boaspráticas morango

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disqua l optimização da qualidade e redução de custos na cadeia de distribuição de produtos hortofrutícolas frescos programa praxis xxi

Manual de Boas Práticas

Instituições do consórcio Instituições do consórcio

Aspectos Gerais O morangueiro pertence à família Rosaceae. As cultivares mais difundidascomercialmente pertencem à espécie Fragariax ananassa Duchesne, originada no século XVIII a partir de hibridações espontâneas entre duas espécies selvagens de frutos grandes, que tinham sido trazidas da América para a Europa no século XVII.

São plantas herbáceas perenes que formam uma espessa roseta ao nível do terreno. São constituídas por um caule curto (coroa), folhas trifoliadas inseridas na coroa por pecíolos mais ou menos longos e um sistema radicular fasciculado, constituído por numerosas raízes superficiais. Quando as condições climáticas são adequadas, a planta emite estolhos, que são caules finos e prostrados, com entrenós longos, que facilmente enraízam dando origem a plantas autónomas. Das axilas das folhas surgem inflorescências com um número variável de flores que, na maior parte das variedades cultivadas, são hermafroditas. A parte comestível do morango não corresponde ao que botanicamente se denomina fruto; é na verdade um falso fruto originado pelo engrossamento do receptáculo da flor após a fecundação dos óvulos. Os verdadeiros frutos (aquénios) são aquilo a que por vezes se chama de sementes e estão distribuídas à superfície da parte carnuda avermelhada.

Os morangos são ricos em vitamina C e em ácido fólico, sendo igualmente uma boa fonte de fibras. Cerca de 8 morangos de tamanho médio contêm aproximadamente 160 %, 20 % e 16 % do consumo diário recomendado de vitamina C, de ácido fólico e de fibras, respectivamente.

Cultivares - Não reflorescentes ou de dia curto:Camarosa, Chandler, Osso Grande, Douglas, Sequoia, Tudla, Dorit. - Remontantes ou indiferentes à duração do dia:Irvine, Selva, Fern, Seascape.

Nas principais zonas produtoras predominam as cultivares não reflorescentes, sobretudo porque apresentam uma maior produtividade no Inverno-Primavera, quando os preços são mais elevados. As cultivares remontantes (ou reflorescentes) apresentam uma maior distribuição da produção ao longo do ano. No entanto, a maior duração do ciclo produtivo implica um acréscimo de custos que nem sempre são compensados pela produção. Além disso, a qualidade dos frutos (sobretudo o calibre) vai diminuindo nas produções posteriores.

A escolha da cultivar desempenha um papel importante numa estratégia de Boas Práticas Agrícolas. Assim, ela deve ter resistência ou tolerância a pragas e doenças, ser rústica e bem adaptada às condições de cultivo, não ser muito exigente no fornecimento de fertilizantes ao solo e possuir boas características organolépticas.

Características da Cultivar Camarosa Actualmente a cultivar Camarosa é a mais difundida no nosso país. É uma planta vigorosa, com um porte intermédio-erecto. Apresenta uma tolerância moderada ao calcário e a algumas doenças fúngicas da parte radicular e aérea. Tem inflorescências longas, o que facilita a colheita.Os frutos têm um calibre médio a elevado, com um peso médio que ronda os 20 g e uma cor vermelha intensa. Os morangos têm uma forma cónica ou cónica alongada. São doces e têm uma qualidade gustativa média a boa. São um pouco menos aromáticos que os da cultivar Chandler, no entanto, são substancialmente mais consistentes, o que proporciona uma boa capacidade de resistência ao transporte e uma boa aptidão para a conservação.

Zonas de Produção O Ribatejo e Oeste (Palmela, Oeste e Ribatejo), o Algarve (sobretudo a campina de Faro/Olhão) e o Alentejo (concelho de Odemira) destacam-se como as principais regiões de produção de morango. A Beira Litoral (Coimbra, Leiria e Aveiro) e Trás–os-Montes (Macedo de Cavaleiros e Vilariça), embora menos representativas assumem importância por produzirem morango fora de época.

Época de Colheita e Comercialização Os morangos florescem e produzem fruto várias vezes durante cada estação de colheita. Em Portugal a estação de colheita varia consoante a zona do país entre meados de Novembro e meados de Abril.

Caracterização da Cadeia A cadeia típica do morango para o mercado em fresco é apresentada esquematicamente na Figura 1. É importante que todas as etapas sejam coordenadas e realizadas com rapidez de forma a evitar a exposição do morango a temperaturas elevadas.

Perdas Associadas à Cadeia Em Portugal não são conhecidas estimativas fiáveis das perdas que ocorrem na cadeia dos frutos frescos. Só através da identificação e quantificação das perdas que ocorrem nas diferentes fases da cadeia será possível a optimização da qualidade e redução de custos na cadeia de distribuição.

Segundo dados fornecidos por uma das mais importantes empresas de distribuição nacional na área dos hortofrutícolas frescos, em 1998 e 1999 os

Figura 1: Cadeia típica do morango

principais motivos de rejeição de morango à entrada nos entrepostos foram a podridão, maturação excessiva e problemas relacionados com a logística. No mesmo período, à entrada nas lojas, as podridões e devoluções da loja foram os principais motivos de rejeição.

PRODUÇÃO Condições Edafoclimáticas

Clima Embora seja originária de climas frescos e húmidos, existem cultivares que se adaptam perfeitamente a climas quentes e secos, desde que haja disponibilidade de água para rega. A parte vegetativa é bastante resistente às geadas, no entanto, na fase de floração, as flores são destruídas por temperaturas inferiores a 00C. Para formar um número adequado de folhas e obter uma boa produção na Primavera seguinte a maior parte das variedades cultivadas necessita de um período de repouso vegetativo, de duração variável, com temperaturas inferiores a 70C.

As necessidades de frio são determinantes na escolha de uma cultivar. As cultivares com necessidades de frio elevadas, correm o risco de em certas regiões de Inverno ameno, não verem as suas necessidades satisfeitas. A cultivar Camarosa, actualmente a mais cultivada entre nós, pertence ao grupo das que têm fracas necessidades de frio (<800 horas a menos de 70C).

A planta proporciona os melhores resultados culturais em zonas onde a temperatura média oscila à volta dos 23-250C. No entanto, para vegetar em boas condições precisa de temperaturas variáveis ao longo do seu ciclo cultural: 10-180C durante o período vegetativo, cerca de 100C na indução floral e menos de 70C durante o repouso vegetativo. Temperaturas baixas durante a floração provocam o aparecimento de frutosdeformados e de escasso valor comercial.

Além da temperatura, também o fotoperíodo (ou duração do dia) tem uma grande influência na actividade vegetativa do morangueiro. A duração do fotoperíodo influi sobretudo na época em que se produz a diferenciação floral (transformação que leva a que certos gomos em vez de darem origem a folhas, coroas secundárias ou estolhos, produzam flores). Em função da sensibilidade das diversas cultivares ao fotoperíodo, estas podem classificar-se em cultivares de ‘dias longos’, que diferenciam os gomos preferencialmente em dias longos (>12 horas) e produzem praticamente durante todo o Verão e parte do Outono; cultivares ‘indiferentes à duração do dia’, que têm um comportamento muito semelhante às precedentes, e cultivares de ‘dias curtos’, que diferenciam os gomos no final do Verão princípio de Outono quando os dias se tornam mais curtos (<12 horas) e a temperatura desce; estas florescem na Primavera seguinte, com uma única frutificação.

Solo O morangueiro é uma planta sensível a solos compactos, com tendência para encharcar no Inverno e Primavera. Nestes solos o desenvolvimento das plantas é muito reduzido; o sistema radicular, já de si frágil, fica muito superficial e, por isso, mais sujeito à asfixia e à escassez de água. Embora em solos arenosos a maturação dos frutos seja antecipada, os melhores morangais encontram-se em solos francos, com melhor retenção de água.

O pH óptimo para a cultura situa-se entre 5,5 e 6,5. É de temer o excesso de calcário no solo, que ao tornar o ferro insolúvel para as plantas, provoca um crescimento reduzido e aparecimento de cloroses nas folhas.

A planta também é muito sensível à salinidade do solo e à da água de rega. Além do reduzido tamanho das plantas, também o número de inflorescências diminui e o vingamento é afectado.

Operações Culturais

Preparação do Terreno O morangueiro exige uma cuidadosa preparação do terreno, dado o seu frágil sistema radicular. O tipo de operações realizadas depende muito

da textura e do estado inicial do terreno (presença de ervas ou restolhode culturas anteriores).

As operações poderão incluir: - corte de ervas ou destruição com grade de discos,

- lavoura, para enterrar os resíduos vegetais e/ou matéria orgânica,

- gradagem (grade de discos), para incorporar os adubos e correctivos minerais e esmiuçar a terra; poderá ser necessário repetir no caso de solos pesados e com grandes torrões, - subsolagem, no caso do terreno encharcar com facilidade; também é aconselhável se se proceder em seguida a uma desinfecção.

Desinfecção do Solo O cultivo repetido vários anos no mesmo solo conduz, normalmente, a uma elevada percentagem de plantas mortas e diminuição da produção. A causa mais frequente é o aumento de microorganismos parasitas, como fungos e nemátodos, que prejudicam o crescimento normal das plantas.

A desinfecção do solo com brometo de metilo tem sido a solução mais utilizada. No entanto, uma política ambiental seguida pela generalidade dos países industrializados tem levado à obrigatoriedade de redução deste produto e à sua total proibição para este fim a breve prazo, pelo que outras alternativas terão que ser usadas. O metame sódio pode ser uma alternativa ao brometo de metilo. Em certas regiões produtoras, a solarização ou a solarização conjugada com tratamentos químicos a baixas doses (como o metame sódio ou o dazomete) tem dado bons resultados.

Armação dos Camalhões A largura dos camalhões é normalmente de 60-70 cm, o suficiente para incluir duas linhas de plantas distanciadas de cerca de 30-35 cm. A distância entre o centro de dois camalhões contíguos varia normalmente entre 1,0 e 1,2 m. A altura dos camalhões é normalmente de 30-40 cm, o suficiente para que as plantas, ao desenvolverem-se, não fiquem pousadas no chão das ruas.

Fertilização Para se realizar a correcção e adubação de fundo é essencial proceder à análise de terra.

Estrumação: A cultura do morangueiro é bastante exigente em matéria orgânica. Esta é muito importante na manutenção da estrutura do solo e na conservação da humidade e dos nutrientes. Deve ser aplicada ao solo algum tempo antes da plantação, de preferência 1 a 2 meses, com estrume de bovinos bem curtido. A escassez de estrumes tem levado à sua substituição por matéria orgânica desidratada, proveniente de estrumes de vaca ou de cavalo, disponível no mercado na forma de granulado. É bastante usual a aplicação localizada (5-7 t/ha) em simultâneo com a armação dos camalhões.

Adubação: São muitos os factores que fazem variar as necessidades de nutrientes da cultura, pelo que é impossível indicar uma fórmula de adubação que se adapte às diferentes condições. Para as condições do sul da Europa, a

Figura 2: Armação dos camalhões

adubação do morangueiro deve situar-se entre os seguintes valores: - 150 a 250 unidades de azoto (N)

- 90 a 180 unidades de anidrido fosfórico (P2O5) - 270 a 400 unidades de óxido de potássio (K2O)

A grande difusão dos sistemas de rega gota-a-gota, e a grande variedade de adubos solúveis existentes no mercado, permite a distribuição destas quantidades de nutrientes ao longo do ciclo cultural.

As análises de solo antes da plantação, complementadas por análises foliares durante a cultura e a observação do vigor das plantas, são ferramentas essenciais para se proceder a uma adubação equilibrada. Na Tabela 1 está indicada a relação entre alguns constituintes e o azoto dos adubos para o equilíbrio entre os nutrientes. A quantidade de azoto deve ser adaptada em função do vigor das plantas.

Na realização da fertilização usando adubos simples, deve atender-se ao seguinte: - Não misturar adubos fosfatados com os que contenham cálcio, magnésio ou ferro;

- Não misturar adubos cálcicos, como o nitrato de cálcio, com os que contenham sulfatos;

- Em caso de necessidade de utilização de adubos incompatíveis, estes devem ser colocados em depósitos diferentes e aplicados em dias desfasados.

Tabela 1:

Constituintes dos adubos mais indicados para cada fase cultural (Fonte: Taussig,1997)

Micro-Quantidade

NP 2O5 K2OM gO nutrientes de N (kg/ha/semana)

Cobertura do Solo A cobertura do solo com plástico preto é uma prática generalizada na cultura do morango. A sua utilização tem várias finalidades: - impede o crescimento de ervas infestantes,

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