura da sociedade israelense. Sua habilidade em disfarces é tanta que os 1,2 mil soldados convocados para guarnecer os pontos de ônibus de Jerusalém receberam ordens de ficar especialmente atentos quando virem alguém trajando uniforme do próprio Exército.

Acredita-se que os autores dos dois primeiros atentados a bomba, que iniciaram o mais recente ciclo de carnificina de civis no dia 25, estavam disfarçados de soldados. Um até usava brinco, muito em voga entre alguns jovens judeus.

Segundo um perfil elaborado por israelenses especialistas em segurança, os terroristas suicidas são na maioria solteiros, com idade entre 18 e 24 anos e de família pobre. Tendem a ser fanáticos no comportamento e nas crenças. Suas motivações incluem o desejo de se igualar ao êxito de outros atacantes ou de vingar ataques sofridos por suas famílias.

Clérigos do grupo Hamas desempenham importante papel em seu treinamento, repisando a promessa contida no Alcorão de que os mártires terão um Paraíso especial, no qual cada combatente tombado recebe 72 noivas virgens. Também dizem aos suicidas que vagas no Paraíso serão reservadas às suas famílias —

que, na Terra, recebem a assistência de entidades beneficentes ligadas ao Hamas e à Jihad Islâmica.

Depois que um terrorista suicida de Gaza voou pêlos ares, os parentes encontraram freqüentes referências ao Paraíso em seus cadernos. Ele escreveu muito sobre seu desejo de morrer, de "conhecer Deus como mártir e viver uma vida muito melhor do que esta".

Segundo oficiais israelenses, a carga explosiva de alta potência é geralmente amarrada ao corpo e detonada por um dispositivo de tempo eletrônico. Os terroristas são levados com freqüência para inspecionar os alvos de seus ataques. Homens solteiros são escolhidos para reduzir o risco de um suicida revelar um ataque ao dizer adeus à sua mulher.

Os autores dos atentados estudam muitas vezes em escolas mantidas por instituições de caridade e dirigidas pelo Hamas. No geral, antes de cada missão celebra-se uma sessão final na mesquita, onde o atacante é fortalecido pêlos clérigos para sua missão. No Líbano, alguns também receberam drogas.

Terroristas do grupo islâmico Hamas antes de partir para uma missão suicida.

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A chocante propensão dos jovens islâmicos ao sacrifício foi revelada segunda-feira em Al-fawwar, um campo de refugiados perto de Hebron, terra natal dos dois atacantes responsáveis pelas bombas em Jerusalém e Ashkelon. Os israelenses descobriram que, dos 5 mil moradores, 40 haviam se apresentado como voluntários para ser terroristas suicidas.

Christopher Walker, in O Estado de S.Paulo.

Aplicando à análise da notícia o que aprendemos sobre a sociologia weberiana, responda:

a) Qual é a ação social a que a notícia faz referência?

b) Que valores induzem a ação do terrorista islâmico

c) Que motivo leva o terrorista islâmico a agir?

d) Destaque os aspectos econômicos, políticos e psicológicos desse fenômeno.

2, Vídeo: Os anos incríveis. Esse filme relata a vida de uma família norte-americana nos anos 60, narrando a experiência pessoal de seu protagonista.

Procure distinguir na fala do narrador os valores sociais e os motivos da ação social do personagem. O mesmo pode ser feito com a série de televisão Confissões de adolescente.

Tema para debate

Examinemos o esquema ideal que nos transmitem os escritos agrários de , Roma. Encontramos o alojamento do "instrumento falante", vale dizer, o estábulo , de escravos, na mesma casa que o gado (instrumento semifalante). Ele é constituído pelo dormitório, uma enfermaria ou lazareto, uma prevenção (cárcere), uma oficina para os trabalhadores e de pronto se compõe ante nossos olhos uma visão muito familiar a todos os que vestiram uniforme: o quartel. E, com efeito, a vida do escravo é, normalmente, uma vida de quartel. Dorme e come em comum sob a vigilância do villicus: a indumentária de tipo melhor é entregue a um “guarda roupa” cuidado pela mulher do inspetor (villica) que atua como suboficial de câmera e mensalmente se faz uma revista do vestuário. O trabalho é rigorosamente disciplinado, à moda militar: as seções, sob o mando de um cabo, são formadas de manhã bem cedo, e partem sob a inspeção de capatazes. Isto era imprescindível. Produzir para o mercado por meio do trabalho servil não teria sido possível por muito tempo sem o emprego do látego.

Max Weber, As causas sociais do declínio da cultura antiga,

in Gabriel Cohn, org., Max Weber, sociologia, p. 45.

Com base na definição weberiana de tipo ideal, responda:

T. Sendo um tipo ideal, esse esquema corresponde à realidade observada? Justifique. 2. Qual a utilidade para o cientista da formulação desse esquema de sociedade escravagista?

Compare o esquema de escravidão na sociedade romana proposto por Weber com dados relativos à escravidão no Brasil colonial. Que semelhanças e diferenças podem-se encontrar entre ambos?

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Leituras Complementares

[Motivo e sentido da ação social]

[No raciocínio de Weber], o conceito de "motivo" (...) permite estabelecer uma ponte entre sentido e compreensão. Do ponto de vista do agente, o motivo é o fundamento da ação; para o sociólogo, cuja tarefa é compreender essa ação, a reconstrução do motivo é fundamental, porque, da sua perspectiva, ele figura como a causa da ação. Numerosas distinções podem ser estabelecidas aqui, e Weber realmente o faz. No entanto, apenas interessa assinalar que, quando se fala de sentido na sua acepção mais importante para a análise, não se está cogitando da gênese da ação mas sim daquilo para o que ela aponta, para o objetivo visado nela; para o seu fim, em suma.

Isso sugere que o sentido tem muito a ver com o modo como se encadeia o processo de ação, tomando-se a ação efetiva dotada de sentido como um meio para alcançar um fim, justamente aquele subjetivamente visado pelo agente. Convém salientar que a ação social não é um ato isolado mas um processo, no qual se (percorre uma seqüência definida de elos significativos (admitindo-se que não haja interferência alguma de elementos não pertinentes à ação em tela, o que jamais ocorre na experiência empírica e só é pensável em termos típico-ideais). Basta pensar em qualquer ação social (por exemplo, despachar uma carta) para visualizar Isso. Os elementos desse processo articulam-se naquilo que Weber chama de “cadeia motivacional": cada ato parcial realizado no processo opera como fundamento do ato seguinte, até completar-se a seqüência.

Gabriel Cohn, org., Max Weber, sociologia, p. 27.

2 A ciência como vocação

O progresso científico é um fragmento, o mais importante indubitavelmente, do processo de intelectualizarão a que estamos submetidos desde milênios e relativamente ao qual algumas pessoas adotam, em nossos dias, posição estranha-3 negativa. Tentemos, de início, perceber claramente o que significa, na prática, essa racionalização intelectualiza que devemos à ciência e à técnica científica. Significará, por acaso, que todos os que estão reunidos nesta sala possuem, a respeito das respectivas condições de vida, conhecimento de nível superior ao que um hindu ou um hotentote poderiam alcançar acerca de suas próprias condições de vida? É pouco provável. Aquele, dentre nós, que entra num trem não tem noção alguma do mecanismo que permite ao veículo pôr-se em marcha — exceto se for um físico de profissão. Aliás, não temos necessidade de conhecer aquele mecanismo. Basta-nos poder "contar" com o trem e orientar, conseqüentemente, nosso comportamento; mas não sabemos como se constrói aquela máquina que tem condições de deslizar. O selvagem, ao contrário, conhece, de maneira incomparavelmente melhor, os instrumentos de que se utiliza. Eu seria capaz de garantir que todos ou quase todos os meus colegas economistas, acaso presentes nesta sala, dariam respostas diferentes à pergunta: como explicar que, utilizando a mesma

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soma de dinheiro, ora se possa adquirir grande soma de coisas e ora uma quantidade mínima? O selvagem, contudo, sabe perfeitamente como agir para obter alimento quotidiano e conhece os meios capazes de favorecê-lo em seu propósito A intelectualização e a racionalização crescentes não equivalem, portanto, a um conhecimento geral crescente acerca das condições em que vivemos. Significam antes, que sabemos ou acreditamos que, a qualquer instante, poderíamos, bastando que o quiséssemos, provar que não existe, em princípio, nenhum poder misterioso e imprevisível que interfira com o curso de nossa vida; em uma palavra que podemos dominar tudo, por meio da previsão. Equivale isso a despojar i magia o mundo. Para nós não mais se trata, como para o selvagem que acredita na existência daqueles poderes, de apelar a meios mágicos para dominar os espíritos ou exorcizá-los, mas de recorrer à técnica e à previsão. Tal é a significação essencial da intelectualização.

Max Weber, Ciência e política; duas vocações, p. 30-3

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