Construção do Conhecimento Agroecológico

Construção do Conhecimento Agroecológico

(Parte 1 de 7)

Caderno do I Encontro Nacional de Agroecologia

Construção do Conhecimento

Agroecológico Novos Papéis, Novas Identidades

Articulação Nacional de Agroecologia

Junho de 2007

Produção: Grupo de trabalho sobre construção do conhecimento agroecológico da Articulação Nacional de Agroecologia (GT-CCA / ANA)

Organização: Paulo Petersen e Ailton Dias

Edição geral: Paulo Petersen

Comissão editorial: Ailton Dias, Eugênio Ferrari, Lilian Telles, Marcelo Galassi e Romier Souza

Copidesque: Rosa Peralta e Paulo Petersen

Revisão: Gláucia Cruz

Projeto gráfico e diagramação: I Graficci

Impressão: Gráfica Popular

Tiragem: ???? exemplares

Introdução6
Seção 1 – Sínteses de experiências em redes19
organizações da Articulação Nacional da Agroecologia19

Construção do conhecimento agroecológico: síntese de dez experiências desenvolvidas por

agroecológico37

Articulação Mineira de Agroecologia: o papel das redes na construção do conhecimento

brasileiro5
Seção 2 – Experiências institucionais71

A trajetória da Rede Ater Nordeste: construindo conhecimento agroecológico pelo Nordeste

Oeste (RO)71

Produzir sem destruir: a experiência da Associação dos Produtores Alternativos de Ouro Preto do

Tocantina (P ará)85

Multiplicação dos conhecimentos agroecológicos: a experiência de extensão rural na região

experiência de assessoria ao Pólo Sindical da Borborema101

Construção do conhecimento agroecológico em redes de agricultores-experimentadores: a

da AS-PT A132

Promoção da Agroecologia na cidade: reflexões a partir do programa de agricultura urbana

à Cooperativa de Agricultores Familiares e Agroextrativistas Grande Sertão143
Agroecológicos no Vale do Rio Doce (MG)156

O Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas e sua experiência com a criação e assessoria A experiência do Grupo de Agricultores, Experimentadores e Monitores de Sistemas

participativa165

Estruturação da cadeia produtiva da cana-de-açúcar com experimentação e gestão

conhecimentos em Agroecologia176

O Programa de Formação de Agricultores(as): uma estratégia para a construção coletiva de

segurança alimentar e nutricional e agricultura urbana196

Construção participativa de um modelo de formação de educadores(as) comunitários(as) em

pernambucano218

Multiplicação de Sistemas Agroflorestais: a experiência do Centro Sabiá no agreste

Sobradinho e do baixo Sul da Bahia234
Seção 3 – Artigos sobre educação255
Educação do campo e Agroecologia255

Caminhos metodológicos para a transição agroecológica: a experiência na região de

dos jovens266

Escola Família Agrícola Paulo Freire: iniciativas para vivenciar a Agroecologia na formação Anexo ................................................................................................. 281

Construção do Conhecimento Agroecológico6

As profundas transformações ocorridas na agricultura brasileira a partir da década de 1960 foram promovidas pelo Estado por meio de um amplo e integrado conjunto de políticas indutoras e instrumentos de regulação social. Coube às instituições oficiais de ensino, pesquisa e extensão rural um papel preponderante nesse processo. Condicionadas pela ideologia do progresso, elas foram peças-chave da legitimação da então denominada modernização da agricultura perante a sociedade. Foram também responsáveis pela formação de corações e mentes de profissionais que atuaram para colocar em marcha a estratégia modernizadora junto às comunidades rurais.

Tendo operado como o principal elo do Estado para a efetivação dessa estratégia no campo, os serviços de extensão rural orientaram-se essencialmente para a difusão do modelo de agricultura industrial com base na suposição de que os agricultores familiares (camponeses) precisavam ser retirados do atraso em que se encontravam. A base teórica que deu sustentação científica a esse pressuposto e que fundamentou o método difusionista é oriunda da escola norte-americana de sociologia rural. Segundo Everett Rogers, expoente dessa tradição acadêmica que exerceu grande influência sobre os sistemas de extensão rural no Terceiro Mundo, as comunidades camponesas são regidas por valores e modos de vida que necessitam ser ultrapassados para que os caminhos da modernização sejam abertos. Em seu livro Modernização entre camponeses, ele enumera um conjunto de características da cultura camponesa que deveriam ser superadas, entre elas

Introdução

Construção do Conhecimento Agroecológico: Novos Papéis, Novas Identidades

Construção do Conhecimento Agroecológico7 a falta espírito inovador, a desconfiança nas relações pessoais, o baixo nível de aspirações de futuro, etc. O corolário dessas afirmações é que mudanças sociais no campo só se processariam caso os agricultores viessem a incorporar tecnologias modernas.

Passados mais de 40 anos do início do processo modernizante na agricultura, sobram evidências de que seus efeitos sobre o mundo rural, em particular, e sobre a sociedade em geral foram desastrosos. Os impactos negativos da Revolução Verde nos planos social e ambiental estão fartamente documentados e vieram para exacerbar o histórico padrão anti-popular e anti-ecológico da agricultura brasileira. Não é sem razão que muitos denominam esse processo de modernização conservadora.

A despeito da magnitude sem par em nossa história da crise socioambiental engendrada do avanço da agricultura capitalista (ultimamente denominada simplesmente de agronegócio), seus efeitos perversos não se limitaram ao recrudescimento da exclusão social e da degradação dos ecossistemas. A difusão de tecnologias industriais no campo também exerceu profundo impacto negativo sobre as ricas e diversificadas culturas rurais que se desenvolvem em sintonia com os biomas brasileiros. A desarticulação dos sistemas de valores preexistentes, a desorganização de formas tradicionais de sociabilidade e a dissolução de identidades locais são fenômenos facilmente perceptíveis nas comunidades rurais que incorporaram as tecnologias da agricultura industrial em suas rotinas de produção. Nesse sentido, falar em difusão (ou transferência) de tecnologias nada mais é do que um eufemismo, na medida em que o que efetivamente procurou-se difundir foi um novo modo de vida.

No lugar das agriculturas de perfil artesanal ajustadas aos diversificados contextos socioecológicos, a lógica técnico-econômica do agronegócio introduziu o padrão industrial de produção agrícola. As primeiras são fundamentadas em sistemas de policultivo manejados com base no aproveitamento dos recursos da natureza localmente disponíveis, enquanto o último depende do contínuo aporte de insumos externos para reproduzir os sistemas técnicos de suas monoculturas. O sistema técnico empregado nas agriculturas camponesas implica em trabalho complexo e qualificado, na medida em que é definido pelo próprio agricultor. Já na agricultura industrial, são as técnicas que condicionam os sistemas de trabalho que, por isso mesmo, tornam-se padronizados e desqualificados.

Assim, de forma insidiosa, a introdução das técnicas industriais na agricultura retira do agricultor o domínio do conhecimento associado ao

Construção do Conhecimento Agroecológico8 seu próprio trabalho. Trata-se de um mecanismo que ao mesmo tempo expropria o saber-fazer das comunidades rurais e transfere esse poder para as empresas produtoras das modernas técnicas agrícolas. Dessa forma, a dependência tecnológica converte-se em dependência cultural, imobilizando as capacidades autônomas de inovação local e com isso reduzindo as margens de manobra para que famílias e comunidades rurais se auto-determinem por meio da permanente atualização de suas estratégias técnicas e econômicas. Diante desse contexto, restabelecer maiores graus de liberdade para que as populações rurais retomem as rédeas de seus destinos é um dos maiores desafios do movimento agroecológico.

Situando-se no pólo oposto aos pressupostos fundadores das abordagens difusionistas sistematizadas por Rogers, a Agroecologia se desenvolveu como ciência a partir da constatação da existência de sofisticadas racionalidades ecológicas em agriculturas camponesas. Assim como nos sistemas agrícolas tradicionais, a Agroecologia aproveita os recursos da natureza localmente disponíveis para desenvolver agriculturas que assegurem produções estáveis e satisfatórias para atender às necessidades econômicas das famílias agricultoras e que ao mesmo tempo possuam elevada capacidade de se auto-reproduzir técnica, cultural e ecologicamente. No enfoque agroecológico, essas agriculturas são apreendidas como a expressão de estratégias coletivas de produção econômica e de reprodução sociocultural. São, portanto, o produto do exercício da inteligência criativa de populações rurais na construção de melhores ajustes entre seus meios de vida e os ecossistemas e não uma manifestação de um atraso cultural a ser superado.

Em última instância, o enfoque agroecológico ressalta o fato de que a produção e a transmissão de conhecimentos são atividades próprias do ser humano, exercidas individual ou coletivamente por meio das culturas. Reservar essas atribuições sociais a alguns poucos membros da sociedade, como é próprio do difusionismo tecnológico, representa o desperdício de aptidões cognitivas inerentes a toda e qualquer pessoa. Sob essa perspectiva, o difusionismo é um método de gestão de conhecimento anti-ecológico e desumanizador.

A partir dessa nova compreensão sobre as estratégias da agricultura

Construção do Conhecimento Agroecológico9 camponesa, a Agroecologia se desenvolveu rompendo com o positivismo lógico que desconhece a validade de conhecimentos que não sejam produzidos pelo método científico. Com efeito, a construção do conhecimento agroecológico se faz mediante a revalorização das sabedorias locais sobre uso e manejo dos recursos naturais e a sua integração com os saberes de origem acadêmica.

A sinergia entre cultura e ciência em processos locais de inovação agroecológica dinamiza a produção de conhecimentos necessários para que as agriculturas evoluam fundamentadas na otimização das potencialidades ecológicas locais e na convivência com suas limitações. Por intermédio de procedimentos metodológicos que colocam a sabedoria popular e o saber acadêmico em uma relação de complementaridade, a agroecologia permite que as famílias e comunidades rurais se apropriem de conhecimentos que dificilmente teriam condições de construir sem o aporte do método científico. Dessa forma, elas aumentam os seus horizontes de possibilidades para gerirem autonomamente os recursos que têm à disposição para aprimorar seus meios de vida, entre eles a criatividade coletiva.

Como praticantes de um novo enfoque científico que coloca em xeque os fundamentos conceituais e metodológicos do paradigma convencional de desenvolvimento rural, os agroecólogos têm pela frente o desafio de aprimorar seus métodos e instrumentos de ação. Em particular, cabe a eles desenvolver abordagens metodológicas inovadoras que permitam romper com o sentido vertical e unidirecional do difusionismo tecnológico, favorecendo a criação de canais horizontais de diálogo entre os conhecimentos dos(as) agricultores(as) e dos(as) técnicos(as). Trata-se, nesse sentido, de erigir metodologias-ponte entre os procedimentos intuitivos, integradores e não-lineares de produção de conhecimento dos(as) agricultores(as) e os procedimentos racionais, analíticos e lineares dos(as) técnicos(as).

Profundas reformulações nas instituições dedicadas ao ensino, pesquisa e extensão rural são necessárias para que essas novas abordagens metodológicas sejam exercitadas e desenvolvidas. Esse é um desafio de grande envergadura uma vez que interpela o paradigma científico que organiza essas instituições e seus métodos de ação. Orientando simultaneamente a instituição e seus profissionias, o paradigma se auto-reproduz ao estabelecer um duplo bloqueio à sua superação: as inovações nas concepções institucionais dependem de inovações prévias das concepções de seus profissionais e vice-e-versa.

A internalização da perspectiva agroecológica nos métodos de ação de instituições oficiais dedicadas ao desenvolvimento rural tem sido fomenta-

Construção do Conhecimento Agroecológico10 da mais recentemente a partir dos esforços envidados por universidades e escolas técnicas, por empresas de pesquisa agropecuária estaduais e pela Embrapa e, finalmente, por empresas estaduais de extensão rural, estas últimas fortemente condicionadas pelas diretrizes do Plano Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Pnater). Independentemente do grau de avanço dessas diferentes iniciativas, poderosos bloqueios ainda dificultam que essas instituições escapem das formas de organização e das rotinas metodológicas moldadas pela concepção difusionista.

Os maiores avanços nesse campo têm sido verificados naquelas organizações que realizam esforços no sentido de incorporar metodologias voltadas para favorecer a participação de agricultores(as) na condução dos seus projetos institucionais. No entanto, de forma geral, esses esforços correm o risco de se limitar aos aspectos meramente formais da participação, ao se restringirem à introdução de técnicas de animação e dinâmicas de grupos que, embora tenham a virtude de facilitar o diálogo entre técnicos(as) e agricultores(as), não chegam a pôr em xeque as tradicionais relações de poder estabelecidas entre os(as) primeiros(as) e os(as) últimos(as).

Seja pela maior autonomia e flexibilidade institucional, pelo trabalho estreitamente vinculado ao cotidiano das comunidades rurais ou mesmo pela adoção já em suas origens de uma perspectiva crítica no que respeita ao modelo hegemônico de desenvolvimento, são as organizações da sociedade civil que têm apresentado os maiores avanços nesse campo. Como resultado de quase três décadas de experimentação metodológica, as ONGs e organizações locais da agricultura familiar integradas ao movimento agroecológico vêm promovendo inovações importantes no que se refere a abordagens metodológicas para a construção do conhecimento agroecológico

O refinamento das percepções sobre as principais evoluções em curso é uma condição fundamental para que sejam mais bem definidos os desafios que permanecem para o aprimoramento dos enfoques metodológicos atualmente empregados e os caminhos para superá-los.

Construção do Conhecimento Agroecológico11

Sem lugar a dúvida, o movimento agroecológico brasileiro é herdeiro, direta ou indiretamente, do movimento das comunidades eclesiais de base (CEBs), organizado a partir da década de 1970, durante o momento de excepcionalidade política que representou a ditadura militar. Ao reprimir os movimentos e organizações populares contestadores do status quo no mundo rural, o regime militar obrigou os produtores familiares a encontrarem novos canais de participação cívica e ação política, como a Igreja Católica e algumas igrejas de confissão protestante, instituições de grande capilaridade no meio rural que escapavam aos controles repressivos exercidos pelo Estado.

A implantação das CEBs em todo o país criou ambientes comunitários em que as famílias agricultoras redescobriram a Igreja não apenas como espaço de expressão e de renovação da fé religiosa, mas também de reflexão crítica e sistemática sobre os obstáculos sociais, políticos e econômicos impostos pelos rumos das dinâmicas de transformação no campo que se processavam à época. Esse exercício de vivência e reflexão coletiva se deu por intermédio do método ver-julgar-agir, um enfoque dialético que prima por vincular as práticas concretas da vida cotidiana com a leitura crítica do evangelho.

Três dos princípios de ação das CEBs podem ser identificados atualmente em práticas metodológicas de organizações do campo agroecológico. O primeiro refere-se ao fato de que as CEBs organizavam suas ações a partir das questões colocadas pelo cotidiano das famílias. Mesmo os mais abrangentes temas mobilizadores da reflexão e da ação comunitária eram interpretados à luz de suas manifestações concretas na vida material das comunidades. Essa ligação do geral com o particular, do macro com o micro, do genérico com o específico permitia que as dinâmicas sociais locais não se desvinculassem das dimensões mais amplas relacionadas à luta contra o modelo excludente de desenvolvimento.

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