Produção de mudas de UVA

Produção de mudas de UVA

(Parte 1 de 3)

Gilmar Barcelos Kuhn,

Eng. Agrôn.,

Embrapa Uva e Vinho,

Caixa Postal 130, CEP 95700-0 Bento Gonçalves, RS

Ronaldo Augusto

Regla

Técnico Agrícola,

Embrapa Uva e Vinho,

Caixa Postal 130, CEP 95700-0 Bento Gonçalves, RS

Adriano Mazzarolo

Técnico Agrícola,

Embrapa Uva e Vinho,

Caixa Postal 130, CEP 95700-0 Bento Gonçalves, RS

Circular Técnica

Produção de mudas de videira (Vitis spp.) por enxertia de mesa

Autores

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Introdução

No Brasil, a videira vem sendo explorada comercialmente a mais de um século e se firmou como atividade sócio-econômica de importância relevante, inicialmente, em regiões de clima temperado dos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais e, posteriormente, em regiões de clima tropical e semi-tropical, especialmente, no Submédio do Vale do Rio São Francisco em áreas baianas e pernambucanas, no Norte do Paraná, no Noroeste de São Paulo e no Norte de Minas Gerais. Mais recentemente, o cultivo da videira tem se expandido bastante para diversas localidades, inclusive para regiões do País sem nenhuma tradição em viticultura, como o Centro- Oeste e a Campanha Gaúcha.

Para o desenvolvimento de uma vitivinicultura rentável, é fator preponderante que os vinhedos sejam implantados com mudas de boa qualidade, com sanidade e pureza varietal comprovada e dentro dos padrões estabelecidos pela legislação oficial.

A muda de videira é obtida através da multiplicação vegetativa, seja utilizandose estacas da produtora, em plantio direto, conhecida por “pé-franco”, ou através do processo de enxertia. A muda de “pé-franco” é utilizada somente para cultivares americanas (Vitis labrusca) e híbridas, conhecidas como uvas comuns, por apresentarem certa tolerância à filoxera (Daktylosphaera vitifoliae), enquanto que a muda enxertada é obrigatória para as uvas finas (Vitis vinifera) por serem muito suscetíveis a essa praga. A produção da muda por enxertia é mais recomendada, mesmo quando se trata de uvas comuns, pois a utilização do porta-enxerto, além de assegurar um controle mais eficiente da filoxera, pode agregar outras vantagens, como melhorar a qualidade da uva, conferir maior resistência a doenças de solo, maior adaptação a diferentes tipos de solos, maior precocidade, etc.

A muda preparada pelo processo de enxertia resulta da união do garfo (enxerto), que é a parte do ramo da cultivar produtora (copa), com 1 ou 2 gemas, a um porta-enxerto enraizado ou a uma estaca do porta-enxerto não enraizada, neste caso chamada “enxertia de mesa”.

No Brasil, a técnica tradicionalmente empregada pelos viticultores e viveiristas é a enxertia em porta-enxerto enraizado no campo, feita através de garfagem no topo, realizada na fase de repouso da planta (enxertia de lenho maduro) e com menor freqüência no período de plena vegetação (enxertia verde). Eventualmente, também é empregada, por alguns produtores, a técnica de enxertia de gema ou borbulhia no verão.

2Produção de mudas de videira (Vitis spp.) por enxertia de mesa

Na Europa, a enxertia de campo praticamente desapareceu, sendo substituída pela enxertia de mesa, técnica que avançou e consolidou-se nos últimos 50 anos. Nessa técnica, os cortes realizados no garfo (enxerto) e na estaca do porta-enxerto são do tipo “dupla-fenda inglesa” que pode ser feito a mão ou a máquina, ou do tipo “ômega” que somente pode ser feito com auxílio da máquina. No Brasil, embora tenha se começado a empregar essa técnica a nível comercial, a não mais de cinco anos, em especial nos Estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais, já se produziu, em 2006, uma quantidade aproximada de 400.0 mudas por esse processo.

A seguir serão feitas algumas considerações e o detalhamento do processo de produção de mudas de videira através da técnica de enxertia de mesa, tipo ômega.

Considerações e detalhamento da técnica de enxertia de mesa

A enxertia de mesa é uma técnica bastante especializada e deve ser adotada somente por viveirista que esteja seguro do domínio de todas as suas etapas para a produção da muda, incluindo o manejo adequado dos matrizeiros; a coleta, a conservação e o preparo do material de propagação; a execução da enxertia e parafinagem; o manuseio e controle dos enxertos durante e após a forçagem; e, o bom manejo das mudas no viveiro. Pode-se dizer que é uma técnica obrigatória para o médio e grande viveirista que deseje atender às grandes demandas anuais do mercado, onde, além do preço, é necessário rapidez na execução da enxertia (enxerto/homem/dia), produção da muda no prazo máximo de 12 meses e ter padrão de qualidade competitivo em relação à muda importada.

Algumas vantagens que justificam empregar a técnica de enxertia de mesa em substituição à tradicional enxertia de inverno no campo são:

- Na enxertia de mesa a muda fica pronta para ser comercializada em um ano, já na enxertia de campo são necessários dois anos;

- Através da enxertia de mesa é possível se fazer de três a cinco mil enxertos/homem/dia, enquanto na enxertia de campo de 300 a 500 enxertos;

- A operação de enxertia de mesa pode ser realizada sem interferências climáticas, enquanto na enxertia de campo deve-se evitar períodos chuvosos ou de sol direto muito intenso;

- Com a técnica da enxertia de mesa há maior facilidade para produzir muda dentro dos padrões oficiais exigidos (soldadura, enraizamento, distância da inserção das raízes até o calo de enxertia), enquanto na enxertia de campo se torna mais difícil, pois a soldadura ocorre em ambiente natural sem controle de temperatura e umidade, além dos enxertos ficarem mais expostos a contaminações, especialmente quando são cobertos com solo.

Há, porém, desvantagens nesta técnica que justificam a opção do pequeno viveirista ou do viticultor em continuar produzindo a muda pela tradicional enxertia de campo, entre as quais:

- O custo de produção na enxertia de mesa se torna mais elevado, principalmente na fase inicial, pela necessidade de equipamentos como câmara quente, câmara fria, máquina de enxertia, caixas plásticas, e alguns insumos importados, como a cera de enxertia, lâminas para máquina, etc.;

- A pega da enxertia de mesa está entre 50% a 80%, enquanto na enxertia de campo, de modo geral, fica acima de 90%.

Origem do material de propagação

O material de propagação, estaca do porta-enxerto e gema da produtora (copa), deve ser obtido de planta matriz com garantias de sanidade e de identificação varietal e com manejo adequado (adubação equilibrada, tratamentos fitossanitários, poda verde, produção de uva limitada) para produção de ramos bem formados, amadurecidos e com acúmulo satisfatório de reservas. Quando não se dispõe de matriz com sanidade comprovada (certificada), do porta-enxerto quanto da copa, e, como é muito difícil selecionar plantas sadias no campo, aconselha-se obter o material de propagação (estacas e gemas) em viveirista ou entidades que disponham de plantas matrizes de boa procedência. Na falta desta fonte, recomenda-se, especialmente da copa, o acompanhamento por mais de um ciclo

3Produção de mudas de videira (Vitis spp.) por enxertia de mesa para evitar a perda de umidade (Fig. 1). Antes de colocar o material na câmara fria, é importante proceder a sua hidratação, por imersão total ou em pé em água, por um período de 24 horas. Estes cuidados são importantes, pois se os ramos da videira perderem água em quantidade equivalente a até 20% do seu peso, ocorrerão prejuízos consideráveis nas etapas de formação da muda, como a má soldadura dos enxertos, fraca emissão de raízes e morte da estaca ou do enxerto. O período máximo de conservação recomendado para o material de propagação é de 90 dias, embora, se necessário, o período pode ser prolongado, fazendose inspeções mais seguidas para evitar perda da qualidade do material, em especial, pela proliferação de patógenos.

Detalhamento da técnica de enxertia de mesa

Preparo do material e enxertia. O porta-enxerto é cortado em estacas de 28 cm a 30 cm, sendo o corte na base feito logo abaixo do nó e, também, são eliminadas todas as gemas da estaca. Os enxertos são cortados com uma gema, deixandose pouco mais de 5 cm do entrenó abaixo da gema. O material assim preparado (Fig. 2) deve permanecer em câmara fria e retirado aos poucos, conforme a necessidade diária para enxertia. Antes da enxertia as estacas e os enxertos devem ser reidratados, submergindo-os em água, por um período de 24 horas, e após colocados na mesa ao alcance da mão do enxertador, facilitando a escolha (diâmetro) do material no momento da enxertia.

A enxertia, normalmente, é feita usando a máquina com corte do tipo “ômega”. A máquina é fixada a uma mesa e manejada com o pé, por meio de um pedal (Fig. 3). Numa primeira operação é feito o corte no enxerto que fica preso na lâmina da máquina e numa segunda operação é feito o corte no porta-enxerto e, simultaneamente, seu encaixe (união) ao enxerto.

Proteção do enxerto com cera (parafinagem). Conforme a enxertia vai sendo executada, os enxertos são mergulhados em cera quente (70ºC a 80ºC), cobrindo até abaixo do corte de união do enxerto (Fig. 4), para evitar o ressecamento e a penetração vegetativo e a marcação de plantas aparentemente sadias para se retirar as gemas. É importante que as plantas selecionadas sejam adultas, com idade mínima de 4 anos. Deve-se escolher plantas com bom vigor, produtivas, com maturação uniforme da uva e sem qualquer tipo de sintoma nas folhas, ramos e tronco. No site w.cnpuv.embrapa.br da Embrapa Uva e Vinho, a Circular Técnica nº 50 traz informações mais detalhadas sobre a seleção de plantas matrizes sem sintomas de doenças, especialmente de viroses.

Coleta e conservação do material de propagação

A coleta das estacas do porta-enxerto e das gemas da produtora (copa) deve ser feita quando a planta está em dormência (sem folhas) e com os ramos totalmente amadurecidos. Somente devem ser aproveitados os ramos que vegetaram na última estação de crescimento, ou seja, ramos do ano e, no caso da produtora, o ramo do ano deve ter brotado em ramo do ano anterior, ou seja, evitar os ramos ladrões originados do tronco ou de ramos velhos, pois têm a tendência de produzirem poucos cachos.

Após a coleta, os ramos do porta-enxerto são transportados para galpões onde são limpos e cortados em varas ou estacas de 28 a 30 cm, com diâmetro de 7 a 12 m, sendo, em seguida, enfeixados e identificados. Da mesma forma, os ramos da cultivar produtora são podados e preparados em varas com 8 - 10 gemas, com diâmetro de 6 a 12 m, ou ainda, cortados no tamanho adequado para enxertia, com apenas uma gema e com 5 a 8 cm de comprimento.

De imediato, após seu preparo, o material deve ser colocado em câmara fria com temperatura entre 2ºC e 4ºC e umidade do ar acima de 95% para uma conservação adequada até o momento da enxertia, minimizando ao máximo as perdas de água e de substâncias de reserva. Além disso, a temperatura baixa vai favorecer a quebra da dormência, quando no campo não ocorreu o número de horas de frio necessário. Se a câmara fria não dispuser de controle de umidade, para manter o ambiente com a umidade recomendada, o material de propagação deve ser acondicionado em plástico resistente e bem vedado, de agentes patogênicos, especialmente de fungos e de bactérias. De imediato, os enxertos são mergulhados em água para resfriamento. Para se ter uma noção de consumo de cera nesta operação, em média, é necessário em torno de 0,8 g por enxerto.

A cera utilizada é formulada especialmente para enxertia, sendo a Rebwachs W.F., de origem alemã, uma das mais conhecidas. Esta cera contém um regulador de crescimento (0,00175% de ácido 2,5 dichlorobenzóico) e um produto antifúngico (0,1% de oxiquinoleina), ambos importantes para a formação do calo; o primeiro para favorecer a multiplicação das células (calo) e o segundo para proteger contra o ataque de podridão por fungo (Botrytis sp). Pode-se utilizar outros tipos de ceras (mastiques) conhecidas e usadas em fruticultura no Brasil, porém é necessário que tenham boa elasticidade e não sofram ressecamento e rachadura quando expostos ao sol no viveiro, de modo a manter a proteção do enxerto por um período prolongado. Mesmo assim, essas ceras alternativas têm a desvantagem de não dispor, em sua constituição, do regulador de crescimento e do produto antifúngico, a não ser que se prepare uma formulação com a incorporação desses produtos.

Forçagem dos enxertos. Terminada a parafinagem, os enxertos são colocados em caixas para serem submetidos à forçagem em sala com aquecimento, o que promove a soldadura dos enxertos ou a formação do calo de enxertia. Para o acondicionamento dos enxertos, a alternativa, ainda, muito utilizada pelos viveiristas europeus, é o emprego de caixas de madeira ou de plástico, que são preenchidas intercalando-se com uma camada de serragem umidecida, ou outro substrato inerte, e uma camada de enxertos (Fig. 5), até o completo preenchimento da caixa. No fundo da caixa e sobre os enxertos, colocar, também, uma camada de serragem. Deve-se tomar o cuidado ao acomodar os enxertos nas caixas de modo que a região da enxertia permaneça num mesmo nível, para facilitar as observações de formação do calo de soldadura dos enxertos durante a forçagem.

Mais recentemente a utilização de caixas com serragem tem sido substituída por caixas plásticas vedadas, com uma camada d’água no fundo. Neste caso, o preenchimento é feito com a caixa inclinada (Fig 4) e os enxertos são colocados, bem juntos, até o seu completo preenchimento (Fig. 6). Após, a caixa é vedada com plástico preto e estocada em câmara fria (Fig. 7) até o momento de ser submetida à forçagem. Quando o número de caixas cheias for suficiente para preencher a sala de forçagem, transportam-se as caixas da câmara fria e, dá-se início à forçagem. A sala de forçagem deve ser mantida no escuro e com temperatura inicial, no primeiro e segundo dia, em torno de 25ºC. A partir do terceiro dia, eleva-se a temperatura para 28ºC a 30ºC e adiciona-se água no fundo da caixa, num nível de 3 cm a 5 cm de altura, para manter a umidade relativa, ao nível dos enxertos. Para cada litro de água colocado na caixa, deve-se adicionar 2 mL a 3 mL de água sanitária (2,5% de hipoclorito de sódio), para evitar a deterioração da água e, também, 40 mg de sulfato de cobre, para inibir a formação de raízes no porta-enxerto. A vedação individual da abertura de cada caixa com cobertura de plástico preto é importante para manter a umidade relativa dentro da caixa, de preferência, acima de 90%. O plástico deve ser retirado quando, na maioria das caixas, os enxertos já apresentam boa soldadura. Até se completar o período de forçagem, o plástico deve ficar solto em cima das caixas para manter o ambiente úmido.

As principais vantagens da forçagem na água são: maior praticidade e rapidez no preenchimento das caixas, evita-se o manuseio com fungicida para tratamento da serragem; acomoda-se cerca de 30% mais de enxertos por caixa; menor custo de produção; reduz a emissão das raízes no porta-enxerto; e, diminui a formação excessiva do calo.

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