Educação em Saúde

Educação em Saúde

(Parte 1 de 2)

BUENO BRANDÃO – 2009

Artigo científico apresentado à Faculdade de Educação da FINON, como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista em Gestão em Saúde Pública.

BUENO BRANDÃO – 2009

Maria José Adami Bueno¹

Procurou-se demonstrar com este trabalho algumas questões relativas à Educação em Saúde, como fator primordial na melhoria das condições de vida das populações humanas. Ainda ressalta a importância do trabalho da equipe multidisciplinar onde os diversos saberes se complementam para se construir um novo modelo de saúde no Brasil. Traz para a discussão os moldes de um atendimento contextualizado dos indivíduos e uma visão mais humanista e integral do paciente. Uma política social mais eficaz, que promova a autonomia e autocrítica das pessoas especialmente dos grupos e comunidades minoritárias. O objetivo deste trabalho é demonstrar que a Educação em Saúde é um processo dinâmico e interativo entre educador e cliente. Neste contexto, o trabalho em equipe, multidisciplinar, cria uma rede de conhecimentos propiciando uma troca de experiências que resgata a cidadania e através da solidariedade promova uma sociedade mais justa e igualitária. Algumas experiências bem sucedidas, no Brasil, dentro das políticas sociais, são os programas na área da saúde pública como por exemplo o Programa de Saúde da Família, Educação em Hipertensão e Diabetes Mellitus e Educação em DST/AIDS e Drogatização. Evidencia-se também a prática do aconselhamento como ferramenta importante na relação profissional/equipe/cliente bem como a entrevista de ajuda, construindo assim uma relação ética embasada no respeito mútuo. Estar aberto para as mudanças é, portando, uma das maiores características exigida ao novo profissional, educador, mediador do conhecimento no século XXI.

Palavras-chave: Educação em Saúde, Escuta Ativa, Multidisciplinaridade, Saúde Pública, Contextualização.

Introdução:

A Educação em Saúde a muito tempo tem atraído a atenção de governantes e dirigentes do setor. A Organização Pan-Americana da Saúde traçou diretrizes que orientam o desenvolvimento pessoal e social através da divulgação de informações, que, com isso, disponibilizem para a população, meios para que ela possa interferir e controlar sua própria saúde e meio ambiente. Vários problemas de saúde estão diretamente relacionados com o nível de educação da população. O papel a ser desempenhado pelas instituições, pelos

1- Graduada em medicina pela Faculdade de Medicina de Itajubá-MG, Pós-Graduada em Homeopatia pela Faculdade de Medicina de Itajubá, aluna de pós graduação Latu Sensu em Gestão de Saúde Pública da FINON, atua como Médica de área no Instituto Federal de Educação Ciências e Tecnologia do Sul de Minas Gerais, Campus Inconfidentes e na Unidade Básica de Saúde da Prefeitura Municipal de Bueno Brandão-MG, onde atende como clínica geral e Médica da Equipe de Saúde Mental.

órgãos competentes e pela maioria das pessoas foi delineado pela Organização Pan-Americana da Saúde, conforme pode ser visto na carta de Otawa, de 1986:

É essencial capacitar as pessoas para aprender durante toda a vida, preparando-as para as diversas fases da existência, o que inclui o enfrentamento das doenças crônicas e causas externas. Esta tarefa deve ser realizada nas escolas, nos lares, nos locais de trabalho e em outros espaços comunitários. As ações devem se realizar através de organizações educacionais, profissionais, comerciais e voluntárias, bem como pelas instituições governamentais.

Alguns programas desenvolvidos pelo governo, no Brasil, de prevenção e tratamento da Hipertensão e Diabetes Mellitus, por exemplo, já demonstraram que os melhores resultados obtidos decorrem especialmente da Educação em Saúde, visto que os indivíduos passaram a ser mais atuantes diante de sua própria condição. Essa experiência, no entanto não foi transposta para outros setores de forma prática e eficiente, diante de problemas graves que enfrentamos no cotidiano. A drogatização, a gravidez na adolescência, a violência contra crianças e adolescentes e tantos outros que existem em nosso país merecem políticas e programas mais eficazes por parte da sociedade e órgãos competentes.

Os melhores resultados em saúde pública ocorrem quando o tratamento esta associado a educação em saúde. Isto faz a diferença entre o sucesso e o fracasso do mesmo. Um dos maiores problemas é a forma como vem sendo feito: apenas medidas paliativas e assistencialistas. Os indivíduos que buscam os serviços de saúde, na grande maioria das vezes, são vistos de maneira parcial, tratam-se doenças e não doentes, e estes, somente conseguem uma peregrinação infrutífera, de serviço em serviço. Um dos fatores que precisa ser levado em conta na gênese desse problema é o paradigma atual da saúde, que precisa ser mudado, de um sistema vertical para um sistema transversal/horizontal. Onde predomine o diálogo, a transferência de conhecimento que leve em conta questões culturais e sociais do meio onde os indivíduos estão inseridos.

Um sistema transversal/horizontal é um sistema onde há predomínio das relações interdisciplinares, mais humanizadas e focalizando o real problema dos indivíduos e com isso mais efetivo que o atual modelo. Organizar o conhecimento mudando o paradigma atual é uma questão fundamental da

Educação, em especial a Educação em Saúde. Conforme pode ser visto no trabalho de Edgar Morin de 2003. (MORIN, 2003, p 36).

A esse problema universal confronta-se a educação do futuro, pois existe inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre, de um lado, os saberes desunidos, divididos, compartimentados e, de outro, as realidades ou problemas cada vez mais multidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais e planetários.

Na prática deve haver uma maior interação entre os profissionais e sua clientela, através de uma dialógica que desenvolva nos indivíduos uma maior capacidade crítica de perceber sua própria realidade e buscar de maneira criativa a resolução de seus problemas. Os profissionais envolvidos devem trabalhar com grupos específicos e comunidades, buscando diagnosticar problemas comuns. Um exemplo prático é a atuação do Programa de Saúde da Família junto às comunidades de baixa renda. Esta seria uma proposta libertadora tão bem descrita por LESSA et al (2001, p 56):

Esta pedagogia, chamada por Paulo Freire problematizadora, libertadora, parte do princípio de que, num mundo de mudanças rápidas e profundas, o importante não são os conhecimentos ou idéias, nem os comportamentos corretos e fiéis ao esperado, senão o aumento da capacidade das pessoas/grupos para detectar os problemas reais e buscar-lhes solução original e criativa. A experiência que deve ser valorizada é a observação grupal da própria realidade, o diálogo e a participação na ação transformadora das condições de vida.

O objetivo deste trabalho é demonstrar que a Educação em Saúde é um processo de interação entre o educador e o cliente, em uma atitude de escuta ativa e de acolhimento por parte do profissional/educador que atende aquele ser fragilizado que se apresenta diante dele, sendo auxiliado por uma equipe multidisciplinar criando uma rede de conhecimentos, onde se troca os saberes técnicos e os populares. Segundo KUHN (2002):

Nessa articulação entre saúde e condições/qualidade de vida, pode-se identificar o desenvolvimento de uma estratégia das mais promissoras para enfrentar os problemas de saúde que afetam as populações humanas. Trata-se da promoção da saúde, que partindo do conceito amplo sobre o processo saúde-doença e de seus determinantes, propõe a articulação de saberes técnicos e populares, e a mobilização de recursos institucionais e comunitários, públicos e privados para seu enfrentamento e resolução.

Definindo saúde, deve-se ter em mente que esta não é apenas a ausência de doenças, antes: “Saúde é o resultado das condições de vida, logo do acesso ao trabalho, à escola, à moradia e à alimentação” (BRASIL, 1991, apud

FIGUEIREDO, 2005, p 25). As políticas públicas ressaltam e estimulam a importância da educação em saúde para a promoção e manutenção da mesma. BRASIL (2001, p 51) define educação em saúde da seguinte forma:

A educação é uma parte essencial do tratamento. Constitui um direito e dever do paciente e também um dever dos responsáveis pela promoção da saúde.

Desenvolvimento

A forma de se levar o conhecimento para um indivíduo, um grupo ou coletividade é fundamental para que o processo de construção contínua da aprendizagem se torne eficaz e seja incorporado de fato em suas vidas, tornando o efeito permanente e dinâmico. Essa “revolução” na maneira de se pensar a saúde é fundamental para que haja mudanças de hábitos, estilos de vida, incorporação de novos valores e com isso manter sua qualidade de vida, antes mesmo de prevenir doenças.

O que tem sido observado é que os indivíduos adotam um comportamento passivo diante do seu adoecimento, responsabilizam somente os outros ou até mesmo as instituições pelas suas mazelas! Daí decorre a importância da educação neste âmbito: O profissional\educador deve mostrar ao seu cliente que ele somente irá melhorar suas condições de vida a partir do momento que ampliar sua participação na arte de prevenir e manter sua saúde.

Trazer de volta a responsabilidade pelos atos e desenvolver a capacidade de estabelecer vínculos, tanto por parte dos profissionais que promovem saúde quanto por parte da população assistida, devem ser objetivos comuns. Resgatar a autocrítica e promover o conhecimento dentro de um contexto histórico-social, econômico e cultural, que trará de volta a cidadania aos indivíduos constituindo assim uma sociedade mais humanizada e apta a conviver com as diversidades inerentes ao novo século.

Tal tarefa é exigida, não mais de um profissional que realiza seu trabalho de maneira isolada e sim de uma equipe multidisciplinar bem preparada, e aberta a buscar e responder aos anseios dessa nova sociedade.

As competências necessárias para esses novos profissionais de saúde, educadores, que devem trazer em suas bagagens curriculares uma flexibilidade maior de conteúdos, é que saibam mesclar as diversas áreas ou disciplinas, possibilitando assim a integração dos diversos conhecimentos, rompendo com a segmentação e o fracionamento. Esses profissionais antes detentores do saber, agora devem ser mediadores/filtradores de informações. A interdisciplinaridade possibilitará que diversas áreas, complementem-se, influenciem-se ou contrastem-se enriquecendo e diversificando o cabedal de informações a serem transmitidas. É importante levar em conta a contextualização dos diversos atores envolvidos, e as suas reais demandas, ofertando material adequado a cada situação.

Uma das experiências bem sucedidas, em se tratando de Educação em Saúde, especialmente em situações conflituosas, por exemplo, em DST/HIV/AIDS e Drogatização, é a prática do aconselhamento, pois oferece as condições necessárias para lidar com relações intersubjetivas. Conforme descreve o Ministério da Saúde (BRASIL,1998).

O resgate da integralidade do cliente, percebido como sujeito participante nas ações de saúde, implica o reconhecimento de sua subjetividade e interação com o profissional que o atende. Acolher o saber e o sentir do cliente, por meio de uma escuta ativa, é condição básica para um atendimento de qualidade.

O importante nesse processo de aconselhamento é estabelecer um vínculo de confiança, embasado na ética e respeito mútuo, e fazer com que o cliente reconheça-se como ator principal na busca de sua qualidade de vida. Deve transmitir apoio emocional, ser educativo e planejar as estratégias de redução de riscos. A abordagem pode ser feita de forma individual ou em grupo, porém, deve-se ressaltar a importância da equipe multidisciplinar para se conduzir as questões relativas ao caso. Nessa entrevista de ajuda, pode-se construir um relacionamento de ajuda, onde, tanto entrevistado como o entrevistador cresçam, porém, todo enfoque incide sobre o processo de crescimento do outro que está diante do profissional ou da equipe que o atende.

A entrevista de ajuda, tal como citada por Alfred Benjamin (BENJAMIN, 1985, p 14), é definida como um “diálogo no qual muitas pessoas, representando diversas ocupações, estão envolvidas a maior parte do tempo. O médico a põe em prática quando conversa com seu paciente, e o educador ao conversar com seu aluno.” Uma arte que se aprende com a vivência e reflexão, conforme ainda citado por Benjamin neste mesmo trabalho: (BENJAMIN, 1985, p 25).

O que tenho tentado dizer se resume nisso: parece-se me que, ao entrevistar, o melhor é agir de modo a não impormos nosso espaço vital ao entrevistado, confundir o nosso com o dele; e nos comportamos de forma a capacitá-lo a explorar seu próprio espaço vital em razão de nossa presença, e não apesar dela. Sentindo confiança e respeito, ele poderá lançar-se nessa exploração como nunca tentara antes _ uma nova experiência para ele, portanto, e que pode enriquecê-lo para além do que dizemos ou deixamos de dizer.

Uma entrevista de ajuda quando bem feita e assistida por uma boa equipe multidisciplinar, objetiva o restabelecimento da integralidade do indivíduo assistido, que, como ser que padece, fragilizado, se põe de uma forma um tanto inferiorizado perante seus auscultadores. Estes, no entanto, deverão traçar diretrizes para que ele retorne a sua vida psíquica, social e econômica de forma que o aprendizado na Educação em Saúde seja levado para o resto da vida.

A questão é complexa, é preciso definir bem os papéis, de forma de que cada um trabalhe em seu espaço respeitando o do outro; desempenhando bem o que se espera de cada profissional dentro de suas habilidades. Ao final reúne-se a equipe para que num consenso estabeleça o melhor para resolver o problema daquele indivíduo, daquele grupo ou daquela comunidade. Esse seria um grande avanço em direção a uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária, visto que promove a autonomia do ser humano.

Em se tratando de Educação em Saúde num processo de Construção coletiva, multidisciplinar, há que se pensar o ser humano do ponto de vista integral, resgatando o sujeito, ator principal, detentor de sua própria história. Neste contexto o trabalho grupal terá melhores habilidades e poderes de transformação social através da solidariedade e a cidadania.

Para finalizar empresto a palavra de Edgard de Assis Carvalho acerca do livro do de Edgar Morin, (MORIN, 2003).

de rejuntar Ciências e Humanidades

A educação do futuro exige um esforço transdisciplinar que seja capaz

...um desafio cognitivo a todos os pensadores empenhados em repensar os rumos que as instituições educacionais terão de assumir, se não quiserem sucumbir na inércia da fragmentação e da excessiva disciplinarização características dessas últimas décadas de mundialização neoliberal.

Transponho isso também para a área de Educação em Saúde, visto que os indivíduos deverão ser visto com o princípio da integralidade.

e irem a luta para garantir às futuras gerações um mundo com mais beleza,

Ainda seguindo a linha do pensamento de Carvalho, conclui-se que os educadores em saúde, assim como todos os educadores, devem sair do armário sustentabilidade e saúde.

(Parte 1 de 2)

Comentários