UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ

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CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE

DEPARTAMENTO DE BIOQUÍMICA E FARMACOLOGIA

DISCIPLINA: FARMACODINÂMICA

CURSO: FARMÁCIA

PROFESSOR: MARIA DO SOCORRO CORDEIRO FERREIRA

EFEITOS DE ANESTÉSICOS LOCAIS EM Leptodactylus ocellatus

E Oryctolagus cuniculus

Anna Layse Barros da Silva Oliveira

Teresina - PI

ABRIL/2011

INTRODUÇÃO

“A anestesia local ou regional pode ser definida pela perda da sensibilidade em uma área circunscrita do corpo, devida à depressão da excitabilidade das terminações nervosas ou à inibição do processo de condução nos tecidos nervosos, sem perda da consciência. Este estado localizado de anestesia pode ser produzido por vários meios: trauma mecânico, baixa temperatura, anoxia e uma variedade de irritantes químicos. Geralmente, apenas as substâncias que levam a um estado de insensibilidade transitória e completamente reversível são utilizadas na prática clínica. (...) Os anestésicos locais são medicamentos que bloqueiam a condução nervosa quando aplicados localmente, em tecido nervoso, na concentração apropriada. Podem causar tanto paralisia motora quanto sensitiva da área inervada e apresentam ação totalmente reversível, isto é, há recuperação completa da função nervosa após o emprego, sem que se evidencie qualquer dano estrutural às células ou às fibras nervosas” (PIRES, 1999). Segundo KATZUNG, 2005, anestésicos locais são substâncias que bloqueiam reversivelmente a condução de impulsos ao longo dos axônios dos nervos e de outras membranas excitáveis que utilizam os canais de sódio como principal meio de geração dos potenciais de ação. Os impulsos nas fibras nervosas deixam de ser conduzidos pelo nervo por ação do anestésico local desaparecendo as sensibilidades térmica, tátil, dolorosa e a atividade motora da área onde se encontra o nervo bloqueado. Dos efeitos resultantes da ação dessas drogas o que mais interessa é o bloqueio da sensação da dor proveniente de áreas específicas do corpo ou impulsos vasocontritores dirigidos para essas áreas, sendo útil clinicamente. “O bloqueio da condução nervosa decorrente da deposição destes agentes nos compartimentos tissulares onde se encontram os nervos-alvo constitui a ação farmacodinâmica mais importante e que os difere dos anestésicos gerais.” (SILVA, 2006)

O objetivo do experimento foi a demonstração da ação anestésica local da lidocaína 2% sobre as terminações nervosas através da pesquisa da sensibilidade cutânea (Turck) em Leptodactylus ocellatus, do bloqueio da condução nervosa motora na preparação neuro-muscular (Claude Bernard) na mesma espécie, e da pesquisa do reflexo córneo-conjuntival (Renier) em Oryctolagus cuniculus.

MATERIAL E MÉTODO

Para a pesquisa de sensibilidade cutânea (TURCK), os centros superiores da cobaia (Leptodactylus ocellatus), exceto a medula, foram destruídos, e em seguida o animal foi pendurado no gancho de suporte. Mergulhou-se uma das patas na solução de ácido acético diluído e observou-se a reação do animal à excitação. A seguir, lavou-se a referida pata em soro fisiológico. Posteriormente, a outra pata foi mergulhada em uma solução de lidocaína 2%, durante 10 minutos. Depois disso, voltou-se a mergulhar a referida pata na solução de ácido acético diluído. Observou-se a resposta do animal.

Para o bloqueio da condução nervosa motora na preparação neuro-muscular (CLAUDE BERNAD), isolou-se um preparado neuro-muscular (músculo gastrocnêmico e nervo ciático da cobaia (Leptodactylus ocellatus), tratado sempre com solução de Ringer. Estimulou-se (estímulo elétrico) o nervo isoladamente, e a resposta (contração do gastrocnêmico) foi observada e registrada com o auxílio de um miógrafo e um quimógrafo. Logo após, o nervo ciático foi envolvido com um algodão umedecido com solução de lidocaína 2%. Estimulou-se o nervo novamente. Observou-se e registrou-se novamente a resposta do animal.

Para a pesquisa do reflexo córneo-conjuntival (RENIER), inicialmente testou-se o reflexo palpebral, com o auxilio de um cumaço de algodão; em seguida, segurou-se a pálpebra inferior do coelho (Orictolagus cuniculus) e instilou-se 0,5 mL da solução de lidocaína 2% no saco conjuntival, mantendo-se a pálpebra aberta por 1 minuto. O reflexo palpebral foi testado novamente.

RESULTADOS

TABELA 1.0: REGISTRO DA RESPOSTA DE Leptodactius ocetallus À ESTIMULAÇÃO QUÍMICA DA PATA COM ÁCIDO ACÉTICO A 10% ANTES E DEPOIS DA APLICAÇÃO TÓPICA DE LIDOCAÍNA A 2% DURANTE 10 MINUTOS. TERESINA, 2011.

MConector de seta reta 4OMENTO RESPOSTA AO ESTÍMULO

ANTES +

DEPOIS -

LEGENDA: (+) Presente; (-) Ausente.

FONTE: LABORATÓRIO DE BIOQUÍMICA E FARMACOLOGIA DA UFPI. ALUNOS DE FARMÁCIA, 2011.1.

TABELA 2.0: REGISTRO DO REFLEXO PALPEBRAL EM ORICTOLAGUS CUNICULUS AO TOQUE NA SUPERFÍCIE DO OLHO COM UM CHUMAÇO DE ALGODÃO ANTES E 1 MINUTO APÓS A INSTILAÇÃO DE 0,5 ML DE LIDOCAÍNA 2% NO SACO CONJUNTIVAL. TERESINA, 2011.

Conector de seta reta 3 MOMENTO RESPOSTA AO ESTÍMULO

ANTES +

DEPOIS -

LEGENDA: (+) Presente; (-) Ausente.

FONTE: LABORATÓRIO DE BIOQUÍMICA E FARMACOLOGIA DA UFPI. ALUNOS DE FARMÁCIA, 2011.1.

GRÁFICO 1.0: REGISTRO CONTROLE DAS CONTRAÇÕES DO MÚSCULO GASTROCNÊMICO DE Leptodactius ocetallus APÓS ESTIMULAÇÃO ELÉTRICA DO NERVO CIÁTICO. TERESINA, 2011.

Força da contração

Tempo

FONTE: LABORATÓRIO DE BIOQUÍMICA E FARMACOLOGIA DA UFPI. ALUNOS DE FARMÁCIA, 2011.1.

GRÁFICO 2.0: REGISTRO DA RESPOSTA DE Leptodactius ocetallus À ESTIMULAÇÃO ELÉTRICA DO NERVO CIÁTICO ENVOLVIDO POR 2%. TERESINA, 2011.

Força da contração

Tempo

FONTE: LABORATÓRIO DE BIOQUÍMICA E FARMACOLOGIA DA UFPI. ALUNOS DE FARMÁCIA, 2011.1.

DISCUSSÃO

“A lidocaína é um anestésico local de ação intensa, duradoura e imediata, é uma amina etilamida, sendo, portanto um agente de escolha em indivíduos sensíveis aos anestésicos locais do tipo éster. Tem ação eficaz mesmo quando utilizada sem um vasoconstrictor, apesar de que na presença de adrenalina, por exemplo, tem-se velocidade de absorção e toxicidade diminuídas e a duração de ação prolongada.” (SILVA, 1994)

''A anestesia local é a perda da sensibilidade numa região localizada do organismo sem perda da consciência ou debilitação do controle central das funções vitais, tendo duas grandes vantagens. Em primeiro lugar, com a anestesia local é possível evitar as perturbações fisiológicas associadas à anestesia geral; a segunda vantagem é a capacidade de se modificarem de forma benéfica as respostas neurofisiológicas à dor e ao estresse''. (BRUNTON, 2006).

“Os anestésicos locais atuam na membrana celular e impedem a geração e condução dos impulsos nervosos. Eles bloqueiam a condução reduzindo ou impedindo o grande aumento transitório da permeabilidade das membranas excitáveis ao Na+, que normalmente é produzido pela despolarização suave da membrana (...). Essa ação é decorrente de sua interação direta com os canais de Na+ regulados por voltagem. À medida que a ação anestésica desenvolve-se progressivamente no nervo, o limiar de excitabilidade elétrica aumenta gradativamente, a velocidade de elevação do potencial de ação declina, a condução dos impulsos fica mais lenta e o fator de segurança da condução diminui. Essas alterações reduzem as chances de propagação do potencial de ação e, por fim, a condução nervosa é impedida (...) o mecanismo de ação principal desses fármacos depende da sua interação com um ou mais locais de ligação específicos existentes dentro do canal de Na+. O poro transmembrana seletivo ao Na+ desse canal possivelmente está localizado no centro de uma estrutura quase simétrica formada por quatro domínios homólogos” (BRUNTON, 2006)

De acordo com KATZUNG (2005) o poro transmembrana do canal citado anteriormente parece estar circundado por hélices transmembranas e por alças curtas que as unem, nas quais estão presentes moléculas de aminoácidos que são importantes para a ligação dos anestésicos locais.

“Em geral, os anestésicos locais são administrados por injeção na área das fibras nervosas a serem bloqueadas. Por conseguinte, a absorção e a distribuição não são tão importantes no controle do início do efeito quanto na determinação da taxa de término da anestesia local e na probabilidade de toxicidade cardíaca e do sistema nervoso central. Entretanto, a aplicação tópica de anestésicos locais exige difusão da droga tanto para o início quanto para o término do efeito anestésico. Se ocorrer absorção sistêmica, em geral, eles se distribuem para órgãos mais perfundidos (cérebro, fígado, rins, coração) e depois para os menos perfundidos (músculos e trato gastrointestinal).” (KATZUNG, 2005).

De acordo com SILVA, 1994, a lidocaína é um anestésico local e, portanto, interage com os canais de sódio voltagem dependentes bloqueando a condução nervosa. Ainda segundo SILVA, 1994, a anestesia tópica é aquela que se obtém colocando-se o anestésico local em contato com as superfícies expostas que se quer bloquear. Como se pode observar na TABELA 1.0, o reflexo do Leptodactius ocetallus perante a agressão do ácido acético 10% que era presente antes da aplicação tópica de lidocaína, tornou-se ausente com a aplicação desta, como foi previsto de acordo com a literatura, devido ao seu poder de analgesia. “Não se obtém anestesia tópica com a mesma facilidade em todas as superfícies corporais; a pele não é sensível à ação tópica dos agentes anestésicos devido à barreira representada pela camada epitelial ou à rápida absorção vascular que se seguiria à difusão do agente através da epiderme.” (BRUNTON, 2006). Porém fica evidente que a pele do animal difere significantemente da pele humana, apresentando um aspecto de maior fragilidade e menor camada epitelial, o que facilita a absorção do anestésico.

O reflexo palpebral pode ser demonstrado tocando-se ligeiramente a córnea com uma mecha de algodão. Segundo BERALDO, 1976, ocorre o fechamento de ambos os olhos por contração da parte palpebral do músculo orbicular dos olhos. O impulso segue pelo nervo trigêmeo, chegando ao núcleo sensitivo principal e núcleo do trato espinhal deste nervo. Fibras cruzadas e não cruzadas originadas de tais núcleos conduzem os impulsos aos núcleos do facial de ambos os lados, de tal modo que a resposta motora se faz através destes, com ação de contração efetivada pela porção palpebral do músculo orbicular do olho. A solução de lidocaína 2% aplicada no saco conjuntival da espécie Oryctolagus cuniculus, permitiu a verificação da ação do anestésico após um minuto do fechamento do olho para aplicação tópica, este não mais respondia à estimulação com chumaço de algodão, antes o animal respondia com o reflexo córneo-conjutival de maneira normal (TABELA 2.0). Isto se deve à ação bloqueadora da lidocaína. Esta age assim como os outros anestésicos locais, segundo BRUNTON, 2006, bloqueando a condução do impulso nervoso reduzindo ou evitando o grande aumento transitório de permeabilidade das membranas excitáveis ao sódio, normalmente produzido por uma discreta despolarização da membrana. Tal mecanismo se dá pela ação direta do anestésico nos canais de Na+ como citado em parágrafos anteriores.

“Os anestésicos locais bloqueiam o início e a propagação de potenciais de ação, impedindo o aumento na condutância de Na+ dependente da voltagem. Parecem agir de duas maneiras principais: agindo de forma inespecífica sobre membranas, em virtude de sua atividade de superfície, de modo semelhante aos anestésicos voláteis; ou entupindo especificamente os canais de Na+” (RANG, 1997).

A ação do anestésico local lidocaína pode também ser evidenciada com a experiência de Claude Bernard realizada no Leptodactius ocetallus. Nessa experiência ao se isolar o nervo ciático e o músculo por ele inervado, gastrocnêmico, aplicando posteriormente uma estimulação elétrica ao referido nervo, o músculo inervado sofreu contração (GRÁFICO 1.0). “O reflexo de retirada, também chamado flexor, ocorre quando os nociceptores cutâneos são estimulados e enviam os impulsos sensoriais por um neurônio aferente, o qual penetra na raiz posterior da medula e faz sinapses com interneurônios, que os levam aos neurônios motores, que saem pela raiz anterior da medula e vão até os músculos que efetuam a retirada do membro.” (GUYTON, 1997). Porém, quando neste nervo foi aplicado o anestésico local lidocaína, a condução neuro-motora foi bloqueada pelo anestésico havendo uma diminuição considerável na contração do músculo (GRÁFICO 2.0). Isso ocorreu segundo BRUNTON, 2006, devido ao fato de os anestésicos locais interferirem na transmissão na junção neuromuscular. A transmissão do impulso na junção neuromuscular desencadeia um potencial de ação na membrana sarcoplasmática provocando a contração do referido músculo. Depois da aplicação de lidocaína sobre o nervo ciático, constatou-se o bloqueio da condução neuromotora devido à ausência da contração do músculo gastrocnêmio em resposta à estimulação elétrica do nervo em questão.

No teste de Claude Bernard, observou-se que antes da aplicação de lidocaína o estímulo elétrico no nervo ciático promovia a liberação de acetilcolina na sinapse neuromuscular e posterior interação deste neurotransmissor com receptores nicotínicos, levando à abertura dos canais de sódio e despolarização celular com geração de potencial de ação. O potencial de ação se propaga, então, por toda a membrana sarcoplasmática induzindo a liberação de cálcio do retículo sarcoplasmático, o que desencadeia a contração do gastrocnêmio de Leptodactylus ocellatus (GUYTON, 1997). (TABELA 1.0 e GRÁFICO 1.0). No entanto, o estímulo elétrico aplicado na porção em que houve o bloqueio nervoso pelo anestésico local (lidocaína) não gera potencial de ação e não promove a contração muscular (TABELA 1.0 e GRÁFICO 2.0).

Segundo Brunton (2006), constata-se neste teste a anestesia por bloqueio de nervo, ou seja, a injeção de uma solução de anestésico local dentro ou ao redor dos nervos periféricos individuais ou plexos de nervos produzindo áreas extensas de anestesia podendo provocar também o relaxamento da musculatura esquelética. Ainda segundo este autor, os anestésicos locais também afetam a transmissão neuromuscular, podendo, por exemplo, bloquear a resposta da musculatura a descargas máximas nervosas motoras e à acetilcolina em concentrações em que o músculo responde normalmente à estimulação elétrica direta. Efeitos semelhantes ocorrem nos gânglios autônomos. Esses efeitos são decorrentes do bloqueio do canal de íon do receptor acetilcolínico. Assim, através do bloqueio da condução nervosa motora e do bloqueio do receptor nicotínico na placa motora, justifica-se o fato de o músculo não responder após a aplicação do anestésico no nervo.

CONCLUSÃO

O experimento realizado com os testes de Turck, Claude Bernard e Renier, permitiu a constatação da forte ação anestésica e bloqueadora da junção neuromuscular do anestésico local lidocaína. Confirmando, portanto a alta capacidade que tal droga possui ao bloquear a geração e condução do impulso nervoso, tanto sensorial quanto motor, tendo grande utilidade nos procedimentos cirúrgicos ao promover anestesia local sem perturbações fisiológicas nem perda da consciência.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERALDO, W. T. Fisiologia. Belo Horizonte: Imprensa da UFMG, 1976.

BRUNTON, L.L. LAZO, J.S. PARKER, K. L. Goodman & Gilman: As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 11 ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill, 2006.

KATZUNG, B. G. Farmacologia Básica & Clínica. 9ªed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.

PIRES, M. T. B. ERAZO – Manual de Urgências em Pronto-Socorro. 6 ed. Rio de Janeiro: MEDSI, 1999.

RANG, H. P., DALE, M. M. & RITTER, J. M. Farmacologia. 3 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1997.

GUYTON, A . C. Tratado de Fisiologia Médica. 9 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1997.

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