O que é Esporte - Manoel Tubino

O que é Esporte - Manoel Tubino

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A geografia do esporte

Os esportes de identidade cultural somados às modalidades incorporadas aos hábitos da população explicam uma distribuição geográfica das práticas esportivas. Essa geografia, é evidente, pode ser nacional ou regional. A ampla difusão do esporte vem introduzindo diferentes modalidades esportivas em vários países. O exemplo mais recente é o futebol, que está sendo incorporado à cultura esportiva dos

Estados Unidos e do Japão. As políticas públicas de prática esportiva também influem decisivamente nessa distribuição geográfica. Os ídolos do esporte se tornam modelos para os jovens, incentivando a prática esportiva.

No Brasil, é fácil observar que a grande vocação esportiva nacional são os esportes coletivos — futebol, basquete, vôlei e outros. O número de praticantes e os resultados obtidos internacionalmente pelo país nessas modalidades comprovam essa afir- mação. JOGOS OLÍMPICOS: A GRANDE

É fato que a maioria das modalidades esportivas não faz parte dos Jogos Olímpicos. É também fato que os preceitos introduzidos na Carta Olímpica, na restauração das Olimpíadas, no final do século passado, foram praticamente soterrados pela avalanche de mudanças que sacudiu o planeta neste século. É ainda fato que um forte esquema comercial en- volve as disputas olímpicas. Mas é impossível deixar de reconhecer que, apesar de tudo, os Jogos

Olímpicos, realizados a cada quatro anos, continuam a merecer o status de maior celebração do esporte, atraindo a atenção da mídia e despertando o interesse da população mundial. É evidente que o modelo atual das Olimpíadas está muito distante daquele das primeiras disputas. Todavia, a tradição das competições de atletismo, ginástica olímpica, natação e dos chamados esportes coletivos tem garantido o extraordinário sucesso dos Jogos Olímpicos.

O Comitê Olímpico Internacional (COI), sempre tentando aprimorar o movimento olímpico, acrescentou a ele mais duas realizações: a Solidariedade Olímpica e a Academia Olímpica. A primeira tem como objetivo desenvolver o esporte nas nações do

Terceiro Mundo, com recursos oriundos das Olimpíadas, principalmente da venda dos direitos de

transmissão para a televisão. A Academia Olímpica, por sua vez, tem a finalidade de resgatar e preservar a memória olímpica.

Embora os Jogos Olímpicos envolvam somente provas de alta competição, eles exercem grande influência no esporte popular e no esporte escolar, por meio do chamado efeito imitação. Em geral, depois de uma Olimpíada, cresce o número de praticantes das modalidades esportivas que obtiveram maior sucesso e foram mais divulgadas pela mídia.

Quando foi reconhecido o direito de todas as pessoas à prática esportiva, naturalmente o esporte ampliou o seu alcance entre a população, passando a ser praticado também por portadores de deficiências e idosos. Atualmente, o número de pessoas idosas ou portadoras de deficiências que têm o hábito de praticar esportes aumentou muito em todas as manifestações esportivas (esporte-educação, esporte-participação e esporte-performance). Hoje em dia, multiplicam-se as competições da chamada ca- tegoria masters, para idades mais avançadas, e as competições adaptadas para deficientes. Após os Jogos Olímpicos, acontecem os Jogos Paraolímpicos, cujos participantes são atletas que apresentam algum tipo de deficiência. Estudos recentes mostram que essas competições têm ajudado bastante na restauração da autoconfiança e do equilíbrio psicológico daqueles que apresentam algum tipo de deficiência.

As conexões com outras áreas de atividade

Já foi visto ao longo desta obra que o esporte relaciona-se com inúmeras outras áreas da atividade humana, como a educação, a cultura, a ciência e a saúde. A principal ligação do esporte com a educação se traduz no esporte-educação; a relação do esporte com a cultura se faz por intermédio do jogo que origina cada modalidade esportiva; a relação

com a ciência está principalmente no fato de o pró- prio esporte ter sido de certa forma elevado a tal condição; por fim, a saúde e o esporte mantêm es- treita ligação pelos próprios benefícios físicos e emocionais que a prática esportiva pode proporcio- nar ao ser humano.

O esporte se relaciona também com a economia, a indústria e o trabalho. O crescimento do aspecto econômico dos assuntos esportivos, o desenvolvimento ininterrupto de uma indústria especificamente esportiva e o grande número de empregos dire-

O QUE É ESPORTE55 tos e indiretos criados em função da prática de esportes são fatos que evidenciam a ligação do esporte com essas áreas e permitem supor a sua cone- xão com inúmeros outros campos da atividade humana.

Em primeiro lugar, é importante esclarecer que a ética esportiva é entendida como a ciência da con- duta moral das pessoas na prática do esporte. O conceito de ética esportiva nasceu com o associa- cionismo do esporte moderno, que é explicado, por sua vez, pelo aparecimento de clubes e entidades dirigentes esportivas, como as federações nacionais e internacionais. No final do século XIX, com o movimento de restauração das Olimpíadas, surgiu o outro pilar da ética esportiva: o fair-play, que pode ser entendido como o respeito às regras e aos códigos esportivos por parte dos atletas. Faz parte desse conceito também a percepção de que os oponentes são apenas adversários esportivos, e não inimigos.

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O primeiro conflito ético do esporte foi o profissionalismo. Depois houve a interferência política nas competições esportivas, fazendo do esporte mais um instrumento da disputa político-ideológica. Essa politização dos eventos esportivos provocou a busca da vitória a qualquer custo pelos atletas e pelas equipes esportivas, o que passou a ser chamado de "chauvinismo de vitória". O doping e o suborno ganharam terreno como conseqüência do uso político do esporte.

Evidentemente, houve reações, na busca de urn refortalecimento da ética esportiva, por parte da intelectualidade esportiva internacional e dos orga- nismos internacionais relacionados à prática esportiva.

Quando o esporte ampliou o seu conceito, somando à perspectiva do rendimento as dimensões do esporte-participação e do esporte-educação, é claro que a ética esportiva teria de se adaptar. Foi justamente na busca dessa nova ética esportiva que se iniciou um importante debate em todos os segmentos ligados aos fatos esportivos. O que se sabe é que a nova ética esportiva deriva da ética geral e que o equilíbrio entre a atitude ética e a atitude esportiva deve resultar a formação de um renovado espírito esportivo. É fácil perceber que no esporte- educação a ética esportiva estará condicionada a princípios educativos, como cooperação, solidarie- dade e outros. Por outro lado, no esporte-participação, a referência ética será o bem-estar social e a qualidade de vida, enquanto no esporte de rendimento, tão explorado comercialmente, a ética esportiva deverá renovar os conceitos de associacionismo e fair-play.

O esporte é um campo social repleto de coisas notáveis e com poucos defeitos. Não é verdade. O esporte, como qualquer área de atuação humana, possui vícios, questões e grandes problemas.

A busca de um novo espírito esportivo, que contribua para o fortalecimento da ética no esporte da atualidade, a necessidade de um controle do aspecto comercial exacerbado do esporte de rendimento, a substituição das características do esporte de rendimento nos eventos de esporte-educação, o com- bate ao doping e a procura de uma fórmula para romper os "feudos" instalados nas entidades dirigentes do esporte são apenas alguns dos grandes desafios do mundo esportivo contemporâneo.

Quanto ao doping, pode-se dizer que é o flagelo do esporte moderno de competição, pois provoca fraudes nos resultados, criando falsos vencedores, e ao mesmo tempo lesa organicamente atletas de grande potencial. As entidades dirigentes muitas vezes aproveitam o esporte para defender interesses pessoais. É evidente que há bons dirigentes, compromissados em fazer do esporte um fato social importante. Entretanto, existem aqueles que criam fortes estruturas elei- torais nas federações, que possibilitam o surgimento de "feudos" nocivos ao desenvolvimento das

modalidades esportivas.

Também é necessário denunciar que no esporte, desde o tempo dos antigos gregos, as mulheres foram discriminadas, o que pode ser constatado pela quantidade de modalidades exclusivas do sexo masculino e pelo pequeno número de dirigentes e árbitros esportivos do sexo feminino.

Outro dos maiores problemas atuais do esporte é a violência nas disputas esportivas, dentro e fora dos palcos das competições. É evidente que a vio- lência não é do esporte, mas ela encontra nos palcos esportivos, pelas paixões envolvidas, um terreno fértil para a sua propagação.

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Apesar disso, o esporte é ainda considerado um extraordinário instrumento de paz e um dos melhores meios de convivência humana, devido a sua característica lúdica e sua tendência de promover a confraternização entre os diferentes participantes das competições.

Como a leitura sobre o jogo, recomendam-se duas obras clássicas:

Huizinga, J. Homo Ludens, Essaisurla Formation duJeu. Paris, Gallimard, 1951;

Caillois, R. Lê Jeu et lês Hommes — lê Masque et lê Vertige. Paris, Gallimard, 1958.

Para o entendimento do fenômeno esportivo, existem inúmeras obras nacionais e estrangeiras que aprofundam os conhecimentos nesse sentido. Devo indicar, sobre os aspectos históricos do esporte: Lê Floc'hmoan, J. La Gênese dês Sports. Paris, Payot, 1962; Gillet, B. Histoire du Sport. Paris, Presses Universitaires de France, 1975;

Ulman, J. De Ia Gymnastique aux Sports Modernes. Paris, Vrin, 1965.

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Sobre o esporte em geral, como fenômeno, são importantes as leituras:

Tubino, M.J.G. Teoria Geral do Esporte. São Paulo, Ibrasa, 1987;

Cagigal, J.M. Deporte-Pulso de Nuestro Tiempo. Madrid, Cultura y Deporte, 1972;

Cagigal, J.M. Deporte: Espetáculo y Acción. Madrid, Salvat, 1981;

Cagigal, J.M. Cultura Intelectual y Cultura Física. Buenos Aires, Kapelusz, 1979.

A respeito do esporte na escola, deve-se ler:

Melo de Carvalho, A. Desporto Escolar — Inovação Pedagógica e Nova Escola. Lisboa, Caminho, 1987.

Para aprofundar-se na dimensão social do esporte-participação, ler:

Cazorla et allii. Deporte Popular, Deporte de Elite

— Elementos para Ia Reflexión. Valencia, Ayuntamento de Valencia, 1984;

Bento, J.O. Desporto, Saúde, Vida — Em Defesa do Desporto, Lisboa, Horizonte, 1991.

Em relação aos aspectos filosóficos do esporte, existem duas obras importantes:

Lenk, H. Aktuelle Probleme der Sportphilosophie. Kõln, Bundesinstitut für Sportwissenschaft, 1983;

Bento, J. & Marques, A. Desporto, Ética, Sociedade. Porto, Actas do fórum "Desporto, Ética, Sociedade", Universidade do Porto, 1989.

Os aspectos sociais do esporte estão bem analisados nas obras:

Brohm, J.M. Sociologie Politique du Sport. Paris,

Delargue, 1976;

Pociello, C. Sports et Société — Approche Socioculturelle dês Pratiques. Paris, Vigot, 1981;

Lüschen, G. & Weis, K. Sociologia dei Deporte. Valladolid, Minon, 1979;

Magnane, G. Sociologia do Esporte. São Paulo,

Perspectiva, 1969;

Parlebas, P. Elementos de Sociologia dei Depor- te. Andalucia, Universidad Internacional Deportiva de Andalucia, 1988;

McPherson, B.; Curtis, J.E. & Loy, J.W. The Social Significance of Sport — An Introduction to the

Sociology of Sport. Champaign, Human Kinetics Books, 1989;

Tubino, M.J.G. As Dimensões Sociais do Esporte. São Paulo, Cortez Editores Associados, 1992.

Para entender a realidade brasileira esportiva na atualidade:

Tubino, M.J.G. et allii. Repensando o Esporte Brasileiro. São Paulo, Ibrasa, 1988.

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Finalmente, no sentido de uma projeção do fenô- meno do esporte, a melhor indicação é: Portugal. Câmara Municipal de Deiras. O Despor- to no Século XXI — Os Novos Desafios, 1990.

Manoel José Gomes Tubino, nascido em Pelotas (RS), fez seus estudos secundários em Campinas, e depois cursou o Colégio Naval e a Escola Naval. Formou-se em Educação Física na Escola de Educação Física do Exército, tendo depois obtido os seguintes títulos de pós-graduação stricto-sensu:

* Mestre em Educação, pela Universidade Federal do Rio de

Janeiro;

* Doutor em Educação Física pela Universidade Livre de Bruxelas;

* Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio de

Janeiro; * Livre-docência pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Além disso, já escreveu mais de uma dezena de livros sobre educação física, esportes, universidade e tecnologia educacional. Publicou mais de uma centena de artigos no Brasil e no exterior.

No período conhecido como Nova República, foi presidente do

Conselho Nacional de Desportos (CND), de 1985 a 1990, e acumulou a Secretaria Nacional de Educação Física e Desportos, em 1989._

Depois de dirigir a Escola de Educação Física de Volta Redon- da, tornou-se docente da Universidade Gama Filho, onde está desde 1975. Após exercer as funções de vice-diretor e diretor de de- partamento e decano de Ciências Humanas, hoje é professor titular e vice-reitor acadêmico. Atualmente faz parte também do Conselho de Assessores do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvi- mento Científico e Tecnológico), é conselheiro da Aiesep (Association Internationale dês Écoles Superieures d'Éducation

Physique) e vice-presidente da Fiep (Fédération Internationale d'Éducation Physique). É ainda membro da Academia Brasileira de Ciências Sociais.

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