artigo-abate humanitario de peixes PR

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(Parte 2 de 2)

Os métodos de insensibilização e abate de peixes identificados por ROBB et al. (2000) como humanitários são a percussão mecânica e a eletrocussão. Ainda pode ser utilizada a secção de medula seguida de exsanguinação por incisão das brânquias (LYMBERY, 2002). Apesar de ser considerado um método adequado de abate, a percussão (pressão na cabeça) encontra-se em último lugar como forma de abate, conhecida pelos entrevistados na festa e na rodoviária. Durante a entrevista, 18,6% das pessoas questionadas demonstraram maior aversão quanto a esse método, afirmando que esta prática seria cruel, confirmando assim a falta de informação sobre o assunto. A percussão mecânica pode assegurar a perda permanente de sensibilidade, porém deve ser realizada de forma adequada, atingindo o local correto da cabeça do peixe para se obter o efeito desejado (LINES et al., 2003). A eletrocussão dos peixes ocorre através da passagem de corrente elétrica na água. Esta corrente deve ser suficiente para insensibilizar e matar os peixes. Caso contrário, os animais podem permanecer paralisados e conscientes, sofrendo consideravelmente até a morte, pois geralmente não é feita a sangria após esse processo (ROBB et al., 2000; LYMBERY, 2002). A insensibilização por secção de medula, seguida por sangria das brânquias, também pode ser uma alternativa de abate humanitário, pois se for aplicada com

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Ciência Animal Brasileira, v. 9, n. 4, p. 976-983, out./dez. 2008 precisão a técnica leva o peixe à inconsciência imediata (WOLFFROM & SANTOS, 2004). A posterior sangria evita que os peixes retornem à consciência antes da morte. Do ponto de vista do bem-estar animal, a secção de medula pode ser considerada uma melhor forma de abate que a decapitação, pois se acredita que a primeira envolva menor quantidade de lesão tecidual anteriormente à insensibilização. O método utilizado durante a festa diminui o sofrimento animal envolvido em relação ao quadro atual, no qual os peixes são eviscerados sem prévia insensibilização, ou são transportados sem água, sendo expostos à morte por asfixia. Porém, é recomendada a condução de pesquisas para o desenvolvimento de técnicas viáveis de insensibilização mais rápida que a obtida pela secção de medula da forma utilizada.

A reflexão induzida originou a noção de que algumas formas de abate (Figura 1) causam sofrimento aos peixes em 85,0% dos entrevistados na festa e em 89,0% dos questionados na rodoviária, sendo que 52,9% e 4,1% afirmaram acreditar que o sofrimento altera a qualidade da carne, respectivamente. Segundo POLI et al. (2005), as reações químicas provindas da dor e do estresse no momento do abate fazem com que os peixes entrem em estado de rigor-mortis muito rapidamente. O sofrimento provoca, ainda, uma redução das reservas de glicogênio da musculatura dos peixes e, conseqüentemente, menor acúmulo de ácido lático. Isso faz com que o pH da carne fique próximo da neutralidade, acelerando a ação das enzimas musculares (auto-hidrólise), ou o desenvolvimento de bactérias, tendo como conseqüência a degradação mais rápida do pescado. Dessa forma, parecem necessários projetos educativos que esclareçam a população quanto à relação entre sofrimento e perda da qualidade da carne, uma vez que, em dois grupos pesquisados, 47,1% e 5,9%, respectivamente, não têm essa informação.

Dos entrevistados, 91,1% não possuíam informações sobre abate humanitário de peixes nas duas situações. Concluiu-se que o cenário não influenciou na opinião pública a respeito das questões colocadas, uma vez que a maioria das respostas foi estatisticamente semelhante entre o público da festa e da rodoviária (P>0,05).

Educação e sensibilização das limpadoras

Das 34 limpadoras entrevistadas na 5ª Festa do Peixe Vivo de Araucária, dezoito delas haviam participado da 4ª Festa do Peixe Vivo. Os resultados encontrados foram que 94,4% (17/18) das limpadoras lembravam da técnica ensinada para o abate humanitário; 83,3% (16/18) utilizaram o procedimento durante a 4ª Festa do Peixe Vivo em 2006; 75,0% (12/18) das mulheres afirmaram que a técnica facilitou o trabalho de limpeza dos peixes e 7,7% (14/18) delas afirmaram ainda utilizar esse método.

Para as mulheres (12,5%; 2/18) que relataram utilizar-se da técnica, apesar de não facilitar o trabalho, a justificativa está no fato de evitar o sofrimento dos peixes. Outras 12,5% (2/18) que não empregaram a técnica mostraram-se insensíveis à questão, dada a crença na não-senciência dos peixes.

As duas trabalhadoras que não se importaram com a questão de senciência dos peixes parecem enquadrar-se na filosofia do contratualismo. Para o contratualismo, o sofrimento animal e a forma de matá-los não são problemas per se, e qualquer tipo de uso animal é eticamente aceitável (HUNTINGFORD et al., 2006). Há também a possibilidade de interpretação da posição das duas trabalhadoras como cartesianas, pois os cartesianos acreditam que os animais não têm sentimentos e, portanto, não sofrem, de modo que nenhum malefício lhes pode ser causado (REGAN, 1997). Ressalte-se, nesse sentido, que, atualmente, o cartesianismo com relação aos animais encontra-se ultrapassado, pois muitas sociedades aceitam a senciência animal implícita ou explicitamente em seus sistemas legais e na área acadêmica e científica. Muitas leis de proteção dos animais assumem claramente que, pelo menos, todos os animais vertebrados podem experimentar sofrimentos como dor, desconforto, fome, medo, ansiedade e frustração (KIRKWOOD, 2006; TURNER, 2006).

Os resultados sugerem que a grande maioria das trabalhadoras entrevistadas (83,3%) se enquadra na linha filosófica utilitarista, pois os utilitaristas concordam que as decisões relacionadas ao uso dos animais requerem um balanceamento dos

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Ciência Animal Brasileira, v. 9, n. 4, p. 976-983, out./dez. 2008 malefícios causados a eles, contra os benefícios oferecidos aos humanos e outros animais (BENTHAM, 1948).

Os resultados deste trabalho confirmam a necessidade de uma maior conscientização da população sobre a senciência e o abate humanitário de peixes, incluindo consumidores, trabalhadores da área e a população em geral. Conclui-se ainda que o trabalho realizado com as limpadoras desenvolveu uma nova abordagem ao abate de peixes no contexto da Festa do Peixe Vivo de Araucária. Recomenda-se um trabalho contínuo de educação das trabalhadoras, além de reforço ao treinamento prático para refinamento da técnica de insensibilização dos peixes.

À Secretaria Municipal de Agricultura e

Abastecimento (SMAG) e à Prefeitura de Araucária, pela permissão da exposição sobre senciência e abate humanitário em peixes na 4ª Festa do Peixe Vivo e da aplicação dos questionários durante o evento. Ao Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Paraná, pelo apoio na realização deste projeto.

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Protocolado em: 5 jul. 2007. Aceito em: 25 ago. 2008.

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