Triagem nutricional

Triagem nutricional

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PROJETO DIRETRIZES

TRIAGEM E AVALIAÇÃO DO ESTADO NUTRICIONAL

SOCIEDADE BRASILEIRA DE NUTRICAO PARENTERAL E ENTERAL

Elaboração final: Autores: Maria Carolina Gonçalves Dias ; Denise P. J. van Aanholt ; Lidiane A Catalani;Juliana S. F. Rey; Maria Cristina Gonzales

Colaboradores: Luciana Coppini; João Wilney Franco Filho; Mariana Raslan Paes-Barbosa; Lilian Horie; Valeria Abrahão; Cristina Martins

Triagem e Avaliação Nutricional

ASSUNTO

DIRETRIZES

GRAU DE RECOMENDAÇÃO

ITEM NO TEXTO

A triagem nutricional deve ser realizada no paciente hospitalizado?

A triagem nutricional em pacientes hospitalizados deve ser realizada em até 72 horas da admissão, para identificar o risco nutricional

B

Que método utilizar na triagem?

O NRS 2002 é o método mais indicado no paciente hospitalizado na população brasileira.

A

Qual método de triagem deve ser indicado para os idosos hospitalizados?

A Mini Avaliação Nutricional (MAN) apresenta sensibilidade, especificidade e acurácia na identificação de risco nutricional em idosos.

A

Qual a indicação do uso na prática clínica da avaliação subjetiva global (ASG)?

A ASG é considerada eficiente para avaliação do estado nutricional, com boa reprodutibilidade e capacidade de prever complicações relacionadas à desnutrição.

A

Exame físico nutricional: qual seu papel?

Exame físico faz parte da avaliação nutricional e sua função é auxiliar no diagnóstico nutricional junto às demais ferramentas de avaliação nutricional

A

História dietética: qual método é recomendado?

Não existem métodos de história dietética validados para uso em população hospitalizada.

C

Quais as principais medidas antropométricas que são recomendadas para a avaliação nutricional?

O peso corporal.

B

A medida direta ou indireta da estatura/comprimento.

C

O índice de massa corporal. (IMC)

B

As circunferências e as dobras cutâneas.

C

Quando indicar a impedância bioelétrica (BIA) na avaliação do estado nutricional?

A BIA é indicada na avaliação da composição corporal de indivíduos com IMC entre 16 e 34 kg/m² que possam ser pesados e com estado de hidratação normal com o uso de equações validadas para esta população (C).

C

Exames laboratoriais: o que devo usar na prática clinica?

A albumina sérica é preditora de morbimortalidade e não de desnutrição.

A

Balanço nitrogenado não é considerado bom método de avaliação devido suas limitações

C

Contagem total de linfócitos pode ser um indicador útil de risco de complicações infecciosas em idosos, mas não é considerado bom método de avaliação nutricional.

A

Introdução

A avaliação nutricional é um processo sistemático, sendo o primeiro passo da assistência nutricional. Tem como objetivo obter informações adequadas a fim de identificar problemas ligados à nutrição, sendo constituída de coleta, verificação e interpretação de dados para tomada de decisões referentes à natureza e causa de problemas relacionados à nutrição.

A avaliação nutricional é feita através de comparações entre os dados obtidos e os padrões de referência. Trata-se de um processo dinâmico, que envolve não somente a coleta inicial dos dados, mas também a reavaliação periódica da evolução do estado nutricional do paciente, fornecendo subsídios para o próximo passo, que é o diagnóstico nutricional1.

Diante da reconhecida influência do estado nutricional sobre a evolução clínica de pacientes hospitalizados, especialmente cirúrgicos, todo esforço deve ser realizado para reconhecer e identificar precocemente os pacientes com risco nutricional ou desnutrição2. Apesar da grande variedade de medidas nutricionais não se dispõe, até o momento, de um método padrão ouro para a determinação do estado nutricional. Todos as medidas de utilizadas na sua avaliação podem ser afetadas pela doença ou pelo trauma. Não há, também, um método sem pelo menos uma limitação importante para a avaliação do estado nutricional.

Até que uma técnica precisa e completa de avaliação nutricional seja disponível, convém enfatizar a obtenção do maior número possível de dados com base na história dietética e clínica, no exame físico e nas medições antropométricas e laboratoriais que completam o perfil de avaliação, favorecem a interpretação e tentam identificar a alteração nutricional3, 4.

A importância da triagem e avaliação nutricional é reconhecida pelo Ministério da Saúde do Brasil, que tornou obrigatória a implantação de protocolos para pacientes internados pelo SUS como condicionante para remuneração de terapia nutricional enteral e parenteral5, 6.

Cabe ao profissional nutricionista realizar a triagem e avaliação do estado nutricional do paciente, com base em protocolo pré-estabelecido, de forma a identificar o risco ou a deficiência nutricional7 e também garantir o registro no prontuário do paciente, datados e assinados pelo profissional responsável pelo atendimento5, 6, 8.

A avaliação nutricional do paciente deve ser repetida, no máximo, a cada 10 dias e precede a indicação da terapia nutricional5, 7 .

  1. A triagem nutricional deve ser realizada no paciente hospitalizado?

A triagem nutricional em pacientes hospitalizados deve ser realizada em até 72 horas da admissão, para identificar o risco nutricional. (B)

O NRS 2002 é o método mais indicado no paciente hospitalizado na população brasileira. (A)

A triagem nutricional tem o objetivo de reconhecer uma condição outrora não detectada, o risco nutricional, para que sejam instituídas medidas de intervenção nutricional mais precocemente. Após a triagem, o paciente em risco nutricional deve ser encaminhado para a avaliação do estado nutricional e planejar e iniciar a terapia nutricional, caso seja necessária9, 10.

A inserção de um método de triagem nutricional para identificação de risco nutricional tem sido recomendada, nacional e internacionalmente, por organizações de especialistas, com o objetivo de avaliar efeitos físicos e fisiológicos adversos de pacientes com doenças crônico-degenerativas e/ou lesões agudas11.

Desenvolvido em 2002, Nutritional Risk Screening (NRS-2002), aqui Rastreamento de Risco Nutricional (RRN), é um método de triagem nutricional baseado em resultados observados de estudos prospectivos controlados, aprovado pela Sociedade Européia de Nutrição Enteral e Parenteral, para utilização em pacientes hospitalizados12.

A proposta do NRS é detectar a presença de desnutrição e risco do desenvolvimento de desnutrição durante a internação hospitalar12 e identificar os pacientes que possam ou não se beneficiar de terapia nutricional11.

Os doentes identificados como em risco pela triagem nutricional devem ser submetidos à avaliação nutricional para classificar seu estado nutricional e posteriormente planejar a terapia nutricional2, 3 .

Deve-se realizar a triagem nutricional em pacientes hospitalizados em até 72 horas da admissão para detecção do risco nutricional9

O NRS utiliza os critérios de perda de peso dos últimos três meses, IMC, ingestão alimentar (apetite e capacidade de se alimentar) e fator de estresse. A idade acima de 70 anos é considerada fator de risco adicional para ajustar a classificação do risco nutricional e, na ausência de risco nutricional, o procedimento deve ser repetido em sete dias.

2.   Qual método de triagem deve ser indicado para os idosos hospitalizados?

A Mini Avaliação Nutricional (MAN) apresenta sensibilidade, especificidade e acurácia na identificação de risco nutricional em idosos. (A)

 

A MAN (Mini Avaliação Nutricional - Mini Nutritional Assessment) foi desenvolvida especificamente para avaliação nutricional de idosos. É um método de triagem sensível para identificar risco nutricional e desnutrição em estágio inicial, uma vez que inclui aspectos físicos e mentais que freqüentemente afetam o estado nutricional do idoso, além de aspectos dietéticos. De fato, este instrumento é uma combinação de triagem e avaliação nutricional, pois em sua segunda parte são explorados mais detalhadamente os itens abordados na primeira parte13.

O MAN é atualmente o instrumento melhor estabelecido para triagem nutricional em idosos e deve ser aplicado precocemente na admissão hospitalar. Entretanto, em idosos admitidos em estado agudo, deve-se considerar que o estado mental e físico podem estar temporariamente piorados pela agudização da doença14.

A MAN provou ser um indicador prognóstico significante para morbidade, mortalidade e outros desfechos adversos em idosos. Baixos escores da MAN foram associados com maior tempo de hospitalização, maior freqüência de alta para instituições e mortalidade quase três vezes maior15.

O estado nutricional avaliado pela MAN se correlaciona com parâmetros antropométricos, laboratoriais (albumina, pré-albumina, transferrina, colesterol, retinol, alfa-tocoferol, 25-OH colecalciferol e zinco) e hematológicos (hematócrito e hemoglobina), confirmando sua sensibilidade16, 17

Foi encontrada também correlação entre MAN e ingestão energética e de nutrientes (carboidrato, fibra, cálcio, vitamina D, ferro, vitamina B6 e vitamina C)17, 18. A ingestão energética esteve abaixo das necessidades estimadas em pacientes classificados como desnutridos ou em risco de desnutrição pela MAN19. Baixos escores da MAN também estiveram relacionados com dificuldades de mastigação e deglutição, dentição inadequada e deficiência visual20.

Em pacientes em Terapia Nutricional Enteral (TNE), a MAN pode apresentar ponto crítico, especialmente naqueles pacientes sem nenhuma alimentação por via oral, embora estes pacientes já sejam reconhecidos como em risco nutricional, pois pode mascarar o item de ingestão alimentar recente 14. O MAN é atualmente o instrumento melhor estabelecido para triagem nutricional em idosos e deve ser aplicado precocemente na admissão hospitalar. Entretanto, em idosos admitidos em estado agudo, deve-se considerar que o estado mental e físico podem estar temporariamente piorados pela agudização da doença 14.

Estudo comparativo de métodos de triagem nutricional recomenda a MAN como o método mais indicado para idosos, enquanto que a NRS 2002 é útil principalmente para pacientes hospitalizados não idosos que necessitem de avaliação da terapia nutricional21.

3.  Qual a indicação do uso na prática clínica da avaliação subjetiva global (ASG)?

A Avaliação Subjetiva Global (ASG) tem sido considerada um método de avaliação nutricional com boa reprodutibilidade e capacidade de prever complicações relacionadas à desnutrição e está indicada em doentes sob diferentes condições, como cirurgia do trato gastrintestinal (A), câncer (A), hepatopatias (A) e em pacientes renais crônicos em hemodiálise (A)

Aplica-se o método ASG para diagnosticar e classificar a desnutrição, com enfoque em questões relacionadas à desnutrição crônica ou já instalada, como percentual de perda de peso nos últimos seis meses, modificação na consistência dos alimentos ingeridos, sintomatologia gastrintestinal persistente por mais de duas semanas e presença de perda de gordura subcutânea e de edema22. Além disso, é o único método que valoriza alterações funcionais que possam estar presentes.

A ASG é um método simples e de baixo custo, e que, após treinamento adequado, pode ser efetuada por qualquer profissional da saúde da Equipe Multiprofissional de Terapia Nutricional. Originalmente este método foi desenvolvido e validado para uso em pacientes cirúrgicos, sendo posteriormente aplicado e adaptado a outras situações clínicas, tais como em pacientes nefropatas, oncológicos, hepatopatas, geriatria e HIV positivos23.

Estudos demonstraram que a ASG pode predizer tempo de permanência hospitalar em pacientes com doenças digestivas benignas e malignas24, assim como morbidade em pacientes em pré-operatório de cirurgia eletiva25.

4. Exame físico nutricional: qual seu papel?

Exame físico ou semiologia nutricional faz parte da avaliação nutricional e sua função é auxiliar no diagnóstico nutricional junto às demais ferramentas de avaliação (A)

O exame físico, combinado com outros componentes da avaliação nutricional, oferece uma perspectiva única da evolução do estado nutricional. O exame físico pode fornecer evidências das deficiências nutricionais ou piora funcional que podem afetar o estado nutricional e que muitas vezes podem ser perdidas na entrevista26.

A semiologia nutricional é realizada de forma sistêmica e progressiva, da cabeça aos pés, com o objetivo de determinar as condições nutricionais do paciente, conforme se observa no esquema elaborado abaixo27 (figura 1).

A antropometria auxilia na obtenção de dados de depleção de diferentes tecidos (músculo e gordura)26.

Desta forma, ao final do exame físico, o avaliador consegue diversas informações essenciais para o diagnóstico nutricional 27, 28 , tais como:

a) se o paciente está acima ou abaixo do seu peso habitual

b) sinais de depleção nutricional: perda de tecido subcutâneo na face, bola gordurosa de Bichart, tríceps, coxas e cintura;

c) perda de massa muscular nos músculos quadríceps e deltóide;

d) presença de edema em membros inferiores, região sacral e ascite;

e) presença de desidratação na avaliação do pulso e pele;

f) alteração da coloração de mucosas, pele e conjuntiva para diagnosticar carências de vitaminas e minerais

Na vigência de síndrome da desnutrição, observa-se perda de massa muscular nos músculos quadríceps e deltóide. Perda de tecido subcutâneo é visível na face, tríceps, coxas e cintura. Os achados da inspeção geral refletem desnutrição crônica mais do que uma depleção aguda29.

Presença de palidez em regiões palmo-plantares e das mucosas, principalmente da conjuntiva, é uma indicação de anemia27.

Dharmarajan et.al. 200330 coloca que, como efeito secundário da deficiência de vitamina B12, ocorre proliferação do epitélio gastrointestinal resultando em anorexia, glossite, perda de peso e má absorção.

As deficiências nutricionais mais comuns se manifestam principalmente na pele e dentre eles podemos citar: os de apresentação mais freqüentes como edema e xerose, os de apresentação ocasionais como prurido, acrocianose e distrofia das unhas e os de manifestação mais raras como pelagra, escorbuto e acrodermatite enterohepática31.

Glorio e col. 200032 relataram deficiências causadas por anorexia e bulimia nervosas, dentre as quais podemos destacar a xerose, alopecia, queilose e unhas quebradiças.

Unhas

5. História dietética: existe método recomendado?

Não existem métodos de história dietética validados para uso em população hospitalizada. (C)

Os inquéritos dietéticos podem fornecer informações, tanto qualitativas como quantitativas, a respeito da ingestão alimentar, sendo estes utilizados para avaliar o consumo alimentar de indivíduos e populações em um determinado período de tempo estabelecido previamente33, 34.

Dentre os métodos mais utilizados para estimar a dieta, pode-se destacar o questionário  de freqüência alimentar (QFA) e o recordatório de 24 horas (R24h)34, 35.

O QFA é método de avaliação da ingestão dietética e fundamentalmente importante em estudos epidemiológicos que relacionam a dieta com a ocorrência de doenças crônicas36. Um dos objetivos do QFA é conhecer o consumo habitual de alimentos por um grupo populacional e, neste sentido, a estrutura do instrumento contempla o registro da freqüência de consumo de alimentos em unidades de tempo: dias, semanas, semestres ou anos, podendo contemplar ou não fracionamentos destas unidades37.

Este método raramente tem acurácia suficiente para ser usado para avaliar a adequação da ingestão de nutrientes, tanto em indivíduos quanto em grupos. Isso se deve às características próprias desse método. No QFA, os alimentos são apresentados em uma listagem pré-estabelecida, que, portanto, não contempla todos os alimentos disponíveis para o consumo, utilizando-se de medidas padronizadas. Muitas vezes, alimentos diversos são agregados em um mesmo item 35.

O R24h é utilizado para a obtenção de relato de consumo de alimentos, baseia-se em entrevista conduzida por profissional treinado cujo propósito é obter informações que permitam definir e quantificar a alimentação consumida no período de referência34. Os tipos de erros para a avaliação dietética, particularmente inerentes ao R24h, são devido às tabelas de composição dos alimentos, às diferentes interpretações dos tipos de alimentos ou preparações, bem como ao peso dos alimentos, aos alimentos informados erroneamente, à sazonalidade da alimentação e aos erros sistemáticos como a variação intra-pessoal. Por outro lado, os erros relacionados ao QFA são os mesmos descritos para o R24h, exceto a sazonalidade da alimentação38.

A recomendação é a combinação de métodos quantitativos e qualitativos para melhor aprimorar instrumentos culturalmente sensíveis, capazes de apreender a realidade sócio-cultural da população estudada39.

6. Quais as principais medidas antropométricas são recomendadas para a avaliação nutricional?

a) O peso corporal (B).

b) A medida direta ou indireta da estatura/comprimento (C).

c) O índice de massa corporal (IMC) (B).

d) As circunferências e as dobras cutâneas (C).

As medidas antropométricas podem ser indicadoras sensíveis de saúde, de condição física, de desenvolvimento e de crescimento. O peso é uma medida simples, mas representa a soma de todos os compartimentos corporais, e deve ser avaliado com cautela em algumas condições. O peso não discrimina a composição corporal, a condição hídrica, como desidratação e edema, e as diferenças na estrutura óssea dos indivíduos.

A perda de peso tem sido demonstrada como um indicador significativo de risco de mortalidade pós-operatória40 e de tempo de hospitalização41.

Os métodos indiretos de medida da estatura são indicados para as pessoas impossibilitadas de ficar em pé e para aquelas que apresentam curvatura espinhal grave42. Dentre os métodos indiretos, a extensão dos braços, ou chanfradura, é uma alternativa para a medida indireta da estatura, especialmente de indivíduos jovens ou de meia-idade em cadeira de rodas43. Já a medida da altura do joelho está fortemente correlacionada com a estatura e diminui pouco com a idade44, sendo portanto indicada para idosos.

Na impossibilidade de verificação do peso em pacientes acamados e na ausência de cama-balança, pode-se realizar a estimativa do peso corporal do indivíduo através da fórmula de Chumlea.42

O índice de massa corporal é indicado para crianças, adolescentes, adultos e idosos45.

A classificação dada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é recomendada para a avaliação do IMC de adultos.

As circunferências corporais e as dobras cutâneas, isoladas ou em combinação, podem fornecer estimativa das reservas corporais. O maior benefício das dobras cutâneas é a sua obtenção em série, comparando o indivíduo com ele mesmo ,entretanto no paciente hospitalizado servem mais para avaliação inicial do que para acompanhamento, devido a sua não resposta a curto prazo em intervenções nutricionais.

. As pregas cutâneas correlacionam-se menos com a gordura corporal total em idosos do que em jovens46.

A circunferência do braço pode servir como índice de reserva de gordura e de massa muscular. A medida diminui com a perda de peso aguda e crônica, e pode ser usada para estimar o grau de desnutrição.

7. Quando indicar a impedância bioelétrica (BIA) na avaliação do estado nutricional?

A BIA é indicada na avaliação da composição corporal de indivíduos com IMC entre 16 e 34 kg/m² que possam ser pesados e com estado de hidratação normal, com o uso de equações validadas para esta população (C).

A Análise da Impedância Bioelétrica (BIA) é um modelo bicompartimental para avaliação da composição corporal. Portanto, não é uma medida direta, uma vez que estima os volumes hídricos a partir da medida da resistência elétrica e estatura47. O uso deste modelo para a avaliação nutricional permite verificar as alterações da água corporal total (ACT) com razoável confiabilidade em adultos saudáveis das raças européia (brancos) e norte-americana. Entretanto, em neonatos, crianças, adolescentes, idosos e nas raças hispânica, africana e asiática, os dados ainda são limitados pela falta de equações validadas para estes grupos48 .

Dentre os diversos aparelhos de BIA disponíveis no mercado, encontramos os de freqüência única (BIA-FU), multifrequenciais (BIA-MF) e BIA segmentar.

Apesar da BIA ser um método simples, rápido e não-invasivo para estimar os compartimentos corporais, seus resultados podem ser afetados por fatores como a alimentação, o exercício físico e a ingestão de líquidos em períodos que antecedem a avaliação, estados de desidratação ou retenção hídrica, febre, utilização de diuréticos e ciclo menstrual 49.

8. Exames laboratoriais: o que devo usar na prática clinica para avaliação nutricional?

A albumina sérica é preditora de morbimortalidade e não de desnutrição (A).

Balanço nitrogenado não é considerado bom método de avaliação devido suas limitações (C).

Contagem total de linfócitos pode ser um indicador útil de risco de complicações infecciosas em idosos mas não é considerado bom método de avaliação nutricional. (A)

Albumina, pré-albumina e proteínas de fase aguda:

A albumina foi considerada durante muitos anos um indicador do estado nutricional. No entanto, atualmente sabe-se que reflete mais a gravidade da doença, podendo ser considerada como um método prognóstico e um confiável indicador de morbimortalidade.

De Luis et.al.,200650 mostrou que o nível de albumina sérica é um bom preditor de tempo de internação e que a redução do seu nível na admissão hospitalar produz um aumento da permanência hospitalar.

As limitações na utilização deste marcador biológico ocorre devido a situações clínicas como inflamação, trauma, malignidade, aumento da síntese de proteínas de fase aguda, como a proteína C-reativa (PCR), que levam a diminuição da síntese de albumina, transferrina e pré-albunina 51.

A utilização da albumina como marcador de estado nutricional pode ser válida na ausência de processos inflamatórios, sendo que novos pontos de corte devem ser adotados em pacientes idosos.52 Além disso, a albumina pode ser considerada como marcador prognóstico de complicações pós-operatórias53, 54. Por outro lado, estudos demonstraram que tanto a albumina como a pré-albumina não predizem mortalidade ou tempo de internação hospitalar54, 55. .

Balanço nitrogenado:

O balanço nitrogenado (BN) é calculado pela estimativa da diferença entre o nitrogênio excretado e o nitrogênio ingerido. O nitrogênio excretado inclui perdas urinárias (uréia principalmente), perdas fecais, perdas tegumentares (pele, cabelo e suor), perdas de líquidos corporais (ascites, drenos torácicos e gastrointestinais) e perdas não-proteicas de nitrogênio56. Entretanto, a maioria dos estudos não considera todas essas variáveis. Utiliza-se o nitrogênio urinário, obtido através da dosagem de uréia urinária de 24hs e sua transformação em gramas de nitrogênio, acrescido de 4 gramas representando as perdas não mensuráveis de nitrogênio. Outra fórmula comumente usada é a multiplicação do nitrogênio urinário por 1,25, para adicionar os componentes não mensuráveis da urina (sendo este produto definido como nitrogênio uréico total), acrescido de 2 gramas de nitrogênio representando as demais perdas não uréicas. Essas variações na estimativa podem gerar problemas na interpretação do BN. Este exame só deve ser realizado quando o paciente apresenta função renal normal 56..

Konstantinides et al,199157 demonstraram que o nitrogênio uréico urinário é uma medida insensível para o calculo do BN em pacientes cirúrgicos.

Cheatham et al, 200758 concluíram que o cálculo tradicional do BN subestimou a perda de nitrogênio e super-estimou a adequação da oferta protéica em pacientes com abdômen aberto.

Contagem total de linfócitos:

O uso da contagem total de linfócitos (CTL) como marcador de estado nutricional ainda é bastante controverso. Enquanto alguns autores relacionaram redução na CTL com a desnutrição59 60 outros autores relataram fraca associação entre CTL e estado nutricional61. Entretanto, a CTL pode ser um indicador útil de risco de complicações infecciosas em idosos62.

Baixos níveis de CTL estiveram associados a um maior risco de mortalidade em idosos saudáveis63.

Referências Bibliográficas

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