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A consistência dos linfonodos nem sempre é fácil de ser descrita. Normalmente, apresentam uma consistência firme, ou seja, são moderadamente compressíveis, cedendo à pressão, e voltando à forma inicial uma vez cessada a pressão. Nos processos inflamatórios e infecciosos agudos a consistência não se altera, mas podemos denotar o aumento de volume e de sensibilidade. Nos processos inflamatórios e infecciosos crónicos e neoplásicos, os linfonodos ficam duros.

A presença de flutuação, com ou sem supuração, faz com que o linfonodo adquira uma consistência mole, representando, geralmente, o estágio final das infecções. Demonstra a formação de uma área liquefeita com pus ou material seroso no seu interior. Ocorre, na maioria das vezes, quando o linfonodo é sede de um abscesso, ou em casos de metástases de desenvolvimento rápido (adenite equina).

Mobilidade

Os linfonodos normalmente apresentam boa mobilidade; cies são móveis tanto cm relação à pele quanto às estruturas vizinhas quando palpados. A perda ou a ausência de mobilidade é um achado comum nos processos inflamatórios bacterianos agudos, devido ao desenvolvimento de celulite localizada, que os fixa nos tecidos vizinhos.

Temperatura

Os linfonodos normalmente apresentam uma temperatura igual à da pele que os recobre. A elevação da temperatura é acompanhada, na grande maioria das vezes, de dor à palpação.

Deve-se determinar se o comprometimento dos gânglios é localizado, isto é, apenas um determinado conjunto de linfonodos apresenta sinais de anormalidade ou se o mesmo é generalizado. Um aumento unilateral indica que há um comprometimento unilateral da área de drenagem de determinado linfonodo. O aumento generalizado dos linfonodos é associado a doenças sistémicas agudas ou a determinadas condições neoplásicas. A diferenciação pode ser feita por citologia.

Procedimentos Complementares

Biópsia dos Linfonodos

Existem várias técnicas de biópsia e, no caso dos linfonodos, podemos utilizar a biópsia por ex-

Figura 4.18 - Punção de biópsia aspirativa do linfonodo poplíteo em cão com suspeita de leishmaniose visceral.

94 Semiologia Veterinária: A Arte do Diagnóstico cisão ou por aspiração. Na biópsia por excisão, fazse a remoção cirúrgica de uma parte ou de todo o linfonodo para futuro exame histopatológico. Na biópsia por aspiração (Fig. 4.18), faz-se punção com uma agulha apropriada e, após ser acoplada em uma seringa, aspira-se o material proveniente do linfonodo, ejetando-o sobre uma lâmina de vidro para posterior exame. A biópsia é empregada nas linfoadenopatias localizadas e generalizadas, de etiologia desconhecida, e em suspeitas de metástases tumorais. Antes da realização da biópsia, devese, em ambas as técnicas, fazer tricotomia e assepsia do local sobre o nódulo linfático.

O estudo da variação térmica (termometria) é de fundamental importância para se avaliar o estado geral do paciente e nunca deve ser desprezado pelo veterinário, pois apresenta algumas características desejáveis:

1. Pouco invasivo.

2. Baixo risco de dano à saúde do animal. 3. Rápida obtenção do resultado.

4. Baixíssimo custo financeiro.

As espécies domésticas (mamíferos e aves) são classificadas como homeotermas, ou seja, são capazes de, em condições de perfeita saúde, manter a temperatura corporal dentro de certos limites, independente da variação da temperatura ambiente. Por esse motivo, são chamados de "animais de sangue quente". Já nos répteis, anfíbios e peixes, os mecanismos de ajuste da temperatura são rudimentares e, por isso, essas espécies são chamadas "animais de sangue frio", ou pecilotérmicos, tendo em vista que a temperatura interna desses animais apresenta uma grande variação, já que está à mercê da variação ambiental.

A temperatura corporal dos animais é determinada pelo balanço entre o ganho de calor e sua respectiva perda, pelo equilíbrio entre dois mecanismos distintos chamados de termogênese (mecanismo químico que aumenta a produção de calor) e termólise (mecanismo físico que incrementa a perda de calor). A principal fonte de calor é derivada de processos metabólicos oxidativos, ou seja, por meio de reações nas quais o oxigénio, utilizando como substrato os carboidratos, lipídios e os aminoácidos, determina a queima destes, com consequente produção de calor. Quando o animal está em repouso, os principais órgãos geradores de calor são o fígado e o coração, mas durante o exercício, os músculos esqueléticos constituem o maior local de calor, contribuindo com cerca de 80% do calor total produzido.

A manutenção da temperatura corporal normal depende do centro termorregulador, que alguns denominam de "termostato", localizado no hipotálamo, o qual é sensível tanto às variações da temperatura corporal interna como da superfície cutânea. Existem receptores térmicos, nas vísceras e na pele, que informam ao centro termorregulador hipotalâmico as respectivas variações existentes. O termostato atua tanto na produção de calor quanto na perda do mesmo. Assim, quando a temperatura ambiente diminui há, além de um incremento do metabolismo para a produção de calor, vasoconstricção periférica e piloereção, para evitar a perda de calor nos membros periféricos, bem como diminuição da frequência respiratória. Em situação inversa, quando a temperatura ambiente se eleva, observa-se vasodilatação periférica e aumento relativo da frequência respiratória, propiciando maior dissipação de calor.

O exame de um paciente febril deve ser completo, com especial atenção para os órgãos que indicam a localização da doença. Deve-se, para esse fim, levar em consideração, principalmente, a idade e a espécie animal. O exame físico deve ser minucioso, principalmente naqueles pacientes que apresentam sintomas inespecíficos (perda parcial de apetite, apatia) e/ou com episódios febris prolongados. Como foi descrito anteriormente, a maioria dos processos febris nas espécies domésticas é causada por doenças infecciosas, que são diagnosticadas com relativa facilidade através da obtenção e avaliação cuidadosa da história clínica, juntamente com o exame físico do paciente. É importante, no momento da obtenção da anamnese, estar atento à duração e periodicidade do processo febril (se remitente ou intermitente, por exemplo); quando começou e, caso possível, as variações observadas; a hora do dia em que aparece; se houve contato com animais doentes; se fez uso de vacinas ou outros produtos

Exame Físico Geral ou de Rotina 95 medicamentosos, entre outros. Em relação ao exame físico geral, é de grande destaque a avaliação dos linfonodos na tentativa de determinar o órgão ou a região comprometida, principalmente nos casos de febre de origem indefinida.

A temperatura dos animais domésticos pode ser obtida tanto por palpação externa como, também, pela utilização dos chamados termómetros clínicos. No passado, a temperatura era avaliada colocando-se a mão em algumas partes do corpo, como o nariz, orelhas, ou, então, introduzindo-se os dois dedos na boca do enfermo, o que expunha o clínico a alguns riscos. O termómetro foi concebido por Santorio no século XVI, mas foi Gabriel Fahrenheit, em 1717, quem fabricou o primeiro termómetro de mercúrio. O termómetro permaneceu um instrumento desajeitado e volumoso até os aperfeiçoamentos introduzidos por Aitkin, em 1852, e Thomas Allbutt que, em 1870, desenvolveu o termómetro clínico tal como se conhece hoje em dia. Mais recentemente, inventou-se os termómetros digitais, já amplamente utilizados na rotina clínica. Apesar dos imensos avanços tecnológicos ocorridos nas últimas décadas, a leitura desse simples instrumento ainda traz subsídios importantes para o diagnóstico. Devese ter em mente que a temperatura corporal é um dado importante a mais dentro do contexto do exame clínico, não devendo ser avaliado em se- parado e nem encarado como um diagnóstico ou mesmo uma doença.

O exame manual da temperatura externa deve ser executado aplicando-se o dorso das mãos sobre diferentes áreas da superfície corporal do animal, dando especial atenção à região abdominal e às extremidades. O dorso da mão é mais sensível a variações térmicas que a palma da mão. Através desse procedimento, pode-se ter ideia da temperatura cutânea do animal e uma estimativa de sua temperatura interna. A palpação da região abdominal é importante para a constatação de hipertermia, enquanto a palpação das extremidades do animal é mais adequada para a constatação de hipotermia. Além desse tipo de avaliação ser subjetivo, alguns fatores podem prejudicar o correto julgamento da temperatura real do animal, tais como:

• Temperatura da mão do examinador: em dias muito frios, a mão do examinador poderá, também, estar muito fria e, assim, o animal parecerá estar mais quente que a realidade.

• Temperatura da pele do animal: a temperatura cutânea, ao contrário da temperatura central, aumenta e diminui, de acordo com a tempe ratura ambiente. Assim, se o animal em exa me está ou ficou muito tempo sob a ação dos raios solares, em horários quentes, sua pele certamente estará com a temperatura bem mais elevada que a real. Por isso, é importante que a aferição da temperatura interna dos animais domésticos seja feita obedecendo alguns pre ceitos, pela utilização dos termómetros clíni cos (Fig. 4.16).

Figura 4.19-Aferição da temperatura retal em um equino: não esquecer de abaixar a cauda. Figura 4.20 - Termómetro clínico de mercúrio.

96 Semiologia Veterinária: A Arte do Diagnóstico

É necessário que alguns procedimentos sejam obedecidos para que se tenha uma aferição adequada da temperatura retal:

• Deve-se realizar a contenção adequada do ani mal. É necessária maior atenção para animais inquietos e hostis, já que os termómetros de mercúrio podem se quebrar dentro da muco sa retal durante um movimento abrupto ou uma tentativa de defesa.

• Verificar se a coluna de mercúrio está em seu nível inferior, antes da introdução do termómetro. Caso contrário, deve-se baixá- la. Os termómetros clínicos de mercúrio (Fig. 4.20) são caracterizados como termómetros de máxima, pois possuem, pouco acima do bulbo, uma constricção na sua coluna que impede, a não ser propositadamente, o re torno do mercúrio ao bulbo. Hoje os ter mómetros de mercúrio estão pouco a pou co sendo substituídos pelos digitais, mais sensíveis à aferição, porém, de maior cus to. Os termómetros digitais, quando intro duzidos adequadamente no reto, conseguem indicar, em poucos segundos, por meio de um aviso sonoro, quando a temperatura atingiu o seu ponto máximo. Uma outra van tagem é que não apresentam risco de quebrarem dentro do reto e causarem da nos à sua mucosa. No entanto, a preocupa ção que se tem com a utilização dos termó metros digitais é que alguns, por serem muito flexíveis em sua extremidade, impe dem, eventualmente, um adequado conta- to entre o bulbo e a mucosa retal, mesmo quando corretamente desviados em senti do lateral, o que leva à obtenção de uma temperatura irreal. O termómetro, quando não estiver sendo utilizado, deve, de pre ferência, ser conservado em solução anti-sép- tica (álcool absoluto ou álcool iodado) e lim po, antes de se iniciar a medição. Guarde- o em ambiente fresco, pois, se mantido em temperatura ambiental elevada, o bulbo se romperá, eliminando o mercúrio e conta minando, subsequentemente, o local de exame.

• Antes da introdução do termómetro, lubrifi ca-se a extremidade (bulbo) com vaselina ou similar (óleo mineral, pomadas hidratantes), principalmente, quando a aferição vai ser rea lizada em pequenos animais. Deve-se intro- duzir um terço do termómetro, sendo realizada, de preferência, através de movimentos giratórios no esfíncter anal, deslocando-o depois, lateralmente, para que o mesmo se mantenha em contato com a mucosa retal, caso contrário, o termómetro ficará contido dentro da massa fecal, o que elevará a temperatura, devido à intensa atividade bacteriana. Se .houver um movimento peristáltico expulsivo, deve-se aguardar um pouco após a defecação ter sido finalizada para nova aferição. O tempo para a medição varia entre um e dois minutos. Para melhor segurança, execute duas medições no mesmo animal e, quando houver dúvida na temperatura obtida, verifique a temperatura de outros animais do mesmo porte que se apresentem clinicamente normais, para uma melhor comparação.

• É importante lembrar que a temperatura interna pode ser aferida em várias regiões do corpo. A temperatura retal é a mais realizada, mas se o animal apresentar um tumor ou uma inflamação no reto (proctite), por exemplo, a vulva pode ser o local preferencial. Em machos, o prepúcio é uma outra opção para se aferir a temperatura. No entanto, deve-se lembrar que em ambos os locais os valores serão inferiores àqueles obtidos no reto.

As temperaturas das espécies assim relacionadas são válidas apenas para animais cm repouso e mantidos em ambientes com boa ventilação, temperatura e umidade moderadas (verificar valores no início desse capítulo, em parâmetros vitais). Como regra geral, quanto menor a espécie animal, maior será sua temperatura em função da variação da taxa metabólica. Fêmeas gestantes também apresentam temperaturas maiores que os animais não prenhes.

Características de um Bom Termómetro Sensibilidade. Os de mercúrio apresentam coluna capilar delgada o que, algumas vezes, dificulta a leitura. Os termómetros digitais são mais sensíveis.

Precisão. Determinar a temperatura real com pequena margem de erro.

Rapidez. Atingir a temperatura real em pouco tempo (máximo de 2 minutos). Os termómetros digitais determinam a temperatura em menor tempo.

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Causas de Erro

Os principais erros de aferição da temperatura corporal observados na rotina veterinária são causados por:

L Defecação e enema recente. 2. Introdução poam profunda do termómetro no reto. ; . Pouco contato do bulbo com a parede do reto ou contato da mão do examinador com o bulbo. 4. Penetração de ar no reto (quando se deixa a cauda erguida, por exemplo). 5. Processo inflamatório retal (proctitc). 6. Tempo de permanência inadequado do termó metro no reto.

Glossário Semiológico Enema (clister). Administração de líquidos pelo i. para fim terapêutico ou diagnóstico.

Fatores Fisiológicos versus Temperatura Corporal

Variação nictemeral(circadiana). Durante 24 horas, observa-se, em todos os animais domésticos, variações de temperatura corporal que são denominadas de variações nictemerais (do grego nix: noite; himeral: dia). Verifica-se, em animais que se apresentam ativos durante o dia, que a temperatura interna decresce a partir da noite até o amanhecer, atingindo, pela manhã, a temperatura mínima, e alcançando o seu valor máximo à tarde. Os animais que são ativos durante a noite apresentam uma variação de temperatura inversa. A diferença entre as temperaturas matinais e vespertinas pode variar entre 0,5 e 1,5°G.

Ingestão de alimentos. Em virtude do aumento do metabolismo basal dos indivíduos (maior atividade das glândulas digestivas) e dos movimentos mastigatórios, a temperatura pode encontrarse cerca de l a 9 décimos acima do normal após a ingestão de alimentos.

Ingestão de água fria. Sc ingerida em grandes quantidades, promove uma redução que varia de .25 até 1°G. Pode ser observada com mais frequência em equinos.

Idade. Quanto mais jovem o animal, mais elevada c a sua temperatura interna, em virtude do centro termoregulador não estar completamente desenvolvido e pelo elevado metabolismo que esses animais apresentam.

Sexo. Fêmeas no cio e em gestação apresentam uma temperatura mais elevada.

Gestação. No terço final da gestação, pode ocorrer diminuição de até 0,5°C nas 24 a 48 horas antecedentes ao parto, acompanhada, posteriormente, de uma discreta elevação da temperatura durante a parturição, em virtude das contrações musculares e uterina.

Estado nutrícional. Animais desnutridos tendem a apresentar uma temperatura discretamente menor em virtude da diminuição do metabolismo basal. E normalmente observada em animais neonatos (particularmente cordeiros), privados da ingestão de colostro ou leite, nascidos em épocas frias.

Tosquia. Em virtude da irritação, determina um aumento da temperatura em até dois graus, que tende a cair ainda no primeiro dia.

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