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A congestão de mucosas ocorre devido a um ingurgitamento de vasos sanguíneos, por processo infeccioso ou inflamatório, local ou sistémico (congestão pulmonar, conjuntivite, estomatite). É de grande valia como indicador do estado circulatório do animal. A hiperemia pode ser, ainda, difusa ou ramiforme. É difusa quando a tonalidade avermelhada é uniforme (intoxicação) e ramiforme quando se nota os vasos mais salientes, com maior volume sanguíneo (dispnéias).

A cianose é uma coloração azulada da pele e das mucosas, causada pelo aumento da quantidade absoluta de hemoglobina reduzida no sangue. A coloração azulada das mucosas, portanto, indica um distúrbio da hematose (troca gasosa que ocorre nos alvéolos) e que depende mais dos pulmões que do coração, porém, este órgão poderá levar à cianose caso não consiga proporcionar ao organismo circulação sanguínea adequada, quer seja por problemas cardíacos ou vasculares. Mas não se deve esquecer de averiguar se o animal apresenta ou não anemia, a qual tornará as trocas gasosas e o transporte de oxigénio deficiente, tornando-o hipercapnéico (com excesso de dióxido de carbono) ou, ainda, de se avaliar se o animal está desidratado ou em choque, o que levará a uma menor pressão sanguínea, acarretando uma diminuição da perfusão tecidual e acúmulo de dióxido de carbono nos tecidos periféricos, dentre os quais, os das mucosas passíveis de serem inspecionadas clinicamente. Ou seja, muitas são as causas de cianose, algumas de origem circulatória, outras por processos respiratórios ou sistémicos. Por isso, deve-se sempre realizar um completo exame clínico, não apenas examinar os sistemas que, a princípio, julga-se estarem primariamente envolvidos no processo patológico em questão. Porém vale uma ressalva: para que a alteração na coloração da mucosa seja percebida, o quadro patológico do animal deverá estar bastante avançado, caso contrário, pouca ou nenhuma alteração será observada - como em casos de cianose. Geralmente a cianose não é observada em pacientes com hemorragia, haja vista que há, também, perda de hemoglobina.

A icterícia é o resultado da retenção de bilirrubina nos tecidos, e ocorre devido ao aumento da bilirrubina sérica acima dos níveis de referência. É sabido que outras substâncias podem determinar coloração amarelada semelhante, como o fornecimento de uma alimentação rica em caroteno. Entretanto, nesse caso, não cora a mucosa e a determinação da bilirrubina sérica esclarece o diagnóstico. Deve-se lembrar que a icterícia é uma alteração clínica que aparece com frequência não só nas doenças hepáticas e do sistema biliar, mas também em afecções hemolíticas. Contudo, constitui um achado importante, pois dificilmente uma doença hepática grave apresenta-se sem icterícia, ainda que transitória (Fig. 4.10).

Cerca de 80% da bilirrubina produzida origina-se da degradação da hemoglobina a partir da remoção dos eritrócitos da circulação e os 20%

Exame Físico Geral ou de Rotina 87

Anemia hemolítica - anaplasmose

- babesiose - hemobartonelose

Bl> BD / ÍVG

Hepática i r

Hepatite - bacteriana

- virai - tóxica

' 1 t ALT, AST*/ t BD, CGT, FA**

Obstrução do fluxo biliar - colangite (fasciolose, fotossensibilização) - abscesso

- neoplasia

* Alteração inicial ** Alteração final

Figura 4.12 - Tipos de icterícia e suas consequências.

restantes são originados na medula pela eritropoiese. Uma vez na circulação, a maior parte da bilirrubina liga-se à albumina, soltando-se da mesma no sinusóide hepático, sendo transportada até o retículo endoplasmático liso, onde é conjugada ao ácido glicurônico, transformada em bilirrubina direta, também denominada de conjugada. Esta é eliminada pela bile, vai ao intesti- no e, no íleo e no cólon, é transformada em urobilinogênio. A maior parte do urobilinogênio formada é eliminada pelas fezes e o restante retorna para a circulação sistémica, sendo grande parte eliminada pelos rins. Uma parte do urobilinogênio fecal volta ao fígado pela circulação ênterohepática. Em caso de icterícia resultante da hiper- bilirrubinemia pela forma conjugada ou direta (hidrossolúvel), os tecidos mais facilmente impregnados são os tecidos superficiais, pela maior afinidade desta com áreas de alta concentração de fibras elásticas, como a conjuntiva bulbar. Já a forma não conjugada apresenta maior afinidade por tecido adiposo, pois, por ser lipossolúvel, penetra mais facilmente. As mucosas oral e bulbar costumam ser os primeiros locais em que se detecta icterícia. Da mesma forma, a coloração é mais intensa em casos de icterícia obstrutiva e hepatocelular que na icterícia hemolítica. A icterícia pode ser causada por:

• Doenças hemolíticas (aumento da produção por hemólise): quando o fígado não tem con dições de excretar e/ou conjugar toda a bilir rubina formada (babesiose).

• Lesões hepáticas (infecções bacterianas: lep- tospirose; substâncias hepatotóxicas: afla- toxina, fenol "creolina").

• Obstrução dos duetos biliares, quando a bi lirrubina, ao invés de ser excretada pela bile, atinge a circulação sistémica.

É prática comum a utilização de termos "hipocorada" e "hipercorada" para caracterizar a coloração das mucosas, não devendo, no entanto, serem adotados, pois se trata de denominações imprecisas, já que se poderia considerar as colorações pálida e cianótica (Fig. 4.13) como hipocoradas c as colorações hiperêmica e ictérica como hipcrcoradas, sendo a sua origem e o seu significado clínico, totalmente distintos. A leitura de uma ficha de exame clínico com tal denominação pode, passado algum tempo, causar

8 Semiologia Veterinária: A Arte do Diagnóstico

Figura 4.13 - Mucosa bucal cianótica, com formação de halos endotoxêmicos marginando os dentes em um equino com peritonite séptica difusa.

dúvidas com relação ao seu verdadeiro significado. É interessante que se observe, além da coloração, a presença de petéquias e de hemorragias equimóticas na esclera ou nas mucosas oral, nasal ou vaginal, indicativas de anormalidades na hemostasia (Tabela 4.5).

Quando presentes nas respectivas mucosas, devemos, inicialmente, verificar se são uni ou bilaterais, sua quantidade e aspecto. Os corrimentos, segundo as características macroscópicas, são classificados ernr

Fluido. Líquido, aquoso, pouco viscoso e transparente (corrimento nasal normal em bovinos).

Seroso. Mais denso que o fluido, mas ainda transparente (processos virais, alérgicos e precede a secreção de infecções ou inflamações). - — Catarral. Mais viscoso, mais pegajoso, esbranquiçado.

- Purulento. Mais denso e com coloração variável (amarelo-esbranquiçado, amarelo-esverdeado). É, na verdade, um produto de necrose em um exsudato rico em neutrófílos, indicando, por exemplo, a ocorrência de processos infecciosos, corpos estranhos).

Sanguinolento. Vermclho-vivo ou enegrecido.

Pode resultar de traumas, distúrbios hemorrágicos sistémicos, processos patológicos agressivos, etc.

Tabela 4.5 - Alterações de coloração das mucosas com seus principais significados e causas

Principais causas

Ecto e endoparasitose Hemorragias/Choque hipovolêmico

Aplasia medular Insuficiência renal Falência circulatória periférica

Inflamação e/ou infecção local Septicemia/Bacteremia

Febre

Congestão pulmonar Endocardite Pericardite traumática

Anafilaxia Obstrução das vias respiratórias Edema pulmonar

Insuficiência cardíaca congestiva Pneumopatias Exposição ao frio

Estase biliar (obstrução) Anemia hemolítica imune

Isoeritrólise neonatal Anemia hemolítica microangiopática - Babesiose

- Anaplasmose

- Hemobartonelose Hepatite tóxica e/ou infecciosa

Significado Anemia

Denominação Pálida

Coloração Esbranquiçada

Congesta ou Hiperêmica

T Permeabilidade vascular

Avermelhada

Azulada Transtorno na hematose

Cianótica

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