Capítulo 08 - Estudo da Realidade Brasileira

Capítulo 08 - Estudo da Realidade Brasileira

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Capítulo 8

CAPÍTULO 8

8.1 Contextualizando

Caros alunos, nossa preocupação, nessa etapa de estudos, é discutir as potencialidades de conhecimentos inscritos como saberes emancipatórios em confronto com o saber regulação construído pela ciência moderna.

É importante compreendermos que o conhecimento, para além da sua função social com vistas às demandas da sociedade, tem um significativo papel formador, especialmente quando se compreende formação numa dimensão reflexiva e permanente.

Seu sentido pedagógico situa-se na capacidade de estimular o pensamento dos sujeitos, de mantê-los em constante estado de aprender a aprender e a “saber” e pensar para poder intervir no mundo de forma responsável. Ele proporciona atitudes que levam à autonomia intelectual dos sujeitos e é capaz de auxiliar na construção da cidadania.

Exercitar uma atitude científica requer a aceitação da provisoriedade do conhecimento e o reconhecimento de que todos os homens trazem em si as condições e capacidades de transformação do mundo. O conhecimento, sendo sempre uma produção social, insere-se numa dimensão política e requer uma condição de diálogo. O que alguém constrói tem sentido na interlocução com os outros.

Portanto, o conhecimento é sempre uma construção coletiva, é diálogo, à medida que não há transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores, que buscam a significação dos significados.

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Nessa perspectiva, é importante uma reflexão sistematizada sobre o ato de conhecer, pois o mesmo, considerando sua dimensão questionadora natural, deverá contribuir para processos educativos emancipatórios. O conhecimento tanto pode ser um lugar de resistência à regulação imposta, como servir de instrumento de poder em um contexto discursivo determinado. O paradigma da ciência moderna, fortemente inspirador das ciências exatas e naturais, marcou a trajetória das ciências sociais, no seu intento de legitimidade.

Muitas vezes, os processos investigativos, ao invés de fazerem germinar o conhecimento crítico, engessaram o pensamento, emanciparam a dor, e a cientificidade da educação se tornou intensamente normativa e prescritiva. O critério para definir o que se constitui o conhecimento válido ficou reduzido à camisa de força dos métodos ligados ao objetivismo científico.

Na perspectiva de uma educação emancipatória, essa trajetória não só não contribuiu para uma formação crítica como, muitas vezes, desqualificou os esforços que se faziam nessa direção.

Tais saberes podem reconstituir práticas entre identidades individuais e coletivas, produzindo e encarnando sentidos, deixando pistas e indícios nessa produção, que nos permitem considerar essas práticas como sendo de “natureza” emancipatória. Sendo assim, você deverá ser capaz de:

Compreender os diversos tipos de conhecimentos; Analisar o saber científico como saber racional dominante e regulador; Discutir a natureza dos saberes emancipatórios em face do saber-regulação; Perceber a proposta dos saberes amancipatório no cotidiano, ante o domínio do saber-regulação.

8.2 Conhecendo a teoria

Caros alunos! Este novo capítulo tem como objetivo principal compreender os saberes e práticas emancipatórios, revelando a ideia de uma pedagogia da emancipação, fundamentada no fazer cotidiano, buscando avançar ideias e ações que possam levar à compreensão, ao desenvolvimento e à institucionalização de alternativas curriculares mais democráticas.

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Em um primeiro momento, buscamos discutir as diversas modalidades de conhecimento e a sua relação com a ciência, que representa um saber dominante e regulador desde as suas origens no século XV, por meio do pensamento de Galileu e, posteriormente, de René Descartes.

Em um segundo momento, pretendemos aprofundar o estudo a respeito dos saberes tecidos no cotidiano da prática pedagógica, nas relações com as normas oficiais, em processos formais de aprendizagem e de formação. Além disso, vamos discutir outros saberes na condição de redes de subjetividades (SANTOS, 1995), os quais agem sobre a realidade social de modo criativo.

A abordagem teórica está organizada em torno da noção de conhecimentos em rede no cotidiano, necessária para pesquisarmos os processos educativos reais, fruto do enredamento de ações, convicções, saberes formais e eventos vividos. É aqui que ganha relevância a noção de rede. Muito do que temos pesquisado é voltado para a ideia de entender como se cria/tece conhecimento no cotidiano em geral e no cotidiano escolar, em particular.

Sabemos que as práticas cotidianas são desenvolvidas por modos circunstancialmente definidos de uso de produtos, materiais ou imateriais, oferecidos para consumo, e o seu estudo permite compreender os conhecimentos emancipatórios (SANTOS, 1995) que os praticantes da vida cotidiana criam com esses usos.

Você deverá ampliar a compreensão do papel desempenhado pelos saberes cotidianos nos processos reais de aprendizagem, buscando superar a ideia de que os nossos currículos são, prioritariamente, compostos pelas disciplinas e saberes formalizados e estruturados nas propostas escritas.

A partir dessa compreensão ampliada, pretendemos desenvolver ideias a respeito da institucionalização possível de alternativas emancipatórias visando a contribuir para processos sociais também emancipatórios.

Estudaremos, portanto, nesta seção, a produção cotidiana de alternativas de conhecimentos, esperando contribuir para a compreensão dos processos educativos reais e para o desenvolvimento de propostas e ações voltadas para os interesses e necessidades da educação emancipatória.

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8.2.1 As diferentes concepções de conhecimento

O conhecimento pode ser classificado em uma tipologia diversa, expressando a natureza e as peculiaridades em suas variadas modalidades. Trata-se do senso comum, do filosófico, teológico, religioso, científico, mítico, psicanalítico e do artístico.

Caracteres dos conhecimentos

Os caracteres dos diversos modos de saber destacam-se no senso comum uma natureza superficial, pois eles se limitam às sensações do ouvir, do sentir, do olfato, do paladar. Igualmente, o senso comum apresenta-se como um saber valorativo, imbuído de pré-noções, ideias pré-concebidas, fundamentando-se igualmente em estados de ânimo. Desse modo, os valores do sujeito impregnam o objeto conhecido. É verificável, contudo, que tal possibilidade limita-se ao âmbito da vida diária. Ele é sensitivo, expresso nas vivências e emoções da vida diária.

Nesse sentido, o homem não distingue o essencial do acidental, apreendendo apenas aspectos externos dos objetos e dos fatos. É também assistemático, pois se baseia na organização particular das experiências próprias do sujeito cognoscente e não em uma sistematização de ideias, buscando uma formulação geral, que explique os fenômenos observados.

O caráter falível e inexato diz respeito à formulação de hipóteses sobre a existência de fenômenos, não indo além das percepções objetivas. Ele é impregnado de projeções psicológicas, uma vez que é permeado de ilusões e paixões. É o caso das superstições, das explicações provindas da astrologia e de outras crenças.

O termo Filosofia foi introduzido por Pitágoras e significa em grego

Philos = amigo e Sofia = sabedoria. Na contemporaneidade, ser filósofo significa interrogar sobre a realidade. O caráter valorativo da filosofia baseiase em hipóteses que não podem ser submetidas à observação.

O saber filosófico é sistemático, porque suas hipóteses visam a uma representação da realidade estudada, numa tentativa de apreendê-la em sua totalidade. Ele é infalível e exato, porque seus postulados e hipóteses não são submetidos ao teste de experimentação. A filosofia emprega o método dedutivo que antecede a experiência e não exige confirmação experimental.

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O conhecimento Teológico revela-se mediante algumas características próprias, tais como o caráter valorativo, que se fundamenta em doutrinas que contêm proposições sagradas; ele é inspiracional na medida em que suas verdades são reveladas pelo sobrenatural; é infalível posto que é fundamentado em dogmas de fé, cujas verdades são indiscutíveis. É também sistemático, uma vez que percebe o mundo como origem, significado e finalidade, como obra do criador. É não verificável, porque suas evidências ou verdades são percebidas perante atitudes de fé.

A ideia de Mythos significa palavra, representando uma primeira fala sobre o mundo, atribuindo-lhe sentido. Na linguagem comum, o mito é considerado como mentira, falsificação intencional, ilusão.

Na cultura e história da Grécia, a ideia de mito evoca uma verdade autêntica, como forma diferente da verdade intelectual, de modo fantástico ou poético. Trata-se de caracteres poéticos identificados como a essência das fábulas. São as formas de pensar dos povos.

Nessa perspectiva, os poetas foram os primeiros historiadores, que, mediante sua sensibilidade, captaram as marcas históricas da essência da vida cultural daqueles povos antigos e que foram registradas em fragmentos poéticos. Estes ensinamentos orais iam sendo transmitidos das gerações mais remotas para as mais jovens, passadas, assim, dos pais para os filhos.

O fragmento que se segue relata a origem do universo na narrativa do poeta Hesíodo “No princípio era o caos”. A essência de todas as coisas estava contida no caos. Da acumulação de partículas dispersas, surge a primeira forma: Gaia (terra), primeira realidade sólida. Do caos surgiram, ainda, o Érebo (a parte escura da terra, a noite) e o Éter, a luz dos deuses, bem como o dia, luz dos mortais.

Rondava no caos, por esse tempo, uma poderosa força primitiva: Eros, a partir dele nenhuma força podia fecundar sozinha. Dessa forma, a união de Gaia e Urano realizou-se com a força de Eros. “Assim, do casamento entre o céu e a terra, nasce a raça humana” (HESÍODO, 1989,)

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Convivendo com a terra, o poeta Hesíodo retrata, em sua Teogonia, o poder da Physis; esta representa a natureza irreverente, com suas vontades, rebeldias e convicções, demonstrando sua força condutora do universo. Para ele, a humanidade traz em si essa força material da natureza, que poderia adequar-se aos instintos humanos ou às suas pulsões, que traduzem a sua natureza autêntica.

O poeta Homero escreveu duas obras: a Ilíada e Odisseia. Nesse sentido, a poesia épica retrata as qualidades morais ou espirituais e revela a força e a destreza, o heroísmo dos guerreiros ou lutadores de tempos remotos. Quanto à Odisseia, ela exalta, sobretudo, o heroísmo de Ulisses, personagem central, e igualmente a prudência e a astúcia, deixando a valentia em segundo plano.

Édipo representa uma clássica tragédia teatral de Sófocles, que narra o sofrimento e o caminho de um homem, filho de Laio (rei de Tebas) e Jocasta. Ante o destino cruel a ele reservado, os pais tomam a decisão de matá-lo. Todavia, o servo incumbido da tarefa limitou-se lhe perfurar os pés da criança deixando-a suspensa numa árvore. Depois, ela foi entregue a Políbio, rei de Corinto, que lhe pôs o nome de Édipo.

Assim, a história de Édipo retrata o não saber de si, em que a decifração da esfinge o leva a reconhecer-se como homem, todavia, isso não o torna sábio; mas rei. Hábil na vida política, contudo, incapaz de reconhecer-se em Tirésias, o qual representa o que Édipo será no futuro: cego. Desse modo, Édipo vive a experiência trágica do confronto consigo mesmo.

Em sendo assim, a narrativa mítica traduz, igualmente, a luta entre o amor e a morte; entre a vida que passa e a eternidade. O valor da linguagem simbólica do mito está em revelar o homem a si mesmo pela revelação do sentido de sua história.

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8.2.2 A ciência como saber regulador e dominante

O conhecimento científico assume um rol de caracteres que o identifica como factual, pois ele estuda as ocorrências, fatos; é contingente. As suas hipóteses possuem sua veracidade ou falsidade conhecida pela experimentação e não somente pela razão; é sistemático, já que é um saber ordenado logicamente, formando um sistema de ideias, e não um conhecimento disperso e desconexo; é verificável, pois as suas conjecturas ou hipóteses devem ser comprovadas para, assim, pertencerem ao âmbito da ciência; ele é falível, porque não é absoluto, nem definitivo; é também aproximadamente exato, uma vez que novas hipóteses podem reformular a teoria existente.

O conhecimento científico expressa uma natureza objetiva oposta à subjetividade, posto que ele admite a existência de objetos válidos, independentemente das crenças e opiniões dos sujeitos, o que é externo em relação à consciência, o que está empiricamente dado.

A ciência surge como um conhecimento buscando substituir um saber revelado e absoluto, colocando em crise um caminho já consagrado e instituído, para investir numa “outra” concepção de mundo e de saber, esta definida como instituinte, posto que se pretende romper com o instituído.

Entretanto, o novo, para sobreviver, há que se tornar velho; portanto, morrer em sua adolescência irreverente para se consagrar com a marca da experiência e da maturidade, identificadoras do seu poder, no sentido de legitimar-se como “normal”, capaz de dar a segurança e a certeza na conquista da verdade, virtude perseguida para explicação dos enigmas do mundo.

Assim a ciência inicia seu destino na história, debuta no espírito do tempo como jovem sonhadora, porém envelhecerá para dar conta de sua missão, a exemplo de sua predecessora – a Igreja, com suas verdades absolutas. Para isso, ela cria igualmente dogmas como meio de se sustentar, como condição indispensável à busca da verdade.

Nessa perspectiva, inicia-se um novo ciclo de regras e valores, que vão determinar o percurso do conhecimento científico, desta feita, acompanhado de alguns princípios religiosos. Trata-se, em primeiro lugar, da Causalidade (ou Determinação Causal), cujo sentido diz respeito a uma relação em que a causa é deduzida de seu efeito. Tal íntima conexão supõe algo previsível e unívoco.

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A causa dá razão ao efeito, demonstra ou justifica a sua existência ou suas determinações (ABBAGNANO,1999). Este princípio vai justificar o ponto de vista de Augusto Comte citado por Abbanano(1999) , para quem tal pressuposto indica a possibilidade da ciência poder estabelecer a previsão dos fatos ou fenômenos da realidade observada, possibilitando, inclusive, uma ação sobre eles.

Percebe-se, igualmente, a influência deste princípio nas teses marxianas, as quais advertiam para o fato de que existe um determinismo econômico nas relações sociais, onde a consciência dos indivíduos é o resultado ou a portadora dos efeitos da esfera econômica.

As proposições psicanalistas, por outro lado, afirmam ser a consciência um subproduto da instância inconsciente; de igual modo, a biologia, a partir de alguns teóricos, que admitem a realidade totalmente como consequência da seleção natural.

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