Cem Anos De Solidao

Cem Anos De Solidao

(Parte 1 de 2)

CEM ANOS DE SOLIDÃO Gabriel García Márquez

O colombiano Gabriel García Márquez (1928) é o último grande contador de histórias do século X — e, até prova em contrário, da própria literatura ocidental. Depois de cem anos marcados por revoluções literárias radicais, não deixa de ser surpreendente que ele tenha conquistado tamanha notoriedade — nem o Nobel lhe falta ganhou-o em 1982 — enquanto tentava apenas imitar o tom com que sua avo materna lhe contava episódios mais fantásticos: sem alterar um só traço do rosto. Em nenhum outro livro García Márquez empenhou-se tanto para alcançar aquele tom como em Cem anos de solidão (1967). Assim, ao mesmo tempo em que a incrível e triste história dos Buendía — a estirpe de solitários para a qual não será dada ‘uma segunda oportunidade sobre a terra” — pode ser entendida como uma autêntica enciclopédia do imaginário, ela énarrada de modo a parecer sempre que tudo faz parte da mais banal das realidades.. Seria ingênuo procurar uma chave que explicasse toda a grandeza deste livro diante do qual o repertório de adjetivos torna-se espantosamente ineficaz. Porém, é razoável atribuir parte do êxito de Cem anos àquela contaminação, pelo real, do universo maravilhoso da fictícia Macon€Io, onde se passa o romance. Aqui pesou muito a experiência jornalística de García Márquez. E também a sombra do tcheco Franz Kafka (foi depois de ler a primeira frase de A metamorfose que García Márquez decidiu que seria escritor). Mas, para além desses artifícios técnicos e influências literárias, é preciso que se digã que a atordoante sensaçao de realidade que transborda do livro deve-se ainda ao fato de que ele foi escrito, segundo o autor, para “dar uma saída às experiências que de algum modo me afetaram durante a infância”. Tome-se, por exemplo, a primeira frase de Cem anos. Quando o escritor era pequeno, seu avô, o coronel Márquez, o apresentou mesmo, maravilhado, ao gelo, tal como José Arcadio Buendía faz com o filho Aureliano. Do mesmo modo que José Arcadio, o avô de García Márquez também carregava, na vigília e nos sonhos, o peso de um morto — o homem que havia assassinado. O coronel era marido de Tranquilina, aquela avó que encheu os primeiros anos e o resto da vida do neto Gabriel de histórias bem contadas.

García Márquez costuma dizer que todo grande escritor está sempre escrevendo o mesmo livro. “E qual seria o seu?”, perguntaram-lhe. “O livro da solidão”, foi a resposta. Apesar disso, ele não considera Cem anos sua melhor obra (gosta demais de O outono do patriarca, onde o tema também está presente). O que importa? O certo éque nenhum outro romance resume tão completamente o formidável talento deste contador de histórias de solitários — que se espalham e se espalharão por muito mais de cem anos pelas Macondos de todo o mundo.

Rinaldo Gama ***

Cem anos de solidão Obras do autor

Oenterro do diabo Entre amigos

O amor nos tempos do cólera A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile Cem anos de solidão Cheiro de goiaba Crônica de uma morte anunciada Do amor e oufros demónios Doze contos peregrinos Os funerais da mamãe grande O general em seu labirinto A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada A má hora (O veneno da madrugada) Ninguém escreve ao coronel Notícia de um seqüesfro Olhos de cão azul O outono do patriarca Relato de um náufrago Textos do Caribe (2 volum~s)

Gabriel García_Mdrquez Prêmio Nobel de Literatura Cem anos de solidao Tradução de ELIANE ZAGURY 48~ EDIÇÃO EDITORA RECORD RIO DE JANEIRO • SÃO PAULO

2000 1. Romance colombiano. 1. Carybé, 191- .1. Zagury, Eliane, 1945- I. Titulo. CDD — 868.993613 93-0226 CDU — 860(861)-3

Título original -~ CIEN ANOS DE SOLEDAD

Copyright © 1967 by Gabriel García Márquez Ilustrações de Carybé

Direitos de publicação exclusivos em todos os países de língua portuguesa com exceção de Portugal adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSAS. A. Rua Argentina 171 — Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 — Tel.: 585-2000 que se reserva a propriedade literária desta tradução

ISBN 85-01-01207-6~
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Para JOMI GARCÍA AsCOl e MARIA LUISA ELÍO -4

MUITOS anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Co-ronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde re-mota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, cons- truídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipi-tavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes co-mo ovos prê-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apon-tar com o dedo. Todos os anos, pelo m~s de março, uma fa-mília de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava

7 a conhecer os novos inventos. Primeiro trouxeram o imã. Um cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal,* que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava de a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedônia. Foi de casa em casa arrastando dois lingotes metálicos, e todo o mundo se espantou ao ver que os caldeirões, os tachos, as te. nazes e os fogareiros caíam do lugar, e as madeiras estalavam com o desespero dos pregos e dos parafusos tentando se de-sencravar, e até os objetos perdidos há muito tempo apare-ciam onde mais tinham sido procurados, e se arrastavam em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquía-des. “As coisas t~m vida própria”, apregoava o cigano com áspero sotaque, “tudo é questão de despertar a sua alma.” José Arcadio Buendía, cuja desatada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da natureza, e até mesmo além do milagre e da magia, pensou que era possível se servir daquela invenção inútil para desentranhar o ouro da terra. Melquía-des, que era um homem honrado, preveniu-o: “Para isso não serve.” Mas José Arcadio Buendía não acreditava, naquele tempo, na honradez dos ciganos de modo que trocou o seu jumento e um rebanho de cabritos pelos dois lingotes imanta-dos. Ursula Iguaráni sua mulher, aue contava com aqueles ani-mais para aumentar o raquítico Datrimônio doméstico, não conseguiu dissuadi-lo. “Muito eu’ breve vamos ter ouro de so-bra para assoalhar a casa”, respondeu o marido. Durante vá-rios meses empenhou-se em demonstrar o acerto das suas con-jeturas. Explorou palmo a palmo a região, inclusive o fundo do rio, arrastando os dois lingotes de ferro e recitando em voz alta o conjuro de Melquíades. A única coisa que conseguiu desenterrar foi uma armadura do século XV, com todas as suas partes soldadas por uma camada de óxido, cujo interior tinha a ressonância oca de uma enorme cabaça cheia de pedras.

*No original manos de gorrión. Explicação do autor à tradutora: “O importante da imagem é que esse pássaro tem patas de ave de rapina, mas é bom e inofensivo. Mel-quíades também, por suas mãos, e à primeira vista, podia parecer uma ave de rapi-na, mas não o era, como se viu mais tarde.”

- oJosé Arcadio Buendía e os quatro homens da sua ex-conseguiram

8 desarticular a armadura, encontraram ‘um esqueleto calcificado que trazia pendurado no pes-um relicário de cobre com um cacho de cabelo de mulher. Em março os ciganos voltaram. Desta vez traziam um ócu-alcance e uma lupa do tamanho de um tambor, que exi-como a última descoberta dos judeus de Amsterdam. itaram uma cigana num extremo da aldeia e instalaram o [o de alcance na entrada da tenda. Mediante o pagamento cinco reais, o povo se aproximava do óculo e via a cigana alcance da mão. “A ciência eliminou as distâncias”, apre-Melquíades. “Dentro em pouco o homem poderá ver acontece em qualquer lugar da terra, sem sair de sua “Num meio-dia ardente, fizeram uma assombrosa de-~istração com a lupa gigantesca: puseram um montão de seco na metade da rua e atearam fogo nele pela con-ntração dos raios solares. José Arcadio Buendía, que ainda se consolara de todo do fracasso dos seus ímãs, concebeu ~ia de utilizar aquele invento como uma arma de guerra. iuíades, outra vez, tratou de dissuadi-lo. Mas terminou os dois lingotes imantados e três peças de dinheiro

casião para investi-las. José Arcadio Buendía nem sequer ten-~ consolá-la,
- -protestos da mulher, alarmada por tão perigosa inven-por pouco não

‘ em troca da lupa. Ursula chorou de consternação. ~uele dinheiro fazia parte de um cofre de moedas de ouro seu pai acumulara em toda uma vida de privações e que havia enterrado debaixo da cama, à espera de uma boa entregue que estava por inteiro às suas expe-Lcias táticas, com a abnegação de um cientista e até mes-com o risco da própria vida. Tentando demonstrar os efei-da lupa na tropa inimiga, ele mesmo se expôs à concentra-dos raios solares e sofreu queimaduras que se transfor-~aram em úlceras e demoraram muito tempo para sarar. Dian- incendiou a casa. Passava longas horas no quarto, fazendo os cálculos das possibilidades estratégicas da nova arma, até que conseguiu compor um manual de uma I assombrosa clareza didática e um poder de convicção irresis-tível. Enviou-o às autoridades, acompanhado de numerosos tes-9 temunhos sobre as suas experiências e de vários apêndices de desenhos explicativos, aos cuidados de um mensageiro que atra-vessou a serra, extraviou- se em pântanos desmesurados, su-biu rios tormentosos e esteve a ponto de perecer sob o ataque das feras, o desespero e a peste, até encontrar um caminho que o levasse às mulas do correio. Embora a viagem à capital fosse naquele tempo quase impossível, José Arcadio Buendía prometia tentá-la logo que o Governo ordenasse, com o fim de fazer demonstrações práticas do seu invento diante dos po-deres militares, e adestrá- los pessoalmente nas complicadas ar-tes da guerra solar. Durante vários anos esperou a resposta. Por fim, cansado de esperar, lamentou-se diante de Melquía-des do fracasso da sua iniciativa e o cigano, então, deu uma prova convincente de honradez: devolveu-lhe os dobrões em troca da lupa e deixou, para ele, além disso, uns mapas por-tugueses e vários instrumentos de navegação. De seu próprio punho e letra escreveu uma apertada síntese dos estudos do monge Hermann, que deixou à sua disposição para que pu-desse se servir do astrolábio, da bússola e do sextante. José Arcadio Buendía passou os longos meses de chuva fechado num quartinho que construíra no fundo da casa, para que nin-guém perturbasse as suas experiências. Tendo abandonado completamente as obrigaç~ões domésticas, permaneceu noites inteiras no quintal, vigiando o movimento dos astros, e quase sofreu uma insolação, por tentar estabelecer um método exa-to para determinar o meio-dia. Quando se tornou perito no uso e manejo dos seus instrumentos, passou a ter uma noção do espaço que lhe permitiu navegar por mares incógnitos, vi-sitar territórios desabitados e travar relações com seres esplên-didos, sem necessidade de abandonar o seu gabinete. Foi por essa ocasião que adquiriu o hábito de falar sozinho, passean-do pela casa sem se incomodar com ninguém, enquanto Ur-sula e as crianças suavam em bicas na horta cuidando da ba-nana e da taioba, do aipim e do inhame, do cará e da berinje-la. De repente, sem anúncio prévio, a sua atividade febril se interrompeu e foi substituída por uma espécie de fascinação. Esteve vários dias como que enfeitiçado, repetindo para si mes-mo em voz baixa um rosário de assombrosas conjeturas, sem

A terra é redonda como uma laranja.

crédito ao próprio entendimento. Por fim, numa terça-a de dezembro, na hora do almoço, soltou de uma vez to-o peso do seu tormento. As crianças haviam de recordar .o resto da vida a augusta solenidade com que o pai se sen-.i na cabeceira da mesa, tremendo de febre, devastado pela ólongada vigília e pela pertinácia da sua imaginação, e re-Ílou a eles a sua descoberta: Úrsula perdeu a paciência. “Se você pretende ficar lou-k~ fique sozinho”, gritou. “Não tente incutir nas crianças as Lias idéias de cigano.” José Arcadio Buendia, impassível, não ~ deixou amedrontar pelo desespero da mulher que, num im-~ulso de cólera, destroçou o astrolábio contra o solo. Cons-ruiu outro, reuniu no quartinho os homens do povoado e de-nonstrou a eles, com teorias que acabaram sendo incompreen-íveis para todos, a possibilidade de regressar ao ponto de par-ida navegando sempre para o Oriente. A aldeia inteira já es-ava convencida de que José Arcadío Buendía tinha perdido juízo, quando Melquíades chegou para pôr a coisa em pra-os limpos. Ressaltou em público a inteligência daquele ho-nem que, por pura especulação astronômica, construíra uma eoria já comprovada na prática, se bem que desconhecida até ntão em Macondo, e como uma prova da sua admiração deu-~e um presente que havia de exercer uma influência decisiva o futuro da aldeia: um laboratório de alquimia. Por essa época, Melquíades tinha envelhecido com uma apidez assombrosa. Nas suas primeiras viagens parecia ter a iesma idade de José Arcadio Buendía. Mas enquanto este con-~rvava a sua força descomunal, que lhe permitia derrubar um avalo agarrando-o pelas orelhas, o cigano parecia estragado or um mal tenaz. Era, na realidade, o resultado de múltiplas estranhas doenças contraídas nas suas incontáveis viagens o redor do mundo. Conforme ele mesmo contou a José Ar-adio Buendía, enquanto o ajudava a montar o laboratório, morte o seguia por todas as partes, farejando- lhe as calças, as sem se decidir a dar o bote final. Era um fugitivo de quan-is pragas e catástrofes haviam flagelado o gênero humano. obreviveu à pelagra na Pérsia, ao escorbuto no arquipélago

1 da Malásia, à lepra em Alexandria, ao beribéri no Japão, àpeste bubônica em Madagascar, ao terremoto na Sicília e a um naufrágio multitudinário no estreito de Magalhães. Aquele ser prodigioso que dizia possuir as chaves de Nostradamus era um homem lúgubre, envolto numa aura triste, com um olhar asiático que parecia conhecer o outro lado das coisas. Usava um chapéu grande e negro, como as asas estendidas de um corvo, e um casaco de veludo patinado pelo limo dos séculos. Mas, apesar da sua imensa sabedoria e de sua aura misterio-sa, tinha um peso humano, uma condição terrestre que o man-tinha atrapalhado com os minúsculos problemas da vida coti- diana. Queixava-se de achaques de velho, sofria pelos mais insignificantes prejuízos econômicos e tinha deixado de rir há muito tempo, porque o escorbuto lhe havia arrancado os den-tes. No sufocante meio-dia em que revelou os seus segredos, José Arcadio Buendía teve a certeza de que aquele era o prin-cípio de uma grande amizade. As crianças se assombraram com os seus relatos fantásticos. Aureliano, que naquele tempo não tinha mais de cinco anos, havia de recordar pelo resto da vida como o viu naquela tarde, sentado contra a claridade metáli-ca e reverberante da janela, iluminando com a sua profunda voz de órgão os terr~itórios mais escuros da imaginação, en-quanto esguichava pelas têmporas a gordura derretida pelo ca-lor. José Arcadio, seu irmão mais velho, havia de transmitir aquela imagem maravilhosa, corno uma recordação hereditá-ria, a toda a sua descendência. Ursula, pelo contrário, con-servou uma lembrança desagradável daquela visita, porque en-trou no quarto no momento em que Melquíades quebrava por distração um frasco de bicloreto de mercúrio. —É o cheiro do demônio—ela disse.

— Absolutamente — corrigiu Melquíades. — Está com-provado que o demônio tem propriedades sulfúricas, e isto não passa de um pouco de sublimado corrosivo. Sempre didático, fez uma sábia exposição sobre as virtu-des diabólicas do cinabre, mas Úrsula não lhe deu a menor atenção e levou as crianças para rezar. Aquele cheiro acre fi-cana para sempre em sua memória vinculado à lembrança de Melquíades.

O laboratório rudimentar — não se falando na profusão e caçarolas, funis, retortas, filtros e coadores — estava com-sto de uma tubulação primitiva; uma proveta de cristal, de coço comprido e estreito, imitação do ovo filosófico; e um tlambique construído pelos próprios ciganos, de acordo com as descrições daquele de três braços, de Maria, a judia. Além destas coisas, Melquíades deixou amostras dos sete metais cor- respondentes aos Sete planetas, as fórmulas de Moisés e Zózi-mo para a duplicação do ouro, e uma série de notas e dese-nhos sobre os processos do Grande Magistério, que permitiam a quem os soubesse interpretar a tentativa de fabricação da pedra filosofal. Seduzido pela simplicidade das fórmulas pa-ra duplicar o ouro, José Arcadio l3uendía adulou Úrsula du-rante várias semanas, para que lhe permitisse desenterrar as suas moedas coloniais e aumentá-las tantas vezes quantas fosse possível subdividir o azougue. Úrsula cedeu, como acontecia sempre, diante da inquebrantável obstinação do marido. En-tão, José Arcadio Buendía jogou trinta dobrões numa caça-rola e os fundiu com raspa de cobre, ouro-pigmento, enxofre e chumbo. Pôs tudo para ferver em fogo forte, num caldei-rão de óleo de rícino, até obter um xarope espesso e fedoren-to, mais parecido com uma calda vulgar do que com o ouro magnífico. Em azarados e desesperados processos de destila-ção, fundida com os sete metais planetários, trabalhada com o mercúrio hermético e o vitríolo de Chipre, e novamente co-zida em banha de porco na falta de óleo de rábano, a precio-sa herança de Úrsula ficou reduzida a um torresmo carboni-zado que não pôde ser desprendido do fundo do caldeirão. Quando os ciganos voltaram, Úrsula já havia predispos-to toda a população contra eles. Mas a curiosidade pôde mais que o temor, porque daquela vez os ciganos percorreram a al-deia fazendo um barulho ensurdecedor com todo tipo de ins-trumentos musicais, enquanto o pregoeiro anunciava a exibi-ção da mais fabulosa descoberta dos nasciancenos. De modo que todo mundo foi à tenda, e com o pagamento de um cen-tavo viu um Melquíades juvenil, refeito, desenrugado, com uma dentadura nova e radiante. Os que recordavam as suas gengivas destruídas pelo escorbuto, as suas bochechas fláci-13 das e os seus lábios murchos, estremeceram de pavor diante daquela prova decisiva dos poderes sobrenaturais do cigano. O pavor se converteu em pânico quando Melquíades tirou os dentes, intactos, engastados nas gengivas, e mostrou-os ao pú-blico por um instante — um instante fugaz em que voltou a ser o mesmo homem decrépito dos anos anteriores — e botou-os outra vez e sorriu de novo com um domínio pleno da sua juventude restaurada. Até o próprio José Arcadio Buendía con-siderou que os conhecimentos de Melquíades tinham chegado a extremos intoleráveis, mas experimentou um saudável alvo-roço quando o cigano lhe explicou a sós o mecanismo da sua dentadura postiça. Aquilo lhe pareceu ao mesmo tempo tao simples e prodigioso, que da noite para o dia perdeu todo o interesse pelas pesquisas de alquimia; sofreu uma nova crise de mau humor, não voltou a comer de maneira regular e pas-sava o dia dando voltas pela casa. “Estão ocorrendo coisas incríveis pelo mundo”, dizia a Úrsula. “Aí mesmo, do outro lado do rio, existe todo tipo de aparelho mágico, enquanto nós continuamos vivendo como os burros.” Os que o conhe-ciam desde os tempos da fundação de Macondo se assombra-vam do quanto ele havia mudado sob a influencia de Melquíades. No princípio, Jose Arcadio Buendía era uma espécie de patriarca juvenil, que dava instruções para o plantio e conse-lhos para a criação de filhos e animais, e colaborava com to-dos, mesmo no trabalho físico, para o bom andamento da co-munidade. Posto que a sua casa fosse desde o primeiro mo-mento a melhor da aldeia, as outras foram arranjadas à sua imagem e semelhança. Tinha uma saleta ampla e bem ilumi-nada, uma sala de jantar em forma de terraço com flores de cores alegres, dois quartos, um quintal com um castanheiro gigantesco, um jardim l~em plantado e um curral onde viviam em comunidade pacífica os cabritos, os porcos e as galinhas. Os únicos animais proibidos não só em casa, mas também em todo o povoado, eram os galos de briga.

A diligência de Ursula andava de braços com a de seu ma-rido. Ativa, miúda, severa, aquela mulher de nervos inque-brantáveis, a quem em nenhum momento da vida se ouviu can-14 tar, parecia estar em todas as partes desde o amanhecer até a noite já bem avançada, sempre perseguida pelo suave sus-surro das suas anáguas de cambraia. Graças a ela, o chão de terra batida, os muros de barro sem caiação, os rústicos mó- veis de madeira construídos por eles mesmos estavam sem-pre limpos, e as velhas arcas onde se guardava a roupa exala-vam um cheiro tênue de manjericão. José Arcadio Buendía, que era o homem mais empreen-dedor que se poderia ver na aldeia, determinara de tal modo a posição das casas que a partir de cada uma se podia chegar ao rio e se abastecer de água com o mesmo esforço; e traçara as ruas com tanta habilidade que nenhuma casa recebia mais sol que a outra na hora do calor. Dentro de poucos anos, Ma-condo se tornou uma aldeia mais organizada e laboriosa que qualquer das conhecidas até então pelos seus 300 habitantes. Era na verdade uma aldeia feliz, onde ninguém tinha mais de trinta anos e onde ninguém ainda havia morrido. Desde os tempos da fundação, José Arcadio Buendía cons-truíra alçapões e gaiolas. Em pouco tempo, encheu de corru-piões, canários, azulões e pintassilgos não só a própria casa, mas todas as da aldeia. O concerto de tantos pássaros dife- rentes chegou a ser tão aturdidor que Ursula tapou os ouvi-dos com cera de abelha para não perder o senso da realidade. Na primeira vez que chegou a tribo de Melquíades, vendendo bolas de vidro para dor de cabeça, todo mundo se surpreen- deu por terem podido encontrar aquela aldeia perdida no ma-rasmo do pântano, e os ciganos confessaram que haviam se orientado pelo canto dos pássaros. Aquele espírito de iniciativa social desapareceu em pou-co tempo, arrastado pela febre dos ímãs, pelos cálculos astro-nômicos, sonhos de transmutação e ânsias de conhecer as ma-ravilhas do mundo. De empreendedor e limpo, José Arcadio Buendía se converteu num homem de ar vadio, descuidado no vestir, com uma barba selvagem a que Ürsula conseguia dar forma a duras penas, com uma faca de cozinha. Não faltou quem o considerasse vítima de algum estranho sortilégio. Mas até os mais convencidos da sua loucura abandonaram o tra-balho e a família para segui-lo, quando atirou ao ombro as

15 foices e machados, e pediu a participação de todos para abrir uma picada que pusesse Macondo em contato com os gran-des inventos.

José Arcadio Buendía ignorava por completo a geogra-fia da região. Sabia que para o Oriente estava a serra impene-trável, e do outro lado da serra a antiga cidade de Riohacha, onde em épocas passadas — segundo lhe havia contado o pri-meiro Aureliano Buendía, seu avô — Sir Francis Drake era dado ao esporte de caçar jacarés a tiros de canhão. Os bichos eram depois remendados, recheados de palha e mandados para a Rainha Elizabeth. Na sua juventude, ele e seus homens, com mulheres e crianças e animais e toda espécie de utensílios do-mésticos, atravessaram a serra procurando uma saída para o mar, e ao fim de vinte e seis meses desistiram da empresa e fundaram Macondo, para não ter que empreender o caminho de volta. Era, pois, uma rota que não lhe interessava, porque só podia conduzi-lo ao passado. Ao Sul estavam os charcos cobertos de uma eterna nata vegetal, e o vasto universo do grande pantanal, que, segundo testemunho dos ciganos, ca-recia de limites. O grande pantanal se confundia ao Ocidente com uma extensão aquática sem horizontes, onde havia cetá-ceos de pele delicada, cabeça e torso de mulher, que perdiam os navegantes com o feitiço tias suas tetas descomunais. Os ciganos navegavam seis meses por essa rota antes de alcançar a faixa de terra firme por onde passavam as mulas do correio. De acordo com os cálculos de José Arcadio Buendía, a única possibilidade de contato com a civilização era a rota do Nor-te. De modo que dotou de foices, facões e armas de caça os mesmos homens que o acompanharam na fundação de Ma-condo; pôs numa mochila os seus instrumentos de orientação e os seus mapas, e empreendeu a temerária aventura. Nos primeiros dias, não encontraram nenhum obstáculo apreciável. Desceram pela pedregosa margem do rio até o lu-gar onde anos antes haviam achado a armadura do guerreiro e ali penetraram na mata por um caminho de laranjeiras sil-vestres. Ao fim da primeira semana, mataram e assaram um veado, mas se conformaram em comer a metade e salgar o resto para os próximos dias. Trataram de adiar com essa pre-16 Ci ri SI C o f a caução a necessidade de continuar comendo azaras, cuja car-ne azul tinha um áspero sabor de almíscar. Em seguida, du-mais de dez dias, não voltaram a ver o sol. O solo tornou- mole e úmido, como cinza vulcânica, e a vegetação fez-se cada vez mais insidiosa, e ficaram cada vez mais longínquos os gritos dos pássaros e a algazarra dos macacos, e o mundo ficou triste para sempre. Os homens da expedição se sentiram angustiados pelas lembranças mais antigas, naquele paraíso de umidade e silêncio, anterior ao pecado original, onde as botas se afundavam em poças de óleos fumegantes e os fa-cões destroçavam lírios sangrentos e salamandras douradas. Durante uma semana, quase sem falar, avançaram como so-nãinbulos por um universo de depressão, iluminados apenas por unia tênue reverberação de insetos luminosos e com os pul- mões agoniados por um sufocante cheiro de sangue. Não po-diam regressar, porque a picada que iam abrindo em pouco tempo tornava a se fechar com uma vegetação nova que ia crescendo a olhos vistos. “Não tem importância”, dizia José Arcadio Buendía. “O essencial é não perder a orientação.” Sempre de olho na bússola, continuou guiando os seus homens para o Norte invisível, até que conseguiram sair da região en-cantada. Era uma noite densa, sem estrelas, mas a escuridão estava impregnada de um ar novo e limpo. Esgotados pela prolongada travessia, penduraram as redes e dormiram pro-fundamente pela primeira vez em duas semanas. Quando acor-daram, já com o sol alto, ficaram pasmos de fascinação. Diante deles, rodeado de fetos e palmeiras, branco e empoeirado na silenciosa luz da manhã, estava um enorme galeão espanhol. Ligeiramente inclinado para estibordo, de sua mastreação in-tacta penduravam-se os fiapos esquálidos do velame, entre a enxárcia enfeitada de orquídeas. O casco, coberto por uma lisa couraça de caracas e musgo tenro, estava firmemente en-cravado num chão de pedras. Toda a estrutura parecia ocu-par um âmbito próprio, um espaço de solidão e esquecimen-to, vedado aos vícios do tempo e aos maus hábitos dos pássa-ros. No interior, que os expedicionários exploraram com um secreto fervor, não havia nada além de um espesso bosque de flores.

Porra! — gritou. — Macondo está cercado de água por todos os lados.

17 O achado do galeão, indício da proximidade do mar, que-brantou o ímpeto de José Arcadio Buendía. Considerava co-mo uma brincadeira do seu destino travesso ter procurado o mar sem encontrá-lo, ao preço de sacrifícios e incômodos sem conta, e tê-lo encontrado agora sem procurá-lo, atravessado no seu caminho como um obstáculo intransponível. Muitos anos depois, o Coronel Aureliano Buendía voltou a atraves-sar a região, quando já era uma rota regular do correio, e a única coisa que encontrou da nave foi o esqueleto carboniza-do no meio de um campo de amapolas. Só então convencido de que aquela história não tinha sido fruto da imaginação de seu pai, perguntou-se como pudera o galeão penetrar até aquele ponto na terra firme. Mas José Arcadio Buendía não levan-tou esse problema quando encontrou o mar, ao fim de outros quatro dias de viagem, a doze quilômetros de distância do ga-leão. Seus sonhos terminavam diante desse mar de cor cinza, espumoso e sujo, que não merecia os riscos e sacrifícios da sua aventura. A idéia de um Macondo peninsular prevaleceu durante muito tempo, inspirad~ no mapa arbitrário que José Arcadio Buendía desenhou ao regressar da sua expedição. Traçou-o com raiva, exagerando de má fé as dificuldades de comunica-ção, como que para castigar-se a si mesmo da absoluta falta de senso com que escolheu o lugar. “Nunca chegaremos a parte alguma”, lamentava-se para Úrsula. “Aqui haveremos de apo- drecer em vida sem receber os benefícios da ciência.” Essa cer-teza, ruminada por vários meses no quartinho do laborató-rio, levou-o a conceber o projeto de trasladar Macondo para um lugar mais propício. Mas desta vez, Ursula se antecipou aos seus desígnios febris. Num secreto e implacável trabalho de formiga, predispôs as mulheres da aldeia contra a veleida-de dos seus homens, que já começavam a se preparar para a mudança. José Arcadio Buendía não soube em que momen-to, nem em virtude de que forças adversas, seus planos se fo-ram emaranhando numa teia de pretextos, contratempos e eva-sivas, até se transformarem em pura e simples ilusão. Ursula ervou-o com uma atenção inocente, e até sentiu por ele um de piedade na manhã em que o encontrou no quartl-dos fundos comentando entre dentes os seus sonhos de mudança, enquanto colocava nas suas caixas originais as pe-ças do laboratório. Deixou-o terminar. Deixou-o pregar as cai-xas e pôr as suas iniciais em cima com um

Nós não iremos — disse. — Ficaremos aqui, porque aqui tivemos um filho.
Ainda não temos um morto — ele disse. — A gente não é de um lugar

pincel cheio de tin-.‘- ~em lhe fazer nenhuma censura, mas já sabendo que ele (porque o ouviu dizer em seus surdos monólogos) que os homens do povoado não o seguiriam na empresa. Só quando ou a desmontar a porta do quartinho é que Ürsula se atreveu a lhe perguntar por que o fazia, e ele lhe respondeu certa amargura: “Já que ninguém quer ir embora, nós sozinhos.” Ürsula não se alterou. enquanto não tem um morto enterrado nele. Úrsula replicou, com uma suave firmeza: Se é preciso que eu morra para que vocês fiquem aqui, eu ihorro. José Arcadio Buendía não acreditou que fosse tão rígida a vontade de sua mulher. Tratou de seduzi-la com o feitiço da sua fantasia, com a promessa de um mundo prodigioso onde bastava derramar uns lfquidos mágicos na terra para que as plantas dessem frutos à vontade do homem, e onde se ven-diama preço de banana toda espécie de aparelhos contra a dor. Mas Ursula foi insensível à sua clarividência. — Em vez de andar por aí com essas novidades malu-cas, você devia era se ocupar dos seus filhos — replicou. —Olhe como estão, abandonados ao deus-dará, como os burros. José Arcadio Buendía tomou ao pé da letra as palavras da mulher. Olhou pela janela e viu os dois meninos descalços na horta ensolarada, e teve a impressão de que só naquele ins-tante tinham começado a existir, concebidos pelos rogos de Ürsula. Alguma coisa aconteceu então no seu íntimo; alguma coisa misteriosa e definitiva que o desprendeu do tempo atual e o levou à deriva por uma inexplorada região de lembranças. Enquanto Úrsula continuava varrendo a casa que agora esta-

19 va certa de não abandonar peio resto cm vida, ele permaneceu contemplando as crianças com um olhar absorto, até que seus olhos se encheram d’água e ele os enxugou com o dorso da mão, exalando um profundo suspiro de resignação. — Bem — disse. — Diga-lhes que venham me ajudar a tirar as coisar dos caixotes. José Arcadio, o mais velho dos meninos, havia comple-tado quatorze anos. Tinha a cabeça quadrada, o cabelo hir-suto e o gênio voluntarioso do pai. Ainda que tivesse o mesmo impulso de crescimento e fortaleza física, já então era eviden-te que carecia de imaginação. Foi concebido e dado à luz du-rante a penosa travessia da serra, antes da fundação de Ma-condo, e seus pais deram graças aos céus ao comprovar que não tinha nenhum órgão de animal. Aureliano, o primeiro ser humano que nasceu em

Macondo, ia fazer seis anos em mar-ço. Era silencioso e retraído. Tinha chorado no ventre da mãe e nasceu com os olhos abertos. Enquanto lhe cortavam o um-bigo movia a cabeça de um lado para o outro, reconhecendo as coisas do quarto, e examinava o rosto das pessoas com uma curiosidade sem assombro. Depois, indiferente aos que vinham conhecê-lo, manteve a atenção concentrada no teto de palmas, que parecia estar quase desabando sob a tremenda pressão da chuva. Ursula nao tornou a se lembrar da intensidade desse olhar até o dia em que o pequeno Aureliano, na idade de três anos, entrou na cozinha no momento em que ela retirava do fogão e punha na mesa uma panela de caldo fervente. O ga-roto, perplexo na porta, disse: “Vai cair.” A panela estava posta bem no centro da mesa, mas, logo que o menino deu o aviso, iniciou um movimento irrevogável para a borda, co-mo impulsionada por um dinamismo interior, e se espedaçou no chão. Úrsula, alarmada, contou o episódio ao marido, mas este o interpretou como um fenômeno natural. Sempre fora assim, alheio à existência dos filhos, em parte porque consi-derava a infância como um período de insuficiência mental, e em parte porque estava sempre absorto por demais nas suas próprias especulações quiméricas. Desde a tarde, porém, em que chamou os meninos para. que o ajudassem a desempacotar as coisas do laboratório, cou-lhes as suas melhores horas. No quartinho separado, paredes se foram enchendo pouco a pouco de mapas in-~ssímeis e gráficos fabulosos, ensinou-os a ler e escrever fazer contas, e falou das maravilhas do mundo não só até chegavam os seus conhecimentos, mas forçando a ex- incríveis os limites da sua imaginação. Foi assim que meninos acabaram por aprender que no extremo merídio- da África havia homens tão inteligentes e pacíficos que único entretenimento era sentar para pensar, e que era sível atravessar a pé o mar Egeu pulando de ilha em ilha porto de Salônica. Aquelas alucinantes sessões ficaram modo impressas na memória dos meninos, que muitos mais tarde, um segundo antes de que o oficial dos exér-regulares desse a ordem de fogo ao pelotão de fuzilamen- o Coronel Aureliano Buendía tornou a viver a suave tarde março em que seu pai interrompeu a lição de Física e ficou com a mão no ar e os olhos imóveis, ouvindo a dis-os pífaros e tambores e guizos dos ciganos que uma vez chegavam à aldeia, apregoancfo a última e assombrosa

- másrecordações, e o emplastro para perder o tempo, e mil invenções tão

scoberta dos sábios de Mênfis. Eram ciganos novos. Homens e mulheres jovens que só .nheciam a sua própria língua, exemplares formosos de pele e mãos inteligentes, cujas danças e músicas semearam ruas um pânico de alvoroçada alegria, com as suas araras de todas as cores que recitavam romanças italianas, a galinha que punha uma centena de ovos de ouro ao som pandeiro, e o macaco amestrado que adivinhava o pensa- e a máquina múltipla que servia ao mesmo tempo pa-pregar botões e baixar a febre, e o aparelho para esquecer engenhosas e insólitas, que José Arca-Buendía gostaria de inventar a máquina da memória para se lembrar de todas. Num instante transformaram a al-~‘. Os habitantes de Macondo se encontraram de repente )s nas suas próprias ruas, aturdidos pela feira ultitudinária. Levando um garoto em cada mão, para não perdê-los no Lumulto, tropeçando com saltimbancos de dentes encouraça-21 dos de ouro e malabaristas de seis braços, sufocado pelo con-fuso hálito de esterco e sândalo que exalava a multidão, José Arcadio Buendía andava como um louco procurando Melquía— des por todas as partes, para que lhe revelasse os infinitos se-gredos daquele pesadelo fabuloso. Dirigiu-se a vários ciganos que não entenderam a sua língua. Por fim chegou ao lugar onde Melquíades costumava plantar a sua tenda e encontrou um armênio taciturno que anunciava em castelhano um xaro-pe para se fazer invisível. Tinha tomado de um gole uma taça da substância ambarina, quando José Arcadio Buendía abriu passagem aos empurrões por entre o grupo absorto que pre-senciava o espetáculo e conseguiu fazer a pergunta. O cigano o envolveu no clima atônito do seu olhar, antes de se trans-formar numa poça de alcatrão fedorento e fumegante sobre a qual ficou boiando a ressonância de sua resposta: “Melquía-des morreu.” Aturdido pela notícia, José Arcadio Buendía per-maneceu imóvel, tratando de vencer a aflição, até que o gru-po se dispersou, reclamando por outros artifícios, e a poça do armênio taciturno se evaporou completamente. Mais tar-de, outros ciganos lhe confirmaram que na verdade Melquía-des tinha sucumbido às febres, ~nas dunas de Cingapura, e o seu corpo tinha sido jo~ado no lugar mais profundo do mar de Java. Os meninos não se interessaram pela notícia. Teima-vam para que seu pai os levasse para conhecer a portentosa novidade dos sábios de Mênfis, anunciada na entrada de uma tenda que, segundo diziam, pertenceu ao Rei Salomão. Tan-to insistiram que José Arcadio Buendía pagou os trinta reais e os conduziu até o centro da barraca, onde havia

É o maior diamante do mundo.
Não — corrigiu o cigano. — E gelo.
“, exclamou assustado. Mas o pai não lhe prestou aten-Embriagado pela
Este é o grande invento do nosso tempo.

um gigante de torso peludo e cabeça raspada, com um anel de cobre no nariz e uma pesada corrente de ferro no tornozelo, vigiando um cofre de pirata. Ao ser destampado pelo gigante, o cofre deixou escapar um hálito glacial. Dentro havia apenas um enor-me bloco transparente, com infinitas agulhas internas nas quais se despedaçava em estrelas de cores a claridade do crepúscu-lo. Desconcertado, sabendo que os meninos esperavam uma explicação imediata, José Arcadio Buendía atreveu-se a murmurar: 2 José Arcadio Buendía, sem entender, estendeu a mão para bloco, mas o gigante afastou-a. “Para pegar, mais cinco ‘,disse. José Arcadio Buendía pagou, e então pôs a mão obre o gelo, e a manteve posta por vários minutos, enquanto ~ coração crescia de medo e de júbilo ao contato do mistério. saber o que dizer, pagou outros dez reais para que os seus os vivessem a prodigiosa experiência. O pequeno José Ar-lio negou-se a tocá-lo. Aureliano, em compensação, deu um para diante, pôs a mão e retirou-a no ato. “Está fer- evidência do prodígio, naquele momento esqueceu da frustração das suas empresas delirantes e do corpo de Melquíades abandonado ao apetite das lulas. Pagou outros cinco reais, e com a mão posta no bloco, como que prestando um juramento sobre o texto sagrado, exclamou: 23 ando, um comerciante aragonês com quem tinha dois gastou metade da loja em remédios e divertimentos, ando a maneira de aliviar os seus terrores. Por fim, li-u o negócio e levou a família para viver longe do mar, aldeia de índios pacíficos na encosta da serra, onde cons-para a mulher um quarto sem janelas, para que os pira-s seus pesadelos não tivessem por onde entrar. a escondida encosta vivia há muito tempo um nativo ador de tabaco, o Sr. José Arcadio Buendía, com quem vê de Úrsula fez uma sociedade tão produtiva que em os anos os dois juntaram fortuna. Vários séculos depois, araneto do nativo se casou com a tataraneta do arago-Por isso, cada vez que Ursula subia pelas paredes com ucuras do marido, pulava por cima de trezentos anos de cid~ncias e maldizia a hora em que Francis Drake assal-Riohacha. Era um mero recurso de desabafo, porque na de estavam ligados até a morte por um vínculo mais só-~ que o amor: uma dor comum de consciência. Eram pri-~ entre si. Tinham crescido juntos na antiga encosta que antepassados de ambos haviam transformado com o tra-~io e os bons costumes num dos melhores povoados da pro- teia. Apesar do casamento deles ser previsível desde que vie-p ao mundo, quando expressaram a vontade de se casar os ~prios parentes tentaram impedir. Tinham medo de que ieles saudáveis fins de duas raças secularmente entrecruza-passassem pela vergonha de engendrar iguanas. Já existia i precedente tremendo. Uma tia de Ursula, casada com um de José Arcadio Buendía, teve um filho que passou toda ida de calças larguíssimas e frouxas, e que morreu de he-~rragia depois de ter vivido quarenta e dois anos no mais ro estado de virgindade, porque nascera e crescera com uma ida cartilaginosa em forma de saca-rolhas e com uma esco-de pêlos na ponta. Um rabo de porco que nunca deixou visto por nenhuma mulher, e que lhe custou a vida quan-um açougueiro amigo lhe fez o favor de cortá-lo com a ma-idinha de retalhar. José Arcadio l3uendía, com a levianda-dos seus dezenove anos, resolveu o problema com uma só se: “Não me importa ter leitõezinhos, desde que possam

Está vendo, Ürsula, o que o povo anda dizendo —disse à mulher com muita

25 falar.” Assim, casaram-se com uma festa de banda e fogue-tes que durou três dias. Teriam sido felizes desde então, se a mãe de Ursula não a tivesse aterrorizado com toda espécie de prognósticos sinistros sobre a sua descendência, chegando ao extremo de conseguir que ela recusasse consumar o matrimô-nio. Temendo que o corpulento e voluntarioso marido a vio-lasse adormecida, Ursula vestia antes de se deitar umas calças compridas rudimentares que sua mãe lhe fabricou com lona de veleiro e reforçadas com um sistema de correias entrecru-zadas, que se fechava na frente com uma grossa fivela de fer-ro. Assim estiveram vários meses. Durante o dia, ele cuidava de seus galos de briga e ela bordava em bastidor com a mãe. Durante a noite, lutavam várias horas com uma ansiosa vio-lência que já parecia um substituto do ato de amor, até que a intuição popular farejou que algo de irregular estava acon-tecendo, e espalhou o boato de que Ursula continuava virgem um ano depois de casada, porque o marido era impotente. José Arcadio Buendía foi o último a saber. calma.

— Deixe falar — disse ela. — A gente sabe que não éverdade, De modo que a situação continuou igual por mais seis me-ses, até o domingo trágico em que José Arcadio Buendía ga-nhou uma briga de galos de Prudencio Aguilar. Furioso, exal-tado pelo sangue do seu animal, o perdedor se afastou de Jo-sé Arcadio Buendía para que toda a rinha pudesse ouvir o que lhe ia dizer. — Você está de parabéns — gritou. — Vamos ver se afi-na! esse galo resolve o caso da sua mulher. José Arcadio Buendía, sereno, pegou o galo. “Volto já”, disse a todos. E logo, a Prudencio Aguilar: — E você, vá pra casa e se arme, que eu vou matá-lo. Dez minutos depois voltou com a lança ensebada de seu avô. Na entrada da ninha, onde se havia concentrado metade do povoado, Prudencio Aguilar o esperava. Não teve tempo de defender-se. A lança de José Arcadio Buendía, atirada com a força de um touro e com a mesma mira certa com que o 26 1

~restava vestindo as calças de castidade. Brandindo a lan-e dela,
Se você tiver que parir iguanas, criaremos iguanas —
Mas não haverá mais mortos neste povoado por cul-sua.
Ocaso foi classificado como um duelo de honra, mas em
~que não agüentamos com o peso da consciência.” Duas depois, Úrsula

teiro Aureliano Buendía exterminou os tigres da região, ivessou-lhe a garganta. Nessa noite, enquanto se velava o José Arcadio Buendía entrou no quarto quando a sua ordenou: “Tire isso.” Ürsula não pôs em dú-a uecisão do marido. “Você será o responsável pelo que murmurou. José Arcadio Buendía cravou a lan-no chAo de terra. Era uma bela noite de junho, fresca e com lua, e estive- acordados e brincando na cama até o amanhecer, indife-vento que passava pelo quarto, carregado com o pran-aos parentes de Prudencio Aguilar. ficou uma dorzinha de consciência. Numa noite em que dormir, Úrsula saiu para beber água no quin-viu Prudencio Aguilar junto à tina. Estava lívido, com na expressão muito triste, tentando tapar com uma atadura esparto o buraco da garganta. Não lhe produziu medo, mas • Voltou ao quarto para contar ao esposo o que tinha visto, não ligou. “Os mortos não saem”, disse. “O que acon- tornou a ver Prudencio Aguilar no ba-‘-~—‘- lavando com a atadura de esparto o sangue coagula-do pescoço. Outra noite, viu-o passeando na chuva. José j~rcadio Buendía, irritado com as alucinações da mulher, foi para o quintal armado com a lança. Ali estava o morto com ~ a sua expressão triste.

— Cada pro caralho! — gritou-lhe José Arcadio Buendía. vez que voltar, eu o mato de novo. Prudencio Aguilar não foi embora, nem José Arcadio Buendia se atreveu a arremessar a lança. Desde então não con-seguiu mais dormir bem. Atormentava-o a enorme desolação com que o morto o havia olhado da chuva, a profunda nos-talgia com que se lembrava dos vivos, a ansiedade com que revistava a casa procurando água para molhar a sua atadura

Está bem, Prudencio — disse-lhe. — Nós vamos em-bora deste povoado para

27 de esparto. “Deve estar sofrendo muito”, dizia a Úrsula. ‘Vê-se que está muito só.” Ela estava tão comovida que, na vez seguinte que viu o morto destampando as panelas do fogão, entendeu o que procurava, e desde então colocou para ele ba-cias de água por toda a casa. Numa noite em que o encontrou lavando as feridas no seu próprio quarto, José Arcadio Buendía não pôde agüentar mais. o mais longe possível e não voltare-mos nunca mais. Agora vá sossegado. Foi assim que empreenderam a travessia da serra. Vários amigos de José Arcadio Buendía, jovens como ele, encanta-dos com a aventura, desfizeram as suas casas e carregaram com as mulheres e os filhos para a terra que ninguém lhes ha-via prometido. Antes de partir, José Arcadio Buendía enter-rou a lança no quintal e degolou, um a um, os seus magnífi-cos galos de briga, confiando em que dessa forma daria um pouco de paz a Prudencio Aguilar. A única coisa que Ürsula levou foi um baú com as suas roupas de recém-casada, uns poucos utensílios domésticos e o cofrezinho com as peças de ouro que herdou do pai. Não traçaram para si um itinerário definido. Apenas procuravam viajar em sentido contrário ao caminho de Riohacha para não deixar nenhum rastro nem en-contrar gente conhecida. Foi uma viagem absurda. Ao fim de quatorze meses, com o estômago estragado pela carne de mi-co e a sopa de cobras, Ursula deu à luz um filho com todas as suas partes humanas. Tinha feito a metade do caminho nu-ma rede pendurada num pau que dois homens levavam nos ombros, porque a inchação lhe desfigurou as pernas, e as va-rizes arrebentavam como bolhas. Ainda que desse pena vê-las de barriga vazia e olhos lânguidos, as crianças resistiram à via-gem melhor que os pais, e a maior parte do tempo acabou sen-do divertido para elas. Certa manhã, depois de quase dois anos de travessia, foram eles os primeiros mortais que viram a ver-tente ocidental da serra. Do cume nublado contemplaram a imensa planície aquática do grande pântano, espraiada até o outro lado do mundo. Mas nunca encontraram o mar. Certa noite, depois de andarem vários meses perdidos entre os char-28

seguir aquela mesma rota para apanhar Riohacha de csa e aos seis dias

longe dos últimos índios que haviam encontrado no ho, acamparam às margens de um rio pedregoso cujas pareciam uma torrente de vidro gelado. Anos depois, te a segunda guerra civil, o Coronel Aureliano Buendía de viagem compreendeu que era uma ra. Entretanto, na noite em que acamparam junto ao rio, stes de seu pai tinham aspecto de náufragos sem escapa-mas o seu número tinha aumentado durante a travessia os estavam dispostos a (e conseguiram) morrer de velhi-osé Arcadio Buendía sonhou essa noite que naquele lu-e levantava uma cidade ruidosa, com casas de paredes pelhos. Perguntou que cidade era aquela, e lhe respon-com um nome que nunca tinha ouvido, que não pos- significado algum, mas que teve no sonho uma ressonân-brenatural: Macondo. No dia seguinte, convenceu os seus ens de que nunca encontrariam o mar. Ordenou- lhes der-as árvores para fazer uma clareira junto ao rio, no lu-mais fresco das margens, e ali fundaram a aldeia. José Arcadio Buendía não conseguiu decifrar o sonho das com paredes de espelhos até o dia em que conheceu o ~. Então acreditou entender o seu profundo significado. ~sou que num futuro próximo poderiam fabricar blocos de p em grande escala, a partir de um material tão cotidiano no a água, e construir com eles as novas casas da aldeia. condo deixaria de ser um lugar ardente, cujas dobradiças drabas se torciam de calor, para converter-se numa cidade ernal. Se não perseverou nas suas tentativas de construir a fábrica de gelo, foi porque no momento estava positiva-nte entusiasmado com a educação dos filhos, especialmen-i de Aureliano, que havia revelado desde o primeiro mo-~to uma rara intuição alquímica. O laboratório tinha res-gido da poeira. Passando em revista as notas de Melquía- agora serenamente, sem exaltação da novidade, em pro-gadas e pacientes sessões, tentaram separar o ouro de Ur-~ do entulho aderido ao fundo do caldeirão. O jovem José :adio mal participou do processo. Enquanto seu pai só ti-i corpo e alma para o laboratório, o voluntarioso primo-

29 g~nito, que sempre fora grande demais para a sua idade, converteu-se num adolescente monumental. Mudou de voz. O buço povoou-se de uma penugem incipiente. Certa noite, Ursula entrou no quarto quando ele tirava a roupa para dor-mir, e experimentou um confuso sentimento de vergonha e pie-dade: era o primeiro homem que via nu, além de seu marido, e estava tão bem equipado para a vida que lhe pareceu anor-mal. Ursula, grávida pela terceira vez, viveu de novo os seus terrores de recém-casada. Naquela época ia à sua casa uma mulher alegre, desbo-cada, provocante, que ajudava nos trabalhos domésticos e sa-bia ler o futuro nas cartas. Ursula falou- lhe do filho. Pensava que a sua desproporção era algo de tão desnaturado como o rabo de porco do primo. A mulher soltou uma gargalhada es-tridente que repercutiu por toda a casa como um riacho de vidro. “Pelo contrário”, disse. “Será feliz.” Para confirmar o seu prognóstico, trouxe o baralho à casa poucos dias de-pois, e se trancou com José Arcadio num depósito de grãos contíguo à cozinha. Colocou as cartas com muita calma so-bre uma velha mesa de carpintaria, dizendo qualquer coisa, enquanto o rapaz esperava perto dela, mais chateado que curioso. De repente estendeu a mão e tocou. “Que monstro disse, sinceramente assustada, e foi tudo o que pôde dizer. José Arcadio sentiu que os seus ossos se enchiam de espuma, que tinha um medo lânguido e uma enorme vontade de chorar. A mulher não lhe fez nenhuma insinuação. Mas José Arcadio a continuou procurando toda a noite, no cheiro de fumaça que ela tinha nas axilas e que lhe ficou metido debaixo da pe-le. Queria estar com ela a todo momento, queria que ela fosse a sua mãe, que nunca saíssem da despensa e que ela lhe dis-sesse “que monstro!” e que tornasse a tocá-lo e a dizer-lhe “que monstro!”. Um dia não pôde suportar mais e foi procurá-la em sua casa. Fez uma visita formal, incompreensível, sen- tado na sala sem pronunciar uma palavra. Naquele momento não a desejou. Achava-a diferente, inteiramente alheia à ima-gem que inspirava o seu perfume, como se fosse outra. To-mou o café e abandonou a casa, deprimido. Nessa noite, no espanto da insônia, tornou a desejá-la com uma ansiedade bru-30 então não a queria como era na despensa, mas como ido naquela tarde. as depois, de um modo intempestivo, a mulher o cha-sua casa, onde estava sozinha com a mãe, e o fez en-quarto com o pretexto de ensinar-lhe um truque de Então o tocou com tanta liberdade que ele sofreu uma ~o depois do estremecimento inicial, e experimentou edo que prazer. Ela lhe pediu que nessa noite fosse á-la. Ele concordou, para sair da situação, sabendo que ria capaz de ir. Mas de noite, na cama ardente, com-eu que tinha de ir procurá-la, ainda que não fosse ca-estiu-se às tontas, ouvindo na escuridão a repousada ção do irmão, a tosse seca do pai no quarto vizinho, a das galinhas no quintal, o zumbido dos mosquitos, o o do seu coração e o desmesurado bulício do mundo em ão tinha reparado até então, e saiu para a rua adormeci-)esejava de todo coração que a porta estivesse trancada, ~ simplesmente encostada, como ela lhe havia prometi-VIas estava aberta. Empurrou-a com a ponta dos dedos iobradiças soltaram um gemido lúgubre e articulado que uma ressonância gelada nas suas entranhas. Desde o mo-:o em que entrou, meio de lado e tratando de não fazer lho, sentiu o cheiro. Ainda estava na saleta onde os três os da mulher penduravam as redes em posições que ele rava e que não podia determinar nas trevas, de modo que aliava atravessá-la às cegas, empurrar a porta do quarto ~ntar-se ali de maneira a que não fosse se enganar de ca-Conseguiu. Tropeçou com os punhos das redes, que es-i mais baixas do que ele supusera, e um homem que ron- até então mexeu-se no sonho e disse com uma espécie ,silusão: “Era quarta-feira.” Quando empurrou a porta jarto, não pôde impedir que ela roçasse o desnível do chão. ~pente, na escuridão absoluta, entendeu com uma irre-ável nostalgia que estava completamente desorientado. streita peça dormiam a mãe, outra filha com o marido is crianças, e a mulher, que talvez não o esperasse. Teria do se guiar pelo cheiro se o cheiro não andasse em toda a, tão enganoso e ao mesmo tempo tão definido como

31 tinha estado sempre na sua pele. Permaneceu imóvel um lon-go momento, perguntando-se assombrado como tinha feito pa-ra chegar a esse abismo de desamparo, quando uma mão com todos os dedos estendidos, que tateava nas trevas, tropeçou-lhe na cara. Não se surpreendeu porque, sem saber, tinha es-tado esperando por isso. Confiou-se então àquela mão, e num terrível estado de esgotamento deixou-se levar até um lugar sem formas onde lhe tiraram a roupa e o trabalharam como a um saco de batatas e o viraram para o avesso e para o direi-to, numa escuridão insondável em que lhe sobravam os bra-ços, e onde já não cheirava mais a mulher, mas a amoníaco, e onde tentava se lembrar do rosto dela e topava com o rosto de Ürsula, confusamente consciente de que estava fazendo algo que há muito desejava que se pudesse fazer, mas que nunca havia imaginado que realmente se pudesse fazer, sem saber como estava fazendo porque não sabia onde estavam os pés e onde a cabeça, nem os pés de quem nem a cabeça de quem, e sentindo que não podia agüentar mais o ruído glacial dos seus rins e o ar do seu intestino, e o medo, e a ânsia aturdida de fugir e ao mesmo tempo de ficar para sempre naquele si-lêncio exasperado e naquela solidão terrível.

Chamava-se Pilar Tçrnera. Fizera parte do êxodo que cul-minou com a fundação de Macondo, arrastada pela sua fa-mília, para separá-la do homem que a tinha violado aos qua-torze anos e que a continuara amando até os vinte e dois, mas que nunca se decidira a tornar pública a situação, porque ti-nha outro compromisso. Prometera segui-la até o fim do mun-do, porém mais tarde, quando tivesse arrumado as coisas; e ela se cansou de esperar, identificando-o sempre com os ho-mens altos e baixos, louros e morenos, que as cartas lhe pro-metiam pelos caminhos da terra e pelos caminhos do mar, para dentro de três dias, três meses ou três anos. Tinha perdido na espera a força das coxas, a dureza dos seios, o hábito da ter-nura; mas conservava intacta a loucura do coração. Transtor-nado por aquele brinquedo prodigioso, José Arcadio seguia as suas pegadas todas as noites através do labirinto do quar-to. Certa ocasião, encontrou a porta trancada, e tocou várias vezes, sabendo que, se tinha tido a ousadia de tocar a primei-

-pombos, não tinha nada que ver com o poder invisível que ensinava a
oentulho metálico e separar o ouro de Ursula.

vez, tinha que tocar até a última, e ao fim de uma espera áveí ela lhe abriu a porta. Durante o dia, caindo de ono, gozava em segredo as lembranças da noite anterior. Mas iando ela entrava em casa, alegre, indiferente, desbocada, não tinha que fazer nenhum esforço para dissimular a sua porque aquela mulher, cujo riso explosivo espantava respirar para dentro e a controlar as batidas do ~ão, e lhe havia permitido entender por que os homens medo da morte. Estava tão ensimesmado que nem sequer a alegria de todos quando seu pai e irmão alvo-oçaram a casa com a notícia de que haviam conseguido atin- Com efeito, depois de complicados e perseverantes lan-tinham conseguido. Úrsula estava feliz, e até deu graças Deus pela invenção da alquimia, enquanto as gentes da al-se espremiam no laboratório e lhes servia doce de goiaba biscoitinhos para celebrar o prodígio e José Arcadio Buen-deixava ver o crisol com o ouro resgatado, como se aca-~“sse de inventá-lo. De tanto mostrá-lo, terminou diante de filho mais velho, que nos últimos tempos mal aparecia pelo ‘oratório. Pôs diante dos seus olhos o emplastro seco e ama-do, e lhe perguntou: “Que tal te parece?” José Arcadio, ;mceramente, respondeu: — Merda de cachorro.

Quero ficar sozinho com você — dizia ele. — Um dia conto tudo a todo
Seria ótimo — disse. — Se estivermos sozinhos, dei-xamos a luz acesa

O pai deu-lhe com as costas da mão uma violenta bofe-tada na boca, que lhe fez saltarem o sangue e as lágrimas. Es-sa noite, Pilar Temera pôs compressas de arnica na inchação, adivinhando no escuro o frasco e os algodões, e fez-lhe todas as vontades sem que ele se incomodasse, para amá-lo sem machucá-lo. Chegaram a tal estado de intimidade que um mo-mento depois, sem se dar conta, estavam falando por cochichos. mundo e se acabam os segredos. tia não tentou apaziguá-lo. para nos vermos bem, e eu posso gritar tu-

3 do o que quiser sem que ninguém tenha que se meter, e você me diz no ouvido todas as porcarias que lhe vierem à cabeça. Esta conversa, o rancor magoado que sentia contra o pai, e a iminente possibilidade do amor desaforado, inspiraram-lhe uma serena valentia. De modo espontâneo, sem nenhuma preparação, contou tudo ao irmão. No princípio, o pequeno Aureliano só compreendia o ris-co, a imensa possibilidade de perigo que implicavam as aven-turas de seu irmão, mas não conseguia imaginar a fascinação do objetivo. Pouco a pouco se foi contaminando de ansieda-de. Fazia-o contar as minuciosas peripécias, identificava-se com o sofrimento e o gozo do irmão, sentia-se assustado e feliz. Esperava-o acordado até o amanhecer, na cama solitária que parecia ter uma esteira de brasas, e continuavam falando sem sono até a hora de levantar, de modo que em pouco tempo padeceram ambos da mesma sonolência, sentiram o mesmo desprezo pela alquimia e pela sabedoria do pai, e se refugia-ram na solidão. “Estes meninos andam sorumbáticos”, dizia Úrsula. “Devem estar com lombrigas.” Preparou-lhes uma repugnante poção de erva-de-santa-maria amassada, que am-bos beberam com imprevisto estoicismo, e se sentaram ao mes-mo tempo nos penicos, onze vezes num só dia, e expulsaram umas parasitas rosadas, que mostraram a todos com grande júbilo, porque lhes permitiram enganar Ursula quanto à ori-gem das suas distrações e langores. Aureliano podia, então, não só entender, mas também viver como coisa própria as ex-periências de seu irmão, porque numa ocasião em que este ex-plicava com muitos pormenores o mecanismo do amor, interrompeu-o para perguntar: “O que é que se sente?” José Arcadio deu-lhe uma resposta imediata: — É como um tremor de terra. Numa quinta-feira de janeiro, às duas da madrugada, nas-ceu Amaranta. Antes que alguém entrasse no quarto, Ürsula examinou-a minuciosamente. Era leve e aquosa como uma la-gartixa, mas todas as suas partes eram humanas. Aureliano não se deu conta da novidade a não ser quando sentiu a casa cheia de gente. Protegido pela confusão, saiu em busca do ir-mão, que não estava na cama desde as onze, e foi uma deci-34

oa casa por várias horas, assoviando senhas próprias,
atribo de Melquíades, tinham demonstrado em pouco que não eram arautos
~Estimulada pelo entusiasmo com que José Arcadio des-~tava a sua

tio impulsiva que nem sequer teve tempo de se perguntar faria para tirá-lo do quarto de Pilar Temera. Esteve ron- ~que a proximidade da madrugada obrigou-o a regres-No quarto da mãe, brincando com a irmãzinha recém-da e com uma cara que caía de inocente, encontrou José ~dio. Úrsula mal havia cumprido o seu resguardo de quarenta quando os ciganos voltaram. Eram os mesmos saltimban-e malabaristas que haviam trazido o gelo. Em contraste do progresso e sim mercadores versões. Inclusive, quando trouxeram o gelo, não o anun-em função da sua utilidade na vida dos homens, mas o uma mera curiosidade de circo. Desta vez, entre muitos os jogos de artifício, traziam um tapete voadór. Não o ram, porém, como uma contribuição fundamental para envolvimento dos transportes e sim como um objeto de eação. O povo, evidentemente, desenterrou os seus últi-tostões para desfrutar de um vôo fugaz sobre as casas aldeia. Amparados pela deliciosa impunidade da desordem tiva, José Arcadio e Pilar viveram horas de folga. Foram namorados felizes entre a multidão, e até chegaram a sus- -~ de que o amor podia ser um sentimento mais repousa-profundo que a felicidade arrebatada, mas momentânea, suas noites secretas. Pilar, entretanto, quebrou o encan- companhia, escolheu errado a forma e a oca-e de um só golpe jogou-lhe o mundo nos ombros. “Agora ~i você é um homem”, disse a ele. E como não entendesse

Você vai ser pai.

~ue ela queria dizer, explicou-lhe letra por letra: José Arcadio não se atreveu a sair de casa durante vários ~s. Bastava escutar a gargalhada trepidante de Pilar na co-iiha para se esconder correndo no laboratório, onde os apa-~hos de alquimia tinham revivido, com a bênção de Ursula. ~sê Arcadio Buendía recebeu com alvoroço o filho extravia-, e iniciou-o na busca da pedra filosofal, que tinha por fim empreendido. Uma tarde, os rapazes se entusiasmaram com o tapete voador, que passou veloz ao nível da janela do labo-ratório, levando o cigano condutor e várias crianças da aldeia, que faziam alegres cumprimentos com a mão, e José Arcadio Buendía nem sequer olhou. “Deixem que sonhem”, disse. “Nós voaremos melhor que eles, com recursos mais científi-cos que essa miserável colcha.” Apesar do seu fingido inte-resse, José Arcadio nunca entendeu os poderes do ovo filosó-fico, que simplesmente lhe parecia um frasco malfeito. Não conseguia fugir da preocupação. Perdeu o apetite e o sono, sucumbiu ao mau humor igual ao pai diante do fracasso de alguma das suas empresas, e foi tal o seu transtorno que o pró-prio José Arcadio Buendía o liberou dos deveres no laborató-rio, achando que ele tinha levado a sério demais a alquimia. Aureliano, evidentemente, percebeu que a aflição do irmão não tinha origem na busca da pedra filosofal, mas não lhe con-seguiu arrancar nem uma confidencia. Tinha perdido a sua antiga espontaneidade. De cúmplice e comunicativo fez-se her-mético e hostil. Ansioso de solidão, picado por um virulento rancor contra o mundo, certa noite abandonou a cama como de costume, mas em vez de ir à casa de Pilar Temera perdeu-se no tumulto da feira. Depois de perambular por toda espé-cie de máquinas de diversão sem se interessar por nenhuma, fixou-se em algo qfie não estava no jogo: uma cigana muito jovem, quase uma garota, afogada em miçangas, a mulher mais bela que José Arcadio tinha visto na vida. Estava entre a mul-tidão que presenciava o triste espetáculo do homem que se transformara em víbora por desobedecer aos pais. José Arcadio não prestou atenção. Enquanto se desen-rolava o triste interrogatório do homem-víbora, tinha aberto caminho entre a multidão até a primeira fila, onde se encon-trava a cigana, e tinha se detido atrás dela. Apertou-se contra as suas costas. A moça tentou se afastar, mas José Arcadio se apertou com mais força contra as suas costas. Então, ela o sentiu. Ficou imóvel contra ele, tremendo de surpresa e pa-vor, sem poder acreditar na evidência, e por fim voltou a ca-beça e olhou para ele com um sorriso trêmulo. Nesse instan-te, dois ciganos meteram o homem- víbora na jaula e o leva-36 ra o interior da tenda. O cigano que dirigia o espetácu-flciou: E agora, senhoras e senhores, vamos apresentar a pro-freI da mulher que terá que ser decapitada todas as noites

oo que não devia.
Rapaz — exclamou — que Deus o conserve para ti. 4 companheira de José

ora, durante cento e cinqüenta anos, como castigo por sé Arcadio e a moça não presenciaram a decapitação. à barraca dela, onde se beijaram com uma ansiedade erada enquanto iam tirando a roupa. A cigana se des-suas camisetas superpostas, das suas numerosas aná-e renda engomada, do seu inútil espartilho de arame, carga de miçangas, e ficou praticamente reduzida a na-ra uma rãzinha lânguida, de seios incipientes e pernas nas que não ganhavam em diâmetro aos braços de José ~Iio, mas tinha uma decisão e um calor que compensa-a sua fragilidade. Entretanto, José Arcadio não podia cor-~nder, porque estavam numa espécie de tenda pública, por os ciganos passavam com os seus instrumentos de circo umavam as suas coisas, e até se demoravam junto à ca-~ara jogar uma partida de dados. A lâmpada pendurada astro central iluminava todo o âmbito. Numa pausa das ias, José Arcadio estirou- se nu na cama, sem saber o que enquanto a moça tratava de excitá-lo. Uma cigana de ~s esplêndidas entrou pouco depois, acompanhada de um ~m que não fazia parte da farândola, mas que tampouco .a aldeia, e ambos começaram a despir-se diante da ca-)istraidamente, a mulher olhou para José Arcadio e exa-u com uma espécie de fervor patético o seu magnífico ai em repouso. Arcadio pediu-lhes que os dei-m em paz, e o casal se deitou no chão, muito perto da A paixão dos outros despertou a febre de José Arca-4o primeiro contato, os ossos da moça pareceram se de-:ular, com um rangido desordenado como o de um fichário )minó, e a sua pele se desfez num suor pálido e os seus se encheram de lágrimas e todo o seu corpo exalou um rito lúgubre e um vago cheiro de lodo. Mas suportou o

37 ‘1 impacto com uma firmeza de ânimo e uma valentia admirá-veis. José Arcadio se sentiu então etereamente elevado a um estado de inspiração seráfica, onde o seu coração se desbara-tou num manancial de obscenidades ternas que entravam na moça pelos ouvidos e lhe saíam pela boca, traduzidas ao seu idioma. Era quinta-feira. Na noite de sábado, José Arcadio amarrou um pano vermelho na cabeça e foi-se embora com os ciganos. Quando Úrsula descobriu a sua ausência, procurou-o por toda a aldeia. No acampamento desmanchado dos ciganos, não havia mais que uma vala de detritos, entre as cinzas ain-da fumegantes das fogueiras apagadas. Alguém que andava por ali procurando miçangas no lixo disse a Ursula que na noite anterior tinha visto o seu filho no tumulto da farândola, pu-xando uma carreta com a jaula do homem-víbora. “Entrou pra cigano!”, gritou ela ao marido, que não tinha dado o me-nor sinal de alarme pelo desaparecimento. — Oxalá seja verdade — disse José Arcadio Buendía, amassando no almofariz a matéria mil vezes amassada e rea-quecida e tornada a amassar. — Assim vai aprender a ser homem. Ursula perguntou por onde tinham ido os ciganos. Con-tinuou perguntando no caminho que lhe indicaram, e pensando que ainda tinha tempo de alcançá-los, continuou se afastan-do da aldeia, até que teve consciência de estar tão longe que já não pensou mais em voltar. José Arcadio Buendía não deu falta da mulher senão às oito da noite, quando deixou a ma-téria esquentando numa camada de esterco, e foi ver o que estava acontecendo com a pequena Amaranta, que estava rouca de tanto chorar. Em poucas horas, reuniu um grupo de ho-mens bem equipados, pôs Amaranta nas mãos de uma mu-lher que se ofereceu para amamentá-la, e se perdeu por cami-nhos invisíveis atrás de Ursula. Aureliano os acompanhou. Al-guns pescadores indígenas, cuja língua desconheciam, indicaram-lhes por sinais, ao amanhecer, que não tinham vis-to ninguém passar. Ao fim de três dias de busca inútil, regres-saram à aldeia. Durante várias semanas, José Arcadio Buendía deixou

~ncer pela consternação. Ocupava-se como mãe da pequena ranta. Banhava-a e mudava-lhe a roupa, levava-a para mamentada quatro yezes por dia e até cantava para ela, ite, as canções que Ursula nunca soube cantar. Certa oca-Pilar Temera se ofereceu para fazer os serviços da casa, anto Úrsula não voltava. Aureliano, cuja misteriosa in-o se tinha sensibilizado com a desgraça, experimentou um or de clarividência ao vê-la entrar. Então soube que, de m modo inexplicável, era dela a culpa da fuga do irmão onseqüente desaparecimento da mãe, e a perseguiu de tal eira, com uma calada e implacável hostilidade, que a mu-não voltou mais à casa. O tempo pôs as coisas no lugar. José Arcadio Buendía filho viram-se outra vez no laboratório, sacudindo a poei-otando fogo no alambique, entregues uma vez mais à pa-te manipulação da matéria adormecida há vários meses ua camada de esterco. Até Amaranta, deitada num cesti-de vime, observava com curiosidade o absorvente traba-ido pai e do irmão, no quartinho rarefeito pelos vapores mercúrio. A certa altura, meses depois da partida de Ur-i, começaram a acontecer coisas estranhas. Um frasco

Se você não teme Deus, tema os metais.

va-que durante muito tempo esteve esquecido num armário, •se tão pesado que foi impossível movê-lo. Uma chaleira gua , colocada na mesa de trabalho, ferveu sem fogo du-te meia hora, até evaporar-se a água por completo. José ~adio Buendía e seu filho observavam aqueles fenômenos a assustado alvoroço, sem conseguir explicá-los, mas irpretando-os como anúncios da matéria. Um dia, o cesti-de Amaranta começou a se mover com impulso próprio u uma volta completa no quarto, diante da consternação ~ureliano, que se apressou em detê-lo. Mas seu pai não lterou. Pôs o cestinho no lugar e amarrou-o na perna de i mesa, convencido de que o acontecimento esperado era iente. Foi esta a ocasião em que Aureliano ouviu-o dizer: De repente, quase cinco meses depois do seu desapareci-tto, Ursula voltou. Chegou exaltada, rejuvenescida, com pas novas, de um estilo desconhecido na aldeia. José Ar-

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