Gestão Por Processos e Gestão do Conhecimento - O caso da Superintendência de Materiais de Itaipu Binacional - Andre Queiroz e Haralan Mucelini

Gestão Por Processos e Gestão do Conhecimento - O caso da Superintendência de...

(Parte 7 de 7)

A produção de novos conhecimentos envolve um processo que amplifica organizacionalmente, o conhecimento criado pelos indivíduos e cristaliza-o como parte da rede de conhecimentos da organização. O que impulsiona esse processo de amplificação do conhecimento é a interação contínua, dinâmica e simultânea entre o conhecimento tácito e o conhecimento explícito. Na terminologia da dialética, a síntese de A (tácito) e B (explícito) cria C (novo conhecimento). (NONAKA; TAKEUCHI, 2008. p. 24) a) Socialização: indivíduo para indivíduo. b) Externalização: indivíduo para grupo. c) Combinação: grupo para a organização. d) Internalização: organização para indivíduo.

2.3.6. O conceito de “ba” em Nonaka e Takeuchi

Os trabalhos de Nonaka e Takeuchi são fundamentam grande parte da literatura atual no que se refere à Gestão do Conhecimento. Os estudos dos autores concentram-se na criação

Figura 5 - Modelo SECI de Criação de Conhecimento Fonte: Nonaka e Takeuchi, (2008) de conhecimento organizacional a partir das interações entre conhecimentos tácitos e explícitos na organização. Conforme já mencionado neste trabalho, a conversão do conhecimento tácito para explícito é o pilar fundamental à criação e utilização do conhecimento nas organizações. Porém, de acordo com Nonaka e Takeuchi (2008, p. 9), “o conhecimento não pode ser criado no vácuo, e necessita de um lugar onde a informação receba significado através da interpretação para tornar-se conhecimento”. Advogam os autores que este “lugar” para criação de conhecimento foi objeto de estudo de vários filósofos. Platão o chamou de chora, Aristóteles de topos e Heidegger de Ort.

Em sua teoria, partindo dos estudos originais do filósofo japonês Kitaro Nishida,

Nonaka e Takeuchi (2008) introduzem o conceito de ba, que literalmente, significa “lugar”. Os autores definem ba como um “contexto compartilhado em movimento, no qual o conhecimento é partilhado, criado e utilizado.” Em outras palavras, o ba é o tempo e o espaço onde o conhecimento se origina e recebe significado.

Porém, o conceito de ba não deve ser entendido apenas como local físico, fundamental à sua compreensão é o entendimento das interações que ocorrem em um tempo e local específicos. Segundo os autores, o ba pode surgir em vários contextos:

O ba pode emergir em indivíduos, grupos de trabalho, equipes de projeto, círculos informais, encontros temporários, espaços virtuais, como os grupos de e-mail e no contato da linha de frente com o cliente. O ba é um local existencial onde os participantes partilham seus contextos e criam novos significados através das interações. (NONAKA; TAKEUCHI, 2008, p. 100)

Figura 6 - Representação Conceitual do ba Fonte: Nonaka e Takeuchi, (2008)

O ba também não está limitado ao contexto de uma única organização, mas pode ser criado nos limites das organizações, seja por uma joint venture, aliança ou nas relações interativas com os clientes, fornecedores e demais stakeholders da organização.

2.3.7. As cinco fases para criação do conhecimento

Nonaka e Takeuchi (2008) apresentam um modelo integrado de cinco fases do processo de criação do conhecimento organizacional, usando as fusões básicas desenvolvidas na estrutura teórica e incorporando a dimensão de tempo na teoria. O modelo, que deve ser interpretado como um exemplo ideal do processo consiste em cinco fases:

(1) Compartilhamento do conhecimento tácito: O processo organizacional inicia com o compartilhamento do conhecimento tácito, que corresponde grosseiramente à socialização, pois o conhecimento rico e inexplorado que reside nos indivíduos deve primeiramente ser amplificado na organização.

(2) Criação dos conceitos: Na segunda fase, o conhecimento tácito compartilhado, por exemplo, por uma equipe auto-organizada é convertido para conhecimento explícito na forma de um novo conceito, um processo semelhante à externalização.

Figura 7 - Ba em Relações Interativas da Empresa Fonte: Nonaka e Takeuchi, (2008)

(3) Justificação dos conceitos: O conceito criado tem de ser justificado na terceira fase, na qual a organização determina se o novo conceito vale a pena \

(4) Construção de um arquétipo: Recebendo a mensagem de continuidade, os conceitos são convertidos na quarta fase em um arquétipo, que pode tomar a forma de um protótipo no caso de desenvolvimento de produto “concreto”, ou em um mecanismo operacional, no caso de inovações “abstratas”, como um novo valor corporativo, um novo sistema administrativo ou uma estrutura organizacional inovadora.

(5) Nivelação do conhecimento: A última fase estende o conhecimento criado, por exemplo, em uma divisão para outros na divisão, por outras divisões, ou mesmo para constituintes externos.

3. MÉTODO DE PESQUISA

São descritas a seguir, as ferramentas e procedimentos metodológicos que fundamentam este trabalho.

3.1. CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA

O trabalho enquadra-se em uma pesquisa descritiva, de cunho qualitativo. Gil (2007) explica que às pesquisas descritivas têm como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno e uma de suas principais características mais significativas está na utilização de técnicas padronizadas de coleta de dados, tais como o questionário e a observação sistemática. Quanto ao seu delineamento, a pesquisa consiste um Estudo de Caso. Gil (1999, p.72) afirma que o estudo de caso “é caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo de um ou poucos objetos, de maneira a permitir o seu conhecimento amplo e detalhado”. E de acordo com Yin (apud GIL, 1999, p. 72) “o estudo de caso é um estudo empírico que investiga um fenômeno atual dentro do seu contexto de realidade”.

Ventura (2007) ensina que o estudo de caso tem origem nas pesquisas médicas e psicológicas que buscavam, a partir da análise detalhada de um caso individual, uma compreensão ou explicação sobre determinada patologia. Porém, diversos autores divergem a respeito da origem dos estudos de caso, alguns consideram os estudos na área jurídica como precursores do método e outros também levam em conta as pesquisas antropológicas como as primeiras a utilizar o estudo de caso. A despeito de sua origem, a suposição implícita a este tipo de delineamento de pesquisa é que o estudo detalhado de um único caso pode fornecer conhecimento a respeito de todo um fenômeno ou população.

Gil (2007) informa que os objetivos do estudo de caso não são os de proporcionar um entendimento preciso a respeito de um fenômeno ou população, mas sim o de oferecer uma compreensão global do problema ou identificar fatores que o influenciam ou são por ele influenciados. Porém, ainda que o objetivo do estudo de caso não seja abordar todos os fatores relativos ao fenômeno ou universo de pesquisa, ele deve ser feito com o objetivo de entender a relação do caso com o todo. Gil (2007) ainda acrescenta que há uma crescente utilização do estudo de caso no âmbito das ciências sociais para diferentes propósitos, a saber:

a) explorar situações da vida real cujos limites não estão claramente definidos; b) preservar o caráter unitário do objeto estudado; c) descrever a situação do contexto em que está sendo feita determinada investigação; d) formular hipóteses ou desenvolver teorias; e) explicar variáveis causais de determinado fenômeno em situações muito complexas que não possibilitam a utilização de levantamentos e experimento.

3.2. COLETA DE DADOS

Neste trabalho, foram coletados dados primários e secundários. Além de fornecer fundamento conceitual para a realização do trabalho, a coleta de dados desta pesquisa possui dois objetivos: (1) Mapear os processos objeto da pesquisa; (2) Identificar os conhecimentos relevantes dos processos para fundamentar as sugestões de melhorias. Para a coleta dos dados primários, foram utilizadas variadas ferramentas denominadas “Técnicas Para Aquisição de Conhecimento”, detalhadas nas seções seguintes. Os dados secundários foram obtidos por meio de pesquisa documental e da pesquisa bibliográfica.

A pesquisa documental é uma técnica de pesquisa que compreende o levantamento de documentos que ainda não foram utilizados como base de uma pesquisa. Gil (2006) afirma que a pesquisa documental vale-se de materiais que não receberam um tratamento analítico ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetivos da pesquisa. Os documentos necessários a esta técnica de pesquisa podem ser encontrados em organizações diversas, como por exemplo, associações, igrejas, partidos políticos, sindicatos e etc. No caso em estudo, a pesquisa documental utilizou-se de manuais, normas e instruções de procedimentos da empresa e de mapeamentos de processo realizados anteriormente.

A pesquisa bibliográfica procura o desenvolvimento do conhecimento científico, utilizando como pressuposto básico o conhecimento já produzido por outros pesquisadores e disponível publicamente. Esta modalidade de pesquisa é desenvolvida a partir de fontes secundárias, ou seja, com base em materiais já elaborados, constituídos principalmente por livros e artigos científicos. A pesquisa bibliográfica, assim como todas as demais técnicas de pesquisa desenvolve-se ao longo de muitas etapas e depende de vários fatores, tais como a natureza do problema, o nível de conhecimento que o pesquisador tem sobre o assunto, o grau de precisão que se pretende conferir com a pesquisa e etc.

3.2.1. Técnicas para Aquisição de Conhecimento

Aquisição do conhecimento (AC) é uma atividade da Engenharia do Conhecimento.

Seu objetivo fundamental é obter conhecimento detalhado utilizado pelo especialista para solucionar problemas, e então transformar e transferir esta informação para um programa de computador (http://w.din.uem.br/~ia/conhecimento, acesso em 17/10/2010). Thiel (2002) afirma que adquirir o conhecimento é básico para qualquer dos métodos de Gestão do Conhecimento. Fundamentando-se em várias fontes, a autora ensina o seguinte:

Adquirir o conhecimento de um especialista envolve obter informação dos especialistas e/ou fontes de documentação; classificar essa informação de forma declarativa ou procedural; codificar essa informação num formato utilizado pelo sistema e validar a consistência do conhecimento codificado com o conhecimento existente no sistema. (THIEL, 2002, p. 56).

A literatura da área de Gestão do Conhecimento apresenta diversas técnicas e ferramentas passíveis de aplicação. Neste trabalho, optou-se por utilizar as técnicas de aquisição do conhecimento apresentadas no “Modelo de Implantação de um Projeto de Gestão do Conhecimento em Organizações Empresariais” desenvolvido em dissertação de mestrado por Thiel (2002) e aplicado na própria Itaipu Binacional. Além de propor estratégias para aquisição de conhecimento, a autora apresenta ferramentas para identificação de conhecimentos críticos, bem como, para socialização de tais conhecimentos. A figura 1 apresenta a descrição gráfica do modelo em questão.

Conforme observado na Figura 1, a Fase 2 do modelo consiste na aquisição de conhecimento por meio do mapeamento de processos. Polanyi apud Terra (1999, p. 62) ao discorrer sobre conhecimento tácito, afirma que “nós podemos saber mais do que podemos dizer”, Thiel (2002, p. 71) acrescenta que normalmente a organização possui a capacidade para fazer as coisas e o conhecimento para isto existe de forma implícita, porém não se sabe exatamente como isto é realizado. Neste ponto, a autora situa o mapeamento de processos como ferramenta fundamental a transformação de conhecimento tácito em conhecimento explícito.

A partir da modelagem de processos, transforma-se conhecimento tácito em explícito [...]. Quando se modela os processos, o “como” aparece de forma mais clara, explícita. Desta forma, o conhecimento pode ser melhor transmitido, facilitando sua inclusão na otimização dos processos. (THEIL, 2002, p. 71).

Para Scheer apud Thiel (1999), o conhecimento dos próprios processos é uma parte importante do conhecimento da organização, pois a modelagem do processo pode transformar o conhecimento tácito em explícito. Seguindo esta perspectiva a autora apresenta as etapas que compõem a Fase 2 do Modelo acima referido.

Figura 8- Representação do Modelo de Projeto de Gestão do Conhecimento em Organizações Empresariais. Fonte: Thiel, (2002, p. 80)

A efetiva aquisição do conhecimento ocorre na interação entre os engenheiros do conhecimento e os especialistas dos processos. Sendo assim, as técnicas de aquisição do conhecimento apresentadas nesta seção, serão operacionalizadas por meio de métodos para externalização do conhecimento dos especialistas. Os métodos a serem utilizados serão a entrevista e o método de conversação cujas características e particularidades estão detalhadas no APÊNDICE A. A Fase 2, modelagem de processos para aquisição de conhecimentos também está disponível no APÊNDICE B apresentada através da metodologia IDEF 0.

Apresentadas as características gerais da fase de aquisição do conhecimento presentes no modelo adotado, passaremos a descrever cada etapa apresentada na Figura 2 com a devida menção às adaptações conceituais e técnicas que se fizeram necessárias em decorrência do presente trabalho.

3.1.2. Identificação de Processos – Etapa 2.1

De acordo com Thiel (2002), nesta etapa a identificação dos processos deve ser feita inicialmente pelo gerente da área onde o projeto está sendo executado. Após a identificação inicial, os processos devem ser classificados em processos reguladores, processos principais e processos de suporte, sendo os principais, os únicos que atendem a missão da empresa.

Figura 9 - Fase 2 modelagem de processos e aquisição de conhecimento Fonte: Thiel, (2002, p. 87)

(Parte 7 de 7)

Comentários