Produção e cultivo do Pirarucu em cativeiro

Produção e cultivo do Pirarucu em cativeiro

(Parte 2 de 5)

Apesar de todas as vantagens que apresenta o cultivo do pirarucu, os conhecimentos necessários à sua produção comercial sustentável ainda não foram consolidados. As experiências de cultivo acumuladas se restringem aos esforços pioneiros de alguns produtores e técnicos que vêm conduzindo as criações ao custo da pesquisa prática (não científica) e do empirismo.

Frente ao enorme e ao crescente interesse do setor produtivo em investir na produção do pirarucu, faz-se necessário construir um banco de informações confiável sobre o desempenho zootécnico e econômico de sua produção em diferentes ambientes e sob diversas condições de criação. O sucesso da criação do pirarucu como negócio depende, ainda, da capacidade de comercializá-lo com qualidade e valor agregado.

Para que isso seja possível, o conhecimento das demandas, do perfil dos consumidores-alvo, dos produtos concorrentes, entre outras informações referentes ao mercado, são essenciais para que as estratégias de “marketing” e de comercialização sejam traçadas. Após a consolidação e a divulgação desses conhecimentos, será possível aos empreendedores interessados investir na atividade com maior segurança, tanto no âmbito da produção quanto no da comercialização.

Nessa seção é apresentado o resumo dos resultados obtidos nas engordas do pirarucu no Projeto Estruturante, nos diferentes sistemas de produção avaliados, incluindo os principais índices de desempenho zootécnico e econômico. O sistema mais comumente utilizado na piscicultura, que é o de viveiros e açudes, foi testado em todos os estados. Já os estudos com tanque-rede foram restritos a três Unidades de Observação e o sistema intensivo com recirculação foi testado em apenas uma Unidade.

A tabela 1 apresenta os principais parâmetros zootécnicos resultantes das Unidades de Observação da engorda do pirarucu em viveiros e açudes que foram manejados de forma adequada. Nessas unidades, os alevinos passaram por uma fase de recria em viveiro escavado, protegido com tela antipássaros ou confinados em tanques de tela ou tanques-rede até a soltura no ambiente de engorda, para evitar a ação dos predadores.

Nas fases de engorda, foram instaladas Unidades em viveiros e açudes com área variando entre 700 e 12.0 m2. Entretanto, foi observado que desde que se mantenha uma densidade populacional de peixes adequada, a área de espelho d’água do viveiro ou açude tem influência muito pequena sobre o resultado da produção. Do ponto de vista da infraestrutura, o parâmetro mais importante é a profundidade da água, pois em viveiros ou açudes rasos (< 2,0 m) há problemas graves com a alta turbidez da água (“água barrenta” ou excessivamente verde), onde os peixes reduzem ou até mesmo cessam o consumo de alimento e, consequentemente, o crescimento. Portanto, um dos pontos críticos a ser atentado é que a infraestrutura deve permitir a manutenção da qualidade da água em condições favoráveis, sobretudo do ponto de vista da sua transparência.

A figura 1 representa uma curva média de crescimento do pirarucu engordado em viveiro escavado e açude. Em média, o pirarucu tem atingido entre 8 e 10 kg no ciclo de produção de um ano, a partir de juvenis já condicionados à ração (10 a 15 cm). Essa variação nos resultados é consequência das diferentes condições climáticas, sobretudo da temperatura da água, do porte inicial do juvenil e do manejo da produção (alimentação, densidade de povoamento, entre outros), partindo do princípio que são utilizados insumos de qualidade (alevinos e ração). Para obter esses resultados, foram utilizadas como principal fonte de alimento rações extrusadas comerciais para peixes carnívoros, contendo níveis de proteína bruta, variando entre 40 e 45% e gordura entre 6 e 15%. Em algumas Unidades, houve também uma complementação na dieta com alimento natural (peixes e crustáceos nativos). O pirarucu tem uma grande habilidade em aproveitar o alimento natural disponível nos viveiros e açudes, o que complementa a dieta e contribui significativamente no desenvolvimento dos animais. Considerando, ainda que as rações utilizadas não foram desenvolvidas especificamente para a espécie e, provavelmente não atendem plenamente à necessidade da mesma, essa complementação é especialmente importante no atual estágio

3. Resultados 3.1 Viveiros escavados e açudes tecnológico da produção do pirarucu. Pelas observações do projeto, os peixes apresentam uma piora sensível na conversão alimentar a partir dos 12 kg de peso médio, o que reduz a lucratividade da produção.

Tabela 1- Resultados da engorda do pirarucu em viveiros escavados e açudes com ração extrusada comercial para peixes carnívoros.

Dias de engorda Figura 1. Crescimento do Pirarucu em tanques escavados e açudes.

Parâmetros Valores Peso médio inicial [g]15 (10 cm) Peso médio 12 meses [kg]8 a 10,0 Peso médio 14 meses [kg]10,0 a 12,0 Conversão alimentar aparente1,7 – 2,3 Sobrevivência [%]90 a 95 Biomassa final [kg/ha]7.0 a 16.0

Do ponto de vista do custo de produção, com base nos resultados médios de desempenho produtivo (crescimento, conversão alimentar e taxa de sobrevivência), foram construídos os cenários de custo de produção para diferentes preços de alevinos e ração, que variaram sensivelmente por causa da escala de produção e da distância dos fornecedores de insumos. O custo total de produção foi calculado com base na participação do alevino e da ração em 80%, sendo o restante referente ao custo da mão de obra e outras despesas.

Considerando um preço de mercado entre R$ 7,50 e R$ 10,0/kg do peixe inteiro, dependendo da escala de venda e do tipo de consumidor, a produção se mostra economicamente viável, desde que sejam utilizados insumos de qualidade e manejo adequado, dentro de uma escala mínima de produção que permita diluir os custos fixos e aumentar o poder de negociação na compra dos insumos.

Tabela 2- Custo de produção do pirarucu na fase de engorda, considerando diferentes cenários de preço de alevinos, ração e eficiência produtiva.

Tabela 3 - Retorno econômico da produção de 1 hectare (10 toneladas) de pirarucu na fase de engorda, nos diferentes cenários de preço de alevinos, ração e eficiência produtiva.

1 – Produtor em pequena escala (2 a 3 t/ano), compra insumos ao preço de varejo e distante do fornecedor, tem dificuldade de gestão e menor eficiência produtiva (conversão alimentar 2,2).

2 – Produtor em média escala (5 a 20 t/ano), compra insumos próximo ao preço de atacado e distante do fornecedor, usa mínimas ferramentas de controle e gestão e tem boa eficiência produtiva (conversão alimentar 1,9).

3 – Produtor em médio-grande escala (> 50 t/ano), compra insumos ao preço de atacado e próximo do fornecedor, usa várias ferramentas de controle e gestão e tem alta eficiência produtiva (conversão alimentar 1,7).

CenárioPreço do alevinoPreço da raçãoCusto total pirarucu 1R$ 20,0/unidadeR$ 2,50/kgR$ 9,78/kg 2R$ 15,0/unidadeR$ 2,0/kgR$ 6,72/kg 3R$ 10,0/unidadeR$ 1,70/kgR$ 4,92/kg

2R$7.80,0R$ 32.80,0

CenárioPreço de venda = R$ 7,50/kgPreço de venda = R$ 10,0/kg 1- R$ 2.80,0R$ 2.20,0 3R$ 25.80,0R$ 50.80,0

É importante ressaltar que o cenário 3 se aplica também às organizações de pequenos produtores (associações e cooperativas) que podem, além de realizar compras conjuntas de insumos, comercializar de forma escalonada a produção por meio de contratos e, também, diluir os custos do acompanhamento técnico especializado, entre outros.

No caso do pequeno produtor que trabalha isolado (cenário 1), uma das únicas formas de viabilizar seu negócio é explorando nichos de mercado, agregando mais valor ao seu produto ou, por exemplo, vendendo diretamente para o consumidor final.

O sistema de tanque-rede foi testado em algumas das Unidades de Observação do pirarucu, principalmente com o objetivo de aproveitar ambientes aquáticos onde a criação do peixe solto seria inviável.

O pirarucu se mostrou uma espécie que se adapta bem para a condição do confinamento em tanque-rede, tendo atingido níveis de produtividade bastante elevadas, comparados a outros peixes amazônicos, como o tambaqui. Na tabela 4, são apresentados os resultados zootécnicos médios das Unidades mais exitosas do projeto.

Os tanques-rede testados no projeto foram de 6 m3 de volume (2 x 2 x 1,5 m), que são considerados tanques de pequeno volume e mais facilmente manejados por pequenos produtores. Porém, com o crescimento dos empreendimentos é natural o interesse dos piscicultores em experimentar tanques de volumes maiores, mas que neste projeto não foi possível ainda testar por causa da escala em que foi desenvolvido o trabalho. No futuro, será importante que esses tanques maiores sejam testados, sobretudo por causa do fomento e da disponibilidade do uso de grandes ambientes para a piscicultura, como os lagos das usinas hidrelétricas.

3.2 Tanque-rede

Parâmetros Valores

Peso médio inicial [g]500 Peso médio 12 meses [kg]8,0 a 9,0 Conversão alimentar aparente2,0 a 2,2 Sobrevivência [%]90 a 95% Biomassa final [kg/m3]100 a 120

Tabela 4- Resultados da engorda do pirarucu em tanque-rede com ração extrusada comercial para peixes carnívoros.

A seguir são apresentadas as curvas de crescimento e de produtividades médias do pirarucu nos tanques-rede de pequeno volume.

Figura 2. Curva de crescimento do pirarucu na engorda em tanque-rede.

Figura 3. Curva de produtividade do pirarucu na engorda em tanque-rede. 15

Do ponto de vista do custo de produção, com base nos resultados médios de desempenho obtidos, foram construídos os cenários de custo de produção para diferentes preços de alevinos e ração, que variam sensivelmente por causa da escala de produção e da distância dos fornecedores de insumos. O custo total de produção foi calculado com base na participação do alevino e da ração em 80%, sendo o restante referente ao custo da mão de obra e outras despesas.

Considerando um preço de mercado entre R$ 7,50 e R$ 10,0/kg do peixe inteiro, dependendo da escala de venda e do tipo de consumidor, a produção se mostra economicamente viável, desde que sejam utilizados insumos de qualidade e manejo adequado, dentro de uma escala mínima de produção que permita diluir os custos fixos e aumentar o poder de negociação na compra dos insumos.

Tabela 5 - Custo de produção do pirarucu na fase de engorda em tanque-rede, considerando diferentes cenários de preço de alevinos, ração e eficiência produtiva.

1 – Produtor em pequena escala (2 a 3 t/ano), compra insumos ao preço de varejo e distante do fornecedor, tem dificuldade de gestão e menor eficiência produtiva (conversão alimentar 2,2).

2 – Produtor em média escala (5 a 20 t/ano), compra insumos próximo ao preço de atacado e distante do fornecedor, usa mínimas ferramentas de controle e gestão e tem boa eficiência produtiva (conversão alimentar 2,1).

3 – Produtor em médio-grande escala (> 50 t/ano), compra insumos ao preço de atacado e próximo do fornecedor, usa várias ferramentas de controle e gestão e tem alta eficiência produtiva (conversão alimentar 2,0).

CenárioPreço do alevinoPreço da raçãoCusto total pirarucu 1R$ 20,0/unidadeR$ 2,50/kgR$ 9,81/kg 2R$ 15,0/unidadeR$ 2,0/kgR$ 7,46/kg 3R$ 10,0/unidadeR$ 1,70/kgR$ 5,72/kg

Tabela 6 - Retorno econômico da produção de 20 tanques-rede de 6 m3 cada (10 toneladas) de pirarucu na fase de engorda, nos diferentes cenários de preço de alevinos, ração e eficiência produtiva.

2R$40,0R$ 25.40,0

CenárioPreço de venda = R$ 7,50/kgPreço de venda = R$ 10,0/kg 1- R$ 23.10,0R$ 1.90,0 3R$ 17.80,0R$ 42.80,0

Seguindo o mesmo princípio utilizado na produção em viveiros e açudes, o cenário 3 representa também a realidade das organizações de pequenos produtores (associações e cooperativas) que podem otimizar seus recursos financeiros pelas compras conjuntas de insumos e comercialização. E, no caso do pequeno produtor que trabalha isolado (cenário 1), uma das únicas formas de viabilizar seu negócio é explorando nichos de mercado, buscando formas para agregar mais valor ao seu produto ou, por exemplo, vendendo diretamente para o consumidor final.

Devido à escassez dos recursos hídricos e ao alto valor da terra, sistemas intensivos de produção, com reutilização da água, se tornam muito interessantes, principalmente quando se busca viabilizar o pequeno produtor. Nesses sistemas, o objetivo é obter a maior produção por área, com um mínimo uso de água. Uma das Unidades de Observação foi montada para estudar os pirarucus nesse tipo de sistema.

O sistema apresentado no esquema a seguir consiste de um tanque circular de PVC, instalado dentro de um viveiro de terra. Os pirarucus ficam povoados nesse tanque de PVC. Um compressor de ar radial, conhecido como “soprador de ar”, é usado para bombear a água do viveiro de terra para o tanque de PVC. A maior parte da água bombeada sai por um dreno grande lateral do tanque de PVC e retorna ao tanque de terra para ciclagem da amônia excretada pelos peixes. No tanque de terra, o fitoplâncton utiliza a amônia como nutriente, retirando-a do meio. Por um dreno central no tanque de PVC, uma pequena quantidade de água sai do sistema para retirada dos resíduos sólidos (fezes).

A retirada das fezes do sistema reduz o enriquecimento excessivo da água com nutrientes (adubação natural) e, consequentemente, mantém a transparência elevada por mais tempo. O confinamento dos pirarucus dentro do tanque de PVC evita que ele revolva o fundo do viveiro, evitando a elevação da turbidez mineral. Conforme observado no sistema de viveiros e açudes, a perda da transparência da água é o principal fator limitante ao crescimento do pirarucu.

Figura 4. Esquema do sistema intensivo de recirculação montado em uma das unidades de observação do Projeto Estruturante do Pirarucu na Amazônia.

3.3 Sistema intensivo com recirculação

A tabela 7 mostra os resultados da produção do pirarucu dessa Unidade. Os peixes estocados com 975 g atingiram, em um ano, o peso médio de 10,0 kg. Esse crescimento foi pouco inferior ao observado em viveiros de terra, mas atingiu as expectativas iniciais. Os pirarucus em sistemas com altas densidades (por exemplo: sistemas de recirculação, tanques redes) têm apresentado menor consumo e, consequentemente, menor crescimento. Uma solução para potencializar o crescimento do pirarucu em sistemas de alta densidade seria a utilização de uma ração específica que atenda melhor à necessidade da espécie. Essas rações disponibilizariam os nutrientes necessários a um desempenho mais eficiente.

A conversão alimentar foi de 1,97, pouco superior à observada em tanques de terra. A ausência de oferta de alimento natural e possível gasto de energia com natação, devido à movimentação da água, podem ser responsáveis por essa conversão. A sobrevivência de 98,7% foi das melhores já observadas.

A produtividade (biomassa por volume de água), dentro do tanque de PVC, ao final desse ano de cultivo, foi de 6 kg/m³. A biomassa correspondente da área total do sistema para um hectare foi de 20.626 kg/hectare, superior ao que foi atingido nos viveiros escavados e açudes.

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