Coleção Os Pensadores - Platão

Coleção Os Pensadores - Platão

(Parte 1 de 5)

Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Platão.

Diálogos / Platão ; seleção de textos de José Américo Motta

Pessanha ; tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat e João Cruz Costa. — 5. ed. — São Paulo : Nova Cultural, 1991. — (Os pensadores)

Inclui vida e obra de Platão. Bibliografia. Conteúdo: O Banquete — Fédon — Sofista — Político. ISBN 85-13-00215-1

1. Filosofia antiga 2. Literatura grega 3. Platão I. Pessanha,

José Américo Motta, 1932- I. Título, m. Título: 0 Banquete. IV. Título: Fédon. V. Título: Sofista. VI. Título: Político. VII. Série.

91-0201- 8

índices para catálogo sistemático: 1. Filosofia platônica 184 2. Filósofos antigos : Biografia e obra 180.92 3. Literatura grega antiga : Poligrafia 8 4. Platão : Obras filosóficas 184 5. Poligrafia : Literatura grega antiga 8

Os gregos antigos inventaram a democracia, a noção de cidadania e foram os primeiros a sentir e expor a necessidade de ultrapassar o terreno das meras opiniões, os ensinamentos dos mitos e as crenças supersticiosas. Propuseram-se a atingir um conhecimento verdadeiro, um saber efetivamente científico. Nessa busca, Platão, que cria sua Academia em 387 a.C. em Atenas, tem papel fundamental. Apura a dialética socrática para torná-la apta a desenvolver um saber sistemático, capaz de se alçar do sensível para o inteligível — o mundo das idéias. Sua influência, uma das mais profundas da história do pensamento, ainda hoje encontra-se no horizonte de toda investigação teórica. NESTE VOLUME

Sócrates, Agatão, Alcibíades e outros conversam a respeito do amor. Para Sócrates, o amor é um meio de atingir a visão do princípio eterno de todas as coisas belas, o belo em si.

Na prisão, à espera da cicuta, Sócrates debate sobre a morte. 0 diálogo relata o caminho socrático, retomado e desenvolvido por Platão: o conhecimento como reminiscência e a doutrina das idéias.

A oposição verdade-erro, inerente ao combate socrático-platônico aos sofistas (vistos como mercadores de falsidades), renova-se nessa etapa final do platonismo.

Platão retoma um dos temas centrais de sua reflexão filosófica: a caracterização do político e da arte de governar.

Nesta série estão as idéias fundamentais que, nos últimos 25 séculos, ajudaram a construir a civilização. A escolha de autores procura refletir a pluralidade de temas e de interpretações que compõem o pensamento filosófico. A seleção de textos busca, nas fontes originais, uma visão abrangente e equilibrada da Filosofia e de sua contribuição ao conhecimento do homem e do universo.

Seleção de textos de José Américo Motta Pessanha Tradução e notas de José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat e João Cruz Costa

NOVA CULTURAL 1991

Títulos originais:

Συµπόιоν (O Banquete)

Φαίδων (Fédon) Σоφιστήѕ (Sofista) Поλιτικόѕ (Político)

© Copyright desta edição, Editora Nova Cultural Ltda.,

Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3? andar

CEP 01452 - São Paulo, SP - Brasil.

Traduções publicadas sob licença da Editora Bertrand Brasil S.A., Rio de Janeiro (O Banquete) e da Editora Glob.o S.A., São Paulo

{Fédon, Sofista, Político).

Direitos, exclusivos sobre "Platão — Vida e Obra", Editora Nova Cultural Ltda., São Paulo.

Consultoria: José Américo Motta Pessanha

"Outrora na minha juventude experimentei o que tantos jovens experimentaram. Tinha o projeto de, no dia em que pudesse dispor de mim próprio, imediatamente intervir na política." Quem assim escreve, em cerca de 354 a.C, é o setuagenário Platão, numa de suas cartas — a carta VII, endereçada aos parentes e amigos de Dion de Siracusa.

O interesse de Platão pelos assuntos políticos decorria, em parte, de circunstâncias de sua vida; mas era também uma atitude compreensível num grego de seu tempo. Toda a vida cultural da Grécia antiga desenvolveu-se estreitamente, vinculada aos acontecimentos da cidade-Estado, a polis. Essa vinculação resultava fundamentalmente da organização política, constituída por uma constelação de cidades-Estados fortemente ciosas de suas peculiaridades, de suas tradições, de seus deuses e heróis. A própria dimensão da cidade-Estado impunha, de saída, grande solidariedade entre seus habitantes, facilitando a ação coercitiva dos padrões de conduta; ao mesmo tempo, propiciava à polis o desenvolvimento de uma fisionomia particular, inconfundível, que era o orgulho e o patrimônio comum de seus cidadãos. O fenômeno geográfico e o político associavam-se de tal modo que, na língua grega, polis era, ao mesmo tempo, uma expressão geográfica e uma expressão política, designando tanto o lugar da cidade quanto a população submetida à mesma soberania. Compreende-se, assim, por que um grego antigo pensava a si mesmo antes de tudo como um cidadão ou como um "animal político".

Essa ligação estreita entre o homem grego e a polis transparece na vida e no pensamento dos filósofos. Já Tales de Mileto (século VI a.C), segundo o historiador

Heródoto, teria desempenhado importante papel na política de seu tempo, tentando induzir os gregos da Jônia a se unirem numa federação e, assim, poderem oferecer resistência à ameaça persa que então se configurava. Desse modo, com Tales — que a tradição considera o ponto inicial da investigação científicofilosófica ocidental — teria começado também a linhagem dos filósofos-políticos e dos filósofos-legisladores, cuja vida e cuja obra desenvolveram-se em íntima conexão com os destinos da polis. No próprio vocabulário dos primeiros filósofos manifesta-se essa conexão: muitas das palavras que empregam sugerem experiências de cunho originariamente social, generalizadas para explicar a organização do cosmo. Por outro lado, a estrutura política fornece ao pensador esquemas interpretativos: a polis monárquica corresponde uma interpretação do processo cosmogônico entendido como o desdobramento ou a transformação de um único princípio (arque), tal como aparece nas primeiras cosmogonias filosóficas. Com o tempo, esses esquemas interpretativos vão, porém, se alterando, em parte pela dinâmica inerente ao pensamento filosófico, em parte como reflexo das novas formas de vida política. A instauração do regime democrático em Atenas e em outras cidades suscita novos temas para a investigação e sugere novos quadros explicativos: o filósofo Empédocles de Agrigento — líder democrático em sua cidade — concebe a organização do universo como resultante do jogo de múltiplas "raízes" regidas pela isonomia (igualdade perante a lei). Ao monismo corporalista dos primeiros pensadores pode então suceder o pluralismo: o cosmo é compreendido à imagem da pluralidade de poderes da polis democrática.

Na Assembléia, quem pede a palavra?

Entre 460 e 430 a.C, Atenas, sob o governo de Péricles, atingiu o apogeu de sua vida política e cultural, tornando-se a cidade-Estado mais proeminente da Grécia. Essa situação fora conquistada sobretudo depois das guerras médicas, quando Atenas liderou a defesa do mundo grego e derrotou os persas. Libertando as cidades gregas da Ásia Menor e apoiando-se sobre poderosa confederação marítima, Atenas teve seu prestígio aumentado; enquanto expandia e fortalecia seu imperialismo, internamente aprimorava a experiência democrática, instaurada desde 508 a.C. pela revolta popular chefiada por Clíste-nes. Pela primeira vez na história, o governo passara a ser exercido pelo povo, que, diretamente, na Assembléia (Ekklesia), .decidia os destinos da polis. Mas, na verdade, a democracia ateniense apresentava sérias limitações. Em primeiro lugar, nem todos podiam participar dos debates da Assembléia: apenas os que possuíam direitos de cidadania. Essa discriminação excluía das resoluções políticas a maior parte dos habitantes da polis: as mulheres, os estrangeiros, os escravos. Em conseqüência, constituía uma minoria o demos (povo) que assumira o poder em Atenas.

A democracia ateniense era, na verdade, uma forma atenuada de oligarquia (governo dos olígoi, de poucos), já que somente aquela pequena parcela da população — os "cidadãos" — usufruía dos privilégios da igualdade perante a lei e do direito de falar nos debates da Assembléia (isegoria). As decisões políticas estavam, porém, na dependência de interferências ainda mais restritas, pois na própria Assembléia nem todos tinham os mesmos recursos de atuação. Lido o relatório dos projetos levados à ordem do dia, o arauto pronunciava a fórmula tradicional: "Quem pede a palavra?" Segundo o princípio da isegoria, qualquer cidadão tinha o direito de responder a esse apelo. Mas, de fato, apenas poucos o faziam. Os que possuíam dons de oratória associados ao conhecimento dos negócios públicos, os hábeis no raciocinar e no usar a voz e o gesto, estes é que obtinham ascendência sobre o auditório, impunham seus pontos de vista através da persuação retórica e lideravam as decisões. A eloqüência tornou-se, assim, uma verdadeira potência em Atenas; sem ter necessidade de nenhum título oficial, o orador exercia uma espécie de função no Estado. Se além de orador era um homem de ação — como Péricles — tornava-se, durante algum tempo, o verdadeiro chefe político.

O cuidado dos democratas em impedir que o poder retornasse às mãos da antiga aristocracia e outra vez se centralizasse, reassumindo caráter vitalício e hereditário, acabava por erigir obstáculos à própria democracia. A preocupação em preservar a pureza das instituições democráticas, defendendo-as das facções adversárias — derrotadas mas sempre atuantes e prontas a tentar recuperar antigos privilégios —, levou os democratas a estabelecer inclusive uma duração limitada para o exercício das funções públicas. Para que nenhum magistrado se acostumasse ao poder e nele quisesse se perpetuar, as funções públicas duravam apenas um ano. Além disso adotou-se a tiragem de sorte para a escolha dos ocupantes daquelas funções, com exceção dos comandos militares, dos ocupantes de cargos financeiros e dos que exerciam comissões técnicas que exigissem competência especial. Com o processo de tiragem de sorte — que parece estranho e irracional à mentalidade afeita à administração pública moderna — a democracia grega procurava defenderse firmando o poder nas mãos da Assembléia dos cidadãos. Tais escrúpulos, porém, vinham tornar ainda mais instáveis e flutuantes as decisões políticas. O comparecimento à Assembléia era freqüentemente escasso, já que, em condições normais, muitos cidadãos preferiam ocupar-se de seus negócios particulares; os que compareciam aos debates estavam sujeitos às influências dos oradores mais hábeis, que faziam oscilar as decisões; finalmente, a curta duração das funções públicas aumentava mais ainda a dificuldade de se desenvolver uma linha política estável, contínua, duradoura.

As deficiências do regime democrático ateniense tornaram-se patentes para alguns pensadores, que se empenharam em corrigi-las. Se a liberdade proporcionada aos cidadãos era um patrimônio caro a ser preservado, a estabilidade política exemplificada por outros países, como o Egito, parecia invejável. Sem falar que, dentro da própria Grécia, o militarismo de Esparta sugeria uma solução política baseada no sacrifício das liberdades individuais em nome da disciplina e da ordem social.

"os males não cessarão para os humanos antes que a raça dos puros e autênticos

A crítica à democracia ateniense e a procura de soluções políticas do mundo grego foram preocupações centrais da vida e da obra daquele que é por muitos considerado o maior pensador da Antigüidade: Platão. Nele, filosofia e ação política estiveram permanentemente interligadas, pois alimentou sempre a convicção de que filósofos chegue ao poder, ou antes que os chefes das cidades, por uma divina graça, ponham-se a filosofar verdadeiramente" (Carta VII).

Entre a filosofia e a política

Platão nasceu em Atenas em 428-7 a.C. e morreu em 348-7 a.C. Essas datas são bastantes significativas: seu nascimento ocorreu no ano seguinte ao da morte de Péricles; seu falecimento deu-se dez anos antes da batalha de Queronéia, que assegurou a Filipe da Macedônia a conquista do mundo grego. A vida de Platão transcorreu, portanto, entre a fase áurea da democracia ateniense e o final do período helênico: sua obra filosófica representará, em vários aspectos, a expansão de um pensamento alimentado pelo clima de liberdade e de apogeu político

Filho de Ariston e de Perictione, Platão pertencia a tradicionais famílias de

Atenas e estava ligado, sobretudo pelo lado materno, a figuras eminentes do mundo político. Sua mãe descendia de Sólon, o grande legislador, e era irmã de Cármides e prima de Crítias, dois dos Trinta Tiranos que dominaram a cidade durante algum tempo. Além disso, em segundas núpcias Perictione casara-se com Pirilampo, personagem de destaque na época de Péricles. Desse modo, se Platão em geral manifesta desapreço pelos políticos de seu tempo, ele o faz como alguém que viveu nos bastidores das encenações políticas desde a infância. Suas críticas à democracia ateniense pressupunham um conhecimento direto das manobras políticas e de seus verdadeiros motivos.

Segundo o depoimento de Aristóteles, Platão, na juventude, teria conhecido Crátilo, que, adotando as idéias de Heráclito de Éfeso sobre a mudança permanente de todas as coisas — e certamente interpretando de forma parcial e empobrecida a tese heraclítica —, afirmava a impossibilidade de qualquer conhecimento estável. Os dados dos sentidos teriam validade instantânea e fugaz, o que tornava inútil e ilegítima qualquer afirmativa sobre a realidade: quando se tentava exprimir algo, este já deixara de ser o que parecia no momento anterior. Na versão apresentada por Crátilo, o incessante movimento das coisas tornava-se um empecilho à ciência e à ação, que não podiam dispensar bases estáveis. Buscando justamente estabelecer esses fundamentos seguros para o conhecimento e para a ação, Platão desenvolverá, na fase inicial de sua filosofia, teses que tendem a sustentar a realidade no intemporal e no estático. Só posteriormente seu pensamento irá reabilitar e reabsorver o movimento e a transformação, tentando estabelecer a síntese entre a tradição eleática (que negava a racionalidade de qualquer mudança) e a heraclítica (que afirmava o fluxo contínuo de todas as coisas).

Mas o grande acontecimento da mocidade de Platão foi o encontro com

Sócrates. Na época da oligarquia dos Trinta (entre os quais estavam Cármides e Crítias), os governantes haviam tentado fazer de Sócrates cúmplice na execução de Leon de Salamina, cujos bens desejavam confiscar. Sócrates recusou-se a participar da trama indigna e, evidentemente, deixou de ser visto com simpatia pelos tiranos. Mais tarde, já reinstaurado o regime democrático em Atenas, Sócrates foi acusado de corromper a juventude, por difundir idéias contrárias à religião tradicional, e condenado a morrer bebendo cicuta.

Platão, que seguira os debates de Sócrates e que o considerava — como escreverá no Fédon — "o mais sábio e o mais justo dos homens", pôde acompanhar de perto o tratamento que seu mestre recebera de ambas as facções políticas. Parecia não existir em Atenas um partido no qual um homem que não quisesse abrir mão de princípios éticos pudesse se integrar. Diante da injustiça sofrida por Sócrates, aprofunda-se o desencanto de Platão com aquela política e com aquela democracia: "Vendo isso e vendo os homens que conduziam a política, quanto mais considerava as leis e os costumes, quanto mais avançava em idade, tanto mais difícil me pareceu administrar os negócios de Estado" (Carta VII). Mas o impacto causado por Sócrates no pensamento e na vida de Platão teve também outra significado, este de repercussões ainda mais duradouras: com Sócrates, o jovem Platão pudera sentir a necessidade de fundamentar qualquer atividade em conceitos claros e seguros. Por intermédio de Sócrates e de sua incessante ação como perquiridor de consciências e de crítico de idéias vagas ou preconcebidas, o primado da política torna-se, para Platão, o primado da verdade, da ciência. Se o interesse de Platão foi inicialmente dirigido para a política, através da influência de Sócrates ele reconhece que o importante não era fazer política, qualquer política, mas a política. Por isso é que justamente se recusa a participar, na mocidade, de atividades políticas: primeiro tem de encontrar os fundamentos teóricos da ação política — e de toda ação — para orientá-la retamente. A filosofia para Platão representou, assim, de início, a ação entravada, a que se renuncia apenas para poder vir a ser realizada com plenitude de consciência.

Depois da morte de Sócrates, disperso o núcleo que se congregara em torno do mestre, Platão viaja. Visita Megara, onde Euclides, que também pertencera ao grupo socrático, fundara uma escola filosófica, vinculando socratismo e eleatismo. Vai ao sul da Itália (Magna Grécia), onde convive com Arquitas de Tarento. O famoso matemático e político pitagórico dá-lhe um exemplo vivo de sábiogovernante, que ele depois apontará, na República, como solução ideal para os problemas políticos. Na Sicília, em Siracusa, conquista a amizade e a inteira confiança de Dion, cunhado do tirano Dionísio. Essa ligação com Dion — talvez o mais forte laço afetivo da vida de Platão — representa também o início de reiteradas tentativas para interferir na vida política de Siracusa. Platão visita ainda o norte da África, mas de sua ida ao Egito quase nada se sabe com segurança. Certo é que, em Cirene, inteirou-se das pesquisas matemáticas desenvolvidas por Teodoro, particularmente as referentes aos "irracionais" (grandezas, como V2, cujo valor exato não se podia determinar). Os irracionais matemáticos inspirarão várias doutrinas platônicas, pois representam uma "justa medida" que nenhuma linguagem consegue exaurir.

Nessa época Platão compõe seus primeiros Diálogos, geralmente chamados "diálogos socráticos", pois têm em Sócrates a personagem central. Entre esses diálogos está a Apologia de Sócrates, que pretende reproduzir a defesa feita pelo próprio Sócrates diante da Assembléia que o julgou e condenou. Porém, de certa forma, outros diálogos dessa fase constituem também defesas que Platão faz de seu mestre, mostrando que nem era ímpio nem pervertia os jovens. Nessa categoria podem ser incluídos o Críton, o Laques, o Lísis, o Cármides e o Eutífron. Dentre os primeiros diálogos situam-se ainda o Hípias Menor (talvez também o Hípias Maior), o Protágoras, o Górgias — nos quais aparecem os grandes sofistas — e o lon. É possível que, também nessa época, Platão tenha começado a escrever a República. Em geral, os "diálogos socráticos" desenvolvem discussões sobre ética, procurando definir determinada virtude (coragem, Laques; piedade, Eutífron; amizade, Lísis; autocontrole, Cármides). Mas são diálogos aporéticos, ou seja, fazem o levantamento de diferentes modos de se conceituar aquelas virtudes, denunciam a fragilidade dessas conceituações, mas deixam a questão aberta, inconclusa. Isso possivelmente estaria relacionado ao objetivo do próprio Sócrates, que se preocupava antes com o desencadeamento do conhecimento de si mesmo e não propriamente com definições de conceitos. De qualquer modo, algumas teses socráticas básicas podem ser encontradas nesses diálogos, como a da identificação da virtude com certo tipo de conhecimento e a da unidade de todas as virtudes. Os outros diálogos dessa fase manifestam duas preocupações que permanecerão constantes na obra platônica: o problema político (como no Cármides) e o do papel que a retórica pode desempenhar na ética e na educação (Górgias, Protágoras, os dois Hípias).

A Academia ou Siracusa?

Cerca de 387 a.C. Platão funda em Atenas a Academia, sua própria escola de investigação científica e filosófica. O acontecimento é da máxima importância para a história do pensamento ocidental. Platão torna-se o primeiro dirigente de uma instituição permanente, voltada para a pesquisa original e concebida como conjugação de esforços de um grupo que vê no conhecimento algo vivo e dinâmico e não um corpo de doutrinas a serem simplesmente resguardadas e transmitidas. O que se sabe das atividades da Academia, bem como a obra escrita de Platão e as notícias sobre seu ensinamento oral, testemunham sobre essa concepção da atividade intelectual: antes de tudo busca a inquietação, reformulação permanente e multiplicação das vias de abordagem dos problemas, a filosofia sendo fundamentalmente filosofar — esforço para pensar mais profunda e claramente.

Nessa mesma época, em Atenas, Isócrates dirige um outro estabelecimento de educação superior. Mas Isócrates — seguindo a linha dos sofistas — pretende educar o aspirante à vida pública, dotando-o de recursos retóricos. Nada de ciência abstrata: bastava munir o educando de "pontos de vista", que ele deveria saber defender de forma persuasiva. Numa democracia dirigida de fato por oradores, a instituição de Isócrates indiscutivelmente desenvolve uma educação realista, atendendo às necessidades do momento. Mas é outra a perspectiva da Academia. Para Platão a política não se limita à prática, insegura e circunstancial. Deve pressupor a investigação sistemática dos fundamentos da conduta humana — como Sócrates ensinara. Porém, suas bases últimas não se limitariam ao plano psicológico e ético: os fundamentos da ação requerem uma explicação global da realidade, na qual aquela conduta se desenrola. Depois de suas viagens, quando freqüentou centros pitagóricos de pesquisa científica, Platão via na matemática a promessa de um caminho que ultrapassaria as aporias socráticas — as perguntas que Sócrates fazia, mas afinal deixava sem resposta — e conduziria à certeza. A educação deveria, em última instância, basear-se numa episteme (ciência) e ultrapassar o plano instável da opinião (doxa). E a política poderia deixar de ser o jogo fortuito de ações motivadas por interesses nem sempre claros e freqüentemente pouco dignos, para se transformar numa ação iluminada pela verdade e um gesto criador de harmonia, justiça e beleza.

Durante cerca de vinte anos, Platão dedica-se ao magistério e à composição de suas obras. Sob forte influência do pitagorismo, escreve os "diálogos de transição", que justamente marcam — segundo muitos intérpretes — o progressivo desligamento das posições originariamente socráticas e a formulação de uma filosofia própria, a partir da nova solução para o problema do conhecimento, representada pela doutrina das idéias: formas incorpóreas e transcendentes que seriam os modelos dos objetos sensíveis. Essas novas formulações aparecem em vários diálogos: Ménon, Fédon, Banquete, República, Fedro. Do mesmo período é o Eutidemo, que procura estabelecer a distinção entre a dialética socrática (que Platão adota e pretende desenvolver) e a erística, ou arte das discussões lógicas sutis e da disputa verbal, que se tornara a preocupação central da escola de Euclides de Megara. Já no Menexeno o tema político reaparece, através da sátira a Péricles. Particular importância apresenta, entre os diálogos dessa fase, o Crátilo, no qual — abrindo perspectivas que ainda hoje a filosofia e a lingüística exploram — Platão investiga a possibilidade de extrair a verdade filosófica da estrutura da linguagem.

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