Antonio Candido - O Estudo Analítico do Poema

Antonio Candido - O Estudo Analítico do Poema

(Parte 1 de 6)

Antônio Cândido Antônio Cândido

DO POEMA 3a edição

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor: Prof. Dr. Flávio Fava de Moraes Vice-Reitora: Prof*. Dr". Myriam Krasilchik

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS Diretor Prof. Dr. João Baptista Borges Pereira Vice-Direton Prof. Vr. Francis Henrik Aubert

I - lut

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O Estudo Analítico do PoemaHumanitas Publicações FFLCH/USP
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Endereço para correspondência e-mail: pubflch@edu.usp.br © Copyright 1996 do autor. Direitos de publicação da Universidade de São Paulo. novembro/1996

ISBN: 85-86087-06-8 O ESTUDO

3a edição

Antônio Cândido Humanitas Publicações - FFLCH/USP São Paulo. 1996

C 223 Cândido, Antônio O estudo analítico do poema / Antônio Cândido. — São Paulo: Humanitas Publicações / FFLCH/USP, 1996. ISBN: 85-86087-06-8 1. Teoria literária — Poesia I. título

(CDD 20 ed.)-801.951 Ficha catalográfica: Eunides A. do Vale CRB/8-16 Serviço de Biblioteca e Documentação - FFLCH/USP

Nota Inicial5
Explicação7
Programa9
Introdução1
Apresentação do Programa13
Comentário e Interpretação Literária17
A Teoria de Grammont31
Rima39
O Destino das Palavras no Poema69
As Modalidades de Palavras Figuradas7
A Retórica Tradicional81
Natureza da Metáfora87

SUMARIO Pág. Bibliografia......................................................................................................... 101

NOTA INICIAL Como está dito na "Explicação" (ver adiante), a matéria que segue é parte de um curso dado em 1963 para o 4a ano de Letras, tendo sido mais tarde aproveitado noutros. Se naquela ocasião estas notas foram mimeografadas à minha revelia, devido a uma gentil inconfidência de Marlyse Meyer, desdobrada pela dedicação de Rodolfo Ilari, ambos, na época, da Cadeira de Língua e Literatura Francesa, - por que lhes dar agora a forma bem mais comprometedora de livro? Primeiro, para atender à generosa solicitude de uma colega e amiga, Walnice Nogueira Galvão, empenhada com mais alguns companheiros em divulgar trabalhos internos de nossa Faculdade. Segundo, porque passados vinte e quatro anos este material já pode ser considerado elemento para a sua história, como amostra do que se fazia naquele tempo, antes das transformações por que passou a Teoria da Literatura e, em consequência, o seu ensino. Com os professores franceses e italianos que vieram para a recém-funda-da Universidade de São Paulo a partir de 1934, aprendemos que um curso deve ser concebido e preparado antecipadamente, a fim de ser consultado nas aulas e assegurar a maior exatidão possível, além de romper com a mentalidade improvisadora, timbre de nobreza intelectual em nossa tradição. Com efeito, tive mestres brasileiros que visivelmente preparavam bem as aulas, mas fingiam improvisá-las, inclusive para sugerir aquele poder de memória que deslumbrava o auditório e era sinal de talento. De um velho professor secundário, ouvi certa vez que dar aula como os franceses, olhando as notas, não era vantagem, pois "colavam" tudo... Por outro lado, escrever a aula completa (cerca de vinte páginas datilografadas) e lê-la tal e qual aos outros alunos, pode desandar em monotonia e formalismo, impedindo a naturalidade da comunicação. O curso publicado aqui adotou, como os outros que preparei, a solução seguinte: redigir para cada aula um resumo contendo ideias e elementos necessários (no meu caso, mais ou menos cinco ou seis páginas), e sobre ele fazer a exposição, incorporando no ato ideias e exemplos que vão ocorrendo e são por vezes o melhor da aula. Quando, em começos de 1961, iniciei na Universidade de São Paulo (onde fora antes Assistente de Sociologia) o curso de Teoria da Literatura

6 (denominado a seguir, por proposta minha, Teoria Literária e Literatura Comparada), o meu critério foi ensinar de maneira aderente ao texto, evitando teorizar demais e procurando a cada instante mostrar de que maneira os conceitos lucram em ser apresentados como instrumentos de prática imediata, isto é, de análise. Quanto aos textos escolhidos, quis desde logo valorizar os contemporâneos, até então de pouca presença no ensino de nossa Faculdade. Usando os autores tradicionais no ls ano, decidi para o 4a e a antiga Especialização: 1) usar autores do Modernismo; 2) apresentar de maneira atualizada os "clássicos", como, por exemplo, José de Alencar

(Senhora) e Machado de Assis (Quincas Borba, alguns contos). Naquela altura a Editora do Autor publicou antologias de diversos poetas modernos, tornando-os acessíveis aos estudantes. Por isso pude trabalhar com poemas de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, além de Mário de Andrade, cuja obra era corrente na edição Martins. De Mário analisamos durante meses, em 1962, o poema "Louvação da Tarde", fato que menciono porque durante os seminários nasceu a idéia do levantamento de suas anotações marginais, o que foi feito por Maria Helena Grembecki, Nites Teresinha Feres e Telê Porto Ancona Lopez, e talvez tenha sido o primeiro impulso no processo de incorporação do acervo do grande escritor ao Instituto de Estudos Brasileiros. (A partir de certa altura esse trabalho teve o auxílio da FAPESP, Fundação de Amparo à Pesquisa, que em 1962, por solicitação minha, havia concedido a primeira bolsa para investigação no campo da Literatura: a de Pérola de Carvalho sobre fontes inglesas de Machado de Assis). Com base no material colhido, as três pesquisadoras elaboraram suas dissertações de mestrado sobre aspectos da obra de Mário de Andrade, que também foi objeto, em seguida, de suas teses de doutorado. Menciono ainda, no âmbito do Modernismo, a dissertação e a tese de Vera Chalmers, sobre Oswald de Andrade, porque acho que esse conjunto de trabalhos foi semente de um ciclo de pesquisas, documentação, estudos, sobre os dois autores e o Modernismo em geral. As notas que compõem o presente livro, embora antiquadas e cheias de lacunas, contendo mais indicações do que desenvolvimentos, servem, portanto, para registrar um momento no ensino da literatura em nossa Faculdade. Por isso, concordei que fossem impressas, como documento daquele início dos anos de 1960, quando a primeira geração de licenciados já tinha chegado à maturidade dos anos e, com ela, às responsabilidades de direção e orientação, que, depois de tantas esperanças, seriam postas a dura prova a partir de 1964, mas sobretudo 1968. Antônio Cândido de Mello e Souza Julho de 1987

EXPLICAÇÃO Este volume contém a parte teórica de um curso dado em 1963 e repetido em 1964 para o 4° ano de Teoria Literária. A parte que se pode chamar de prática era constituída pela análise de poemas de Manuel Bandeira, escolhido como exemplo principal, não apenas pela alta qualidade de sua obra, mas porque ela é provavelmente a única em nossa literatura que permite a um estudante encontrar todas as modalidade de verso, desde os rigorosamente fixos até os mais livremente experimentais. As referências de páginas, que o leitor encontrará ao lado de poemas dele, aludem à Antologia Poética, 1* edição, Editora do Autor, Rio, 1961. Não foi minha a ideia de mimeografar este texto superado, mas de colegas e amigos da Cadeira de Língua e Literatura Francesa. Alguém pediu para ler, depois mandou copiar para seu uso; os encarregados acabaram por bater stencis, porque se interessaram e quiseram também as suas cópias. Tudo à minha revelia, embora depois com o meu assentimento agradecido, pela demonstração d« interesse verdadeiramente desvanecedor. À Cadeira, portanto, e aos seus componentes, a minha gratidão muito sincera. O registro desses fatos serve também para desculpar-me por um texto fragmentário, cheio de buracos, referências incompletas, indicações sem continuação. Está visto que em aula a matéria ia sendo não apenas desenvolvida, mas completada por elementos que não aparecem aqui, por estarem registrados em notas manuscritas que não foram incorporadas a esta redação-base. Lembro um caso: o da teoria da percepção métrica, do filósofo Carlos Vaz Ferreira, a que dei importância nas aulas, e que nos originais que serviram para esta impressão mimeográfica estava reduzida a um lembrete manuscrito à margem. Caso semelhante é o das vinculações primitivas entre trabalho, ritmo e poesia, que expus a partir dos críticos marxistas Caudwell e Thomson, cuja obra no texto presente aparecia como simples alusão remissiva a um caderno, utilizado nas aulas. Outro exemplo: quando repeti o curso, glosei bastante a ideia, apenas sugerida aqui, do desvinculamento entre a poesia e verso, cujas primeiras manifestações

8 talvez se esbocem no poema em prosa do Romantismo e que em nossos dias é um pressuposto estético fundamental, ao mesmo título que a queda de barreiras entre os gêneros. Além disso, depois de ter redigido o curso (como é meu costume), tomei conhecimento de obras que me teriam feito abordar de modo diverso certos problemas; haja vista o da sonoridade expressiva, tão bem proposto por Roman Jakobson. Aqui, ela tem por fulcro uma apresentação longa e desnecessária da velha teoria de Grammont, que já em 1964 reduzi na prática a uma indicação breve, quando repeti o curso. Mais tarde, ao utilizar parte destas notas para seminários do Ia ano de Pós-Graduação, em 1966 e 1967, houve cortes, substituições e acréscimos ainda maiores. Em todo o caso, feita as ressalvas, é possível que este texto meio desconjuntado ainda interesse aos meus alunos, aos quais se destina, como lembrança do nosso trabalho comum. Uma última observação. O curso aqui publicado abrange apenas os dois primeiros tópicos do programa. Os tópicos finais e mais importantes, relativos à estrutura e ao seu significado imanente, com a conclusão sobre a unidade, foram desenvolvidos à medida que era efetuada a análise dos poemas. Deste modo se explica a falta de referências sistemáticas aos aspectos para os quais convergiam as noções e reflexões contidas no texto, e que constituem a pressuposto de um curso deste tipo, voltado para a integração da linguagem poética em estruturas significativas. São Paulo, novembro de 1967 Antônio Cândido de Mello e Souza Professor de Teoria Literária e Literatura Comparada

PROGRAMA 4a ano/1963 O estudo analítico do poema Introdução 1. Os fundamentos do poema a. sonoridade; b. ritmo; c. metro; d. verso. 2. As unidades expressivas a. figura; b. imagem; c. tema; d. alegoria; e. símbolo. 3. A estrutura a. princípios estruturais; b. princípios organizadores; c. sistemas de integração.

10 4. Os significados a. sentido ostensivo e latência; b. tradução ideológica; c. poesia "direta" e "oblíqua"; d. clareza e obscuridade. 5. A unidade do poema.

INTRODUÇÃO O nosso curso deste ano versará problemas de poesia, ao contrário dos dois anos anteriores, em que tratamos de problemas da prosa. O estudo da poesia apresenta certas dificuldades especiais, porque no universo prosaico o meio de expressão nos parece mais próximo da linguagem quotidiana, e nós nos familiarizamos mais rapidamente com ele. A linguagem da poesia é mais convencional e impõe uma atenção maior, sobretudo porque ela se manifesta geralmente, nos nossos dias, em peças mais curtas e mais concentradas, que por isso mesmo são menos acessíveis ao primeiro contato. Para o aluno de quarto ano, o estudo da poesia apresenta, nesta Faculdade, algumas vantagens positivas. A primeira é que os cursos de literatura que teve anteriormente se basearam de preferência em textos de prosa; assim, poderá agora variar e ampliar a sua experiência. A segunda é que o contato com os poemas o inicia num universo expressivo que tem sido alvo predileto dos estudos da crítica mais renovadora deste século. Como disse no início do meu curso de romance no ano passado, há sem dúvida mais estudos sobre prosa do que sobre poesia; mas os estudos mais revolucionários e talvez mais altos dos nossos dias, até bem pouco, foram de crítica de poesia. Isto posto, o aluno tem desejo, preliminarmente, de saber o que é poesia. Não o poderei satisfazer por enquanto, pela própria natureza do curso, que será explicada daqui a pouco ou na próxima aula. Mas deseja também saber que diferença há entre prosa e poesia. Basta dizer por enquanto que as acepções variam conforme as línguas, e que elas se relacionam ao conceito geral de literatura. Em português, não há dúvida: a literatura é o conjunto das produções feitas com base na criação de um estilo que é finalidade de si mesmo e não instrumento para demonstração ou exposição. Mais restritamente, é o conjunto de obras em estilo literário que manifestam o intuito de criar um objeto expressivo, fictício na maior parte. Noutras línguas, porém, as coisas são menos simples, e demonstram com mais força do que na nossa o alto conceito que se faz geralmente da poesia como categoria privilegiada de criação espiritual. É o

12 caso sobretudo do alemão, em que Literatur é termo muito geral, que levou a singulares confusões o nosso Sílvio Romero, por exemplo. Literatur em alemão é o conjunto de tudo o que se escreveu sobre qualquer assunto. Dichtung é que significa o que se escreveu em estilo literário e com intuito criador. Escritor, ou Schriftsteller, é o que escreve qualquer coisa, como notícias de jornal, por exemplo; Dichter é o escritor dotado de capacidade criadora. Em português eu posso ser um escritor, e Carlos Drummond de Andrade também o é; em alemão eu sou Schriftsteller, e ele um Dichter. Eu pertenço à Literatur e ele à Dichtung. A dificuldade está para o estrangeiro em que Dichter é tanto Drummond quanto Graciliano Ramos, isto é, no caso, não se diferencia a prosa da poesia, mas a qualidade do escrito, criador ou meramente informativo, crítico, analítico, etc. Poesie e Roman são modalidades de Dichtung. Em italiano, Benedetto Croce, visivelmente inspirado nas acepções alemãs, que se aproximam da velha acepção grega de poesia como criação, estabeleceu ao longo da sua obra uma distinção entre Poesia e Literatura. Aquela abrange obras em prosa e verso e corresponde à Dichtung; esta faz parte de outra esfera, também pode ser em prosa e verso, aproximando-se da Literatur dos alemães. Quando traduzimos Dichtung, usamos frequentemente Poesia, chamando Poetas aos Dichter. Mas é preciso notar que assim estamos fugindo às nossas acepções atuais e nos aproximando da acepção grega. Toda essa digressão vale para lhes mostrar a eminência do conceito de poesia, que é tomada como a forma suprema de atividade criadora da palavra, devida a intuições profundas e dando acesso a um mundo de excepcional eficácia expressiva. Por isso a atividade poética é revestida de um caráter superior dentro da literatura, e a poesia é como a pedra de toque para avaliarmos a importância e a capacidade criadora desta. Sobretudo levando em conta que a poesia foi até os tempos modernos a atividade criadora por excelência, pois todos os gêneros nobres eram cultivados em verso. Hoje, o desenvolvimento do romance e do teatro em prosa mudou este estado de coisas, mas mostra por isto mesmo como toda a literatura saiu da nebulosa criadora da poesia.

APRESENTAÇÃO DO PROGRAMA O curso deste ano tratará dos elementos necessários para a análise dos poemas. A este propósito, duas considerações iniciais: 1. Trataremos do "poema" e não da "poesia". 2. Faremos "analise" e não necessariamente "interpretação". Esclareçamos: 1. "Poema" e não "poesia" Não abordaremos o problema da criação poética em abstrato: o que é a poesia, qual a natureza do ato criador no poeta; etc. Isto não quer dizer que o nosso curso não sirva, no fim, para ajudar o entendimento de problemas deste tipo. Este esclarecimento é necessário também para se avaliar a relação do poema com a poesia, pois desde o Romantismo e do aparecimento do poema em prosa (de um lado) e da depuração do lirismo, de outro, sabemos: a. Que a poesia não se confunde necessariamente com o verso, muito menos com o verso metrificado. Pode haver poesia em prosa e poesia em verso livre. Com o advento das correntes pós-simbolistas, sabemos inclusive que a poesia não se contém apenas nos chamados gêneros poéticos, mas pode estar autenticamente presente na prosa de ficção.

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