Caramuru - Santa Rita Durão

Caramuru - Santa Rita Durão

(Parte 1 de 5)

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Universidade da Amazônia

Caramuru de Frei José de Santa Rita

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Reflexões prévias e argumentos

Os sucessos do Brasil não mereciam menos um Poema que os da Índia.

Incitou-me a escrever este o amor da Pátria. Sei que a minha profissão exigiria de mim outros estudos; mas estes não são indignos de um religioso, porque o não foram de bispos, e bispos santos; e, o que mais é, de Santos Padres, como S. Gregório Nazianzeno, S. Paulino, e outros; maiormente, sendo este poema ordenado a pôr diante dos olhos aos libertinos o que a natureza inspirou a homens que viviam tão remotos das que eles chamam preocupações de espírito débeis. Oportunamente o insinuamos em algumas notas; usamos sem escrúpulo de nomes tão bárbaros; os Alemães, Ingleses, e semelhantes, não parecem menos duros aos nossos ouvidos, e os nossos aos seus. Não faço mais apologias da obra, porque espero as repreensões, para, se for possível, emendar os defeitos, que me envergonho menos de cometer que de desculpar.

A ação do poema é o descobrimento da Bahia, feito quase no meio do século

XVI por Diogo ÁIvares Correia, nobre Vianês, compreendendo em vários episódios a história do Brasil, os ritos, tradições, milícias dos seus indígenas, como também a natural, e política das colônias.

Diogo Álvares passava ao novo descobrimento da capitania de São Vicente, quando naufragou nos baixos de Boipebá, vizinhos à Bahia. Salvaram-se com ele seis dos seus companheiros, e foram devorados pelos gentios antropófagos, e ele esperado, por vir enfermo, para melhor nutrido servir-lhes de mais gostoso pasto. Encalhada a nau, deixaram-no tirar dela pólvora, bala, armas, e outras espécies, de que ignoravam o uso. Com uma espingarda matou ele caçando certa ave, de que espantados, os bárbaros o aclamaram Filho do trovão, e Caramuru, isto é, Dragão do mar. Combatendo com os gentios do sertão, venceu-os, e fez-se dar obediência daquelas nações bárbaras. Ofereceram-lhe os principais do Brasil as suas filhas por mulheres; mas de todas escolheu Paraguassu, que depois conduziu consigo à França, ocasião em que outras cinco Brasilianas, seguiram a nau francesa a nado, por acompanhá-lo, até que uma se afogou, e, intimidadas, as outras se retiraram.

Salvou um navio de Espanhóis, que naufragaram, com o que mereceu que

Ihe agradecesse o Imperador Carlos V com uma honrosa carta. Passou à França em nau que ali abordou daquele reino, e foi ouvido com admiração de Henrique I, que o convidava para em seu nome fazer aquela conquista. Repugnou ele, dando aviso ao Senhor D. João I por meio de Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo da Bahia. Cometeu o Monarca a empresa a Francisco Pereira Coutinho, fazendo-o donatário daquela Capitania. Mas êste, não podendo amansar os Tupinambás, que habitavam o Recôncavo, retirou-se à Capitania dos ilhéus; e, pacificando depois com os Tupinanbás, tornava à Bahia, quando ali infaustamente pereceu em um naufrágio. Entanto Diogo Álvares assistiu em Paris ao batismo de Paraguassu sua esposa, nomeada nele Catarina, por Catarina de Médicis, Rainha Cristianíssima, que Ihe foi madrinha, e tornou com ela para a Bahia, onde foi reconhecida dos Tupinanbás como herdeira do seu Principal, e Diogo recebido com o antigo respeito. Teve Catarina Álvares uma visão famosa, em que a Virgem Santíssima, manifestando-se lhe cheia de glória, Ihe disse que fizesse restituir uma imagem sua roubada por um Selvagem. Achou-se esta nas mãos de um Bárbaro; e Catarina Álvares com exclamações de júbilo se lançou a abraçá-la, clamando ser aquela a imagem mesma que lhe aparecera: foi colocada com o título de Virgem Santíssima da Graça em uma igreja, que é hoje Mosteiro de S. Bento, celebre por esta tradição. Chegou entanto de Portugal Tomé de Sousa com algumas naus, famílias e tropas para povoar a w.nead.unama.com.br

Bahia. Sebastião da Rocha Pita, Autor da Historia Brasílica, e natural da mesma cidade, assevera que Catarina Alvares renunciara no Senhor D. João I os direitos que tinha sobre os Tupinambás, como herdeira dos seus maiores Principais; ele mesmo atesta que aquele Monarca mandara aos seus Governadores que honrassem e atendessem Diogo Álvares Correia, Caramuru pelos referidos serviços; e foi com efeito ele o tronco da nobilíssima casa da Torre na Bahia; e Catarina Álvares sua mulher foi honrada por aquela metrópole com um seu retrato sobre a porta da casa da pólvora, ao lado das armas reais. Leia-se Vasconcelos na História do Brasil, Francisco de Brito Freire, e Sebastião da Rocha Pita.

Caramuru de Frei José de Santa Rita

CARAMURU POEMA ÉPICO DO DESCOBRIMENTO DA BAHIA

De um varão em mil casos agitados, Que as praias discorrendo do ocidente

Descobriu recôncavo afamado

Da capital brasílica potente;

Do filho do trovão denominado,

Que o peito domar soube à fera gente,

O valor cantarei na adversa sorte, Pois só conheço herói quem nela é forte.

Santo Esplendor, que do Grão Padre manas

Ao seio intacto de uma Virgem bela, Se da enchente de luzes soberanas Tudo dispensas pela Mãe donzela

Rompendo as sombras de ilusões humanas,

Tudo do grão caso a pura luz revela;

Faze que em ti comece e em ti conclua Esta grande obra, que por fim foi tua.

E vós, príncipe excelso, do céu dado

Para base imortal do luso trono;

Vós, que do áureo Brasil no principado Da real sucessão sois alto abono:

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Enquanto o império tendes descansado

Sobre o seio da paz com doce sono,

Não queirais designar-vos no meu metro De pôr os olhos e admiti-lo ao cetro.

Nele vereis nasce es desconhecidas,

Que em meio dos sertões a fé não doma,

E que puderam ser-vos convertidas

Maior império que houve em Grécia ou Roma:

Gentes vereis e terras escondidas,

Onde, se um raio da verdade assoma, Amansando-as, tereis na turba imensa Outro reino maior que a Europa extensa.

Devora-se a infeliz mísera gente; E, sempre reduzida a menos terra, Virá toda a extinguir-se infelizmente,

Sendo em campo menor maior a guerra;

Olhai, senhor, com reflexão clemente

Para tantos mortais, que a brenha encerra,

E que, livrando desse abismo fundo. Vireis a ser monarca de outro mundo.

Príncipe, do Brasil futuro dono,

À mãe da pátria, que administra o mando, Ponde, excelso senhor, aos pés do trono

As desgraças do povo miserando;

Para tanta esperança é o justo abono Vosso título e nome, que invocando,

Chamará, como a outro o egípcio povo, D. José salvador de um mundo novo.

Nem podereis temer que ao santo intento

Não se nutram heróis no luso povo, Que o antigo Portugal vos apresento No Brasil renascido, como em novo. Vereis do domador do Índico assento

Nas guerras do Brasil alto renovo, E que os seguem nas bélicas idéias Os Vieiras, Barretos e os Correias.

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Daí, portanto, senhor. potente impulso, Com que possa entoar sonoro o metro

Da brasílica gente o invicto pulso,

Que aumenta tanto império ao vosso cetro; E, enquanto o povo do Brasil convulso (1)

Em nova lira canto, em novo plectro,

Fazei que fidelíssimo se veja O vosso trono em propagar se a igreja.

Da nova Lusitânia o vasto espaço Ia a povoar Diogo, a quem bisonho

Chama o Brasil, temendo o forte braço,

Horrível filho do trovão medonho,

Quando do abismo por cortar lhe o passo

Essa fúria saiu como suponho,

A quem do inferno o paganismo aluno, Dando o império das águas, fez Netuno.

O grão tridente. com que o mar comove,

Cravou dos Órgãos na montanha horrenda (2)

E na escura caverna, a onde Jove

(Outro espírito) espalha a luz tremenda,

Relâmpagos mil faz, coriscos chove; Bate-se o vento em hórrida contenda,

Arde o céu, zune o ar, treme a montanha, E ergue-lhe o mar em frente outra tamanha.

O filho do trovão, que em baixel ia Por passadas tormentas ruinoso, Vê que do grosso mar na travessia Se serve o lenho pelo pego undoso.

Bem que, constante, a morte não temia,

Invoca no perigo o Céu piedoso,

Ao ver que a fúria horrível da procela Rompe a nau, quebra o leme e arranca a vela.

Lança-se ao fundo o ignívomo instrumento,

Todo o peso se alija; o passageiro,

Para nadar no túmido elemento,

A tábua abraça que encontrou primeiro; Quem se arroja no mar temendo o vento; w.nead.unama.com.br

Qual se fia a um batel, quem a um madeiro,

Até que sobre a penha, que a embaraça, A quilha bate e a nau de despedaça.

Sete somente do batel perdido

Vem à praia cruel, lutando a nado;

Oferece-lhes socorro fementido

Bárbara multidão, que acode ao brado; E, ao ver na praia o benfeitor fingido,

Rende-lhe as mãos o náufrago enganado. Tristes! que a ver algum qual fim o espera Com quanta sede a morte não bebera!

Já estava em terra o infausto naufragante,

Rodeado da turba americana;

Vem-se com pasmo ao porem-se diante,

E uns aos outros não crêem da espécie humana:

Os cabelos, a cor, barba e semblante

Faziam crer aquela gente insana

Que alguma espécie de animal seria Desses que no seu seio o mar trazia.

Algum, chegando aos míseros, que à areia

O mar arroja extintos, nota o vulto;

Ora o tenta despir e ora receia

Não seja astúcia com que o assalte oculto.

Outros, do jacaré, tornando a idéia, (3) Temem que acorde com violento insulto

Ou, que o sono fingindo, os arrebate E entre presas cruéis no fundo os mate.

Mas, vendo a Sancho, um náufrago que expira,

Rota a cabeça numa penha aguda,

Que ia trêmulo a erguer-se e que caíra, Que com voz lastimosa implora ajuda;

E vendo os olhos, que ele em branco vira,

Cadavérica a face, a boca muda, Pela experiência da comua sorte Reconhecem também que aquilo é morte.

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Correm, depois de crê-lo, ao pasto horrendo,

E, retalhando o corpo em mil pedaços,

Vai cada um famélico trazendo,

Qual um pé, qual a mão, qual outros os braços;

Outro na crua carne iam comendo,

Tanto na infame gula eram devassos;

Tais há que as assam nos ardentes fossos, Alguns torrando estão na chama os ossos.

Que horror da humanidade! ver tragada Da própria espécie a carne já corruta! Quando não deve a Europa abençoada A fé do Redentor, que humilde escuta!

Não era aquela infâmia praticada Só dessa gente miseranda e bruta: Roma e Cartago o sabe no noturno Horrível sacrifício de Saturno. (4)

Os sete, entanto, que do mar com vida

Chegaram a tocar na infame areia Pasmam de ver na turba recrescida

A brutal catadura, hórrida e feia:

A cor vermelha em si mostram tingida De outra cor diferente, que os afeia;

Pedras e paus de embirras enfiados, (5) Que na face e nariz trazem furados.

Na boca, em carne humana ensangüentada,

Anda o beiço inferior todo caído,

Porque a têm toda em roda esburacada,

E o labro de vis pedras embutido;

Os dentes (que é beleza que lhe agrada)

Um sobre outro desponta recrescido; Nem se lhe vê nascer na barba o pêlo Chata a cara e nariz, rijo o cabelo.

Vê-se no sexo recatado o pejo,

Sem mais que antiga gala que Eva usava

Quando por pena de um voraz desejo Da feia desnudez se envergonhava; w.nead.unama.com.br

Vão sem pudor com bárbaro despejo

Os homens, como Adão sem culpa andava; Mas vê-se, alma Natura, o que lhe ordenas, porque no sacrifício usam de penas.

Qual das belas araras traz vistosas

Louras, brancas, purpúreas, verdes plumas

Outros põem, como túnicas lustrosas,

Um verniz de balsâmicas escumas.

Nem temem nele as chuvas procelosas,

Nem o frio rigor de ásperas brumas; Nem se receiam do mordaz besouro, Qual anta ou qual tatu dentro em seu couro. (6)

Por armas frechas, arcos pedras, bestas,

A espada do pau ferro; e por escudo As redes de algodão, nada molestas,

Onde a ponta se embace ao dardo agudo;

Por capacete nas guerreiras testas

Cintos de penas com galhardo estudo;

Mas o vulgo no bélico ameaço Não tem mais que unha ou dente, ou punho ou braço.

Desta arte armada, a multidão confusa

Investe o naufragante enfraquecido, Que, ao ver-se despojar, nada recusa Porque se enxugue o mádido vestido, Tanto mais pelo mimo, que se lhe usa, Quando a bárbara gente o vê rendido:

Trouxeram-lhe a batata, o coco, o inhame; (7) Mas o que crêem piedade é gula infame.

Cevavam desta forma os desditosos

Das fadigas marítimas desfeitos,

Por pingues ter os pastos horrorosos, Sendo nas carnes míseras refeitos.

Feras! mas feras não, que mais monstruosos

São da nossa alma os bárbaros efeitos,

E em corruta razão mais furor cabe, Que tanto um bruto imaginar não sabe.

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Não mui longe do mar, na penha dura, A boca está de um antro mal aberta,

Que. horrível dentro pela sombra escura,

Toda é fora de rama encoberta.

Ali com guarda à vista se clausura A infeliz companhia, estando alerta;

E, por cevá-los mais, dão-lhe o recreio De ir pela praia em plácido passeio.

Diogo então, que à gente miseranda Por ser de nobre sangue precedia,

Vendo que nada entende a turba infanda,

Nem do férreo mosquete usar sabia,

Da rota nau, que se descobre à banda,

Pólvora e bala em copia recolhia;

E, como enfermo que no passo tarda, Serviu-se por bastão de uma espingarda.

Forte sim, mas de têmpera delicada Aguda febre traz desde a tormenta; Pálido o rosto, e a cor toda mudada, A carne sobre os ossos macilenta;

Mas foi-lhe aquela doença afortunada, Porque a gente cruel guardá-lo intenta,

Até que, sendo a si restituído, Como os mais vão comer, seja comido.

Barbária foi (se crê) da antiga idade

A própria prole devorar nascida. Desde que essa cruel voracidade Fora ao velho Saturno atribuída,

Fingimento por fim, mas é em verdade

Invenção do diabólico homicida,

Que uns cá se matam, e outros lá se comem: Tanto aborrece aquela fúria ao homem.

Mas já três vezes tinha a lua enchido Do vasto globo o luminoso aspecto, Quando o chefe dos bárbaros temido Fulmina contra os seis o atroz decreto:

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Ordena que no altar seja oferecido

O brutal sacrifício em sangue infecto, (8)

Sendo a cabeça às vítimas quebrada E a gula infanda de os comer saciada.

Entanto que se ordena a brutal festa,

Nada sabiam na marinha gruta Os habitantes da prisão funesta,

Que ardilosa lho esconde a gente bruta; E, enquanto a feral pompa já se apresta,

Toda a pena em favor se lhe comuta,

Nem parecem ter dado a menor ordem, Senão que comam e comendo engordem.

Mimosas carnes mandam, doces frutas, 0 araçá, o caju, coco e mangaba;

Do bom maracujá lhe enchem as grutas

Sobre rimas e rimas de goiaba;

Vasilhas põem de vinho nunca enxutas, (9) E a imunda catimpoeira, que da baba (10)

Fazer costuma a bárbara patrulha, Que só de ouvi-lo o estômago se embrulha.

Um dia. pois, que à sombra desejada

Se repousam, passando a calma ardente,

Por dar alívio à dor reconcentrada

De ver-se escravos de tão fera gente,

Fernando, um deles, diz, que aos mais agrada

Por cantigas que entoa docemente,

Que em cítara, que o mar na terra lança, Se divirtam da fúnebre lembrança.

Mancebo era Fernando mui polido,

Douto em letras e em prendas celebrado,

Que, nas ilhas do Atlântico nascido, Tinha muito coas musas conversado; Tinha ele os rumos do Brasil seguido

Por ver o monumento celebrado

De uma estátua famosa que num pico (1) Aponta do Brasil ao país rico.

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Pedira-lhe Luís, que isto escutara, De profética estátua o conto inteiro, Se foi verdade, se invenção foi clara

De gente rude ou povo noveleiro.

Fernando então, que em metro já cantara

O sucesso, que atesta verdadeiro,

Toma nas mãos a cítara suave E, entoando, começa em canto grave.

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