Farmacotécnica - farmacotecnica02

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Curso de

Farmacotécnica em Manipulação

Atenção: O material deste módulo está disponível apenas como parâmetro de estudos para este Programa de Educação Continuada, é proibida qualquer forma de comercialização do mesmo. Os créditos do conteúdo aqui contido são dados aos seus respectivos autores descritos na Bibliografia Consultada.

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1.5 MATERIAS PARA EMBALAGEM E ACONDICIONAMENTO

Como qualquer produto de consumo, as formas farmacêuticas devem obrigatoriamente ser acondicionadas e embaladas de forma adequada antes de expostas nas prateleiras.

O material utilizado para acondicionamento (container) tem como função garantir a qualidade, a segurança e a estabilidade de seu conteúdo. Já a embalagem, além de ser uma proteção secundária, apresenta também uma função “mercadológica” na apresentação do produto.

A combinação entre materiais de acondicionamento e embalagem deve apresentar os seguintes requisitos:

1. Proteger o medicamento de danos físicos e químicos: vibração (ex.: no transporte), compressão (ex.: pressão aplicada durante estocagem), choque (ex.: impactos durante desaceleração brusca num transporte), abrasão.

2. Ser inerte: não pode interagir com o produto, seja por migração, adsorção, absorção, extração ou qualquer reação química (ex.: perda de conservantes por absorção em tampas de borracha, amolecimento de containers de plástico por ésteres ou ácido salicílico).

3. Suportar extremos de temperatura e umidade característicos das diferentes estações do ano.

4. Ser impermeável a gases da atmosfera, tais como O2 e CO2, evitando assim processos de oxidação e/ou o crescimento de microorganismos comumente favorecidos pela presença de O2, bem como mudanças de pH pela presença de CO2.

5. Evitar a perda de gases voláteis (ex.: perda de fármacos voláteis como salicilato de metila, ou de álcool ou éter, aumentando a concentração de fármaco não-voláteis).

6. Proteger da ação da luz, especialmente para fármacos fotossensíveis.

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7. Serem suficientemente transparentes para permitir a inspeção do conteúdo.

8. Proteger o medicamento de partículas contaminantes do ar, tais como microorganismos e poeira.

9. Proteger de animais (ex.: insetos e roedores).

10. Ser inócuo: não liberar partículas para o conteúdo (ex: fiapos de vidro ou metal), não liberar substâncias tóxicas ou que comprometam a estabilidade do conteúdo (ex: unidades poliméricas de materiais plásticos ou álcalis de vidro).

1. Ser fácil de identificar e rotular. 12. Apresentar elegância. 13. Ser de fácil uso e conveniente. 14. Ser barata e econômica.

Algumas diferenças entre acondicionamento e embalagem podem ser exemplificadas no Quadro abaixo:

Acondicionamento Embalagem a) Contato direto, devendo ser inerte, inócuo e estável.

b) Função técnica (proteção e envase).

c) Proteção primária contra luz, umidade, CO2, O2, microorganismos, poeira, insetos.

d) Materiais usuais: vidro, plástico e metal, bem como de uso exclusivo para tampas a borracha.

a) Contato indireto (envolve o material já embalado).

b) Função comercial (apresentação).

c) Proteção secundária contra luz, poeira, insetos e choque mecânico (protege o medicamento por proteger acondicionamento).

d) Materiais usuais: papel ou cartolina

1.5.1 Tipos de materiais de acondicionamento Os acondicionamentos utilizados para medicamentos podem ser de material plástico, metálico ou vidro. As características de cada tipo de material variam, assim como suas aplicações.

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1.5.1.1. Vidros São compostos constituídos de uma mistura de óxidos metálicos nos quais predomina o dióxido de silício (SiO2). Embora fisicamente tenham aspecto de sólido, trata-se de um líquido de elevada viscosidade.

A adição de óxido de cálcio e magnésio aumenta a resistência hidrolítica de vidros alcalinos, sendo que o óxido de magnésio reduz a tendência de desvitricação.

Já a adição de óxido de bário pode levar à redução do ponto de fusão de vidros de sílica ou boro-silícico, aumentando sua fusibilidade. O óxido de alumínio, por sua vez, é empregado na confecção de vidros refratários.

Óxidos de ferro, como Fe2O3, conferem ao vidro cor ligeiramente amareloesverdeada, enquanto o FeO gera uma colororação azul-esverdeada. A cor âmbar é íons Na+. Óxido crômico (Cr2O3) é o agente corante primário para todos os vidros verdes. A principal desvantagem dos vidros, em geral, está na baixa resistência a choques mecânicos.

Como vantagens, estes materiais:

Podem ser moldados em uma grande variedade de formas e tamanhos (fusibilidade). Podem ser transparentes ou âmbar.

Podem ser selados hermeticamente com ou sem o uso tampas.

São impermeáveis à umidade e gases atmosféricos.

Tipos de vidros a) Sílica (quartzo): SiO2 Apresentam boa transparência, maior ponto de fusão, maior custo, maior resistência hidrolítica (menor número de grupos silanóis livres OH-), menor resistência mecânica.

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Uso: cubetas de quartzo são úteis como recipiente para análises espectrofotométricas na região do UV, por não absorverem radiação nesta faixa de freqüência.

b) Sódico-cálcico : (SiO2, NaO2, CaO) Tipo I Apresentam menor ponto de fusão, são mais baratos, têm menor resistência hidrolítica (transfere basicidade).

2 Na2 SiO3 + H2O → Na2 Si2O5 + NaOH Uso: xaropes, solução oral e pós, desde que não sejam muito incompátiveis a álcalis como Na+ e K+.

c) Sódico cálcico tratad : Tipo I e IV Boa fusibilidade, boa resistência hidrolítica, menor custo que a sílica (quartzo) e tipo I. Tipo I até 100 mL, Tipo IV para volumes maiores que 100 ml.

São obtidos com tratamento do Tipo I com vapor de água e SO2.

≡Si-O-Na + H2O → ≡Si-OH + NaOH 2 NaOH + SO2 + ½ O2 → Na2SO4 + H2O de grande volume (tipo IV).

d) Boro-silícico: (SiO2, B2O3) Tipo I Possuem maior resistência térmica (Pyrex®) e coeficiente de dilatação, boa resistência hidrolítica (exceto para poliálcoois), menor ponto de fusão.

Uso: pós (suspensões) injetáveis, soluções aquosas com catalisadores ou soluções alcalinas. Não devem ser usados com polióis como glicerina, propilenoglicol etc.

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1.5.1.2 Plásticos Grupo de resinas sintéticas (polímeros) de altos pesos moleculares, obtidos pela condensação ou adição de unidades denominadas monômeros, podendo, durante o processo de fabrico, ser moldados em diversas formas.

No processo de polimerização, seja por adição (ex: PVC e polietileno) ou por condensação (ex: poliamida ou nylon), podem ser adicionadas substâncias com diversas funções, tais como: plastificantes, estabilizantes, fungicidas, antiestáticos, retardadores de combustão e antioxidantes e corantes.

Como vantagens estes materiais, dependendo do polímero, podem: Apresentar boa inocuidade e estabilidade.

Tipos de plásticos Os plásticos podem, dependendo da composição, apresentar características diversas no que diz respeito à permeabilidade, estabilidade térmica, flexibilidade, transparência (Quadro 1).

Os polímeros de cloreto de polivinila, polietileno, poliestireno, poliamidas, poliuretanos, policarbonatos, celofane, poliacrílicos e polipropileno, por exemplo, integram o grupo dos chamados termoplásticos. Já a baquelite, o cascolac e a fórmica são exemplos de materiais plásticos bastante rígidos (duroplásticos).

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QUADRO 1 – TIPOS DE PLÁSTICOS, CARACTERÍSTICAS E APLICAÇÕES

Tipo de plástico Permeabilida de a gases e vapores

Transparência Termoresistênci

Autoclavaçã o

Outros Aplicações

Celulósicos (metil, etil, hidroxi, etil, carboximetil celulose)

Impermeável Boa Decompõ e em água quente

Não suporta Folhas plastificantes Comprimid os, pós e cápsulas

Polivinílicos (acetato de polivinila e PVC)

Pouco permeável

Boa Alta Sim Frascos e cintas Comprimid os, pós e cápsulas e líquidos

Poliestireno Pouco permeável

Boa Até 90oC Não nas condiçõe s normais

Acondiciona mento de sólidos em geral

Frascos

Polipropileno Permeável Opaco Boa Sim Líquidos e sólidos (revestiment os)

Frascos

Teflon (politetrafluoroetil eno)

- Opaco Até 200 oC

- Pouca adesividade Revestimen to de superfícies

Poliacrilatos (polimetacrilato de metila)

- Boa Baixa Não - Frascos

Poliamidas (nylon) Impermeável Boa Boa Sim - Filmes

Policarbonatos (ésteres do ácido carbônico)

Impermeável a vapor e pouco permeável a gases

- Boa Não Leve e resistente ao choque mecânico

Frascos

Polietileno (baixa pressão) Pouco permeável

Opaco Boa Sim - Frascos p/ injetáveis

Polietileno (alta pressão) Permeável Opaco Baixa Não - Frascos

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Usos: formas líquidas, semi-sólidas e sólidas. Os plásticos celulósicos são usados para embalar comprimidos, cápsulas e pós. Plásticos polivinílicos são usados para acondicionamento de comprimidos, cápsulas, pós e formas líquidas, bem como no revestimento de metais e papéis.

O poliestireno é mais empregado no acondicionamento de formas sólidas. Plásticos termo-resistentes rígidos ou flexíveis de PVC, polietileno polipropileno e poliestireno de alta densidade podem ser utilizados no acondicionamento de injetáveis, desde que não haja cedência de plastificante.

São muito úteis na dispensação de formas semi-sólidas (ex: pomadas, cremes)

1.5.1.3 Metais

Entre os mais utilizados temos os tubos de estanho e alumínio. Ambos são leves e maleáveis, impermeáveis, apresentam boa plasticidade, boa proteção contra luz e boa resistência térmica, são inodoros, não são tóxicos e podem ser moldados facilmente. Como principal desvantagem dos acondicionamentos metálicos está a possibilidade de ocorrer catálise oxidativa.

O estanho Sn, embora mais caro, é mais quimicamente inerte que o alumínio, que em alguns casos exige revestimento interno com vernizes. Usos: formas semi-sólidas, como pomadas e cremes.

1.5.1.4 Borrachas São hidrocarbonetos polimerizados de origem natural (ex: polímeros do isopreno) ou sintética (ex: polímeros do butadieno, siloxano ou cloropreno). São empregados na vedação dos frascos (obs: borracha natural só aplicável a soluções aquosas).

De acordo com o tratamento dado, as borrachas podem apresentar como características: elasticidade, resistência térmica e mecânica etc. Como tratamentos temos a vulcanização, que inclui a adição de dióxido de enxofre

(SO2), zinco (Zn), entre outros compostos com função de ativadores, aceleradores, cargas, amolecedores ou antioxidantes.

A composição complexa das borrachas acarreta possibilidades diversas de interação com o conteúdo. O SO2 e o Zn atacam o anel β-lactâmico das penicilinas.

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Outrossim, as borrachas podem absorver conservante ou antioxidantes, viabilizando indiretamente a proliferação de microorganismos e oxidação.

Usos: são utilizadas em tampas de acondicionamento de produtos injetáveis de doses múltiplas. Estes recipientes fechados com tampas de borracha permitem a retirada com agulhas de sucessivas porções do medicamento destinado à administração parenteral sem alterar concentração, qualidade ou pureza das porções restantes.

2 ESTABILIDADE DE MEDICAMENTOS

Todo medicamento em condições adequadas de acondicionamento e armazenamento deve apresentar, dentro dos limites oficialmente estabelecidos e do seu prazo de validade, atributos de eficácia e segurança referentes à manutenção das suas características físicas, químicas, microbiológicas, terapêuticas e toxicológicas.

O tempo de manutenção destas características se relaciona e depende da maior ou menor estabilidade do medicamento. Por sua vez, este tempo (prazo de validade) é determinado por estudos de estabilidade.

Portanto, prazo de validade é o intervalo de tempo que decorre entre a fabricação e o acondicionamento do medicamento até o momento em que a atividade química (ou potência) do(s) fármaco(s) não seja menor que o limite estabelecido pelas especificações (em geral de 95 a 105%, ou de 90 a 110%), ou suas características físicas, químicas e microbiológicas não mudem apreciavelmente (dentro das especificações), e desde que os produtos resultantes sejam conhecidos, estudados e que não aumentem ou alterem a toxicidade da preparação.

Todo medicamento deve apresentar no rótulo e/ou embalagem o mês e ano de vencimento da validade.

De modo geral o prazo de validade para produtos extemporâneos após violação de acondicionamento, segundo USP/NF, segue o Quadro 2.

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Quadro 2 – Prazo de validade para produtos e matérias-primas violadas

Matérias-primas Formulações aquosas Formulações nãoaquosas

Máximo 6 meses Em geral 14 dias* 25% do prazo original e no máximo 6 meses *Pode ser estendido caso haja informações justificáveis sobre a estabilidade.

2.1 EVIDÊNCIAS DE DETERIORAÇÃO

As evidências de decomposição decorrentes da instabilidade de um produto podem se manifestar por alterações físicas ou químicas. Enquanto as alterações físicas são facilmente detectáveis*, as alterações químicas**, em geral, requerem métodos analíticos sensíveis.

*Alterações físicas: alterações de cor, odor, aspecto (todas as formas farmacêuticas), diminuição ou ganho de volume, turvação e presença de gás (todas as formas líquidas); separação de fases (emulsões), sedimentação (suspensões), fragmentação e caking (formas sólidas).

**Alterações químicas: são evidenciadas pela formação de produtos de decomposição, os quais podem ser responsáveis diretos por diversas alterações físicas, tais como: mudança de cor ou odor, aparecimento de bolhas de gás ou mesmo turvação. Por sua vez, tanto as alterações físicas quanto químicas podem decorrer de alterações microbiológicas.

2.2 FATORES DE INSTABILIDADE

Os fatores relacionados à estabilidade de medicamentos e fármacos podem ser intrínsecos ou extrínsecos. Os fatores intrínsecos dizem respeito à reatividade química e/ou propriedades físico-químicas de cada componente da formulação, bem como, sob a ótica do medicamento, a incompatibilidades e ao tipo de acondicionamento.

Existem três reações mais comuns envolvidas na decomposição de medicamentos: a oxidação, a hidrólise e a fotólise.

Oxidação: processo em que átomo ou molécula perde um ou mais elétrons para um agente oxidante, sendo que no caso de átomos há aumento do no ox. No caso de

35 Este material deve ser utilizado apenas como parâmetro de estudo deste Programa. Os créditos deste conteúdo são dados a seus respectivos autores medicamentos, o principal agente oxidante é o oxigênio. Assim, neste tipo de decomposição há ganho de O e/ou perda de H. Os grupos susceptíveis à oxidação incluem: aldeídos, álcoois, tioálcoois, fenóis, amina, imina e grupos insaturados.

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