Artigo - O ambiente físico de trabalho e o desempenho da produtividade do trabalhador dentro do setor oleirocerâmico amapaense - EPAEP - 2010

Artigo - O ambiente físico de trabalho e o desempenho da produtividade do...

(Parte 1 de 2)

18 a 20 de Agosto. Belém. PA

O ambiente físico de trabalho e o desempenho da produtividade do trabalhador dentro do setor oleiro/cerâmico amapaense

Álisson Sousa da Silva 1 , UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAPÁ

E-mail: doutark@yahoo.com.br

Regina Célis Martins Ferreira 2 , UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAPÁ

E-mail: rcmferreira@seama.edu.br

Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar o estudo do ambiente físico e como as condições do ambiente favorecem no desempenho da produtividade e na qualidade de vida do trabalhador. Utilizou-se o método de observação para se chegar a resultados preliminares, concluindo que o progresso da produção depende diretamente desse ambiente. Palavras-chaves: Ambiente físico de trabalho; Produtividade; Qualidade de vida.

Introdução

Este trabalho é uma pesquisa que se encontra em andamento, que iniciou nas visitas de campo das disciplinas Engenharia de Métodos, Gestão da Qualidade e Planejamento e Controle da Produção. As visitas de campo tinham como proposta servir de orientação para reconhecimento de processos produtivos dentro do que se propõe cada disciplina. A partir de então, se iniciou estudos no setor oleiro como forma de obter informações para elaboração do trabalho de conclusão de curso.

A pesquisa está sendo realizada no Pólo Industrial de Macapá, nas três maiores olarias, tem como objetivo identificar a influência dos fatores que interferem nas condições de trabalho e analisar como a estrutura do ambiente físico vem influenciando em relação à produção e aos aspectos ligados diretamente à força de trabalho, verificou-se também se os ambientes estabelecem e cumprem as normas técnicas que garantem o aumento da produtividade dentro do trabalho.

Este estudo se divide em três momentos de discussão: o primeiro apresenta conceitos que fortalece o entendimento sobre produção, fator trabalho, produtividade e qualidade de vida do trabalhador. Em seguida, apresenta a relação do ambiente de trabalho e a produtividade do trabalhador. Finalizando, aponta as condições de trabalho no setor oleiro/cerâmico do Amapá.

1 Aluno de Graduação do 7º Período do Curso de Engenharia de Produção da Universidade do Estado do Amapá.

2 Orientadora, Economista, Mestre em Desenvolvimento Regional UNIFAP, Docente do Curso de Engenharia de

Produção da Universidade do Estado do Amapá.

18 a 20 de Agosto. Belém. PA

1. Produtividade e o fator trabalho

Segundo Nunes (2008), a produção é um tipo de fenômeno econômico que consiste na atuação do homem sobre a natureza com o objetivo de se obter, através de um determinado processo produtivo, bens (incluindo produtos e serviços) necessários para a satisfação das suas necessidades. Sendo assim, a produção inclui os bens iniciais (ou bens intermédios) e todas as operações e fatores de produção que lhe agreguem valor. A produção segundo Schumpeter (1982) e o processo de transformação dos recursos produtivos mediante ao uso de tecnologia que gera como resultado à materialização de bens e serviços e dinamiza o ciclo econômico, buscando seu desenvolvimento. Em termos aos métodos matemáticos, a produção é definida como uma função direta do uso dos fatores de produção com aumento de bens e serviços, isto é, admitiremos a utilização pela firma de apenas dois fatores de produção, quais sejam capital (K) e trabalho (L). Portanto a função de produção da firma seja PT = f (L, K), tal que K permaneça constante, variando apenas a quantidade de mão-de-obra/trabalho (L) utilizada. Assim, a função de produção será:

PT = f (L, K) >> PT = f (L)

Na produção, quando se trata de recursos produtivos, um importante fator é à ocupação da mão-de-obra, considerada um fator variável, ou seja, o seu aumento ou diminuição interfere diretamente na quantidade produzida. A relação entre produção e trabalho permite entender que sem o segundo fator, que juntamente com outros, a oferta de bens não aconteceria ou então seria bem limitada. Observa-se, na Figura 1 que, à medida que se empregam maiores quantidades de mão-de-obra (L), ou seja, quando se aumenta a quantidade de mão-de-obra utilizada de L1 para L2 e de L2 para L3, sendo L1 < L2 < L3, obtêmse quantidades cada vez maiores do produto (X), sendo x1 <x2 <x3.

Figura 1 - Comportamento da função de produção Fonte: Machado, 2002

A importância do fator trabalho, como um dos principais responsáveis pela realização das atividades econômicas dentro do processo produtivo, acontece pela venda da força de

18 a 20 de Agosto. Belém. PA trabalho, que Marx apud Sandroni (1995, p. 60) coloca que o trabalho é a essência do homem, pois é o meio pelo qual se relaciona com a natureza e a transforma em bens, aonde vai se dar à relação de valor. O trabalho é uma mercadoria que possui um valor de uso e um de valor de troca, ou seja, há um fortalecimento da mais valia que vem a ser a diferença entre o valor produzido pelo trabalho e o salário pago ao trabalhador, que seria a base do lucro no sistema capitalista ajudando na acumulação do capital.

Ribeiro (2009) reforça o valor do trabalho quando enfatiza o art. 3º da CLT que considera empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário. Talvez a afirmação de Ribeiro se fortaleça pela necessidade que o individuo tem no consumo de bens e serviços, com isso, se obriga a vender seu trabalho para que possa por meio dele alcançar renda e atender os seus desejos, Frederic Taylor apud Chiavenato (2004, p. 48) chama de Homo Economicus:

Toda pessoa influenciada pela recompensas salariais, econômicas e materiais. O homem procura o trabalho não porque gosta dele, mais como meio de ganhar a vida por meio do salário. O homem é motivado a trabalhar pelo medo da fome e pela necessidade de um meio para viver.

Com o avanço tecnológico e o domínio de técnicas na indústria fordista, o reconhecimento da valorização do trabalho tornou-se menor, pois a mão-de-obra pode ser substituída com muita facilidade, onde em alguns processos de produção o trabalhador é o fator de menor importância. Determinados processos de produção priorizam a substituição do homem pela máquina, em razão da dinâmica e a escala de produção ser bem maior. Os custos de produção do trabalho humano é um custo elevado para o empregador, que além de pagamentos de salários, deve ainda, desembolsar pagamentos com encargos sociais e investimentos em ambientes de trabalho mais favoráveis e adequados para garantir qualidade e produtividade à mão-de-obra empregada, logo os desembolsos com custo do trabalho contribuem para que o trabalho humano seja sub-julgado a segundo plano.

O valor do trabalho não só com a remuneração, mas também as estruturas físicas adequadas de trabalho tem sido ao longo do tempo de pouco reconhecimento, não dado tanta importância, isso acontece desde os primórdios da civilização e tem se agravado com a dinâmica do processo tecnológico e o avanço da globalização. Mayo (1927 apud Chiavenato 2004, p. 8) pela Teoria das Relações Humanas mostra o esmagamento do homem pelo impetuoso desenvolvimento da civilização industrializada.

O ambiente físico do trabalho é tido como principal agente para o desenvolvimento de processos produtivos, seja em processos industriais, comerciais ou agropecuários, isso não importa. Em grande parte dos processos de produção, ambientes que atendem padrões ergonométricos adequados quase sempre não são vistos, estes ambientes apresentam estruturas físicas inadequadas e baixo padrão de qualidade, contribuindo para uma queda na produtividade do trabalho:

Produtividade é minimizar cientificamente o uso de recursos materiais, mãode-obra, máquinas, equipamentos etc., para reduzir custos de produção, expandir mercados, aumentar o número de empregados, lutar por aumentos reais de salários e pela melhoria do padrão de vida, no interesse comum do capital, do trabalho e dos consumidores (SANTOS, 1999, p. 1).

18 a 20 de Agosto. Belém. PA

2. O ambiente de trabalho e o aumento da produtividade

A importância do ambiente físico para o desenvolvimento da produtividade é a base para o que o empresário e os trabalhadores atinjam seus objetivos em comuns. No que diz Vasconcelos (2001) o ambiente é o canteiro onde irão germinar as sementes da boa convivência, onde proliferarão boas idéias, e onde o crescimento mútuo acontecerá naturalmente. A prática diária estabelecidas pela empresa ao trabalhador do ambiente ideal, de conforto e qualidade, condiz a uma satisfação e confere um aumento do lucro. Toda circunstância que coloque em risco este ambiente tem que ser avaliada.

Propiciar um ambiente adequado à realização das atividades produtivas dispõe ao trabalhador melhor qualidade de vida, uma vez, que quando posto em condições de trabalho apropriadas, a delegação de responsabilidades é feita de modo a não sobrecarregar o trabalhador, apontado por Chiavenato (2004 p.48) que a eficiência do processo não depende apenas do método de trabalho e do incentivo salarial, mas também de um conjunto de condições de trabalho que garantam o bem estar físico do trabalhador e a diminuição da fadiga.

Dentro desse contexto, à ergonomia organizacional que se ocupa da otimização dos sistemas sócio-técnicos, abrangendo as estruturas organizacionais, políticas e de processos, procura definir os diversos fatores que influenciam no processo produtivo e tenta reduzir com suas técnicas conseqüências nocivas e que provoquem doenças ocupacionais sobre o trabalhador. Desta forma, ela traz costumes que vão reduzir a fadiga, estresse, erros e acidentes, proporcionando segurança, satisfação e saúde aos trabalhadores, durante o seu relacionamento com o sistema produtivo. Seu avanço facilita à realização de tarefas fazendo jus a rapidez e qualidade, proporcionando à empresa produzir mais dentro de um padrão de qualidade, gerando um quesito importante para o processo de produção, que é a satisfação e a qualidade de vida do trabalhador.

Ida (2005) em seus estudos de ergonomia aponta que o espaço físico e as condições dos ambientes (salubridade, iluminação, ventilação, ruídos, vibrações e etc...) são fatores que interferem no rendimento do trabalho e na qualidade de vida do trabalhador de forma direta, provocando reações fisiológicas prejudiciais ao organismo, aumentando o estresse e a perda de produtividade.

França (1997:80) diz que a qualidade de vida é o conjunto de ações de uma empresa, que envolve a implantação de melhorias e inovações gerenciais e tecnológicas no ambiente de trabalho, isso ocorre pela evolução da qualidade total, sendo o último elo da cadeia. Não dá para falar em qualidade total se não se abranger à qualidade de vida das pessoas no trabalho. Qualidade de vida significa condições adequadas e os desafios a ser respeitado com o profissional. O esforço que tem se desenvolvido na conscientização e preparação de uma postura de qualidade em todos os sentidos dentro das empresas tem sido muito grande. O trabalho focado em segurança e saúde do trabalhador tem aumentado substancialmente no mundo moderno.

Portanto, nos aspectos do trabalho é importante às condições prevalecentes no ambiente físico de trabalho, envolvendo a jornada e carga de trabalho, materiais e equipamentos disponibilizados para a execução das tarefas e ambiente saudável (preservação

18 a 20 de Agosto. Belém. PA da saúde do trabalhador), a análise dessas condições reais oferecidas ao empregado para a consecução das suas tarefas, ajuda no controle da qualidade do produto ou do serviço.

Os investimentos no ambiente físico adequado estimulam o trabalhador no desempenho de suas funções e contribuem para os feedbacks constantes acerca dos resultados obtidos, favorecem o andamento do processo como um todo, proporcionando ao indivíduo maior resistência ao estresse, maior estabilidade emocional, maior motivação, maior eficiência no trabalho, melhor auto-imagem e melhor relacionamento. Por outro lado, as empresas são beneficiadas com a força de trabalho mais saudável, menor absenteísmo/rotatividade, menor número de acidentes, menor custo de saúde assistencial, maior produtividade, melhor imagem e, por último, a conquista de seus objetivos, o lucro.

Diversos outros fatores externos e internos influenciam o trabalhador durante a execução de suas atividades, as condições ergonômicas podem afetar seu desempenho e o próprio produto do trabalho. Observa-se que em ambientes de extrema penúria, onde os profissionais atuantes trabalham com poucas condições técnicas e de segurança, existe o não desenvolvimento da capacidade e competência do domínio dos processos e das tecnologias envolvidas na produção. Fatores observados como ambientes de trabalho insalubre, sem perspectivas de ergonomia, inerentes à higiene e à segurança no trabalho inadequado, isso mostra que há a possibilidade de um baixo índice de produtividade.

Quando o empregado é posto em condições de trabalho apropriadas, a delegação de responsabilidades é feita de modo a não sobrecarregar o trabalhador, dentro de uma estrutura pertinente ao que está sendo fabricado, isso facilita à realização de tarefas, fazendo jus a rapidez e qualidade necessária à produção. A empresa produzirá mais dentro de seu trabalho, gerando um quesito muito importante para o processo de produção que é a satisfação trabalhador/empresa.

3. A produção oleira e as condições de trabalho no Amapá

Na produção oleira, as condições do ambiente de trabalho exercem influência direta sobre o trabalhador por ser um trabalho que requer um grande esforço físico. Essas condições denotam uma questão pouco discutida por empresários do ramo, fazendo com que não se tenha olhos para fatores de extrema importância, não somente para a vida do trabalhador que esta ligada diretamente o processo, mais também para as questões de custos empresariais, tendo em vista que quanto melhor o ambiente de trabalho, melhor será realizado as atividades ali desenvolvidas e conseqüentemente, acarretando o aumento da produtividade paralelo ao aumento da receita bruta.

A produção oleiro/cerâmica de hoje não apresenta condições de trabalho muito diferentes do passado, mais se tem a certeza que hoje mais vínculos de qualidade de vida são ofertados ao empregado, pelo fato de que as olarias são mais estruturadas com relação à tecnologia. Neste ambiente algumas condições de maquinário permitem ser o processo mais dinâmico e satisfatório, o que reduz a fadiga e o/stress com o trabalho, porém com relação a parte do ambiente físico este precisa ser avaliado, pois ainda existem condições insatisfatórias que não atendem as exigências das normativas legais.

O Amapá é um estado da região Norte do Brasil, que faz parte do rico ecossistema amazônico, onde possui um ambiente geológico com grande potencialidade para a formação

18 a 20 de Agosto. Belém. PA de depósitos argilosos. O ambiente geológico mais explorado no Estado fica situado especialmente nos municípios de Mazagão, Santana e Macapá. Este ambiente fica localizado em áreas de várzeas, próximo às margens de rios e lagos. Os depósitos existentes despertam grandes interesses econômicos por possuírem uma ótima qualidade para geração de cerâmica vermelha, condição fundamental para se obter produtos com alta qualidade metrológica.

O oleiro/cerâmico do Amapá se destaca no mercado local em razão do Estado possuir um elevado crescimento demográfico, com taxas anuais de quase 4% nos últimos vinte anos, e conseqüentemente uma alta taxa de urbanização, que chega a alcançar cerca de 90% da população (IBGE, 2007). Outro fator, é que nos últimos anos a cidade de Macapá vem assistindo um processo de verticalização, este cenário favorece uma expansão por habitação, que tem um déficit habitacional de quase 25 mil casas. As condições demográficas e urbanas são favoráveis ao setor econômico da construção civil, que apresenta uma demanda considerável por tijolos e telhas, o que faz expandir o setor oleiro/cerâmico no Estado.

O setor de olarias no Amapá tem aproximadamente trinta empresas de pequeno, médio e grande porte, com relação à localização das empresas, em Macapá, cerca de vinte estão no Distrito Industrial e dez estão no pólo da Fazendinha. Essas empresas geram cerca de quatrocentos empregos diretos (SEBRAE, 2007). Considera-se que no oleiro amapaense a maioria das empresas apresenta administração familiar, num trabalho deixado de pai para filho. Uma característica forte do setor é a ausência de profissionalismo ou avanços tecnológicos. A maioria das olarias desenvolvem trabalhos artesanais, de baixo valor agregado, com pouco dado sobre o próprio investimento.

As três empresas que foram analisadas e que participam desse estudo são as que dominam o mercado, nelas encontram-se a maior produção. Nessas empresas foram verificados seus ambientes de trabalho, suas condições e o que disponibilizam para a segurança e saúde do trabalhador. Nas empresas se identificou problemas com relação ao ambiente de trabalho, que são causados por um conjunto de fatores complexos, cujos efeitos são cumulativos. As condições do ambiente nessas cerâmicas foram assim evidenciadas:

Com relação à área de produção os ambientes são insalubres e desolados, não há sistemas de ventilação na área dos fornos, ocasionando o aumento excessivo de temperatura nos setores próximos a área de queima.

(Parte 1 de 2)

Comentários