PSICOTROPICOSAnna

PSICOTROPICOSAnna

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ

CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE

DEPARTAMENTO DE BIOQUÍMICA E FARMACOLOGIA

DISCIPLINA: FARMACODINÂMICA

CURSO: FARMÁCIA

PROFESSOR: MARIA DO SOCORRO CORDEIRO FERREIRA

EFEITO DOS PSICOTRÓPICOS SOBRE A ATIVIDADE MOTORA DE Mus musculus

Anna Layse Barros da Silva Oliveira

Teresina - PI

MAIO/ 2011

INTRODUÇÃO

“Os psicotrópicos são drogas que pretendem alterar os processos mentais provocando sedação, estimulação ou mudança do estado de humor, do pensamento ou do comportamento.” (GILMAN, 1996). “Estes agentes podem ser divididos em: psicolépticos ou sedativos psíquicos, psicoanalépticos ou estimulantes psíquicos e psicodislépticos ou perturbadores psíquicos, podendo manifestar suas ações no Sistema Nervoso Central (SNC), dentre outras formas, através de modificações na atividade motora.” (ZANINI, 1994). “Fazem parte dos psicolépticos os neurolépticos, os ansiolíticos e os antimaníacos que, em geral, atuam diminuindo a atividade motora do organismo; os psicoanalépticos são representados pelos antidepressivos e pelos psicoestimulantes, que em geral estimulam a atividade motora; e os psicodislépticos são constituídos pelos alucinógenos e despersonalizantes, que perturbam a atividade psíquica sem promover alterações na motricidade.” (SILVA, 1994).

Objetivou-se com presente trabalho experimental verificar os efeitos psicotrópicos das substâncias anfetamina (5 mg/Kg), haloperidol (2,5mg/Kg), através da avaliação da atividade motora espontânea utilizando o instrumento de sistema em campo aberto (Open Field), tendo como controle, a utilização de solução fisiológica (0,1mL/10g) para a comparação dos resultados.

MATERIAL E MÉTODO

Utilizou-se 3 exemplares de Mus musculus devidamente pesados e marcados, e administrou-se em cada, respectivamente, 5,0 mg/Kg de anfetamina, 2,5 mg/Kg de haloperidol e, para controle, solução fisiológica (0,1mL/10g), todos por via intraperitoneal. Logo em seguida acomodou-se o animal no centro de um campo aberto (Open Field), uma área de dimensões de 45 x 45 x 25 cm, subdividida em nove quadrados menores, verificando-se quantos quadrados cada indivíduo invadiria no tempo de 5 minutos. Observou-se o aspecto das cobaias e contou-se como invasão, quando ocorre a posição das quatro patas no quadrado. A verificação em campo aberto fora repetida mais quatro vezes, com intervalo de 10 minutos entre cada uma. Os resultados foram tabulados em tabela e em gráfico, relacionando o número de invasões em função dos respectivos intervalos de tempo.

RESULTADOS

TABELA 1.0: NÚMERO DE INVASÕES OBSERVADAS EM Mus musculus APÓS ADMINISTRAÇÃO DE ANFETAMINA (5,0 mg/Kg), HALOPERIDOL (2,5 mg/Kg) OU SOLUÇÃO FISIOLÓGICA (0,1 mL/10 g), AO LONGO DO TEMPO DE OBSRVAÇÃO EM CAMPO ABERTO (OPEN FIELD). TERESINA (PI), 2011.

Tempo (min)

Substâncias

5’ 20’ 35’ 50’ 65’

Anfetamina

Haloperidol

Solução Fisiológica

19 3 19 29 169

13 2 2 0 2

38 25 22 21 1

FONTE: LABORATÓRIO DE BIOQUÍMICA E FARMACOLOGIA. ALUNOS DE FARMÁCIA 2011.1.

GRÁFICO 1.0: REGISTRO DA VARIAÇÃO NO NÚMERO DE INVASÕES OBSERVADAS EM Mus musculus APÓS ADMINISTRAÇÃO DE ANFETAMINA (5,0 mg/Kg), HALOPERIDOL (2,5 mg/Kg) OU SOLUÇÃO FISIOLÓGICA (0,1 mL/10 g), AO LONGO DO TEMPO DE OBSRVAÇÃO EM CAMPO ABERTO (OPEN FIELD). TERESINA (PI), 2011.

FONTE: LABORATÓRIO DE BIOQUÍMICA E FARMACOLOGIA. ALUNOS DE FARMÁCIA 2011.

DISCUSSÃO

“As psicoses estão entre os distúrbios psiquiátricos mais graves nos quais se observa não apenas disfunção comportamental acentuada, mas também incapacidade de raciocinar com coerência, compreender a realidade ou ter alguma percepção de que essas anormalidades estão presentes. Em geral, esses distúrbios comuns incluem sintomas como ilusões e alucinações. A base etiológica da psicose ainda é desconhecida, embora tenham sido sugeridos fatores genéticos, ambientais e relacionados com o desenvolvimento neurológico. As síndromes representativas desse grupo são a esquizofrenia, as psicoses de curta duração e os distúrbios ilusionais. Os sintomas psicóticos também podem ocorrer nos distúrbios graves do humor, principalmente mania e depressão melancólica grave.” (BRUNTON, 2010). “Os agentes antipsicóticos eficazes na prática clínica são as fenotiazinas, os tioxantenos estruturalmente semelhantes, as benzepinas, as butirofenonas (fenilbutirilpiperidinas), que é a classe do haloperidol, as indolonas, e alguns outros compostos heterocíclicos.” (BRUNTON, 2010).

“Os antipsicóticos, em geral, mostram ter uma ampla variedade de efeitos sobre o sistema nervoso central, os sistema nervoso autônomo e o sistema endócrino. Essas ações foram atribuídas aos efeitos bloqueadores de uma ampla gama de receptores, incluindo receptores dopamínicos e α-adrenérgicos, receptores muscarínicos, receptores histamínicos H1 e receptores de serotonina (5HT2). Os efeitos sobre os receptores dopamínicos tornaram-se rapidamente o principal foco de interesse.” (KATZUNG, 2003).

“Os anfetamínicos, anfetaminas e substâncias análogas, são drogas psicoestimulantes que incluem a anfetamina, a desafentamina, a metanfetamina e drogas correlatas como a anfepramona.” (SILVA, 1994). “A anfetamina, β-fenilisopropilamina racêmica, possui poderosa ação estimulante sobre o SNC, além das ações periféricas sobre os receptores β e α-adrenérgicos por induzir a liberação de catecolaminas comuns às drogas simpaticomiméticas de ação indireta, ou seja, liberam transmissores em sinapses monoaminérgicas periféricas, no SNC, principalmente, no córtex e na medula” (GILMAN, 1996). “A partir de tal mecanismo de ação a anfetamina e seus derivados, como a anfepramona, estimulam o SNC, provocando euforia, aumento do ânimo, insônia, anorexia, nervosismo, irritabilidade e, ao fim dos efeitos, depressão e parada respiratória. Provocam também o aumento da atividade locomotora, corrida e movimento anterógrado associados a comportamento exploratório.” (SILVA, 1994). “Também podem provocar comportamento estereotípico em várias espécies de animais, sendo atos continuamente repetitivos sem finalidade detectável. Em Mus musculus, o comportamento estereotípico consiste nos atos fungar, lamber, morder, ranger dos dentes, movimentos das pernas e cabeça.” (SILVA, 1998). “Os anfetamínicos estimulam o centro respiratório.” (GILMAN, 1996). De acordo com o GRÁFICO 1.0 e TABELA 1.0, é possível observar que após a administração de anfetamina (5,0mg/Kg), embora no início tenha havido uma diminuição da atividade motora (20’) provavelmente devido ao fato dos fármacos administrados estarem a muito tempo com prazo de validade vencido, com posterior pequeno aumento (35’ e 50’), logo mais houve um aumento significativo do número de invasões (65’), que foi consideravelmente maior quando comparado ao da administração de solução salina (0,1mL/10g), assim confirmando o efeito já esperado da anfetamina, de potente estimulante. Além disso, também foi possível se observar alguns aspectos no comportamento do animal, como tremores, piloereção, fortes movimentos respiratórios, bem como um comportamento esteriotipado, caracterizado por um constante atos de coçar e lamber, e movimentos em círculos, especialmente no momento de 65’.

Segundo KATZUNG, 2003, esses efeitos se devem à ação da anfetamina, um estimulante da atividade psíquica (psicoanaléptico) do grupo dos psicotônicos ou psicoestimulantes, que atuam incrementando a vigilância e a atividade psicomotora, além de produzir euforia. Segundo GILMAN, 1996, o mecanismo de ação central da anfetamina envolve liberação de catecolaminas, principalmente noradrenalina e dopamina, dos seus locais de armazenamento nas terminações nervosas. Ocorre também bloqueio da recaptura das aminas liberadas e inibição da MAO, embora de forma menos intensa que os antidepressivos. Ainda segundo KATZUNG, 2003, no Sistema Nervoso Autônomo (SNA), a anfetamina atua como um simpaticomimético de ação mista. A estimulação central é atribuída à liberação de norepinefrina, que provoca intensa ativação de conexões neuronais noradrenérgicas, sobretudo nas áreas corticais e reticulares, resultando em efeitos estimulantes, tais como ansiedade, agitação, euforia, tremores, além do aumento da atividade motora. Os movimentos estereotipados provocados pela anfetamina dependem principalmente de estimulação dopaminérgica, através da via nigro-estriada, que envia fibras para o neoestriado.

Segundo KATZUNG, 2003, nos animais de laboratório, o comportamento explorador diminui, e as respostas a vários estímulos são menores, mais lentas e de menor amplitude, embora a capacidade de discriminar os estímulos seja preservada. Em altas doses, a maioria dos neurolepticos induz uma imobilidade cataléptica típica, permitindo que um animal seja colocado em posições anormais nas quais permanece. Há aumento do tônus muscular e a ptose é típica. O animal permanece indiferente à maioria dos estímulos, embora continue a evitar os estímulos nocivos ou dolorosos. Quase todos os antipsicóticos reduzem a atividade motora espontânea em animais de laboratório e nos seres humanos. No entanto, um dos paraefeitos clínicos mais perturbadores desses agentes é a acatisia, que se manifesta por um aumento da atividade agitada, que não é imediatamente mimetizada pelo comportamento animal. A imobilidade cataléptica dos animais tratados com neurolépticos se assemelha à catatonia observada em alguns pacientes psicóticos, assim como associada a diversos distúrbios metabólicos e neurológicos acometendo o sistema nervoso central (SNC). Nos pacientes, os sinais de catatonia, junto com outras manifestações de doença psicótica, às vezes são aliviados por antipsicóticos. No entanto, a rigidez e a bradicinesia, que mimetizam a catatonia, podem ser induzidas em pacientes, em especial por grandes doses de neurolépticos potentes, e revertidas pela remoção do fármaco administrado ou pelo acréscimo de um agente antiparkinsoniano.

Segundo SILVA, 1994, o haloperidol é um antipsicótico e como tal promove depressão do sistema nervoso central e diminuição da atividade motora espontânea, atuando por bloqueio dos receptores dopaminérgicos. O bloqueio dos receptores dopaminérgicos pós-sinápticos provoca inicialmente, no neurônio pré-sináptico, um aumento da produção e liberação de dopamina, por aumento da atividade da enzima tirosina hidroxilase, numa tentativa de vencer o bloqueio. Em condições normais, a dopamina atua tanto nos receptores pós-sinápticos quanto pré-sinápticos. A ação da dopamina nesses últimos é inibitória sobre a tirosina-hidroxilase. Como o receptor pré-sináptico também é bloqueado pelo neuroléptico, a ação inibitória da dopamina não ocorre. Observa-se, então, um aumento da atividade da tirosina hidroxilase, com consequente aumento da produção e liberação da dopamina na fenda sináptica, que, no entanto, encontrará os receptores bloqueados. Como pode-se observar através da TABELA 1.0 e do GRÁFICO 1.0, após a administração de haloperidol (2,5 mg/Kg) o animal apresentou um comportamento motor continuamente diminuído, notado pela pequena quantidade de invasões, especialmente se comparado com o do grupo controle, no qual foi administrado solução fisiológica (0,1mL/10g), além de outros aspectos, como ptose palbebral (pálpebra caída), ataxia, bem como um comportamento estereotipado caracterizado pelo encolhimento do animal nos cantos da caixa e imobilidade, fenômenos que estão de acordo com a ação terapêutica esperada do haloperidol.

No terceiro animal, ao qual foi administrado soro fisiológico (0,1mL/10g), não observou-se alterações significativas da atividade motora, ou seja, o número de quadrados do campo aberto invadidos pelo animal permaneceu aproximadamente constante e com um valor intermediário em relação aos animais injetados com as substâncias psicotrópicas (TABELA 01, GRÁFICO 01). Isso ocorreu porque a solução de soro fisiológico não exerce ação sobre o sistema nervoso central, não provocando, assim, qualquer modificação da motricidade do animal a nível central. A aplicação do soro fisiológico serviu apenas como controle, possibilitando a observação da atividade motora do animal sem a influência dos psicotrópicos e a sua comparação com os efeitos produzidos por essas drogas.

CONCLUSÃO

A partir dos experimentos realizados, verificou-se a capacidade estimulante do SNC da anfepramona, caracterizada claramente pela movimentação excessiva do animal no campo aberto. Por sua vez, o haloperidol, assim como substâncias psicotrópicas que atuam sobre transmissões dopaminérgicas, demonstrou deprimir a atividade motora nos camundongos, devido acentuada redução na atividade motora, tornando-se praticamente imóvel. Comparando-se os efeitos destas substâncias entre elas e o controle (solução fisiológica), pode-se verificar que a anfepramona fora a mais estimulante e o haloperidol, o mais depressor da capacidade móvel dos indivíduos utilizados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRUNTON, L. L. Goodman & Gilman as bases farmacológicas da terapêutica. 11ª ed. Rio de Janeiro: Mc Graw-Hill Interamericana do Brasil, 2010.

GILMAN, A. G. et al. As bases farmacológicas da terapêutica. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 1996.

KATZUNG, B. G. LOFHOLM, P. et al. Farmacologia básica e clínica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003.

SILVA, P. Farmacologia. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1994.

ZANINI, A, C. et al. Farmacologia Aplicada. 5 ed. , São Paulo: Atheneu, 1994. Cap. 55, p. 455-480.

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