Galileu - nº 143 junho, 2003

Galileu - nº 143 junho, 2003

(Parte 7 de 11)

ambos gratuitos. Um extenso banco de dados fornece informações sobre os alimentos e gera gráficos que comparam o cardá- pio do usuário com a dieta ideal para o seu perfil.

Se você é capaz de criar um software complexo mas não consegue controlar o próprio peso, saiba que você não é o único. Um programador californiano, porém, virou o jogo e decidiu dar uma mãozinha para os colegas que ainda vivem de cerveja quente e pizza fria: publicou na internet a Dieta do Hacker (WWw. fourmilab.to/hackdiet, em inglês), um programa de emagrecimento especialmente voltado para quem passa a vida na frente do micro.

O material está disponível para download ou consulta online e oferece dicas preciosas sobre nutrição e atividade física (levantar para trocar a tinta da im-

Seu corpo, sua máquina

Gnutrition Software controla dieta v_ FOOd:ISWeelpOtato."'" s.=hl

Para o ambientalista Chris Bright, a crise global é o momento certo para a humanidade se reinventar

Miséria, aquecimento global, desmatamento, lixo tóxico e espécies invasoras. Seria difícil esperar otimismo de alguém

que passa as horas de trabalho pensando sobre esse apocalipse ambiental, mas é essa a postura de um dos pesquisadores que mais têm se destacado na ONG Worldwatch Institute

(WWI). Escrevendo sobre esses problemas, o ambientalista Chris Bright abre a edição 2003 do livro "Estado do Mundo", que reúne pesquisa- dores atuantes da área.

Falando de Washington, Bright conta a GALlLEU como a reinvenção da humanidade pode criar um mundo sustentável. (Rafael Garcia)

GALlLEU: O sr. diz que a era de mudanças a partir deste século será vista no futu'ro como um momento tão importanie quanto o vivido há

50 mil anos, quando as ferramentas se disseminaram. Se essas mudanças não ocorrerem, haverá humanidade daqui a 50 mil anos? Bright: Não acho que o ser humano esteja em risco de extinção. O que acho é que nos colocamos numa posição que vai forçar a nos reinventarmos, porque o déficit cumulativo por não mudar nosso comportamento promete crescer muito rápido. Sinto que nós reagimos muito melhor a problemas que interpretamos como críticos do que a problemas vistos como crônicos e de longo prazo. Boa parte da degradação ambiental se enquadra nessa • última categoria, mas em mui- tas frentes já chegamos a um ponto onde não há escolha a não ser mudar o comporta- mento herdado do passado. É o caso da mudança climática ou da destruição da natureza tropical.

GALILEU: O sr. escreveu que temos o tempo hábil de duas gerações para resolver essas questões ambientais. A geração atual não está tentando adiar oproblema? Bright: Temos de fato ten- dência a tentar passar os problemas para nossos descendentes. Falhamos em conservar nossas áreas naturais, por exemplo, e assim estamos li-

dando com as conversações sobre o lixo. Há um costume de achar que é mais seguro adiar o problema, mas muitas vezes o adiamento traz um risco maior do que sezuir em frente, mesmo que não e tenha a solução definitiva.

GALILEU: Críticas à política ambiental dos EUA crescem desdea recusa deBUS/l em assinar oprotocolo de Kyoto. O sr. ainda acha possível uma mudança de diretrizes? Bright: 1 ão acredito que será possível progredir na maioria dos assuntos durante o atual governo, que veJo como um dos maiores obstáculos para uma reforma ambiental, dentro e fora dos EUA. Não sei quão fácil será maquiar alguns dos danos que esse governo parece ter provocado, mas só conheceremos a situação exata quando a poeira baixar.

GALILEU: Formas limpas efinanceiramente viáveis de energia devem surgir logo, mas um cenário político favorável aofim da hegemonia do petróleo parece distante. Comoosr. vê esseproblema? Bright: A questão da energia é um bom exemplo dos problemas e oportunidades que temos. Seria útil ao governo americano ter um papel mais construtivo em impulsionar essas tecnologias, porque ele não detém mais exclusividade sobre elas. O surgimento de geradores mais sofisticados movidos a vento no norte da Europa e na Índia é um exemplo disso. Isso é encorajador para o mundo, sobretudo porque podemos progredir de forma mais descentralizada. em depender das políticas zovemamentais.

GALILEl:: Mas quando serão adoiadas as políticas de

" Temos tendência a passar os nossos problemas ambientais para nossos descendentes " substituição dos combustíveisfósseis? Teremos de espe- rar opetróleo acabar? Bright: Acho que não. Um pensamento que ilustra bem isso é o seguinte: o que causou o fim da Idade da Pedra não foi a falta de pedra. Então, não teremos de esgotar o petróleo para ver o fim da era do petró- leo. Isso é uma visão que está crescendo mesmo dentro de certas companhias de petró- leo. Não se pode continuar a ignorar que a atual economia energética é simplesmente in- sustentável a longo prazo, por causa de seus danos ao clima. Companhias como a British

Petroleum encaram essas novas tecnologias com muita se- riedade e parecem interessadas em aprimorá-Ias. Algumas pessoas nessas corporações sabem que a vida da empresa a longo prazo depende de enxergar além do petróleo.

GALILEU: APesar de poucos países terem[echado acordos importantes na Rio+l0, as ONGsparecem ter conseguido bom progresso em algumas questões. Até que ponto as ONGs podem ou devem chamar para si a responsabilidade dosgovernos? Bright: Alguns assuntos são muito mais dependentes do compromisso de governos que outros. Mas a tendência geral na última década é o for- talecimento de ONGs e sociedade civil. No assunto com o que eu mais lido, conservação da biodiversidade e natureza, há papéis importantes que só os governos podem assumir.

GALILEU: O sr. pl"Opõeum plano complexo e ambicioso de recuperação da economia cacaueira para salvar trechos parcialmente devasta- dos de Mata Atlântica baiana, onde seplantava cacau à sombra de âruores nativas. É possível propor soluçõescomo essapara outros lugares? Bright: É melhor que seja possível. No exemplo da Mata Atlântica, resta hoje menos de 7% da cobertura original. Nessa situação, uma iniciativa séria para preservar a floresta '1 requer não só preservar as ~ áreas remanescentes de mata, mas também restaurar outras. ]

" Ospobres são muito mais dependentes de ummeio ambiente saudável do queos ricos"

Muitos fragmentos de mata que restaram são pequenos demais para sobreviver sozi- nhos,porque não têm população de plantas e animais gran- des o suficiente. Temos que fazer algo para conseguir mais árvores e preservar as que já existem, interligando os fragmentos de floresta. Na região cacaueira do sudeste da Bahia há 4.200 km2 de floresta nativa que sobreviveram, mas também há as cabrucas [planta- ções de cacau à sombra em mata parcialmente pre ervada], que ocupam 13.400 knr'.

apesar de gTaIlte parte não er mais produtiva. eria uma ir- responsabilidade não tentar salvar as cahrucas. Elas não são mata virzem. mas têm um "alar ine timável.

GALILEl:: Como se torna isso economicamente viável? Brizhe O economia cacaueira movimenta C S 50 milhões por ano. Apenas 3% desse dinheiro volta para a região que produziu o cacau. Se descobrís emo um meio de dobrar e e percentual, poderíamos injetar mais dólares nessas economias locais. O Brasil conta ainda com o carisma da Mata Atlânti- ca. Algumas pessoas na Euro- pa e EUA simplesmente aceitariam pagar pela conservação das florestas tropicais. Pode- mos então ter um produto que. . sep um mecamsmo para esse pagamento. Se pa sarmos às pessoas a noção de que a compra de determinado chocolate ajuda a pre ervação da mata, seria um apelo muito grande.

G.u.ru:c: Em que mais o sr.

está trabalhando agora? Bright: Eu dirijo wn programa de restauração florestal aqui em Washington e estou envolvido num estudo de lon- go prazo do W\VI sobre restauração florestal. Estamos tentando descobrir qual papel a restauração de florestas pode ter.ecologicamente e economi- camente, em vários tipos de floresta e condições sociais no mundo. Também participo do

Programa Global de Espécies Invasoras, discutindo políti- cas para ajudar a barrar o movimento de espécies invasoras entre ecossistemas.

GALILEU: Por que osr. lista a bioinvasãoentreoscincomaioresp1'Oblemasambientais? Bright: Bioinvasão é uma forma de degradação ambiental particularmente difícil de se reverter. Quando uma espécie invade um novo ambiente, se ela prosperar, na maioria dos casos é impossível se livrar dela. Além disso, é extremamente difícil de se prever a invasão. O deslocamento de pestes e todo o tipo de organismo acontece o tempo todo na infra-estrutura básica do comércio globalizado, dentro da água para lastro de navios ou em materiais empacotados.

GALILEU: Algumas pessoas temem que problemas ambientais tenham de disputar espaço com problemas sociais na agenda global. Como osr. avalia essa visão? Bright: Eu vejo esses dois problemas intimamente inter- ligados. Temos que tentar construir uma agenda que cuide das enormes carências sociais humanas ao mesmo tempo em que cuide do ambiente. Até a bioinvasão tem relação com a pobreza, porque plantas invasoras daninhas estão devastando plantações de agricultores pobres.

Em lugares como o sul da Ín- ~ z dia e alguns países africanos, a ~ bioinvasão agrava a fome. É l o um absurdo dizer: "vamos sa- ,~ crificar o ambiente para ajudar j os pobres". Pessoas pobres 'I são muito mais dependentes -s de um meio ambiente saudá- ;5 vel do que os ricos o são. ~ j

Reduzir, reutilizar, recicla~

Cada brasileiro produz cerca de um quilo de lixo por dia. São mais de 125 mil toneladas de restos de comida, embalagens e outros resíduos descartados diariamente no país. E o que épior, mais de 76% acaba em lixões, contaminam o solo, a água e espalham doenças. Ainda que a faltade destino adequado para os resíduos seja um problema grave no Brasil, diminuí-los é a meta número um, em qualquer lugar.

S6 há uma saída: reduzir, reutilizar e reciclar. São os 3R. "Diminuir oproblema na sua origem deve ser um procedimento permanente. Mas a medida mexe com o comportamento das pessoas e de toda a cadeia produtiva", diz Eduardo Castagnari, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), Um bom começoeria diminuir os resíduos orgânicos, que somam mais de 50% do lixo doméstico nacional. Todos o anos 14 milhões de toneladas de alimentos são descartadas, devido a procedimentos inadequa- dos em toda a cadeia produtiva, segundo o Ministério da Agricultura.

Outro vilão são as embalagens, que chegam a 45% do volume do lixo nas grandes cidades, segtUldo levantamento da O G Instituto Akatu pelo

Consumo Consciente. Por melhor que seja a boa vontade do consumidor, fica difícil evitá-Ias, já que os vidros retornáveis e alimentos a granel praticamente sumiram dos supermercados. Quanto à hierarquia dos 3R, o único que tem o

Os diversos destinos do lixo

Lixão - É o pior destino para os resíduos sólidos urbanos. Depositados em terrenos a céu aberto, sem medidas de proteção ao meio ambiente ou à saúde pública. O método favorece a proliferação de insetos transmissores de doenças, além da poluição do solo e da água pelo chorume (líquido escuro e mal cheiroso) produzido pela decomposição da matéria orgânica consenso dos diversos especialistas no assunto é o primeiro. "Em alguns casos, o custo ambiental

(consmno de matéria-prima, energ-iae água) de

~2' reutilizar émaior do que o de reciclar", diz AndréI,Yilhena, diretor executivo da ONG Compromis- - so Empresarial para Reciclagem (Cempre).

Já a socióloga Elisabeth Grimberg, da coordenação do Fórum Lixo e Cidadania da Cidade de São Paulo, étaxativa, "Épreciso de unla política nacional que institua metas para a volta dos retornáveis. Não tem sentido continuar gerando latas de alumínio e garrafas plásticas. O que está emjogo são as fontes de matéria-prima ",rebate.

De qualquer forma, pelo menos em casa vale a pena investir primeiro na reutilização. O hábito de guardar os copos de requeijão no armário pode se estender amais produtos. Dos óbvios, como usar os dois lados do papel de impressão, aos mais en- genhosos, como transformar garrafas plásticas em vasos ejomal velho em origarni (verpág. 50).

A reciclagem, apesar de também gerar resíduos e exigir grande investimento, é o melhor destino para 30% dos detritos que acabam em lixões e aterros. "O Brasil poderia economizar

US$ 10 bilhões por ano se reciclasse os resíduos domiciliares", calcula o economista Sabetai Cal- deram, diretor-executivo do Instituto de Ciência e Tecnologia em Resíduos e Desenvolvimento Sustentável (ICTR) ".

Reciclagem - Trata os resíduos sólidos como matériaprima. Entre as vantagens do método estão a diminuição da quantidade de lixo enviada a aterros, da extração de recursos naturais, do consumo de energia e da poluição. Também contribui para a limpeza da cidade, conscientização ambiental e geração de empregos. esarde ser o melhor método, areciclagem gera resíd os, alguns poluentes

De volta à origem

Cerca de 30% do que colocamos na lixeira pode virar matériaprima. As vantagens são ambientais e econômicas

Metal Reciclável: latas de aço e de alumínio, pregos, parafusos, baldes, panelas (sem cabo). objetos deferro, bronze, zinco e chumbo Aproveitamento: peças, ferramentas, bacias etc. Economia: se todas as latas de aço consumidas no país anualmente fossem recicladas, sobrariam 8,6milhões de m' de espaço em aterros e seriam economizados 240milhões de kWh de energia elétrica

Vidro Reciclável: recipientes em geral, garrafas e copos Aproveitamento: frascos, potes eobjetos de decoração Economia: para cada 10%de caco utilizado na produção de vidro (forma como o material é aproveitado), eco- nomiza-se 2,5%da energia necessária para afusão nos fornos industriais

Plástico Reciclável: embalagens de refrigerantes, margarina e de materiais de limpeza, copos descartáveis, canos, tubos e sacos plásticos em geral Aproveitamento: brinquedos, tecido, baldes, bacias, peças e acessórios para veículos emateriais de construção Economia: de energia elétrica, em até 50%, com o uso de plástico reciclado de sacolas de supermercado e sacos de lixo para fabricar materiais de plástico

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