tres culturas - Prof.  Naomar

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AS TRÊS CULTURAS NA UNIVERSIDADE NOVA1

Naomar de Almeida Filho 2 naomar@ufba.br

Resumo

Neste ensaio, inicialmente abordamos a formação histórica do conjunto de saberes estruturantes do pensamento ocidental. Segundo, avaliamos a questão das duas culturas, nos termos da famosa conferência de C.P. Snow de 1959, indicando a importância de agregar o conceito da Terceira Cultura. A partir da revisão crítica de várias possibilidades de construir a terceira cultura, propomos a diferenciação das Artes em relação às Humanidades, dada a redefinição do conceito de humano na estrutura ideológica da contemporaneidade. Concluímos que se justifica plenamente uma profunda reestruturação da arquitetura curricular da educação superior com base no marco conceitual das três culturas, que melhor traduz a cosmologia complexa das sociedades contemporâneas, e que permitirá a reinvenção da universidade brasileira.

Palavras-chave: Cultura científica; Cultura artística; Humanidades; Universidade Nova.

Além de promover qualidade, flexibilidade, mobilidade e compromisso social na universidade brasileira e torná-la mais integrada ao panorama contemporâneo de educação superior, uma das principais motivações do movimento Universidade Nova consiste no resgate da instituição universitária como casa da cultura. Tal objetivo resulta da constatação de que, na conjuntura brasileira atual, a universidade às vezes consegue cumprir sua função de formar profissionais tecnicamente competentes, mas permite, por omissão, que os alunos saiam dela incultos.

Para retificar tão grave lacuna, defendemos a reestruturação radical da arquitetura curricular da instituição universitária, introduzindo na educação superior temas relevantes da cultura contemporânea. Mas quais seriam tais temas da cultura? Haveria mesmo uma cultura

1 Apresentado originalmente no VII CINFORM.

2 - PhD em Epidemiologia, Professor Titular do Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia. Pesquisador

I-A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

contemporânea? Ou, considerando a diversidade multicultural do mundo hoje, não seria melhor pensar em culturas, no plural?

Na Idade Média, no momento em que se inaugurava a “feliz invenção” chamada universidade, reforçava-se a distinção entre ars mechanicae (ofícios manuais e servis) e ars liberales (atividades do intelecto próprias aos homens livres) e se produziu uma classificação dos saberes que pode ser relacionada à oposição moderna entre ciência e literatura. O currículo universitário era composto de sete artes liberais, subdividido em dois grupos: o trivium — gramática, dialética e retórica; e o quadrivium — geometria, aritmética, astronomia e música. O trivium compreendia as ars sermocinales (artes do discurso) e poderia corresponder às humanidades, enquanto as ars reales (artes das coisas) do quadrivium corresponderiam à protociência daquela época. No momento crucial de constituição da modernidade, a escolástica medieval foi traduzida na idéia de humanidades, corpo de saberes pertinentes ao conjunto dos homens livres, como uma primeira definição unificada de cultura.

Um dos aspectos centrais das profundas transformações consumadas já no século XVII é a reivindicação de autonomia da ciência em relação às humanidades. O ideal renascentista do sábio-artista-cientista, encarnado na genialidade de Da Vinci, e o movimento iluminista do enciclopedismo, exemplificado pelo talento múltiplo dos pioneiros cientistas (que eram simultaneamente físicos, médicos, filósofos, matemáticos, astrônomos, naturalistas e alguns até literatos e políticos), eram em certa medida marginais em relação à história da ciência normal (Santos 1989, 2003). Assim, através de um processo de gradual (e conflitiva) diferenciação, as disciplinas científicas emergem das humanidades, a partir do século XVIII.

A ampliação do escopo da nascente prática institucional da ciência, com suas sociedades e academias, produzia campos disciplinares cada vez mais rigorosamente delimitados, como se fossem - e eram - territórios inexplorados, demarcados e apropriados pelos seus desbravadores. A ciência ocidental se desenvolveu com base na noção de especialidade (e seus correlatos: especialista e especialização). Por essa via, na arena científica, mais e mais se valorizava a especialização, tanto no sentido de criação de novas disciplinas científicas quanto na direção de subdivisões internas nos próprios campos disciplinares; no campo das práticas sociais, novas profissões eram criadas; no âmbito da reprodução ampliada, um novo sistema de ensino e

formação estruturava-se com base nesta estratégia “minimalista” de recomposição histórica da ciência e da técnica. Podemos em princípio designar esta estratégia de organização históricoinstitucional da ciência, baseada na fragmentação do objeto e numa crescente especialização do sujeito científico, como a disciplinaridade.

Os seguidores de um magister (mestre) eram chamados discipuli; o termo passou em seguida a designar aqueles que aderiam à filosofia de uma escola ou de um grupo ou que se ligavam a um mesmo modo de pensar. Nesta família semântica, disciplina inicialmente significava a ação de aprender, de instruir-se; em seguida, a palavra foi empregada para referir-se a um tipo particular de iniciação, a uma doutrina, a um método de ensino. Posteriormente, veio a conotar o ensino-aprendizado em geral, incluindo todas as formas de educação e formação. Por metonímia, a partir do século XIV, com a organização das primeiras universidades ainda no contexto escolástico, disciplina passou a designar uma matéria ensinada, um ramo particular do conhecimento, o que depois viria a se chamar de uma “ciência”. Assim, a disciplina tornou-se equivalente a princípios, regras e métodos característicos de uma ciência particular e, por extensão, de toda a Ciência (Rey 1993; Bibeau 1996).

Segundo Foucault, em sua obra-prima As Palavras e as Coisas, a oposição humanidades/ciência foi apenas um primeiro movimento no sentido da especialização dos campos discursivos de representação do mundo natural mediante os relatos científicos. Desse modo, após a extração das ciências do seio das humanidades, implantou-se ao longo dos séculos XVIII e XIX uma profunda e crescente desconfiança mútua entre humanidades e ciências. Ao longo dos séculos, cresceu a separação entre humanidades e pensamento científico, culminando com a ruidosa “guerra das ciências” do final do século X, quando as ciências humanas quase foram expulsas do panteão dos conhecimentos socialmente legitimados.

SNOW E AS DUAS CULTURAS Em 1959, Charles Percy Snow (1905-1980) publicou sua Rede Lecture, ministrada na famosa Universidade de Cambridge, sob o título As duas culturas. Esse texto tornou-se um clássico. Continua sendo publicado, traduzido em quase todas as línguas modernas.

Snow, que era Lord Snow of Leicester, autodefinia-se como "por formação, cientista; por vocação, escritor". Doutor em Física pela Universidade de Cambridge, desde cedo engajou-se em atividades de pesquisa, participando do desenvolvimento da mecânica quântica e o começo da

física de partículas moderna; não esconde o orgulho de ter tido o "privilégio de assistir da primeira fila a um dos momentos mais extraordinariamente criativos de toda a física". Na sua conferência, registra tentou "dar forma aos livros que queria escrever, o que, no devido tempo me levou ao convívio com escritores." Lord Snow percebeu a existência de "duas culturas", representadas por "dois grupos, comparáveis em inteligência, idênticos em raça, não muito distantes em origem social, que recebiam quase os mesmos salários, mas que haviam cessado quase totalmente de se comunicar entre si e que, na esfera intelectual, moral e psicológica, tinham tão pouca coisa em comum".

mútua --- algumas vezes (particularmente entre os jovens) hostilidade e aversãoCada um tem

Afora os deslizes de esnobismo e preconceito da etnocêntrica aristocracia britânica, a descrição que Snow faz dos dois grupos é ainda atual: "Num pólo os literatos; no outro os cientistas e, como mais representativos, os físicos. Entre os dois, um abismo de incompreensão uma imagem curiosamente distorcida do outro. [...] Os não-cientistas tendem a achar que os cientistas são impetuosos e orgulhosos [...] têm a impressão arraigada de que superficialmente os cientistas são otimistas, inconscientes da condição humana. Por outro lado, os cientistas acreditam que os literatos são totalmente desprovidos de previsão, [...] num sentido profundo, antiintelectuais..."

Por um lado, Lord Snow se baseava em uma abordagem convencional do conceito de humanidades, incluindo as artes e a literatura, a filosofia e as ciências sociais. Por outro lado, mesmo empregando a Física como paradigma do pensamento científico, considerava pioneiramente a ciência como “cultura científica”, e nisto mostrava-se sintonizado com as propostas mais avançadas da epistemologia de sua época. Em suas sensíveis palavras: "a cultura científica é realmente uma cultura, não somente em sentido intelectual, mas também em sentido antropológico. Isto é, seus membros não precisam sempre compreender-se completamente, e com certeza freqüentemente não o fazem; os biólogos geralmente têm uma idéia bastante obscura da física contemporânea; mas existem atitudes comuns, abordagens e postulados comuns. Isto se manifesta surpreendentemente de maneira extensa e profunda." Enfim, Snow reconhecia a centralidade da ciência no mundo moderno, porém denunciava o crescente e indesejável hiato, mesmo antagonismo, entre as humanidades e as ciências. Em um dos seus últimos trabalhos, Octavio Ianni escreveu que Lord Snow “estava seriamente inquieto com a indiferença e o desconhecimento recíprocos, empenhado em minimizá-los ou mesmo superá-los.

Acreditava, com razão, que as humanidades e as ciências são prejudicadas, se os cientistas e os humanistas se mantêm indiferentes ou desconhecendo-se”.

Cuidadoso, Lord Snow of Leicester advertia que “qualquer tentativa de dividir algo em duas partes deve ser considerada muito suspeita”. Em 1963, Snow coerentemente propôs, em um ensaio intitulado Uma Segunda Visão, a necessidade de considerar uma "terceira cultura", supostamente formada por humanistas com um bom conhecimento de ciência e por cientistas com forte sensibilidade às artes e humanidades, e que poderiam fazer a ponte entre as duas culturas. Resultantes da pioneira contribuição de Snow, vários estudiosos propuseram distintas soluções para a questão da “terceira cultura”, como por exemplo John Brockman(1995) e Wolf Lepenies(1996).

Numa vertente bastante distinta, Edgar Morin(1975) apresenta a proposta de uma

Terceira Cultura, “ao lado das culturas clássicas – religiosas ou humanistas – e nacionais”. Articulando sua profusa contribuição para a construção de um holismo eco-sócio-antropológico, Morin identifica a cultura dos jornais, do cinema, da televisão etc. como uma “estranha noosfera”, para ele meceredora de ser considerada como a cultura característica da sociedade contemporânea.

Num inspirado ensaio denominado Ciéncia, tecnología y humanidades para el siglo XXI, o filósofo espanhol Francisco Fernández (apud BUEY, 2004) realiza uma detalhada revisão crítica dos conceitos de “terceira cultura”. Desde as proposições de uma mera fusão das ciências com as humanidades (proposta por John Brockman), de tomar as ciências sociais como ponte (Lepenies) ou fomentar uma abertura culturalista dos paradigmas da ciência (Pierre Fayard). Fernández também avalia criticamente as proposições de que o papel de ponte intercultural poderia ser desempenhado pela popularização da tecnociência (no sentido do grupo Quark) ou pelo retorno à Filosofia, diretamente (conforme Manuel Sacristán) ou através da ética (conforme Potter). Finalmente, assume a crítica frontal de Stephen Gould contra a proposta de unificação do conceito reducionista de consiliência do sócio-biólogo Edward Wilson, tomado por muitos autores como o elo perdido da “terceira cultura” de Snow.

Dentre as várias vertentes analisadas, Fernández descartou como simplistas propostas de tomar a filosofia ou as ciências sociais como culturas-ponte ou de fusão das ciências às

humanidades, bem como avaliou criticamente as teses de unificação reducionista das humanidades às ciências. Conclui Fernández que as duas culturas “não devem confluir para uma terceira cultura”, e que se deve buscar uma solução para esse problema no “pensamento crítico” sem, no entanto, indicar qual seria a possível saída.

Ao construir conceitualmente a proposta da Universidade Nova, avaliamos cuidadosamente essa questão, rejeitando liminarmente propostas tipo “terceira via”, como por exemplo conceitos de “terceira cultura” resultantes de mix teóricos, apagamento de diferenças conceituais ou apaziguamento de contradições ideológicas. Decidimos ser cautelosos em relação a idéias de integração, pontes ou fusões entre ciências, humanidades e artes, pois se trata de modos distintos de construção do mundo, que precisam ter suas especificidades respeitadas.

Para retificar a grave questão da incultura na formação universitária brasileira, propomos uma radical reestruturação da arquitetura curricular da educação superior, com a introdução dos Bacharelados Interdisciplinares. Trata-se de uma nova modalidade de curso superior capaz de fomentar a formação dos estudantes universitários em eixos ou temas relevantes da cultura contemporânea. Com esse espírito, baseamos a estrutura curricular e o sistema de títulos dos Bacharelados Interdisciplinares da Universidade Nova em três modalidades de cursos, abrangendo grandes áreas do conhecimento correspondentes às três culturas que identificamos como principais eixos estruturantes dos saberes e práticas do mundo contemporâneo: Cultura Humanística; Cultura Artística; Cultura Científica.

Seguindo o marco conceitual aqui esboçado, os Bacharelados Interdisciplinares da

Universidade Nova compreendem: a) BI em Artes (BA), com as seguintes áreas de concentração: Artes Visuais;

Dança; Teatro; Música; Cinema e Vídeo. b) BI em Humanidades (BH), com as seguintes áreas de concentração:

Letras; Filosofia; Educação; Comunicação; Ciências Humanas. c) BI em Ciências (BC), com as seguintes áreas de concentração: Ciências

Exatas; Ciências da Matéria; Ciências da Terra; Ciências da Vida; Ciências da Saúde; Ciências Sociais Aplicadas.

A Formação Geral do BI compreende Eixos Interdisciplinares Temáticos correspondentes às três culturas que estruturam os saberes e práticas do mundo contemporâneo: a) Cultura Humanística; b) Cultura Artística; c) Cultura Científica. Assim, para preencher os requisitos da formação universitária plena, todos os alunos da rede Universidade Nova cumprirão créditos em cada uma das três culturas: Artes, Humanidades, Ciências. Esta fase da Formação Geral compõese de sete (7) componentes curriculares, com um mínimo de dois (2) Blocos, de escolha opcional em cada um dos Eixos Interdisciplinares (porém com incentivo à oferta de blocos integradores). Note-se que nessa fase da formação se introduz o conceito de “interdisciplinas”, expressando estudos sobre temas/problemas complexos, irredutíveis aos recortes monodisciplinares, onde se aplicam componentes curriculares que abordam campos temáticos que envolvem e articulam mais de um campo disciplinar.

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