Livro luca pacioli um mestre do renascimento

Livro luca pacioli um mestre do renascimento

Brasília-DF

2004

EDITOR

Fundação Brasileira de Contabilidade – FBC

SAS Quadra 5 - Bloco “J” – Ed. CFC

Telefone: (61) 314-9673

Fax: (61) 314-9506

70070-920 - Brasília-DF

www.fbc.org.br

Tiragem: 7.000 exemplares

Distribuição gratuita

LUCA PACIOLI – UM MESTRE DO RENASCIMENTO

FICHA TÉCNICA

Autor

Antônio Lopes de Sá

Revisão

Maria do Carmo Nóbrega

Projeto Gráfico e Diagramação

Gráfi ca Qualidade

Capa

Silvia Neves

Ficha Catalográfi ca

APRESENTAÇÃO

Cinco séculos separam o nascimento de Luca Pacioli do de Antônio

Lopes de Sá. Apesar da diferença de ordem cronológica, estes dois mestres

das Ciências Contábeis têm muita coisa em comum. Resgatemos apenas duas

características, que podem resumir bem o legado de contribuição que deixaram

para a sociedade.

Luca Pacioli, nascido por volta de 1445, foi um homem “a serviço da

cultura e da Contabilidade”. Lopes de Sá ainda o é. O frei italiano produziu

sua primeira obra aos 25 anos de idade. Já o brasileiro, quando tinha 31 anos,

elaborou o “Dicionário de Contabilidade”, publicação obrigatória em qualquer

curso da área em todo o território nacional e que já se encontra em sua nona

edição.

Acrescentemos apenas mais uma contribuição: o mestre do período da

Renascença foi o autor da primeira obra impressa que divulgou o processo das

Partidas Dobradas, enquanto que o nosso mestre dos séculos XX e XXI possui

mais de 170 livros e 11 mil artigos editados em jornais e revistas do Brasil,

Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Itália, Espanha, Colômbia e Portugal.

Nada mais completo do que um gênio para falar de outro gênio. Assim é

“Luca Pacioli – Um mestre do Renascimento”, publicação que leva a assinatura

do professor Antônio Lopes de Sá. O livro está sendo reeditado, desta vez,

pela Fundação Brasileira de Contabilidade (FBC), com o objetivo de ampliar

os conhecimentos daqueles que buscam aprender um pouco mais sobre a

vida e a obra do mestre que ajudou a lançar os fundamentos das Ciências

Contábeis, vigentes até os dias de hoje. O autor faz, ainda, um resgate do

“ambiente histórico” em que se formou a era das Partidas Dobradas.

Sendo assim, convido-os a este rico passeio pelas teorias e pelas

técnicas de um dos maiores conhecedores da ciência – trabalho conduzido,

brilhantemente, pelo mestre Antônio Lopes de Sá, este uma lenda viva da

Contabilidade.

Maria Clara Cavalcante Bugarim

Presidente da Fundação Brasileira de Contabilidade

SUMÁRIO

Capítulo I

O Ambiente Histórico da Era das Partidas Dobradas .................. 07

Capítulo II

As Origens da Evolução das Partidas Dobradas ......................... 25

Capítulo III

A Literatura Contábil das Partidas Dobradas ............................... 39

Capítulo IV

Luca Pacioli – Gênio do Renascimento ....................................... 46

Capítulo V

A “Summa” de Pacioli e o “Tractatus” .......................................... 57

Tratado Particular de Contas e Escrituração ............................... 63

Capítulo VI

Comentários sobre o “Tratado” de Luca Pacioli ......................... 140

Bibliografi a .......................................................................................... 189

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Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO I

O AMBIENTE HISTÓRICO DA ERA

DAS PARTIDAS DOBRADAS

O capítulo que se segue descreve, em linhas gerais, o ambiente

histórico em que se desenvolveu e se consolidou a Partida Dobrada na

Itália e parte daquele em que Luca Pacioli viveu.

Procura enfocar as mudanças culturais, políticas, sociais

e econômicas, oferecendo ao leitor uma noção ampla sobre os

acontecimentos de uma época fecunda em cultura.

Os fatos narrados oferecem uma idéia da atmosfera cultural que

sugeriu o amadurecimento e a afirmação de um dos mais importantes

procedimentos da escrita contábil e que ofereceu bases para uma

tendência de doutrinas.

A era do desenvolvimento das partidas dobradas é de mudanças

profundas e do aparecimento de grandes gênios do pensamento

humano.

Esta introdução visa conduzir a mente do leitor para o “clima

histórico” no qual amadureceu o notável sistema de registros, este que

até hoje perdura.

I

O AMBIENTE HISTÓRICO DA ERA EVOLUTIVA

DAS PARTIDAS DOBRADAS (1250 - 1494)

1.1. O INÍCIO DAS TRANSFORMAÇÕES

A partida dobrada evoluiu na Itália em uma era de início dos

chamados “Anos de Ouro”, defluentes de profundas modificações das

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estruturas do regime medieval, sob a égide de uma mescla de culturas.

Havendo Frederico, o Grande, da Alemanha, permanecido na

península itálica com seus fi lhos Enzo e Manfredo, após haver cedido seu

trono ao filho Conrado IV, destruiu-se um sistema feudal e abriram-se as

portas a uma nova era de luz; em verdade, ele implantou um Estado, com

uma corte de elite intelectual que, sem dúvida, inspirou as administrações

italianas dos séculos XIV ao XVI.

Quando Frederico morreu, em 1250, aos 56 anos (nasceu na

Alemanha, em 1194), tinham já abaladas as instituições rígidas medievais

e também a consciência das Comunas, estas que davam ao país um

caráter apenas municipalista.

Doou à Itália não só um processo avançado de gestão racional, mas

mostrou que o progresso dependia da cultura e que só esta é competente

para ensejar governos eficazes, estes que modificam épocas e contribuem

para o progresso.

O Poder, antes da interferência germânica referida, era quase,

exclusivamente, da Igreja e o dinheiro de toda a Europa fluía para Roma.

O Vaticano lutava, pois, para não dividir o seu prestígio e foi em razão

disso que excomungou o invasor estrangeiro.

O filho de Frederico, Manfredo, após a morte do pai, unido aos

gibelinos (partido político), derrotou os guelfos (partido político) em

Montaperti, em 1260, e, governando Florença por cerca de seis anos,

aplainou todo um terreno que seria fertilíssimo à cultura e que imitaria o

estilo das raízes germânicas.

Morreu em Benevento, em 1266, ao enfrentar um exército com

o dobro de homens, comandado por Carlos D’Anjou, que viera à Itália

por influência do Papa Urbano IV, este sequioso por assumir o poder

sozinho e de novo conseguir todo o domínio de uma Itália fracionada, para

isto lançando os estrangeiros uns contra os outros (germânicos contra

franceses).

Manfredo morreu lutando, pois, ao ver-se ferido, muito ao

estilo heróico de seu tempo e das tradições de seu povo, lançou-se,

desesperadamente, contra o inimigo.

Em Nápoles, no sul da Itália, pouco depois, iniciava-se o Reino

D’Anjou, tendo sido o neto de Frederico, de 15 anos, filho de Conrado,

decapitado pelos franceses que àquele se opunham e, como escreve

Montanelli (Storia D’Itália), com um infanticídio iniciou-se tal reino.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

1.2. O FIM DO SÉCULO XIII E AS GRANDES POTÊNCIAS ITALIANAS

A predominância francesa na Itália consolidou-se com a maior

participação de cardeais (fruto dos acordos e pagamentos de favores com

a eliminação de Frederico e descendentes) e com os Anjous, encontrando

na Sicília um ponto de solidez apreciável, com a conquista da grande ilha,

representando volumosa soma ao domínio.

Carlos, rei da França, já contava com a simpatia de todo o norte italiano

e também com a do centro (notadamente Florença que o aclamara prefeito),

tendo isto tornado, relativamente, fácil a sua permanência na península.

Como o Anjou não tinha dotes finos de espírito, cultura e tino

administrativo, como o possuíra Frederico, a sua obtusidade, grosseirisse e

falta de sensibilidade o levariam a desatinos.

Com tão curta visão, em vez de dedicar-se à Itália, onde gozava de

pleno apoio, pretendeu dominar a Grécia e a Tunísia, mas os erros que

cometeu foram tantos que acabou por perder até as graças do papado (que

era francês).

Com o gibelino Otão Visconti assumindo o arcebispado de Milão,

Florença é então convocada para acomodar a situação.

Com o advento da morte do Papa italiano Gregório X (que interrompera

a hegemonia francesa), em 1276, o papado enfraqueceu-se e, de novo,

os franceses dominaram, em 1280, apoiados pelos soldados de Carlos

D’Anjou.

Simão de Brie, o novo papa, denominado Martinho IV, consolidou

então em Roma o poder dos franceses.

O reino italiano, todavia, já não era o que Frederico plantara, com cultura

e inteligência, com rara capacidade de organização. As coisas estavam mal,

as finanças em decadência, as estradas em ruínas, a produção em declínio e

a miséria se ampliara.

Palermo, centro básico de uma Sicília então poderosa, vivia em pleno

descontentamento e sob forte pressão. Carlos instalara-se em Nápoles e

relegara a ilha a uma província, mas mantinha a grande cidade insular sob

forte domínio e em permanente estado de sítio.

Em 1282, em 31 de março, uma nova mudança ocorreria, quando

uma enorme multidão encheu as praças na Sicília para as comemorações da

Páscoa.

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Deu-se, então, aí uma rebelião poderosa popular, denominada de

as “Vésperas Sicilianas”, quando um popular, ao ver sua esposa tocada

por um francês, mata-o e instiga a massa contra os soldados de Carlos.

As violências angevinas foram o fermento que gerou a resposta

patriótica dos italianos, mas, muito mais que isto, um embrião de uma

autêntica guerra que os franceses responderam com um poderoso

exército de 50.000 homens contra um povo apenas inflamado e rebelde,

mas, cheio de brio.

Para livrar-se dos Anjous, os sicilianos convocaram, então, os

espanhóis de Aragão, e Pedro, o Grande, desembarcou na ilha, vencendo

os franceses e coroando-se como Rei da Sicília.

Ocorreu aí outro envolvimento de valores culturais, não obstante

às fortes tradições autóctones. O Papa francês, ao qual os ilhotas haviam

apelado, nada fez para ajudá-los, limitando-se a excomungar Pedro de

Aragão.

A excomunhão não teve qualquer efeito e mais uma barreira moveu-

se no comportamento italiano e da cavalaria, pois Pedro, desafiado por

Carlos, não compareceu ao duelo que deveria decidir a sorte do reino.

O Papa postou-se ao lado de Carlos, mas, Dante Alighieri, na

Divina Comédia, preferiu honrar a Pedro, definindo um julgamento

histórico.

O filho de Pedro, Jaime, foi a seguir o outro rei da Sicília e daí por

diante novas rebeliões ocorreram e mudanças também se sucederam.

No fim do século XIII, a Itália estava toda dividida, com algumas

regiões assumindo o predomínio sobre as demais, com supremacias

disputadas entre famílias poderosas que constituíam também comunas

fortes.

Duas grandes potências marítimas despontaram ao norte da

península nessa época (fim dos anos de 1200) e estas foram Gênova

e Veneza, sendo que a primeira, em 1283, tirou o privilégio de Pisa, o

grande porto italiano, toscano, da alta Idade Média (Marina di Pisa), que

tão importante domínio havia exercido.

A rivalidade entre Genoveses e Pisanos, de muitos anos, culminou

com uma guerra na qual Gênova saiu vitoriosa. A Toscana, local de

grande evolução das Partidas Dobradas (1250-1280) fez progredir, pois,

tal processo, em plena florescência do domínio de Pisa.

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O enriquecimento das cidades de Gênova e Veneza chegou a

altíssimo padrão, mas Veneza terminou por eliminar o poder de Gênova

para, a seguir, assumir o domínio da navegação marítima.

Essa cidade tinha a seu favor a não-influência das lutas de

dominação estrangeira dos alemães, franceses e espanhóis por estar

isolada e protegida por suas lagunas e areias, estas que impediam o

acesso e formavam uma natural defesa.

Além do mais, os venezianos buscavam longe não só mercadorias,

mas cultura, como ocorreu com Marco Polo, em 1261, ao trazer do

extremo oriente um rico acervo, tal como seu pai o fizera em outras longas

expedições.

A navegação de Veneza expandiu-se, igualmente, ao alcançar

as costas da Dalmácia e da Grécia, levando uma política inteligente e

amena.

Paralelamente, em Florença, os banqueiros se fortaleceram,

aproveitando-se da divisão das cidades-estado (cada uma com a sua

moeda) para se firmarem no mercado do câmbio, tirando largas vantagens

nas conversões monetárias.

Politicamente, se estava Florença dividida em guelfos e gobelinos,

por outro lado progredia industrial, comercial e financeiramente, sem

abandonar o lado social que também era fortemente assistido.

A referida cidade-estado custou a libertar-se de uma burguesia

cruel; manteve, todavia, dois partidos políticos: os guelfos e os gobelinos,

e partiu para sua independência, em 1252, imprimindo sua própria moeda,

o “florim”.

Manfredo, que apoiara os senhores gibelinos em Montaperti, em

1260, ao morrer e ao ceder o domínio aos Anjous, ensejou o ressurgir a

força dos guelfos, estes que haviam sido antes derrotados.

Tais lutas, todavia, não impediram o veloz crescimento da região

italiana da Toscana e suas cidades tornaram-se cada vez mais prósperas

(Florença, Pisallena, Arezzo, Luca, etc.).

Em 1290, com a grande vitória florentina, em Campalelino, os guelfos

afirmaram-se e isto libertou toda a expansão da região. Nápoles, por outro

lado, era outra potência e Roma vivia da captação das contribuições

fi nanceiras de toda a Europa e que fl uíam para lá, por intermédio do clero.

Também Milão tinha sua força, estribada em forte aristocracia.

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Os últimos anos do século XIII mostram uma Itália já formada para

um grande clima cultural que desabrocharia nos séculos XIV e XV, com

raro vigor.

Em 1265, nasceu Dante, cujo nome verdadeiro era Durante, de

família guelfa e que se tornaria uma das mais expressivas forças não

só da literatura mundial, mas especialmente responsável por influência

cultural relevante.

Teve ele por mestre um homem sábio e de profundos conhecimentos:

Brunette Latini. Não obstante à influência “provençal”, Dante, pai do

idioma italiano, seguiu sua trilha luminosa, embora sofrida, até a morte,

que ocorreu em setembro de 1321, sem que lhe dessem a fama e a honra

que merecia.

Entre seus 18 e 29 anos, escreveu “Vita Nova”, mas o seu “Tratado”

sobre a língua italiana, tão pouco difundido, é, na realidade, uma das suas

maiores contribuições à cultura do seu tempo (De vulgari eloquentia);

reconheceu o latim como língua morta e elaborou o primeiro “Tratado”

científico do idioma italiano.

Escreveu uma obra política, “De Monarchia”, de cunho científico e

outros pequenos trabalhos, mas todos de qualidade, competentes para

fomentar cultura.

Admite-se, todavia, que foi no inaugurar dos jubileus, em 1300,

em Roma, que Aliguieri inspirou-se para escrever “La Commedia”, esta

que se transformaria, pelo título que lhe deram, em “Divina Comédia”,

uma das mais primorosas produções do engenho humano, com cerca de

5.000 versos. Essa obra filosófica foi competente para expressar toda a

grandeza a que pode chegar o espírito.

Existem os que admitem ser as obras de Abelardo (também do

século XIII) superiores à concepção de Dante, mas não é preciso muito

esforço para observar que o teólogo francês não teve capacidade para

arquitetar com arte o que o pensamento produz e nem demonstrou possuir

a erudição profunda do florentino.

Dante tinha seus sonhos; não se arvorou em pai da Renascença

e nem pretendeu superar ninguém; o que fez, todavia, mostra-nos bem

toda a atmosfera intelectual que caracterizou a passagem de um século

de rompimento de tradições para um outro que caminharia veloz para um

ápice do refinamento da cultura.

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Analisando todos esses fatos, é possível imaginar em que ambiente

a inspiração evolutiva das partidas dobradas encontrou berço.

1.3. NO SÉCULO XIV, UM GRANDE PROBLEMA ITALIANO

O papado instalou-se em Avinhão, em 1305. Clemente V, temendo

por sua segurança em Roma, sob tal pretexto, desloca a sede católica

para o sul da França. A Itália perdeu, portanto, na época, um importante

ponto de seu apoio político e financeiro.

Clemente era francês; a maioria dos cardeais era também de

franceses e a influência que se iniciara nos meados do século anterior,

quando da luta contra Frederico, atingiu o seu amadurecimento.

A igreja, com a morte de Clemente, sucedendo-o João XXII, ganhou

muito economicamente, mas perdeu em qualidade humana (muitas

concessões haviam-se negociado).

O caráter mercenário do papado, no início dos anos 300, havia

inflamado um frade da cidade de Novara, chamado Dolcino, que, ganhando

adeptos, fundou a “Fraternidade Apostólica”, da cidade de Parma.

O Papa reagiu; convocou a Inquisição para punir a “Fraternidade”,

mas os inquisidores não obtiveram sucesso; armaram-se, então, com um

exército de mercenários (prática que se consagrara com Frederico, na

Itália) que acantoou Dolcino nos alpes piemonteses, sendo depois o frei

barbaramente trucidado, de forma crudelíssima, arrancando-se, a ferro

em brasa, pedaços de seu corpo, em espetáculo popular.

Para salvar as aparências de tal brutalidade, a Igreja viu aparecer,

na época, Tomás de Aquino, Francisco e Domingos que são santificados.

Roma, todavia, além do prestígio que se fracionou, perdeu as

influências financeiras e políticas e debilitou-se (o que fortaleceu, de certa

forma, outros centros de Poder como os já grandes e prósperos instalados:

Veneza, Milão, Gênova, Florença e Nápoles).

Os italianos desejaram a volta do papado, mas nada puderam

contra a maioria francesa que ia revigorando a posição de Avinhão.

Em 1327, Roma recebe Ludovico IV, da Bavária, que assume

o reinado em Milão e é titulado como Imperador de Roma. O clero de

Avinhão excomungou o bávaro, mas isto só a este somou em prestígio

entre os descontentes com o papado francês.

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Ludovico não teve poderes materiais, mas os nobres italianos

(Visconti, Delia Scala e Castrocani) a ele forneceram largas somas.

O objetivo foi claro: fazer um outro papa; e surgiu, então, Nicoláu V,

consagrado por Ludovico, sendo excomungado João XXII.

Os franceses, receosos, apelam para Roberto D’Anjou que, do sul

da Itália, os acudiu com um exército poderoso, que expulsou os bávaros.

Nicoláu, o novo Papa, pediu asilo a Pisa, mas esta não fez senão

mandá-lo para Avinhão, que o confinou.

O fracasso de Ludovico e a extorsão que fez no norte da península

retumbaram forte, fortalecendo os franceses e sepultando Roma, mais

uma vez.

O caminho da força esgotou-se. Restou o da inteligência, da

diplomacia; mandou-se então a Avinhão uma missão, tendo à frente Nicola

de Rienzi Cabrini, dito Cola di Rienzi, jovem advogado de algum talento;

falava com desenvoltura, tinha opiniões próprias, mas provinha de uma

plebe revoltada, do Trastevere (bairro de Roma que abrigava a populacha,

na época).

Cola era eloqüente, todavia, antes de ir para Avinhão, procurou

Petrarca (emérito poeta e literato, um dos grandes vultos do século), que

sabia ter boas relações políticas com o clero e, especialmente, com os

cardeais.

Petrarca sonhava com uma Roma de novo esplendorosa e apoiou

Nicola, dando-lhe estímulos e traçando formas inteligentes de conduzir os

assuntos.

João XXII, entretanto, já não era mais o Papa e o sucedera

Clemente VI, homem calculista, fino de tratamento, mas impenetrável e

de tino político.

Recebeu Cola muito bem, estimulou-o em suas idéias de quebrar

lanças contra a aristocracia romana e até presenteou o jovem advogado

com somas em dinheiro para que se movesse em seus ideais.

Rienzi voltou estimulado e convocou a população no dia de uma

festa religiosa, em 1344, para restaurar a “sagrada República Romana”,

e, para isto, usou de toda a sua força demagógica e capacidade de

oratória.

Armou um pequeno exército para insurgir-se contra a aristocracia

romana e que ele julgava responsável pela saída do Papado, obtendo

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

sucesso em sua investida. Os nobres, simulando aceitar, deixaram Roma,

ao saber dos feitos de Rienzi. Cola assumiu a direção, reorganizou a

Fazenda e a Justiça e mostrou-se capaz de administrar.

O Poder, todavia, subiu-lhe demais à cabeça e em atos tresloucados

começou a julgar-se um grande Imperador, capaz de dominar o mundo.

As manifestações desequilibradas de Cola foram, todavia, sem fi m,

pois o próprio Papa, ao perceber o que o jovem fazia, o apoio sonegou-lhe,

em face dos excessos.

Os nobres armaram-se contra ele e quando Rienzi convocou o

povo para enfrentá-los, também aí o apoio faltou-lhe. Abandonou Roma,

apressadamente. Refugiou-se, a seguir, na Alemanha. Mais tarde voltou a

Avinhão, confiado no apoio de Petrarca, mas este estava fora e só uma

carta em favor de Cola escreveu.

Na ausência de Cola, outro líder popular surgiu: Baroncelli, pois o

descontentamento fermentado era alimento para protestos.

O Papa (que já era Inocêncio VI) admitiu que só um líder poderia

neutralizar outro e enviou Cola a Roma, para evitar surpresas maiores.

Com o retorno de Cola, Baroncelli perdeu seu posto, por vontade do

povo, que passou a acolher o antigo ídolo, conduzindo-o ao Senado.

Já com 40 anos, Cola não era o mesmo e muitas arbitrariedades

havia cometido que de loucura lhe atribuíram os procedimentos, além de

embriaguês constante, destruindo-lhe o prestígio.

O povo voltou-se contra ele e o condenou; levado pela pela multidão

ao Capitólio, ali foi apunhalado e seu corpo dependurado em um balcão.

Os golpes, portanto, não haviam em Roma se limitado à perda da sede

papal e vítimas outras sangravam nas mãos do próprio povo revoltado.

O grande problema italiano pareceu sem solução. Roma, a poderosa,

a milenar, sucumbiu aos poucos; fez suas vítimas e sofreu pela incompetência

de uma elite nobre que a ela nada devolveu; habituada às grandezas

religiosas, sufocou-se inerte em decorrência da própria inabilidade com

que no século anterior, para evitar a divisão do Poder, não fi zera senão

arregimentar os que a tolheriam do mesmo – os franceses.

O século, na Itália, entretanto, não fora só de problemas como os de

Roma.

Em 1304, nasceu Petrarca; em 1313, Boccaccio (que iniciou a vida como

contabilista), dois grandes gênios que muito influiriam no processo cultural.

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A morte de Dante, em 1321, contudo, não deixou completamente

órfão o ambiente, pois, a seguir, se iluminou com os outros dois

referidos.

Em 1377, o papado voltou a Roma e, em 1378, eclodiu, em Florença,

o tumulto dos Ciompis (operários das indústrias de lã, chefi ado por Miguei

di Lando).

Um ano depois ocorreu o cisma da igreja. O século XIV teve ainda

outras influências econômicas e sociais defluentes da grande peste que

dizimou grande parte da população européia em 1348.

1.4. SÉCULO XV – O SÉCULO DE PACIOLO

Muitos eventos importantes de natureza política, social e econômica

envolveram a Itália no século XV, no qual nasceu Luca Pacioli.

A Toscana assumiu um primado de rara expressão e que durou

até o século seguinte, por meio, notadamente, de Florença, embora Pisa,

Luca, Siena, Arezzo e Prato tivessem contribuído eficazmente.

Pobre como seu solo, instável politicamente, sem qualquer poder

nos mares (por ser central), com discriminações de classes em “maiores” e

“menores”, com uma tradição de sofrimento feudal até o fim do século XIII,

Florença, em princípio, nada possuía para assumir a grandeza histórica

que lhe estava reservada.

Os tumultos do século XIV (dos obreiros das indústrias), o mal-

estar que se seguiu, nada impediu o poderio florentino e que foi superior,

economicamente, até o de grandes nações da época.

Os banqueiros da Toscana haviam inventado as apólices, os

cheques, as cambiais, os bônus do tesouro e não seria, pois, demais, que

também fizessem evoluir a Partida Dobrada, nesse grande movimento de

força econômica e cultural.

O capitalismo estava maduro no século XV e a burguesia dos Bardi,

Peruzzi, Strozzi, Pitti, Rucellai, Ricci, Ridolfi, Valori, Caponi, Soderini e

Aibizzi tinha alicerçado essa imensa força.

O destino, todavia, fez com que toda essa potência tivesse direção

no sentido de sustentar e expandir a cultura (único caminho para a

dignidade verdadeira dos povos perante a História).

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Quando, em 1428, João de Medici morreu, deixou a seu filho uma

prodigiosa fortuna e este a aplicou, em parte razoável, embora sem nada

abalar-lhe, financiando os gênios da época como Donatello, Ghiberti,

Bruneleschi, Gozzolli, Lippi, Frei Angélico, Pico della Mirandola, Ficino,

Alberti e outros.

Florença tornou-se ídolo da cultura, alimentando o desenvolvimento

desta. Cosme não só era rico, mas exímio diplomata, sua passagem pela

História é das mais significativas pelo que se lhe atribuíram o nome de “Pai

da Pátria”.

Era tão hábil que, ao entender que o equilíbrio de sua nação dependia

de quatro grandes centros (Milão, Veneza, Florença e Nápoles), procurou

intermediar entre eles o bom entendimento.

Sabe-se que quando Milão perdeu forças, com a morte de Felipe,

disto tentou aproveitar-se Veneza para expandir seu domínio no norte;

Cosme, estrategicamente, apoiou os Sforzas, outra família milanesa, para

que resistisse à pressão que ocorrera.

Veneza, então, no sentido de revide, tentou a união com Nápoles

para enfraquecer Florença, mas Cosme, por meio de seu Banco, pressionou

os devedores de ambas as cidades que se haviam aliado e a crise fi nanceira

obrigou a desistirem do conluio.

Tal episódio exemplifica bem toda a sagacidade de quem usava a sua

força para a Paz e não contra ela.

Em 1494, a comuna Florentina (quando Paciolo edita a “Summa”) já

havia abrangido vasta área e chegara até o mar.

Todo o apogeu dos Medicis, entretanto, foi obra de planejamentos de

base.

Cosme, quando morreu, em 1464, sabendo da pouca saúde de seu

filho Piero, visando à continuidade, já havia educado, sufi cientemente,

o seu neto Lourenço, que pelo seu valor viria a ganhar o cognome de

“Magnífi co”.

Florença esbanjou em cultura e em inequívoco poder, abrangendo,

inclusive, cidades que adotavam a mesma fi losofia, como foi exemplo

Prato.

Lourenço seguiu os passos do avô que tanto admirou e que lhe

moldou a mente.

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Muitos episódios pontilharam a sorte do referido grande Medici,

inclusive um atentado contra a sua vida, por inspiração do clero, além de

ter sido excomungado e lutado contra o Papa Sixto.

O grande tato político, todavia, que do avô herdara, fez com que

Lourenço superasse todos os problemas. A opor-lhe, além dos fatos

referidos, veio o religioso Savonarola (nascido em 1452, em Florença),

mas também a este Lourenço buscou superar com diplomacia até a morte,

que ocorreu em 1492 (aos 43 anos de idade).

Alguns episódios dessa grande figura histórica mesclam-se também

com os da vida do excelso Maquiavel, quando este foi consultor do Medici

e ao qual dedicou sua obra “O Príncipe”.

Alguns historiadores admitem que Florença foi fruto, como berço

de cultura, de sua própria gente, não só de seus dirigentes, mas ninguém

nega que os Medici, notadamente Cosme (que faz reviver Platão) e

Lourenço, tenham exercido uma determinante influência no renascimento

do pensamento clássico.

Outros valores, também, como Poliziano e Alberti (mestre de

Paciolo), foram frutos diretos da ajuda dos Medicis.

Leão Batista Alberti, que era também pintor, tinha uma peculiar

“prova” para o que fazia: ao terminar um afresco mostrava-o às crianças

e só o exibia em público se aquelas tivessem “gostado” da pintura. Leão

Batista nasceu em Veneza, mas seus pais eram florentinos.

Descrever, todavia, todos os grandes nomes de tal época não é

tarefa para uma obra da natureza desta, mas é possível afirmar que a

época de Paciolo foi a das mais vigorosas em genialidades, bastando

citar o expoente máximo: Leonardo da Vinci (que se tornou amigo do frei),

em meu modo de entender, um dos maiores prodígios que a inteligência

humana poderia ter manifestado.

O século operou sensíveis transformações no mundo, não só pelos

gênios, mas, também, em razão da queda de Constantinopla, em 1453,

tomada por Maomé II, e as descobertas navais que culminaram com a da

América, em 1492.

A região de Luca Pacioli viveu, por quase todo o século, sob

a influência dos Medicis (de João, em 1421, a Lourenço, até 1492) e,

logicamente, sob o apoio à cultura (a união do recurso financeiro ao

da inteligência fez uma associação poderosa que marcou a história da

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humanidade), o que motivou a outros poderosos também a agirem em

favor da evolução intelectual.

1.5. AS ORIGENS E O AMBIENTE DE VENEZA ONDE PACIOLO

EDITOU A “SUMMA”

Para entender a obra de Frei Luca é preciso que nos inteiremos do

que Veneza de fato significou. Desde os fins do século XI, Veneza começou

a se firmar com as vitórias de Durazzo e Valona (que a liberta do jogo da

dívida externa).

Daí por diante, o crescimento acumulou-se sem retrocessos que

comprometessem o destino histórico da comuna e ela passou a dominar o

mar Adriático, ajudada pela sua privilegiada situação geográfi ca.

Da região conquistada aos Balcãs e aos arquipélagos gregos foi, para os

venezianos, apenas uma conseqüência natural.

A rota de Constantinopla, o grande centro do Oriente Médio, esteve a

seguir, em suas mãos e Veneza possuiu a simpatia e a isenção tributária dos

orientais, esta que permitiu praticar bons preços, conquistando o mercado

(a partir da carta de 1082 de Alejo Comeno).

Donos do comércio de Bizâncio, os venezianos se enriqueceram

prodigiosamente (porque a Idade Média do Oriente foi de riquezas e não de

trevas econômicas como a do Ocidente).

O que os venezianos colhiam na Europa repassavam ao Oriente

Médio e, de lá, também, traziam mercadorias raras para o mesmo mercado

fornecedor (marfim, pedras preciosas, âmbar, frutos exóticos, açúcar e até

trigo da Rússia do sul, além de mercadorias sofisticadas, como brocados de

ouro, púrpura, tapetes de Bagdad e Damasco, etc.).

Não faltaram a Veneza a inveja dos inimigos gratuitos e as difi culdades

(como a retirada dos privilégios de Bizâncio, em 1171), notadamente por

parte de Pisa e Gênova, outras duas grandes potências marítimas.

Favorecimentos do clero, como as Cruzadas, em 1201 (inspirada

por Inocêncio III), recuperaram, todavia, as perdas anteriores e tornaram

Veneza ainda mais poderosa.

O dodge Enrique Dandolo, na época, captou somas vultosas,

garantindo o tráfego das cruzadas, a partir de São Marcos.

Fundação Brasileira de Contabilidade

A aventura da 4ª Cruzada trouxe altos dividendos a Veneza, inclusive

o restabelecimento dos privilégios cassados em 1171 pela Carta de Alejo

Comeno.

O movimento assegurou aos venezianos os pontos estratégicos do

Adríático, inclusive Zara (onde Paciolo esteve, no século XV, como consta

de seus dados biográficos que mais adiante daremos).

Gênova nunca se conformou com a supremacia de Veneza e sobre

esta conseguiu vantagens quando, em 1261, tirou do império grego

grandes proveitos (com a ocupação de Quios e Lesbos).

Transitoriamente, Veneza aparentou ceder e por 40 anos uma

guerra fria abalou as partes (em 1278, tais prejuízos materiais inspiraram

até a criação de um Tribunal, em Veneza, para avaliá-los).

Só em 1299, por interferência e intermediação dos Viscontis, chegou-

se a uma “paz de conveniência” entre Gênova e Veneza. Dividiram elas as

rotas e conviveram, por algum tempo, repartindo os proveitos.

Em 1284, Veneza imprimiu sua moeda própria, o DUCADO.

No Século XIV, houve, todavia, um esfriamento comercial, em

relação às expansões do século XIII, embora não um retrocesso; o motivo

foi um certo marasmo ou recessão nas economias.

A guerra dos 100 anos é apontada por vários historiadores como

a grande causadora do arrefecimento comercial, que não só atingiu as

potências marítimas, mas afetou a Inglaterra, Flandres e grande parte da

França, ou seja, grandes pontos do comércio europeu.

Gênova e Veneza, todavia, continuaram a ser as grandes

intermediárias entre a Europa e o oriente até Bagdad.

Na Itália, as lutas internas completaram o quadro de decadência,

atingindo, duramente, seu comércio no século XIV. A Alemanha passou,

também, por um quadro de anarquia.

Os venezianos, todavia, mantiveram-se operosos e, no início do

século, já expandiam seu poder no Mediterrâneo (1301), o que continuaria

sempre em ascensão; em 1302, renovaram seu “Tratado” com o Egito (que

Gênova deixou prescrever) e instalaram um consulado em Alexandria,

seguindo-se depois novos “Tratado”, sem 1344, 1355 e 1362.

Concomitantemente, também se dirigiram a Anvers, que lhes abriu

as portas (já que com Bruges não se chegava a acordos até 1314).

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Curioso é observar, historicamente, que a luta entre genoveses e

venezianos, tão acirrada nos mares do sul, transformou-se em solidariedade

nos mares do norte (rotas mais longínquas para os mesmos), e ambos

passaram a abranger todas as rotas básicas da Europa.

As incursões nos mares do norte foram, cada vez mais, praticadas

em razão das dificuldades das incursões terrestres, obstadas por lutas

entre guelfos e gibelinos, principalmente.

Em Bruges, nos fins do século XIV, nasceram as Bolsas de Comércio

(fundadas pela família Van Der Beurze) e os movimentos defluentes do

comércio se aceleraram.

A Itália, no século XIV, todavia, no seu interior, já se desenvolvia

apurada tecnologia industrial, fortalecendo não só as ofertas como o

transporte dos produtos, independentemente de outros fornecimentos.

Tal foi o desenvolvimento, que historiadores, como Bonfante,

admitem que o progresso de algumas nações e, especialmente, a França,

é devido à participação italiana de seus banqueiros, técnicos e artesãos

(Pietro Bonfante - Storia Del Commercio, vol. 2, pág. 5, editor Giappicheili,

Turim, AHG, 2ª edição).

Tal século trouxe altos benefícios a Veneza, mas o seguinte,

aquele em que Paciolo vai a Veneza, já é de grandes baixas para ela, em

decorrência dos influentes turcos e da perda de muitos mercados.

No fim do século XV, quando Paciolo edita sua “Summa”, um evento

fatal ainda mais abate sobre Veneza: a rota de Vasco da Gama, do caminho

para as Índias.

Com a Espanha se fortalecendo pela conquista de Granada, esta

que determinou o fim do domínio mouro, e Portugal se organizando para

a sua grande arrancada (em 1498 cruza o Cabo da Boa Esperança), o

mercado do Oriente transferiu-se dos italianos para os portugueses.

Enquanto Isabel promovia a unidade do reino espanhol e Portugal

mantinha-se unido a suas cidades maiores, a Itália, ao contrário, as tinha

divididas e na chegada do século XVI, sofria uma natural decadência.

Uma fatalidade histórica passou, na época, a ocorrer: Roma, que

se tornara grande na antigüidade clássica, pela agregação dos vizinhos,

tivera sido o oposto no século XV, ou seja, um fator de desagregação

e antagonismo das comunas italianas, ensejando o defluente declínio

econômico.

Fundação Brasileira de Contabilidade

As glórias do mundo ocidental, no século XVI, passaram de uma

península para outra, ou seja, da Itálica para a Ibérica, somando-se a tudo

isso as vitórias que estas conseguiram sobre os muçulmanos, acrescidas

do domínio das Índias e do acesso aos tesouros das Américas.

1.6. O SISTEMA FISCAL DE VENEZA NO SÉCULO XV

A República de Veneza, no século XV, havia mantido uma política

fiscal emersa de precedências históricas, ou seja, de uma sedimentação

de práticas.

A base da política que sustentava o sistema era dupla: 1) a proteção

dos mercados do Rialto (local de Veneza); e 2) privilégios sobre as trocas

de mercadorias.

Uma legislação específica e a fixação de tarifas compulsórias, ambas

de policiamento sobre as atividades comercial e uma boa organização

burocrática, supriu o erário da República por meio do imposto direto.

Os movimentos produtivos e comerciais do “sal”, taxados no

consumo, deram forte apoio às finanças da República e deixaram vasta

documentação contábil (possuímos cópias de muitos documentos, em

nossos arquivos históricos particulares, de tais transações, a nós enviado

pelo Prof. Fanfani).

Apolítica fiscal “terrestre”, pois, assentou-se em tais bases. O erário da

República, todavia, enfrentou dificuldades de excessos de gastos, aplicados

estes em defesa na manutenção de um exército numeroso, até 1454.

Com a negociação da paz, os gastos reduziram- se e as finanças

públicas equilibraram- se, sem aumentos de tributos; outras sobretaxas,

todavia, ocorreram de 1470 a 1478.

Em 1482 e até 1484, uma nova guerra eclodiu, desta vez com

Ferrara, e criaram-se impostos extraordinários, apesar dos protestos do

povo (prejudicado em seu poder de compra), mas com prevalência do

interesse do erário.

Nos anos 400, dois terços da arrecadação tributária era a do Imposto

de Consumo. A República teve rendas extraordinárias, insuficientes,

todavia, para as suas reais necessidades. “Câmaras” fiscais estiveram

incumbidas da arrecadação e complexo foi o sistema de controle da

Receita e da Despesa.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

As mercadorias, entretanto, além de serem gravadas com impostos,

tiveram ainda os ônus das Corretoras de Transações Mercantis que se

“comissionavam” de 2% a 4% por compras e vendas (Messeterias) e,

embora controladas pelo governo, tiveram força pública (disto nos dá

notícia o “Tractatus” de Paciolo).

Quando se sobrecarregavam, pois as taxas e as exigências de

gastos do poder aumentavam, natural era que o custo das mercadorias se

elevasse e por esta razão; Veneza passou por vários períodos de inflação

gravosos.

Nessa época, a cidade possuiu um Conselho denominado “dos

Dez”, um Senado, mantendo a República uma Contabilidade Orçamentária

e elaborando Balanços Múltiplos relativos a cada uma das caixas.

Veneza, em 1494 (quando se edita a obra de Paciolo), já não tinha

toda a força de antes e o mundo se dividia entre Espanha e Portugal,

guiado pelos interesses fixados no “Tratado” das Tordesilhas.

As incursões na busca do “caminho das Índias” e das “ilhas que

Platão afirmava existirem do outro lado” haviam motivado, em muito, a

expansão ibérica. A dinastia de Avis, em Portugal, a partir da administração

do Infante Dom Henrique lançou-se em expedições ousadas (1420-1460)

e, nas cartas marítimas, desde 1425, já estavam assinaladas várias “ilhas”,

dentre elas uma denominada “Brasil” (José Hermano Saraiva - Breve

História de Portugal - edição Bestrand Venda Nova 1989).

Um fragmento do mapa de Andres Bianco, Veneziano, de 1436,

já incluía, também: Ilhas do Brasil, Antilhas, Porto Santo, Madeira, La

Palma, Gran Canária, Gomera e Hierro (I.P. Maguidovich - História del

Descubrimiento y exploracion de Latinoamerica, editorial Progresso,

Moscou, 1972).

Os portugueses aceitaram lendas que narravam que desde o

século VIII estariam os europeus chegando a um outro lado do Atlântico;

embora disto não se tenha provas históricas idôneas, o inequívoco é que

a era dos descobrimentos se inicia forte e decisiva no século XVI com as

navegações ousadas dos lusitanos.

A febre da agitação mercantilista, a ascensão inequívoca de

Portugal e da Espanha sobre os venezianos, na época de Paciolo, mudou

a face da civilização e a agitação dos negócios; facilitou a expansão dos

procedimentos contábeis, criando terreno propício para a ampla difusão

Fundação Brasileira de Contabilidade

das partidas dobradas.

A valorização da profissão contábil cresceu, bastando lembrar as

Ordenanças de Dom João II, de 1437 e 1442, e a dos Reis Católicos, de

1478, ambas da Espanha, para que se possa avaliar o destaque que o

Poder atribuía às funções de manutenção e exames de contas.

Cinqüenta anos antes da obra de Paciolo os contadores, na

Espanha, já eram delegados do Rei para fiscalizar todas as finanças da

Fazenda Real, tão como para cuidar dos negócios dela, relatando tudo o

que de irregular ocorresse.

Inequivocadamente, o alto prestígio que aos contadores se outorgou,

a importância que se atribuiu à boa manutenção e à prestação de contas

está evidenciado em uma publicação feita em 1829, editada sob o título

de: “Colección de las leyes, ordenanças, plantas, decretos, instrucciones y

reglamentos expedidos para gobierno del Tribunal y Contadoria Mayor de

Cuentas desde el reinado del señor Don juan II hasta el dia - Madrid en la

imprenta real”.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO II

AS ORIGENS DA EVOLUÇÃO DAS PARTIDAS DOBRADAS

O presente capítulo apresenta matéria relativa ao nascimento de

uma evolução do processo das Partidas Dobradas na Itália. Muitas dúvidas

históricas ainda existem sobre a verdadeira origem e aqui apresentamos

as que são comprovadas.

Contribuem, tais conhecimentos, para entender o que alicerçou o

conhecimento de Luca Pacioli sobre tal questão e também para evidenciar

que não foi ele o autor das Partidas Dobradas, mas, sim, o grande motivo

da imensa difusão destas em toda a Europa.

As teses vigorosas de Federigo Melis, as obras antigas do Oriente

Médio, as advertências do insigne historiógrafo Carlo Antinori, assim

como as contribuições das obras de Vincenzo Masi e Tommazo Zerbi,

são relevantes apoios que encontrei para desenvolver o que este Capítulo

apresenta.

II

AS ORIGENS DA EVOLUÇÃO DAS PARTIDAS DOBRADAS

2.1. A ÉPOCA DO DESENVOLVIMENTO DAS PARTIDAS DOBRADAS

O processo de registros contábeis que se consagrou por uma

“equação” ou igualdade entre o débito e o crédito de contas, alega o

emérito professor Federigo Melis, haver surgido na Itália, acredita-se,

entre os anos de 1250 e 1280.

Ninguém conseguiu, até os nossos dias, identificar o autor das

“partidas dobradas” nem apresentar provas das aplicações destas tal

como o fizeram os italianos antes da época referida (embora existam

antiquíssimos documentos que autorizam a crer que a intuição para o

processo tenha nascido no Oriente).

Há mais de sete séculos, pois, adota-se um critério que se tornou

insuperável e cuja natureza é de evidenciar “Causa” e “Efeito” de um ou

mais fenômenos patrimoniais.

Fundação Brasileira de Contabilidade

Teses foram levantadas, no século XIX, visando hipotetizar o

nascimento das partidas dobradas no Império Romano, mas nenhuma

prova foi apresentada e nem encontrada.

A seguir, passou-se a admitir que elas teriam nascido em Gênova,

na primeira metade do século XIV, mas a tese de Federigo Melis tem

fortes argumentos a favor de que o processo tivesse nascido na segunda

metade do século XIII e na região da Itália denominada “Toscanal” (a

mesma onde nasceu Paciolo), embora outros eminentes historiadores

da Contabilidade, no século XXI, como o insigne professor Carlo Antinori,

tenham contestado a origem evocada por Melis; que a intuição para o

processo é antiquíssima, todavia, não se pode contestar.

2.2. A INTUIÇÃO PARA O PROCESSO DE REGISTROS E A

EVOLUÇÃO NATURAL DAS PARTIDAS DOBRADAS

Admite-se que foram os sumero-babilônios os autores do sistema de

“débito” e “crédito”, baseado na identificação mental do que “é meu” e “é seu”.

As contas, como instrumentos de registros, já haviam nascido como

primeiras manifestações inteligentes do homem, mesmo antes que esse

tivesse inventado a escrita ou soubesse calcular, não sendo de admirar

que tivessem sido preocupação o desenvolvimento das aludidas formas

de “guardar memória” de forma organizada.

As provas de tais origens remotas, provenientes do Paleolítico

Superior, existem em várias partes do mundo, inclusive e fartamente

no Brasil (as de Minas Gerais, relativas às inscrições nas grutas de

Montalvânia, foram objeto de um trabalho meu, apresentado na Itália em

homenagem aos 450 anos da Universidade de Messina, em Convenção

Internacional de História da Contabilidade realizado em Taormina, na

Sicília, e está inserido na parte de Pesquisas, em minha página na internet

www.lopesdesa.com.br).

Deveras, antigos também são os registros encontrados na gruta de

D’Aurignac, no Alto Garone, sul da França (região calcária onde existem

muitas amostras da presença do homem há mais de 20.000 anos); a

maioria é de inscrições em ossos de rena, animal abundante na região,

na época (diversos museus arqueológicos, mesmo pequenos, como os de

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Saint Emilion, na Aquitânia, exibem farto material em ossos de rena, como

tive ocasião de pessoalmente examinar).

Procede, pois, a feliz expressão de Vincenzo Masi que “mal a

vida do ser se afirma racionalmente e já surgem os registros contábeis”

(Vincenzo Masi - La Ragioneria nella Preistoria e nell’antichitá, pág. 42,

ed. Tamari, Bolonha, 1964).

Tão logo o conceito de patrimônio se formou, para exprimir algo

amealhado no intuito de suprir as necessidades humanas, parece ter

sido imposto à razão do homem o controle pela memória dos fatos, esta

oferecida pela “conta” (que reúne qualidade e quantidade das coisas).

A conta, pois, associa-se a “coisas amealhadas” expressas

qualitativa e quantitativamente por símbolos, estes substituindo a

“memória” por um “registro organizado”.

A seguir, evolui-se para o “cálculo dos quantitativos inscritos”, e

assim surgiu, em sua dinâmica, a “Conta Primitiva”.

Tal recurso do homem, segundo Cecherelli, foi intuitivo e nasceu

sem maiores esforços, sendo uma tendência natural (Alberto Ceccherelli

- La Logismologia, pág. 4 e seguintes, edição F. Vallardi, Milão, 1915).

A evolução para o débito e o crédito, todavia, tão como a reunião

sistematizada de fatos, só mais tarde, em estágio bem mais evoluído,

o homem criaria, quando também começou a dedicar-se a imaginar os

números abstratos (na Suméria, pelos contadores, admite-se há cerca de

6.000 anos) .

Foi, pois, em uma das mais antigas civilizações, desenvolvida

na baixa Mesopotâmia, que se deram os grandes passos evolutivos na

técnica dos registros contábeis.

De início rudimentar (cerca de 5.500 anos atrás), com inscrições

em argila, já vamos encontrar um sistema informativo que daria base

ao nascimento dos “Diários”, “Razões” e depois até “Balanços”, na IIIª

dinastia de Ur.

A fórmula original do débito e do crédito (expressões “mu-bal”, no

idioma sumério) surge de critérios de escrita já evoluídos, há mais de

4.600 anos.

As tabuletas de Lagash são de cerca de 2.600 anos antes de Cristo

(Museu do Cincoentenário, de Bruxelas), época em que já se faziam até

apurações de resultados em “contas do Exercício”.

Fundação Brasileira de Contabilidade

É fartíssima a prova de registros contábeis em argila, daquele remoto

tempo, como as de “Drehen” (nome de uma cidade perto de Nippur, cuja

denominação antiga se desconhece) e as que se encontram no Museu do

Louvre, em Paris, naquele do Vaticano (para citar apenas como exemplo

as matérias que vi) contendo, inclusive, contas de controle de tributos

sobre animais possuídos pelos proprietários, tão como de “Colheitas”,

“rações ao pessoal”, etc.

A Babilônia, que seria o Estado centralizador entre as civilizações

da Suméria e as de Accad, cuja 1ª dinastia é a de Babel, embora de início

não tivesse tido grande evolução nos registros contábeis, é, segundo

Melis, o berço da sistemática da partida dobrada, quando divide colunas

por funções (tipo de escrita denominada “Tabular”).

Escreve o genial historiador italiano que muito lhe impressionou

o exame de registros de salários (de cerca de 2.300 anos atrás), onde

“pela primeira vez, observamos colunas por funções”, ou seja, o que hoje

modernamente podemos dizer “dupla entrada” (Federico Melis, Storia

delia Ragioneria, pág. 225, editor Zuffi, Bolonha, 1950).

A conta de salários (referida por Melis), de Nippur, de 1306 antes

de Cristo, inscrita em argila e em forma tabelar, hoje acervo do Museu

da Babilônia da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, é

um exemplo que reforça a tese sobre o adiantado estado de registros

praticado na Mesopotâmia.

O processo de “colunas”, “duplo”, surgido há milênios, todavia, só

se completaria na forma como ainda hoje utilizamos, na alta Idade Média,

segundo tudo leva a crer, na Itália.O Diário, o Razão, os Balanços, as

apurações de contas e seus saldos, todavia, são de uso milenar.

Escreve Masi, a respeito, que “os tempos históricos encontram, nos

povos da Suméria, os que souberam dar, também contabilmente, forma e

aspectos que serviram de guia para a evolução futura” (Vincenzo Masi - La

Ragioneria nella preisteria e nell’antichitá, pág. 103, ed. Tomari, Bolonha,

1964).

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

2.3. A ESCRITURAÇÃO SIMPLES A CAMINHO DAS PARTIDAS

DOBRADAS - HIPÓTESES SOBRE AS ORIGENS DA PARTIDA

DOBRADA

O mais antigo documento que se conhece, por “Partidas Simples”,

tendendo a ser admitido como uma base evolutiva para a partida dobrada,

é um fragmento de um livro de banqueiros florentinos que operavam

em Bolonha, na Itália, de 1211 (encontra-se na Biblioteca “Mediceo-

Laurenziana” de Florença).

Nessa fase, já se separava o “Deve” e o “Haver” com destaque, em

colunas, distintas, de “cima” e “de baixo” (seções ou parte sobrepostas),

em linhas horizontais, com barras. Como o documento não permite

conexões para seu exame, maiores indagações não foram permitidas aos

nossos historiadores da Contabilidade.

Tais registros ocorrem em uma época de expansão das atividades

bancárias florentinas (que fariam de Florença, com os Medicis, o grande

poder financeiro da Itália e um dos maiores da Europa, na Idade Média,

como já foi dito neste livro no Capítulo anterior), na qual o uso dos

registros contábeis começou a dar margem a uma tendência natural de

aperfeiçoamentos.

Por força das exigências da época (que se atribui à forte influência

do clero), a escrita era feita com o uso de números romanos, o que criava

um obstáculo sério aos cálculos e às apurações.

Em 1202, o emérito contador e matemático Leonardo Fibonacci, de

Pisa, escreveu um livro denominado “Liber Abacci”, no qual evidenciou a

vantagem prática da escrita por “números arábicos” (estes que os árabes

haviam feito famosos pela difusão, mas que foram criados na Índia e não

pelos árabes).

Esse é um outro fator que se admite como tendo militado em favor

da “evolução” da escrita por “Partidas Simples” para uma escrita por

“Partidas Dobradas”.

Como a época inspirava evolução (pelo maior volume das operações

e pela segmentação delas), como os números arábicos facilitavam o

desempenho, acredita-se (é, apenas hipótese) que tais ocorrências tenham

influído no aparecimento, ainda no século XIII, das “duplas inscrições”.

Fundação Brasileira de Contabilidade

Na ocasião, proliferava a quantidade de livros abertos para diversas

finalidades, denominados pela “cor das capas”: livro amarelo, livro negro,

livro vermelho, tão como por importância (livro secreto, livro da herança,

etc.).

Essa é outra hipótese que se levanta, ou seja, de que a “coordenação

dos livros” tenha exigido que os débitos em um coincidissem com os

créditos em outro, e que nessas circunstâncias, à semelhança das “Contas

Correntes” de pessoas (que existem desde a Suméria), tenha feito a das

“coisas”, como se estas fossem um correntista (como se o Caixa, o Capital,

os Móveis, os Imóveis, etc. fossem pessoas sujeitas a débito e a crédito).

De fato, tal argumento se fortalece nas obras que difundiriam a

Partida Dobrada (iniciada com a de Paciolo) e que atribuiriam o “caráter

pessoal” às contas materiais, ou seja, evocando uma “personalidade”

delas, como é exemplo o texto: “Faça de conta que a caixa é uma pessoa

que a ela se debita tudo o que se lhe dá por recebimento e que se credita

por tudo que dela recebe, por pagamento” (esse era o conceito difundido

e que Paciolo bem nos lembra em seu “Tratado”).

Outra hipótese que se formula, para justificar o aparecimento das

partidas duplas, levantada pelo insigne cientista e historiador Fábio Besta,

é a de que, inevitavelmente, o que se debita a uma conta termina-se

por creditar a outra e quando há organização e preocupação em tudo

evidenciar, inevitavelmente, chega-se ao “registro duplo”.

A referida suposição atribui, pois, ao “preciosismo” da abrangência

das tarefas a responsabilidade por haver gerado um processo, ou seja, a

“contrapartida” seria uma conseqüência inevitável da “partida” (segundo o

eminente Fábio Besta, em sua ia Regioneria, volume III, edição Vallardi,

Milão, 2ª edição, 1929, páginas 273 e seguintes).

Besta, todavia, indica como o mais antigo atestado ou prova da

existência das partidas duplas os registros de 1340, que se encontram

nos Arquivos do Estado, de Gênova, tese esta que Melis contraria com

documentos mais antigos, encontrados na Toscana e relativos ao período

entre 1281 e 1288, nas cidades de Siena e Prato.

Fábio Besta admite, portanto, a “evolução natural”, tese que

também foi agasalhada por Zerbi, um dos maiores historiadores do

assunto, sustentando a metamorfose do uso simples do débito e do crédito

(Tommaso Zerbi - Le Origine della Partida Doppia, edição Marzorati, Milão,

1952).

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Federigo Melis não refutou as presunções referidas, mas, apenas,

defendeu para a Toscana o privilégio de berço do processo (obedecendo à

lógica da evolução dos banqueiros florentinos e de Siena, como procurou

evidenciar por documentos diversos da Companhia Gallerani, de Siena,

Companhia Del Bene e outras).

As teses sobre as origens, entretanto, são diversas, mas todas

no campo das hipóteses. Melis ainda admitiu, complementarmente, que

o uso das “cambiais” cooperou para o desenvolvimento do processo,

ou seja, a forma pela qual os banqueiros usavam para cobrar “juros”,

simulando serem “taxas de câmbio” (porque os juros eram condenados

pelo clero, preso à doutrina aristotélica), passou a exigir mais sofisticação

de registros e tal prática poderia ter estimulado a de novos procedimentos

mais apurados.

Para sustentar essa outra tese o grande cientista referido

aprofundou-se na busca de tais origens, passando longo período nos

velhos arquivos e chegando a editar valiosíssimos trabalhos a respeito (o

que me confessou, pessoalmente, em Florença, em 1972, ou seja, que tal

esforço estava a custar-lhe a vida; de fato, pouco depois viria a falecer, tão

prematuramente).

Admitiu Melis que o grande volume de registros e a segurança

que exigia a multiplicidade de contas envolvidas foram o grande fator de

metamorfose da Partida Simples em Dupla e no qual o “giro das cambiais”

e a “vida bancária” muito influiu (é notável a sua obra, editada pelo Monte

Dei Paschi di Siena, em 1972, sob o título “Guida alta Mostra Internazionale

di Storia della Banca, secoli XIII-XVI).

O emérito historiador percorreu e analisou “giros cambiais” desde

1262 e sua pesquisa abrangeu as grandes companhias comerciais da

época (como a dos Buonsignori, de 1209).

Outra hipótese (que Melis, também, não excluiu) sobre o nascimento

das partidas dobradas foi o aparecimento da conta de “Capital”, que se

tornou um “centro de preocupações” quanto à pertinente evolução (ligada,

na época, ao denominado de “Avanços e Desavanços”, hoje, “Lucros e

Perdas”).

Muitos foram os nossos estudiosos que se preocuparam em analisar

os fatores que teriam gerado a Partida Dupla (Alfieri, Rigobon, Vianello,

Corsani, Massa, Jaeger, Kheil, Browon, Wool, Peragaló, Masi, Zerbi,

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Vlaemminck, Lamouroux, Antinori, Esteve, etc.), mas tudo, repetimos,

repousa ainda no campo das hipóteses.

2.4. A CONTA CAPITAL E AS EVOLUÇÕES DA ESCRITA CONTÁBIL

A concessão do regime feudal, entende Masi (Vincenzo Masi -

La Ragioneria nell’etá medievale, pág. 207 e seguintes, edição, Tamari,

Bolonha, 1975), ao mudar e abalar estruturas que permitiriam a formação de

Companhias, imprimiu sobre a escrita contábil novas responsabilidades.

Uma delas foi a de registrar o “Capital” como “Fonte de recursos dos

proprietários”, o que surgiu como uma “responsabilidade especial”.

Um “novo clima econômico”, como escreveu o mestre referido, gerou

um “novo posicionamento de registros”.

Tive o privilégio de ler os originais da referida obra de Masi quando

com o mesmo, pessoalmente, estive em Bolonha e recordo-me que o mestre

nos afirmou ser sua convicção de que a fi losofia capitalista da alta Idade

Média não se confundia com aquela praticada em Roma dos Cesares e que

a conta “Capital” era fruto da época medieval, como uma “chama a infl amar

novas idéias”, competente para metamorfoses.

Desejou, com isto, entendo, recusar a tese de Giovanni Rossi sobre o

nascimento das partidas dobradas, embora muito tivesse respeito pelo genial

luminar do personalismo (tenho o privilégio de possuir uma obra de Rossi

comentada manualmente por Masi e que foi da biblioteca particular deste

meu mestre, doada a mim por sua filha Liliana Galli Masi e que reside em

Bolonha).

Seja como for, é inegável a importância da conta “Capital” como “tomada

de consciência metodológica no campo contábil”, ainda que não se comprove

possa ela ter sido a única inspiradora da origem da partida dobrada.

Qual a intuição da natureza “credora” da mesma, todavia, só pode ser

encontrada ao sabor de cada hipótese; mas se nos basearmos nos textos

de Paciolo, ainda que este não se tenha dedicado a tal explicação, pode-se

inferir que teve o caráter da distinção de personalidades (do comerciante e da

empresa).

Os que admitem a metamorfose da Partida Simples para a Dobrada,

por evolução natural, vêm o crédito como “contrapartida” de caixa; os que

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

admitem que ela se fez credora por representar “o crédito do sócio perante

a companhia” por efeito de seu aporte de capital, vêm na mesma o critério

como “extensão” do que de “pessoal” tal conta representava.

O fato é que toda a documentação que comprova o critério das partidas

dobradas evidencia a existência da conta de “capital”. Tudo faz crer que o

conceito aceitável seja o da evidência do “crédito do sócio” (pela forma de

Tratamento dada à conta).

Exemplo disto é o histórico das partidas, onde se lê que: os sócios

“devem haver a tal soma, que é aquela mediante a qual dão corpo à

companhia”, figurando uma “responsabilidade da empresa para com o seu

proprietário associado”.

O histórico do lançamento, referindo-se a “dar corpo à Companhia”

e que, às vezes, surge como “corpo de faculdade”, admite Melis, é uma

influência da mentalidade capitalista de “criar uma pessoa distinta dos sócios”,

portanto, “um outro corpo” (Federigo Melis, Storia della Ragioneria, pág. 405,

ed. Zuff., Bolonha, 1950).

Os conceitos “jurídicos”, tão como os “pessoais”, parecem ser os

predominantes na metodologia do processo e a conta de capital confi rma

tal tendência (a reação a esse personalismo só ocorreria muito mais tarde,

admite-se que com Simon Stevin, belga de nascimento, mas assessor do

Príncipe holandês Maurício de Nassau, no século XVII).

Na prática, todavia, a conta era usada com funções amplas, inclusive

quando ocorria a “incorporação de negócios”, quando de uma “velha

companhia” outra se gerava com assimilação do ativo.

A liquidação da antiga era absorvida no capital da nova, como são

exemplos as partidas do livro “Del Asse Sexto”, da Companhia dos Peruzzi,

de 1335-1343 (ainda hoje, em Florença, pode-se visitar uma pequena praça,

denominada Peruzzi e que conserva um dos prédios da poderosa empresa).

No livro referido, a conta de capital fez-se “credora” do Ativo da

companhia liquidada. O caráter que se emprestava à conta, por conseguinte,

não era, apenas, o de “Formação inicial de capital”, mas de toda a dinâmica

do mesmo.

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2.5. ANTIGOS DOCUMENTOS DA PARTIDA DOBRADA

O mais antigo documento que se conhece ligado ao processo da

Partida Dobrada, segundo Federigo Melis, é datado de 22 de dezembro

de 1281 e é de uma companhia mercantil e bancária da cidade de Siena

(Toscana), na Itália (o profesor Carlo Antinori, em tese recente, apresentou

origens mais antigas dos documentos em partida dobrada).

A conta do movimento de dinheiro (caixa) está desenvolvida em

contraposições no mesmo fólio, de entrada e saída, destacando-se,

depois, em outras partes do livro.

O estudo de tal documentação gerou um trabalho de G. Astuti,

intitulado “Il libro dell’entrata e dell’uscita di uman compagnia senese del

secolo XIII (1277-1282), publicado em Turim, em 1934.

Melis, ao aprofundar suas pesquisas sobre as descobertas de

Astuti, desenvolveu sua tese que dá a autoria das Partidas Dobradas

aos toscanos, nos fins do século XIII (embora isso tenha sido contestado,

recentemente, como dissemos, pelo Prof. Carlo Antinori em tese a

Convenção da Sociedade Italiana de História da Contabilidade).

Existem, todavia, e em boa quantidade, elementos de registros, do

início do século XIV, que mostram o processo já em plena maturidade,

todos anteriores aos genoveses de 1340. No museu de Bruxelas, por

exemplo, Melis localizou e estudou os registros da Companhia Galerani,

de 1305 a 1308.

Os livros da companhia de Geri Burlamarchi, da cidade de Luca, de

1332 a 1336, são outros exemplos de documentação antiga das Partidas

Dobradas.

Não existem, pois, dúvidas históricas sobre a evolução de tal

processo na Itália, embora existam sobre serem mais antigos os da

denominada Toscana (a antiga Etrúria, quase ao centro da Península),

nos fins do século XIII.

2.6. VIGOR DAS PROVAS DOCUMENTAIS DA EVOLUÇÃO DA

PARTIDA DOBRADA

O uso de livros para a escrituração é muito antigo e eles já eram

referidos por Cícero e outros escritores da civilização romana clássica.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Existe “Folha de Papiro”, que se supõe possa ter sido de livros (é apenas

suposição) e que apresenta registros de custos de panificação, em Menfis,

no Egito.

Livros de registro, todavia, por Partidas Dobradas, só existem

provas confiáveis a partir do fim do século XIII e estas são abundantes

e vigorosas em relação às primeiras décadas do século XIV. Entre tais

provas, podemos apontar apenas a título de exemplo (existem outras

mais):

Libro della Compagnia Farolfi (1299-1300).

Libro Segreto di Alberto Giudice e Conipagnia 1302-1329).

Libro della Compagnia dei Fini (1297-1303).

Libro dei contí dei Frescobaldi (1311-1313).

Libro delle Compere e Vendite della Compagnia del Bene (13181324).

Libro delia Ragione della Compagnia dei Bardi (1314-1336), etc.

Todos esses livros são anteriores a 1340, data que se considerava

a do “nascimento” da Partida Dobrada, mas que, em realidade, não o é

porque existe prova da existência em datas mais antigas.

Está fartamente comprovada na Itália a época da metamorfose das

“Partidas Simples” para as “Partidas Dobradas”, pois, a partir do século XIII,

tornam-se abundantes as documentações em várias partes da península

(Gênova, Veneza, Siena, etc.).

2.7. CUSTOS INDUSTRIAIS POR PARTIDAS DOBRADAS NO

SÉCULO XIV

O uso da escrita contábil de custos é milenar e existem provas

de sua existência no período de Lagash, há 5.000 anos (3.000 a.C.,

aproximadamente), pertencentes a diversos museus como os do Louvre,

em Paris, Cincoentenário, em Bruxelas, do Estado de Berlim, no Britânico,

de Londres, e na Universidade de Filadélfia, no U.S.A.

A escrita contábil por Partidas Dobradas, aplicadas aos custos,

todavia, só se comprovou a partir da primeira metade do século XIV.

Existem provas no “Libro delle Comprevendite della Compagnia del Bene”,

de 1318 a 1324, no qual se apuraram custos de compras, de transportes,

de tinturaria e até juros sobre o capital, como muitos outros.

Fundação Brasileira de Contabilidade

O custo “mercantil” foi de maior utilização, posto que a indústria

submetia-se a controles legais que impediam sua evolução, mas, mesmo

assim, existia e realizada era a sua escrita.

A Companhia Del Bene lega-nos, no período de 1318-1324,

exuberante exemplo de escrita contábil de custos por partida dobrada no

seu denominado “Libro Nero” (os livros eram também denominados de

acordo com a cor de suas capas, por isto, no caso o Livro Negro) tão como

no “Libro dei lavoranti dell’arte della lana” (1367-1368).

O sistema de custos era complexo; envolvia diversos livros e

registrava os elementos, as fases e os produtos (a análise por atividade já

era praticada há séculos) com preciosismo.

A Companhia Datini, da cidade de Prato, lega-nos, também,

documentário de valor relativo ao período 1396-1399.

Na mesma empresa, existiam: o “Libro Memoriale” para o Custo

das Matérias Primas, o “Libro dei Lavoranti”, para a mão-de-obra, “Libro

dei filatori”, destinado ao controle da fiação, “Libro degli Orditori e textori”,

destinado ao controle da produção da urdidura e tecelagem, formando um

conjunto de alto valor técnico de escrita de custos.

Distinguem-se, por exemplo, os salários por suas naturezas (por

hora e por empreitada, etc.), as fases da produção, a composição dos

subelementos do custo, etc.

Muitos outros livros existem de outras Companhias, como a de

Giovanni di Feo Bracci, de Arezzo, no qual o “Libro Dell’arte della lana”,

de 1415-1423, oferece-nos exuberantes provas de aplicação da partida

dobrada aos custos de produção.

2.8. AS CONTAS DE RESULTADO

– MÉTODO “TABULAR” E O

ROMPIMENTO DAS TRADIÇÕES – TESE PLAUSÍVEL

Ilustres historiadores entendem que as contas de resultado foram

as primeiras a romperem os critérios tradicionais de registros, podendo

ser uma das mais vigorosas tendências para a aparição das Partidas

Dobradas (frases do “Tratado” de Paciolo autorizam a crer nessa tese).

Entre eles, alinha-se o já referido Prof. Tommaso Zerbi, em seu livro

dedicado, exclusivamente, às origens do processo de registros duplos.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Na escrita contábil, desde os sumero-babilonos, adotou-se o

método ““Tabular”“, por colunas distintas (em Roma, há cerca de 2.000

anos, Cícero sempre se referia à “Tabulae Rationum”; e as leis de 1197,

na Itália, já se referiam ao “Liber Tabulle”), nada disso significando que tal

se constituísse no verdadeiro sistema de registros por Partidas Dobradas

(ainda que houvesse duplas colunas ou critério dito “Tabular”), embora

existisse parte distinta para o débito e para o crédito.

Que o método “Tabular”, de partidas simples, tenha-se, todavia,

convertido em outro, mais avançado e “duplo”, isto, sim, é viável e

compreensível, ou seja, a tese de Fábio Besta se ajusta bem a tal forma

de hipotetizar sobre as origens do processo.

O método “Tabular”, nas contas de resultado, pode ter sido um

vigoroso embrião da metamorfose e essa conjectura é aceitável quanto a

uma probabilidade de origem, ou seja, três grandes fatores concorrentes

parecem ter sido os prováveis responsáveis pelo surgimento das partidas

dobradas, quer isolada, quer conjuntamente:

1) O método “Tabular”, que já disciplinava em colunas os débitos e

os créditos.

2) As contas de capital e as de resultados (avanços e

desavanços).

3) O ambiente econômico de pressão exercido pela expansão das

companhias e a decadência simultânea do feudalismo.

Em História da Contabilidade, o método “Tabular” tem uma

abrangência milenar e descreve todo um curso de procedimentos, mas,

por si só, entendo, resistiu ao tempo sem ensejar a metamorfose.

O processo referido pode ter sido um alicerce, mas admito que sobre

ele o que mais deve, possivelmente, ter influído tenha sido a necessidade do

controle da conta de capital e de suas variações (despesas e receitas).

Se o “Tabular” já colocava, de um lado, os débitos à esquerda

(tradicionalmente) e os créditos à direita, não há dúvida que aí estava

um princípio que haveria de ensejar desejos de confronto das contas e

nenhum mais lógico que o de uma igualdade que ampliasse a segurança

dos registros (há uma farta comprovação do uso do método).

O “fechamento” das colunas de débito e crédito, nas contas de

resultado, com a evidenciação deste, pode ter sido a “pedra de toque”

que equilibrou os registros e despertou o interesse pela “generalidade”,

gerando o processo das “Partidas Dobradas”.

Fundação Brasileira de Contabilidade

Todas essas hipóteses, embora plausíveis, não nos levam, entretanto,

a afirmativas que nos conduzam à convicção sobre o nascimento real do

critério; tudo faz crer que não exista um “autor das Partidas Dobradas”,

como tal reconhecido, pois nem referências de terceiros nem obras

escritas podem levar-nos a conhecê-lo.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO III

A LITERATURA CONTÁBIL DAS

PARTIDAS DOBRADAS

A literatura da Partida Dobrada, como difusão do processo, inicia-se

muito antes de Paciolo. Livros orientais e manuais de ensino prático são

trabalhos que circularam como “manuscritos”. Obra editada pela imprensa,

todavia, só a de Luca Pacioli pode ser reconhecida como como a primeira

e só ela alcançou consagração.

Este capítulo enfoca o curso histórico da literatura antes, e a que,

imediatamente, se seguiu a de Paciolo.

III

A LITERATURA CONTÁBIL DAS

PARTIDAS DOBRADAS

3.1. O ENSINO DAS PARTIDAS DOBRADAS E OS MANUAIS

Que as Partidas Dobradas eram “ensinadas” e que foi divulgada

após a sua maturação como procedimento contábil não há qualquer dúvida.

Desenvolvida nos fins do século XIII, expandiu-se, na Itália, velozmente,

nos séculos seguintes, mas tudo indica que foi amplamente difundida no

século XIV.

Existem provas indiretas, indiscutíveis, de que circulavam “Manuais”,

ensinando a escrita contábil pelo processo “duplo”. Como a imprensa não

havia ainda adotado um processo de industrialização (só surgido com o

advento daquele de Gutemberg), a difusão era feita em “Manuscritos”.

No fi m do século XIII, surgiram, na Itália, as escolas que ensinavam

aritmética, por meio de “Mestres de Ábaco” (instrumentos de cálculo).

Admite-se que a obra de Leonardo Fibonacci, o pisano, intitulada

“Liber Abaci”, de 1202, tenha exercido rara influência (o mestre havia se

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inspirado nas obras dos árabes, que desde o século IX parecem ter tido

grande alcance na Europa) sobre o desenvolvimento da escrita contábil,

mas não aquele que pudesse ainda alcançar a extensão desejável.

A cultura, por falta de veículos de maior eficácia quanto à difusão,

caminhou a passos lentos.

Nos séculos XIV e XV, todavia, as Escolas referidas já não eram

dedicadas só à aritmética, mas, também, ensinavam Contabilidade e

técnica comercial.

Foram elas a semente de uma coordenação de conhecimentos que

visou, objetivamente, à evolução empresarial, sendo um apoio cultural ao

grande progresso dos capitais e às necessidades do próprio mercado de

trabalho.

Os mestres de Ábaco, de Florença, com a principal escola situada

em “Santa Trinitá”, tiveram expoentes como Paolo Dagomari, Troilo de

Cancelaris, Francesco da Cancelario (filho de Troilo), Filippus de Pisa e

outros tantos.

Troilo de Cancelaris notabilizou-se como Mestre de Partidas

Dobradas (1421-1454), estas que ele ensinava sob o título de “Método de

Veneza”.

Segundo Fábio Besta, teria Troilo escrito um Manual que inspirou

Paciolo à produção do seu famoso “Tratado” (são hipóteses sem provas

concretas). Os referidos Manuscritos de Partida Dobrada, todavia, não

chegaram até nossos dias, não existindo, portanto, amostra material sobre

a existência deles.

Admite-se que o ensino se processava mais oralmente do que por

textos, e fortifica tal hipótese a ausência das provas materiais de escritos.

Besta, todavia, afirma que foi o manuscrito de Troilo de Cancelaris que se

difundiu e que inspirou, inclusive, traduções na Europa.

O processo e o ensino das Partidas Dobradas, todavia, parece ter-

se difundido mais na prática, nas próprias empresas, do que mesmo nas

escolas dos séculos XIV e XV, mas o mais famoso centro de ensinamento

e difusão, sem dúvida, parece ter-se centralizado em Veneza.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

3.2.

A LITERATURA CONTÁBIL CONHECIDA NOS SÉCULOS

ANTERIORES AO XV

O Oriente Médio, segundo se comprova pelos acervos dos

Museus, notadamente o de Istambul, abrigou o aparecimento de obras de

Contabilidade, inclusive de um certo avanço, como a de Mazenderani, no

século XIV.

Admite-se que desde o século IX tais obras circulassem e algumas

são conhecidas, mas até o presente momento não se logrou provar que

se referissem, inequivocamente, às Partidas Dobradas tal como aquela

desenvolvida na Itália.

Sobre Mazenderani e sua obra, de 1363 (catalogada sob nº

2.756 na divisão de manuscritos da Biblioteca Ayasofya, de Istambul,

Turquia), intitulada “Risale-i-Felekiye”, com 277 páginas e formato 12 x

17, produzimos uma monografia, publicada pelo CRCMG, sob o título “A

literatura contábil antes de Paciolo”.

O ambiente cultural árabe já era muito evoluído e, no século IX,

a obra de Al-Khwarizmi sobre as Matemáticas, vertida para o latim, já

provava o nível de civilização alcançado por aquele povo; quem lançava

ao mundo a “ciência das equações” tinha índole madura para dela tirar

proveito, inclusive na escrita contábil.

O livro de Mazerandani abriga:

•Normas e Sinais Contábeis

•Forma de Documentos

•Divisão de Débito e Crédito

•Estrutura das Partidas

•Contas Auxiliares

•Regras para escriturar as Partidas de Registros de Variações

Patrimoniais

•Défi cits e Superávits

•Transferências de Contas

•Regras de Composição de Documentos Livros Contábeis:

Diário, Razão, Despesas, Armazéns, Mercadorias, Contas Financeiras,

Construções, etc.

•Casos Especiais de Registros

Não há dúvida de que, pelo índice, pela matéria tratada, a obra de

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Mazerandani, de 1360, é evoluidíssima e de estrutura muito distinta das

que se editariam na Europa nos séculos XV e XVI.

A Itália, todavia, já havia dado à luz uma obra com amplas referências

aos custos, intitulada “A arte de Seda e da Lã”, que mostrava uma não

menos apreciável evolução contabilística, por partidas dobradas no século

XIV.

Mazenderani já considerava a Contabilidade como uma ciência (ele

o diz na introdução de seu livro) e afirmava que apesar de ainda não

ser (na sua época) geral a compreensão da importância do conhecimento

contábil, os negócios do país e o das empresas não poderiam obter êxito

sem o uso da Contabilidade.

Prenunciou que a corrupção domina onde falta o controle contábil,

especialmente no Poder Público. Para cada negócio, afirmou Mazendarani,

era preciso estabelecer princípios contábeis próprios e definidos.

A linguagem e o pensamento do eminente autor árabe parecem ser

nesse particular um escrito feito para os dias atuais e a sua obra, de fato,

é algo que enobrece o conhecimento contábil.

Utiliza-se, com maestria de contas Sintéticas e Analíticas e disciplina,

o funcionamento de débito e crédito com rara habilidade; existem, ainda,

obras de 1307, 1330, 1340, 1441, todas na Ayasofya Biblioteca de Istambul.

A literatura contábil árabe é vasta, apesar da época e das limitações de

difusão.

“Enquanto a Idade Média, na Europa, foi de sombras, aquela árabe

foi de luzes”, escreveu o Prof. Ismail Otar em trabalho apresentado, ao IV

Congresso Internacional de História da Contabilidade, em Pisa sob o título

“Risale-i-Felekiy e Kitabus-Siyacat”, defendendo o Oriente Médio como

o berço da partida dobrada, sob os seguintes argumentos conclusivos:

“Risale-i-Felekiye” e outros antigos textos do Oriente Médio, do século XI

ao século XVII, provam que:

1 - Existia um alto nível econômico.

2 - As receitas e as despesas públicas eram reguladas por leis

orçamentárias.

3 - O mercado internacional era intenso e expressivo.

4 - A profissão contábil tinha alto prestígio.

5 - Débitos correspondiam a Créditos nas Partidas Contábeis,

mediante igualdade.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

6 - A necessidade de igualdade referida é a base da Partida

Dobrada.

7 - O comércio entre Veneza e o Oriente Médio foi intenso.

8 - Muitos dos conhecimentos contábeis podem ter sido transferidos

do Oriente Médio para Veneza no bojo da bilateralidade de negócios e

interesses.

As conclusões do mestre Ismail Otar estão nos anais do Congresso,

páginas 607 a 618, editado pela “Universitá Degli Studi Di Pisa”, em agosto

de 1984, sob o título de “Atas” do “Quarto congresso Internazionale di

Storia della Ragioneria” (ao qual compareci, apresentando tese sobre a

Contabilidade no Ciclo do Ouro no Brasil, séc. XVIII, baseada em meu

trabalho que, em 1980, foi editado pelo Ministério da Fazenda sob o título

Aspectos Contábeis no período da Inconfidencia Mineira).

Como a dúvida foi lançada, o mesmo mestre da Turquia sugere um

aprofundamento na pesquisa das obras do Oriente Médio.

3.3. A LITERATURA EDITADA PELA IMPRENSA

A primeira obra impressa que difundiu as Partidas Dobradas é de

autoria de Frei Luca Pacioli e foi inserida em uma obra de Aritmética,

Geometria, Proporções e Proporcionalidade, editada em 1494, por

Paganino dei Paganini, em Veneza.

Não é, pois, uma obra, exclusivamente, contábil, mas um livro que

insere na sua Distinção IX, o “Tratado XI Particular de Computação e

Escrita”, matéria Contábil aplicada a empresas comerciais pelo processo

de Partidas Dobradas.

O título da obra é Súmula de Aritmética, Geometria, Proporções e

Proporcionalidade e teve duas edições (Summa de Aritmética, Geometria,

Proportioni et Proportionalita): a primeira em 1494 e a segunda em 1523

(volumes que hoje são raríssimos no original).

O que nos interessa, pois, diretamente, no campo contábil, é o

“Tractatus de Computis et Scripturis” contido no livro como uma de suas

unidades.

Depois de Paciolo, vários compêndios foram editados, no século

XVI, todos impressos, praticamente, seguindo a linha que o frei adotara,

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mas alguns apresentaram consideráveis avanços em matéria conceitual e

técnica.

Difundem a Partida Dobrada, em 1522, Diego del Castillo, na

Espanha; em 1523, M.Schreiber Grammateus, na Alemanha, em 1525,

Giovanni Autorio Tagliente, na Itália; em 1531, Johann Gotlieb, novamente,

na Alemanha; em 1539, Girolamo Cardano, novamente na Itália; em 1543,

Johan Ympym, nos Países Baixos; em 1543, Hugh Oldcastle, na Inglaterra;

em 1547, Gonzalo Fernandez de Ovielo y Valdés, novamente na Espanha;

em 1547, um “anônimo”, na Inglaterra; em 1540, a obra de Domenico

Marizoni, na Itália, que geraria a de 1549 de Wolfgang Schweicker, na

Alemanha; e em 1550, a de Valentin Mennehr de Kemptem, que geraria

a de 1564 de Antich Rocha, na Espanha (parece haver uma em Portugal

que despertou nossa atenção para o título, editada em 1519, mas carente

de pesquisa). Essas obras são da primeira metade do século XVI, seguinte

ao de Paciolo.

A França, que tanta contribuição daria à ciência contábil, só tem sua

primeira obra sobre Partida Dobrada editada em 1567 por Pierre de Savone.

Os Países líderes em números de livros sobre o assunto foram a

Itália, com 6 autores, a Alemanha, com 5 autores e também a Espanha,

com igual número.

A literatura contábil, no século XVI, a partir de Paciolo, teve 27

difusores novos, sendo o primeiro, em 1522, o espanhol Diego del Castillo

e os últimos (poderá vir a ser a obra de Portugal a primeira, se confirmados

os resultados das pesquisas que sugerimos fossem feitas, pois é de 1519),

em 1590, Leon Mellena, nos Países Baixos, e o espanhol Bartolomé

Salvador de Solórzano (cuja obra possuo, reproduzida, totalmente, em

elegante edição realizada pelo ICAC - Instituto de Contabilidad y Auditoria

de Cuentas, do Ministério da Economia e Fazenda da Espanha, em Madri,

em 1990).

De todas as obras do século XVI, todavia, a que mais nos

impressiona, pela evolução do conhecimento e vocação de doutrina é a de

Angelo Pietra, de 1586, intitulada “Indirizzo deli Economia” (e que também

possuímos, reproduzida, na íntegra).

O advento da imprensa, inequivocamente, acelerou a difusão, em

pouco tempo, do que tantos séculos estivera limitado ao Oriente Médio e à

Itália; os séculos seguintes ensejaram o aparecimento de muitos valiosos

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

trabalhos de diversos autores, sempre em linha ascendente de progresso

cultural.

Embora a imprensa, em seu início, tivesse se dedicado mais a obras

religiosas e as do mundo clássico latino, aquelas contábeis conseguiram

proliferar e dar oportunidade a uma expressiva evolução.

A intuição científica contábil, que nasceu nos pensadores gregos

(Sócrates e Aristóteles) e que se proclamou no Oriente Médio na alta Idade

Média, firmou-se nos teóricos dos séculos XVIII e XIX (inclusive no Brasil)

para, finalmente, a partir do fim da primeira metade deste e nesse século

XXI alcançar um ápice de conhecimento; se a Partida Dobrada é um critério

de registro, não podemos negar a ela o papel de contribuição ao raciocínio

lógico, que ajudaria a metodologia de análise dos fenômenos patrimoniais.

Sob o título “A Partida Dobrada Convertida em Ciência”, surgiu, na

Itália, em 1803, uma obra de Niccoló D’Anastazio, em Veneza, (La Scrittura

doppia ridotta a scienza).

Se o autor não conseguiu produzir uma obra científi ca, deu, todavia,

dignidade ao título e embrenhou-se por um câmbio de terminologia, no qual

denomina os fatos patrimoniais de “movimentos” e as contas como “lugares

depositários” do informe sobre os movimentos.

Se a escrituração contábil foi cedendo lugar a teorias que dela

partiram, buscando conhecer as ocorrências que registrava, não deixou de

ser o berço de nossa época empírica, glorificada pelo processo das Partidas

Dobradas que, segundo o genial escritor alemão Goethe, foi “uma das mais

geniais expressões da inteligência humana”.

Por isto é que se torna preciso distinguir, historicamente, o período

da literatura da escrita simples daquele da escrituração por Partidas

Dobradas.

D’Anastasio fi losofa afirmando que toda ação humana ou não produz

duplo aspecto e que a Partida Dobrada é a aplicação desse determinismo

cósmico (o mesmo princípio fi losófico que D’Auria, no Brasil, no fi m da

década de 40 deste século XX, teria para inspirar sua Contabilidade Pura).

Ele é também um precursor teórico do que Fábio Besta, no início deste

século XX, desenvolveria na sua Teoria Materialista das Contas.

O título pomposo que D’Anastasio dá às Partidas Dobradas parece-

nos um epílogo triunfal da difusão específica do processo, em uma época

em que o conhecimento contábil partiria, célebre, para o campo da ciência.

Fundação Brasileira de Contabilidade

CAPÍTULO IV

LUCA PACIOLI – GÊNIO DO RENASCIMENTO

O capítulo fala sobre o autor da primeira obra impressa que contém

matéria contábil relativa às Partidas Dobradas. É, pois, uma biografia,

aquela que consegui estruturar, diante de tantas dúvidas que cercam a

vida de Paciolo. Trata-se de uma vida movimentada, de obras produzidas,

de amizade do frei com o gênio Leonardo Da Vinci.

Procura seguir a trajetória desse primeiro difusor, pela imprensa, das

Partidas Dobradas, desde o nascimento dele até a sua morte. Evidencia

que Paciolo viveu para a cultura e que legou ao mundo um valioso acervo

de idéias.

IV

LUCA PACIOLI – HOMEM DO RENASCIMENTO

4.1. LUCA PACIOLI E PACIOLO

Uma dúvida que sempre ocorre é se PACIOLO ou PACIOLI é a

forma correta de referir-se ao sobrenome do autor da obra impressa que

primeiro divulgou o processo das Partidas Dobradas.

Nisto existe uma peculiaridade do idioma italiano da Toscana, da

época.

Os sobrenomes terminados com a letra I, quando junto do nome,

conservavam o I, pois, ao dizer-se o “completo” dizia-se, por exemplo:

Michelangelo Buonarotti, logo, LUCA PACIOLI.

Quando se dizia só o sobrenome este se transformava, trocando-se

a letra I pela letra O e, então, dizia-se IL BUONAROTTO, logo, também, IL

PACIOLO.

Portanto, o correto era dizer-se: LUCA PACIOLI ou IL PACIOLO.

Não são sobrenomes diferentes, mas a forma de dizer o sobrenome,

se “junto do nome” (com I) ou “sozinho” (com o).

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Existem referências de que o nome completo do Frei seria:

LUCA BARTOLOMEO PACIOLI, ao que se acrescentava DI BORGO DI

SANSEPOLCRO. O nome Bartolomeo, todavia, era o de seu pai e nas

obras maiores que o frei edita não há referência ao nome Bartolomeo.

Era costume e ainda o é em muitas parte da Itália o de referir-se

a um filho evocando o nome do pai (e isto não é só hábito italiano, mas

de muitas outras nações). Daí justificar-se o “Luca di Bartolomeo”, como

foi o caso de Leonardo, filho de Bonacci e que gerou Fibonacci (como

expressão sumarizada de filho).

4.2. LOCAL DE NASCIMENTO E A ÉPOCA DE PACIOLO

Luca Pacioli nasceu na então Borgo di San Sepolcro, hoje

Sansepolcro, província da cidade de Arezzo, na região da Toscana, na

Itália, acredita-se por volta de 1445, posto que se tem questionado sobre a

data exata. Teria, pois, 49 anos quando editou sua “Summa”, em Veneza.

A Vila de Sansepolcro ergue-se ao alto de uma colina e ainda hoje

conserva seus ares medievais com os Palácios, a Catedral, algumas

igrejas da época, o seminário e uma atmosfera deveras respeitável que

se deriva dos gênios que ali nasceram.

Paciolo era coevo de Leonardo Da Vinci (1452-1514); de

Michelangelo (1415-1564); de Maquiavel (1469-1527); de Lourenço,

o Magnifico; de Savonarola; de Piero della Francesca; e de muitas

grandes personalidades de uma época de ouro da civilização mundial que

resplandecia na Itália (sobre a qual já me referi no Capítulo II).

Quando nasceu, Cosme de Medici era senhor de Florença (14341464)

e era muito jovem quando Lourenço, o Magnífico, assumiu o Poder

em Florença (1469).

Foi da época do magnífico Boticelli (que produz o famoso quadro da

Primavera, em 1477), de Ficino, o grande filósofo que recuperava a imagem

de Platão, superando Aristóteles (1482), e de Policiano (1454-1494);

quando era muito jovem, a Itália inaugurava sua época na imprensa (a

primeira obra impressa foi em 1465, quando, também, nasce o insuperável

Maquiavel); já era adulto quando nasceu Rafael Sanzio (1483), o grande

gênio da pintura, e foi da época de Vasco da Gama, Colombo e Cabral.

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O tempo de Paciolo era aquele dos gênios, da metamorfose histórica

(que ocorre com a tomada de Constantinopla em 1453, por Maomé II), da

paz de Lodi entre os Viscontis e os Venezas (1454), da conspiração dos

Pazzis contra Lourenço, do assassinato de Juliano de Medici (1478), da

conjuração dos barões em Nápoles contra o rei Fernando (1485).

Um fato curioso histórico, irônico mesmo, deu-se quando nasceu

Paciolo: o ducado dos Sforza ia à falência, por uma “magnificência

alérgica a qualquer preocupação com a Contabilidade”, como escreveu o

magnífico Indro Montanelli, em co-autoria com Roberto Gervaso (L’Itália

dei Secoli D’oro, edição Rizzoli, Milão, 1967), sendo salvo pelos toscanos

“Medici” (da região do frei), que não só eram banqueiros, mas possuíam

excelentes controles contábeis.

Como já foi referido, a atmosfera cultural sob a qual nasceu Paciolo

era a de apoio à cultura, fortemente incentivada por Cosme dos Medici.

A imensa fortuna do banqueiro florentino fazia fervilhar a cultura

da região e criava-lhe a atmosfera da intelectualidade. Como escreveram

Montanelli e Gervaso, na obra já citada, Cosme foi o “ídolo de toda a

inteligência”, o “pai da pátria” de “toda a Itália”.

A política dos Medicis não se alteraria até o fim do século XV e

admite-se que alimentou o milagre da Renascença.

Paciolo viveu, pois, uma Itália de lutas, invasões, mas de fortíssimo

teor intelectual, com o renascer intenso da filosofia platônica (que tanto

influiria sobre Paciolo, especialmente no relativo às Divinas Proporções).

O Poder de Lourenço, o Magnífico, que fora aluno de Ficino,

líder de uma escola platônica, influiu, como era natural, em toda a

intelectualidade.

Muito cedo, Paciolo foi educado, em sua cidade natal, por um

emérito pintor e matemático, Piero della Francesca (também nascido em

Borgo di Sansepolcro, e onde, até hoje, existe a casa onde viveu, defronte

ao campanário de São Francisco (onde estive em visita, em 1984), que

ensinou àquele álgebra, matemática e as proporções platônicas.

Piero nasceu entre 1410 e 1420 (não é precisa a data de seu

nascimento, como muitas não as são as informações históricas sobre toda

a sua vida) e dedicou-se a muitos trabalhos em sua Província (em Arezzo

e Sansepolcro), admite-se, de 1455 a 1466; em 1469, esteve em Urbino,

após exercer cargos públicos em Sansepolcro e aceitar empreitadas em

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Arezzo; depois de 1470, parece ter ficado maior tempo em sua cidade

(nesses períodos é que Piero Della Francesca teria ensinado a Paciolo).

4.3.

ATIVIDADES DE PACIOLO EM VENEZA – INÍCIO DE SUA

ATUAÇÃO

Acredita-se que a ida de Paciolo para Veneza deve-se ao mercado

de trabalho que ali existia e que faltava em sua vila de nascimento; aos

20 anos empregou-se na casa do próspero comerciante judeu Antônio

Rompiaci, aos filhos do qual dedicaria uma obra.

Entrementes, estudou na Escola de Domenino Bragantino, um

“público leitor de matemática” (como na época se denominavam os

especialistas) na área, possuindo concessão do magistério.

Não se sabe, ao certo, a completa função de Paciolo na casa

comercial de Rompiaci, mas admite-se que fosse a de pedagogo dos

fi lhos daquele com o uso dos conhecimentos que já trazia de Sansepolcro

e que eram os de aritmética e é de supor-se que também de Partidas

Dobradas (consegui, junto com o Prof. Marcelo Berti, docente de História

da Contabilidade na Universidade de Pisa, encontrar no Museu Cívico de

Sansepolcro documentos escriturados em Partidas Dobradas da época em

que Paciolo estava naquela vila, podendo-se daí hipotetizar que aprendeu

o processo, dado o interesse que tinha e que em sua obra confirmou).

O ilustre Prof. Federigo Melis entendeu que a grande prática sobre

comércio Paciolo só a adquiriu em Veneza, com a Rompiaci, o que também

justifica ter em seu “Tractatus” dedicado exclusividade ao referido ramo.

Até seu trabalho, em Veneza, e que culminou com um livro sobre álgebra,

ultimado em 1470, não era ainda Frei. Dedicou tal livro, como disse, aos

filhos de Antônio Rompiaci que por ele foram educados. Com 25 anos,

pois, já com grande acervo cultural, produziu sua primeira obra, dedicada

ao que predilecionava, ou seja, a números e cálculos. De tal obra tem-se

apenas referência porque ela se perdeu, não deixando prova histórica.

Sabemos que existiu porque Paciolo a ela se refere no fólio 67 de sua

“Summa”.

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4.4.

A PASSAGEM POR ROMA E NOVOS PROGRESSOS

CULTURAIS COM ALBERTI

A inquietude cultural de Paciolo, naturalmente, despertada em seus

verdes anos, por Piero Della Francesca, em Sansepolcro, parece ter feito

com que se sentisse atraído para absorver novas luzes. Tais luzes, por

influência natural, deveriam ser as dimanadas de um grande mestre, de

um que se afinasse em pensamento com Piero, e esse foi Alberti.

Como escreve Alberto Busignani, biógrafo daquele genial pintor

e mestre, Leon Battista Alberti era um “espírito afim” ao de Piero (A.

Busignani - Piero Della Francesca, pág. 8, Ediciones Toray, Barcelona,

1968), e é muito possível que este tenha repassado a Paciolo a sua forte

impressão sobre aquele e até a este encaminhado.

Não é, pois, sem razão, que por volta de 1470 ou 1471 (é imprecisa

a referência histórica), Luca desloca-se para Roma e passa a residir na

casa de Leon Battista Alberti, embora não por muito tempo. É aí que lhe

causam profundas influências os estudos de Teologia e de Filosofia, que

encontraram terreno fértil na mente lógica de Paciolo, esta treinada para a

Aritmética e a Álgebra, aperfeiçoada por Bragantino, em Veneza.

A aproximação com os textos relativos ao que Alberti lhe transfere,

naturalmente, despertam a “consciência religiosa” mais aprofundada e

isto iria induzir o genial discípulo a ingressar em uma ordem que tanta

influência na Itália exercia, pela pureza de seus fundamentos.

Alberti era escultor, pintor, músico, filósofo, em suma, um homem

típico do Renascimento (1404-1472); de sua autoria, famosíssima na

história da arte, é a fachada da Igreja da Santa Maria Nova, em Florença

(terra onde nasceu) e do Palácio Ruceellai.

Paciolo vai ao encontro de Alberti quando este já estava no fim da

vida, com uma grande maturidade intelectual, competente para exercer

a grande influência que, de fato, teve e, embora idoso, estava em plena

vitalidade, executando em Roma as obras do Palácio Veneza.

Outros estudiosos, todavia, atribuem a maior religiosidade de

Paciolo ao fato de dois irmãos seus haverem entrado para a Ordem dos

Franciscanos (Santo que em Borgo di Sansepolcro era devotado com

grande eloqüência e ao qual uma Igreja foi dedicada ali).

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

4.5. O FREI LUCA PACIOLI DA ORDEM DOS FRANCISCANOS E O

MAGISTÉRIO

A fé por São Francisco, na cidade de Paciolo, parece ter-se iniciado

no fim do século XIII, por volta de 1285, por um frei chamado Tommaso

da Spello, que ali aportou com o objetivo de construir a primeira igreja, em

decorrência de terreno doado pela comunidade (desse antigo templo hoje

só existem restos da fachada).

A fé consolidada no santo de Assis, os irmãos que haviam

ingressado na ordem e o suporte de teologia recebido de Alberti devem

ter determinado a decisão de Paciolo de tornar-se Frei, o que ocorreu

por volta de seu retorno de Roma, em 1471. Outros autores admitem o

ingresso na ordem em 1494 (J. Vlaemminck).

O Frei Luca Bartolomeo Pacioli de Borgo di Sansepolcro parece ter

vestido o hábito na sua própria terra natal, segundo Melis (Federigo Melis,

Storia della Ragioneria, pág. 620, editor Zuffi, Bolonha, 1950).

Poucos anos depois foi lecionar matemática em Perugia (perto

de conventos da Ordem Franciscana), provavelmente de 1475 a 1480,

fi rmando-se no magistério.

Em tal cidade, escreveu seu segundo livro: um pequeno volume,

ainda sobre álgebra.

Ao prestígio da Ordem, à respeitabilidade do hábito, Paciolo somou

sua imagem de mestre e consolidou-se como escritor; essa parece ter

sido uma vocação irreversível.

Sua obra realizada em Perugia conserva-se na Biblioteca do

Vaticano sob o nº 3.129 e abrange Aritmética, Geometria, Álgebra,

Câmbio, Moedas, etc., e Lamouroux admite que possa ter sido o embrião

da “Summa” (F. Martin Lamouroux - Contabilidade, pág. 302, ed. Caia de

Ahorros, Salamanca, 1,989).

A estada de Paciolo em Perugia não é bem precisa (Melis admite de

1475 a 1478 e Lamouroux até 1480, assim como ainda outros preferem

declará-la incerta), mas ali esteve lecionando, produziu uma obra pequena

similar aos assuntos da “Summa” e se manteve vizinho do Convento de

São Francisco de Assis.

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4.6. QUASE MAIS 20 ANOS DE ANDANÇAS E A PRODUÇÃO DA

“SUMMA”

De Perugia, o frei deslocou-se para Veneza novamente, onde ficou

pouco tempo viajando e localizando-se em Zara (perto de Veneza, mas já

na Iugoslávia).

Não se conhece o motivo da transferência, mas, foi em Zara que

ele escreveu o seu terceiro livro de Matemática, em 1481 (que se perdeu).

De tal livro só sabemos da existência pela referência que Paciolo faz ao

mesmo no fó1io 67 de sua “Summa”, quando afirma que no mesmo havia

passado, de leve, sobre o assunto que agora (na “Summa”) estava a

desenvolver em um outro de maior profundidade.

De Zara, volta ele a Toscana, dessa vez a Florença e depois

a Perugia. Depois vai a Roma para ensinar. De 1490 a 1494, ainda no

magistério, ensina em Nápoles e em Pádua. Volta, novamente a Florença,

mas, finalmente, desloca-se para Veneza para revisar a sua obra “Summa

de Aritmética, Geometria, Proporções e Proporcionalidade” (que se admite

tenha ele a concluído em Perugia, em 1487).

Parece não haver dúvida, todavia, que a “Summa” tenha sido

produzida e concluída na segunda metade da década de 80 do século XV

(portanto, cerca de 200 anos depois que o processo das partidas dobradas

já estava consolidado na Itália).

O tempo decorrido de aproximadamente sete anos, entre a

conclusão da volumosa obra e a edição da mesma, não é de admirar-

se, considerando as condições da época e a preferência que os editores

mantinham por livros que fossem de maior procura (Bíblia, obras do latim

clássico, etc.), pois o “custo das edições” era deveras alto.

O editor Paganino de “Paganini”, de Veneza, acabou de imprimir a

“Summa” em 10 de novembro de 1494.

4.7. PACIOLO E LEONARDO DA VINCI

Paciolo tornou-se amigo de Leonardo da Vinci, um dos maiores

gênios da humanidade (1452-1519), figura ímpar do Renascimento.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Partiram, ambos, para Milão, sob o custeio e proteção de Ludovico

Sforza, poderoso Conde de uma família de rara importância (o castelo

onde vivia está ainda hoje, quase intacto, em Milão, e constitui motivo de

atração turística), mas também sobre esse evento se questiona.

O tronco dos sforza iniciou-se com Muzio Attendolo (1369-1424) e

tinha em Ludovico, cognominado, “O Mouro”, (1452-1508), um de seus

expoentes; o Duque muito valorizava as artes e as técnicas, e em razão

disto “investia” nos dois gênios (Da Vinci e Paciolo) e os trazia a Milão.

De 1496 a 1499, ambos os gênios permaneceram naquela cidade,

até a época da invasão dos franceses (que obrigou a fuga do Duque).

Perdido o apoio de Ludovico, pela circunstância desastrosa da guerra,

Paciolo e Da Vinci saem de Milão.

Em Milão, durante sua permanência, Paciolo ensinou matemática

na corte e consta que tenha, igualmente, aprimorado em Da Vinci as

noções sobre as “Divinas Proporções”.

Admite-se, inclusive, que a famosa “Ceia Sagrada” (tão reproduzida

e conhecida), de Leonardo (pintada na parede de um convento milanes

de Santa Maria), tenha tido a inspiração nas “Divinas Proporções” que

Paciolo defendia.

Sobre os “mitos” da pintura de Da Vinci, escreve Guido toda uma

obra e prova que as “Divinas Proporções” foi deveras aplicada.

Há, todavia, uma dúvida, pois o Prof. Federigo Melis diz que

Leonardo levou Paciolo a Milão, enquanto Guido afirma: “Quando

Leonardo, em Milão, travou relações com o frade matemático Luca Pacioli

di Borgo, muitas idéias sobre a vinculação da geometria e das proporções

harmônicas com a arte havia auferido dos conceitos de Alberti e do seu

convívio em Pavia com Francesco di Giorgio” (Angelo Guido-Símbolos e

Mitos na Pintura de Leonardo da Vinci, pág. 54, edição Sulina, Porto Alegre,

colaboração com a Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 1969).

“Lamouroux”, também, afirma que Paciolo conheceu Da Vinci em

Milão (F. Martin Lamouroux, Contabilidad, pág. 302, Salamanca, 1989) e

o questionamento do encontro dos dois gênios fica, desta forma, dividido

em opiniões, mas é inequívoco que se tornaram amigos.

Afirma Guido que Da Vinci já havia esboçado o desenho da Ceia

(projetos acham-se na Academia de Veneza e no Castelo de Windsor,

atualmente), quando os modificou para adaptar ao que recebera de

ensinamentos de Paciolo (Angelo Guido, pág. 56 da obra citada).

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As tão propaladas “Divinas Proporções” que o Frei tão respeitou

(e até escreveu uma obra sob tal título) representam uma “relação” que

assim se conceitua: “numa reta, dividida em dois segmentos desiguais, a

parte menor estará sempre para a maior como esta para o todo”.

Admite Guido que na mesma época em que Leonardo pintava a

Ceia, Paciolo escrevia o seu outro livro “As Divinas Proporções”, inspirado

nas idéias de Platão (na obra “O Timeu”) e de Euclides.

De fato, as ilustrações de tal obra (cuja reprodução fiel e integral

possuo em minha biblioteca) são de Leonardo (inclusive das figuras

geométricas sólidas e vazadas, com seus pontos de equilíbrios).

Logo no Prólogo do referido livro, Paciolo destaca o nome de

Leonardo como ilustre “arquiteto e engenheiro” e acrescenta “compatriota

nosso, florentino”.

O frei concluiu a obra em 1498 e a dedicou ao seu protetor Ludovico

Sforza, mas esta só é editada em 1509, ainda por Paganino de Paganini,

em Veneza.

A “Summa”, de 1494, fora dedicada a “Guido Ubaldo Duca d’Urbimó”

(há, inclusive, um quadro pintado por Jacopo di Barbari (que assina

Jacobar), com Paciolo ensinando ao Duque de Urbino, cujo original está

no Museu do Banco de Nápoles, em Capodimonti, Nápoles.

Tal a amizade que Da Vinci tinha a Paciolo que, em 1499, após a

fuga de Ludovico, com este se afasta de Milão, saindo juntos. Rapidamente

passam por Mantua e Veneza para, então, ficarem, ambos, em Florença,

residindo no mesmo domicílio.

A admiração de Paciolo por Leonardo era tamanha que a este fez

muitas referências calorosas e elogiosas em outra obra que começou a

escrever quando estivera em Milão: “De Viribus Quantitatis” (que se acha,

em seu original, na Biblioteca da Universidade de Bolonha).

O “De Viribus” foi um livro que visou estimular o gosto pelos

números e, por isto, está pleno de “jogos” e “curiosidades” matemáticas,

sendo de cunho popular, incluindo formas de estabelecer sofismas por

meio de cálculos, mas tal trabalho não foi editado.

Tudo faz crer, todavia, que Leonardo e Paciolo se separaram e só

se reencontraram depois em Roma, em 1514, quando Leão X convidou o

frei para lecionar (e quando esse já havia passado por Veneza, Perugia,

Florença e Borgo di Sansepolcro).

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Escreve Marinoni que o encontro deu-se em uma época em que

“Leonardo já estava envelhecido e descrente” (Augusto Marinoni - “De

Divina Proportione”, pág. 6, ed. Pizzi, Milão, 1982), ou seja, pouco antes

de que fosse para Amboise, no Vale do Loire, onde veio a falecer, em

“Clos Lucée” e onde está enterrado (comoveu-me, profundamente, ver a

singeleza do túmulo de tão grande homem, com uma lápide não menos

singela, em uma modesta capelinha do “Chateau” de Amboise).

Paciolo, igualmente, vizinho, já estava de sua morte, que hoje já

se admite, com margem de segurança ter ocorrido em 1517, enquanto,

Leonardo, faleceu na França cerca de dois anos depois. Outros autores

consideravam que teria sido em 1515 a morte do Frei.

O encontro em Roma, dos dois expoentes, foi uma despedida sem

retorno, mas inequívoca ficou, para a história, a identidade intelectual que

estabeleceram.

A morte de Paciolo foi deveras em 1517, conforme estudos idôneos

do reverendo Ivano Ricci, bibliotecário em Sansepolcro, do Museu Cívico,

e seu sepultamento deu-se na igreja de San Giovanni D’Afra, em sua

cidade natal.

Os dois grandes amigos que o destino juntou, geograficamente, o

túmulo distanciou: um ficou em Amboise, França (Leonardo) e outro em

Sansepolcro, Itália (Paciolo).

4.8. OS ÚLTIMOS ANOS DE PACIOLO

A vocação do Frei, escreveram os ilustres intelectuais e professores

Aloe e Valle, não parece ter sido monástica, pois viajava ele, freqüentemente

(Armando Aloe e Francisco Valle - Luca Pacioli e seu “Tratado” de

Escrituração de Contas, edição Atlas, 1966).

Após a estada em Florença, com Da Vinci, Paciolo ensinou nas

Universidades de Pisa e de Bolonha (entre 1500 e 1507). Em 1501, Soderini

protegia Paciolo em Florença. Do referido exercício de magistério existem

provas documentais, assim como de algumas passagens, inclusive,

recibos de salários.

Em 1508, em Veneza, proferiu uma aula magna em abertura de

um curso da igreja de São Bartolomeu do Rialto, tratando de geometria

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euclidiana (livro V de Euclides) e das “Divinas Proporções”; na mesma

época revisou, para seu editor, as “Divinas Proporções” (que sairia em

1509) e da edição latina dos “Elementos”.

Em 1510, foi nomeado “Comissário” do Convento Franciscano de

Sanseplcro e ali ficou até que Leão X o chamasse a Roma (quando se

reencontrou com Da Vinci), o que ocorreu em agosto de 1514.

Tudo nos prova que as atividades finais de Paciolo foram intensas,

tal como foram as de toda a sua existência como professor e escritor, ou

seja, a de um gênio a serviço da difusão cultural.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO V

A “SUMMA” DE PACIOLO E O “TRACTATUS”

O Capítulo apresenta os títulos das obras de Paciolo e os resumos

sobre o conteúdo do Tractatus. Procura evidenciar a influência do trabalho

do mestre italiano.

V

A “SUMMA” DE PACIOLO E O “TRACTATUS”

5.1. OBRAS DE PACIOLO

Paciolo escreveu diversas obras, todavia, a de primeira grandeza,

a que o imortalizou como grande gênio, foi, sem dúvida, a “Summa de

Aritmética, Geometria, Proportione et Proportionalitá”, cuja impressão pelo

editor Paganino de Paganini” conclui-se em 10 de novembro de 1494, em

primeira edição (possuo o privilégio de possuir a integral e fiel reprodução

da mesma, feita do original, em excelente trabalho editorial).

A segunda edição sairia, ainda pelo mesmo editor, mas em Tusculano,

em 1523, quando o frei já havia falecido (um dos raríssimos exemplares dessa

edição acha-se na Biblioteca da Universidade de Salamanca, na Espanha).

Essa obra maiúscula, juntamente com a “De Divina Proportioni” são

as mais expressivas, ao lado de outras menores que são:

1 - Um pequeno livro de aritmética e álgebra, de 1470, e que nenhum

exemplar restou (só se sabe por referência do próprio Frei).

2 - Um breve “Tratado” feito em Perugia, que se encontra na

Biblioteca do Vaticano, sob o nº 3.129.

3 - Um “Tratado” de álgebra elaborado em Zara, em 1481 (só se

conhece por referência).

4 - “De viribus quantitates”, em 1496, e cujo original está na

Universidade de Bolonha (não-publicado).

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5 - Uma tradução de textos de Euclides, editada em Veneza, em 1508.

6 - O “Libellus in tres partiales tractatus divisus ...” ainda em 1508.

Observa-se a grande operosidade do frei, deveras significativa, mas

no entender de muitos que analisaram o que escreveu, nada superou a

sua “Summa”.

5.2. A ESTRUTURA DA “SUMMA”

A “Summa” é a obra prima de Paciolo, sendo o primeiro livro

“impresso” que trata de assuntos matemáticos e contábeis (não é a primeira

obra contábil, porque muitas outras se produziram antes, mas é a primeira

que foi impressa).

Ela é a semente de escolas matemáticas e de uma nova fase da

literatura sobre as partidas dobradas.

A “Summa” é um volume em “fólios” com 616 páginas (308 fó1ios).

Divide-se em segmentos básicos: Aritmética e Álgebra.

Subdivide-se em DISTINCTIONES.

As “distinctiones” estão divididas em TRACTATUS.

O 2º segmento é o de Geometria.

Divide-se, também, em DISTINCTIONES.

As “distinctiones” dividem-se em CAPITULA.

No primeiro segmento, Distinctione Nona, Tractatus XI, está o

TRACTATUS DE COMPUTIS ET SCRIPTURIS que o Frei dedica à difusão

das PARTIDAS DOBRADAS.

A obra discrepa da maioria daquelas da época e que era em latim,

para ser editada em italiano comum ou “rústico”.

Seguia Paciolo a “irreverência” de Dante (1265-1321), que preferira

escrever no idioma italiano que ao latim.

Acredito, todavia, que a preocupação de Paciolo não era quebrar uma

tradição e nem a de imitar Dante, mas o seu demasiado respeito ao “valor

da difusão do conhecimento” com o que, isto sim, muito se preocupava.

Das edições da “Summa” (1ª e 2ª) restaram raros exemplares até

nossos dias e admite-se que não cheguem a cinqüenta espalhados por

diversas partes do mundo.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Reproduções foram feitas, também raras, e as reedições do

Tractatus, em todo o mundo, não chegaram a vinte em meio milênio.

5.3. O ROMPIMENTO DA TRADIÇÃO DO CONHECIMENTO

CONTÁBIL

A “Summa” é uma obra de grande interesse para os matemáticos,

basicamente. Aos contabilistas ela tem o valor concentrado no “Tractatus

de Computis et Scripturis”.

Escreve Masi que “a obra de Paciolo encerra o período medieval

da Contabilidade e inicia a Contabilidade do Renascimento e Moderna”

(Vincenzo Masi - La Ragioneria nell’etá medievale, pág. 288, edição

Tamari, Bolonha, 1975).

O trabalho, continua o emérito criador da escola patrimonialista,

não traz normas de gestão patrimonial e nem um conhecimento desta que

autorize a avaliar um conhecimento profundo da questão, pois o que por

intuição e prática, se conhecia, na época, não se converteu em doutrina

(págs. 288 e 289 da obra e autor referido).

Tanto Masi, quanto Joseph H. Vlaémminck, em suas obras

valiosíssimas sobre a História da Contabilidade, estão de acordo com a

hipótese de que a obra de Paciolo rompe a “tradição oral do conhecimento

contábil” para desviá-la no sentido de uma literatura (o que de fato

ocorre).

O mérito está em “inaugurar uma fase evolutiva de difusão”, mais

que o de simplesmente em relatar o que já era de conhecimento de muitos

profi ssionais.

A obra do Frei tem essa imensa virtude de romper a inércia e de

abrir as portas para que, no século seguinte, muitos tratadistas, em toda a

Europa, se interessassem em escrever sobre assuntos da Contabilidade.

Se avaliarmos que de 1202 a 1494, na Itália, só um livro tratando de

Contabilidade existe (só há notícias de algumas obras no Oriente Médio e

um na Itália), pode-se dizer que, realmente, Paciolo foi o iniciador de uma

era na História da Contabilidade.

As obras contábeis deixaram de ser editadas não porque a matéria

fosse sem relevância, mas, possivelmente, por falta de um “toque inicial

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expressivo”.

A vitalidade das companhias italianas e a importância que se dava

ao erário público (em 1437, 1442 e 1478 já estavam editadas Ordenanças

Reais na Espanha por Don Juan II, pelos reis católicos, sobre a Contadoria

e a Auditoria de Contas) conta-nos de um grande vigor do exercício

profissional contábil, mas, de fato, faltavam obras de difusão.

No reino espanhol, à época de Paciolo (e a Espanha ia vivendo sua

era de expansão para depois entrar nos anos dourados), os contadores

eram não só analistas, mas “juízes de contas”.

A obra do frei causou raro sucesso em seu tempo, o que a levou

a uma segunda edição, mas dúvidas ocorrem se foram apenas duas, se

houve contrafacções ou autorizações a terceiros para reimpressão.

Em tese apresentada ao IV Congresso Internacional de História da

Contabilidade, em Pisa, 1984, a historiadora Ana B. G. Dunlop coloca em

dúvida vários itens da impressão daqueles que chegaram até nossos dias,

para provar que “não são idênticas”.

Seja como for, isso só confirma o sucesso da edição que inaugura

uma nova fase histórica na Contabilidade.

5.4.

O “TRACTATUS” DE NATUREZA CONTÁBIL INSERIDO NA

“SUMMA”

A rigor, um “Tratado” contábil, em um livro como a “Summa”, poderia

parecer inadequado ou impertinente. Ocorre, todavia, que a escrituração

mercantil era ensinada em escolas de Ábaco ou de Aritmética, que

também se preocupavam com as práticas em uso no comércio (Melis as

considerava precursoras das Escolas ou Aulas de Comércio).

O “Tractatus XI Particularis de Computú et Scripturis”, que é a

Distinção IX da Parte I, da “Summa”, é resumido por Melis no seguinte

conteúdo (Federigo Melis, págs. 628 e 629 da Storia delia Ragioneria, ed.

Zuffi, Bolonha, 1950):

1 - As coisas necessárias ao comerciante.

2 - O inventário.

3 - Os três livros mercantis: Borrador, Diário e Razão.

4 - A autenticação dos livros contábeis.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

5 - O Borrador.

6 - O Diário.

7 - O Razão.

8 - O registro dos fatos inerentes à compra de mercadorias, as

permutas, as sociedades, etc.

9 - Os registros relativos às relações com as entidades públicas.

10 - As contas de despesas.

11 - As contas de estoques (Armazéns).

12 - A conta de Lucros e Perdas.

13 - Os estornos de lançamentos.

14 - O fechamento das contas.

15- O arquivo das correspondências.

16 - Particularidades sobre o “Livro dos Comerciantes”.

Os assuntos desenvolvem-se em 37 parágrafos que o frei denomina

Capítulos e cujo resumo, feito por Melis, e por nós referido, produz uma

idéia geral da matéria enfocada.

O texto original da obra é prolixo, repetitivo e de difícil entendimento em

certos trechos, pois segue aos critérios da época.

Cada um desses capítulos será objeto de tradução e de adaptação

de nossa parte e nisto também nos valemos de outros estudos como apoio,

como o magnífico trabalho feito por dois eminentes mestres brasileiros,

lamentavelmente já falecidos, mas dignos de nossa maior admiração

e respeito: Armando Aloe e Francisco Valle, ambos, enquanto viveram,

diletos e fiéis amigos meus.

Na tradução adaptada, buscamos trazer a forma do italiano medieval

o mais próximo da nossa construção vernácula atual, o mais que nos foi

possível para oferecer o pensamento do autor.

Fundação Brasileira de Contabilidade

TRADUÇÃO DO “TRACTATUS” DE PACIOLO

Apresento aqui a obra de Paciolo que se refere às Partidas Dobradas

em uma adaptação que busca ser de máxima fidelidade.

Procurei dar forma atualizada a um italiano medieval o tanto quanto

possível e, nesse sentido, discrepei um pouco, às vezes, da original, mas

sem nenhum prejuízo do sentido essencial.

Busquei, pois, tornar acessível o pensamento do autor, sem, todavia,

me afastar de uma “tradução” e, por isto, conservei a originalidade.

Na realidade, procurei reescrever o livro para que o entendimento

fosse o maior, mantendo-me rigorosamente fiel ao pensamento de

Paciolo.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

FREI LUCA PACIOLI

TRATADO PARTICULAR DE CONTAS

E ESCRITURAÇÃO

(Parte I, Distinção IX, “Tratado” XI, da Summa de Arithmética, Geometria,

Proportioni et Proportionalitá de Luca Pacioli, edição Paganino de Paganini,

Veneza, 1494)

VENEZA, MCDXCIV

Fundação Brasileira de Contabilidade

CAPÍTULO I

DAS COISAS QUE SÃO NECESSÁRIAS AO VERDADEIRO

COMERCIANTE, E DA ORDEM NECESSÁRIA À

MANUTENÇÃO ADEQUADA DO RAZÃO

COM O SEU DIÁRIO, EM VENEZA OU EM QUALQUER

OUTRO LUGAR

Aos reverentes súditos de U.D.S. Magnânimo D., que tenham

necessidade de tudo em completa ordem mercantil, deliberei (além de

outras coisas adiante ditas em nossa obra) ainda compilar um “Tratado”

particular extremamente necessário. E nesse só o inseri para que esse

livro, em qualquer eventualidade, possa servir não só de guia para as

contas e registros, como, também, para o entendimento delas. E, por,

isto procuro dar-lhes norma suficiente e bastante para que mantenham

ordenadamente todas as suas contas e livros.

Entretanto (como se sabe), três coisas principais são oportunas a

quem deseja com a devida diligência comerciar, sendo a mais importante o

dinheiro em espécie ou toda faculdade substancial, pois “junto à natureza

a única coisa necessária é a substância”, sem a qual, dificilmente, se

pode exercer a atividade mercantil; acontece que muitas pessoas, antes

sem recursos, começando só com boa fé, fizeram grandes negócios,

com o auxílio de crédito, estes que souberam manter, conseguindo assim

grandes riquezas, como me foi possível observar percorrendo a Itália.

Antigamente, nas grandes repúblicas, tudo repousava na confiança

depositada no bom comerciante e ele a reafirmava jurando sobre uma fé

real de mercador.

Tal fato não deve ser objeto de admiração, pois cada um com sua fé

se salva catolicamente e sem ela não se pode agradar a Deus.

A segunda coisa que se precisa para bem comerciar é a de que se

seja um bom contador e um ágil calculista. Para assim, o ser ofereço do

começo ao fim desse Tratado as regras e princípios para cada uma das

operações comerciais, de modo que o leitor, por si mesmo, sozinho tudo

possa fazer.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Quem de tais conhecimentos não dispuser, outros seguintes inúteis

lhe serão.

A terceira e última coisa oportuna é ter todos os seus negócios

organizados, a fim de que de tudo se possa ter conhecimento, rapidamente,

seja a seu débito, seja a seu crédito, porque de outra forma não se

consegue comerciar.

Tal condição é imprescindível nos negócios, pois seria impossível

administrar sem ordem na escrita contábil e a ausência de tranqüilidade

perturbaria a mente.

Todo tipo de registro é oferecido em cada capítulo deste Tratado

porque este foi elaborado visando apoiar uma boa gestão. Ainda que tudo

o que se faz necessário pudesse eu escrever e mesmo em relação ao

que escreverei adiante, ao que ficou omisso é ainda possível com alguma

inteligência aplicar-se de forma similar o que aqui se ensina.

Em tudo conservarei o modo de Veneza porque, entre outros, este

é o que me parece ser o mais recomendável e porque por ele tudo poderá

ser guiado.

Tudo dividiremos em duas partes especiais, uma chamaremos

Inventário e a outra Disposição; e, primeiro sobre uma e depois sobre

a outra sucessivamente dir-se-à segundo a ordem disposta no índice,

por meio do qual o leitor poderá orientar-se segundo o número de seus

capítulos e folhas.

Quem com a devida ordem que se espera desejar bem saber ter um

Razão com o seu Diário, que atento esteja a tudo o que se vai dizer.

E para que bem se entenda o processo, exemplificaremos o caso

de quem inicia um comércio como para organizar-se deve proceder na

manutenção de suas contas e registros, a fim de que possa, sucintamente,

encontrar cada coisa em seu devido lugar, porque se não dispuser as

coisas ordenadamente ver-se-á em grandes trabalhos e confusões em

todos os seus negócios. Fala-se, vulgarmente, que “onde não há ordem,

há confusão”.

E no intuito de oferecer algo compreensível sobre o procedimento

em relação a cada comerciante, dividiremos o assunto em duas partes

principais, usando a maior clareza para que disso o máximo proveito se

tire.

Inicialmente, demonstremos o que é o inventário e como deve ser

feito.

Fundação Brasileira de Contabilidade

CAPÍTULO II

A PRIMEIRA PARTE PRINCIPAL DESTE “TRATADO”

DITA INVENTÁRIO, O QUE É O INVENTÁRIO E

COMO DEVE SER LEVANTADO

PELOS COMERCIANTES

Convém, de início, pressupor e imaginar que toda ação é movida

por uma finalidade e que, para alcançá-la devidamente, todo o esforço se

despende no seu processo; fim de qualquer negociante é o de conseguir

lícito e competente ganho para o seu sustento.

Portanto, sempre com o nome do Senhor Deus deve-se começar o

trabalho invocando-se o seu Santo Nome.

Assim sempre iniciando o seu inventário deves escrever em uma

folha, ou em livro separado, colocando nesta tudo aquilo que encontrares

e possuíres quer sejam móveis ou imóveis, começando sempre pelas

coisas de maior valia e que sejam mais fáceis de serem perdidas, como

são o dinheiro em espécie, pratas, etc., porque os imóveis, tais como

casas, terrenos, lagoas, vales, pesqueiros e semelhantes não se podem

desviar, tal como já não acontece com os bens móveis.

Sucessivamente, cada uma de per si, anotarás as outras coisas,

colocando, sempre, inicialmente, o dia, o ano, o lugar e o teu nome no

inventário; todo o dito inventário deve ser levantado em um mesmo dia

porque de outra forma originaria problemas posteriores.

Para tal exemplo, darei um modelo pelo qual em qualquer aplicável

a todos os demais casos semelhantes.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO III

FORMA EXEMPLAR COM TODAS AS SOLENIDADES

REQUERIDAS PELO INVENTÁRIO

Em nome de Deus, em 8 de novembro de 1493, em Veneza.

O que se segue é meu inventário; eu Fulano de Tal de Veneza, sediado

à Rua do Santo Apóstolo, o qual, de forma ordenada e manualmente, eu

mesmo escrevi ou fiz escrever por fulano de tal, etc. relativo à totalidade

de meus bens móveis e imóveis, débitos, créditos que no mundo possuo

neste dia, item por item.

Inicialmente, encontro de dinheiro entre ouro e moeda, tantos

ducados .... dos quais tantos são venezianas, de ouro e tantos húngaros,

de ouro, e tantos florins maiores entre papalinos, sieneses e florentinos. O

restante é de moedas de prata e de cobre de diversas qualidades, isto é,

tronos, marcelos, carlinos reais e papalinos e grandes florentinos, tostões

milaneses, etc.

2º item – Encontro em pedras preciosas engastadas e soltas,

peças nº de tantas...., das quais tantas são rubis em broquel engastadas

em anéis de ouro, pesando onças, grãos e quilates, etc. Cada um ou

no total o que podes dizer a teu modo. E tanto são safiras, também em

broquel de brochas para senhora, pesando ... e tantas são rubis, cônicos,

soltos, pesando.... os outros são diamantes brutos em broquel e pontudos,

mencionando as espécies e pesos a tua vontade.

3º item – Encontro vestes de muitas espécies, tantas de tal e tantas

de tal, discriminando suas condições, cores, jorros e feitios.

4º item – Encontro pratas trabalhadas de muitas espécies, como

copos, bacias, escumadeiras, colheres, garfos, etc. Aqui descreves toda

a espécie, uma por uma e para cada uma de per si com sutileza, tomando

nota das peças e dos pesos .... e das ligas ou veneziana ou ragusa.... e

também do estampo ou marca que tenha, disto fazendo menção.

5º item – Encontro colchões de penas em número de tantos... com

os seus travesseiros de plumas novas ou usadas... forro novo... os quais

pesam ao tudo, ou por um, libras tantas... marcados com o meu sinal ou

outro, como é de costume.

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6º item – Encontro mercadorias em casa, ou em armazéns, de

muitas espécies de lotes, tantos volumes de gengibres brutos, pesam libras

tantas, assinalados com a tal marca, etc. E assim irás relacionando espécie

por espécie as mencionadas mercadorias, com todas as contramarcas

que seja possível com quanto maior clareza se possa no peso, número e

dimensões.

7º item – Encontro tantos volumes de gengibres selecionados ....

e tantas cargas de pimenta comprida ou pimenta redonda, conforme o

que for; e tantos fardos de canela .... que pesam...; e tantos volumes de

cravo.... que pesam com ou sem hastes, pó e cápsulas, e tantas peças

de coral, etc. que pesam.... tantas peças são vermelhas ou brancas, que

pesam.... e assim irás pondo, ordenadamente, um após o outro, etc.

8º item – Encontro pelerias para adornos, isto de cordeiros brancos

e alvos puglieses ou marquesianos, etc. nº tantos de tal espécie, etc. e de

raposas grandes nº tantos curtidos e nº de tantas cruas .... e de camurças

curtidas e cruas nº de tantas ....

9º item – Encontro peles finas selvagens, arminhos, dorsos de várias

cores, zebelinas, etc., nº de tantos de tal gênero e tantos de tal, etc., assim

distinguindo uma a uma, cuidadosamente, com toda a veracidade, a fim

de que te guies com exatidão, tendo sempre cuidado com as coisas que

se contam por número e as que se consideram a peso ou medida, uma

vez que destas três espécies se costuma negociar em tudo, e algumas são

negociadas em milheiros, outras por centenas, outras por libras, outras

por onças, por quantidade, isto é, contadas, como pelames, etc., outras

por peças como jóias e pérolas finas; assim, de tudo toma bem nota, coisa

por coisa .... e isto te bastando para orientação, relativamente, às outras

poderás seguir o mesmo caminho.

10º item – Encontro imóveis, primeiramente uma casa, com tantos

pavimentos .... com tantos cômodos, pátio, poço, horta... situada no bairro

Santo Apóstolo, sobre o canal ... perto de tal ... e tal .... indicando os confins

e referindo-te aos documentos se são realmente antigos .... E assim, se

houver mais casas, em diversos locais, relaciona-las semelhantemente,

etc.

11º item – Encontro terras cultivadas, campos com alqueires ou

fangas, designando-as de acordo com o uso da região onde se encontram,

ou onde estão situadas .... nº tantas, mencionando para o campo a

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

quantidade de alqueires, braças ou varas, ou corados, etc. situado na

tal cidade paduana ou em outra, perto das propriedades de fulano ....

indicando os confins ou documentos ou registro cadastral, pelos quais

se pagam os tributos municipais; quem os trabalha, fulano .... rendem de

aluguel anual tanto ... e de dinheiro tanto .... E assim narrarás tuas posses

e também o gado em parceria.

12º item – Encontro créditos a receber à Câmera emprestados ou

a outro Banco, em tantos ducados de capital no bairro de Cannaregio; ou

ainda parte em um bairro e parte em outro, narrando ainda o nome dos

inscritos, indicando o livro do cartório, o número da folha na qual está

escriturado, o nome do escrivão que tem tal livro, a fim de que isto facilite

a localização quando fores retirar o dinheiro, porque em tais lugares é

habitual haver muitas contas de terceiros que intervém em transações. E

anota o ano a que corresponde cada prazo para que saibas que proventos

podem dar e a que percentagem correspondem, etc.

13º item – Encontro meus devedores número de tantos .... um é o

senhor fulano .... que me deve pagar tantos ducados, o outro é fulano de

tal e tal .... e assim narrarás um a um com identificação e sobrenomes e

domicílios e quanto te devam pagar e por quê. Também mencionarás se

são documentos particulares ou públicos lavrados em cartório. Em suma,

devo cobrar tantos ducados ... de bom dinheiro, se de pessoas de bem

como também até os que parecem duvidosos quanto ao recebimento.

14º item – Encontro-me devedor em total de tantos ducados, tanto

a fulano e tanto a beltrano...., identifi cando teus credores um a um e quais

os entendimentos entre vós, indicando letras e documentos, a quem, como

o dia, o lugar, pois poderão motivar querelas judiciais ou extrajudiciais.

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CAPÍTULO IV

UTILÍSSIMA EXORTAÇÃO E SALUTARES

CONSELHOS PERTINENTES AO

BOM COMERCIANTE

E assim havendo discorrido, diligentemente, sobre todas as coisas

que possuis, como se disse, uma por uma, mesmo que sejam milhares,

em que condições e espécie estiverem, inclusive de depósitos bancários

e empréstimos, convém relacionar, organizadamente, tudo no referido

Inventário, com todas as anotações, nomes e sobrenomes, o tanto

quanto possível, porque ao comerciante nunca é demasiada a clareza,

pelos inumeráveis casos que no comércio podem ocorrer em sua prática

diuturna. Bem diz o provérbio que é preciso mais esforço para se fazer um

comerciante do que a um doutor em leis.

Quem é capaz de calcular as decisões e casos que às mãos do

mercador chegam ora por mar, ora por terra, ora em tempo de paz e

abundância, ora em tempo de guerra e carestia, ora em tempos de saúde

ou de epidemias?

Igualmente indetermináveis são os tempos e as condições que ao

comerciante inspiram as decisões, seja em relação ao mercado em que se

situa, seja para as feiras em outros locais e que ora se realizam em uma

Nação e outra em uma cidade.

Por isto, o empresário se assemelha mais a um galo, este que entre

os demais é o animal mais vigilante, aquele que fica vigilante dia e noite,

quer no inverno, quer no verão, sem descanso em tempo algum, diferindo

do rouxinol que apenas canta por toda a noite no verão, mas não mais no

inverno, como a experiência evidenciou aos que observaram tais coisas.

Igualmente, dizem que o comerciante precisaria ter cem olhos e

que mesmo assim estes ainda seriam poucos para orientar sobre tudo o

que deve fazer e dizer; só quem já o foi pode bem isso entender, pelas

provas que disso já teve.

Assim, por isto dizem: Venezianos, florentinos, genoveses,

napolitanos milaneses, anconitanos, bressianos, bergamascos, aquilenses,

sieneses, lucanos, peruginos, caglieses, ugobinos, catelanos, borgheses,

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

fulignanos com pisanos bolonheses e ferrareses, mantovanos, veroneses,

vigentinos, paduanos, traneses, Lecce, Bancom Betonta, cujas repúblicas,

entre outras italianas são vizinhas de Veneza, esta a mais importante

comercialmente, seguida de Florença, que com a excelsa Veneza divide

a primazia, que são estas poderosas as que ditam as normas e regras

necessárias. Bem o dizem, assim como também as leis municipais

regulam: “É necessário que se ajudem àqueles que vigiam e não àqueles

que dormem”, isto é, as leis são feitas para quem vigia e não para quem

dorme.

E é por isso que nos divinos ofícios se canta na Santa Igreja que

Deus aos que estão de vigília a recompensa se promete. Em razão disto

é que Virgílio a Dante aconselha, como filho seu, no canto 24 do inferno

quando diz, ao exortar o trabalho que cora a virtude:

“Agora convém, filho, que tu despertes

Disse o meu mestre, que todavia em descanso,

Em fama não chegou sob colchas

Sob as quais aquele que sua vida consome

Com tal prática na terra se esvai

Qual fumo no ar e na água a espuma”.

E um poeta vulgar ao mesmo assunto se refere, dizendo:

“Não te pareça estranho o trabalho

Que Marte jamais concedeu batalha

Àquele que só de repouso se alimenta.

O exemplo do sábio ainda é oportuno quando ao preguiçoso

adevertiu que preciso seria mirar-se no exemplo da formiga. E também o

faz Paulo Apóstolo ao lecionar que ninguém será digno dos louros a não

ser pelo combate.

Estas lembranças quis aduzir para que útil te fosse, para que não

te pareça demasiada a tua quotidiana diligência em teus negócios por se

esmerar em ter a pena no papel e escrever tudo o que te ocorra, como a

seguir se dirá.

Mas sempre sobretudo, primeiro, Deus e o próximo te estejam diante

dos olhos e não faltes de ouvir a missa pela manhã, lembrando-te que por

intermédio dela jamais se perde o caminho, nem pela caridade reduzem

as riquezas, como se diz nesse santo verso: “Nem o recurso da caridade,

nem a missa encurtam o caminho, etc.” Nisso também exorta o Salvador,

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em São Mateus, quando diz: “Procurai primeiro o reino de Deus, porque

todas as cousas vos serão dadas por acréscimo”. Procurai, cristãos,

antes de tudo, o reino dos Céus e depois as outras coisas temporais e

espirituais facilmente conseguireis, posto que o vosso Pai celestial de

vossas necessidades bem cuida: e isto admito te seja suficiente para o

teu aprendizado do Inventário tão como para a elaboração dos demais

documentos.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO V

DA SEGUNDA PARTE PRINCIPAL DO PRESENTE “TRATADO”

DENOMINADA DISPOSIÇÃO, COMO

SE DEVE ENTENDÊ-LA E EM QUE

CONSISTE NO COMÉRCIO, E DOS TRÊS OUTROS LIVROS

PRINCIPAIS DO PATRIMÔNIO MERCANTIL

Segue-se, agora, a segunda parte principal do presente “Tratado”

à qual já nos referimos e que denominamos Disposição, esta que requer

maior dissertação que a primeira.

Para tanto, dividiremos em duas partes, uma denominada patrimônio

geral e outra patrimônio comercial, mas, em primeiro lugar, trataremos do

patrimônio geral e de todo o giro do mesmo, assim como do pertinente

requerido. Após o inventário, três livros se fazem necessários para maior

destreza e comodidade, um denominado Borrador, outro Diário e outro

Razão.

Quando os negócios são de menor movimento adotam-se apenas

dois: o Diário e o Razão.

Em razão disto é que daremos prioridade ao Borrador e depois

cuidaremos dos outros dois, das suas formas, meios e maneiras de

escriturar, começando pela definição.

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CAPÍTULO VI

DO PRIMEIRO LIVRO DITO MEMORIAL BORRADOR

OU COSTANEIRA, O QUE SIGNIFICA, POR QUE

E COMO SE DEVE ESCRITURÁ-LO

O Memorial, segundo alguns denominado Borrador ou Costaneira,

é um livro no qual, diariamente e em cada momento, o comerciante deve

escrever claramente tudo o que ocorre em seus negócios, quer sejam os

fatos de pequena ou grande monta, anotando cada coisa que vende ou

compra (como também outros negócios), nada excluindo, com identificação

minuciosa de quando e onde as coisas acontecem, à semelhança do

inventário ao qual já me referi, além de cuidar para que ninguém o possa

contestar.

Nesse livro, é habitual incluir-se também o Inventário, mas como

é manuseado por muitas pessoas melhor será excluir detalhes sobre

móveis e imóveis.

O que justifica tal livro é o fato de que mesmo sendo rápidos os

negócios tudo no mesmo possa ser escriturado, quer pelo patrão, feitores,

empregados, esposas, um suprindo o outro quando faltar; como, todavia,

o grande comerciante mantém em plena atividade os seus empregados e

feitores, delegando-lhes constatemente tarefas, pode ocorrer que na falta

dos principais, quer porque estejam em feiras, quer agindo em negócios

na praça, somente as senhoras e alguns empregados menos qualificados

fiquem em casa, podendo ocorrer que estes não saibam escrever, ou talvez

mesmo necessitem atender aos clientes para que estes não se percam,

sendo mais conveniente preocupar-se com o vender, o cobrar, o pagar,

o comprar, dando a tais coisas prioridade sobre os registros detalhados,

como certamente desejaria o proprietário.

Em tais casos, os auxiliares podem escrever apenas os valores e

pesos que negociem e deixar de lado as espécies de moedas em que

vendam ou comprem, paguem ou recebam; isto porque não há maior

importância que tipo de moeda recebam, o que já não ocorre em relação

ao Diário e ao Razão sobre os quais a seguir dir-se-á, pois, em tais livros,

o escriturário a tudo regularizará nas transcrições.

Quando o proprietário retornar conferirá todos os assentamentos e

os ajustará a seu modo; quem tem muito movimento, portanto, não pode

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

prescindir de tal livro porque seria arriscado não rascunhar com segurança,

ordem e tempestividade, para depois tudo colocar nos livros principais.

Nesse livro, como nos demais, deve-se, inicialmente, na capa, fazer

a identificação do mesmo para que, em qualquer tempo, possa facilmente

ser reconhecido, quer quando já completo ou todo escriturado, ou mesmo

quando passado algum tempo se tivesse necessidade de consultá-lo ou

encontrá-lo.

Alguns costumam, ainda, em diversas partes, encerrá-lo, ainda

que o livro não esteja totalmente escriturado, a cada ano, utilizando livros

novos, como adiante se exporá.

No livro que se sucede, todavia, para efeito de organização, deve-

se renovar a identificação do mesmo como sendo o segundo, portanto

diferente, para que fácil seja o controle seqüencial, sem que se esqueça

de mencionar o ano.

Os verdadeiros católicos costumam assinalar os livros primeiros com

a Santa Cruz para afugentar o inimigo espiritual e toda a caterva que treme

diante desse sinal, como se aprende antes mesmo de saber-se o alfabeto.

Os livros seguintes podem identificar-se pela ordem alfabética, isto

é A e o terceiro B, e, assim sucessivamente.

Daí poder-se denominar, pois, Livro da Cruz, ou Memorial Cruz,

Diário Cruz, Razão ruz, índice ou Extrato Cruz, etc. e aos demais livros

que se seguirão de: Memorial A, Diário A, Razão A, etc.

Em todos esses livros, as suas folhas devem ser numeradas,

consoante aos motivos e cautelas que os escriturários precisam ter.

Existem os que acreditam ser dispensáveis tais cautelas no Diário

e no Borrador porque as coisas já se julgam pela cronologia, sendo esta

suficiente para que tudo se encontre ligado. Isso seria verdadeiro se os

negócios de um dia não se transportassem a outras folhas; o que se

observa, todavia, é que muitos grandes comerciantes não preenchem

apenas uma folha, mas, sim, duas, três em um só dia e quem desejasse

prejudicar poderia então arrancar uma delas. Portanto, a data apenas

é insuficiente para denunciar tal fraude, porque os dias, no caso

exemplificado, se sucederiam mesmo com a subtração da folha; por isto

e por outros motivos, melhor será numerar seguidamente todos os livros

comerciais, tanto da empresa, quanto os da loja fazendo isso em todas as

folhas, etc.

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CAPÍTULO VII

COMO EM DIVERSOS LUGARES SE AUTENTICAM

TODOS OS LIVROS COMERCIAIS,

POR QUE E POR QUEM

Os livros, segundo os costumes dos diversos lugares, nos quais

estive, para apresentá-los e levá-los a certos Cartórios Comerciais, como

ocorre em Perugia, é preciso identificá-los, como intencionas registrar ou

fazer registrar por terceiros, em que moeda os escriturarás, seja em liras

pequenas, ou grandes, ou ducados e liras, etc., ou mesmo em florins,

soldos, dinheiros, e ainda em onças, taris, grãos, etc.; tais circunstâncias

devem constar da primeira folha dos referidos livros. Se a pessoa que vai

escriturar o livro já não for a mesma, isto deve ser informado ao Cartório,

como esclarecimento. O escrivão, pois, de tudo deve fazer menção nos

registros em Cartório, referindo-se ao dia da apresentação dos livros, os

sinais de identificação destes, a denominação que possuem, o número

de folhas, etc., como também quem é o responsável pelos registros dos

mesmos e quem por este pode escriturar o Borrador, mesmo que sejam

pessoas da família, identificando-os um a um.

Então o escrivão, por sua própria mão, autenticará escrevendo o

nome do cartório, o ano, tudo na primeira folha, etc., selando ainda com

a chancela do Cartório para que tenham fé os registros para todos os fins

judiciais que possam advir.

Tal critério é recomendável e usual em todos os lugares; ocorre,

todavia, que alguns possuem de má-fé os livros em duplicata, uns para

mostrarem a compradores e outros a vendedores, e o pior é que apregoam

tal coisa como se boa fosse, jurando e perjurando.

Se, todavia, apresentassem seus livros em Cartórios, tais mentiras

e fraudes certamente não conseguiriam praticar contra o próximo. Tendo,

todavia, teus livros ordenados e registrados em cartório, a tua casa podes

voltar e com o nome de Deus escrever tuas operações comerciais.

O Diário deve iniciar-se pelo Inventário com as partidas da forma

que a seguir exemplificara-se-á, mas, antes, é bom que bem compreendas

tudo sobre o Memorial.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO VIII

EXEMPLOS DE COMO SE DEVEM REGISTRAR

AS PARTIDAS NO MEMORIAL

Como já foi referido, o Memorial, também chamado Borrador ou

Costaneira, pode ser anotado por qualquer um dos teus auxiliares, mas

sobre a maneira de como deveriam fazer tais partidas, não é possível,

plenamente, oferecer pleno ensino, pois alguns em tua casa poderiam

entender e outros não.

O exemplo que se segue, entretanto, é o que, costumeiramente,

se adota, ou seja: admitamos que tenhas comprado umas tantas peças

de tecido (suponhamos que sejam 20 panos brancos, provenientes da

cidade de Brescia) por 12 ducados cada uma; basta, então, que registres

simplesmente dizendo: Neste dia, temos, por compra feita ao senhor Felipe

de Russoni, de Brescia, panos nº 20, brancos, bressanos, depositados

na loja do Senhor Estevão Tagliapedra, etc., possuindo as peças o

comprimento de tantas braças, por tantos ducados cada uma, marcadas

com tal número, mencionando se são de três fios lisos, baixos ou altos,

finos ou médios, bergamascos ou vicentinos, veroneses ou paduanos,

florentinos ou mantuanos, e sendo o caso, mencionarás se houver, o

intermediário, narrando se a mercadoria foi toda adquirida a dinheiro, ou

parte a dinheiro e parte a prazo e neste caso qual o vencimento.

Se a transação for parte a dinheiro e parte em mercadorias, deves

especificar as mercadorias pelas quantidades, pesos, medidas e preços,

se de milheiro, centena ou onça. Se foi tudo a crédito, mencionarás qual

o prazo. Se para entrega futura, mencionarás a época da partida das

galeras, se de Beirute ou de Flandres, ou se de retorno de navios, etc., e

especificando a chegada de ditas galeras e navios, etc.

No caso de prazo futuro referente a eventos de feira ou de outra

festividade, como as ocorridas pela Páscoa, Natal ou Ressurreição,

Carnaval, etc., anotarás sempre as condições sob as quais te empenhaste

no negócio; concluindo, no dito Memorial convirá não esquecer ponto

algum, e, se possível, dizer quantas palavras sejam necessárias, porque,

como no Inventário supradito, os detalhes nunca serão demasiados.

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CAPÍTULO IX

DOS NOVE MODOS DE AQUISIÇÃO DE MERCADORIAS,

PRINCIPALMENTE AQUELA A PRAZO

Nove são as modalidades de compras que podem ocorrer

comumente: à vista; a prazo; com troca de mercadorias ou permuta; parte

a dinheiro e parte a prazo; parte a dinheiro e parte com permuta; parte

com permuta e parte a prazo; por ordem de pagamento; parte por ordem

de pagamento e parte a prazo; parte por ordem de pagamento e parte com

permuta. Estes são os nove modos pelos quais se compra comumente.

Qualquer que seja a modalidade, dentre as descritas, adotada

para as tuas compras, faça com que tu mesmo ou terceiros a descreva

adequadamente, pois isto é que é o correto.

É preciso especificar bem as compras que fizeres para entregas

futuras quando ocorrerem as colheitas ou produções de mercadorias,

como é habitual ocorrer com as sazonais de: forragens verdes ou cereais,

vinhos, sal, couros de matadouro e sebos; assim, no caso do açogueiro é

preciso identificar cada produto por espécie, por valor de libra e os demais

da mesma forma, sejam sebos de reses, capados ou peles de carneiros

negros, destacando aqueles que sejam contados por centena, o mesmo

critério usando para as peles de carneiros brancos, etc.

Também para as forragens verdes ou cereais é preciso especificar

o quantitativo do milheiro de libras, como o do alqueire ou molho de

canastra ou cereais, pois assim é que se costuma fazer em Perugia, tal

como em relação a forragens verdes se faz em Borgo di San Sepolcro,

nosso tão pequeno mercado, em Santo Angelo, cidade de Castelo, Forli,

etc., fazendo detalhadamente, por escrito tudo constar no Borrador, quer

por suas mãos ou pela de terceiros, narrando de forma simples, mas com

fidelidade a origem de tudo.

A seguir o escriturário ao cabo de 4, 5 ou 8 dias, aproximadamente,

transcreverá o dito Borrador no Diário, dia por dia, tudo como ocorreu,

variando apenas algumas minúcias que no Diário não se façam tão

necessárias.

Quando os fatos estão bem explicados no Memorial não há

necessidade de tudo, tal e qual, repetir, bastando referências.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Os que, todavia, costumam ter os três livros referidos jamais devem

colocar no Diário o que no Borrador não existe. Para a boa ordem do

Borrador basta o que já foi dito para os que o escrituram, sejas tu ou

outrem.

A forma como podes comprar de outrem é a mesma que de ti

podem comprar. Das vendas aqui não nos ocuparemos agora, mas teus

assentamentos, pelo dito, pode fazê-los.

Fundação Brasileira de Contabilidade

CAPÍTULO X

DO SEGUNDO LIVRO COMERCIAL PRINCIPAL

DITO DIÁRIO – O QUE É E COMO

SE DEVE MANTER

O segundo livro mercantil usual é o Diário, no qual, como foi dito,

deve estar gravada a mesma identificação, as folhas rubricadas, tal como

para o Borrador já nos referimos.

Pelas já ditas razões, sempre deve começar-se por colocar dia e

ano em cada folha, e, depois, uma a uma as partidas do seu inventário,

completas, no qual Diário (por ser teu livro privativo) poderás tudo incluir

sobre os móveis e imóveis que tens, referindo-te sempre ao fólio que

por tua mão ou de outrem foi escrito; tal livro o conservarás em caixa,

caixote, mala, maço ou bolsa porque é assim que se usa conservar, como

também se faz com cartas e documentos menores. No Diário, todavia, as

partidas devem ter maior rigor formal, evitando-se o supérfluo, mas sem

ser também demasiado sucinto, como fartamente exemplificarei.

Antes de tudo, entretanto, é preciso observar que duas expressões

são usadas no Diário, porque na excelsa cidade de Veneza assim são

reconhecidas como imprescindíveis, motivo pelo qual sobre as mesmas a

seguir trataremos.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XI

DAS DUAS EXPRESSÕES NO DIÁRIO USADAS EM

VENEZA: UMA DENOMINADA “POR” E

OUTRA DENOMINADA “A”

E O QUE INDICAM

Duas expressões de significações distintas são usadas no Diário,

uma dita POR e outra A. O “POR” designa o devedor, seja um ou mais, e

o A identifica o credor, seja um ou mais.

Jamais se deverão fazer partidas no Diário (que no Razão serão

registradas) que não se identifiquem de tal forma.

No começo de cada partida, põe-se o POR porque se registra

primeiro o Devedor e depois, a seguir, o credor, separando um do outro

por duas pequenas vírgulas, como no exemplo abaixo notarás.

Fundação Brasileira de Contabilidade

CAPÍTULO XII

MUITAS EXEMPLIFICAÇÕES DE COMO ESCRITURAR

AS PARTIDAS DO DÉBITO E DO CRÉDITO NO

DIÁRIO. COMO ENTENDER OUTROS DOIS

TÍTULOS UTILIZADOS NO RAZÃO,

UM DENOMINADO CAIXA E

OUTRO CAPITAL

Igualmente com o nome de Deus inciarás os registros de teu Diário

pela primeira partida do teu Inventário, ou seja, aquela relativa à quantidade

de dinheiro que em espécie encontraste.

Para que saibas colocar tal valor inventariado no Razão e no Diário,

torna-se necessário que se idealizem duas outras expressões, uma dita

Caixa e a outra Capital.

Por Caixa entende-se a tua própria ou verdadeira bolsa e por Capital

entende-se tudo o que representa o teu atual patrimônio. O Capital é

sempre credor em razão dos princípios que se adotam nos Diários e Razões

mercantis e a dita Caixa deve ser sempre devedora.

A Caixa nunca pode ser credora, devendo ser sempre devedora, o

que não ocorrendo denunciará erro na escrituração do livro, como adiante

voltarei a lembrar.

No Diário, a partida referida deve-se registrar do modo a seguir

indicado. Forma de registrar no Diário:

1493, 8 de novembro, Veneza

1º Por Caixa de Numerário: A Capital Próprio, eu, Fulano de tal, etc.

Débit. 1 em dinheiro, em espécie encontrado presentemente em ouro e

moedas;

Crédit.2 prata e cobre de diversas cunhagens, como aparece na folha

do Inventário em Caixa colocado, etc., no total tantos ducados de ouro e

moedas ducados, tanto valendo tudo ao câmbio veneziano em base ouro,

isto é, a 24 soldos grandes por ducados, e a 32 soldos pequenos em liras

de ouro.

Lira. Soldos Grossos. Miúdos (pequenas moedas)

A segunda partida escriturarás da seguinte maneira:

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

2º Por Pedras Preciosas, engastadas e soltas: A Capital, dito por tantos

brilhantes engastados, etc. pesam, etc. e safiras tantas, etc. e rubis e diamantes,

etc., como aparece no supra mencionado inventário, os quais declaro valerem

no curso comum os brilhantes tanto, etc., e assim se deve dizer de cada espécie

o seu preço comum, importando tudo em tantos ducados, etc., valendo

L. 5.gr.p.

Quando o dia já está indicado e sendo os mesmos os devedores e

credores, sem que outras entremeem, poderás simplifi car dizendo A pelo dito,

Por pelo dito e A pelo dito, etc. para que assim se simplifi que.

3º Por Pratas Trabalhadas: Ao Dito, que se entende por Capital, pelas

pratarias que existem, ou seja: tantas bacias, etc., tantas escumadeiras, etc., e

copos tantos, etc., e garfos tantos, etc., e colheres tantas, etc., pesam no total

tanto, etc., valem

L.S. gr.p.

Discriminando, pois, cada coisa, primeiramente, procederás tal como

fizeste no Inventário, também, avaliando ao preço que valha 20, coloque 24,

etc., para que o lucro seja melhor. E assim, consecutivamente, colocarás as

demais coisas com seus pesos, números e valores, etc.

4º Por Vestimentos de Lã: Ao dito, por vestes tantas de tais cores, etc.

e de tal feitio, etc., de tal forro, etc., usados ou novos, de meu uso ou de minha

mulher, ou de filhos, etc., que estimo valerem ao preço corrente, um pelo

outro, no total tantos ducados, etc., e por tantos mantos de tal cor, etc., como

dissesses das roupas e assim dirás de todos os mencionados vestuários, pelo

total.

L.s.g.p.

5º Por Panos de Linho: Ao dito, tantos lençóis, etc., tudo como está no

inventário, importando e valendo, etc.

L.s.g.p.

6º Por colchões de Pena: Ao dito, por tantos de pluma, etc., tudo como

está no inventário, importando e valendo.

L.s.g.p.

7º Por Gengibres Brutos: Ao dito, por tantos volumes, etc., tudo como

está no inventário, importam e valem a preço corrente, tantos ducados.

L.s.g.p.

Fundação Brasileira de Contabilidade

A seguir, de forma integral, colocarás as demais partidas,

abrangendo a todas as demais coisas, sem nada omitir, como para o caso

do gengibre se exemplificou, avaliando-se ao preço corrente, indicando

as suas quantidades, marcas e pesos, tal como no Inventário se acha,

indicando, como parte integrante da partida a avaliação na moeda que

elegeres e que convém deva ser uma só, porque inconveniente seria que

mais de uma fosse.

No Diário, deves encerrar cada partida de per si, nenhuma isolando

por linha, até que concluída esteja. O mesmo critério se usa no Borrador

pois, deste se passa ao Diário, assinalando-se tal passagem com uma

linha vertical para que se saiba que já foi transcrita, etc.

Se não desejares atravessar a partida com uma linha, lançarás

letras no início da partida, ou no fim, ou, então, outro sinal que te possa

lembrar que a partida já foi lançada no Diário.

Poderás escolher teus termos e sinais, embora o melhor seja fazer

o que é usual entre comerciantes a fim de que não pareças discrepante.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XIII

DO TERCEIRO E ÚLTIMO LIVRO COMERCIAL

PRINCIPAL DITO RAZÃO, COMO SE DEVE

FAZÊ-LO E DO USO DE SEU ÍNDICE. COMO

ORGANIZÁ-LO ÚNICO E DUPLO

Depois que todas as partidas tiveres registrado no Diário, é preciso

que estas se transplantem para um 3º livro dito Razão grande, o qual se

costuma fazer em duplas folhas, sendo conveniente o uso de um índice,

também dito Repertório ou Indicador e que, segundo alguns, em Florença

chamam-no “Sumário”.

Ali inscreverás todos os devedores e todos os credores pelas

letras que os identificam e pelo número da folha pertinente, isto é, os que

começam por A em A, etc. e em seqüência literal.

Similarmente, como foi dito, convém que coincidam com os mesmos

sinais do Diário e do Borrador, colocados os números das folhas e, acima,

à margem de um e outro lado, o ano.

A primeira folha deve ser a de Caixa porque sendo esta a primeira

conta no Diário deve também sê-lo no Razão.

Tal folha ficará só para o Caixa porque esta é a que merece mais

espaço, não se devendo lançar nela, nem em débito e nem em crédito,

qualquer outra coisa; isto porque Caixa é a conta que se movimenta mais

que outras, pelo efeito de constantemente se colocar e tirar dinheiro.

Convém que o Razão tenha tantas linhas de acordo com a

quantidade de moedas que pretendes movimentar.

Se lidares com liras, soldos, dinheiros e miúdos, deverás ter quatro

casilhas, e, diante das liras, deverás ter mais uma para que coloques o

número da folha das mesmas partidas que conjuntamente em débito e

crédito se ligam.

Adiante farás duas linhas para que a data se coloque, como já se

disse para os demais livros, desnecessário sendo alongar-nos para que

passemos às partidas seguintes.

O Razão, também assinalarás com uma cruz, como já foi dito.

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CAPÍTULO XIV

DO MODO DE TRANSPORTAR AS PARTIDAS DO DIÁRIO

PARA O RAZÃO E POR QUE ENQUANTO NO DIÁRIO SE FAZ

UMA E NO RAZÃO SE FAZEM DUAS. DO MODO DE RISCAR

AS PARTIDAS NO DIÁRIO. POR QUE NA MARGEM SE

COLOCAM DUPLOS NÚMEROS DAS FOLHAS DO RAZÃO

Como já sabes, todas as partidas que colocaste no Diário, duplas

elas devem sempre ser no Razão Maior, isto é, uma em débito e outra em

crédito, identificando-se o devedor pela expressão POR e o credor pela

A; tanto em um livro quanto no outro, de forma pertinente, colocarás o

devedor no lado esquerdo e o credor no da direita.

Na partida do débito, coloca-se o número da folha do crédito e viceversa,

pois assim ficarão ligadas as partidas no dito Razão Maior, onde,

jamais, deve-se fazer um débito sem um crédito correspondente, devendo,

em valor, existir plena coincidência.

Disto é que nasce o Balanço, baseado nos saldos do livro, devendo

o débito coincidir com a soma do crédito.

Se, por exemplo, as partidas do débito somassem 10.000, em

decorrência do que das folhas constam, também a mesma soma deveria

ter o crédito; se assim não suceder é porque há erro no Razão, como ao

extrair seu balancete trataremos.

Portanto, como de uma do diário, duas se fazem no Razão, também

a partida do Diário deverá ser duplamente riscada na medida em que fores

transportando. Se primeiro registrares o débito na conta pertinente, farás

um risco para que saibas ter feito o transplante; se o crédito o fazes antes

ou depois (como alguns guarda-livros costumam fazer, quando mais de

uma conta existe, para evitar esquecimentos de as colocar em crédito),

farás outra sinalização ao lado direito no qual a partida termina, para que

se identifique a passagem do crédito. As linhas devem assemelhar-se ao

que para o Caixa aludimos, na 1ª partida, sendo uma para o crédito e

outra para o débito.

Desta forma, lateralmente, à margem, antes de começar, necessário

se faz que coloques 2 números, um sobre o outro, sendo o de cima relativo

à partida do devedor e, também, o número de páginas que no Razão as

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

identifica e as de baixo as que ao crédito igualmente denotem, tal como

para o Caixa se exemplificou, ou seja, 2 sem intermediação. Alguns

colocam ½, tal como se faz com as frações, o que é irrelevante; melhor,

todavia, que não tenha tais entremeios, para que não pareça referir-se a

fatos divididos ou fracionados, etc.

O número 1 quer dizer que o Caixa está na primeira folha do Razão

e o 2 que o Capital está na segunda do dito Razão, esta em crédito e

aquela em débito.

Observe que quanto mais perto colocares o credor de seu devedor,

tanto mais adequado será; se, todavia, colocares onde desejares, o que

pouco importa, terás dificuldades com as correspondências de épocas, o

que dificultará a localização como outros problemas poderão advir.

A habilidade ajudará, certamente, a ti, mas, melhor será sempre que

o devedor esteja perto do credor, ou seja, em seqüência, sem interposições

entre uma e outra partida, porque no mesmo dia em que nasce o devedor

também nasce o credor e, por isto, repito, devem estar próximos um do

outro.

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CAPÍTULO XV

DO MODO DE SABER REGISTRAR NO RAZÃO, EM DÉBITO

E CRÉDITO, AS PARTIDAS DE CAIXA E CAPITAL E DO ANO

QUE ACIMA, NO COMEÇO DA FOLHA, TRADICIONALMENTE,

COLOCA-SE, TÃO COMO DE SUA MUDANÇA E DO

COMPARTILHAR OS ESPAÇOS DAS FOLHAS SEGUNDO A

EXTENSÃO DOS REGISTROS E AS CONVENIÊNCIAS

DOS NEGÓCIOS

Agora discorro sobre outros aspectos para teu aprendizado, ou

seja, a relativa à primeira partida de Caixa que será no débito e depois

aquela de Capital que será no crédito, no teu Razão.

Antes, como disse, é preciso identificar o Ano, como tradicionalmente

se faz, isto é, em letras, como, por exemplo: MCCCCLXXXXII, etc.

O dia não é aquilo com que se começa primeiro o Razão, como no

Diário se faz, porque nas folhas do Razão muitos dias se colocam e eles

não serão seqüenciais de forma absoluta, mas, sim, de acordo com o que

nas partidas correspondem, como logo entenderás de início.

Assim, lateralmente, no espaço superior, antes de escriturar, quando

se fizesse necessário um registro que não fosse o do ano indicado, acima

na folha do livro (o que ocorre com quem não encerra contas a cada ano) é

preciso destacar a alteração à margem como a seguir exemplificaremos.

Essa é uma peculiaridade do Razão apenas não a sendo de outros

livros.

Portanto, adotarás a forma antiga de escrever o ano, para maior

beleza, extraindo-a do ábaco, embora com tal forma não te devas tanto

preocupar, etc.

Registrarás, pois:

Jesus MCCCCLXXXXIII

Caixa Numerário deve dar no dia 8 de Novembro.

Por capital, por dinheiros de diversas qualidades entre ouro e moeda

encontro em haver, naquela, no presente, em total. Folha 2ª L.s.g.p.

E nisto não precisas detalhar por já havê-lo feito no Diário,

procurando ser mais sucinto.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

No primeiro registro, por ser o inicial, então se diz mais ou se detalha;

nos seguintes: sendo iguais, basta dizer-se a tal dia, etc., por tal, etc.

L . s . g . p

Isto posto, riscarás o Diário no dar como acima te disse e depois no

haver de capital dirás logicamente:

Jesus MCCCCLXXXXIII

Capital me deve tal etc. deve haver no dia 8 de novembro por Caixa,

por dinheiros encontrados no final do dia em ouro e moedas várias.

Folha 1ª

L.s.g.p

Pelas razões já expostas podes ser sucinto e só nova partida

registrarás quando a anterior tiver sido toda lançada, e, aí, bastará dizer:

e no dia tal, etc., pela tal coisa, etc., como vês acenado ao lado e disto

terás exemplo. E depois farás outra riscadura no crédito do Diário como

já no 12º Capítulo disse, e, na margem, à frente da partida, colocarás os

dois números, como ali me referi, das folhas nas quais estão o devedor,

o credor, isto é, o devedor em cima e o credor em baixo, tal como já se

exemplifiquei na conta de Caixa.

Feito isso, no teu índice ou Repertório, cada um em sua letra,

colocarás devedor e credor, isto é, Caixa na letra C, ali inserindo desse

modo: Caixa em numerário folha 1 e em capital colocarás: meu próprio,

folha 2.

Todas as partidas então colocarás e o nome dos devedores, pessoas,

coisas e também credores, colocarás no Índice nas suas respectivas

letras; isto o ajudará, facilmente, localizar os registros no Razão Maior.

Isto permitirá que refaças o Razão em caso de roubo, incêndio,

naufrágio, etc., desde que também tenhas o Memorial ou Diário, com as

mesmas partidas, dia a dia, numerando-as de novo; maximé tendo tu o

Diário no qual as partidas já se transplantarem ao Razão pelos números

postos à margem e que eram os das folhas do Razão a este poderá

refazer, sendo isto o suficiente para os registros.

Em seguida, a segunda partida e que foi a das pedras preciosas,

para que bem as assente no Razão o mesmo farás; de novo voltarás

a colocar, em primeiro lugar, o ano se outra partida antes ocorrido não

tivesse; isso porque em uma mesma folha o contabilista poderá ter

aproveitado para 2 ou 3 contas quando percebe ser suficiente o espaço

Fundação Brasileira de Contabilidade

e conveniente assim fazer já que só as contas de maior movimento se

reservam folhas completas como dissemos no Capítulo 13º para o caso

de Caixa e Capital, para evitar-se transposições futuras.

Situado o local da conta, registrarás o débito, ao lado esquerdo,

porque esse é o tratamento para o mesmo.

Pedras preciosas de muitas espécies devem, no dia 8 de novembro,

por capital, por tantas peças.... pesando tanto .... dos quais tantos são

rubis engastados, etc., e tantos rubis cônicos, etc., e tantos são diamantes

brutos .... os quais no total valem por espécie ao preço corrente, tantos

ducados, etc., vol. 2

L.40 s.o.g.o.p.o.

Isso feito riscarás a partida no Diário, ampliando a linha como no

Capítulo 12º, falei; a seguir registrarás o capital, mais resumidamente, e

no crédito igual valor lançarás.

Dirás, logicamente.

Dia tal .... o dito, por várias jóias como consta da folha 3.

L.40. s.o.g.o.p.o.

Isso feito voltas a riscar o Diário, no crédito, como mostrei, no 12º

capítulo e, à margem, lançarás os números das folhas do Razão um sobre

o outro, como aparece no exemplo.

Como o registro fez-se na folha 3 e o de capital na 2, aí ficarão até

que a folha fique toda escriturada, porque deverá receber seus outros

registros pertinentes até se completar.

A seguir, feitos os lançamentos no Diário e no Razão, coloca-se,

portanto, no índice como já se disse, na letra própria G ou Z como preferires

e de acordo como se escreva a palavra nos diversos idiomas; em Veneza

adotamos o Z, mas, em Florença o G, mas, isto fica a teu critério.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XVI

COMO REGISTRAR NO RAZÃO AS MERCADORIAS QUER

PELO INVENTARIADO OU QUE POR OUTRA MANEIRA,

TANTO NO DÉBITO QUANTO NO CRÉDITO

As outras quatro partidas subseqüentes de teus bens móveis que

compreendem pratas, tecidos, linhos, colchões e vestuário de uso, as

transcreverá no Diário partindo diretamente do Inventário porque este não

se insere no Borrador como se explicou no Capítulo 6º.

Sem exemplificar, pois, como tais registros ocorreriam em Diário e

Razão e índice, o restante fica por conta de tua habilidade.

Só da 7ª partida trataremos, ou seja a de gengibres brutos que

possuis e mostraremos como tu a deves escriturar em Diário e Razão e

pela qual deduzirás que igual tratamento se aplica, tal como se deve fazer

com mercadorias, tendo sempre em mira sua quantidade, peso, medida e

valor, na forma em que são, habitualmente, vendidas e compradas entre

os comerciantes no Rialto ou em outros mercados, de acordo com os

mesmos; não é possível dar todos os exemplos, mas, pelos poucos aqui

realizados poderás os demais deduzir para teu uso; seria prolixo abranger

todas as regiões como a Marca, a Toscana, etc., tão como fugiriam ao

nosso objetivo e que é o de ser sucinto.

Pela 7º partida, de gengibre, escritura-se, evidentemente:

Por Gengibres Brutos em montes, a granel ou em fardos, dirás

como te aprouver, ao Dito, que se entende por Capital porque ali, em cima,

organizadamente, terás o Inventário, como no Capítulo 12 dissemos, na

segunda partida, das jóias, por secos pesam tantas libras ... quando a

granel ou em montes, etc., que encontro ter no presente, coloco a um

custo corrente de tantas libras ... totalizando ducados tantos .... vol.

L.s.g.p.

Uma vez que registraste o Diário tu, no Memorial ou no Inventário,

riscarás para sinalizar que o fizeste, como no 12º Capítulo foi dito.

Para as demais mercadorias o procedimento é o mesmo. Para

todos os casos, o que no Diário se registra, o mesmo se faz no Razão,

posto que devem ocorrer em um e em outro, sempre em débito e crédito,

como dissemos no Capítulo 14º.

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No Razão, a partida observará sempre a menção do ano, se não já

estiver ao topo da folha, naturalmente sem menção de dia, porque este

se coloca em cada registro, como no Capítulo 15º esclarecemos e porque

diversas são as partidas, tanto a débito quanto a crédito, ainda que todas

geradas em um só ano, mas, sempre serão diferentes quanto a meses e

dias, como poderás compreender.

A tradição dos livros mercantis, por isto, não fez cronológico o Razão,

porque não conseguiu ver meios nem formas para registros adequados.

A partida do crédito assim registrarás:

Gengibres Brutos em Montes ou Fardos devem dar 8 de

novembro.

Por Capital, por fardos tantos ... pesando tantas libras que as

encontro ter em casa, ou melhor, em armazém, nesse dia, as quais estimo

a preço corrente valerem com ducados tantos ete. total de duc. g.p. vol.

(folha 2).

L.s.g.p.

Feito isso, riscarás a partida no Diário, no débito, isto à mão

esquerda, como muitas vezes te disse, e, em seguida, assentarás no

crédito, no capital, como a das pedras preciosas, no Capítulo 15º, da

seguinte forma:

No dia, ou dito, por gengibres brutos em montes ou em fardos ....

folha 3

L.s.g.p.

A seguir, riscarás no Diário a partida do crédito, na direção da mão

direita, como viste fazer.

Coloque os números das folhas diante dos tais registros, na margem,

um sobre o outro, ou seja o 3 sobre o 2 porque registraste o devedor na

folha 3 do Razão e a do credor na 2, isto é, na de capital.

Depois, registre o índice ou Repertório na letra pertinente Z ou G

pelo que já se expôs no capítulo no qual às jóias me referi.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XVII

DO MODO DE MANTER CONTAS COM AS REPARTIÇÕES

PÚBLICAS, E POR QUE E, TAMBÉM, COM A

CÂMARA DOS EMPRÉSTIMOS DE CADA

JURISDIÇÃO DE VENEZA

Outras normas entendo dispensáveis para as demais mercadorias

como peles, cruas ou curtidas, ou finas, etc., no que concerne aos

procedimentos de Diário e Razão e só recomendo que nada esqueças

porque no mercado um outro cérebro se faz necessário, ou seja, não é

aquele que nos açougues se vende.

Com relação às Câmaras de Empréstimos ou outro Banco, como

em Florença o Banco dos Privilégios, em Gênova os Luoghi ou outro

qualquer, com os quais tenha de transacionar, procure sempre reconciliar

os débitos e créditos, conferindo-os de todas as formas, com a clareza

possível, deles obtendo por mãos de seus escriturários os informes.

Tenha-os sobre cuidadosa custódia da forma que te direi sobre

registros e documentos; como em tais estabelecimentos é costumeiro

mudarem-se os funcionários, e esses, cada um, tem sua própria forma

de trabalhar, criticando sempre os antecessores, sob a acusação de

má qualidade do serviço, persuadindo serem melhores, de tal forma

emaranham os registros de tais estabelecimentos que não conferem um

com os outros e daí muitos males decorrem para quem com eles deve

relacionar. Tenha, pois, cuidado e embora tudo possa ser feito com boa

intenção o que existe mesmo é incompetência.

Da mesma forma, procures ajustar tuas contas com os agentes fiscais

e coletores de impostos das mercadorias que venderes ou comprares,

embarcares ou desembarcares, etc., como habitual é em Veneza, onde

as maiores contas são as mantidas com os escritórios dos “Corretores”,

quer a 2,3 ou 4% é preciso bem controlar por livros dos corretores; por

isto, ao anotar teus livros que são as provas de tuas transações, perante

a repartição, tenha semelhante cautela, observando os registros originais

porque vários são os funcionários e os livros nas repartições públicas e os

corretores têm os seus próprios erros, podendo ocorrer sem que disto não

ocorram penalidades, sendo a tendência dos corretores cobrar a mais. Se

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a senhoria impõe penas, inclusive aos que registram tais livros, quando

mal se portam, como no passado vários recordo terem recebido sérias

punições, melhor que os livros bem ordenados seja.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XVIII

COMO SE DEVE MANTER CONTAS COM A REPARTIÇÃO DA

MESSETERIA EM VENEZA E REGISTRAR SUAS PARTIDAS

NO MEMORIAL, DIÁRIO E RAZÃO, TÃO COMO A DOS

EMPRÉSTIMOS. DO MODO DE SABER ANOTAR E REDIGIR

UMA PARTIDA DE MERCADORIAS COMPRADAS À VISTA, EM

TODOS OS LIVROS, QUAIS SEJAM: MEMORIAL, DIÁRIO E

RAZÃO E COM PARTE À VISTA E PARTE A PRAZO

Quando desejares manter contas com tais repartições, debitarás à

Câmara pelos empréstimos de toda a sorte de capitais, a tanto por cento,

etc., identificando as localidades. O mesmo farás se em um dia comprares

mais do que venderes, porque ali muito se vende, não só para ti, mas para

outros, como é usual no Rialto, cuidando para que estejam bem identifi cados

os locais e adequados os registros, porque, assim, ao receberes teus lucros

farás à mesma o crédito pertinente, cada um de per si, dia a dia, local por

local.

As contas com a Messeteria a terás desta forma, ou seja: quando

comprares alguma mercadoria por meio de intermediário, na ocasião, de

todo o montante, à razão de 2, 3, ou 4 por cento, farás credor o referido

estabelecimento e devedora a mercadoria que por tal motivo pagares. É da

conveniência do comprador (agente de mercadorias) sempre algo reter (a

comissão) ao vendedor no pagamento à vista ou por outro modo que se

opere, não faz caso, porque dito estabelecimento (Messeteria) nada mais

busca do que a percentagem que espera, porque seus agentes para tal na

transação estão sempre atentos à conveniência dos contratantes, se entre

eles qualquer diferença venha a ocorrer.

O provérbio popular diz que: “quem nada faz não erra e quem não

erra não aprende” .

Os agentes possuem registro de fé pública, como se cartórios fossem

por força legal, e os mesmos visam esclarecer as partes que comerciam e,

na maior parte dos casos, a digna Repartição dos Consoles de Mercadores

neles se baseia para dar suas sentenças.

Digo, pois, comprando algo, deves saber o que pagas de direitos de

messeteria e a metade rentenhas ao vendedor, ou seja, a mercadoria que

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paga 4% àquela repartição, por efeito legal, tu dele reténs 2% e tanto menos

se lhe credita e mais fazes teu dever. A seguir, à dita repartição, de tudo e do

total terás de fazê-la credora no teu livro, de acordo com a mesma; àquela

tal mercadoria farás devedora, como dissemos, porque à dita repartição não

interessa quem vende, mas, sim, quem compra.

Por isto, ao comprador lhe é permitido retirar da Messeteria

quantidade compatível ao pagamento, para embarcar suas mercadorias por

mar ou por terra, de acordo com a Nota que tem.

Por isto, convém ao comerciante manter boas contas com tal

repartição de modo a ter noção exata do que pode retirar, porque não é

permitido retirar mais do que se compra, se novos direitos não se pagarem

à vista; de tais compras dou exemplo de como registrar em Diário e Razão.

Dirás, antes, no Memorial, de forma singela, o seguinte:

“Eu, ou nós, acima identificado, comprei do senhor João Antônio de

Messina, açúcares palermitanos, tantas caixas, tanto pães, pesando,

em tudo, líquido, sem panos, caixas, cordas e palhas, tantas libras ....

por tantos ducados o cento, importando em tantos ducados ... abato

pela sua parte de direitos a razão de tanto por cento, ducados g. p.

tantos ...

Intermediário Senhor João de Gagliardi vale líquido tantos ducados

g.p. tantos ... pagamos a dinheiro.

E, o mesmo, dirás no Diário:

Por Açúcares de Palermo devem dar a tal dia, A Caixa de Numerário,

ao senhor João Antônio de Messina por tantas caixas, tantos pães,

pesando líquido sem caixas, panos, cordas e palhas, tantas libras ...

a tantos ducados o cento montando em tantos ducados .... abatido

de sua parte, o que toca à messeteria, à razão de tantos por cento,

tantos ducados .... ficando líquido tantos ducados .... intermediário

Senhor João de Gagliardi.

L. s. g. p.

O mesmo, no Razão, dir-se-ia:

Açúcares de Palermo devem dar no tal dia por Caixa de Numerário,

ao Sr. João Antônio de Messima, por tantos pães, pesando tantas

libras, no valor de tantos ducados ao cento, montando tudo em

(Folha 1ª) L.s.g.p.

À Caixa farás credora do mesmo valor.

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Deves creditar à Messeteria o dobro do valor que recolheste do

vendedor, isto é, a parte deste e a tua, etc.

Uma vez anotada a mercadoria, imediatamente, em outra partida,

abaixo farás credor a referida repartição pelo açúcar, como abaixo se

exemplifica, e devedora, a dita mercadoria de um pagamento vista.

Se, todavia, parte do negócio for à vista e outra a prazo, assim

registrarás no Memorial:

A dinheiro e a prazo no dia tal, etc.

Comprei, no dito dia, ao Sr. João Antônio de Messina, açúcares de

Palermo, tantos pães, pesando líquido tantas libras .... por tantos

ducados o cento, importando tudo em tantos ducados... abatida de

sua parte direitos na base de tantos por cento, tantos ducados... pela

parte restante me deu prazo até o fim de agosto próximo vindouro.

Intermediário Sr. João de Gagliardi, vol.

duc.g.p.

Saibas, todavia, que os registros de intermediações não precisam de

documentos porque lhes basta o escriturado; isto, entretanto, não dispensa

cautela.

No Diário, o mesmo fato, registrarás assim: antes aquele que

for o credor de tudo e depois debitarás a este pela parte que em dinheiro

receber:

Jesus.... 1493, tal dia, tal mês, etc.

Por Açúcares Palmermitanos A Sr. João Antônio de Messina por

tantos pães ..., pesando líquido tantas libras no total.... a tantos

ducados o cento, montando o tal em tantos ducados, fi cando líquidos

tantos ducados ... dos quais no presente tanto lhe dou .... e o restante

em prazo recebi até fim de agosto vindouro, sendo intermediário Sr.

João de Gagliardi, vol.

L.s.g.p.

Imediatamente faça a Messeteria credora pela percentagem que a

esta cabe:

Pelos Ditos: À Repartição da Messeteria, pelo montante

supramencionado, isto é, de tantos ducados, tantos por cento minha

contribuição e aquela do devedor, tudo importante em tantos ducados

g.p. tantos, vol. L.s.g.p.

Pela parte em dinheiro, o fornecedor torna-se devedor e credora a

Caixa, dessa forma:

Fundação Brasileira de Contabilidade

Por Sr. João Antônio de Messina: A Caixa entregue a ele por conta

dos ditos açúcares, como se negociou, tantos ducados .... conforme

recibo de sua parte, vol. L.s.g.p.

O mesmo, no Razão, dir-se-á:

Açúcares de Palermo devem no dia tal ... de novembro, Por Sr.

João Antônio de Messina, por tantos pães ... pesando tantas libras

... por tantos ducados .... o cento, importando de direitos líquido f. 4ª

L.s.g.p.

Poderias registrar diferente, mas desejando fazer o que propomos

basta dizer:

No dia tal ... Por Sr. João Antônio de Messina, por tantos pães,

pesando tantas libras ... importam, f.4. L.s.g.p.

O mesmo dirás, desta forma, no crédito:

Senhor João Antônio de Messina deve haver no dia tal .... de

novembro por açúcares de Palermo tantos pães ... pesando líquido

tantas libras... por tantos ducados pelos quais dei tanto em dinheiro

como entrada .... e tanto devo dar em agosto vindouro, intermediário

Sr. João de Gagliardi f.4. L.s.g.p.

No débito, pela parte à vista, o mesmo dirás assim:

Senhor João, no ajuste de contas deve ... no dia tal .... Por Caixa,

entregue a ele por parte de açúcares, que obtive dele segundo nossos

negócios, tantos ducados ... por sua mão escrito em caderneta. val.

f.l.1. L.s.g.p.

O mesmo à Messeteria e também pela precedente no Razão,

assim:

“Repartição de Messeteria deve haver a tal dia... por Açúcares de

Palermo comprados ao Sr. João Antônio de Messina, pelo montante

de tantos ducados ... a tanto o cento, intermediário Sr. João de

Gagliardi, montando ou F. L.s.g.p.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XIX

COMO SE DEVE ORDENAR EM TEUS LIVROS PRINCIPAIS O

PAGAMENTO QUE TIVERES

DE FAZER POR SAQUE EM BANCO

Relativamente, às operações de compras já foi suficiente o que se

disse, a fim de que possas guiar-te, quer para aquelas feitas toda à vista,

ou parte à vista e parte a prazo, ou a dinheiro e por saque, ou tudo por

Banco, ou a dinheiro e por Banco, ou a dinheiro e troca, ou troca e por

saque, ou troca e a prazo, ou troca e por Banco ou por Banco e a prazo,

ou por Banco e por saque, ou por Banco, a dinheiro e por saque ..., pois

que de todos estes modos se costuma comprar, devendo, seja qual for a

forma anotar-se no Borrador e depois as transcrevendo adequadamente

no Diário e no Razão.

No caso, todavia, de pagamento parte por Banco e parte por saque,

faz que primeiro se pague o sacado e o saldo então ordenarás ao Banco,

para maior segurança; tal cautela é usual quando se paga parte à vista e

o resto por Banco para completar...

Se o pagamento for parte por Banco, parte em mercadorias, parte

por saque e parte em dinheiro, de tudo isto fá-lo devedor e aquelas tais

cousas fá-las-á credoras, cada uma de forma pertinente, etc.

Se outras forem as formas de compras, busque a similar para

classificar, dentro de tais parametrias. Entendida a forma de comprar,

as mesmas serão as de vender, mas precisarás entender que o será de

forma inversa quanto a débitos e a créditos de terceiros e das coisas,

sendo, todavia, sempre devedora a Caixa se te pagarem em dinheiro,

como devedora será se fizerem antecipações de pagamentos e credor o

Banco se este oferecer recursos.

É assim considerarás também tudo o que antes já se disse sobre

o comprador e de tudo que te for dado em pagamento a ele deverá fazer

credor.

Isto é o bastante como instrução.

Fundação Brasileira de Contabilidade

CAPÍTULO XX

DAS PARTIDAS FAMOSAS E ESPECIAIS NA GESTÃO

COMERCIAL, TAIS COMO PERMUTAS, PARTICIPAÇÕES,

ETC. COMO REGISTRAR E DISPOR AS MESMAS NOS

LIVROS COMERCIAIS, A COMEÇAR AS PERMUTAS SIMPLES,

COMPOSTAS E EM PRAZOS, COM AMPLOS EXEMPLOS DE

TUDO NO BORRADOR, DIÁRIO E RAZÃO

A seguir, faz-se necessário observar como se registram algumas

importantes partidas especiais, comuns às gestões mercantis, mas

devendo-se destacá-las para conhecer, de cada, o lucro ou o prejuízo,

tais como as permutas e as participações, viagens de representantes,

viagens próprias, encargos havidos por outras obrigações bancárias

ou de empresas, mutações efetivas de contas patrimoniais, etc., que a

seguir e fartamente darei nota de como guiá-las e controlá-las em teus

livros de forma organizada para que não te criem problemas derivados de

enganos.

Inicialmente, mostrarei como registrar uma permuta.

As permutas, comumente, são de três tipos como já se disse

(Distinção 9ª, “Tratado” 3º, folhas 161 a 167) amplamente, mas havendo

dúvida sugiro recorrer ao já dissertado.

Todas as vezes, pois, que ocorrerem as permutas sempre deves

registrar primeiro no Borrador, narrando, literalmente, na partida todos

os elementos tal como o fato se concluiu, quer seja o mesmo só por ti

realizado quer com a intervenção de intermediários.

Assim fazendo determinarás o valor pertinente na moeda em que foi

realizado, o que todavia não importa qual seja, porque esta será convertida

à uniforme de sua escrita por quem escriturar a transcrição no Diário e no

Razão.

A avaliação é, todavia, imprescindível, para que conheças se lucras

ou perdes, pois esta é a única forma de sabê-lo e o que não sendo feito te

traria grande dificuldade.

Se quiseres dedicar contas especiais para as mercadorias

permutadas, a fim de distingui-las das demais, quer das que tinhas em

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

casa, quer das novas compradas, para que conheças o que de vantajoso

fi zeste, podes fazê-lo.

Se assim não desejares, todavia, poderás mesclar as mercadorias

do mesmo gênero e nesse caso, supondo que seja gengibre farias o

seguinte registro pelo recebimento de permutas:

Por gengibres selecionados a granel ou em fardos: A açúcares de

tal qualidade por tantos fardos .... com tantas libras obtive de fulano

em permuta de açúcares efetuada da forma seguinte, isto é, que dei

de açúcares avaliado em 24 ducados com a condição de que me

desse 1/3 a dinheiro e mais tanto de gengibre a tantos ducados e

que verifiquei serem tantos pães de açúcares ... com tantas libras

... que em dinheiro valem 20. Tais gengibres pesam tantas libras e

tantos são os pães que valem cada um.

L.s.g.p.

Como nem sempre sabes a correspondência entre número de

pães que correspondem aos gengibres que recebes, com isto não deves

preocupar porque em outras partidas completar-se-ão para cobrir as

diferenças de Caixa; todavia, aos açúcares e suas conferências deves

ter a maior atenção, porque ambas movimentam tal conta e pequenas

diferenças podem existir, por inevitáveis.

O que em dinheiro recebes faça devedora a Caixa e, igualmente,

credores os açúcares, assim registrando:

Por Caixa: Aos ditos .... Por dinheiro havido na permuta por tantos

pães ... pesando tantas libras...vol.

L.s.g.p.

Semelhantes partidas levam-se ao Diário, perto às de permutas,

no qual tens as contas separadas se não desejares mantê-las o que, em

ocorrendo, assim registrarias:

Por gengibres selecionados por conta da permuta que obtive de

Fulano: A açúcares narrando tudo minuciosamente, como acima.

Assim fazendo, no Razão, existirão registros distintos; mas não

preciso detalhar sobre permutas porque creio que te é suficiente o

explicado.

Fundação Brasileira de Contabilidade

CAPÍTULO XXI

DE OUTRA FAMOSA PARTIDA DITA SOCIEDADE EM

PARTICIPAÇÃO COMO SE DEVE REGISTRÁ-LA

NAS SUAS DIVERSAS MODALIDADES

EM QUALQUER LIVRO

Outra partida famosa é a da participação societária que com

terceiros venhas a fazer, quer seja para negócios de panos, sedas,

especiarias, algodão, tinturarias ou câmbios, etc. Tais eventos precisam

ser destacados separadamente em todos os três livros principais.

O primeiro a receber o registro é o Memorial, iniciando-se com a

data que acima de tudo vem detalhando-se o fato tal como ocorreu, citando

documentos ou referências que existam, tão como prazos ajustados,

quais os bens que foram objeto do evento e quem são os participantes,

quer sejam eles feitores ou caixeiros, etc., e o que cada um traz em bens

ou dinheiro, devedores ou credores, e, de tudo, um a um farás credores

os sócios, cada um por aquilo que entrar para a sociedade, e, devedora a

Caixa de dita sociedade, se por si a tiver, pois é melhor que isto se separe

de tua Caixa Particular para facilitar os acertos, quando sejas tu aquele

quem administra tal sociedade, pelo que te convém ter livros próprios,

organizadamente, da forma já referida, pois assim evitarás problemas.

Não obstante, poderás tudo manter só nos teus livros, destacando

novas partidas, que se denominam famosas por estarem destacadas,

como vou exemplificar sucintamente para registros no Memorial e depois

no Diário e no Razão.

Se mantiveres livros separados, sugiro que os escriture tal como

fazes com os que manténs para registro de teus próprios negócios. Assim

deverás anotar no Memorial:

Neste dia, fizemos sociedade com Fulano, Beltrano e Sicrano na

produção de lã, etc., em percentuais e condições como aparece por

escrito ou documento ou, etc., por tantos anos, etc., onde Fulano

deu em dinheiro tanto, etc., Beltrano tantos fardos de lã francesa,

pesando líquido tantas libras... avaliados em tantos ducados o milhar

e Sicrano endossou tantos reais em créditos, em tal dia representando

tantos ducados a receber em tal dia, tantos ducados a receber em

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

outro dia... e eu de minha parte desembolsando tanto em ducados...

montando tudo isso em um capital de tantos ducados ...

A seguir, no Diário, registrarás cada coisa em seu lugar: criando

uma Caixa para tal sociedade e, igualmente um Capital Social e assim,

em todas as partidas que fizeres, referir-te-ás à sociedade, de modo que

possas distingui-la dos demais fatos... começarás por caixa, como fi zeste,

e, depois registrarás tudo o mais.

Por Caixa da Sociedade: A Fulano, conta da Sociedade, isto porque

se ele tiver outras contas contigo elas não se confundirão, etc.,

por dinheiro aportado nesta data e correspondente à sua quota,

segundo o nosso acordo, como consta de documento escrito ou

outro instrumento ... vol. L.s.g.p.

Semelhantemente, em relação às mercadorias entregues,

registrarás:

Por Lã Francesa da Sociedade: A Sicrano, por tantos fardos....

pesando líquido tantas libras no total... por conta, de acordo com

todos, tantos ducados .... o milésimo, segundo a forma de contrato

ou escrito entre nós ... importando tudo em ducados ... vol. L.s.g.p.

Desta forma, todas as demais registrarás; para os devedores

referidos assim registrarás:

Por tal por Conta da Sociedade: Ao Beltrano, que segundo nosso

contrato endossou-nos créditos a receber de tantos ducados .... vol.

L.s.g.p.

Creio haver detalhado suficientemente, como adverti no início deste

“Tratado” e mais não acrescentarei para não ser repetitivo.

Julgo dispensável exemplificar o registro no Razão mesmo porque

antes é preciso conhecer devedor e credor; para tanto basta seguir o

que ensinei no Capítulo 15, inclusive as riscas no Diário, como o visto no

Capítulo 12, colocando-se sempre adiante, na margem, os números dos

Fólios do devedor e credor, tantas vezes quantas tenhas registrado no

Razão e o mesmo farás quanto ao índice, como já tanto demonstramos.

Fundação Brasileira de Contabilidade

CAPÍTULO XXII

DA ORDEM DAS PARTIDAS DE QUALQUER DESPESA COMO

AS DOMÉSTICAS E AS DO NEGÓCIO,

SALÁRIOS DE AUXILIARES E VENDEDORES, COMO

SE DEVEM ESCREVER E REGISTRAR NOS LIVROS

Além de todas as coisas ditas, é conveniente que tenhas em todos

os teus livros as partidas de: despesas mercantis, despesas comuns da

casa, despesas extraordinárias, de entradas e saídas e uma deveras útil

de Pró e Danos, ou ainda de aumento ou redução ou de lucros e perdas.

Tais partidas são, sumamente, necessárias em qualquer comércio

para que este conheça seu capital e, no fim de certo tempo, como se

comportam os negócios; a seguir, esclareceremos como mantê-las nos

livros.

Em conta da Mercadoria nem tudo se pode registrar, como é o caso

do incorrido com os pequenos gastos com as compras ou vendas, ou

sejam aqueles realizados com carregadores, pesadores, amarradores,

barqueiros, mensageiros e semelhantes, aos quais se pagam um ou

dois soldos, porque tais gastos pequenos não são de relevância e se

desejasses registrar muito tempo exigiriam, por isto não valendo a pena,

ou seja, como diz o ditado latino “um pretor não se deve preocupar com

insignifi câncias”.

Como ainda sucede que se utilizam tais mensageiros, carregadores,

barqueiros e amarradores para diversas coisas, na descarga de diversas

mercadorias, tudo pagando-se em conjunto, fica difícil saber o que cabe

a cada uma das mercadorias em razão do serviço requerido e por isto

é também conveniente adotar uma partida denominada “Despesas

Mercantis”, à qual sempre se debita tais coisas englobadamente, como é

adequado fazer-se com outras contas de gastos.

Também salários de auxiliares e vendedores nessa conta se põem,

embora alguns os registrem em separado para que conheçam o que em

cada ano gastam; posteriormente, nesta a saldam, pois, de nenhuma

forma, podem as contas de despesas serem credoras o que, se ocorresse,

denotaria erro no Razão.

No Memorial, pois, assim anotarás:

Neste dia, pagamos a portadores, barqueiros, amarradores, pesadores...

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

que carregam e, descarregam... tais e tais coisas.... tantos ducados.....

A seguir, no Diário convirá assim registrar:

Por Despesas Mercantis: A Caixa em dinheiro, por barqueiros e

portadores, manobristas e amarradores de tais coisas, tudo ducados ....

vol.

L.s.g.p.

No Razão, assim escriturarás:

Despesas mercantis: devem no dia tanto por Caixa.... vol.

L.s.g.p.

Não podemos descuidar também das despesas domésticas;

entendem-se por despesas domésticas comuns a farinha, vinhos, lenhas,

óleos, sal, carne, sapatos, chapéus, confecção de vestes, gorgetas, meias,

alfaiates, bebidas, vestes fi nas, barbeiros, padeiros, aguadeiros, lavagens

de roupas, utensílios de cozinha, vasos, copos, vidraçarias, baldes, celhas

e tonéis ....

Pode ser conveniente que de tais bens tenhas contas em separado,

para que, rapidamente, se identifiquem pelos registros, como podes fazer

a mesma coisa com quaisquer elementos de teu patrimônio, se assim o

desejares, por qualquer outro motivo que te inspire; meu objetivo, todavia,

é o de ensinar-te o que para comerciar, dispensar não se pode.

Tal partida das coisas da casa você a registrará tal como fazes com

as que usas para as demais de teu comércio. De acordo com as despesas

importantes que fizeres dia por dia as registrarás como aquelas com a

farinha, vinho, lenhas .... das quais também se usa registrar analiticamente

para que se possa, no fim do ano, ou de tempo em tempo, facilmente

saber quanto de cada coisa se consome.

Todavia, para despesas pequenas, como no varejo se compram

como são as feitas com carnes e peixes, serviços de condução e barbeiros,

é melhor separar uns poucos ducados e mantê-los em pequena bolsa,

esta suprindo tais gastos porque seria impossível separá-los um a um.

Sobre isso assim dirás no Diário:

Por Despesas Domésticas: A Caixa, retirado para gastar a miúdo em uma

pequena bolsa tantos ducados. vol.

L.s.g.p.

Poderás registrar como domésticas também as despesas

extraordinárias, tais como as que gastares com diversões, jogos do arco

Fundação Brasileira de Contabilidade

ou besta, e outros jogos de azar, perdas de coisas ou de dinheiro, ou o

que te for roubado ou acidentado no mar ou incêndio, pois tudo isto se

entende como despesas extraordinárias. Se quiseres separar as partidas

do extraordinário, poderás fazê-lo, pois muitos o fazem, para que saibam,

no fim do ano, em quanto montaram.

Também por tais gastos se entendem os presentes e os donativos

que por qualquer razão venhas a fazer e sobre os quais não me

estenderei porque estou certo de que bem tudo farás, em razão do

que já foi exposto.

Deixando tal assunto, passaremos a tratar das partidas do negócio,

tanto no Razão quanto nos outros livros, como os escriturarás o que não

só é um conhecimento belo, como o é notável.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XXIII

DA ORDEM E DO MODO DE SABER MOVIMENTAR UMA

CONTA DO TEU COMÉRCIO OU A OUTROS CONFIADO E

COMO SE DEVE REGISTRAR

NOS LIVROS AUTÊNTICOS DO PROPRIETÁRIO E

NAQUELES DO COMÉRCIO SEPARADAMENTE

Digo-te que quando tiveres uma loja regularmente abastecida, mas

fora de tua casa ou do corpo dela, deverás proceder do modo seguinte:

todas as mercadorias de que a suprires, diariamente, deverás fazê-la

devedora nos teus livros e credora a conta da mercadoria que remetes,

cada uma de per si.

Imagine que a loja seja uma pessoa que te deve pelo tanto que a

ela dás e que por conta dela gastas, seja pelo que for. Ao contrário, por

tudo o que receberes e ganhares fá-la credora como se fosse um devedor

que te estivesse a pagar pouco a pouco.

Assim, todas as vezes que com a mesma ajustar contas verás como

ela se comporta, se bem, se mal, e assim saberás o que fazer e como

haverás de administrá-la.

É comum, também, fazer-se devedor nos livros o gerente que

atende pela referida loja, apesar de que isto não se possa fazer sem que

aquele o consinta.

Nunca se deve registrar e nem é natural fazê-lo no Razão, alguém

como devedor, nem credor, sem que a pessoa consinta e se o fizeres

prejudicarás a força probante de teus livros, porque estes poderiam ser

considerados falsos.

O mobiliário e os utensílios necessários com os quais suprires o

comércio referido (loja), pois como um boticário te convirá provê-la de

vasos, cadeiras, utensílios de cobre, para o trabalho ... seja o que for,

farás aquele devedor ou o gerente, como foi dito quando ao Inventário nos

referimos, anotando tudo por tua mão ou por outrem, como queiras, mas

de forma que tudo fique bem claro.

Isto me parece o suficiente para os casos em que a outrem

entregues um comércio na condição de teu preposto. Quando, todavia, o

comércio fica em tuas mãos, tais normas deverás conservá-las e isto será

Fundação Brasileira de Contabilidade

o adequado.

Admitindo que compres e negocies tudo pela referida loja e não

existam outras transações, farás com os livros o que já foi dito e daquilo

que vendes e compras farás credor quem te forneceu a prazo e credor a

Caixa se comprares à vista e devedora a loja.

No caso de pequenas vendas, ou seja das que não chegam a 4 ou

6 ducados, todo o dinheiro vá colocando em uma caixinha ou cofre e ao

cabo de 8 ou 10 dias apurarás em quanto montaram, para fazer devedora

a Caixa e credora a Loja pelo quanto for apurado; nessa partida referirás

às diversas mercadorias vendidas e que já havias controlado e outras

coisas sobre as quais não pretendo estender porque sei que as saberá

compreender.

Isto posto saiba que as contas nada mais são que uma imaginação

que cria o comerciante, por meio das quais, uniformemente mantidas, tudo

informam sobre o que ocorreu; por elas é possível saber se as coisas vão

bem ou mal, porque o provérbio diz: “quem negocia sem conhecer o que

está fazendo, seu dinheiro em moscas está convertendo”.

Cada ocorrência deve gerar registros contábeis, seja qual for a

qualidade ou quantidade, o que sendo feito só te trará recompensas.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XXIV

COMO SE DEVEM REGISTRAR NOS DIÁRIO E RAZÃO AS

PARTIDAS DE DE BANCOS COMERCIAIS, QUAIS SÃO E

ONDE ESTEJAM, COMO TAMBÉM AS DE

CÂMBIO TU COM ELES, COMO COMERCIANTE,

E TU COM OUTROS, SE FOSSES O

BANQUEIRO E AS DAS QUITAÇÕES FEITAS POR CÂMBIOS

E POR QUE DUAS SE FAZEM DE IGUAL TEOR

Com os Bancos comerciais que atualmente existem em Veneza,

Bruges, Antuerpia e Barcelona e outros lugares economicamente

importantes, convém que saibas reconciliar contas com os livros dos

mesmos com acurada atenção.

Será norma que relaciones com o Banco, nele colocando dinheiro

para tua maior segurança, ou seja, na forma de depósito, para a cada

dia poder com os mesmos fazer teus pagamentos a Pedro, João e

Martinho, porque a empresa bancária é como um cartório que tem pública

fé garantida; quando colocares dinheiro farás devedor o dito Banco,

intitulando o nome do proprietário ou da empresa bancária, e creditando à

Caixa, assim dizendo no Diário:

Por Banco, dos Lipamani: A Caixa, por dinheiro efetivo que depositei,

contado, eu ou outros, que por ti o façam, neste dia, por minha conta,

entre ouro e moeda.... no total de tantos ducados .... vol.

L.s.g.p.

Dos banqueiros exigirás um documento para maior cautela;

procederás da mesma forma se outros depósitos fizeres no dia. Retirando,

exigirá ele o teu recibo; desta forma, as coisas ficarão sempre claras.

É também verdade que tais documentações não se fariam

necessárias porque, como se disse, os livros do Banco possuem fé pública

e autenticidade; não obstante, é bom acautelar-se porque, como antes foi

dito, ao comerciante as coisas nunca devem parecer demasiadamente

claras.

Se quiseres, pois, tais partidas manter com o Banco poderás fazêlas

o que é válido; quando identificares o Banco isto haverá de equivaler

à conta dos proprietários dele ou da empresa bancária; se identificares

Fundação Brasileira de Contabilidade

os proprietários dirás assim: Por Senhor Jerônimo Lipamani do Banco,

e sócios, quando os proprietários são vários: a Caixa, seguida de tudo,

como já se disse.

Nos teus livros farás sempre menção das cláusulas contratadas,

ajustes e condições pactuadas, tão como dos documentos e do lugar no

qual as guarda, rolo, caixa, bolsa ou cofre, a fim de que possas, facilmente,

encontrá-las, devendo tais documentos com segurança sempre os

guardar.

Pode, às vezes, ocorrer que venhas a ter diversas outras operações

bancárias, em teus negócios, relativas as tuas mercadorias ou de as teus

representantes; nesse caso convém manter várias contas para que não

mistures alhos com bugalhos, o que geraria confusão.

Em tuas partidas, deves sempre dizer ao que se refere, se são por

conta de tal ou qual negócio, de fulano ou de beltrano, ou de tal ou qual

negócio, ou de depósitos em dinheiro em teu nome ou de outrem, como

foi dito; tudo fazendo farás, acredito, usando a tua própria habilidade.

Da mesma forma, procederás se a outra pessoa emprestares

dinheiro por qualquer motivo, fazendo-a devedora no teu Razão por tal

evento; quando do pagamento, discriminando por parte ou saldo .... depois

farás credora a mesma e isto estará muito bem.

Quando tu retirares dinheiro do dito Banco, quer por pagamento a

terceiros por conta ou liquidação, ou para remeter a terceiros em outros

lugares, farás o oposto do que até então te disse, ou seja, se retiras

dinheiro farás devedora a tua Caixa e credor o Banco ou Proprietários,

pelo tanto que retiraste.

No caso de pagares a terceiros por via bancária farás devedor

o beneficiário e credor o dito Banco ou os seus proprietários,

esclarecendo as razões, dizendo no Diário assim:

Por Caixa: Ao Banco, ou Jerônimo Lipamani, por dinheiro no dia tal,

ou neste dia, retirado por minha necessidade.... em total de tantos

ducados.... val. L.s.g.p.

E se a outros o transferires, por exemplo, a Martim, dirás:

Por Martim de tal: Ao Dito supra, por tantos ducados .... lhe transferi por

conta ou por saldo em ajuste; ou por empréstimo .... neste dia. val.

L.s.g.p.

Tudo isto se faz no Diário, no Razão, no índice, riscando-se no

Memorial e no Diário, tudo como já foi repetido.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Como não é possível tudo dizer, necessário é que estejas atento.

O mesmo critério convirá que observes nas remessas de câmbio

a um lugar determinado como Londres, Bruges, Roma, Lion, etc., tão

como retirá-los de outros, especificando no histórico se a operação foi

à vista, se em data fixada, se quando elegeres, se como o costume,

fazendo-se menção se é a lª, 2ª, 3ª, etc., para evitar erros entre tu e teu

correspondente.

Indicarás também quais as moedas que trazes ou remetes, seus

valores, comissões, despesas, perdas e juros, e o que ocorreria em casos

de protestos, pois é conveniente que tudo se faça menção, do porquê e

como as coisas ocorrem.

O que para teu caso expliquei seria o inverso se tu o banqueiro

fosses, mudando só o que de fato se deve mudar, de modo a tornar

devedor a quem pagares e credor a tua Caixa.

Se o seu credor sem retirar dinheiro a outrem o transferisse, no teu Diário

registrarias por aquele tal credor àquele que ele o transfere; assim farás a

comutação de um credor a um outro e tu continuarás devedor.

Se ocorrer uma pessoa comum e de média condição ser teu

procurador ou testemunho, a qualquer título, e disto requerer honesta

comissão de câmbio, a mesma é justificável, em razão de riscos de

viagens ou consignação a terceiros, como dito já foi quando ao câmbio

nos referimos.

Quando saldares tuas contas com banqueiros, relativas a

obrigações tuas, faças que te devolvam papéis, apólices ou outros títulos

e documentos que em mão daqueles existiam, disto fazendo menção em

teus livros, não se esquecendo de destruir os títulos referidos, para que se

impeça a terceiros de novo cobrar-te.

Exijas sempre uma quitação boa, como habitualmente fazem os

que com o câmbio lidam, pois é costume que se tu vens, por exemplo, de

Genebra, com uma cambial, aqui para Veneza, contra o Sr. João Frescobaldi

de Florença e Companhia, que te deverá pagar 100 ducados, quer seja à

vista, a prazo, ou à tua vontade, pelo tanto do que lá houvesses entregue

em mão de quem escreve, então o senhor João e sócios, acolhendo a

letra e reembolsando-te o mencionado dinheiro, requererá em manuscrito

duas quitações de um mesmo teor, e se tu não souberes escrever, deverás

então fazê-lo por intermédio de um terceiro ou de um cartório.

Fundação Brasileira de Contabilidade

Exigirá duas, porque uma será remetida à Genebra, ao banqueiro

emitente da ordem de teu pagamento de 100 ducados, como comprovante,

como cortesmente o fez da quantia que lhe ordenou em fé, pela qual lhe

manda uma quitação de tua mão; a outra deverá ficar guardada contigo,

para que, quando ajustares contas com ele, nada possa negar, como,

também, ainda de lá voltando, não possas queixar-te dele nem do senhor

João, pois se o fizeres mostrar-te-ão a quitação, o que será embaraçoso.

Tais são as cautelas que se fazem necessárias, pela pouca fé que as

coisas atualmente inspiram.

Sobre o evento referido dois registros no Razão se fazem

necessários, um naquele do Sr. João, fazendo devedor o emitente e outro

naquele do correspondente de Genebra, fazendo credor o Sr. João pelos

100 ducados, em face da quitação recebida.

É assim que os cambistas, em todo o mundo, para clareza fazem, e

que também de tua parte deves fazer, com cuidado e zelo.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XXV

DE UMA OUTRA CONTA QUE, POR VEZES, NO RAZÃO SE

TEM SOB O TÍTULO DE ENTRADAS E SAÍDAS E POR QUE,

ÀS VEZES, É FEITA EM UM LIVRO AUXILIAR

Existem os que em seus livros usam uma conta denominada Entrada

e Saída na qual inserem coisas extraordinárias ou supostas. Outros a

intitulam de Despesas Extraordinárias e, semelhantemente, registram, por

exemplo, como naquela, as ocorrências.

Assim, conforme o que recebem ou dão, debitam ou creditam e,

finalmente, com as outras saldam-nas em Pró e Danos a Capital, como

bem compreenderás no balanço.

Realmente, todavia, a já referida Despesas Domésticas parece-

nos suficiente, a não ser que se desejasse registrar por curiosidade uma

ponteira de agulha, o que se poderia fazer, todavia, sem justificativa.

Melhor que os registros sejam os relevantes.

Outros costumam ter um livro auxiliar de entradas e saídas, saldável

no Balanço, no conjunto das demais ocorrências; mesmo isso não sendo

reprovável, não deixa, todavia, de aumentar o trabalho.

Fundação Brasileira de Contabilidade

CAPÍTULO XXVI

COMO SE REGISTRAM NOS LIVROS AS PARTIDAS

DE VIAGENS PESSOAIS E AQUELAS ENCOMENDADAS E

POR QUE EM CONSEQÜÊNCIA DELAS NASCEM

DOIS LIVROS RAZÃO

É habitual existirem duas formas de viagens, ou seja, a que fazes

ou a que delegas a alguém para que faça por ti; em conseqüência disto,

também surgem várias formas de registros, mas que em qualquer caso

pressupõe a manutenção de dois livros: um contigo, outro com o teu

recomendado.

Um Razão terás em casa e outro levarás em viagem. Em tuas

viagens próprias, para que bem te organizes, faças inventário de tudo

o que levares, um pequeno Razão e um pequeno Diário, tudo como já

foi dito, e, vendendo, comprando ou trocando, de tudo faça devedores e

credores pessoas, mercadorias, caixa, capital de viagem e lucros e perdas

de viagem. Seja qual for a opinião de terceiros, isto é o que há de mais

singelo.

Se ocorrer que de uma empresa leves a autorização para negócios

em nome dela, como representante, deves fazê-la credora no livrinho de

tua viagem e as mercadorias devedoras, como farás com as tuas próprias

ou pessoais.

Assim constituirás tua Caixa, teu Capital... organizadamente,

seguindo o mesmo critério do Razão principal; retornando, ajustarás as tuas

contas do negócio, ajustando a conta de mercadorias pelo que trazes, o

mesmo fazendo com o dinheiro, saldando contas e ajustando os resultados

no Razão principal; assim, desta forma, teus negócios fi carão claros.

Se, entretanto, a viagem a outrem recomendaste, debite a tal pessoa

tudo o que entregares, esclarecendo que se refere a tal ou qual viagem,

mantendo a conta do mesmo como se fosse um comprador de tuas

mercadorias, consignatário de teu dinheiro, tudo analiticamente, partida

por partida.

Por sua vez, ao preoposto também será conveniente fazer o seu

Pequeno Razão no qual no mesmo far-te-á de tudo credor, para que no seu

retorno te preste contas. Se ele, todavia, má intenção tiver...

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XXVII

A IMPORTANTE CONTA DENOMINADA LUCROS E PERDAS

OU AUMENTOS E REDUÇÕES, COMO REGISTRÁ-LA NO

RAZÃO E POR QUE NO DIÁRIO ELA NÃO PRECISA

SER REGISTRADA TAL COMO AS DEMAIS

Após as demais outras contas deve seguir-se a denominada de Pró

e Danos ou Lucros e Perdas ou Aumentos e Reduções, denominações que

se alteram segundo a região, mas na qual se devem saldar ou encerrar

outras de teu Razão, como se explicará em relação ao Balanço.

Desnecessário é registrá-la no Diário, bastando fazê-la no Razão,

porque é neste que os saldos e as faltas se evidenciam em débito e crédito

e no qual registrarás: Pró e Dano deve dar e Pró e Dano deve haver.

Também quando tiveres perdido alguma mercadoria, no teu Razão

ficando a conta mais a débito que a crédito, podes complementar o seu

crédito, para equilibrá-lo com o débito, saldando a quantia que falta,

dizendo que o haver por Lucros e Perdas é para fins de regularizar a tal

partida, em razão da perda ocorrida, etc.

A seguir assinalarás a folha correspondente de Lucros e Perdas

para completar a partida. Na conta de Lucros e Perdas, registrarás em

débito dizendo:

Lucros e Perdas devo dar a tal dia.... por tal mercadoria, por prejuízo

verificado tanto .... registrado naquela do haver pelo seu saldo à folha ....

Se tal mercadoria estivesse mais em haver do que em deve, então, farias

o inverso.

E assim procederas, com cada uma, em relação a todos os teus

negócios ocorridos, quer terminados mal ou bem, a fim de que sempre

fiquem em igualdade as contas no teu Razão, isto é, o tanto que se

encontre no débito, também o mesmo se ache no crédito, porque esta

forma é a correta, como em relação ao Balanço diremos.

Assim, sucintamente, verás se ganhaste, por que e quanto.

Tal partida deverás saldá-la com a de capital e que é a última a

movimentar-se no Razão, como receptáculo que é de todas as outras,

como compreenderás.

Fundação Brasileira de Contabilidade

CAPÍTULO XXVIII

COMO SE DEVEM TRANSPORTAR ADIANTE AS CONTAS DO

RAZÃO QUANDO ESTIVEREM REPLETAS E

EM QUE LUGAR SE DEVE LEVAR O

RESTANTE A FIM DE EVITAR DÚVIDAS NO RAZÃO

Oportuno é observar que ao tornar-se completa a folha de uma

conta, quer em débito ou crédito, onde nada mais se pode registrar, é

preciso transportá-la adiante das demais sem, todavia, deixar espaços no

Razão entre o transporte e as outras partidas, para que não se enseje a

suposição de fraude.

Deve-se transportar da mesma forma antes referida, para se saldar

em Lucros e Perdas e seus respectivos transportes, respeitando-se o débito

e o crédito, sem nada registrar no Diário, a menos que se deseje, não

sendo, todavia, necessário, porque seria tarefa sem proveito, de modo que

é preciso igualar a menor quantidade, isto é, se a referida partida é mais em

débito do que em crédito, daquele tanto deves acrescer seu crédito.

Para exemplificar, basta um caso.

Admitamos que Martim tenha feito contigo uma longa conta, de

muitas partidas, de modo que o total provoque transporte do que está na

folha 30 de teu Razão e que a última partida que registraste tenha sido na

folha 60, e que em cima da mesma face ainda haja espaço para colocares

a conta de Martim e te seja ele devedor de L.80, s.g. 15, p.24, das quais

em tudo deu-te ele L.72, s.9, g.3, p.17, devendo ao mesmo, creditar-se 72,

9, 3, 17, ficando L.8.s.6, g.5, P.7 e que tanto tens de transportar-lhe o valor

do débito adiante.

Pelo mesmo valor igualarás a partida para que se eqüivalham as

cifras, mas dirás que por aquele valor importa o transporte e tal saldo

de L.8,s.6, g.5, P.7 na folha 60 e que reportarás, mas a isto referirás. A

seguir com uma linha diametral riscarás a partida. Feito isto, na folha 60,

colocarás o saldo devedor, sempre encima pelo ano, se na folha já não

estiver, como já dissemos.

E assim dirás: Martim deve no dia... pelo saldo transportado de sua

própria conta, na folha 30, L.8, s.6, 9.5, P.7.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Da mesma forma procederás com as demais partidas que tiveres,

porque sempre devemos escriturá-las de maneira consoante com as

suas origens em lugar, localidade, dia e ano a fim de que ninguém possa

caluniar-te.

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CAPÍTULO XXIX

COMO MUDAR O ANO NAS PARTIDAS DO RAZÃO

QUE OCORREM A CADA DIA, QUANDO ESTAS NÃO SE

SALDAM ANUALMENTE NOS LIVROS

Pode ocorrer que nos teus registros do Razão tenhas necessidade

de alterar o ano, sem que o anterior tivesses saldado. Nesse caso, o referido

ano deve ser colocado à margem, adiante da partida que ocorreu, como

se disse no Capítulo XV. As demais partidas que se seguirão entender-seá,

pois, que sejam do tal ano.

O melhor, todavia, é saldar cada ano, especialmente quando se tem

sócio, porque diz o provérbio: “Muitas contas, longa amizade”.

Melhor será que faças também assim.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XXX

COMO SE DEVE APRESENTAR UMA CONTA A UM DEVEDOR

QUE A SOLICITE E TAMBÉM AO PROPRIETÁRIO SE FORES

GERENTE OU ENCARREGADO DE TODA

A ADMINISTRAÇÃO DOS BENS

Faz-se necessário, além de outras documentações a oferecer,

saber demonstrar uma conta ao teu devedor se ele a solicitar, o que a

este por justiça não podes negar, especialmente quando contigo manteve

extensas transações de muitos anos e meses; haverás de demonstrar os

fatos desde o início, alcançando a todo o tempo e abrangendo a tudo, ou

em outro limite que ele determine.

Quando entre vós existirem saldos diversos, observados os

tempos que ele queira, cada um, de per si e de toda a boa vontade deves

oferecer.

De tudo extrairás cópia, em uma folha competente para a tudo

abranger.

Se uma folha não bastar, haverás de saldar cada folha, colocando o resto

no outro lado da folha, em débito ou crédito, como no Capítulo XXVIII

foi dito. Assim, deverás continuar procedendo até que termine em um

saldo líquido em dar, como melhor a puder resultar. Tais contas devem-se

demonstrar com máximo zelo.

O mesmo haverás de observar em teus próprios negócios, com

os teus clientes; se, todavia, administrares para terceiros ou fores

comanditário ou comissionado, também de forma semelhante deverás

demonstrar para o proprietário, tal como registrastes nos livros, fazendo-

o credor oportunamente pelos fornecimentos, de acordo com os teus

ajustes e, finalmente, pelo saldo líquido o farás teu devedor, ou credor, na

demonstração, se fores tu a fornecer.

Depois ele haverá de examinar confrontando, e se tudo achar exato

haverá de estimar-te mais e igualmente mais em ti confiará; o importante

é que ache em ordem tudo o que te entregou, ao ler as contas, aprovando

tua administração. Observe bem tal coisa.

De tua parte, também, da mesma forma deverás exigir de teus

agentes e encarregados as demonstrações das contas. Antes que se

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entreguem demonstrações, todavia, deves bem conferir as contas no

Razão, cotejando as mesmas com os livros Diário e Borrador e demais

registros que existirem, para evitar enganos entre as partes.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XXXI

DO MODO E ORDEM DE SABER CORRIGIR, OU AINDA,

ESTORNAR UMA OU MAIS PARTIDAS, QUE EM

CONSEQÜÊNCIA DO ERRO HOUVESSES COLOCADO

EM LUGAR DIFERENTE DAQUELE EM QUE DEVERIA

ESTAR, COMO OCORRE POR DISTRAÇÃO

É ainda necessário ao escriturário saber corrigir, ou seja, estornar

à moda de Florença, uma partida que por erro fosse colocada em lugar

diferente ao que ela deveria estar, como por exemplo: se a houvesses

colocado no débito e no crédito é que seria o seu lugar ou vice e versa ou

se ela devesse ser alocada a Martim e o fizeste na conta de João ou vice

e versa.

Nem sempre se pode ser tão atento que se evite erros, diz o

provérbio, isto é, quem não faz, não erra e quem não erra não aprende.

Por isso, poderás corrigir da seguinte forma: quando houveres colocado

a partida, suponhamos no débito e deveria ser no crédito; para retificá-la,

porás uma outra ao contrário dessa no crédito, exatamente da mesma

importância, dizendo: no dia ... por outro tanto colocado em oposição no

débito, quando deveria sê-lo aqui, no crédito, valor tanto, na folha ... e

escrevas L.s.g.p., pelo tanto que erraste.

E em frente à mencionada partida farás uma cruz ou outro sinal, a

fim de que, se fizeres demonstrações futuras abandone tal registro. Logo

que assim esteja retificada, havendo anulado o débito, então, faças o

registro correto e assim tudo estará regularizado.

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CAPÍTULO XXXII

COMO SE DEVE FAZER O BALANCETE DO RAZÃO E DO

MODO DE TRANSPORTAR DE UM RAZÃO PARA O OUTRO,

OU SEJA, DO RAZÃO VELHO PARA O RAZÃO NOVO, TÃO

COMO CONFERI-LO COM O DIÁRIO E O BORRADOR E

REALIZAR OUTRAS VERIFICAÇÕES DENTRO E FORA DO

MENCIONADO RAZÃO

Vistas as matérias já descritas, é oportuno agora evidenciar o modo

de transportes de saldos de um Razão para outro, quando se queira

substituir um livro já cheio, ou porque se altera o ano, como é habitual

fazer-se em diversos locais nos quais os comerciantes respeitam as

passagens dos exercícios. Tal prática é o início do Balancente do Razão.

Para prosseguir, é necessário todo zelo; terás, por norma, fazer-

te ajudar por um auxiliar, por ser dificultoso fazê-lo sozinho; ao auxiliar

entregue o Diário, ficando tu com o Razão para maior segurança da tarefa;

pedirás a ele que começando da primeira página do Diário indique no

Razão a página de registro da partida, primeiro de débito e depois de

crédito e tu conferirás, vendo se o lançamento está correto.

Teu auxiliar dirá de quem ou de que será a partida e quanto é o

seu valor e, assim, verás se, no lugar que ele se refere, os registros estão

adequadamente feitos e se os valores conferem.

Se tudo estiver de acordo com o Diário, riscarás, isto é, assinalarás

ou colocarás um sinal convencional sobre a escrita, ou em lugar que

escolheres, para que não te enganes e tal sinal deves, também, requerer

que teu auxiliar o faça no Diário.

Observes sempre se tanto tu como ele fizeram os sinais, de forma

concomitante, para que grandes erros não ocorram; assim, procederás

desde a primeira partida até a última.

O mesmo critério adota-se nas demonstrações que devem ser

feitas para serem entregues a devedores, de modo que tudo se assinale

no Diário e no Razão quando das conferências, como nos referimos no

Capítulo XXX.

Feito isso, cautelosamente, em todo o Razão e o Diário, em confronto

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

com teu auxiliar, tanto no débito quanto no crédito, as partidas poderão ser

consideradas confiáveis.

Teu auxiliar, no Diário, para haver distinção, fará duas marcas ou

sinais para cada partida e tu, no Razão, apenas uma, porque de duas

partidas no Razão uma apenas no Diário se faz e isto dará coerência à

sinalização.

Quando assinalares o Balancete, no Diário, convém fazer dois sinais

um sobre o outro nas Libras, ou dois, um sobre o outro, o que denotará

tudo estar conferido no débito e no crédito do Razão.

Alguns, no Diário, marcam para o débito o sinal diante do Por e

para o crédito atrás das Libras, mas de ambas as formas ficará bem; não

obstante, poder-se-ia fazer ainda um só sinal no Diário, isto é, somente

para o débito, porque tu, por ti mesmo, não poderás assinalar o crédito,

porque sempre haverá débito correspondente no Razão (porque de pronto

tens naquele lugar o número das folhas onde está o crédito, quando bem

não te enviar àquela do Diário, por ti mesmo poderás acompanhar o

crédito); com teu auxiliar acertarás a forma mais cômoda.

Se o Diário sinalizado denotasse que no Razão, em alguma partida,

faltasse o débito ou o crédito, acusaria erro no Razão, isto é, denotaria

que aquela estaria colocada em falta naquele débito ou no crédito.

Tal erro, imediatamente, deverás corrigir, registrando a partida de forma

oposta, isto é, se for de mais no débito, outro tanto levarás a crédito, tudo

como precedentemente já se disse, pois assim terás tudo corrigido.

O mesmo ocorreria quando faltasse a partida no Diário e,

logicamente, no Razão, no débito ou no crédito, evidenciando erro no

Razão; isto mereceria reparo de modo oposto ao da falta, colocando-se a

débito ou a crédito do Razão o que se constatar de omissão, embora que

extemporaneamente, mas fazendo referência ao dia.

De tais ocorrências e datas, o escriturário deve fazer menção para

que não se levante suspeita sobre os registros, como fazem os tabeliões

nos seus instrumentos, estes que não se pode alterar sem especial menção

dos acréscimos ou eliminações, o que também convém ao escriturário

que zela pela realidade dos registros comerciais e que assim bem se

qualifi ca.

Se a dita partida só faltar o débito ou o crédito, bastará que a apontes

uma só vez onde a falta ocorreu, com a mesma menção que recomendei

Fundação Brasileira de Contabilidade

para os erros aos quais já me referi.

Desta forma, todas as tuas partidas terás ajustado, as quais, nos

confrontos de conferência, estando certas, indicarão que teu Razão foi

bem escriturado e que é confiável.

No Razão, todavia, pode ocorrer que partidas não estejam

assinaladas no Diário, porque nele não se encontram, nesse caso,

devendo gerar registros a débito ou a crédito pelo valor de saldo, como foi

dito no caso do transporte desses, no Capítulo XXVIII.

Então, por ti mesmo, tais saldos encontrarás no dito Razão seus

confrontos, isto é, em débito e crédito, guiando-te pelo número das folhas

anotadas nas ditas partidas; se tais números são coincidentes e estão no

lugar devido, o teu Razão estará correto.

O mesmo que dissemos em relação ao Razão e ao Diário aplica-

se ao Borrador ou Memorial, como no início desse “Tratado” te disse,

em relação aos livros que manténs; todavia, o último convém que seja o

Razão e o penúltimo o Diário, segundo entendo.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XXXIII

DO MODO E DA ORDEM DE REGISTRAR AS OCORRÊNCIAS

DO TEMPO EM QUE SE FAZ O BALANÇO, ISTO É, QUE SE

ENCERRAM OS LIVROS E COMO NOS LIVROS

VELHOS NADA MAIS SE DEVE ESCREVER NEM INOVAR

COISA ALGUMA NO DITO TEMPO E AS RAZÕES DO PORQUÊ

Tudo observado organizadamente, necessário é que nada mais

se registre nos velhos livros, nem se transporte nada ao Razão a partir

do Memorial e do Diário, porque os saldos nos livros devem ser sempre

coincidentes em datas.

Se fatos ocorressem, todavia, na mesma época em que estás

encerrando os livros, quando fazes o balanço, coloque-as em novos livros,

estes que gerarão futuras transcrições, isto é, o Borrador e o Diário, mas

não mais no Razão, até que transportes todos os saldos deste livro, ou

seja, o primeiro que estás a encerrar.

Se ainda não tiveres organizado novos livros, anotarás em folha à

parte os negócios ocorridos, com suas datas, até que depois os registre

nos livros novos; a seguir, os sinalizará com novos signos, isto é, se os

anteriores forem cruzes, agora farás com um A, etc.

Fundação Brasileira de Contabilidade

CAPÍTULO XXXIV

COMO SE DEVEM SALDAR TODAS AS CONTAS DO RAZÃO

VELHO, EM QUE E POR QUE E DA “SUMMA SUMMARIUM”

DO DÉBITO E DO CRÉDITO; ÚLTIMA

FORMA DO BALANÇO

Feito tudo com diligência, saldarás todo o Razão, partida por partida,

deste modo; primeiro começarás pela Caixa, Devedores, Mercadorias

e Clientes, transportando ao livro A, isto é, para o Razão Novo, sendo

dispensável colocar saldos no Diário.

Somarás todas tuas partidas, no débito e no crédito, igualando

sempre a menor, como te disse acima, para o caso de transporte adiante;

tal prática de transplante de um para outro Razão é semelhante a qualquer

outro transporte e a única diferença é que em outros casos se registrou no

mesmo Razão e agora faz-se de um livro para outro; enquanto naquele se

indicava a folha daquele próprio Razão, neste se indicará a folha do livro

seguinte, de modo que no transporte de um livro para o outro só uma vez

se registra a partida de cada Razão; a última partida dos Razões deve ser

feita de modo que mais registros não aceite, como o exige a natureza do

procedimento.

Tal transporte registra-se da forma seguinte: admitamos que tenhas

Martim como devedor, pelo saldo de L.12, s.15, g.10 p.26 no teu Razão,

identificado tal débito com uma cruz pela folha 60, P.26 e que tenhas de

transportá-lo no Razão assinalado com a letra A, à folha 8, a débito e que

te convenha no primeiro livro igualar o crédito, o que te obrigará a isto

dizer abaixo das demais partidas: no dia..... ano tal, transporto no Razão A

no débito pelo restante que aqui proponho por saldo deste valor, na folha

8, L.12, s.15, g.10, p.26.

Riscarás, então, a dita partida em débito e crédito diametralmente

como para o transporte te ensinei, colocando a soma de toda a partida

abaixo, no campo da dita partida, em débito ou em crédito, tanto de um

lado, quanto de outro, a fim de que se evidencie, facilmente, estar correta

e na qual para que também seja fácil identificar o saldo, evidenciando o

número da folha do Razão A, onde tal saldo levas.

A seguir, no Razão identificado pela letra A, no débito, iniciando pelo

ano, como foi dito no Capítulo XV, dirás que Martim de tal.... deve no dia...

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

o restante transportado do Razão assinalado com a cruz, na qual figurava

como o débito agora transportado, à folha 60, pelo valor de L.12, s.15,

g.10, p.26.

O mesmo farás, para saldar, com as demais contas do Razão

assinalado com a Cruz e que entendes devam transportar-se ao Razão

assinalado com a letra A, qual seja: com Caixa, Capital, Mercadorias,

Móveis, Imóveis, Devedores, Credores, Repartições Públicas, Corretores,

Aferidores Municipais, etc., nas quais é habitual registrar-se longas

movimentações.

As partidas que não queiras transportar ao referido Razão A (que

podem ser as tuas privativas e que não te obrigam a prestar contas a quem

quer que seja, como sejam as despesas comerciais, despesas particulares,

entradas, saídas e todas as despesas extraordinárias, aluguéis, foros ou

censos .... ) convém que as encerre em partida de Lucros e Perdas, no

Razão com a Cruz assinalado e nas folhas pertinentes, etc., deste modo:

o que tiverem em débio colocarás em crédito, porque seria raridade tais

contas serem credoras, acertando as menores em débito ou em crédito,

historiando, no saldo, que o encerramento se deu em Lucros e Perdas por

tanto, etc.

Desta forma, as terás todas saldadas na conta de Lucros e Perdas

onde, somados os saldos, em débito e crédito, poderás conhecer teu

ganho ou perda; isto porque em tal apuração estabelece-se a paridade,

isto é, as coisas que deverão ser subtraídas, de fato, o serão, e aquelas

que deverão ser acrescentadas, igualmente.

Se nessa partida resultar mais a débito que a crédito, tu terás

perdido aquele tanto em teu negócio, desde que o começaste; e se for

mais a crédito, então dirás que no referido período tanto ganhaste.

O lucro ou o prejuízo saldarás na conta de capital, onde no início

de tuas operações havias registrado o teu Inventário, com todos os teus

haveres e, assim, aquela saldarás.

Quando um prejuízo for acusado, que Deus guarde a cada um para

que tal não suceda, que realmente o bom cristão Dele deve sempre valer-

se, então igualarás o crédito como é usual, dizendo: no dia, por capital,

pelo prejuízo ocorrido conforme consta na folha valor ....

A seguir riscarás a partida, diametralmente, no débito e no crédito

Fundação Brasileira de Contabilidade

referido, pondo, contudo, a soma no espaço a débito ou a crédito para que

se igualem.

Na Partida do Capital, dirás a débito: capital deve no dia ... por Lucros

e Perdas, pelo prejuízo ocorrido, colocado aquela no crédito pelo seu saldo,

valor, a folhas .... L.s.g.p

No caso de lucro, identificado pelo crédito em Lucros e Perdas,

então debitarás esta conta e o crédito levarás à conta de capital, nas suas

folhas, nas mesmas onde também o creditaste pelos outros bens móveis e

imóveis.

Assim, uma vez mais, no Capital poderás conhecer todos os teus

haveres, juntando os débitos e os créditos que transportartes ao Razão A,

sendo, pois, conveniente que a última partida seja essa de capital.

Saldarás, então, à conta de capital no Razão assinalado com a cruz

e a transportarás, como as demais ao Razão A, em saldo e soma, ou se

queres, partida por partida pois, também assim se pode fazer, sendo sempre

melhor fazê-lo na totalidade para que todo o teu Inventário se evidencie.

Lembre-te, sempre, de indicar todas as folhas.

As partidas do Razão A, cada uma de per si, como foi dito no Capítulo

V, deverão ser registradas no índice Alfabético para que, com facilidade,

possas tudo identificar relativamente a teus negócios, de acordo com a tua

necessidade. Assim, todo o encerramento dos primeiros livros Razão,

Diário e Memorial se opera.

Se maior clareza for ainda necessária, poderás fazer outro confronto,

somando em um fólio à parte todos os débitos do Razão assinalados em

Cruz e os colocando à esquerda e todos os créditos os colocando à direita;

em débito e crédito deverás, outra vez, somar todos esses saldos e terás,

então, a “Suma Sumamrium” dos mesmos. Ambas terão essa denominação:

“Summa Summarium” do Crédito e “Summa Summarium” do Débito.

A coincidência de valores de tais “Summas” indicará que teu Razão

está correto no saldamento, tal como se disse no Capítulo XIV; mas, se uma

dessas somas totais não coincidisse com a outra, excedendo, denotará erro

em teu Razão o que convém que logo o procures, com o engenho que

Deus, intelectualmente, te deu e com as técnicas que bem aprendeste.

Repetimos, pois, que o comerciante que não tem conhecimento

contábil tende a andar às apalpadelas em seus negócios e poderá ter

sérias perdas. Portanto, em algum estudo e cuidado, esforça-te sobretudo

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

em ser bom contador, pois dentro da minha possibilidade, procurei dar-te

meios, para tua comodidade e com todas as regras necessárias, cada

uma em seu lugar posta, com facilidade, como desde o início desta obra

perceberás.

E, ainda, pelas coisas aqui ditas e como no Capítulo XII prometi,

para tua maior lembrança, far-te-ei um epílogo, ou seja, um sumário e

essencial resumo de todo o presente “Tratado” que admito ser-te-á de

muita utilidade.

E por mim te lembrarás de rezar ao Altíssimo, para que em seu

louvor e glória possa eu proceder sempre de bem para melhor.

Fundação Brasileira de Contabilidade

CAPÍTULO XXXV

DO MODO E ORDEM DE GUARDAR OS DOCUMENTOS

DIVERSOS, COMO MANUSCRITOS, CARTAS

CONFIDENCIAIS, APÓLICES, PROCESSOS, SENTENÇAS

E OUTROS INSTRUMENTOS E O REGISTRO DAS CARTAS

IMPORTANTES

Trataremos agora da ordem de saber guardar os documentos e

declarações diversas, como os são: recibos de pagamentos efetuados,

quitações de cambiais, notas de mercadorias entregues, cartas

confidenciais, coisas estas que para o comerciante são de grande valor e

muita importância e que correm o risco de perda e extravio.

Destacam-se, em primeiro lugar, as cartas confidenciais que,

freqüentemente, se fazem entre clientes e tua pessoa; abra-as e as

conserve sempre em uma banqueta até o fim do mês, e, terminando o

mesmo, junte-a em um maço e coloque-as à parte, as assinalando em

cada um, à parte, o dia que a recebeste e o dia em que a respondeste.

Tal tarefa deve ser mensal para que, no fim do ano, faças um maço

grande de todos esses maços, identificando-o pelo ano, a fim de que

localizes, quando desejares, alguma carta.

Terás em teu escritório uma bolsa própria para cartas recebidas e

expedidas e que identificarás por localidade; assim, se a enviares a Roma,

coloque-a na bolsa de Roma, se a Florença, naquela de Florença, etc.

Se teu empregado envias a algum lugar, toma-o como portador de

tua correspondência porque será melhor, e, por isto, deves dar-lhe uma

gorgeta....

A bolsa a que me referia, necessário é que ela esteja dividida em

pequenas bolsinhas que se destinarão a acolher as cartas expedidas e as

recebidas, identificadas pelos locais onde tens os teus negócios (como

dissemos, Roma, Florença, Nápoles, Milão, Gênova, Lion, Londres,

Bruges .... ); aí colocarás as cartas de acordo com cada local, quer as

expedidas quer as recebidas.

Por resposta que deres ou tiveres, proceda sempre da mesma forma

referida. O tratamento deve ser uniforme quanto à menção da resposta,

colocando, também, por quem a mandaste e em que dia.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Em todos os teus afazeres nunca faça faltar a data o ano e o local,

tal como procedes no caso das cartas, sejam eles grandes ou pequenos,

tão como teu nome.

O nome costuma-se colocar ao pé no lado direito da carta, ao canto;

a data e o ano e o local, comercialmente, usa-se colocar acima, ao iniciar-

se a carta; mas antes, como bom cristão, terás sempre em mente colocar

o gracioso nome, em saudação, de Jesus ou, se não, o da Santa Cruz, em

nome da qual sempre devemos iniciar todas as nossas operações.

E assim farás: Cruz 1494 ao dia 17 de abril, em Veneza, e, só após

disto, o que tenhas a dizer, isto sendo o desejável....

Mas, se os estudantes e outras pessoas, como religiosos, etc., que

não comerciam, usam em suas localidades colocar embaixo o dia e o ano,

os comerciantes, todavia, o fazem acima, como disse.

Se de outra forma se fizer, sem o dia, haverá confusão, e de ti

zombariam, porque se diz que a carta em que não está anotado o dia

é feita de noite, e aquela em que não está anotado o lugar se diz que é

feita em outro mundo e não neste; além da zombaria, o pior é que surge a

quebra de conceito, como disse.

Ao expedir a resposta procure os locais adequados como já bem

compreendeste e o que para uma dissemos a todas se aplicam. É preciso

ainda observar que se as cartas que expedes são de importância; melhor

será que as registre em um livro próprio só para tal fim reservado.

Em tal registro coloques a correspondência palavra por palavra,

se realmente tudo é importante deveras, tais como letras de câmbio,

mercadorias expedidas, remessa de dinheiro, etc., registrando-se só o

que, de fato, é relevante, para que tenhas disto memória, dizendo: neste

dia .... escrevemos a fulano ... mandamos tal coisa.... atendendo sua carta

de tal dia... a foi-nos pedido e isto atendido e na bolsa colocamos.....

E protegida a carta, fechando-a, para expedi-la, depois de

subscritá-la, teu signo nela colocarás para que todos saibam que é de um

comerciante e que todos precisam respeitar, porque, como dissemos no

princípio deste “Tratado”, são eles que mantêm as Repúblicas.

Far-se-á então o mesmo que os Cardeais, que por fora colocam seus

nomes para que todos saibam de quem se trata e não alguém ignorado.

Mais, enfaticamente, ainda as faz o Santo Padre nas suas bulas,

privilégios...... algumas, todavia, quando mais sigilosas, identificam-se

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com o lacre do Pescador.

As cartas, pois, mês por mês, ano por ano, guardarás em maços

ou enfiadas, e as porás à parte, em ordem, em um sumário ou cofre

seguros.

Tal como as receberes, em relação a cada dia, assim as arrumarás,

a fim de que melhor as localize quando necessitar. Nada mais se necessita

dizer porque creio que bem tudo entendeste.

As letras não-pagas por teus devedores, como te indiquei no

Capítulo XVII, guardarás em outro lugar mais secreto, como são cofres e

caixas privativas.

As quitações, igualmente, guardarás em lugar seguro para qualquer

ocasião. Quando, entretanto, pagares a terceiros, farás que escrevam ter

recebido em um livrinho de pagamentos, como de início te disse, a fim de

que não se possam, facilmente, extraviar ou perder.

O mesmo tratamento darás aos títulos de valor, como sejam notas

de corretagem, de comerciantes, ou de conferentes ou conhecimentos

de mercadorias remetidas ou recebidas das alfândegas marítimas

ou terrestres, ou sentenças ou certificados consulares ou de outras

repartições, ou instrumentos de cartórios em pergaminho, tudo devendo

ser guardado em lugar separado.

O mesmo critério adotarás com escrituras, processos, procuradores,

advogados. O mesmo farás com o que tiveres que recordar e que em um

livro de Agenda anotarás diariamente, para que prejuízos não ocorram.

Nesse livro, a cada noite, antes de dormires, revisarás e verás se

algo pendente ficou e o que realizaste risques com a pena.

O que emprestares ao vizinho ou ao amigo por poucos dias, como

sejam vasilhas da loja, cadeiras e outro apetrecho aí também anote.

E documentos similares, como os utilíssimos indicados, guardarás

tal como indiquei, aproximadamente, como melhor te parecer, não me

sendo possível tudo dizer porque, como disse, preciso é mais esforço para

fazer um comerciante que um doutor em leis.

É o que penso. De tudo o que te disse, se bem aprendeste, tenho

convicção que com tua inteligência o demais suprirás.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

CAPÍTULO XXXVI

SUMÁRIO DE REGRAS E FORMAS DE

MANTER UM LIVRO COMERCIAL

Todos os credores devem-se colocar no Razão à direita e os devedores

à esquerda. Todas as partidas do Razão são duplas, ou seja, se constituis um

credor também deverás constituir um devedor.

Cada partida, tanto em débito quanto em crédito, deve conter as

seguintes coisas: o dia do pagamento, a soma do pagamento e o porquê do

pagamento.

O último número da partida do débito deve ser o primeiro da partida do

crédito. No mesmo dia em que é escrita a partida do débito deve o ser a do

crédito.

O Balancete do Razão é uma folha dobrada ao cumprido no qual se

apoiam no lado direito os credores e no esquerdo os devedores no mesmo

livro.

O Razão estará correto se a soma dos débitos for igual à soma dos

créditos. O Balancete deve evidenciar igualdades, não de suas parcelas, mas

de seus totais em débito e crédito, o que não ocorrendo evidenciará erro no

Razão.

Do Razão não devem constar devedores que não tenham autorizado

e desejado que o débito ocorresse, e, se assim não for, a escrituração será

falsa. Igualmente não se pode creditar, também, qualquer coisa sem que de

tal tenha conhecimento o interessado, o que não ocorrendo geraria também

falsidade.

O Razão deve ser todo escriturado na mesma moeda, o que não

impede que possa refirir-se a outras como: ducados, liras, florins, escudos de

ouro.

Para os efeitos de avaliação, todavia, necessária é a uniformidade

monetária e como começares o Razão assim convém continuar.

Os lançamentos do débito e do crédito de Caixa podem ser abreviados,

se desejado, sem explicação dos motivos, somente dizendo de tal de tal ou a

tal de tal, porque as justificativas estarão sempre expostas na contrapartida.

Quando surgir uma nova conta, sempre nova folha se deve abrir,

sem voltar atrás, ainda que espaço atrás exista. Não se escritura para

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traz, mas, sempre para frente, cronologicamente, com o avançar do tempo

e jamais se volta atrás. Retornos podem denotar falsidades.

Se um lançamento no Razão fosse registrado erroneamente,

inadequadamente, como por distração pode ocorrer, desejando-se

estornar, assim farás: assinale o tal lançamento com uma cruz à margem

ou com uma letra “n” e depois registres um lançamento invertido, isto é,

ao oposto, daquela mesma conta; isto é se a partida errada fosse credora,

por exemplo 1.50, s.10, g.6, tu a farás devedora e dirás: deve dar L.50,

s.10, g.6, por contraposição ao assinalado com a cruz que se estorna,

em razão de erro que não deveria ter ocorrido. Também o estorno deves

assinalar com a cruz.

Quando um espaço reservado a uma conta se preenche todo, nada

mais podendo lançar-se e se tu desejas continuar adiante, observes o

saldo, se devedor ou credor se encontra.

Admitamos que haja um credor de L.28, s.4, d.2, o que ocorrendo

basta que o inverta, sem colocá-lo ao pé, e, por débito, o mesmo valor

consigne e digas que tal valor irá em crédito à folha.... e assim saldarás e

completarás a tarefa.

A mencionada inversão deve-se assinalar na margem adiante,

assim: S, que signifi ca saldo devedor, para fi m de ajuste apenas, mas que

se transporta ao crédito na folha tal, ainda que aqui se mostre em crédito,

só para fim de encerramento desta folha. E basta.

A seguir, convém virar as folhas e continuar até que encontres nova

folha, nela fazendo credora a outra que com o débito encerraste na folha

cheia, fazendo outro lançamento, sem necessidade de colocar o dia. E

então dirás que foi um transporte de L.18, s.4, d.2. Aí assinalarás dizendo

ser S, ou seja, saldo. E basta.

O mesmo que exemplifiquei do crédito, para transportar, farás com

o débito, só invertendo os lados.

Quando o Razão estiver todo repleto ou velho, e um novo desejes

iniciar, farás todos os transportes, mas, antes, verás qual a marca que na

capa de teu livro existe; se está assinalado com um A o novo terá na capa

o B, porque os livros comerciais precisam indicar suas seqüências nas

capas alfabeticamente: A, B, C ....

A seguir farás o Balancete do livro velho, com a maior precisão,

discriminando todos os credores e devedores no novo Razão, na ordem

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

em que no Balancete estiverem, abrindo para cada um uma conta com o

espaço que a elas desejas atribuir e compatível com o volume de registros

esperados.

Em cada partida de devedor dirás: saldo devedor do Razão A,

folha... e no caso credor: saldo credor do Razão A folha... E desta forma

tudo transportará ao novo Razão.

Para cancelar o Razão velho cada conta encerrarás tendo por base

o mesmo balancete, isto é, se uma conta do Razão for credora, faze-a

devedora dizendo: por tanto que resta em haver nesta conta, colocada a

crédito no Razão B a folhas .... Assim, extinguirás o Razão velho e iniciarás

o novo Razão.

O que exemplifiquei no caso de credor faças com o devedor,

ressalvados os casos opostos. E basta.

OBJETOS DE REGISTROS NO RAZÃO DOS COMERCIANTES

Todo o dinheiro em espécie de tua propriedade, isto é, que ganhares

em qualquer época, ou que te for deixado por parentes falecidos, ou doados

por qualquer príncipe, farás credor a ti mesmo e devedora a Caixa.

Todas as jóias e mercadorias de tua propriedade, que ganhaste ou

deixadas por testamento, ou doadas, e que devem ser avaliadas cada

uma de per si, em expressão monetária, quantas sejam, tantas registrarás

no Razão, fazendo-as cada uma devedoras; e dirás: por tanto que avalio

neste dia para tal bem, no valor tal ... tudo levando a teu crédito, de cada

uma de tais referidas contas.

Observe, todavia, a exatidão de cada partida, ou seja, que nem

ducados sequer faltem nos registros, mas, lembrando que coisas

irrelevantes em valor no Razão não se registram.

Todos os bens imóveis que possuíres, como casas, possessões,

lojas, deves fazer das mesmos devedores, avaliando-os a teu modo,

em moeda e fazendo-te credor na tua supra referida conta. Assim, cada

possessão debitarás e avaliarás uma por uma, tudo a ti creditado. Isto

renova a lembrança de que cada lançamento deve ter: o dia, o valor e o

histórico ou explicação do motivo.

O que comprares, sejam mercadorias ou quaisquer outras coisas,

deves debitar tais mercadorias e coisas e creditar à Caixa.

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Se objetares dizendo que tais mercadorias não foram compradas

a dinheiro e que um Banco ou um amigo pagou por ti, responder-te-ei

que de qualquer forma debitarás tais mercadorias, como antes já te disse,

mas, e, em vez de Caixa, nesse caso, creditarás ao Banco ou ao amigo e

que foram os pagadores.

Compras de mercadorias ou de quaisquer coisas que sejam a prazo

debitarás tal mercadoria e creditarás àquele da qual compraste.

Compras que faças de mercadorias ou outras coisas parte a dinheiro

e parte a prazo deves debitar às tais mercadorias e creditar ao fornecedor

de acordo com o combinado, digamos um terço em dinheiro e o resto há

seis meses próximos futuros.

Farás, a seguir, outro lançamento, debitando o Fornecedor pela

parte paga em dinheiro, ou seja, por exemplo, um terço e creditarás o

restante a outrem ou o Banco que por ti pagasse.

Todas as vendas de mercadorias ou de outras coisas que fizeres

a terceiros farás, igualmente, mas de maneira contrária, ou seja, se a

mercadoria, no exemplo dado, foi debitada, nas vendas será creditada,

sendo devedora a Caixa, se vendida a dinheiro; ou devedor o Banco que

te promete pagar, ou, se a prazo, farás devedor teu cliente ao qual a prazo

vendeste; se a venda foi parte a dinheiro e outra a prazo, farás como já

referi no caso das compras, em duas partidas.

Se vendesses na base de troca de mercadorias – digamos, mil

libras de lã da Inglaterra em troca de 2.000 libras de pimenta –, pergunto:

como escriturar?

Faças assim: avalia a pimenta, a teu critério; admitamos que o faças

por 12 ducados a unidade da medida, portanto, as duas mil libras valeriam

240 ducados em efetivo, tal base servindo para que avalies a lã em troca

entregue. Tal norma é válida para as permutas de outras mercadorias nas

quais o preço fosse o de duas mil libras, na base de 240 ducados.

Debitarás, então, a conta de Pimenta quando consumada a

operação. O dinheiro em espécie que emprestares a qualquer amigo teu,

a ele debitarás, creditando à Caixa.

Se receberes dinheiro em espécie, como empréstimo de amigo

teu, creditarás a este e debitarás à Caixa. Se receberes dinheiro em

espécie, como empréstimo de amigo teu, debitarás à Caixa e creditarás

teu amigo.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Se de uma perda de dez ou vinte ducados ocorrida em navio, galera

ou outra coisa, ocorresse cobertura de seguros, deves creditar “Seguros

de Navios” e esclarecer o que, como, quando e onde o fato ocorreu e que

percentual te atribuíram, fazendo devedora a conta de Caixa.

Mercadorias de terceiros, a ti consignadas para que sejam vendidas

ou trocadas, mantidas em teu estoque, no Razão debitarás, mencionando

pertencerem a fulano, debitando-a também por fretes, carregamentos e

armazenagens, mas, neste caso, a Caixa creditando pelos pagamentos

que fizeste para cobrir tais custos.

CASOS QUE A UM COMERCIANTE CONVÉM REGISTRAR

Todos os objetos domésticos ou do comércio que possuas, mas

que os deseje organizados, isto é, todas as coisas duráveis como o ferro,

deixando-se espaço, se necessitasses, para registrar acréscimos de

outras, e, também, para as que fossem perdidas, vendidas, doadas ou

gastas, necessitam ser considerados.

Deves fazer registro de tudo, inclusive dos objetos de latão, estanho e

similares, de madeira, cobre, prata, ouro, etc., sempre com um espaço para

acrescentar, se necessário, observações, inclusive das que venham a faltar.

Todas as fianças, obrigações ou promessas que assumiste por

qualquer amigo deverás esclarecer bem e como as fizeste. Todas

as mercadorias ou outras cousas sob tua guarda ou confiança, cada

empréstimo de qualquer amigo e assim todas as coisas que emprestares a

teus amigos, todos os negócios contratados, de compras ou vendas, como

os que contratas sem expedições de mercadorias no retorno de naves à

Inglaterra, como sejam cântaros de lãs cardadas boas e bem embaladas,

ao preço de tanto por cântaro ou cento, ou promessa de tantos cântaros

de algodão, tudo deve ser registrado.

O mesmo deve ocorrer com casas ou propriedades, lojas, jóias que

alugares por tantos ducados ou libras ao ano. Quando cobrares o aluguel,

tais importâncias serão também registradas no Razão, como já disse.

Emprestando qualquer jóia ou baixela de prata ou de ouro, a qualquer

amigo teu por oito ou quinze dias, tal liberalidade no Razão não convém

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ContabilidadeContabilidade

registrar, apenas anotando à parte, porque dentro em breve as terás de

novo.

O mesmo vale para o que te é emprestado em tal condição e que

não merece registro em face da rápida restituição.

COMO REGISTRAR A PARTIDA DOS DEVEDORES

MCCCCLXXXXIII

Ludovico di Piero Forestani deve dar no dia 3 de novembro de

1493, L.44, s.l, d.8, em dinheiro levado por empréstimo, levado a crédito

de Caixa à folha 2

L.44, s.l, d.8

E no dia 18 do referido emprestamos por sua ordem a Martim de

Piero Toraboschi, levado a crédito deste à folha 2

L.18,s.ll,d.6

Caixa em mão de Simão de Alessio Bombeni, deve dar no dia 14

de Novembro de 1493 L.62,S.13,d.2 de Francisco de Antônio Cavalcanti

neste à folha 2

L.62, s.13, d.2

Martim de Piero Foraboschi deve dar no dia 20 de Novembro de

1493, L.18, s.ll, d.6 levado por ele em espécie e colocado no Caixa à folha

2

L.18, s.ll, d.6

Francisco de Antônio Cavalcanti deve dar no dia 12 de novembro

de 1493, L.20, s.4, d.2 que prometeu a nosso favor por Ludovico de Pedro

Forestani à folha 2

L.20, s.4, d.2

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Luca Pacioli - Um mestre do RenascimentoLuca Pacioli - Um mestre do Renascimento

COMO REGISTRAR A PARTIDA DOS CREDORES

MCCCCLXXXXIII

Ludovico de Piero Forestani deve haver no dia 22 de novembro

de 1493, L.20, s.4, d.2 como parte de pagamento. E por ele prometeu a

nosso pedido, Francisco de Antônio Cavalcanti colocado à crédito à folha

2

L.20,s.4,d.2

Caixa em mão de Simão de Alessio Bombeni deve haver no dia 14

de novembro de 1493, L.44, s.l, d.8 a Ludovico de Piero Forestani neste

à folha 2

L.44, s.l, d.8

E no dia 22 de novembro de 1493, L.18,sll,d.6 a Martim de Piero

Toraboschi à folha 2

L.18, s.ll, d.6

Martim de Piero Toraboschi deve haver no dia 18 de novembro de

1493, L.18, s.ll, d.6 que lhe prometemos a seu pedido para Ludovico de

Piero Forestani colocado a crédito deste à folha 2

L.18, s.ll, d.6

Francisco Antônio de Cavalcanti deve haver no dia 14 de novembro

de 1493, L.62, s.13, d.6 por ele mesmo em espécie, colocado a débito de

Caixa, folha 2 L.62, s.13, d.6

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CAPÍTULO VI

COMENTÁRIOS SOBRE O “TRATADO” DE

LUCA PACIOLI

Cada um dos capítulos do Tratado de Paciolo é comentado a

seguir.

Minha interpretação fica mais por conta de um desejo meu em

esclarecer, ainda mais, o que já é bem claro na obra do frei, mas que a

forma de expor, de mais de meio milênio atrás, às vezes ofusca.

VI

COMENTÁRIOS SOBRE O “TRATADO”

DE LUCA PACIOLI

6.1. ESTILO E DIDÁTICA – PARA ENTENDER A OBRA

O “Tractatus de Computis et Scripturis”, como parte de uma obra que

se dedicou, especificamente, às Partidas Dobradas, tem o sabor literário

de sua época, de um período da história da humanidade caracterizado por

mudanças de estruturas socioeconômicas.

A linguagem é simples e o caráter didático chega a ser exaustivo

em certos trechos, omisso em outros, repetitivo e deveras personalista.

Foi escrito visando destacar a figura do “comerciante”, aquele que

negociava e morava no mesmo prédio, quase sempre, para ele lecionando,

como se ele mesmo, por princípio, se incumbisse de seus registros e só,

eventualmente, os delegasse a prepostos.

O estilo da época hoje nos confunde, se tentarmos ser literais na

tradução do italiano renascentista; por isto, adaptei alguma coisa (como

fizeram outros ilustres historiadores como o Prof. Esteban Hernández

Esteve), evitando, todavia, que se perdesse a idéia essencial, pois

nesta me mantive atado; em certos trechos dessa tradução que ao leitor

apresento, cheguei a buscar palavras que o frei não usou, mas que

facilitam o entendimento do texto, em nossos dias.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Observa-se, no desenvolver do “Tratado”, que Paciolo usa provérbios

populares e muitíssimas expressões latinas, muito ao hábito de seu tempo;

Machiavelli, também, muito tal recurso utilizou, para nos referimos apenas

a um intelectual da área dos escritos sociais coevos, embora, por vezes, e

muitas, explicasse o que a expressão significava (por exemplo, em sua obra

“Sobre a Primeira Década de Tito Lívio” – a que mais admiro desse autor

– cita o provérbio “Resredacta est ad triarios” e a seguir verte o mesmo para o

idioma italiano de sua região: “Jogamos a última cartada” - Livro II, Cap.XVI).

O frei, todavia, não só provérbios, mas expressões que não as traduz;

utiliza, por exemplo, “luxta comune, dictum, ubi non est ordo ibi est confusio”

(Fala-se comumente que onde não há ordem há confusão”), “Videlicet

vigilantibus est non dormientibus, jura subveniunt” (É necessário que se

ajudem aqueles que vigiam e não aqueles que dormem.), “Nec charitas opes,

nec missa minuit iter ...”, etc.

Em nossa tradução, não transcrevemos a expressão em latim, mas em

português. Buscamos o tanto que nos foi possível (porque dúvidas ocorrem,

não só a mim, mas a ilustres contadores que traduziram o Tratado, como já

me referi a Esteban Hernandez Esteve) manter a forma literal de Paciolo,

deixando algumas vezes de realizar a ordem direta nas frases, como é

moderno fazer-se, para não quebrar o encanto das construções do autor em

certas expressões.

Para nossos dias, a obra não tem uma metodologia que pudesse

qualificar-se como primorosa, mas, para a época, teve condições de atingir,

plenamente, seus objetivos e por longos e longos anos seria, praticamente,

“reproduzida” em quase sua totalidade nas obras de terceiros.

O critério do frei é, todavia, acertado e merecedor de consideração,

embora alguns críticos tenham condenado, chegando até a negar-lhe a

autoria dos textos e a autenticidade (o que julgo temerário).

Não é justo condenar-se Aristóteles por alguns conceitos astronômicos

onde falhou (como o do geocentrismo) e desmerecer toda a sua intuição

científica e espírito lógico que desenvolveu, só porque não se postou tal como

se desejaria para uma obra do século XX, como também, a Paciolo, não se

deve realizar condenações por questões menores e de forma.

Quantos foram os princípios de Newton que a Física moderna derrotou

e quantas são as novas teorias da ciência que mesmo modernas já foram

superadas?

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Muitos dos que contestaram Galileu hoje são também contestados

por seus conceitos; não devemos criticar aqueles cientistas famosos como

medíocres porque suas concepções foram suplantadas; de qualquer

forma foram, inquestionavelmente, homens que estiveram à frente de

seus tempos, ensejando caminhos para a evolução, preocupados com o

encontro com a verdade.

O “Tractatus” é um verdadeiro “curso de idéias”, que busca na

singeleza de suas expressões retratar procedimentos de uma prática que

servia adequadamente a uma era de grande significação no comércio e na

vida financeira do mundo.

Devemos ler do Capítulo I ao XXXVI com respeito, como ainda hoje

reverenciamos os textos de outras disciplinas e filosofias. Não se trata

de uma exposição despida de virtudes, como alguns procuraram taxar,

menosprezando uma publicação que construiu uma época que marcou

uma fase na História da Contabilidade.

Para entender Paciolo é preciso mentalizar a sua época, conhecer

o curso do processamento contábil e a maneira com a qual se dava

importância a tal mister.

Da Vinci, pelo seu brilho cultural, não se tornaria discípulo e amigo

de um ser que não tivesse a mesma luz.

Paciolo influiu na arte de Leonardo, como, certamente, este influiu sobre

o frei; essa interação é própria nos seres que, em demasia, têm o que

oferecer.

A obra do emérito italiano, centenas de anos após sua morte,

teve ainda três edições na Itália (1878, 1911 e 1983) e foi reproduzida

muitíssimas vezes em toda a Europa (felizmente, possuo a edição de

1983); não tivesse o livro grandes méritos e não teria tal expressão por

tanto tempo.

Não há dúvida que se limita a livros contábeis, lançamentos e

algumas práticas de escritório, sem aprofundar-se nas origens do processo,

nem em suas bases, nem em suas peculiaridades (coisas que poderia ter

feito), mas espelha a conquista de um tempo, tal como se apresentava na

ocasião.

Quanto ao teor eminentemente contábil admito que ele se situou

em posição mais modesta que a de obras que se editaram no Oriente

Médio, como a de Mazandarani, em 1360.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

É, entretanto, inequívoco que ao mesmo não se pode negar o

privilégio de ter sido o primeiro livro sobre o assunto que foi industrialmente

impreso e o que teve, em sua época, a maior difusão, ainda que não

tivesse sido, exclusivamente, contábil.

A obra, não há dúvida, é bastante rudimentar, sucinta, logo sem

um teor de profundidade conceptual contábil, este que só admito ter-se

iniciado em 1586, com Ângelo Pietra, como julgou igualmente Vincenzo

Masi (La Ragioneria nell’etá medievale, editor Tamari, Bolonha, 1975).

O século de Paciolo não foi de profundas teorizações em torno do

campo contábil, pois a sensibilidade, para isto, não se aninhara ainda no

intelecto humano; a partida dobrada estava amadurecida na Itália há mais

de 200 anos, como prática, mas a “vontade teórica” não se havia ainda

manifestado de forma perceptível.

Mesmo em outras ciências não se encontram obras dignas de serem

qualificadas como “primores” de metodologia e de indagação teórica no

século XV. Quem lê Giordano Bruno (1550-1600), Galileu Galilei (1564-1642),

pode aferir o que se doava de intelecto às doutrinas; a profunda preocupação

estava volvida aos aspectos eminentemente pragmáticos, experimentais, de

até aparente ingenuidade, embora ambos sejam posteriores ao Frei, mas não

tão distantes.

A relatividade da verdade, apregoada por Bruno, aquela dos fenômenos

físicos lecionada por Galileu, o estado indeterminável do curso de muitos

fenômenos são bem o espelho de uma época que derrotava estruturas

calcificadas no âmbito social e cultural, mas que, sem dúvida, não tinha ainda

um domínio metodológico para estruturar complexas teorias científi cas.

Para que se tenha uma dimensão do “medo pela verdade”, aferrolhada

que estava esta aos dogmas eclesiásticos, basta lembrar o juramento

de Galileu em 1633 (muito tempo após a obra do frei, ou ainda, 139 anos

depois), negando suas teorias científicas para amenizar a pressão que sofreu

do clero.

Paciolo era um religioso, limitado à sua disciplina, adaptado às

conveniências clericais e não poderia, jamais, ousar teorizações no campo da

riqueza patrimonial, sem, talvez, arranhar suceptibilidades que lhe pudessem

custar dissabores; todavia, capacidade cultural não lhe faltava para que

penetrasse nas teorizações.

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6.2. CAPÍTULO I – DAS COISAS NECESSÁRIAS AO COMERCIANTE

A introdução do “Tractatus” busca dar uma idéia do que, na concepção

da época, parecia o fundamental. O momento era o do “auge da formação

da riqueza”. O capital aparecia como “o quase tudo”, como solução defi nitva

para a quebra da estrutura medieval (como foi dissertado na parte inicial

deste livro).

Dinheiro e bens (que na obra de Paciolo aparece sob a denominação

de “faculdade substancial”) apresentam-se como o “necessário substancial”

a fazer o “corpo da empresa”.

O autor mostra que o grande “objeto” de atenções era o patrimônio,

e afirma, enfaticamente: “sem cujo auxílio dificilmente se pode exercer a

atividade mercantil”.

Compara a “substância” da matéria com a “substância” da empresa,

que, no entender do frei pode também gerar-se do “Crédito”.

Admite, pois, que a riqueza pode formar-se, quer por via do capital

próprio quer de terceiros.

A “Fonte”, pois, pode variar, mas a “substância” é imprescindível, ou

seja, o “meio material de exercício da atividade” é condição para que dela

se derive o que vai ser gerido.

Paciolo apresenta essa idéia do “substancial” de forma singela e até

rude, mas, positiva e fundamental.

O “objeto científico” que desenvolvi em minha “Teoria do

Conhecimento Contábil” (Edição IPAT-UNA, Belo Horizonte 1992, ICAC

Madri, 1997) foi o “patrimônio”, o mesmo que de forma inquestionável e

basilar foi reconhecido como fundamento pelo frei franciscano, em 1494,

ou seja, a visão patrimonialista estava germinada já de há muito.

A condição primeira de Paciolo, no Capítulo I, é, pois, a que Masi

transformaria como “objeto científico” na doutrina do Patrimonialismo na

década de 20 do século XX e a que tomei em minha obra, que resultaria

na década de 80 do século XX na doutrina do Neopatrimonialismo, hoje

a maior corrente científica organizada no campo da Contabilidade, com

muitos milhares de adeptos.

A seguir, como 2ª das três condições do comerciante, Paciolo

enuncia a “capacidade contábil”.

Para ele, o comerciante precisava ser “bom contador e ágil calculista”

porque tal empresário não só comprava e vendia, mas industrializava e

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

prestava serviços, e como não havia incompatibilidade entre tais atividades,

assim não deveria haver em praticar atos de registro para que ocorresse

um pleno conhecimento das mutações da riqueza.

Com isso, visou a uma associação de idéias entre o “objeto” do

comércio (patrimônio) e o conhecimento do objeto (informação e estudo

desta).

Essa genial forma expositiva não só engrandece o entendimento,

mas, especialmente, a qualidade intelectual do autor.

A terceira condição a que Paciolo proclamou como também

fundamental é a da organização que o mercador deve ter em sua escrita.

A sensibilidade para as “condições básicas” estava, pois, na

“existência do patrimônio como substância, na avaliação do comportamento

da riqueza e na boa ordem com que tais entendimentos deveriam

processar-se.

O introito do trabalho vai ao cerne da questão, inquestionavelmente,

atribuindo à Contabilidade uma importância magna.

Por isto lecionou que: “tre cose massime sono opportune a chi vuole

con debita diligenza mercantare” (três coisas máximas são oportunas a

quem deseja com devida diligência comerciar). O “máximo” (e Paciolo

era um matemático, logo com conceitos sólidos sobre as grandezas) já

dá uma ordem da qualidade do conhecimento que se reconhecia para a

prática do comerciante.

Vale ressaltar que no “caput” do Capítulo I o frei ainda admite que

tais coisas são as que se exigem de um “verdadeiro comerciante” e, com

isto, marginaliza os demais que não seguem a tais bases.

Ainda nesse preâmbulo encontramos a expressão “ao modo de

Veneza” como o “recomendável” para que se possa implantar a boa

organização contábil (e o frei, em seus textos, fala de práticas do processo

em outras localidades, mostrando conhecê-las, pois se assim não fosse,

não teria como compará-las).

Afirmam alguns estudiosos que tal se deve ao fato do autor só

haver aprendido as partidas dobradas naquela cidade, na casa do judeu

Antônio Rompiaci, a cujos filhos Paciolo ensinava matemática (tese que

não acolho e que contestei em trabalho específico já referido).

Outros admitem que o “Tratado” não é do frei, mas que foi inserido

a partir de um manual que circulava em Veneza (o que não procede,

bastando ler a obra para certificar-se disto, dadas as diversas referências

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aos hábitos da Toscana, região de origem do Frei, e, também da terra

natal deste, além de não haver prova material que sustente a não-

autenticidade).

O fato é que, sendo adepto das normas de uma cidade que tivera

o pleno domínio dos mares e que se tornara vitoriosa comercialmente,

difundia ele o que de melhor considerava em sua época (apesar das

muitas andanças, embora não se tenha notícia de Paciolo em outros

países, a não ser na Iugoslávia e, mesmo assim, quando Zara pertencia a

Veneza).

Além do mais, o ambiente daquela república jamais sonegou ao

gênio das matemáticas e da Contabilidade o apoio que necessitou, tendo

sido justo que retribuísse a afeição que recebia, com homenagens, por meio

de suas letras.

Já no primeiro Capítulo, percebe-se o intuito de dar destaque ao

Inventário e a seguir à “Disposição”, evidenciando as partes que pretendia

secionar, ou seja: a Estática (Inventário) e a Dinâmica (Disposição).

Também, já de início, confirma o papel relevante dos dois livros

fundamentais do processo: Diário e Razão (que também se encontram em

obras mais antigas que a do frei, como a de Mazandarani, editada na Pérsia,

em 1360).

Adverte, finalmente, com a veemência que repete durante todo

o conteúdo do “Tratado”, ser preciso ter-se muito boa organização e

atenção.

O primeiro capítulo, por conseguinte, fala-nos do que o comerciante

necessita para seu êxito, ou sejam: o seu capital de suprimento (próprio ou

de terceiros) e o pleno e absoluto conhecimento do comportamento de tal

riqueza (Contabilidade), apoiado por uma organização vigorosa.

Ou seja, advertiu que não basta possuir um patrimônio, sendo

necessário que inteligentemente possa ele ser conhecido e conduzido. É

inequívoca a posição assumida na obra de que a escrita é “instrumento de

conhecimento” e não o “próprio conhecimento”, embora isto só, logicamente,

se deduza, por não estar assim ostensivamente dito no capítulo inicial.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

6.3. CAPÍTULO II – O INVENTÁRIO E SUAS BASES

METODOLÓGICAS

Coerente com a exposição do primeiro Capítulo, o autor que

consagra a “substância patrimonial” como coisa “máxima” (por não existir

o fenômeno sem que aquela exista) passa a referir-se ao Inventário, como

expressão documental da referida essência.

Afirma, categoricamente, que o fim da empresa é o lucro e que

os elementos usados para consegui-lo devem ser “levantados” ou

reconhecidos em um “Inventário”, sendo este a “descrição e avaliação” da

substância.

Pragmaticamente, Paciolo oferece o método de fazer o levantamento

e que é o de relatar os bens mais importantes e mais fáceis de se perderem

ou modificarem seus estados, como, por exemplo, o é o dinheiro.

Justifica que os mais estáveis podem ser feitos depois, porque

menos preocupam, tais como terrenos, edifícios, etc.

Sugere, pois, o começar-se pelo capital em giro, deixando-se o fixo

para o fim, mas a tudo abrangendo, sem que coisa alguma se exclua,

ressalvando, apenas, em alguns pontos do Tratado, que coisas de

expressão insignificante não devem preocupar.

Enuncia o princípio da Tempestividade, ou seja, adverte que todos

os componentes do Inventário devem referir-se à existência das coisas

“em um mesmo dia”.

Recomenda a “identificação cronológica”, a “classificação” e o

“local” onde se encontram os bens”; ou seja, em que ano, classe de bens

e local encontram-se as coisas. Estabelece as “normas” essenciais para a

elaboração do inventário, ou ainda, ao “como se deve fazer” tal peça.

Dentro de um raciocínio lógico, próprio da mente do autor (afeito

às matemáticas), ele estabelece uma “linha filosófica de comportamento

prático” e que é a da “finalidade do trabalho”; por isto esclarece, antes de

mais nada, que a tarefa visa a fins de uma riqueza que se encontra na

perseguição do lucro e que sob tal aspecto deve ser observada.

Com isso, ressalva a “intenção do levantamento”, dando uma linha

de raciocínio que deve guiar a determinação dos componentes no referido

trabalho.

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6.4. CAPÍTULO III – EXEMPLICAÇÃO DO INVENTÁRIO

A seguir, sobre o tema do Inventário, Paciolo passa das normas

gerais que guiam o levantamento para um “exemplo prático de inventário”.

Sugere uma certa formalidade que deve começar com um “Termo” ou intróito

detalhado.

A seguir, recomenda que sejam evidenciados: dia, nome da

pessoa proprietária, localidade, endereço, identificação do encarrregado

do levantamento (nome da pessoa que o fez), classe dos bens que a

listagem identifi cará (móveis, imóveis, etc.), todos como elementos formais,

imprescindíveis à introdução.

Percebe-se ainda toda a “solenidade” da época: “Em nome de Deus,

aos 8 dias do mês de novembro de 1493, em Veneza, etc., tal como ainda

hoje nos Cartórios se adotam para certos registros importantes.

O Inventário, feito em folha à parte, como sugere o frei, é, pois, um

autêntico “documento” que passa a ser base para a “abertura” da escrita, e,

também, para “encerramento” de períodos.

A anotação do que se encontra na empresa ou em casa, Paciolo

sugere historiar de uma forma que naquela época se empregava (e que

hoje se simplificou) lecionando que deveria ser: “Primeiramente encontro

de moeda em espécie, tantos ducados, dos quais tantos são de ouro e de

cunhagem Veneziana, tantos de ouro húngaros, etc.”

Nota-se, nisso um misto de preocupação com o detalhe e com a

solenidade documental.

O capítulo continua exemplificando toda a sorte de levantamentos,

deveras abrangentes, incluindo bens, créditos e dívidas.

Percebe-se que, conforme o uso do tempo, mesclam-se os “bens

de uso domésticos” e os “bens do negócio”, tudo como sendo um só

conjunto. Isso porque era habitual, na época, os negociantes, em um só

prédio, possuírem a residência e a loja sem, às vezes, muita distinção de

tais coisas.

O modelo de inventário apresentado no Tratado não só é descritivo,

mas, também, analítico, preocupado com a mensuração e a avaliação de

tudo.

A avaliação é feita em L = Liras, S = Soldos, d = ducados, p = piccioli

e g = grossi (moedas) que ele coloca, muitas vezes, abreviadamente, e

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

que enseja entender que mesmo as frações das moedas deveriam ser

evidenciadas.

Como em Veneza circulavam muitas moedas, ao relacionar os

haveres, Paciolo chamou a atenção para que fossem bem identificadas.

O propósito do inventário não difere muito do que hoje ainda se utiliza

quanto a tais técnicas, mas bem se distingue no que tange à mescla do

“particular” com a “empresa” e a solenidade.

O frei divide bem os “itens” do Inventário por natureza de bens,

mais do que por funções da riqueza, mas define de forma a se aproximar

destas.

Na tradução da obra do frei, algumas dificuldades ocorrem, em

virtude de termos que caíram em desuso ou que se alteraram ao longo

dos anos (mesmo para os italianos que hoje conseguem ler sem grandes

problemas a obra), mas não prejudica o entendimento geral do assunto.

É o caso, por exemplo, da expressão “balassi” que descreve uma

espécie de pedra preciosa e que se admite seja o “rubilite” (rubi rosa

claro), “safili” (hoje zaffíri) “rubini coculegni” (que se admite seja a forma

de lapidação do rubi), etc.

Tais dúvidas, entretanto, só tangem aos que se aferram a um

preciosismo de tradução, mas não prejudica o que o frei desejou apresentar

como exemplificação de um trabalho contábil.

Mesmo na época em que a obra foi escrita, ao ser passada para

outros idiomas, como o alemão, tiveram também os difusores do “Tratado”

dificuldades, dado o caráter específico dos “dialetos” ou de expressões

idiomáticas que bem compreendidas em Veneza não o eram, todavia,

em todas as partes (fato que ainda hoje ocorre com muitas coisas,

mesmo em nosso País, onde há uma só língua predominante e regulada

gramaticalmente).

O que se percebe é a preocupação do autor em evidenciar que o

Inventário é um documento muito importante, que deve bem se identificar

e caracterizar, que precisa ser analítico e que exige uma classificação

racional, apresentando toda a riqueza, em uma só data de referência,

possuindo abrangência e devendo ser o mais preciso possível.

O inventário, tal como é exemplificado, é uma relação completa

de tudo o que compõe o patrimônio, possuindo caráter descritivo e

organização própria.

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Tal como o frei o apresenta, ele não é apenas uma “anotação de

haveres”, mas a descrição e a classificação do patrimônio de forma plena

e própria, ou seja, “em forma contábil definida” .

Ao apresentar os modelos de inventário, Paciolo ressalta o cuidado

e a precisão que a tarefa exige, e adverte sempre que coisa alguma deve

ficar omissa, a menos que de expressiva e notória irrelvância.

6.5.

CAPÍTULO IV – RECOMENDAÇÕES E COMENTÁRIOS AOS

COMERCIANTES SOBRE A DOCUMENTAÇÃO

De um capítulo pragmático de escrituração contábil, o frei passa a

generalidades, visando ressaltar a importância documental, tão como a

da organização e dos detalhamentos.

Paciolo adverte logo de início que é mais difícil fazer-se um

comerciante do que um doutor em leis, buscando ressaltar que mais

responsabilidades e cuidados se exigem de mercadores, em virtude do

significativo número de casos que ocorrem com habitualidade.

Lembra, a propósito, algumas variáveis que concorrem, a cada dia,

na formação de fenômenos empresariais é até de difícil determinação com

detalhes precisos (algumas coisas irrelevantes o frei, ao longo da obra,

sugere, até, abandonar).

Chega mesmo a usar a expressão “casos infinitos” para expressar

toda a vasta complexidade dos fenômenos aziendais.

Adverte: “Quem é que pode determinar o imenso número de

lançamentos e casos que vêm a ocorrer?”

Destaca a influência dos ambientes externos à empresa (que

o Neopatrimonialismo classifica como relações lógicas ambientais ou

do entorno) e os riscos que podem trazer em relação a casos que não

dependem da vontade do comerciante (guerras, naufrágios, pirataria,

pestes, etc.).

Sérias eram as dificuldades naquele século XV envolvendo: riscos

dos transportes marítimos e terrestres, lentidão das comunicações,

multiplicidade exagerada de moedas, feiras comerciais de acesso difícil,

etc.

Por isto, o frei insistiu na “rigorosa precaução” que pudesse a tudo

abarcar em “vigílias permanentes” (dia e noite se possível for).

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Ao destacar a “imensidão” de eventos e de riscos, objetivou destacar

a “importância” de “tudo documentar” e de possuir registros abrangentes e

competentes para comprovar e gerar informações.

Reclamou “cem olhos na cabeça” para tudo ver, evidenciando

preocupação didática em comentar e advertir, apoiando seu conceito

naqueles correntes em todas as partes de seu país.

“Vide licet vigilantibus et non dormentibus, Jura subveniunt” escreve

o frei, ou seja: “É necessário que se ajude àqueles que vigiam e não

aqueles que dormem”, evocando a plena atenção, como condição de

eficácia nos negócios.

O autor, além do adágio, lembra Dante e recorda que não se deve

jamais mostrar cansaço, trabalhando como faz a formiga, com plena

presença e perseverança.

O princípio até hoje reconhecido como válido e racional de ser

“presente” e “atento” a todo o comportamento da vida empresarial, sem

dúvida, é uma ampla recomendação no “Tractatus”, denunciando a plena

cognição de Paciolo sobre a administração eficaz.

Se a isto mesclou ele o apelo da fé religiosa, percebe-se como

natural a uma época, onde o poder da Igreja destruía valores em favor de

seus interesses, onde os papas tinham exército e onde Paciolo submetia-

se a uma subordinação que lhe convinha.

O mesmo encontramos em outros autores que temeram a Inquisição

e que sofreram pressões do Poder Religioso.

6.6. CAPÍTULO – AS DISPOSIÇÕES E OS LIVROS BÁSICOS

Sob a denominação de “corpo” ou “monte do negócio”, define-se

o que na realidade hoje intitulamos patrimônio e capital e é dedicado a

tal matéria que Paciolo inicia a dita segunda parte, evidenciando que se

deveria detalhar tudo sobre o que fosse acontecendo com as riquezas

aplicadas.

Em razão disto, evocou a necessidade que já havia evidenciado, de

bem tudo inventariar e refere-se aos três livros principais.

Tais livros são: 1) o Borrador, ou Memorial, que recebe as anotações

na medida que os fatos acontecem, 2) o Diário, que deve ensejar a

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classificação e a disciplina os eventos em partidas e 3) o Razão, que

registra de forma sistemática, conduzindo os valores a cada uma de suas

contas.

Detalhando, afirma que nem todos usavam o Borrador, mas que

tanto o Diário quanto o Razão são imprescindíveis.

O Capítulo limita-se a referir-se à existência da riqueza e a dos livros

competentes para guardar memória de seus fatos, tão como da disciplina

destes para que ocorra um pleno entendimento.

6.7. CAPÍTULO VI – O BORRADOR OU MEMORIAL

O uso do Borrador, como “rascunho”, como elemento de captação do

fato contábil, no momento em que ocorre, é muito antigo e há comprovação

de sua existência em remotas civilizações (Federigo Melis denuncia sua

existência entre os sumero-babilônios).

O ato de anotar um acontecimento no momento da ocorrência do

mesmo ou bem próximo a esta mostrou-se sempre eficaz.

Paciolo apresenta alguns nomes que tal livro recebia em sua época

(em italiano Memoriale, Squartafoglio ou Vacchetta), e que em português

equivalem a Borrador, Memorial, Costaneira.

No Oriente Médio, já ao tempo dos fenícios, tal livro era anotado

em “símbolos”, ou seja, uma espécie de “taquigrafia” da época e que os

árabes assumiram com o nome de “Siyaqat”.

O problema estava em dar “agilidade ao registro”, ou seja, evitar

que a memória se perdesse (dai o nome Memorial).

O frei ressalta, pois, toda a utilidade do livro, destacando que o

mesmo: a) aplica-se ou utiliza-se para registrar todos os fatos, b) em todos

os momentos, e c) em todas as expressões.

Recomenda: 1) clareza, 2) individualização, 3) integridade ou

completa abrangência de todos os dados.

A utilidade do uso, portanto, Paciolo a consagra, admitindo que até

o inventário, em tal livro, é costumeiro registrar-se.

Quanto a quem se deve confi ar as anotações o frei deixa ao arbítrio

de tantos quantos saibam e possam fazê-lo, não estabelecendo restrições.

O importante é que tudo se anote, tempestivamente, ainda que o próprio

comerciante não o faça pessoalmente.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Por muitos séculos o uso do Borrador prevaleceu e embora hoje em

desuso, em face dos recursos modernos de memorização, transferidos

a computadores e outros instrumentos de reconhecimento e gravação

de informes, no início deste século gerava, ainda, até um seu auxiliar

e que era dito “Borrão”, no qual as anotações eram espontâneas e até

desordenadas.

O “Tratado” insiste nos detalhamentos dos registros em tais

rascunhos, para que o Diário possa deveras nele basear-se. Recomenda

informar ao máximo, para que os levantamentos possam ter a maior

fidelidade, fazendo rascunhos que facilitem os livros principais.

Conforme o uso da época, aconselha gravar na capa dos livros um

sinal que os identifique, assim como os que se seguirem, ou seja, por

exemplo, o primeiro com uma cruz, o outro que o segue com a letra A, o

outro com a letra B, etc.

Portanto, “cheio um livro”, como diz o “Tratado”, o outro que se segue

identificar-se-á pela sinalização na capa, devendo esta ser seqüencial

pelas letras do alfabeto: A,B,C ...., etc.

Afirma, todavia, que o abandono de um livro pode ocorrer mesmo

que cheio não esteja, por outras conveniências, mas, nesse caso, o critério

será sempre o mesmo quanto a identificação na capa.

O importante, adverte, é que os sinais sejam “diferentes” nas capas,

de modo a ressaltar que se trata de uma continuação ou “seqüência”.

O “sinal da cruz”, no primeiro livro, sugerido pela obra, atende à

superstição católica de que ela “afugenta o demônio”, fato que parece

destoante, mas justificável na época.

Os intelectuais da época necessitavam “estar bem” com um regime

de fanatismo clerical, pois, se assim não fosse, poderiam estar sujeitos a

perseguições, sansões e até crueldades.

Menos é a culpa de Paciolo, portanto, que aquela de sua época,

dominada pelo Poder da inquisição .... (iniciada na França nos fins do

século XII para perseguir e punir os “hereges” ou os que contrariavam ou

ameaçavam o Poder do clero; foi entregue a partir de 1233, por Gregório

IX, a um tribunal de dominicanos e ceifou dezenas de milhares de vidas e

outras tantas milhares anulou e torturou).

Os que escreviam estavam sob tal vigilância da Igreja que,

certamente, para bem com ela fi car, necessário se fazia “mostrar-se muito

católico”, especialmente em países como a Itália, Espanha e Portugal.

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Por isto é que Paciolo escreve, em seu “Tratado”, expressões como

“como bem costumam fazer os verdadeiros católicos”, “o glorioso signo

da cruz”, “o que afugenta o espírito do inferno”, etc. tudo isto ainda mais

justificando seu próprio estilo, contrariando a tese do “plágio”, em meu

modo de entender (esse é um dos argumentos, apenas).

Quanto às formalidades “extrínsecas” dos livros leciona sobre

as necessidades de seqüênciar páginas, numerá-las, não saltar folhas,

evocando ordem e seriedade para evitar a suspeita de fraude, e, também,

para permitir que esta possa facilmente descobrir-se.

6.8. CAPÍTULO VII – AUTENTICAÇÃO DOS LIVROS COMERCIAIS

Buscar a fé pública dos livros, em razão de nos cartórios registrá-los

e autenticá-los, passa a ser uma recomendação de Paciolo.

Em verdade, tal prática para a validade de documentos perante

terceiros é milenar, mas na alta Idade Média, segundo se lê na obra do

frei, não era obrigatória, mas emprestava fé, se os livros passassem pelos

cartórios e cumprissem algumas formalidades.

Fala o “Tratado” de um termo de abertura, no qual se devem definir

várias coisas, como: a moeda eleita para a avaliação ou a expressão dos

valores, quem se encarregará de escriturar, quem é o proprietário dos

mesmos livros, qual o sinal que identifica o livro, quantas folhas tem, a

data da primeira folha, etc.

O escrivão, segundo o frei, autenticaria as declarações cabíveis e

com o seu sinete daria validade a tudo, emprestando a “fé” necessária,

evitando que terceiros pudessem colocar em dúvida o que estivesse

contido em tais livros.

Pelo texto do capítulo, percebe-se que o tratamento referido não

era uniforme na Itália, razão pela qual Paciolo cita como exemplo apenas

um dos burgos onde tal hábito era consagrado.

Evidente fica, também, que discussões ocorriam sobre a validade

dos lançamentos e que o registro em cartório ajudava a dar confiabilidade,

posto que eram reconhecidos como competentes para atestar verdades.

Finaliza o capítulo lembrando que evocando o nome de Deus, se

deve iniciar os registros a partir do Inventário.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

O cartório, na referência do “Tratado”, já era especial para o

comércio.

6.9. CAPÍTULO VIII – LANÇAMENTOS NO BORRADOR

O “Memorial”, o “Costaneira” ou o “Borrador”, como livro de

“rascunho”, de “primeiro e pronto registro” parecia ser , no dizer do

“Tratado”, um livro que cada um fazia ao seu feitio, ou seja, de acordo

com a sua própria conveniência e capacidade. Por isso, Paciolo afirma,

entendo, que sobre o mesmo não se poderia oferecer uma norma geral.

Ao lecionar sobre a questão, refere-se, pois, ao que era “comum

costume”, evidenciando a impossibilidade de oferecer um modelo que

fosse geral. O exemplo que apresenta detalha uma operação de compra.

Evidencia que a preocupação é “narrar o fato”, porém, da forma

mais completa possível, bem identificando a tudo.

Aconselha o frei que as referências deveriam ser precisas sobre as

mercadorias, fornecedores, pesos, valores, condições do negócio, etc.

Enfaticamente, afirma que no Borrador nenhum detalhe pode ser

omitido e afirma que “a clareza nunca é demais para o comerciante”.

Logicamente, o que recomendava era a segurança de informações, de

modo que os lançamentos pudessem ser os mais completos possíveis.

A prolixidade dos históricos, hoje abandonada em grande parte,

na época do “Tratado” parecia ser predominante, recomendável como

conveniente.

Não se poupavam palavras, nem minúcias, procurando levar-se

para os livros todos os informes alcançáveis.

6.10.

CAPÍTULO IX – COMPRAS DE MERCADORIAS E SUAS

MODALIDADES

Expõe o capítulo as nove modalidades de aquisição de mercadorias,

ou seja, as variações e as combinações entre as “Formas de pagamento”:

a dinheiro, por cheque, a prazo ou em troca.

O “Tratado” combina tais componentes, ou seja, por exemplo:

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compra só a dinheiro, compra parte a dinheiro e parte a prazo, compra

parte em troca, parte a dinheiro, etc., de modo a oferecer nove situações

diferentes, embora que derivadas.

Volta o “Tratado” a insistir sobre a plena clareza na descrição da venda,

em todos os seus detalhes, quando registrada no Memorial ou Borrador.

Exemplifica tais detalhes e, novamente, aí se vê a citação do

lugar onde Paciolo nasceu, ou seja, Borgo Sansepolcro, mais uma vez

denotando que a hipótese do “plágio” (que contra ele se levantou) carece

de fundamento (seus opositores afi rmaram que ele não era o autor e, sim,

havia inserido um manual de partidas dobradas em sua “Summa”); o frei,

ao citar exemplos, lembra-se de sua cidadezinha natal e ainda diz: “nosso

pequeno mercado”, ao referir-se à localidade: “Borgo Sansepolcro, nostro

mercatello ....”.

Insiste, nesse capítulo, que o registro no Borrador é apenas uma

preparação para aquele do Diário e que este deveria ser realizado alguns

dias depois, ou seja, o mais brevemente possível.

Desvincula, portanto, o registro do Diário e mostra que o mesmo deve

ser feito posteriormente, com maior solenidade, mas que o detalhamento

da operação se realiza, em rascunho.

Leciona, finalmente, que da mesma forma, das nove formas que se

compra, também pelas nove se pode vender.

Apela para o talento do leitor, afirmando que os detalhes oferecidos

na obra a respeito das “compras” já eram suficientes para sugerirem como

proceder no caso das “vendas”.

6.11. CAPÍTULO X – O LIVRO DIÁRIO

O uso do Diário, sabemos, é milenar e a intuição para ele já se havia

formalizado há mais de 6.000 anos entre os sumérios, consolidando-se

entre os babilonos.

Na alta Idade Média, quando do aparecimento e difusão das Partidas

Dobradas, sofisticaram-se as Normas e os detalhes.

Quando, no fim do século XV, Paciolo descreveu os procedimentos

do livro Diário, algumas tradições no uso já estavam arraigadas quanto às

formalidades intrínsecas e extrínsecas do mesmo.

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Inicia, portanto, o frei, por falar que na capa do livro Borrador deve

existir o mesmo sinal de identificação que no Diário se põe, para evidenciar

que este deriva-se daquele, ou seja, se a capa do Borrador tem uma

Cruz, a do Diário também deverá possuí-la; se o Borrador tem na capa um

A, o Diário, também, deve ter o A.

Adverte que no início de cada folha deve-se colocar o “ano” (dito por

Paciolo “millesimo”) e o “dia”, devendo começar pelo Inventário completo,

como partida inicial, de abertura.

Evidencia que o Diário é um livro “privativo” do comerciante

(“secreto”, diz o texto) e que nele pode evidenciar detalhes que no Borrador

não existam (porque este pode ser de alcance geral).

A privacidade absoluta do Diário era algo respeitável, mesmo porque

o sistema fiscal em Veneza concentrava-se mais nos tributos sobre o sal e

propriedades que mesmo sobre o lucro das transações, gravando mais o

consumo e que os resultados, o que liberava o fisco de exame da escrita e

a tornava indevassável, praticamente (Tommaso Fanfani – “Note sul partito

del sale a Venezia tra XVI e XVIII secolo; aspetti di evasione fiscale .... in

Il sistema Fiscale Veneto, problemi- aspetti, XV - XVIII secolo”, edição da

Universidade de Pádua, Verona, 1982).

Adverte sobre a necessidade do detalhamento e da estreita ligação

entre os documentos do arquivo e os registros do Diário. Evidencia que

de rara importância era a comprovação ligada ao registro, devendo-se

organizar as coisas de modo a permitir uma fácil localização.

A importância da “arte de escriturar” é ressaltada por Paciolo quando

adverte que os lançamentos no Diário devem ter uma forma de maior

elegância ou nobreza (“Ma le partite del ditto Giornale si convengono

formare e dittare per altro modo piu leggiadro, nom superfluo, neanche

troppo diminuto ....”).

Com isso desejou dar ênfase à solenidade do livro contábil que

deveria servir de prova quando esta fosse solicitada.

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6.12. CAPÍTULO XI

– OS PREFIXOS “POR” E “A”, COMO

IDENTIFICADORES DAS CONTAS DEVEDORAS E CREDORAS

A identificação de POR para o débito e do A para o crédito, o

frei apresenta como um uso de Veneza, constantemente utilizado para

“distinguir” a situação da conta.

Em verdade, tal distinção, há mais de 5 mil anos, já era adotada

pelo sistema contábil da Suméria, com as expresses “MU” e “BAL”, para

significar “tem dado” e “tem a haver”, e também “E” e “BAL” que se encontra

nos registros dos templos religiosos daquela longínqua civilização.

O Diário, pelo que se conhece das provas arqueológicas das

expedições de Sarzec (de 1893 a 1900), referem-se às dinastias que

sucederam à de Fara, na Suméria, há mais de 5 mil anos, época em que

também já se fazia uma escrita de custos.

Na própria Itália, as expressões “PER” e “A” podem ser encontradas

em Diários do início dos anos 300, como, por exemplo, naquele de Giotto

dé Peruzzi de 1308 a 1336 (na Toscana, região de nascimento de Paciolo),

fora de Veneza e feitas há mais de um século e meio antes da obra do

frei.

Que Veneza, todavia, utilizasse tal critério não há dúvida e existem

provas documentais, mas não foi lá que o critério nasceu e nem onde se

tornou exclusivo.

A ordem de colocar-se antes o devedor e depois o credor,

identificando-se aquele por PER ou POR e este por A é, todavia, lecionada

no “Tratado” como “obrigatória”. Entre tais prefixos de identificação o frei

afirma que se deve separar as contas por duas vírgulas.

Os tempos, entretanto, alteraram os hábitos; as duas vírgulas

se substituíram por duas barras verticais e paralelas, e, depois,

desapareceram; o PER ou POR, também foi abandonado, só ficando o A,

para o crédito.

Atualmente, na quase totalidade dos casos, com os sistemas da

Informática, nem mesmo o A se utiliza mais.

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6.13 CAPÍTULO XII

– LANÇAMENTOS NO DIÁRIO E NO RAZÃO

RELATIVOS A CAIXA E CAPITAL

A conexão dos registros, para que surja a conta de capital é a

preocupação inicial expositiva do Capítulo XII do “Tratado”.

Para fins didáticos, o “dinheiro”, expresso por “Caixa”, passa a ser o

primeiro devedor, tornando-se credora, então, a conta de “Capital”.

A conta de Capital, segundo Melis, já se movimentava de há muito,

sob a denominação “Corpo de Companhia”, com a concepção de uma

“dívida da empresa” para com os seus sócios (que eram considerados,

pois, credores), abrindo-se para cada um uma conta, possivelmente

desde os fins do século XIII, mas, comprovadamente expresso na escrita

dos Peruzzi, de Florença, pelo seu livro próprio, em 1335-1343 (Federigo

Melis - Storia della Ragioneria, pág. 405, edição Zuffi - Bolonha, 1950).

A partir do Inventário, pelo dinheiro encontrado, sugere o “Tratado”

a abertura das contas: de “Caixa”, como devedora, para expressar o

numerário e a de “Capital”, credora, como conta-partida, para expressar,

“o que o sócio entregou”, ou como se denomina, no escrito do frei,

creditando-se pela formação do “Corpo de Faculdade Presente” ou “Teu

Monte” ou “acervo patrimonial”.

O Capital, adverte, é “sempre credor”, e a caixa “sempre devedora”,

confirmando a concepção de que tais contas surgem para possuir “sempre”

saldos de tais naturezas.

O “Caixa” jamais poderá deixar de ser devedor e se aparecer credor

é porque há erro no Razão, leciona, decididamente.

A seguir, surgem os exemplos dos lançamentos, vertendo à conta

de Capital todos os itens do Inventário, ou seja, oferecendo a idéia de que

tudo o que se dispõe é o que forma o “corpo da companhia”.

Curioso é que ao falar de “avaliação”, Paciolo apresenta um princípio

que hoje é um oposto ao consagrado, denominado de “Prudência”.

Sugere a avaliação pelo “maior preço” e não pelo “menor”.

O sistema fiscal de Veneza, não alcançando tais fatos, permitia tal

ocorrência sem danos, mas, atualmente, a prática seria gravosa, ilegal e

contraria aos preceitos hoje estratificados nos Planos Gerais de Contas de

diversos países, tão como às normas de diversas entidades contábeis.

Sugere, ainda, como medida de simplificação, em vez de repetir

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títulos de contas de pessoas, quando vários registros são iguais e

imediatamente sucessivos, registrar-se apenas “ao dito” ou “ao referido”;

adverte, todavia, que tal prática só é válida quando outro lançamento não

se interpõe.

Quanto às mercadorias, sugerindo, como foi dito, a avaliação a

“preço de mercado” ou “preço corrente” ou “ao curso” (como se expressa

para designar valor usual de venda) adverte que tudo deve avaliar-se

com base em “ima só moeda”, ou seja, com homogeneidade monetária

(porque muitas eram as que circulavam em Veneza, dada a sua atuação

no mercado italiano e estrangeiro).

Ao passar os lançamentos do Diário para o Razão, recomenda

assinalar ou evidenciar número de páginas, mostrando a preocupação que

as transcrições motivavam e a necessidade de conferi-las atentamente

(preocupação que até hoje se conserva, mesmo diante das listagens dos

computadores).

Os mínimos detalhes da mecânica dos registros e das pertinentes

transcrições o frei os oferece, evidenciando o imenso zelo que advertiu

como necessário para que houvesse proteção contra os erros.

O lembrete é no sentido básico da “segurança” nos registros.

6.14. CAPÍTULO XIII – O RAZÃO E SEU ÍNDICE

O livro “Razão Geral” criava, na época de Paciolo (tudo feito por

processo manual), dificuldade em localizar as contas, compelindo, pois,

ao uso de um “Índice” ou “Indicador” (trovarello).

Paciolo destacou bem que enquanto no Diário a dificuldade não

existe, por sua natureza de absoluta seqüência cronológica, o mesmo já

não ocorre com o Razão, onde uma mesma conta pode ser repassada a

várias páginas.

É verdade que a forma antiga de escriturar livros foi caindo em

desuso, passando a ser substituída por folhas soltas, fichas, listagens e

arquivos magnéticos ao sabor de programações de computadores.

No tempo de Paciolo, todavia, para que bem se possa compreender sobre

o que ocorria, é preciso imaginar que só livros manuscritos se utilizavam e

que tudo tinha que se subordinar às limitações destes.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Portanto, “duas folhas”, sempre uma para o DEVE e outra para o

HAVER, existiam no livro Razão.

Ainda sobre as referidas observações, mais uma vez se prova a

autoria e não o plágio do “Tratado”, pois o frei, ao referir-se ao índice,

cita os nomes que o livro de identificação possuía em Veneza (Alfabeto,

Repertório, Trovarello) e também o usado em Florença, principal cidade

de sua região (onde o livro era conhecido sob a denominação “Stratto”).

O Razão, como livro de “Devedores” e “Credores”, por ser de um

processo que exige “igualdade” (a partida dobrada é uma equação fínita),

demanda, também, “saldos coincidentes” nos totais de débito e de crédito

e isto o “Tratado” muitas vezes sugere.

A “ordem” da abertura das folhas é iniciada pelo Caixa, argumentando

Paciolo que como tal conta é a primeira no Diário também deve sê-lo no

Razão.

Isto sugere o entendimento de que os registros seguem a disciplina

do Diário e não a uma outra ordem, fazendo pressupor a ausência de um

Plano de Contas (que em nenhuma parte do “Tratado” está referido).

O expressivo movimento de Caixa, como básico nas empresas, é

motivo de advertência por parte do frei e este sugere que se deve reservar

toda a página do Razão para tal conta e também que se poderia aproveitar

as folhas com mais uma conta, dividindo-a, no caso de movimentos

menores.

Embora tais detalhes sejam de natureza eminentemente formal,

deixam claro não só o pleno conhecimento de uma prática, como a

preocupação com as minúcias na execução.

6.15. CAPÍTULO XIV

– A TRANSCRIÇÃO DAS PARTIDAS DO

DIÁRIO PARA O RAZÃO

O Capítulo incia-se com a advertência de um princípio, ou seja, o de

que todas as partidas que se acham no Diário devem ser transcritas no Razão

e que nestes livros as partidas são em Débito e Crédito.

A seguir, um outro flui: o devedor posta-se à esquerda e o credor à

direita.

Logo após, um terceiro dimana: na partida devedora deve-se identifi car

a credora e na credora aquela devedora.

Fundação Brasileira de Contabilidade

Afirma, como complemento, que o Balancete (Balanço do Livro, como diz o

“Tratado”) decorre do fato de todo crédito corresponder a um débito e viceversa

e que aquele se extrai pelos “saldos” das contas.

Em sua simplicidade expositiva, o frei objetiva, com rara segurança, a

maneira de escriturar a transcrição nos livros e que diferenças existem entre

Diário e Razão.

Com detalhes, sugere como sinalizar a transposição e que cuidados

devem ser seguidos para que omissões não venham a ocorrer.

Finaliza com um outro princípio, afirmando que no mesmo dia em que

nasce o devedor, deve nascer o credor, ou seja, enuncia a tempestividade

do débito e do crédito no Razão.

Adverte, ainda, que ao se registrar, na mesma hora, é preciso que

não se interponha nenhuma outra partida, para que se respeite o rigor da

ordem dos lançamentos.

6.16. CAPÍTULO XV

– LANÇAMENTOS DE CAIXA E CAPITAL NO

RAZÃO E AS PARTIDAS MENORES

A advertência básica inicial é a de que o Razão difere do Diário

quanto à cronologia, ou seja, enquanto a data que encima cada folha do

Diário tem registros relativos ao dia indicado, no Razão, diversas são as

datas em uma mesma folha; por isto, recomenda iniciar os registros do

Razão apenas com a menção do ano, em algarismos romanos, seguindo-

se, depois, as diversas datas.

O arraigado uso dos algarismos romanos ainda não se havia eliminado,

mas já estava em grande desuso; a parte influente do clero impunha sua

vontade, preso à tradição, mas, em verdade, desde a obra de Leonardo

Fibonacci, em 1202, sugeria-se que na escrita contábil se adotassem os

números “arábicos” (cuja origem verdadeira é da Índia, mas que teve nos

árabes os grandes difusores, daí gerando a denominação).

Paciolo, fiel ao seu vínculo clerical, recomendou os algarismos

romanos, e referia-se “ao ano de acordo com o ábaco antigo” exemplifi cando:

MCCCCLXXXXIII.

No século XIV, muitas são as provas de registros, ainda, em

“algarismos romanos”; no século XVI, todavia, raros já eram os documentos

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

que adotavam a forma antiga; gênios como Ariosto, Cellini, Michelangelo,

nos recibos que fizeram e que hoje ainda estão em vários museus, só

adotavam os números arábicos (British Museum, de Londres, Biblioteca

Rícardiana, de Florença).

Desde os séculos X e XI, o francês Gerberto, papa sob o nome

Silvestre II, tinha tentado introduzir a modifi cação numérica, mas sem

sucesso (999 a 1003); a grande influência transformadora encontrou um

relevante apoio, contudo, na obra de Fibonacci (1202), matemático, revisor

de contas e livros, na comuna de Pisa.

A “passagem” do uso dos algarismo “romanos” para os “arábicos” deu-

se, primeiro, utilizando-se “ambos” (os arábicos no histórico e os romanos

nas colunas) e, depois, abandonando-se completamente os “romanos” (o

que se acelerou na segunda metade do século XV).

A seguir, o frei leciona ser desnecessário o histórico extenso no

Razão; o Diário já desempenhava, na época, o papel básico dos detalhes

e isto sugeria que no Razão se evitasse ser repetitivo, bastando mencionar-

se a “contrapartida”.

O caráter “sucinto” do Razão e “detalhado” do Diário é lembrado

no “Tratado”, sugerindo uma distinção quanto à extensão das descrições

dos fatos, ressalvando apenas o caso de relações com terceiros, quando

aconselha que para este caso a clareza exige a extensão, em função da

necessidade de uma prestação de contas de maior limpidez, especialmente

quanto à emissão de extratos.

Era comum, na época, manter-se “conta autônoma” para pessoas,

como “principal” e não como “subconta” de Clientes, Fornecedores,

Bancos, etc., costume que se estendeu por muito tempo e chegou

até a metade do século XX.

Como o frei é bastante repetitivo em seu “Tratado”, volta a

fazer todas as advertências quanto aos controles de lançamentos já

feitos e também aos registros no índice Alfabético ou Indicador.

Ressalta a importância do destaque e da referência das

transcrições nas páginas, para os casos de ter-se que refazer um

livro que se tivesse perdido ou estragado.

Ou seja, lembra a utilidade em se saber qual a página em que

o lançamento transcrito teve origem, pois, em caso de extravio de

livro, torna-se possível uma recomposição total.

Fundação Brasileira de Contabilidade

Ainda nesse capítulo, e uma vez mais, percebe-se a

autenticidade da obra, contrariando a tese do plágio, quando Paciolo,

ao referir-se às palavras de Veneza, afirma que: “nós, em Toscana”

(o frei nasceu nesta região da Itália), colocamos tal letra em vez

daquela (variações de palavras em G e Z).

Os detalhes dos registros podem não ser os didáticos desejáveis,

mas são suficientes para distinguir o tratamento diferenciado que nos

livros ocorre.

A preocupação com o rigor percebe-se quando o frei coloca o “valor”

nas partidas; para um valor “não-fracionado”, por exemplo, de 40 liras

exatas, evidencia: L.40, s.O, g.O, p.O, em vez, de, apenas, L.40.

As frações do dinheiro, mesmo inexistentes, são referidas e então

zeradas.

6.17. CAPÍTULO XVI – INVENTÁRIO DE MERCADORIAS E O RAZÃO

Cada mercadoria precisaria ter a sua própria conta no Razão, segundo

destaca o capítulo. Observa, todavia, que o inventário não é transcrito

para o Razão a partir do Diário, pois neste o frei entende dispensável

repetir o relacionado, mas faz ressalva ao caso das mercadorias.

Leciona que as mercadorias no Diário se registram em todos os

seus pormenores, tais como: descrição, quantidade, peso, medida, valor

e adverte que aí devem ser descritas “tal como são vendidas”.

O princípio de identidade entre inventário, compra e venda, para fins

de controle evidencia bem o rigor que se atribuía às mercadorias, como

coisas deveras importantes, exigindo todas as minudências às mesmas

pertinentes.

Tal particularidade, todavia, sugere o frei que seja a “costumeira” e

não uma diferente, sendo a mesma que era a usada no local para onde

convergiam os comerciantes (perto da ponte do Rialto, uma das mais

famosas de Veneza).

Quando, todavia, se tratasse de mercadoria importada, entendia o

frei que deveria conservar a sua denominação do país de origem (logo,

não a de Veneza).

Novamente, nesse capítulo, volta Paciolo a falar de sua região de

nascimento, referindo-se à “nossa Toscana”, outra vez mais derrotando

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

a hipótese de plágio (faz a referência em relação as diversas formas de

denominar, medir e avaliar mercadorias).

Como um paradigma para os demais registros (sobre os quais volta

a repetir como devem ser feitos), ele toma o “gengibre” (mercadoria que

pelas referências parece ser a que com qualidade se negociava).

6.18.

CAPÍTULO XVII – CONTAS COM AS REPARTIÇÕES PÚBLICAS

E AS DE EMPRÉSTIMOS

O capítulo refere-se a relações de empréstimos e as entidades

públicas que lidavam com o comércio. A advertência inicial é de que não se

deve confiar nas contas mantidas com tais instituições, necessário sendo

redobrado esforço para controlá-las, exigindo sempre comprovantes.

A expressão “uffici pubblici” com a qual Paciolo classifica a relação

de terceiros e “Câmera degl’imprestiti in Venezia” tem sido entendida pelos

estudiosos do trabalho como “Bancos” (estas) e “Repartições que lidam

com o público” (aquelas), mas, em verdade, pode também se ampliar a

relativa a repartição de “fé pública” que cuida de mercadorias (Messeteria)

como uma “corretora” (e também consignatária e agenciadora) de compras

e vendas, tipo de uma Bolsa de Mercadorias (não exatamente como a dos

dias de hoje), embora existam autores que as entendam como “Coletorias”

de tributos (o que não me parece correto).

Os cuidados relevantes, objeto de advertência do “Tratado”,

fundamentam-se na precisão que com que cada um deve manter seus

registros, sem achar que a de terceiros seja melhor só porque possui “fé

pública”, pois enquanto o comerciante leva sua contabilidade sob seus

olhos e com as mesmas pessoas, nas outras repartições a autoridade se

pulveriza e os funcionários mudam.

Essa situação que preocupava Paciolo ainda prevalece em nossos dias,

apesar de todas as conquistas da tecnologia de computação. O zelo que

o frei evoca abarca o setor privado e o público, tanto nas áreas financeira

e comercial, quanto nas de natureza impositiva ou de encargos fiscais.

As contas, especialmente, quanto mais extensas e mais complexas,

requerem, sem dúvida, maior cuidado (como o capítulo adverte); como os

Fundação Brasileira de Contabilidade

livros são bases para a formação de provas, necessário se faz a exatidão,

pois falhas resultam em problemas, adeverte o “Tratado”.

A força probante, ainda hoje sustentada pela lei e pelos tribunais (para

ilidir os livros é preciso prova maior que a deles), na época renascentista

era levada a sério e os erros originavam punições.

Retornando ao conceito de “Messeteria”, evocado no Capítulo,

entendo-a, repito, como uma similar de Bolsa de Mercadorias, na qual

corretores agem, e é isto que se percebe das expressões de Paciolo

quando se refere ao livro do “Sensaro” (hoje, em italiano atual, a expressão

nem existe, mas, sim, “sensale” que significa corretor, intermediário,

medianeiro), esclarecendo: ao “sensoro che vi s’interpone”, ou seja, ao

corretor que se interpõe no negócio.

Elucida o frei que a “Messeteria” tem um livro e cada corretor tem

também o dele, devendo o comerciante estar atento a isto; explica que os

negócios abrangem tanto os de “terra” (na praça de Veneza) quanto os

que provêm do exterior, dando uma idéia da “abrangência”.

A advertência é de que os corretores podem e tendem a errar em

favor deles (pesando a mão na pena, como expressa o texto original).

Sobre a “Messeteria” (palavra não mais usada no italiano atual) é

preciso, para bem entender a questão, imaginar que os investimentos em

mercadorias em Veneza eram diversificados e elas provinham de muitas

partes, para serem novamente exportados a outras, com a intermediação

distribuidora daquela potência marítima; assim, por exemplo, o açúcar

de Palermo era exportado para Londres; é o próprio Paciolo que nos dá

exemplo de lançamento, onde o comerciante compra tanto de açúcar,

tendo como intermediário uma tal pessoa (Capítulo 18, onde se lê no

histórico: “comprei do Sr. João Antônio de Messina, açúcares palermitanos

.... sendo intermediário o Sr. João de Gagliardi ....”).

Por sua vez, a venda que se fazia em Londres era reinvestida em lã

da França, chegando, todavia, transformada em fios para ser colocada na

Itália.

A velocidade comercial, a quantidade de mercadorias, a variedade

de praças ou mercados, exigia, sem dúvida, o “apoio” da intermediação e

uma “organização onde agiam os intermediários”, com fé pública e controle,

em dimensões expressivas, considerada a peculiaridade mercantil de

Veneza.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

A intervenção do Estado na vida empresarial era notória em Veneza,

exercida com o maior vigor (em Florença já isto ocorria com famílias e em

Gênova na base de autônomos), sendo, pois, natural a ação nos “Bancos”

(Banchi di Scritta, basicamente, no Rialto) e nas Intermediações e viagens

Comerciais e logicamente nas “Corretoras de Mercadorias”.

Que os Corretores se reuniam em uma organização, que se

remuneravam, que tal organização tinha fé pública e controle sobre os

negócios, não há qualquer dúvida diante do que consta, como exemplos,

na obra de Paciolo; o que não nos parece claro, nem inequívoco, é que

tais instituições tivessem subordinação hierárquica direta ao sistema

tributário, ou seja, fossem repartições da República (isto não está expresso

na obra do frei e nem ele faz referências claras a respeito, tão como não

o fazem importantes historiadores como Pietro Bonfanti, em sua Storia del

Commércio, Federigo Melis, em sua Storia della Ragioneria, etc.).

Os corretores, todavia, não só eram obrigados a manter registros

contábeis, como eram fiscalizados pelo Poder Público e se comprovada

fosse a sonegação de dados eram severamente punidos, como informa

Paciolo.

6.19. CAPÍTULO XVIII – COMPRAS, BANCOS E CORRETORES

O capítulo inicia-se com referência aos “escritórios” da aludida

“Messeteria” ou organizações de agentes de comércio, e faz conexão

com a “Câmara de Empréstimos” dando a entender que a mesma geria,

financeiramente, as intermediações, separando-as por “locais” nos quais

os intermediários se situavam, ou seja, pelos bairros de Veneza (que dada

a sua configuração geográfica de muitas ilhas, possuía pontos distintos de

comercialização).

Entende-se, perfeitamente, que: a) era usual a compra e a venda

de mercadorias por meio de intermediários; b) que tais intermediários se

remuneravam em 2,3, ou 4%; c) que o Escritório da Câmara de Corretores

controlava a compra e que pela comissão dever-se-ia creditá-la e que esta

retinha a comissão e o seu precentual; d) que tal Câmara era oficial.

Esta é a estrutura que o Capítulo XVIII denuncia.

Toda essa complexidade é exemplificada em lançamentos contábeis

Fundação Brasileira de Contabilidade

no “Tratado”, advertindo que nos “confrontos” de contas a exatidão se

fazia necessária.

Como os registros dos corretores tinham “fé pública”, como se

tabeliões fossem, por força de lei, as causas, em juízo, baseavam-se

em suas declarações Paciolo alertava, então, que para contrariar tais

provas necessária se fazia uma redobrada atenção, lastreada em escrita

precisa.

E advertiu que quando se compra uma mercadoria é preciso

calcular o custo da corretora, retendo metade, porque a corretora taxa

quem compra, por direito seu, garantido em lei.

O que evidencia o texto é a ação “compulsória” de pagar-se na

compra à “Messeteria” ou “Corretora Oficial”, rateando o custo pelas

partes, mas cobrando do comprador.

Os lucros defluentes das transações limitavam-se aos valores que

haviam gerado as taxas pagas à corretora e se o comerciante desejasse

mais, nova taxa deveria pagar, assemelhando-se a um ônus sobre o valor

de negócio.

O “Escritório” da Corretora Oficial, ao que tudo indica, tinha esse

duplo aspecto: de agenciamento e de controle de taxação, embora tal

entendimento tenha dividido a opinião de historiadores, pois Fanfani

admite que a referida entidade tenha sido coletora de tributos, enquanto

Jager a aceita como “Câmara de Corretores” ou “Corretora” apenas

(Ernest Ludwig Jager foi o tradutor de Paciolo, em 1876, livro editado em

Stutgart sob o título “Paccioli und Simon Stevin nebst linigen jüngeren

Schirifstellern über Buchaltung”), e assim também o entende o emérito

historiador da Contabilidade Prof. Dr. Esteban Hernández Esteve (obra

identificada na Bibliografia deste livro).

Em meu modo de ver, a Câmara poderia somar as duas forças,

comercial e tributária porque não haveria razão para que Paciolo afirmasse

no Capítulo XVII que os acertos com fiscais aduaneiros motivassem contas

com a referida, tão como a corretores.

Parece que a dupla função é a que talvez melhor se adapte ao caso,

pelo que se pode perceber pelo texto do “Tratado”. As taxas, todavia,

pareciam ocorrer só quando o comerciante apelasse para a Câmara, pois,

nesse Capítulo XVIII, a expressão do frei é “quando tu comprares alguma

mercadoria por intermédio de corretores” ....

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

O jogo de contas de tais operações segundo o “Tratado” deve

gerar:

a) O débito de mercadorias, pelo valor de aquisição deduzido da

taxa da Câmara de Corretores.

b) O crédito ao fornecedor, pelo líquido da aquisição.

c) O débito de mercadorias pela taxa da Câmara.

d) O Crédito da Câmara pela taxa de corretagem.

e) O débito do fornecedor pela parte paga à vista.

f) O crédito de Caixa pelo valor dispendido na compra.

Esse é o curso dos registros exemplificados para o Diário, no qual o

custo da mercadoria é a soma do que se deve ao Fornecedor e à “Câmara

de Corretores”.

Os exemplos seguintes do “Tratado” os oferece em relação às

liquidações, quer ao fornecedor quer à câmara e assim completa o ciclo.

6.20. CAPÍTULO XIX – PAGAMENTOS A BANCOS

Adverte o frei, neste curto Capítulo XIX, sobre modalidades de

pagamentos, sugerindo cautelas nos registros, repetindo as recomendações

precedentes e acenando com o “caso oposto”, ou seja, o das “vendas”, já

que as “compras” tinham sido descritas e oferecido vários exemplos.

6.21. CAPITULO XX – PERMUTAS E PARTICIPAÇÕES

Trocas de mercadorias e participações em negócios são

apresentados no Capítulo XX como fatos “especiais”, neles incluídas

viagens que representantes fazem em nome da empresa, viagens próprias,

despesas financeiras e mudanças de valores em bens que compõe o

patrimônio.

Enfoca, todavia, como destaque inicial, a permuta, objetivando as

dificuldades naturais de avaliação, mas sugerindo a forma de proceder.

Importante é a referência que faz sobre a possibilidade de manter-se

contas especiais para fatos especiais, de modo a destacá-los dos normais

ou comuns.

Fundação Brasileira de Contabilidade

Paciolo lembra que pequenas diferenças são irrelevantes e que o

excesso de detalhes termina por não compensar.

6.22. CAPÍTULO XXI – SOCIEDADE EM CONTA DE PARTICIPAÇÃO

Enfoca o Capítulo XX o caso típico de “sociedade em conta de

participação”, ou seja, da ligação transitória em negócios ou de interesses

que a terceiros se oferece sobre vendas.

Embora tal transação seja comum até em nossa época e a lei

até a considere de forma específica, na época de Paciolo, muito mais

se justificava, considerados os muitos problemas de riscos, taxações

pesadas e diferenciadas de local para local, etc.

O capítulo apresenta exemplos de entrega de dinheiro e de

mercadorias para formar um capital transitório onde bens e sócio deveriam

ter contas especiais, ditas “da sociedade”.

Mostra o capítulo ser necessário o destaque, tanto ao iniciar

quanto ao encerrar a sociedade, criando-se contas particulares. Essas

associações eram formas de defesa, muitas vezes mais até que de apenas

lucratividade, razão pela qual proliferaram.

6.23. CAPÍTULO XXII – DESPESAS DOMÉSTICAS E COMERCIAIS

Tal capítulo busca estabelecer uma divisão de gastos por naturezas,

em razão da apuração de resultados. Despesas Mercantis e Despesas

Domésticas Ordinárias são, dentre as contas sugeridas, duas que hoje

nos causariam espécie, em razão da convenção que se estabeleceu

de separar a pessoa “natural” ou “física”, daquela “jurídica”; embora,

na prática, tudo fosse uma só coisa, as exigências do capitalismo, em

seu despertar no fim da alta Idade Média, foram as que, possivelmente,

ensejaram a divisão contábil entre os gastos do negócio e os “da casa”,

embora um expressivo número de lojas funcionasse como dependência

da própria residência do comerciante.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Os princípios da vida Veneziana eram nitidamente comerciais,

desde o século IX, habituados que estavam os habitantes a pagar sua

sobrevivência com o “sal” e o “pescado”, conquistando a expansão

sempre na base das “compras” e “vendas”, dominando o mar Adriático

(fim do século X), mantendo importantes relações com Bizâncio (centro de

poder, luxo e cultura na alta Idade Média) e conquistando a ilha de Creta

(em 960), importante ponto estratégico para a captação dos negócios no

Oriente Médio e norte da África (notadamente, Egito).

Não foi sem razão, pois, que seguindo a orientação técnica e

aquela da tradição de Veneza, tão como a da característica da época

(fortalecimento das companhias) que se apelou para a distinção da

“natureza dos gastos”, embora, se continuasse a praticar uma só escrita

para o comerciante.

Paciolo justifica afirmando que as classificações visavam destacar

“o que se põe ou lança no negócio”.

Alguns estudiosos da matéria, todavia, entenderam “Despesas

da Casa” como “gastos administrativos”, fato sobre o qual não possuo

convicção para partilhar da mesma opinião, porque Paciolo as define

como o gasto de “bens de consumo” e “serviços de utilização”.

Faz, ainda, o capítulo, menção às “despesas extraordinárias”.

O importante, todavia, é que ao definir a função da “despesa

mercantil”, Paciolo refere-se à mesma como aquela que atinge no “custo

das mercadorias” como: fretes, carretos, barqueiros, aferidores de cargas,

etc., e também salários de gerentes, balconistas e auxiliares.

A verdade é que como a obra não apresenta um Plano de Contas

nem um elenco organizado delas sequer (coisas que só despontariam

nas obras do século seguinte, com Ângelo Pietra), ficou limitada a,

pragmaticamente, definir algumas funções das contas.

O “Tratado” caracteriza as despesas mercantis ou comerciais como

“gastos do negócio” para possibilitar comprar e vender, tão como, até,

para gerir as lojas.

Observação importante, todavia, é a que determina o abandono do

excesso de minúcias, afirmando que certas coisas não se convém detalhar

demais, por serem irrelevantes.

Outra observação do frei, também, tecnicamente respeitável, é a de

que “toda despesa” é conta de “saldo devedor”, este que só no fim do ano

se deve encerrar na conta de Lucros e Perdas.

Fundação Brasileira de Contabilidade

A conta do resultado do exercício, segundo se depreende pela

leitura do “Tratado”, tinha várias denominações: “Pró e Dano”, “Avanços e

Regressos”, “Lucros e Perdas”; Paciolo alegou, todavia, “Pouco importar

o título selecionado”, desde que seja uma conta de apuração que vise

evidenciar o que o negócio produziu ou rendeu.

Quando o “Tratado” volta a referir-se às “Despesas Comuns

Domésticas”, destaca que elas são as feitas com farinha, vinhos, lenha,

azeite, sal, carne, sapatos, etc., o que derrota a tese de que fosse objetivo

atribuí-las à “administração”, mas, sim, as da “casa ou residência” do

comerciante.

Também, em tais gastos, sugere o capítulo que se debite os

utensílios de menor valor como os de cozinha, copos, etc., só destacando

em conta separada o que deveras tenha durabilidade (até hoje esta prática

continua sendo seguida).

Sugere, todavia, que despesas usuais e maiores devem ter contas

em separado ou analisadas, se desejável for conhecer o que se gasta com

cada coisa e desde que estas sejam relevantes, voltando a insistir que é

desaconselhável a análise para gastos menores ou inexpressivos.

Curiosa é a medida de ordem prática sugerida para as despesas

miúdas; Paciolo recomenda que em uma pequena bolsa se coloque uma

determinada importância e pelo que dela se tirar em cada dia, pelo global

se deve realizar o registro.

Sem dúvida, o princípio é o do “Pequeno Caixa” ou “Fundo de

Caixa”, até hoje utilizado, mesmo em grandes empresas, nas quais tudo

se paga por cheques e só as despesas miúdas se extraem de um pequeno

saldo em dinheiro.

Quanto às despesas “extraordinárias”, Paciolo entende que possam

ser consideradas como “Da Casa” as relativas a diversões (jogos de azar,

inclusive), perdas, doações, presentes, roubos, etc., mas registradas “à

parte”, sempre que assim for desejável.

A obra sugere liberdade plena quanto ao manejo de contas, ou seja,

coloca a escrita mais ao sabor “subjetivo” que mesmo “normativo”.

O caráter “fechado das escritas”, no qual o sigilo tinha o respeito

que hoje a sociedade e o Estado não mais consentem, justifica o

“subjetivismo”; as normas foram frutos da evolução de uma ética

questionável, da intervenção dos poderes econômicos e do Estado nas

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

atividades particulares, mais que resultado do interesse individual (estes

cada vez mais contrariado nos tempos atuais).

6.24. CAPÍTULO XXIII – NEGÓCIOS DE GESTÃO INDIRETA E AS

CONTAS ADEQUADAS

Trata o capítulo dos negócios que o comerciante confia a terceiros

como o caso, por exemplo, de filiais, consignações, etc. Paciolo, usando

de aforismo, leciona que aquele que negocia sem conhecer como vai o

seu negócio vê a riqueza voar de suas mãos como se moscas fossem, ou

seja, perde o que investe; o frei evoca o ditado para sugerir que por meio

da escrita contábil tudo se controle, sendo esta a forma correta de poder

dominar as transações ocorridas.

Considera, também, o preposto como se fosse uma “pessoa

devedora” pela loja ou pela mercadoria que fora da sede posa a terceiros

confiar-se a gestão.

O princípio de “debitar” a uma filial os bens a ela enviados e “creditar”

tudo o que dela se recebe, tão singelamente enunciado no capítulo é, até

hoje, seguido.

O frei “Personaliza”as contas e as admite como “Fantasias” ou

“Pessoas Virtuais” às quais são “confiadas coisas” e delas “recebidas”,

também, “coisas” e “proventos”.

A imaginação personalista daquela época afastou a hipótese de

uma consciência da Partida Dobrada em base fenomenológica, de causas

e efeitos do patrimônio, fortalecendo a tese de que o processo nasceu

como uma “extensão” às “coisas” do tratamento que se dava ao controle

com as “pessoas” (pelo menos na concepção do local onde se admite

tenha surgido tal critério de registro).

A expressão de Paciolo: “saiba que as contas nada mais são que

uma imaginação que cria o comerciante, através das quais, uniformemente

mantidos, tudo informam sobre o que ocorreu” coloca o assunto dentro

de razões primitivas, dando uma ordem de raciocínio que nos faz sentir

a intuição que guiou a condução da escrita (se a mente matemática do

frei, eivada de lógica, assim enunciou, não podemos duvidar de sua

interpretação).

Fundação Brasileira de Contabilidade

Por outro lado, todavia, sabendo da vocação didática do autor (que

dedicou quase toda a sua vida a ensinar), é também possível admitir como

metodologia de ensino a imagem que criou sobre as contas, como algo

“Fantasioso”, ou seja, o “vestir-se coisas de um caráter pessoal”, como se

personalidades tivessem.

Outro destaque relevante do capítulo é o conceito de “governo da

riqueza” atado ao de “conhecimento do patrimônio”.

As expressões do frei relativas ao negócio: “todas as vezes que

com o mesmo ajustar contas verás como ele se comporta, se bem, se

mal, e assim saberás o que fazer e como haverás de administrá-lo”, são,

possivelmente, as de uma apologia à “Contabilidade Gerencial”, ou o

uso do conhecimento contábil para as decisões administrativas (no meu

entender uma das aplicações mais importantes de nossa disciplina, tão

pouco explorada ainda sob uma visão deveras científica).

Como um critério opcional de registro (cuja liberdade é apregoada,

freqüentemente, em toda a obra), sugere-se utilizar contas “do negócio” ou

da “pessoa que toma conta do negócio”, ou seja, uma “Conta Corrente” do

gestor, como se este recebesse e entregasse valores, tal como se fosse

um “empréstimo”.

Nesse caso, o “pagamento” dessa dívida virtual seria o resultado

do que fosse devolvido. Mesmo assim, como cautela, adverte no capítulo

que o uso da conta “pessoal”, em tal circunstância, depende sempre da

autorização ou vontade do gestor ou responsável, como deve suceder em

qualquer outro caso que venha a envolver prepostos, por ser imprescindível

tal consentimento.

Pelo que se observa do lecionado, a escrita contábil de uma loja

fora da residência do comerciante teria contas autônomas não só para

mercadorias, mas como se um negócio à parte fosse (contas do imobilizado,

financeiras, etc.); inclusive, um Caixa especial é recomendado para tais

lojas ou filiais, com prestações de contas em curto prazo (8 a 10 dias).

Insiste o frei que para negócios à parte existe necessidade de

controles especiais, presentes e constantes, devendo-se ter tantos deles

quantos necessários, com a manutenção de contas próprias para os

casos de gestão “indireta”, ou seja, os que resultam em delegações de

poderes.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

6.25. CAPÍTULO XXIV – MOVIMENTOS BANCÁRIO E DE CÂMBIO

A força da atuação bancária no comércio, acentuada na alta Idade

Média, de tal forma consolidou-se que se tornou usual e até imprescindível

lidar com tais estabelecimentos, como esclarece Paciolo.

Adverte, todavia, ser do máximo interesse a cautela com as

operações e registros de tais estabelecimentos, para que se possa ter

uma reconciliação justa de contas, estas que devem ensejar conferências

constantes (como até hoje se faz necessário), em razão das inseguranças

derivadas da incompetência e desatenção dos funcionários que nos

Bancos estão sempre mudando.

Fazendo a apologia das contas de movimento, exemplifica registros

a débito e a crédito de estabelecimento bancário (Bancos de Depósitos

e de operações de giro), apelando sempre para o máximo detalhe na

transcrição de todos os dados contidos nos documentos, com todas as

suas cláusulas, de tudo conservando excelente arquivo.

No caso de câmbio (bastante comum em Veneza dada a sua

ligação com diversos locais, pelo seu intenso comércio), volta a ressaltar

sobre a necessidade de detalhes, clareza, documentação sadia, revisões,

quer quando se converte em outro País quer na sede do estabelecimento,

advertindo sobre a “má-fé” existente naqueles dias (que ainda hoje se

mantém ativa e bem ampliada, como um risco a ameaçar as transações).

Como as questões cambiais têm sempre necessidade de

demonstrações e extratos de contas, Paciolo adverte que maiores cautelas

ainda se fazem necessárias. Refere-se, com particularidade, aos detalhes

exigidos pelos correspondentes e que fazem parte de uma praxe que

exige muita precaução na escrituração.

O problema era deveras relevante em razão da variedade de

moedas (na própria Itália cada região adotava a sua: ducados, florins,

etc.) o que fazia aumentar a necessidade da intervenção dos “agentes de

câmbio” e também a do controle sobre estes.

Fundação Brasileira de Contabilidade

6.26. CAPÍTULO XXV

– AS PARTIDAS DE ENTRADAS E SAÍDAS E

SEU LIVRO PRÓPRIO

A conta de “Entradas e Saídas”, segundo o “Tratado”, tinha a função

de registrar eventos extraordinários, e também servir a outras finalidades,

de acordo com a preferência e o interesse do comerciante.

Por vezes, assumia o título específico apenas de “Despesas

Extraordinárias”, segundo o frei, mas não exclusivamente.

Lembrou que ela poderia até gerar um livro analítico, se assim

fosse o desejado, mas o entendeu dispensável porque a conta poderia ser

uma analítica de “Despesas Domésticas”, sendo que tanto de uma forma

quanto de outra tudo se saldaria em Lucros e Perdas.

6.27. CAPÍTULO XXVI – AS PARTIDAS DE VIAGENS

As viagens, na época de Paciolo, possuíam características bem

diferentes daquelas da atualidade, pois destinavam-se a negócios em

outras praças, exigiam desgastes maiores de tempo e estavam sujeitas a

muitos riscos.

Por isso, a obra sugeriu que o empresário levasse consigo livros,

para fazer a “escrita da viagem”. O mesmo recomendou em caso do envio

de alguém que viesse a viajar por conta do comerciante, ou seja, também

este deveria fazer uma “escrita da viagem”.

Recomendou a apuração de cada evento, ou seja, a abertura de

uma conta de Lucros e Perdas da viagem, como se um exercício autônomo

fosse. Todavia, no Razão principal da empresa só o “resultado da viagem”

era registrado. Quando a viagem era “encomendada” a terceiros, então,

na escrita da empresa, aos prepostos se deveria debitar (como hoje se

adota ainda).

O capítulo oferece uma sistemática a ser seguida em tais casos,

considerando, como me referi, as condições da época.

Era habitual, então, o comparecer a “Feiras”, estas que se

transformavam em grandes mercados, em determinadas cidades, com

especiais vantagens tributárias.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Tais incursões eram consideradas como se “exercícios” fossem,

gerando conta específica de resultados, cada uma aberta para cada caso, com

a denominação do lugar noqual a atividade havia sido desempenhada.

As peculiaridades da ocasião eram diferentes daquelas de nossos

dias e as viagens assumiam um caráter especial e particular.

Por isto, se abriam contas de Lucros e Perdas para tais participações,

dado o seu caráter especifi co.

Um “Razão” pequeno ou “Razonete” da viagem era costume elaborar-

se, como recomenda Paciolo, gerando apuração e um Balanço do evento.

Pode parecer a nós, hoje, uma cautela sem sentido, mas se

imaginarmos que as viagens, quando o “Tratado” se editou, duravam longo

tempo, aceitaremos tal forma de proceder, ou seja a de que a atuação nas

feiras se transformassem em um verdadeiro “exercício comercial”, capaz de

originar Balanços e Demonstrações de Lucros e Perdas.

Um “Capital de Viagem” era constituído para cada uma das saídas e

havia a conta de “Lucros e Perdas de Viagem” como se fosse uma verdadeira

“empresa”. Existiam: Caixas de Viagem, Clientes de Viagem, Fornecedores

de Viagem, etc.

Se era um terceiro que empreendia o evento, o comerciante “creditava-

se” pelo capital cedido para a turnê. Para ser didático, o frei elucidava que

tal como se faz na escrita da empresa, faz-se na escrita da viagem. Na

chegada, as contas se “ajustavam” e se “saldavam”.

É de admitir-se, pois que mais de uma conta de Lucros e Perdas

se movimentava, pois, as viagens tinham o tratamento de um verdadeiro

“exercício comercial”.

Tal hábito, todavia, era milenar e há cerca de 2.500 anos a.C. já era

utilizado na Suméria.

Com o advento das “Cambiais”, as viagens fi caram mais protegidas

(evitando o transporte de dinheiro) e Melis admite que no século XIV já

eram comuns tais títulos, alegando ter conhecimento de antigas como as de

1384, sacada em Zara, que era domínio de Veneza (pág. 64 da obra “Guida

alla mostra internazionale di storia della banca”, edição Monte dei Paschi di

Siena, Siena, 1972).

Também, por gerarem operações de crédito, Paciolo evoca “débitos

e créditos a pessoas”, no curso das viagens (em 1262 já se usavam as

cambiais).

Fundação Brasileira de Contabilidade

O costume de realizar a escrita de viagens já era tradicional à

época do frei; vários registros em Razões de “Feiras Comerciais” foram

conservados até os nossos dias, como por exemplo, o da Companhia Fini,

relativo à “Feira de Champagne (uma das famosas na Idade Média e que

se realizava na região que ainda hoje tem esse nome), de 1297.

Veneza possuía Bancos fortes, com muitas casas, operando em

várias praças, facilitando as operações de seus comerciantes (banqueiros

como Niccoló Cocco, Antônio Mioratti, Andrea Priulli foram notáveis no

século XV, embora nenhum destes tenha sido incluído nos exemplos do

“Tratado”), realizando freqüentes transações de câmbio (inevitáveis nas

viagens).

No Arquivo do Estado de Veneza grande é a quantidade de letras de

câmbio que comprovam as operações dos comerciantes daquela cidade

em várias outras praças da Europa.

Os créditos comerciais, para provisão de estoques, muito ajudaram

o giro longo que suportavam as mercadorias, em razão das viagens e

tais operações já existiam em meados do século XIV; Federigo Melis, em

sua obra citada, sobre Bancos, indica uma operação de 1354 justificadas,

ficando as alegações de Paciolo sobre as “escritas” das viagens.

6.28. CAPÍTULO XXVII – LUCROS E PERDAS

O critério de registro de Lucros e Perdas do exercício, segundo o

“Tratado”, é apenas de “encerramento de contas de resultado”, sem passar

pelo Diário, sendo apenas, pois, de Razão; o frei não apresenta argumentos

em favor de tal procedimento e também não justifica o porquê de tal

procedimento.

Em verdade, não oferece qualquer estrutura de lançamento integral,

afirmando, apenas, que as contas se saldam e no histórico só se faz referência

de que tal se deu, em uma conta de “Pró e Danos”, quer em débito quer em

crédito.

A seguir informa que o saldo dessa conta (Pró e Danos) que as outras

saldou encerra-se na conta de capital (que tem como a do destino do rédito).

Não há referências, pois, a Reservas, nem a Lucros em Suspenso,

nem a Provisões e Fundos.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Distingue Paciolo, pois, as contas de Resultado daquelas Pessoais

(e nestas inclui a de capital), seguindo a tradição que justifi ca o próprio

aparecimento da conta da “Companhia”.

O Razão passa a evidenciar, assim, em seus saldos, a posição do

exercício, mas como assinala muito bem o insigne mestre e historiógrafo

Vlaemminck “Paciolo não conhece o balanço de situação tal como hoje pelo

mesmo se entende” (Joseph H. Vilaemminck - Historia y Doctrinas de la

Contabilidad, versão de J.M.Gonzalez Ferrando, pág. 125, editorial EJES,

Madri, 1961).

6.29. CAPÍTULO XXVIII – TRANSPORTES NO RAZÃO

A preocupação com “Fraudes” no Razão leva o frei a recomendações

a respeito de transportes de contas cujas páginas se esgotam por estarem

totalmente preenchidas.

Percebe-se a apologia do uso de uma só folha para mais de uma

conta (quando o movimento delas é menor) e de folhas exclusivas para

uma só conta (nas de maior movimento ou número de lançamentos).

A matéria do capítulo é normativa sobre a técnica de escriturar,

mostrando preocupação com transportes de contas, sinalizações, detalhes

de locais nos quais se deve registrar e como assinalar o já lançado.

Há uma série de repetições de fatos já mencionados em outros

capítulos e um excesso de detalhamentos, até primários e aparentemente

desnecessários, mas observa-se nisso a extrema preocupação do autor

com a clareza; a repetição de textos, no caso, é um recurso didático

que muitos outros grandes mestres utilizaram, fazendo-o com a mesma

sabedoria.

Tal é a repetição que o próprio autor chega a cometer um erro

singelo de subtração, ele que era um matemático famoso e de inequívoco

e grande valor, segundo acusa Vincenzo Gitti em comentário à obra (pág.

109, edição Camilla e Bertolero, 1878).

Fundação Brasileira de Contabilidade

6.30. CAPÍTULO XXIX – ALTERAÇÃO DO ANO NO RAZÃO

O capítulo é dos menores da obra e cuida, apenas, de como registrar

a mudança do ano, no Razão, no caso de contas ainda não-saldadas.

Evidencia-se, no caso, a importância que o autor atribuiu a fatos

aparentemente sem importância, mas vitais quando as consultas se fazem

necessárias.

6.31. CAPÍTULO XXX – EXTRATOS E PRESTAÇÕES DE CONTAS

Destaca o texto do Capítulo XXX a imagem de seriedade que deve

ser dada às contas que registrem fatos relativos a terceiros, com os quais

se relaciona o empresário, assim como com todos com os quais este

mantém relacionamento.

O pedido de demonstração de ajuste, por meio de extratos de

contas, é algo que não se pode negar e que não deve deixar dúvidas,

repete Paciolo.

O que ao longo de seu “Tratado” adverte, volta a fazê-lo, ou seja,

o caráter de “fé perante terceiros” que a escrita contábil precisa possuir,

especialmente para dar credibilidade ao próprio negociante.

Mostra o frei ser necessário, além de documentações a oferecer,

saber demonstrar uma “conta”, ou ainda, a importância que existe em

conhecer “como apresentar” contas.

Fala, inclusive, na espontaneidade que se deve ter em “prestar

contas”, mais até que apenas cumprir a solicitação de apresentação das

mesmas.

O texto ressalta que cômputos e discriminações oportunamente

apresentadas, bem cuidadas, bem demonstrados, aumentam o conceito

e a confiança que terceiros depositam em uma pessoa; mostra que nos

registros nada se pode omitir e que, periodicamente, devemos ajustá-los,

sempre quando tal se fizer necessário.

Renova as advertências sobre o zelo com que as escritas devem

ser mantidas e a responsabilidade que envolvem.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

6.32.

CAPÍTULO XXXI – ESTORNOS

O erro da escrita, derivado de engano no debitar ou creditar,

é o objeto do capítulo e aí, uma vez mais, Paciolo fala em “estornos à

florentina”, ou seja, volta a referir-se à sua região (Borgo Sansepolcro, terra

do frei, como Florença, pertencem à região da Itália denominada Toscana),

personalizando o seu “Tratado”, afastando a hipótese do plágio.

O exemplo que oferece é apenas de um aspecto das retificações,

não esgotando o assunto (só mais tarde as obras de outros autores a

isso se dedicaram), posto que os erros podem ocorrer em intitulações, em

classificações, em valores, etc.

Refere-se aos erros de L.s.g.p. (Liras, soldos, grossos e pequenos,

denominação de moedas) e sugere que se assinale com uma cruz o local

no qual o erro foi constatado.

6.33.

CAPÍTULO XXXII – SALDAMENTOS E TRANSPORTES DE

CONTAS DO RAZÃO

O capítulo evidencia ser costume encerrar anualmente os livros.

Para tal fim, recomenda a elaboração do “Balanço do livro” ou

“Balancete”, sugerindo que isto se processe com o máximo cuidado para

fechar saldos.

Paciolo aconselha que as tarefas de encerramento sejam feitas com

um auxiliar, ou seja, com duas pessoas, para que se reduza a margem de

erro e porque sozinho, afirma, é quase impossível fazer-se.

Adverte que o contador deve ficar com o Razão e o auxiliar com o

Diário, evidenciando a importância maior que no sistema se dava àquele

livro.

A conferência, a partir dos números das páginas do Razão, inscritas

no Diário, deve ser procedida desde a primeira, afirma o frei, ticando ou

pontejando-se para que fique evidente a conferência procedida.

Desce o texto a detalhes de como assinalar e como conferir, para

que se tenha certeza sobre a confiabilidade dos registros, tão como fazer

para ir fechando cada conta e transportando seu saldo ao novo livro.

Fundação Brasileira de Contabilidade

O ato de “saldar” a conta, para fins de seu transporte visava não

deixar nada em aberto nos livros, nem dar chances a fraudes.

Leciona, também, que os livros devem ser todos conferidos, ou

seja, o Memorial ou Borrador, contra o Diário e este contra o Razão; nisto

denunciou a própria ordem das transcrições posto que as partidas do

Borrador se levavam ao Diário e as do Diário ao Razão.

O capítulo é dos mais extensos do “Tratado” (embora, em geral, os

capítulos sejam pequenos) em razão das minúcias de ordem prática que

são sugeridas.

6.34. CAPÍTULO XXXIII – FATOS DURANTE O BALANÇO

Enuncia o frei o princípio da temporalidade, instantaneidade ou

momentaneidade, como é usual denominar-se, ou seja, “todos os fatos de

um balanço, por seus saldos, devem referir-se ao mesmo dia”.

Preocupando-se com detalhes, Paciolo recomenda que os fatos

que ocorrem durante a elaboração do balanço devem ser colocados à

parte, no Borrador, sem registrar-se no Razão, até que os novos saldos

neste estejam já transportados.

Se Borrador novo ainda não houver, complementa, coloque-se em

uma folha à parte.

Volta a lembrar que novos livros devem ter novas identificações

assim, por exemplo, se o antigo tem a cruz, o novo terá a letra A e assim

por diante.

6.35.- CAPÍTULO XXXIV – SALDOS DOS RESULTADOS E A

“SUMMA SUMMARIUM”

Trata o capítulo sobre o modo de “encerrar saldos” em um livro,

entrando em detalhes formais.

É exaustiva a forma exemplificativa que o Frei apresenta, bastante

elementar, evidenciando como se salda para efeito da conta de Lucros e

Perdas.

Conceitua, então, o lucro ou a perda a partir do saldo da conta de

resultado e recomenda encerrar o saldo na conta de capital. A seguir, fala

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

da extração dos saldos restantes e que se devem igualar em débito e

crédito, o que não ocorrendo denotaria o erro. A relação de tais saldos é a

“Summa Summarium”, em seu conceito.

Volta o frei a advertir que tais formas são aquelas que levam ao

bom conhecimento dos negócios, o que não ocorrendo pode trazer sérios

problemas.

Ressalta, pois, o aspecto do “valor gerencial” por meio de “informes

para o gerenciamento” e “aferição destes para o julgamento”.

Sugere que por si só o informe pouco vale, se não interpretado,

porque em toda a obra ele se preocupa em ressaltar sobre a necessidade

de “conhecimento de como o negócio se desenvolve”.

6.36. CAPÍTULO XXXV – ARQUIVAMENTOS

Inicia o Capítulo XXV com a manifestação da máxima preocupação

com o arquivamento, não só para garantir a prova dos livros, mas para

que sejam as documentações facilmente localizadas.

Apresenta o frei a metodologia de arquivamento, basicamente por

“local” ou “destino”.

Oferece, também, normas da Correspondência Comercial,

distinguindo-a daquela particular até nos “locais” nos quais as datas se

colocam.

Sugere controle de “respostas” e divide os arquivos em

correspondências e outros documentos, tão como os que ainda merecem

guarda especial (como letras não-pagas).

Fala da utilidade das Agendas e do cuidado com todas as anotações,

inclusive de objetos emprestados.

Obviamente, o valor dos critérios apresentados devem ser julgados

em face da época, em que os meios eram escassos para a elaboração de

técnicas mais aprimoradas.

Mostra-nos, portanto, como eram limitados os recursos.

Fala-nos, também, do “Livro de Correspondências”, um “Copiador

de Cartas”.

Até o início do século XX os Copiadores de Cartas eram bastante

utilizados em nossa legislação chegou a ser considerado como um livro

obrigatório para as sociedades comerciais.

Fundação Brasileira de Contabilidade

Observa, ainda, em comentário à parte, uma grande verdade de

natureza socioeconômica, ou seja, de que é o empresário quem sustenta

as Repúblicas (fato que encerra em si uma grande realidade).

Paciolo buscou, dessa forma, valorizar o “comerciante” como algo

relevante nas sociedades humanas (que como já observamos tinha, na

época, um misto de atividades, podendo não só comprar e vender, mas,

também, fabricar).

6.37. CAPÍTULO XXXVI

– REGRAS GERAIS RECAPITULADAS –

SUMÁRIO DO “TRATADO”

O último capítulo do “Tratado” de Paciolo dedica-se a sumarizar,

abrangendo a tudo aquilo que, minuciosamente, foi desenvolvido no

“Tratado”.

Inicia com a “colocação” do débito e do crédito: aquele à esquerda

e este a direita (como já centenária era fazer-se).

Não é, pois, do frei, tal orientação de posições, não sendo ele o criador da

norma, mas, apenas, um seguidor do processo, já proveniente de muitos

séculos anteriores.

Repete o princípio de que se for feito um “crédito”, deve-se fazer

um “débito”, e vice-versa, por ser esta a característica das partidas

dobradas.

A seguir, oferece toda a formalidade obrigatória às partidas: data,

valor e histórico.

Identifica o histórico como “razão do fato”, ou seja, “o porquê” ou

“Descrição do evento”. Enuncia, a seguir, o Princípio da Oportunidade ou

Instantaneidade, ou seja o que obriga que “a data” de débito e a do crédito

deve ser a mesma.

Recorda que o “Balanço do Razão” (hoje Balancete) é uma relação

de saldos devedores e credores e que estes devem serem coincidentes.

Renova a advertência de que a conta “Caixa” só pode ser “Devedora”,

jamais “credora”, pois errado será se assim não for.

Tal posicionamento repetido ao longo do “Tratado” parece ser uma

constante preocupação “identificadora” das naturezas do débito e do crédito

no processo das Partidas Dobradas.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Outra advertência que mereceu em outros capítulos a observação do

autor é a de que só se pode “debitar” ou “creditar” uma pessoa se ela está

de acordo (se tem, pois, o “aceite”, figura muito respeitada, até nas leis,

mas, atualmente, às vezes, negligenciada).

Paciolo observa, ainda, que os livros devem expressar valores de

um só padrão monetário, ainda mais que admite que referenciar a outras

moedas, em históricos, não é impeditivo.

Na realidade, o sistema feudal havia instituído um número muito

grande de moedas (cada suserano tinha o poder de emitir dinheiro para

uso próprio em suas terras) e tal prática se conservava, na ocasião, nas

diversas “cidades-estado” de toda a Europa.

O comércio de moedas era tão intenso como o de qualquer outra

mercadoria. A especulação, portanto, fez-se por meio das conversões

monetárias e de “letras de câmbio”.

As “vendas a termo” formaram, nas grandes praças comerciais

(Veneza, Gênova, Lião, Antuérpia, etc.), motivos de verdadeiros “jogos”

sobre as suas liquidações de cambiais (Roland Mousnier - Histoire Gánerale

des Civilisations - Les XVIº e XVIIº siécles, Presses Universitaires de France,

Paris, 4ª edição, 1962) e estavam expressas em diversas moedas.

Era habitual a um comerciante receber e pagar utilizando-se de meios

monetários de expressão variada. Por isto, o frei advertiu que na descrição

dos fatos poder-se-ia fazer referência a qualquer moeda (ducados, liras,

florins, escudos de ouro, etc.), mas ao registrar o valor da partida, obrigatória

era a “conversão”, adotando-se “um só padrão” e de maneira “uniforme”

(por todo o tempo), ou seja, como ele escreveu: “como começares o Razão

assim convém continuar”.

Evoca, também, medidas de simplificação no histórico de Caixa;

ou seja, considerando que tal conta, como é a que maior movimento tem,

quando houver fato anterior que se repete, basta dizer “tal e qual” ou

“idem”.

Outras normas singelas, relativas à ordem da escrita como a de

não deixar espaços em branco, jamais escriturar datas que não sejam as

da seqüência rigorosa delas, tão como os critérios de estornos, são todos

lembrados.

Paciolo considera indício de falsidade o registro de uma data anterior,

intercalado entre outras posteriores, por exemplo, estando a escrita em 9

Fundação Brasileira de Contabilidade

de abril registrar-se a seguir um fato de 7 de março e depois um de 10 de

abril, admitindo que isto pode levar à suposição de que o Razão contém

falsidades.

Repete as advertências sobre as transposições de saldos,

evidenciando a importância que atribui a tal fato, inclusive, referindo-se

como identificar os Novos Livros.

O capítulo, é, pois, uma repetição de matérias já explicadas em

outros, apresentando-se como um Sumário do que, naturalmente, julgou

o autor fosse de maior importância para recapitular-se.

6.38. CASOS EXEMPLIFICADOS PARA O RAZÃO

Sem constituir um capítulo, mas destacando-se como tal, o frei

apresenta, após ao XXXVI, um conjunto de advertências sobre o livro

Razão.

Dá relevância maior às operações com mercadorias, contas

patrimoniais e despesas. É, na realidade, uma sistematização de “grupos de

fenômenos”.

Inicia sua dissertação pelos “recursos” que são ganhos ou recebidos

como doações e que devem ser levados a crédito do próprio comerciante e a

débito de Caixa quando tais entradas forem em “dinheiro”.

O capital configura-se, pois, como um “crédito a si mesmo”, destacando

a predominância “personalista do entendimento”. O mesmo raciocínio é

adotado para as heranças recebidas e ganhos que tivessem resultado em

outros bens que não o dinheiro e onde cada conta recebe o seu próprio débito

e o comerciante, sempre, o “crédito a si mesmo”.

Os elementos do ativo, pois, consideram-se “devedores” e o comerciante

o “credor” pelo que ganhou, recebeu em doação ou em herança.

Sugere que as coisas de pequeno valor não devem gerar

lançamentos.

Paciolo divide os bens em três grandes classes: “o dinheiro”, “os

realizáveis” e o “imobolizado”.

Embora ele não se utilize de denominações para classifi car tais

grupos, na realidade, os reúne em sua exposição, evidenciando que assim

os considerava.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

Não se refere, todavia, a uma apuração de “patrimônio líquido”, nem o

conceitua, nem regula registros. Afirma, sim, que as mercadorias adquiridas

à vista se creditam ao Caixa a prazo, ao fornecedor ou ao Banco.

Não há omissão das negociações a crédito, mesmo porque elas

eram habituais na época.

É óbvio que operações como os juros, por exemplo, eram proibidos

pelo clero, o que levava os banqueiros a mascararem tais transações (Paciolo

sequer faz menção ao assunto).

Era usual “comprar-se dinheiro” e, então, pagar-se uma espécie de

“aluguel” do mesmo, o que era permitido (hoje nos parece absurdo tal tipo de

raciocínio e imaginar que a humanidade tenha-se submetido a tais fanatismos,

mas, no futuro, também, haverão de parecer absurdas muitas das práticas

que hoje se utilizam, como, por exemplo, a de no Brasil se pagar imposto de

renda sobre um prejuízo real; o de a lei proibir o cheque pré-datado e o de

o Poder Executivo regular como os pré-datados devem ser tratados; o de se

proibir a transação particular habitual de moeda estrangeiro, mas, o mercado

da mesma ser difundido e apregoado pela imprensa, etc.).

Os registros das aquisições de mercadoria a prazo, tão como as

modalidades de compras, são apresentadas por Paciolo, em detalhes.

Quanto às vendas o frei, como já o fizera em capítulos anteriores,

evoca um tratamento analógico.

Outros registros como empréstimos particulares (e não menciona

juros), seguro de perdas, despesas do negócio, etc., são referidos,

evidenciando quando se debitam as contas de gastos e quando se credita

a conta de recuperação (no caso, seguros).

O frei faz uma clara distinção entre os gastos que se debitam às

mercadorias e aqueles que ficam nas contas de despesas.

Em verdade, na época do “Tratado”, já estava muito bem consolidado

o processo de registro de custos, notadamente na região de nascimento de

Paciolo (na Toscana já se havia escrito obra sobre a indústria de tecidos,

com a descrição dos procedimentos de custo).

Muitas são as matérias que o trabalho não trata, tão como permanece

alheia a algumas aplicações das partidas dobradas já em uso há mais de

um século (como o próprio custo referido).

Fundação Brasileira de Contabilidade

6.39. RECOMENDAÇÕES AOS COMERCIANTES

O “Tratado”, nessas suas últimas dissertações, realça o grande valor

dos controles internos sobre o patrimônio, classificando as imobilizações

pela qualidade física de sua composição (ferro, estanho, madeira, latão,

etc.).

Lembra a importância do controle de dívidas e de bens dados em

custódia, tão como empenhos contratuais.

Percebe-se, nos escritos de Paciolo, o destaque dado ao poder de

“abrangência” que a escrita deve ter e a clareza que precisa conservar

para plena identificação de tudo.

O controle de todos os componentes patrimoniais (de Ativo e

Passivo) é destacado como fundamental.

O princípio que o frei prega é o de “nada omitir”, inclusive empréstimos

de vasilhames, mercadorias, etc.

Não há dúvida de que o livro se dedica ao pequeno empresário,

embora, na época, existissem grandes empresas.

O teor didático, todavia, com inteligência, dedicou-se ao pequeno

comerciante, pois mais fácil se tornaria ao aprendiz a assimilação e

também porque estes representavam a maioria.

Termina, Paciolo, seu “Tratado”, exemplificando partidas de débito

e de crédito de contas pessoais e de Caixa.

Luca Pacioli - Um mestre do Renascimento

BIBLIOGRAFIA

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escrituração de contas, editora Atlas, São Paulo, 1966

AMORIM, Jaime Lopes - Digressão através do vetusto mundo da

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ANTINORI, Carlo - Luca Pacioli e la Summa de Arithmetica, edição Instituto

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ANTINORI, Carlo – L´origine della partita doppia, conferência na IV

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