Doencas - Nutricionais - Silvestres

Doencas - Nutricionais - Silvestres

(Parte 4 de 11)

Os sintomas clínicos da deficiência de cálcio variam conforme a espécie. Estes incluem crescimento retardado, diminuição da ingestão de alimentos, aumento da taxa metabólica basal, redução da atividade física, alterações posturais, claudicação, sensibilidade dolorosa em membros, paralisias transitórias, tetania, crescimento retardado de chifres, deformidades ósseas como membros varus, valgus e achinelamento, alteração da conformação de carapaça em quelônios e aumento das concentrações de fosfatase alcalina sérica. 27 Além da necessária avaliação da dieta, o diagnóstico deve sempre ser apoiado por um exame radiográfico. À radiografia pode-se observar diminuição da radiopacidade óssea, sendo normalmente esta mais acentuada na diáfise, com maior radiopacidade relativa da metáfise, adelgaçamento da cortical com perda da relação cortical:medular, alterações angulares, fraturas em galho verde, perda da lâmina dura dentária, e outros. O exame radiográfico, no entanto, é pouco sensível. Postula-se que a desmineralização deva ser superior a 30% para que esta seja detectada ao raio X.

Aves alimentadas com sementes 29 ou carnes não suplementadas são bastante susceptíveis à deficiência de cálcio, sendo os sintomas clínicos mais freqüentemente verificados durante o crescimento e a reprodução. 30 O excesso de fósforo presente em vísceras e algumas sementes, associado ao excesso de gordura de alguns grãos, como girassol e amendoim, pioram os desequilíbrios nutricionais destes alimentos. A gordura em excesso predispõe à formação de sabões de cálcio no intestino, reduzindo a absorção do elemento. Sintomas específicos das aves com hiperparatireoidismo, ou seja, deficiência de cálcio, incluem retenção de ovo, diminuição da qualidade da casca do ovo, prolapso cloacal, fraturas patológicas, deformidades angulares dos ossos, afundamento do externo, deformações de coluna, estreitamento de pelve e problemas locomotores. 2, 31 Quadros de hipocalcemia foram descritos em papagaio cinzento africano (Psittacus erithacus) e Amazona viridigenalis alimentados com girassol, milho e amendoim. 32 O fornecimento de insetos sem suplementação de cálcio e fósforo também constitui problema para aves, lagartos e outros animais insetívoros.

A osteodistrofia fibrosa pode ser hipo-osteótica (menos osso), iso-osteótica ou hiperosteótica (mais osso, porem de pior qualidade). Primatas alimentados com frutas e carnes não suplementadas estão sob risco. Para espécies que as aceitam, folhas verdes, estas podem ser fonte de cálcio, mas a suplementação via ração adequada ou o emprego de compostos minerais é sempre recomendável. Verifica-se em filhotes mais freqüentemente a osteodistrofia hipo-osteótica, caracterizada por osteopenia à radiografia, entortamento dos ossos longos e fraturas em galho-verde. Em adultos a osteodistrofia hiper-osteótica, que se apresenta na forma de cara-inchada, pode ser observada.

Em ruminantes e eqüinos a cara-inchada também é uma manifestação comum da deficiência de cálcio, afecção também relatada em camelídeos. Estão sob risco animais que recebem excesso de grãos não suplementados, pois estes são pobres em cálcio e ricos em fósforo. A cara-inchada já representa uma lesão avançada da doença. Em seus estágios iniciais os animais apresentam claudicação e dor à palpação de membros. Persistindo o desequilíbrio dietético, por ação do paratormônio, existe uma extensa remoção de matéria mineral dos ossos da face, com infiltração de tecido conjuntivo fibroso ocasionando o abaulamento e aumento de volume dos ossos. A perda da integridade do alvéolo dentário culmina em periodontites e perda de dentes, agravando o quadro.

Carnívoros apresentam, via de regra, osteodistrofia hipo ou iso-osteótica. Estão sob risco quando recebem dieta à base de músculo ou vísceras sem suplementação de cálcio. Alternativas são o oferecimento de presas inteiras e carnes com ossos já que a relação Ca:P em músculo e vísceras é bastante adversa, de 1:16 a 1:4425. Os sinais clínicos se iniciam por claudicação, redução de movimentos e evoluem para o encontro de membro varus, valgus, achinelamento e fraturas em galho verde. Em felídeos existe maior freqüência de acometimento dos ossos da coluna e da bacia. Nestes o encontro de alterações angulares em ossos longos é menos freqüente, sendo observados cifose, escoliose e estreitamento de bacia, com conseqüências neurológicas graves que incluem paralisias, atonia vesical e retenção de fezes.

O estrabismo também pode ocorrer nestas espécies. 27

Em répteis o acometimento por osteodistrofia por osteopenia é também freqüente, principalmente em quelônios e iguanas (Iguana iguana) mantidos como animais de estimação. A situação dietética se repete: emprego de carnes, frutas e krill (Gammarus lacustre), chamado de “camarão” para quelônios, e de frutas para iguanas, alimentos com muito pouco cálcio e vitamina D. O emprego de frutas em excesso conduz, também, à deficiência protéica, quando o amolecimento do casco e o entortamento dos ossos de iguanas passam a ser um misto de osteoporose com hiperparatireoidismo nutricional secundário. A vitamina A também é um nutriente essencial ao metabolismo dos osteócitos. Sua deficiência leva à osteomalácea, 1 sendo este mais um nutriente a ser considerado na avaliação clínica e terapia de quelônios com amolecimento de casco. Os sintomas da deficiência de cálcio em répteis incluem perda de dentes, alteração angular dos ossos, alteração de formato e amolecimento de carapaça, alteração em coluna com impotência funcional de membros, etc.

Em lagartos, sapos e rãs alimentados com insetos não suplementados a osteodistrofia é, também, freqüente. O tenébrio (Tenebrio molitor) e o grilo (Acheta domestica) apresentam, respectivamente, 0,1% e 0,25% de cálcio e 0,9% de fósforo. 3 O grilo, se alimentado por alguns dias com ração com 8% de cálcio, retém este em seu organismo e chega a apresentar 1,2% de cálcio sobre a matéria seca, tornando-se assim uma fonte potencial do nutriente para insetívoros. 28

Para espécies herbívoras e onívoras, via de regra, a necessidade de vitamina D é suprida por síntese cutânea quando os animais são suficientemente expostos à radiação solar. Deve-se atentar para o fato de que a luz solar filtrada por vidros não permite uma adequada síntese de vitamina D pela pele. Entretanto, algumas espécies de aves, répteis, anfíbios e primatas do novo mundo não apresentam esta biossíntese suficientemente ativa, necessitando de vitamina D3 via dieta. 13, 34 Para primatas a necessidade de vitamina D3 varia de 2400 UI/kg de alimento para calitriquídeos a 1250 UI/kg de alimento para as demais espécies. Estudos com cães e gatos domésticos demonstraram que estes carnívoros também apresentam baixa síntese cutânea desta vitamina, sendo dependentes de sua ingestão via alimento. Em algumas espécies de lagartos, como por exemplo as iguanas, foi observado que a exposição aos raios UVB é necessária para um adequado metabolismo ósseo, sendo apenas o fornecimento de vitamina D3 insuficiente. 36 Casos de raquitismo são relatados principalmente em primatas jovens alojados em recintos fechados com exposição insuficiente ao sol. Suspeita-se, inclusive, que a vitamina D do leite materno não seja suficientemente para atender às necessidades do lactente. 28

O tratamento das osteopenias tem como fator principal a correção da dieta. O raquitismo é tratado com vitamina D, o hiperparatireoidismo nutricional secundário, ou osteodistrofia fibrosa, com cálcio. Cálcio e fósforo são macroelementos, ou seja, são necessários em grandes quantidades. As dietas podem ser suplementadas com fosfato tricálcico (ou pela mistura de 2 partes de fosfato bicálcico e 1 parte de carbonato de cálcio) ou com suplemento vitamínicomineral em pó completo de boa qualidade, apresentando os últimos a vantagem de suplementarem outros minerais e vitaminas. A quantidade a ser suplementada irá depender da quantidade de cálcio na dieta e da necessidade do elemento pela espécie em questão. Apesar de existirem dezenas de suplementos líquidos de cálcio, fósforo e vitamina D, estes são menos efetivos. A quantidade destes suplementos necessária para suplementar cálcio é impraticável, pois estes apresentam muita vitamina D e pouco cálcio, que é um elemento essencialmente insolúvel. Deve-se dar preferência ao emprego de colecalciferol (vitamina D3) à vitamina D2, pois muitas espécies usam-na com maior eficiência.

Uma questão nem sempre fácil de resolver é como veicular o cálcio na dieta.

Geralmente a quantidade de fosfato tricálcico necessária representa de 0,5% a 1,5% em dietas com elevada umidade (frutas, carnes, alimentos cozidos) e 2% a 3% em dietas secas (misturas de grãos, por exemplo). Este pode ser misturado a frutas e carnes, nas quais se adere com mais facilidade. Boas rações são uma excelente alternativa nutricional, nunca devendo ser suplementadas. Deve-se buscar alimentos industrializados com teores de cálcio máximos entre 1% e 1,5%, pois, na verdade, o excesso do elemento tem se constituído um problema em rações. O curso da terapia é longo, podendo demorar meses até a remineralização óssea.

Deve-se ter em mente que a maior parte das alterações anatômicas do tecido ósseo são irreversíveis e o animal estará permanentemente comprometido. Exceções são filhotes ainda muito novos tratados no início da doença. Outros componentes da terapia incluem cirurgias ortopédicas, imobilizações e antiinflamatórios.

Por fim, deve-se considerar que o excesso de cálcio na dieta é, também, um problema.

O excesso deste mineral pode causar deficiência de zinco ou cobre, urolitíase, está associado à postura contínua de ovos, pode causar condrodistrofia, dentre outros. O fornecimento indiscriminado de ração de cães e gatos para répteis têm sido incriminado como causador de calcificação metastática de tecidos moles, condição usualmente fatal. Estes alimentos costumam ser muito palatáveis e apresentam excesso de vitaminas D e A para répteis, devendo ser empregados em pequena quantidade e com muita moderação. 36

A hipervitaminose D causa hipercalcemia, resultante de uma excessiva absorção intestinal do elemento, podendo levar a calcificações metastáticas em tecidos moles, especialmente em rins e na camada média de artérias elásticas, como a aorta, e anemia, conseqüente à interferência do excesso da vitamina na eritropoiese. A magnitude dos sintomas depende da dose ingerida, tempo de ingestão e da concentração de cálcio e fósforo da dieta. Quanto maior a concentração destes elementos, mais graves os sintomas.

6- OBESIDADE

A obesidade acomete parcela importante dos animais silvestres mantidos em cativeiro.

Em jardins zoológicos é possível verificar-se, com freqüência, obesidade em felinos, jacarés, quelônios, primatas, aves e outros. No entanto, levantamentos epidemiológicos de sua prevalência no Brasil não puderam ser localizados. Ela não deve ser encarada apenas quanto a seus aspectos estéticos, como se vê com freqüência. A obesidade deve ser encarada como uma doença. A alteração da composição corporal verificada com a expansão da massa gorda vem acompanhada de alterações endócrinas e funcionais.

Os primatas, principalmente os do velho mundo, são freqüentemente afetados por obesidade, sendo esta relatada principalmente em Macaca sp., Eulemur sp., Hapalemur sp.,

Mandrillus sp. e Cercopithecus sp. 13 Espécies como Macaca mulata, M. nemestrina e M. nigra têm sido, inclusive, utilizadas como modelo experimental de doença vascular ateroesclerótica, dislipidemias, diabetes mellitus e obesidade para humanos. 13 Felinos são também particularmente susceptíveis. Em felinos existe acúmulo de gordura subcutânea na região inguinal, o que se manifesta como uma dobra de pele característica. Seu encontro já indica um animal com sobrepeso importante. O tipo de alimento que consomem, essencialmente proteína e gordura, associado à grande restrição física a que são submetidos, pode explicar esta propensão ao acúmulo de gordura. 37

São bem conhecidos os efeitos deletérios do excesso de peso sobre a saúde de mamíferos domésticos. Dentre eles destacam-se os distúrbios do aparelho locomotor (discopatias, ruptura de ligamento cruzado e osteoartrites), hipertensão arterial, prejuízos à resposta imunológica, aumento da incidência de Diabetes mellitus, dermatopatias (piodermites e seborréia), neoplasias e intolerância ao calor. Aumentam também os riscos inerentes à anestesia, assim como a propensão a reações medicamentosas. Dentre as alterações reprodutivas constatadas incluem-se maior freqüência de distocias e infertilidade. Alterações respiratórias são muito freqüentes, a infiltração de gordura em pleura e mediastino diminui a amplitude do fole alveolar. Tornam-se mais ineficientes às trocas respiratórias e os animais apresentam-se dispnéicos e intolerantes ao exercício. Nesta fase desenvolvem taquicardia e muitos são erroneamente diagnosticados como cardiopatas. A reversão da obesidade reverte estes sintomas, com visível melhora da condição respiratória e qualidade de vida. A insulinemia e a resposta insulínica estão diretamente relacionadas ao grau de obesidade: carnívoros domésticos obesos apresentam resistência insulínica e intolerância à glicose que se reverte com a perda de peso.

Demonstrou-se recentemente, em um estudo de saúde a longo prazo com cães da raça

Labrador Retriever, que aqueles animais que mantiveram-se magros durante toda a vida, mediante restrição de 25% das calorias ingeridas, viveram aproximadamente 15% mais tempo, com uma expectativa média de vida de 15 anos em comparação a 13 anos do grupo controle, cujos animais eram obesos. Além de viverem mais, os cães sob restrição calórica apresentaram melhor resposta glicêmica e insulínica, retardo no declínio imunológico conseqüente ao envelhecimento e uma redução de 72% na incidência de osteoartrite.

A obesidade é, também, um distúrbio nutricional comum em aves. Seu diagnóstico é, no entanto, dificultado pela cobertura de penas. Uma ave pode ser considerada obesa quando apresenta peso superior a 15% do peso ideal da espécie, mas este critério não é muito seguro e uma avaliação física individual sempre é importante. Há espécies predispostas à obesidade como o periquito australiano (Melopsittacus undulatus), calopsita (Nymphicus hollandicus), canários (Sicalis sp científico), cacatuas (Cacatua sp), falconiformes e papagaios do gênero

Amazona. 31, 38 Dietas excessivamente energéticas (com excesso de carboidratos e gordura e falta de fibra), idade, status reprodutivo, temperatura ambiental, estado fisiológico do indivíduo e a manutenção destas aves em gaiolas ou recintos pequenos, com limitada oportunidade de exercício, são os fatores causais primários mais comuns de obesidade. 30, 38 A ave obesa é mais predisposta a problemas clínicos, tem a saúde geral pobre e apresenta menor expectativa de vida. Normalmente aves obesas são imunossuprimidas e mais sensíveis ao estresse do que aves em bom estado corporal. 38 Outros problemas médicos associados à obesidade são lipidose hepática, aumento da pressão sanguínea, ateroesclerose (comum, por exemplo, na ema – Rhea americana), pancreatite necrosante, diabetes mellitus, alterações dos hormônios da tireóide, lipomas, problemas reprodutivos e musculoesqueléticos, entre outros. 38

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