Capítulo 08 - Estudo da Realidade Brasileira

Capítulo 08 - Estudo da Realidade Brasileira

(Parte 2 de 4)

Pode-se identificar, subjacente a estes princípios, o Naturalismo, que tende a considerar naturais os fenômenos que existem objetivamente. Igualmente, ele percebe a razão como dotada de poderes superiores àqueles construídos pela filosofia.

Outro dogma sustentador da ciência é o chamado Essencialismo, termo designado da noção de essência, a qual, segundo a filosofia de Hegel, supõe a mediania entre o ser e o conceito. No pensamento moderno, significa a realidade inerente a uma coisa-objeto.

Desse modo, a pesquisa científica, para cumprir a sua tarefa de conquista da verdade, há que buscar atingir a essência da realidade investigada. Para isso, ela deve instrumentalizar-se com as regras do método cartesiano: a evidência, que possibilita a clareza e a distinção, sem as sombras dos juízos valorativos; a análise, que supõe a decomposição do objeto estudado em partes, no sentido de poder compreendê-las; a síntese, que parte dos elementos mais simples para o mais complexo dos elementos, e, a partir dessas combinações, busca-se explicar a natureza daqueles elementos.

Estudo da Realidade Brasileira197

Capítulo 8

Georg Wilhelm Friedrich Hegel, o último filósofo clássico famoso, autor de um esquema dialético, no qual o que existe de lógico, natural, humano e divino oscila perpetuamente de uma tese para uma antítese, e de volta para uma síntese mais rica.

Hegel nasceu em Stuttgart, a 27 de agosto de 1770, e faleceu a 14 de novembro de 1831, em Berlim. Estudou gramática até aos 18 anos. Enquanto estudante, ele fez uma vasta coleção de extratos de autores clássicos, artigos de jornal, trechos de manuais e tratados usados na época. Esse colossal fichário, ordenado alfabeticamente, lhe foi útil toda a vida.

A filosofia de Hegel é a tentativa de considerar todo o universo como um todo sistemático. O sistema é baseado na fé. Na religião cristã, Deus foi revelado como verdade e como espírito. Como espírito, o homem pode receber esta revelação. Na religião, a verdade está oculta na imagem; mas, na filosofia, o véu se rasga, de modo que o homem pode conhecer o infinito e ver todas as coisas em Deus. (HEGEL, 1991)

Finalmente, o dogma da enumeração diz respeito à necessidade de enumerar os fenômenos de modo completo como meio de não omitir as verdades. Trata-se, portanto, do controle dos resultados dos fenômenos estudados. Desse modo, a busca da essência retrata o poder da razão, na condição de herdeira do primado da essência da verdade.

Ainda se pode acrescentar outro princípio dogmático, ou seja, o

Racionalismo, que traduz a fidelidade reverente à deusa razão. Trata-se da crença nas ideias inatas intrínsecas à razão. Passa-se, então, a acreditar que as representações da razão são fidedignas aos objetos representados, sendo estes exteriores àquela. Desse modo, reconhece-se um caminho indicador de um saber baseado no cálculo racional.

Estudo da Realidade Brasileira198

Capítulo 8

Subjacente a esta crença está o antagonismo entre o que é racional e irracional, repetindo a antinomia vivenciada na idade média entre o bem e o mal. Assim, os elementos que dizem respeito às pulsões, aos desejos humanos, à imaginação, aos sentimentos são destituídos de verdade, posto que se inscrevem na esfera da irracionalidade.

Em se tratando dos dualismos, a Lógica Dicotômica constitui mais um princípio sustentador do saber científico, que impõe, por dedução, as diferenças de natureza classificatória entre os componentes considerados verdadeiros e os determinados como falsos. A afirmação de um fenômeno supõe a negação de seu contrário, sugerindo, assim, a impossível convivência harmônica entre antinomias concebidas como irreconciliáveis.

A Transcendência figura como mais um princípio “religioso” que acresce ao saber científico, compondo a cadeia de regras religiosas para definir as regras que levam a assunção da condição de um fiel.

O sentido atribuído a este termo diz respeito à possibilidade de ultrapassar os limites do real. Desse modo, os objetos não são imanentes à percepção. Igualmente, pode-se afirmá-la como reveladora da relação estabelecida entre sujeito e objeto. Tal noção conceitual de igual modo pode relacionar-se à cientificidade, esta representando o determinante teleológico de um progresso revelador do futuro.

Noutros termos, isto é supor que pelo saber científico poderá ser vislumbrado o próprio desenvolvimento da humanidade, seja na esfera política, econômica ou intelectual. É o que foi, por exemplo, deduzido nas proposições de Karl Marx (1986), de suas assertivas a respeito de uma teleologia comunista – representando uma nova ordem social – quando da exaustão dialética do capitalismo moderno.

Pode-se acrescentar a Ordem Universal Objetiva como regra norteadora da ciência inspirada em Descartes, constituindo-se um princípio que estabelece uma verdade como válida para todos. Nesse sentido, o objeto considerado como coisa encarna a exterioridade (é exterior ao indivíduo), a coercitividade (exerce coerção sobre os indivíduos) e a generalidade (é uma verdade universal, válida para todos). Segundo Emile Durkheim (1996), em “As regras do Método Sociológico”, o objeto configura-se, assim, como algo passível à experimentação e à prova.

Estudo da Realidade Brasileira199

Capítulo 8

Outro princípio-dogma que se tornou característica da ciência é a separação decisiva entre Subjetividade e Objetividade. A objetividade diz respeito ao caráter daquilo que é tornado coisa, passível de ser observado, tornando-se fato real; a subjetividade, conforme Kant, é o “eu penso” da consciência, ou autoconsciência, que determina e condiciona toda atividade cognoscitiva. (KANT apud ABBAGNANO, 1999)

Por outro lado, ainda se pode perceber o sentido da subjetividade como uma relação entre o sujeito e as coisas ou objetos. Feito o esclarecimento dos termos, importante se faz uma esclarecimento quanto à separação sujeito e objeto do conhecimento.

A referida dualidade pode ser percebida na diferenciação classificatória dicotômica – expressa entre mente e corpo, afetividade e racionalidade, conhecimento elaborado e saber comum, dividindo e separando o sujeito em relação ao objeto do conhecimento. Desse modo, a percepção clássica de ciência, inspirada no Positivismo, eliminou qualquer perspectiva vinculada à paixão, à emoção e ao desejo, elementos que poderiam deturpar a sanidade objetiva e neutra do sujeito do conhecimento em relação à coisa.

Nesse sentido, a paixão, que dificultaria o processo de produção do conhecimento, somente poderia ser tolerada, conforme Weber (1998), no momento da escolha e da descoberta; contudo, num segundo momento de sua pesquisa, o sujeito do conhecimento, em nome do amor à ciência, abandonaria as suas impressões subjetivas para não contaminá-las com os juízos valorativos de natureza emocional.

8.2.3 Dialética entre saber-regulação e saber emancipatório

A dialética entre o saber-emancipação e saber-regulação foi analisada por Boaventura de Sousa da Silva. Para ele, o conhecimento-regulação marginalizou o conhecimento-emancipação, criando uma crise paradigmática e, ao mesmo tempo, um espaço de possibilidade à constituição de novas relações teóricas e sociais.

O ponto de partida das reflexões do autor é a consideração de que vivemos num contraste entre a possibilidade técnica de uma sociedade melhor, mais justa e solidária, e a sua impossibilidade política sintetiza a intencionalidade do conflito do paradigma emergente na perspectiva do

Estudo da Realidade Brasileira200

Capítulo 8 conhecimento-emancipação. Enquanto na perspectiva do conhecimentoregulação conhecemos criando ordem, na perspectiva do conhecimentoemancipação, conhecemos criando solidariedade. (SANTOS, 2000)

Sobre este paradoxo, comenta o autor:

Em minha opinião, o que mais nitidamente caracteriza a condição sócio-cultural deste fim de século é a absorção do pilar da emancipação pelo da regulação, fruto da gestão reconstrutiva dos défices e dos excessos da modernidade confiada à ciência moderna e, em segundo lugar, ao dinheiro moderno. A colonização gradual das diferentes racionalidades da emancipação moderna pela racionalidade cognitivo-instrumental da ciência levou à concentração das energias e das potencialidades emancipatórias da modernidade na ciência e na técnica. (SANTOS, 2000, p. 5-56)

Nesse sentido, a absorção da emancipação pela regulação neutralizou a perspectiva de uma transformação social profunda, visando a um futuro alternativo, novo, com novas possibilidades direcionadas ao saber emancipatório, que possa conduzir, por exemplo, ao reconhecimento de pluralismo que tenha por base a cidadania.

O autor na obra “Crítica à razão indolente” – ao tratar da crise de paradigma do saber moderno – argumenta sobre quatro características do conhecimento. Trata se, em primeiro lugar, de sabermos que o conhecimento sendo científico-natural é necessariamente científico-social. Nessa medida, a concepção humanística das ciências sociais desenvolve o conceito de sujeito como autor e sujeito do mundo, como agente do mercado. Contrariamente, o pilar da regulação na modernidade vai mostrar o sujeito no centro do conhecimento. (SANTOS, 2000)

A segunda característica diz respeito a que todo o conhecimento é local e total. Isso leva a dizer que há a necessidade de problematizar a fragmentação da concepção de ciência moderna de tal modo que o conhecimento é tanto mais rigoroso quanto mais restrito é o objeto sobre o qual ele incide. Sendo assim, a fragmentação pós-moderna não é disciplinar e, sim, temática. Este entendimento coloca em evidência o desafio à interdisciplinaridade e à pluralidade metodológica. (SANTOS, 2000)

A terceira característica revela que “todo conhecimento é autoconhecimento”. O paradigma emergente assume “o caráter autobiográfico e autoreferenciável da ciência”, isto significa dizer que o saber emancipatório é

Estudo da Realidade Brasileira201

Capítulo 8 um autoconhecimento. Ele não descobre, mas cria “os pressupostos metafísicos, os sistemas de crenças, os juízos de valor não estão antes ou depois da explicação da natureza da sociedade. Contrariamente são partes integrantes dessa mesma explicação”. (SANTOS, 2000, p. 83-84)

Este saber supõe que nossas trajetórias de vida – pessoais e coletivas – são expressão do conhecimento.

Finalmente, a quarta característica traduz que todo conhecimento científico tem por finalidade transformar-se em senso comum ou bom senso já que a ciência destina-se a servir à solução dos problemas humanos vividos na cotidianidade. Nesse sentido, a ruptura epistemológica da Ciência Moderna representa o salto qualitativo do senso comum para o conhecimento científico.

Por outro lado, na ciência pós-moderna, o mais importante é o salto realizado do conhecimento científico para o conhecimento do senso comum. A superação representa um desafio para romper a dicotomia entre conhecimento científico e senso comum mediante um processo de conhecimento que transforma a ambos. (SANTOS, 2000)

O potencial emancipatório

O potencial emancipatório reside no conceito de dupla ruptura epistemológica, que é representada por um senso comum esclarecido e uma ciência prudente. Tal concepção significa uma contribuição indispensável para as práticas sociais transformadoras. Todo conhecimento deve traduzirse em sabedoria de vida e o caráter emancipatório do senso comum deve ser desenvolvido.

O importante é repensar o conhecimento científico em toda a sua diversidade à luz das suas possíveis relações com outros saberes não científicos, que orientam a vida quotidiana das pessoas. As hierarquias entre conhecimentos não podem ser estabelecidas em abstrato, mas, sim, em concreto, isto é, em função das intervenções concretas no mundo.

Se nós queremos ir à lua, necessitamos de conhecimento científico; mas se nós queremos preservar a biodiversidade, precisamos do conhecimento indígena, camponês e cientifico. As epistemologias dominantes tendem a salientar a incomensurabilidade ou incompatibilidade entre conhecimentos.

Estudo da Realidade Brasileira202

Capítulo 8

O importante é salientar a incompletude de todos os conhecimentos e o potencial que existe nos diálogos entre eles. O conhecimento prudente decorre sempre desses diálogos e das constelações de saberes que permitem construir. Alguns dos conceitos desenvolvidos depois de um discurso pretendem dar conta desse objetivo: hermenêutica diatópica, ecologia de saberes, tradução intercultural. (SANTOS, 2000)

Ao acrescentarmos a compreensão de que estamos sempre em processos de mudança, imersos em redes de saberes e de fazeres, que não podem ser explicados por relações lineares de causalidade, sendo, portanto, imprevisíveis, podemos afirmar que tanto o conteúdo quanto as formas pelas quais nossas ações cotidianas são desenvolvidas têm como características a complexidade (MORIN, 1996) e a diferenciação (SANTOS, 2000), sob influência de fatores mais ou menos aleatórios. Ou seja, as lógicas que presidem o desenvolvimento das ações cotidianas são profundamente diferentes daquela com a qual nos acostumamos a pensar na modernidade.

Dentro da metáfora da tessitura do conhecimento em rede, podemos afirmar que se nos mantemos excessivamente ligados a premissas predefinidas a respeito da pretensão de pesquisar e em função daquilo que acreditamos já saber, criamos em nossas redes “nós cegos”, que subtraem deles algo de sua maleabilidade. Portanto, impedimos a possibilidade de entrada e articulação de novos fios de saberes ao anteriormente sabido.

Em outros termos, e já abordando a questão dos limites da racionalidade tal como esta vem sendo entendida na modernidade, fundamental no contexto da pesquisa do cotidiano, podemos afirmar com a ajuda de Maturana (1999, p. 15) que:

Todos os conceitos e afirmações sobre os quais não temos refletido, e que aceitamos como se significassem algo simplesmente porque parece que todo mundo os entende, são antolhos. Dizer que a razão caracteriza o humano é um antolho, porque nos deixa cegos frente à emoção. [...] Quer dizer ao nos declararmos seres racionais vivemos uma cultura que desvaloriza as emoções, e não vemos o entrelaçamento cotidiano entre razão e emoção, que constitui nosso viver humano, e não nos damos conta de que todo sistema racional tem um fundamento emocional.

Ginzburg (1989), em seu trabalho sobre o paradigma indiciário, aponta uma possível incapacidade de vermos diferenças em “objetos” nas próprias características do olho humano.

Estudo da Realidade Brasileira203

Capítulo 8

Ao discutir as dificuldades da medicina em atender as exigências do conhecimento generalizante, o autor afirma que isso se deve à impossibilidade da quantificação derivada da presença ineliminável do qualitativo, do individual; e a presença do individual derivaria do fato de que o olho humano é mais sensível às diferenças entre os seres humanos do que entre as pedras ou entre as folhas.

Para a nossa discussão, a afirmação de Ginzburg pode significar que a identidade absoluta entre determinados “representantes” das “espécies quantitativas ou quantificáveis” pode ser questionada, na medida em que elas são fundamentadas, na verdade, na incapacidade do “nosso olho humano” de reconhecer as diferenças existentes entre eles. Ou seja, onde vemos identidades e permanências, é possível que haja um universo tão rico e tão diverso quanto os universos aos quais atribuímos riqueza e diversidade.

(Parte 2 de 4)

Comentários