OS CONTEÚDOS NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR

OS CONTEÚDOS NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR

(Parte 1 de 3)

Neste capítulo discutiremos o conceito de conteúdo, as dimensões dos conteúdos atitudinais, conceituais e procedimentais proposta por Coll (2000), as influências desta classificação para a Educação Física escolar e por fim, analisaremos brevemente como ao longo do tempo a Educação Física privilegiou um ou outro tipo de conteúdo, da ginástica passando para o esporte e as novas propostas que visam a diversificação e aprofundamento dos conhecimentos.

1 Para além do fazer: a dimensão conceitual, procedimental e atitudinal

Para iniciar a discussão sobre conteúdos na Educação Física escolar é preciso esclarecer o seu conceito, uma vez que este termo é tão utilizado quanto mal compreendido. Coll et al. (2000) definem conteúdo como uma seleção de formas ou saberes culturais, conceitos, explicações, raciocínios, habilidades, linguagens, valores, crenças, sentimentos, atitudes, interesses, modelos de conduta, etc, cuja assimilação é considerada essencial para que se produza um desenvolvimento e uma socialização adequada ao aluno.

É importante ressaltar que nem todos os saberes e formas culturais são suscetíveis de constarem como conteúdos curriculares, o que exige uma seleção rigorosa da escola (LIBÂNEO, 1994; COLL et al., 2000). Assim, conteúdos formam a base objetiva da instrução-conhecimento sistematizada e são viabilizados pelos métodos de transmissão e assimilação.

Libâneo (1994), do mesmo modo que Coll et al. (2000) e Zabala (1998), entende que conteúdos de ensino são o conjunto de conhecimentos, habilidades, hábitos, modos valorativos e atitudinais de atuação social, organizados pedagógica e didaticamente, tendo em vista a assimilação ativa e aplicação pelos alunos na sua prática de vida.

Desta forma, quando nos referimos a conteúdos estamos englobando conceitos, idéias, fatos, processos, princípios, leis científicas, regras, habilidades cognoscitivas, modos de atividade, métodos de compreensão e aplicação, hábitos de estudos, de trabalho, de lazer e de convivência social, valores, convicções e atitudes.

É preciso lembrar, que ao longo da história da educação determinados tipos de conteúdos, sobretudo aqueles relativos a fatos e conceitos, tiveram e ainda têm uma presença desproporcional nas propostas curriculares (COLL et al., 2000; ZABALA, 1998). O fato é que o termo conteúdos foi, e ainda é, utilizado para expressar o que se deve aprender, numa relação quase que exclusiva aos conhecimentos das disciplinas referentes a nomes, conceitos e princípios. É comum observamos os alunos afirmando que tal disciplina tem "muito conteúdo", sinalizando o excesso de informações conceituais.

Atualmente, há uma tentativa, de acordo com Zabala (1998), de ampliar o conceito de conteúdo e passar a referenciá-lo como tudo quanto se tem que aprender, que não apenas abrangem as capacidades cognitivas, como incluem as demais capacidades. Desta forma, poderá ser incluído de forma explícita nos programas de ensino o que antes estava apenas no currículo oculto. Entende-se por currículo oculto aquelas aprendizagens que se realizam na escola, mas que não aparecem de forma explícita nos programas de ensino.

Esta classificação, baseada em Coll corresponde às seguintes questões "o que se deve saber?" (dimensão conceitual), "o que se deve saber fazer?" (dimensão procedimental), e "como se deve ser?" (dimensão atitudinal), com a finalidade de alcançar os objetivos educacionais. Na verdade, quando se opta por uma definição de conteúdos tão ampla, não restrita aos conceitos, permite-se que este currículo oculto possa se tornar manifesto e que possa se avaliar a sua pertinência como conteúdo de aprendizagem e de ensino (ZABALA, 1998).

A seguir são apresentados alguns exemplos de conteúdos da Educação Física nas três dimensões:

1.1 Dimensão Conceitual - Conhecer as transformações porque passou a sociedade em relação aos hábitos de vida (diminuição do trabalho corporal em função das novas tecnologias) e relaciona-las com as necessidades atuais de atividade física.

- Conhecer as mudanças pelas quais passaram os esportes. Por exemplo, que o futebol era jogado apenas na elite no seu início no país, que o voleibol mudou as suas regras em função da Televisão etc.

- Conhecer os modos corretos da execução de vários exercícios e práticas corporais cotidianas, tais como; levantar um objeto do chão, como se sentar a frente do computador, como realizar um exercício abdominal adequadamente, etc.

1.2 Dimensão Procedimental - Vivenciar e adquirir alguns fundamentos básicos dos esportes, danças, ginásticas, lutas, capoeira. Por exemplo, praticar a ginga e a roda da capoeira.

- Vivenciar diferentes ritmos e movimentos relacionados às danças, como as danças de salão, regional e outras. - Vivenciar situações de brincadeiras e jogos.

1.3 Dimensão Atitudinal - Valorizar o patrimônio de jogos e brincadeiras do seu contexto.

- Respeitar os adversários, os colegas e resolver os problemas com atitudes de diálogo e não violência. - Predispor a participar de atividades em grupos, cooperando e interagindo.

- Reconhecer e valorizar atitudes não preconceituosas quanto aos níveis de habilidade, sexo, religião e outras.

É importante frisar que na prática docente não há como dividir os conteúdos na dimensão conceitual, atitudinal e procedimental, embora possa haver ênfases em determinadas dimensões. Por exemplo, o professor solicita aos alunos para realizarem o aquecimento no início de uma aula, enquanto eles executam os movimentos de alongamento e flexibilidade o professor pode conversar com eles sobre qual a importância de realizar tais movimentos, o objetivo do aquecimento, quais grupos musculares estão sendo exigidos e outros. Assim, tanto a dimensão procedimental como a conceitual estão envolvidas nesta atividade.

Pode se ir mais longe no mesmo exemplo, quando o professor sugere que os alunos realizem estes exercícios em duplas, deve também discutir a importância do respeito ao próprio limite e ao do colega. Deste modo estamos tratando da dimensão atitudinal.

De acordo com Coll et al. (2000) há uma reivindicação freqüente de que na escola sejam ensinados e aprendidos outros conhecimentos considerados tão ou mais importantes do que fatos e conceitos como, por exemplo, certas estratégias ou habilidades para resolver problemas, selecionar a informação pertinente em uma determinada situação ou utilizar os conhecimentos disponíveis para enfrentar situações novas ou inesperadas, ou ainda, saber trabalhar em equipe, mostrar-se solidário com os colegas, respeitar e valorizar o trabalho dos outros ou não discriminar as pessoas por motivos de gênero, idade ou outro tipo de características individuais.

currículo oculto

A Educação Física, contudo, ao longo de sua história, priorizou os conteúdos numa dimensão quase que exclusivamente procedimental, o saber fazer e não o saber sobre a cultura corporal ou como se deve ser. Embora esta última categoria aparecesse na forma do

Em pesquisa realizada anteriormente por Darido (2003), ficou evidente a falta de tradição da área no encaminhamento dos conteúdos numa dimensão conceitual. Através da observação das aulas de 7 professores de Educação Física do ensino fundamental e médio, verificou-se que os professores não trabalham com conhecimentos acadêmicos nas aulas de Educação Física. Embora os professores pesquisados, todos com pós-graduação, afirmassem que um dos objetivos da Educação Física refere-se à busca da autonomia do aluno após o término da escolarização formal, e esta autonomia é facilitada a partir do momento em que o aluno conhece (portanto, a nível cognitivo), a importância da atividade física, os seus benefícios, as melhores maneiras de realizá-la, as principais modificações ocorridas no ser humano em função da prática da atividade física, além do conhecimento sobre o contexto das diferentes práticas corporais, - eles não trabalhavam os conteúdos numa dimensão conceitual.

Em outras palavras, a discussão sobre a inclusão destes conteúdos na área é extremamente recente e há dificuldades na seleção e na implementação de conteúdos relevantes. Além disso, muitas vezes, a comunidade escolar não oferece respaldo para os professores trabalharem com esta proposta, e os alunos são bastante resistentes à propostas que incluam uma discussão mais sistematizada sobre a dimensão conceitual e atitudinal nas suas aulas, até porque há uma tradição muito acentuada na escola de que Educação Física é muito divertida porque se resume ao fazer, ao brincar e não ao compreender os seus sentidos e significados.

Castellani Filho (1993) lembra que os cursos de futebol ministrados à época da sua formação (década de 70), eram voltados ao saber fazer, ao saber jogar (como ainda são hoje, na grande maioria dos casos). O autor se pergunta porque, depois de 2 ou 3 anos de estudo do futebol os alunos não conseguiam entender a razão de pendurar chuteirinhas nos quartos das mães que tinham dado a luz a meninos nas maternidades, o significado da identidade da cultura corporal de uma nação, as discussões presentes nas obras de Nelson Rodrigues ou, ainda, a presença da estética numa partida de futebol e muitas outras questões vinculadas ao contexto do futebol.

No nosso entender esta argumentação também dá sustentação à Educação Física no ensino fundamental e médio, ou seja, não basta ensinar aos alunos a técnica dos movimentos, as habilidades básicas ou, mesmo, as capacidades físicas. É preciso ir além e ensinar o contexto em que se apresentam as habilidades ensinadas, integrando o aluno na esfera da sua cultura corporal. No entanto, como alertou Betti (1994), não é propor que a Educação Física na escola se transforme num discurso sobre a cultura corporal, mas uma ação pedagógica com ela. O autor argumenta que a linguagem deve auxiliar o aluno a compreender o seu sentir corporal, o seu relacionar-se com os outros e com as instituições sociais de práticas corporais.

Assim, dentro de uma perspectiva de Educação e também de Educação Física seria fundamental considerar os procedimentos, fatos, conceitos, as atitudes e os valores como conteúdos, todos no mesmo nível de importância.

Neste sentido, o papel da Educação Física ultrapassa o ensinar esporte, ginástica, dança, jogos, atividades rítmicas, expressivas e conhecimento sobre o próprio corpo para todos, em seus fundamentos e técnicas (dimensão procedimental), mas inclui também os seus valores subjacentes, ou seja, quais atitudes os alunos devem ter nas e para as atividades corporais (dimensão atitudinal). E, finalmente, busca garantir o direito do aluno de saber porque ele está realizando este ou aquele movimento, isto é, quais conceitos estão ligados àqueles procedimentos (dimensão conceitual).

1998)

Os conteúdos são os meios pelos quais o aluno deve analisar e abordar a realidade de forma que, com isso, possa ser construída uma rede de significados em torno do que se aprende na escola e do que se vive. Desse modo, junto com considerações importantes como a relevância social do conteúdo é apontada a preocupação em se trabalhar com os conteúdos escolares nas três dimensões: atitudinal, conceitual e procedimental (BRASIL,

Na Educação Física escolar, por conta de sua trajetória histórica e da sua tradição, a preocupação do docente centraliza-se no desenvolvimento de conteúdos de ordem procedimental. Entretanto, é preciso superar essa perspectiva fragmentada, envolvendo, também, as dimensões atitudinal e conceitual.

Com essa leitura da prática pedagógica, os PCNs da área da Educação Física sugerem que as atitudes, os conceitos e os procedimentos dos conteúdos sejam trabalhados em toda a dimensão da cultura corporal, envolvendo, dessa forma, o conhecimento sobre o corpo, esportes, jogos, lutas, ginásticas, atividades rítmicas e expressivas (BRASIL, 1998).

Na prática concreta de aula significa que o aluno deve aprender a jogar queimada, futebol de casais ou basquetebol, mas, juntamente com estes conhecimentos, deve aprender quais os benefícios de tais práticas, porque se pratica tais manifestações da cultura corporal hoje, quais as relações dessas atividades com a produção da mídia televisiva, imprensa, dentre outras. Dessa forma, mais do que ensinar a fazer, o objetivo é que os alunos e alunas obtenham uma contextualização das informações como também aprendam a se relacionar com os colegas, reconhecendo quais valores estão por trás de tais práticas.

A questão que se coloca por ora é a seguinte: que produtos da atividade humana construídos no processo devem ser assimilados pelas novas gerações? Ou, que conteúdos os alunos deverão adquirir a respeito da Educação Física a fim de se tornarem preparados e aptos para enfrentar as exigências da vida social, exercício da cidadania, e nas lutas pela melhoria das condições de vida, de trabalho e de lazer?

2 As influências e tendências da Educação Física e implicações para os conteúdos escolares

Os conteúdos escolares não existiam na sua forma atual, eles têm um caráter histórico, eles vão sendo elaborados e re-elaborados conforme as necessidades de cada época e dos interesses sociais vigentes.

No sentido de examinar mais detalhadamente algumas facetas dos conteúdos da

Educação Física na escola procurou-se analisar as principais influências e tendências e os seus desdobramentos no processo de construção dos conteúdos escolares.

francesa (BETTI, 1991)

No Brasil, a Educação Física na escola recebeu influências da área médica com ênfase nos discursos pautados na higiene, saúde e eugenia, dos interesses militares e do nacionalismo. Especificamente, quanto aos conteúdos, até os anos 60, esteve centrado nos movimentos ginásticos europeus, especialmente os de Ling, Janh e depois da escola

O método francês, principal referência nesta época, preconizava uma Educação

Física orientada pelos princípios anátomo-fisiológicos, visando o desenvolvimento harmônico do corpo, e na idade adulta a manutenção e melhoria do funcionamento dos órgãos. Enquanto valores subjacentes buscavam um homem obediente, submisso e que respeitasse as autoridades superiores sem questionamento, além disso, não havia preocupação com o ensino de conceitos de qualquer espécie (SOARES et al., 1992).

Assim, pode-se concluir que os principais conteúdos da Educação Física nesta época eram relacionados a aprendizagem dos movimentos ginásticos (dimensão procedimental), mas no currículo oculto (as vezes não tão oculto assim), tinha também a perspectiva dos conteúdos atitudinais, que buscavam valores de obediência e submissão.

cooperativa e coletivamente e prepara-se, assim, para a vida

Em seguida, Betti (1991) afirma que a Educação Física brasileira sofreu forte influência do Método Desportivo Generalizado (MDG), que procurava atenuar o caráter formal da ginástica incluindo o conteúdo esportivo, com ênfase no aspecto lúdico. Para tal finalidade, o jogo esportivo foi percebido como um meio privilegiado, porque através do jogo o aluno descobre suas aptidões e gostos, adquire conhecimento de si próprio, trabalha

De acordo com Listello, principal defensor desta proposta, os objetivos do Método

Desportivo Generalizado são: iniciar os alunos nos diferentes esportes, orientar para as especializações através do desenvolvimento e aperfeiçoamento das atitudes e gestos, desenvolver o gosto pelo belo, pelo esforço e performance, e provocar as necessidades de higiene.

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