3-Tonini-2010-Degradação e biorremediação de compostos do petróleo por bactérias-Revisão

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Oecol. Aust., 14(4): 1027-1035, 2010

Oecologia Australis 14(4): 1025-1035, Dezembro, 2010 doi:10.4257/oeco.2010.1404.12

Rita Maria Costa Wetler Tonini 1 *, Carlos Eduardo de Rezende 1, Adriana Daudt Grativol 1Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Departamento de Biociências e Biotecnologia, Programa de Pós Graduação em Ecologia e Recursos Naturais, Laboratório de Ciências Ambientais. Av. Alberto Lamego, 2000, Parque Califórnia, Campos dos Goytacazes, RJ, Brasil, CEP: 28013-602. E-mails: micro_rita@yahoo.com.br crezende@uenf.br adgrativol@gmail.com

O petróleo é um composto orgânico, formado por processos biogeoquímicos, constituído em sua maior parte por uma mistura complexa de hidrocarbonetos. A contaminação ambiental por esta substância e por seus derivados causa grande impacto ecológico e as técnicas para sua remediação têm recebido destaque nas últimas décadas. Hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAPs) de origem petrogênica estão entre os poluentes de maior persistência, apresentando propriedades tóxicas, mutagênicas e carcinogênicas aos seres humanos. A maior parte dos componentes do petróleo é passível de biodegradação, no entanto, trata-se de um processo lento, podendo levar décadas até a total descontaminação do ambiente. Assim, técnicas de biorremediação tem sido alvo de diversos estudos a fim de acelerar o processo de descontaminação com menor custo e menor dano ambiental. Neste contexto, bactérias aeróbicas e anaeróbicas têm demonstrado grande potencial para a remediação de poluentes do petróleo, sendo utilizadas com sucesso em diversas técnicas, como atenuação natural, bioaumentação, bioestimualação, produção de biossurfactantes, entre outras. Este trabalho descreve algumas destas técnicas, bem como as vias aeróbicas e anaeróbicas para o metabolismo de hidrocarbonetos por bactérias e seus fatores intervenientes. Palavras-chave: HAP; biossurfactante; metabolismo aeróbico; metabolismo anaeróbico; biodegradação.

A REVIEW. Petroleum is an organic compound formed by biogeochemical processes, consisting mostly of a complex mixture of hydrocarbons. Environmental contamination by this substance and its derivatives cause major ecological impact, and techniques for their remediation have been highlighted in recent decades. Polycyclic aromatic hydrocarbons (PAHs) from petrogenic origin are among the most persistent pollutants, with toxic, mutagenic and carcinogenic properties to humans. Most components of oil are biodegradable, however, it is a slow process and may take decades until complete environmental decontamination. Thus, bioremediation techniques have been the target of several studies in order to accelerate the decontamination process with less cost and less environmental damage. In this context, aerobic and anaerobic bacteria have shown great remediation potential of oil pollutants, being successfully used in various techniques, such as natural attenuation, bioaugmentation, bioestimualation, biosurfactants production, among others. This review describes some of these bioremediation techniques, as well as aerobic and anaerobic pathways for bacterial hydrocarbons metabolism and factors involved in its activity. Keywords: PAH; biosurfactant; aerobic metabolism; anaerobic metabolism; biodegradation.

UNA REVISIÓN. El petróleo es un compuesto orgánico formado por procesos biogeoquímicos, constituido principalmente por una mezcla compleja de hidrocarburos. La contaminación ambiental por esta sustancia

TONINI, R. M. C. W. et al. Oecol. Aust., 14(4): 1025-1035, 2010 y sus derivados causa un gran impacto ecológico y las técnicas para su remediación han sido destacadas en las últimas décadas. Los hidrocarburos aromáticos policíclicos (HAPs) de origen petrogénico, están entre los contaminantes de mayor persistencia, presentando propiedades tóxicas, mutagénicas y carcinogénicas en los seres humanos. La mayor parte de los componentes del petróleo es pasible de biodegradación. No obstante, este es un proceso lento, que puede tomar décadas hasta la total descontaminación del ambiente. Es así que las técnicas de biorremediación han sido objeto de de diversos estudios con el fin de acelerar el proceso de descontaminación con el menor costo y daño ambiental. En este contexto, las bacterias aeróbicas y anaeróbicas han mostrado un gran potencial para la biorremediación de contaminantes de petróleo, siendo usados con éxito en diversas técnicas, como la atenuación natural, bioaumentación, bioestimulación, producción de biosurfactantes, entre otros. Este trabajo describe algunas de estas técnicas, así como las vías aeróbicas y anaeróbicas para el metabolismo de hidrocarburos por bacterias y los factores que intervienen. Palabras clave: HAP; biosurfactante; metabolismo aeróbico; metabolismo anaeróbico; biodegradación.

O petróleo é constituído por uma mistura complexa de hidrocarbonetos (alifáticos ou aromáticos), e em menores quantidades, por compostos não hidrocarbônicos e outros componentes orgânicos, alguns constituintes organometálicos, especialmente complexos de vanádio e níquel. É oleoso, inflamável, menos denso que a água, com cor variando entre negro e castanho escuro e odor característico. Sua composição varia em função da localização geográfica e das condições físicas, químicas e biológicas que o originaram (Crapez et al. 2002, Van Hamme et al. 2003).

Os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos

(HAPs) são contaminantes ambientais ubíquos, de origem petrogênica, pirogênica ou biogênica (Widdel & Rabus 2001, Foght 2008, Seo et al. 2009). HAPs de origem petrogência são comprovada ou potencialmente tóxicos, mutagênicos ou carcinogênicos, entrando no ambiente principalmente por deposição atmosférica, escoamento urbano, efluentes municipais, águas residuais de indústrias e derramamentos de óleo (Seo et al. 2009, Zhou et al. 2009). Assim, a poluição por petróleo constitui um grande risco ambiental e sanitário e, consequentemente, a degradação microbiana de hidrocarbonetos é um tema que permanece em destaque (Seo et al. 2009).

A maior parte dos componentes do petróleo (de 60% a 90%) é biodegradável. Entretanto, o restante

(de 10% a 40%), em estado bruto ou refinado, é recalcitrante. Mesmo tratando-se de uma porção menor, deve-se ressaltar que isto representa toneladas de poluentes impactando ecossistemas e sendo bioacumulados e biomagnificados na cadeia trófica. O destino destes compostos após um derrame irá depender da interação entre vários fatores, podendose destacar a degradação microbiana (Crapez et al. 2002).

A presença de hidrocarbonetos em toda a biosfera pode explicar a capacidade de muitas espécies microbianas em utilizar estes compostos como substrato de crescimento, degradando poluentes do petróleo e utilizando-os como fonte de carbono e energia (Boopathy 2000, Ramsay et al. 2000, Widdel & Rabus 2001, Díaz 2004, Mandri & Lin 2007). Para tal, é necessário quebrar ao menos parte da molécula, em um composto mais simples, intermediário na via metabólica (Boopathy 2000, Widdel & Rabus 2001, Van Hamme et al. 2003, Díaz 2004, Ferguson et al. 2007, Jacques et al. 2007, Mandri & Lin, 2007).

Algumas características das bactérias propiciam sua adaptação a várias condições ambientais, como seu crescimento rápido, versatilidade metabólica, plasticidade genética e rápida adaptação a variações do meio. Para sua sobrevivência e crescimento, bactérias necessitam basicamente de energia, carbono e nutrientes (N, P, S, K, Ca, Mg, etc.) (Martins 2004). Várias vias metabólicas de degradação dos HAPs foram identificadas em diferentes bactérias. A quebra de compostos aromáticos pode ser feita aerobicamente ou anaerobicamente, conforme demonstrado na Figura 1 (Dagley 1975, Bugg & Winfield 1998, Boopathy 2000, Widdel & Rabus 2001, Díaz 2004, Jacques et al. 2007).

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Figura 1. Utilização microbiana de compostos aromáticos por via aeróbia e anaeróbia, demonstrando os diferentes aceptores de elétrons na respiração. Figura adaptada de Díaz (2004). Figure 1. Microbial utilization of aromatic compounds aerobically and anaerobically, showing the different electron acceptors in respiration.

Figure adapted from Diaz (2004).

Nos ambientes naturais, a maior parte da matéria orgânica é mineralizada aerobicamente, mas este processo pode ocorrer também na ausência de oxigênio (Smith 1990, Hopper 1991). Entretanto, de acordo com Díaz (2004), a degradação microbiana do petróleo e seus produtos refinados é muito mais rápida em condições aeróbicas do que em condições anaeróbicas.

A susceptibilidade dos componentes do petróleo à biodegradação varia de acordo com a concentração do poluente e com o tamanho da molécula do hidrocarboneto (Chosson et al. 1991). Geralmente, um aumento no número de anéis aumenta a estabilidade química e a hidrofobicidade da molécula de HAP, tornando-o menos susceptível à biodegradação (Kanaly et al. 2000, Yu et al. 2005). A solubilidade dos HAPs em água é, geralmente, baixa e decresce quando o peso molecular aumenta. Compostos de alto peso molecular são, então, considerados recalcitrantes (Seo et al. 2009, Zhou et al. 2009).

A característica comum de todas as frações do petróleo é a sua baixa solubilidade em água, dificultando a ação microbiana em degradá-los (Kanaly et al. 2000, Yu et al. 2005, Cameotra & Singh 2009, Seo et al. 2009). O primeiro passo da degradação microbiana consiste em obter melhor contato da superfície celular com o óleo e então, o transporte através da membrana celular. Apesar das muitas pesquisas nesta área, o mecanismo de transporte e assimilação do óleo dentro das células bacterianas ainda não é totalmente conhecido (Cameotra & Singh 2009). A aplicação de surfactantes pode aumentar a disponibilidade dos HAPs aos microrganismos degradadores, auxiliando na solubilização do poluente (Ganeshlingam et al. 1994, Ron e Rosenberg 2001, Mariano et al. 2007, Cameotra & Singh 2009, Seo et al. 2009).

Surfactantes são moléculas anfipáticas, que podem ser obtidos por processos químicos (sintéticos), ou produzidos por microrganismos (biossurfactantes)

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(Mulligan et al. 2001, Colla & Costa 2003). Surfactantes sintéticos têm sido utilizados na indústria do petróleo, ajudando na limpeza de derramamentos e na recuperação de petróleo em reservatórios. Entretanto, estes produtos podem ser tóxicos ao ambiente e não são biodegradáveis. Por outro lado, os biossurfactantes apresentam vantagens como baixa toxicidade, natureza biodegradável e eficácia em amplas variações de temperatura, pH e salinidade, além da facilidade de síntese (Tabatabaee et al. 2005).

Os biossurfactantes são metabólitos produzidos por uma grande variedade de bactérias, leveduras e fungos filamentosos e possuem características de detergência, emulsificação, solubilização, diminuição da tensão superficial e interfacial e dispersão de fases (Desai & Banat 1997, Maniasso 2001, Ron & Rosenberg 2001, Nitschke & Pastore, 2002, Colla & Costa 2003, Yakubu 2007). Estes produtos alteram a hidrofobicidade e aumentam a dispersão de compostos imiscíveis em água, aumentando a degradação microbiana (Ron & Rosenberg 2001, Mariano et al. 2007, Seo et al. 2009, Cameotra & Singh 2009). A maioria dos biossurfactantes conhecidos é sintetizada por microrganismos cultivados em hidrocarbonetos imiscíveis em água, mas alguns são produzidos em substratos solúveis como glicose, glicerol e etanol (Tabatabaee et al. 2005). Eles podem se encontrar como moléculas intracelulares, serem secretados pelas células microbianas ou ficarem aderidos à sua superfície (Ron & Rosenberg 2001, Mariano et al. 2007, Cameotra & Singh 2009, Seo et al. 2009).

Estudos indicam que a produção de biossurfactantes por bactérias está ligada à alta densidade celular; a presença de biossurfactantes no ambiente desempenha um papel natural, aumentando a degradação de compostos hidrofóbicos, uma vez que aumentam a área superficial das gotas de óleo, permitindo o acesso de mais bactérias ao substrato, otimizando, por conseguinte, a produção de biomassa bacteriana (Mulligan et al. 2001, Ron & Rosenberg 2001, Yakubu 2007, Cameotra & Singh 2009).

Em bactérias aeróbicas, o oxigênio não é apenas aceptor terminal de elétrons para a conservação da energia respiratória, mas também um reagente indispensável no mecanismo de ativação (Widdel & Rabus 2001). As vias bacterianas de degradação aeróbia de hidrocarbonetos aromáticos podem ser geralmente, divididas em três partes: (1) O composto aromático é transformado em um metabólito intermediário central da via de degradação dos HAPs, normalmente um catecol, através da introdução de grupos hidroxila por enzimas periféricas, com função de reconhecer as moléculas dos HAPs e convertê-las em intermediários centrais (Bugg & Winfield 1998, Kanaly & Harayama 2000, Widdel & Rabus 2001, Scramin et al. 2003, Díaz 2004, Jacques et al. 2007); (2) As enzimas de fissão convertem os intermediários centrais em compostos que são utilizados nas vias comuns de geração de carbono e energia da bactéria. Ocorre, então, a abertura do anel do catecol por dioxigenases, que catalisam a adição de oxigênio molecular ao anel. Esta abertura pode ocorrer em duas posições: entre os grupos hidroxila (clivagem intradiol ou orto), ou adjacente a um dos grupos hidroxila (clivagem extradiol ou meta) (Heider & Fuchs 1997, Bugg & Winfield 1998, Kanaly & Harayama 2000, Scramin et al. 2003, Díaz 2004, Jacques et al. 2007). As di-oxigenases intradiol, possuem como cofator o Fe3+ e produzem o ácido ciscis-mucônico. Enquanto as di-oxigenases extradiol, dependem do Fe2+, produzindo o semialdeído 2-hidroximucônico e podem ser subdivididas em proximais e distais, para caracterizar a posição da clivagem do anel em relação ao radical (Bugg & Winfield 1998, Kanaly & Harayama 2000, Scramin et al. 2003, Díaz 2004, Jacques et al. 2007); (3) O produto resultante da abertura do anel é convertido em produtos que entram no cliclo de Krebs. O ácido cis-cis-mucônico será convertido em succinato e acetil-Co-A e o semialdeído 2-hidroximucônico, será transformado em ácido pirúvico e acetaldeído (Kanaly & Harayama 2000, Scramin et al. 2003, Díaz 2004, Jacques et al. 2007).

A degradação de hidrocarbonetos em condições estritamente anóxicas foi confirmada no final da década de 1980 (Widdel & Rabus 2001, Díaz 2004). Enquanto a biodegradação aeróbica de hidrocarbonetos tem sido

DEGRADAÇÃO E BIORREMEDIAÇÃO DE COMPOSTOS DO PETRÓLEO POR BACTéRIAS Oecol. Aust., 14(4): 1027-1035, 2010 bem estudada desde o início do século X, os registros sobre a biodegradação anaeróbica são relativamente recentes, tratando-se de uma área emergente, que tem sofrido rápidas mudanças (Widdel & Rabus 2001, Meckenstock et al. 2004, Foght 2008). Estudos têm mostrado que alguns passos enzimáticos chave na biodegradação de hidrocarbonetos anaeróbios envolvem microrganismos versáteis e singulares bioquimicamente, ativando hidrocarbonetos por mecanismos novos, que diferem completamente daqueles utilizados no metabolismo aeróbico (Widdel & Rabus 2001, Foght 2008).

Muitos ambientes poluídos por hidrocarbonetos são anóxicos, como por exemplo, aquíferos, sedimentos aquáticos e solos submersos. Em tais condições, a biodegradação é realizada por microrganismos anaeróbicos estritos ou facultativos, utilizando aceptores de elétrons como o nitrato (desnitrificantes), sulfato redutores, redutores de Fe3+, CO2 (organismos metanogênicos), ou outros aceptores (Mn, Cr, U, etc.)

(Widdel & Rabus 2001, Díaz 2004, Chakraborty & Coates 2004, Foght 2008).

Condições metanogênicas e de sulfato redução fornecem pouca energia às bactérias, entretanto, são fundamentais no metabolismo de linhagens fermentativas, pois estas, em geral, não fazem a biodegradação completa dos HAPs, tornando-se energeticamente favoráveis apenas quando microrganismos metanogênicos ou bactérias redutoras de sulfato estão presentes no substrato, a fim de usar os produtos gerados durante a fermentação. Diferentemente, bactérias fotossintéticas obtêm energia da luz e degradam os compostos aromáticos anaerobicamente para formar metabólitos intermediários, como acetil-CoA, que são posteriormente utilizados em reações biossintéticas (Díaz 2004).

O catabolismo anaeróbico de compostos aromáticos pode ser dividido em três fases: (1) Os caminhos periféricos convergem para uma via central, formando um intermediário aromático, normalmente benzoil-CoA (Heider & Fuchs 1997, Chakraborty & Coates 2004, Díaz 2004, Foght 2008); (2) Ocorre a abertura do anel aromático, convertendo o composto em 3-hidroxipimelil-CoA, que sofre a ação de uma desidrogenase sendo formado predominantemente glutaril-CoA ou, alternativamente, acetil-CoA (Heider & Fuchs 1997); (3) A enzima glutaril-CoA desidrogenase produz crotonil-CoA, e libera CO2. Segue-se então a transformação de crotonil-CoA em

Acetil-CoA, que é oxidado, normalmente, via ciclo do ácido cítrico (Heider & Fuchs 1997).

Informações detalhadas sobre a degradação anaeróbia da HAPs são escassas, e há um debate se HAPs com três ou mais anéis podem servir de substrato de crescimento ou se são apenas parcialmente oxidados através de co-metabolismo com outros substratos (Meckenstock et al. 2004, Foght 2008).

Na última década, algumas culturas puras e mistas de anaeróbios foram obtidas, permitindo os primeiros estudos das vias de degradação anaeróbias. Métodos de cultivo de microrganismos anaeróbios com HAPs como única fonte de carbono e energia foram estabelecidos em 2003, porém, mais bactérias precisam ser isoladas e suas vias degradativas estudadas, uma vez que os processos metabólicos se diferenciam entre as linhagens (Meckenstock et al. 2004, Foght 2008).

Um importante fator a ser investigado é se a capacidade degradativa dos organismos isolados em laboratório apresenta a mesma eficiência em condições de campo. Assim, técnicas moleculares podem auxiliar na identificação das linhagens ou comunidades microbianas que agem na degradação de HAPs in situ (Meckenstock et al. 2004, Foght 2008).

O termo biorremediação pode ser definido como um processo que utiliza a biotecnologia na aceleração da transformação dos poluentes em produtos menos tóxicos. Normalmente utiliza-se o metabolismo de microrganismos para eliminação rápida de poluentes, para reduzir sua concentração para níveis aceitáveis, transformá-los em compostos de baixa toxicidade, ou mesmo mineralizá-los completamente (Torsvik et al. 1990, Colla & Costa 2003, Mandri & Lin 2007, Yakubu 2007). Os processos de biorremediação baseiam-se nas atividades aeróbicas ou anaeróbicas de microrganismos denominados “petrófilos” (Boopathy 2000, Mandri & Lin 2007). Assim, vários tipos de microrganismos utilizam vias bioquímicas complexas para transformar os hidrocarbonetos

TONINI, R. M. C. W. et al. Oecol. Aust., 14(4): 1025-1035, 2010 em intermediários comuns do seu catabolismo e, a partir daí, em fonte de carbono e energia para seu crescimento (Díaz 2004, Jacques et al. 2007, Mandri & Lin 2007, Seo et al. 2009).

Vários aspectos da biorremediação a tornam uma opção atraente na degradação de petróleo, demonstrando vantagens sobre outros métodos de tratamento, pois consiste em um processo natural; algumas técnicas podem ser aplicadas in situ com perturbação ambiental mínima, sendo muitas vezes mais baratas e mais seguras. Além disso, muitos microrganismos degradam vários poluentes permanentemente, podendo, ainda, ser associados a métodos de tratamento físicos ou químicos (Boopathy 2000, Mandri & Lin 2007, Yakubu 2007). Nos últimos anos, diversas pesquisas têm indicado que a biorremediação é uma alternativa segura e eficaz de remoção de petróleo do ambiente (Díaz 2004, Yakubu 2007).

As estratégias usadas para a biorremediação dos

HAPs podem ser divididas entre as técnicas in situ, em que não há necessidade de remoção do substrato contaminado, realizando-se a biorremediação no próprio local poluído; e as técnicas ex situ, em que é necessário remover o substrato, procedendo-se a biorremediação em instalações apropriadas, fora do local contaminado (Boopathy 2000, Ramsay et al. 2000).

A técnica de bioaumentação consiste na adição de culturas bacterianas com comprovada atividade degradadora dos poluentes a um local, garantindo que o consórcio adequado de microrganismos estará presente em suficientes tipos, número e compatibilidade a fim de metabolizar o poluente de forma eficaz. Esta técnica pode ser utilizada tanto in situ quanto ex situ, sendo particularmente importante para tratamentos in situ, quando não há populações microbianas indígenas capazes de degradar o contaminante (Jorgensen et al. 2000, Jacques et al. 2007, Mariano et al. 2007, Yakubu 2007, Foght 2008).

Outro método que pode ser realizado tanto in situ quanto ex situ é a bioestimulação. Entretanto, este só é eficaz quando há populações microbianas degradadoras no substrato (Yakubu 2007). A técnica é realizada estimulando-se a microbiota indígena, otimizando suas condições de crescimento por meio da adição de nutrientes orgânicos e inorgânicos, regulação de pH, temperatura e aeração (Jorgensen et al. 2000, Ramsay et al. 2000, Ebuehi et al. 2005, Jacques et al. 2007, Mandri & Lin 2007, Mariano et al. 2007, Yakubu 2007, Foght 2008).

A biorremediação intrínseca é uma técnica realizada in situ, sendo conhecida, também, como atenuação natural ou biorremediação passiva. Nesta técnica, o contaminante permanece no local e a descontaminação ocorre através de processos físicos, químicos e biológicos naturais, como volatilização, diluição, sorção e biodegradação. Normalmente, ocorre de maneira muito lenta, exigindo o monitoramento do local em longo prazo, visando a proteção da saúde humana e ambiental (Boopathy 2000, Díaz 2004, Jacques et al. 2007, Fogh, 2008).

O sistema de landfarming é aplicado para o tratamento da fase sólida de solos contaminados e pode ser realizado in situ ou ex situ (Boopathy 2000). Nesta técnica, os microrganismos da camada superficial do solo são estimulados a degradar os poluentes transformando-os em substâncias inertes como CO2 e água, por meio do revolvimento do solo e uso de aração, além da adição de nutrientes e, se necessário, de irrigação, bioaumentação e surfactantes (Doelman & Breedvelk 1999 citado em Jacques et al. 2007, Jorgensen et al. 2000).

A técnica de bioventing ou bioventilação é normalmente utilizada para o tratamento de solos contaminados e baseia-se na introdução de oxigênio no substrato para estimular a atividade dos microrganismos aeróbios, podendo ser aplicada in situ ou ex situ, de acordo com o local a ser tratado (Boopathy 2000).

A compostagem é outro processo de descontaminação de solos, realizado por microrganismos aeróbios ex situ. No emprego desta técnica, o substrato contaminado é removido do local de origem e colocado em pilhas, com ou sem aeração, controlando-se a lixiviação e o escoamento superficial dos líquidos provenientes dessas pilhas (Jorgensen et al. 2000, Jacques et al. 2007).

Para o tratamento de líquidos ou suspensões ex situ, pode-se utilizar biorreatores. Neste método, a biodegradação ocorre em um recipiente ou reator (Boopathy 2000), onde o material contaminado é

DEGRADAÇÃO E BIORREMEDIAÇÃO DE COMPOSTOS DO PETRÓLEO POR BACTéRIAS Oecol. Aust., 14(4): 1027-1035, 2010 misturado com água formando uma suspensão, com 5 a 50% de sólidos, que é agitada mecanicamente, aumentando a aeração, a homogeneidade dos poluentes e sua disponibilidade aos microrganismos. Parâmetros físicos e químicos, como pH, disponibilidade de nutrientes, aeração e temperatura são ajustados para a máxima produção de biomassa, sendo possível, ainda, bioaumentar o substrato. Após a redução dos contaminantes aos níveis desejados, a suspensão é desidratada e a água pode ser reutilizada no biorreator (Doelman & Breedvelk 1999 citado em Jacques et al. 2007, Woo & Park 1999, Van Hamme et al. 2003). A técnica possui a vantagem de degradar poluentes de maneira muito rápida. Deve-se, entretanto, considerar que quantidade de substrato tratado é limitada pelo tamanho dos biorreatores; em alguns casos, é necessário o pré-tratamento do substrato para remoção de compostos tóxicos aos microrganismos; além do custo elevado, devido à alta tecnologia empregada. Estes fatores restringem sua aplicação aos casos em que outras técnicas provavelmente não trariam resultados satisfatórios (Woo & Park 1999, Doelman & Breedvelk 1999 citado em Jacques et al. 2007, Van Hamme et al. 2003).

É possível utilizar biofiltros para realizar o tratamento de poluentes voláteis por meio da utilização de colunas de captação microbiana, evitando que os contaminantes sejam emitidos na atmosfera (Boopathy 2000).

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