controle quimico de doenças

controle quimico de doenças

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CONTROLE QUÍMICO DE DOENÇAS DE PLANTAS Prof. Sami J. Michereff

1. INTRODUÇÃO

O controle químico de doenças de plantas é, em muitos casos, a única medida eficiente e economicamente viável de garantir as altas produtividade e qualidade de produção. Variedades de plantas cultivadas, interessantes pelo bom desempenho agronômico e pela preferência dos consumidores, geralmente aliam uma certa vulnerabilidade a agentes fitopatogênicos. A exploração comercial de culturas como as de uvas finas, morango, maçã, tomate e batata, por exemplo, seria impossível sem o emprego de fungicidas em locais ou épocas sujeitas à incidência de doenças. Assim, a convivência com patógenos já presentes em determinadas áreas torna-se um ônus obrigatório dentro da agricultura moderna.

O controle químico de doenças de plantas é praticado com maior intensidade nos países economicamente mais desenvolvidos, onde a agricultura é tecnologicamente mais avançada, com aplicação de mais insumos e previsão de melhores colheitas. A escalada no emprego de pesticidas, inclusive fungicidas, a partir da segunda guerra mundial, foi proporcionalmente acompanhada pelo interesse público na quantidade e qualidade desses insumos agrícolas.

2. GRUPOS DE PRODUTOS UTILIZADOS E PRINCÍPIOS DE CONTROLE ENVOLVIDOS

O controle químico de doenças de plantas é feito através de vários tipos de produtos, comumente denominados agroquímicos, incluindo fertilizantes e pesticidas. Fertilizantes, quando utilizados no controle de doenças fisiogênicas (aquelas devidas a desequilíbrios nutricionais), como deficiência de boro em crucíferas ou podridão estilar do tomateiro, atuam pelo princípio da regulação; quando utilizados no controle de doenças infecciosas, podem envolver o princípio da regulação, como no caso da diminuição do pH para o controle da sarna da batata. Também pode-se citar a ação erradicante da uréia aplicada a 5% em pomar de macieira, no início da queda natural das folhas, após a colheita, visando sua rápida degradação e conseqüente diminuição na formação de peritécios e liberação de ascosporos de Venturia inaequalis, agente da sarna, no início da primavera. Apesar da importância de fertilizantes no controle de algumas doenças, eles geralmente não desempenham papel decisivo para a maioria das doenças infecciosas.

Os pesticidas utilizados no controle de doenças incluem: inseticidas e acaricidas, para controlar insetos e ácaros vetores de patógenos; fungicidas, bactericidas e nematicidas, para controle dos fungos, bactérias e nematóides fitopatogênicos; e herbicidas, para controlar plantas hospedeiras alternativas de patógenos que afetam culturas específicas.

O emprego de pesticidas no controle de doenças envolve, pelo menos, um princípio de controle. Inseticidas e acaricidas atuam predominantemente pelo princípio da exclusão, prevenindo a disseminação dos patógenos, geralmente vírus, pela eliminação ou diminuição dos vetores; herbicidas atuam pela erradicação do patógeno junto com o hospedeiro, diminuindo a sobrevivência e a probabilidade de disseminação. Os inseticidas, acaricidas e herbicidas, não tendo ação direta sobre os agentes infecciosos mais importantes (fungos, bactérias, vírus e nematóides), não são muito utilizados no controle de doenças.

O grupo mais importante de pesticidas utilizados para o controle de doenças de plantas é o dos fungicidas, que abrange alguns dos bactericidas e alguns dos nematicidas mais usuais. Os nematicidas mais comuns são biocidas, com alto poder erradicante, devendo ser aplicados no solo antes do plantio. Fungicidas e bactericidas constituem um grupo com propriedades químicas e biológicas muito variáveis, podendo envolver vários princípios de controle em função da natureza do produto, da época e metodologia de aplicação e do estádio de desenvolvimento epidemiológico da doença. Por exemplo, um biocida, como o brometo de metila, só pode ser aplicado de modo erradicante e num ambiente sem o hospedeiro; só fungicidas sistêmicos têm potencial curativo; fungicidas protetores podem atuar também de maneira erradicante e sistêmicos atuam também protegendo, erradicando e imunizando.

3. CARACTERÍSTICAS DE UM BOM FUNGICIDA

Geralmente aplicadas aos protetores de folhagem.

• Fungitoxidade: deve ser tóxico ao patógeno em pequenas concentrações.

• Especificidade: alguns fungicidas são específicos, outros são gerais ou de amplo espectro.

• Deposição e distribuição: deve depositar e distribuir uniformemente na superfície da folhagem, solubilizando-se lentamente.

• Aderência e cobertura: deve aderir a superfície da folhagem e cobri-la para uma perfeita proteção. Quando as folhas possuem pêlos ou cera que repelem a água, deve-se usar um espalhante adesivo.

• Tenacidade: ser resistente às intempéries, como chuvas, ventos, radiação solar, etc.

• Não deve ser fitotóxico: ser tóxico apenas ao fungo e não à planta.

• Não deve ser tóxico ao homem e animais;

• Compatibilidade: ser compatível com outros fungicidas, inseticidas ou herbicidas, para maior economicidade nas aplicações.

• Economicidade: baixo custo ou custo que compense a sua aplicação.

4. TERMOS USADOS EM CONTROLE QUÍMICO

• Princípio ativo (p.a.): composição química (molécula) do componente do fungicida com atividade tóxica.

• Tolerância de resíduo (TR): quantidade, em ppm, de resíduo do fungicida permitida no produto vegetal comercializado.

• Poder residual (PR): espaço de tempo, em dias, em que os resíduos do fungicida são tóxicos ao patógeno.

• Período de carência (PC): espaço de tempo, em dias, entre a última aplicação do fungicida e a colheita, para que não ocorram níveis de resíduos acima dos tolerados para comercialização do produto vegetal.

• DL50: quantidade de produto químico, em mg/kg de peso vivo do animal, que causa 50% de mortalidade na população. Quanto menor a

DL50 , mais tóxico é o produto.

5. CLASSIFICAÇÃO TOXICOLÓGICA DOS FUNGICIDAS

Baseado nas características toxicológicas, os fungicidas são distribuídos nas seguintes classes:

• Classe I - Extremamente tóxico → rótulo vermelho

• Classe I - Altamente tóxico → rótulo amarelo

• Classe I - Medianamente tóxico → rótulo azul

• Classe IV - Pouco tóxico → rótulo verde

6. CLASSIFICAÇÃO CRONOLÓGICA DOS FUNGICIDAS

Essa classificação constitui uma tentativa de agrupar os fungicidas compatibilizando a ordem cronológica do seu aparecimento com o grupo a que pertence. Nesse sentido, os fungicidas podem ser classificados como de:

• 1ª Geração

Constituída de fungicidas inorgânicos protetores e alguns com ação erradicante. Quanto à natureza química, destacam-se os fungicidas à base de enxofre e cobre, amplamente utilizados na agricultura. Os fungicidas à base de mercúrio, inorgânicos ou orgânicos, utilizados em larga escala nas primeiras décadas do século X, e hoje proibidos, fazem parte dessa geração.

• 2ª Geração

Constituída de fungicidas protetores orgânicos introduzidos no controle de doenças de plantas a partir da década de 1940. Constitui o conjunto de fungicidas atualmente mais utilizado no controle de doenças de plantas, possuindo largo espectro de ação. Os principais grupos de fungicidas dessa geração são: ditiocarbamatos, nitrogenados heterocíclicos, dinitrofenóis, fenóis halogenados, nitro-benzeno halogenados, compostos diazo, nitrilas, guanidinas, orgânicos a base de enxofre, derivados de antraquinona e acetamida.

• 3ª Geração

Constituída de fungicidas sistêmicos, sendo iniciada em 1964 com a publicação das propriedades sistêmicas do thiabendazole e de alguns antibióticos. Entretanto, o grande impulso no uso de fungicidas sistêmicos teve início com a descoberta do carboxin e do benomyl, no fim da década de 1960. Os fungicidas sistêmicos pertencem a uma classe de produtos diferentes dos existentes nas gerações anteriores, pois são muito específicos no modo de ação e tóxicos a baixas concentrações. Os principais grupos de fungicidas dessa geração são: carboxamidas, benzimidazóis, dicarboximidas, inibidores da biossíntese de esteróis, inibidores de oomicetos, inibidores da biossíntese de melanina, fosforados orgânicos e antibióticos.

7. CLASSIFICAÇÃO DOS FUNGICIDAS BASEADA NO MODO DE APLICAÇÃO

Baseando-se no princípio em que se fundamenta caracteristicamente a sua aplicação, os fungicidas podem ser: erradicantes ou de contato, protetores ou residuais e curativos ou terapêuticos.

7.1. FUNGICIDAS ERRADICANTES OU DE CONTATO

Os fungicidas erradicantes são aqueles que atuam diretamente sobre o patógeno, na fonte de inóculo. Há três casos em que fungicidas podem ter ação erradicante eficiente: no tratamento de solo, no tratamento de sementes e no tratamento de inverno de plantas de clima temperado que entram em repouso vegetativo. A eficiência erradicante é diretamente proporcional à capacidade de redução do inóculo.

Os produtos tipicamente erradicantes são os fumigantes do solo, produtos voláteis, altamente tóxicos para todas as formas de vida e, por isso, denominados biocidas. São utilizados no controle de insetos, fungos, nematóides e plantas daninhas. Como são voláteis, logo após sua aplicação necessitam cobertura superficial impermeabilizante (geralmente filme plástico), para aumentar a exposição dos patógenos. Os produtos mais representativos do grupo são: formol, brometo de metila, cloropicrina, dazomet e metam sodium. Além de extremamente tóxicos, o que aumenta o perigo de manuseio e elimina o equilíbrio biológico, são muito caros e recomendados somente em situações potencialmente rentáveis, como canteiros de semeadura de plantas de grande valo.

Produtos não fumigantes, seletivos, tipicamente erradicantes do solo, são raros. Podese citar, como exemplos, o quintozene e o etridiazol. Por isso, quando se quer uma ação erradicante mais específica, geralmente utilizamse produtos tipicamente protetores e mesmo sistêmicos, com a vantagem de ser um tratamento menos drástico que os biocidas. Assim, os fungicidas protetores mancozeb e captan e os sistêmicos dicarboximidas podem ser indicados no controle de Rhizoctonia solani, agente de damping-off em canteiros de várias hortaliças; o fungicida sistêmico metalaxyl, na erradicação de fungos do gênero Pythium e Phytophthora, agentes de damping-off e podridões radiculares em muitas espécies vegetais.

No tratamento erradicante de sementes são utilizados, geralmente, produtos não-sistêrnicos protetores e sistêmicos com ação erradicante, podendo-se citar como mais comuns: thiram e captan, entre os nâo-sistêmicos; benomyl e thiabendazole, entre os sistêmicos. Raramente utiliza-se produtos tipicamente erradicantes, como no caso do deslintamento das sementes de algodão com ácido sulfúrico, que elimina os numerosos fungos presentes no linter.

No tratamento erradicante de inverno das plantas de clima temperado, o único fungicida tipicamente do grupo, a calda sulfo-cálcica, preparada caseiramente pela fervura prolongada de enxofre e cal, é constituída por uma mistura de polissulfetos e tiossulfato de cálcio, tendo ação contra fungos, musgos, liquens, ácaros e cochonilhas. Devido a seu trabalhoso preparo, tem sido pouco utilizada. Um fungicida protetor que pode substitui-la no tratamento de inverno da videira é a calda bordalesa, na concentração 0,2:0,1:100 (sulfato de cobre:cal:água).

7.1.1. Principais Fungicidas Erradicantes

• Brometo de metila: fumigante, altamente tóxico. Para desinfestação do solo, o produto comumente usado é uma mistura de 98% de brometo de metila e 2% de cloropicrina; este composto é lacrimogêneo, servindo para alertar contra possíveis vazamentos e prevenir contra envenenamento pelo brometo, que é um gás incolor. O produto gasoso vem comprimido em latas na forma de aerossol, sendo aplicado sob uma cobertura plástica, a qual só é retirada 24 a 48 horas após a aplicação. Há necessidade de um período mínimo de 7 dias de aeração antes do plantio.

• Dazomet: fumigante do solo, eficiente contra fungos, nematóides, insetos e plantas daninhas. Indicado exclusivamente para tratamento do solo. É aplicado com o adubo ou em suspensão aquosa, por meio de irrigação por aspersão. Após a aplicação, o solo deve ser muito bem irrigado para permitir sua penetração até uma profundidade de 15 cm. Sendo muito fitotóxico, o solo tratado deve ser mantido em repouso por pelo menos 14 a 21 dias, antes do plantio.

• Metam sodium: fumigante para esterilização parcial do solo, tendo ação nematicida, fungicida, inseticida e herbicida. Estável em solução concentrada, solubiliza facilmente em água e decompõe no solo, formando isotiocianato metílico, o seu princípio ativo volátil. A dosagem recomendada é de 120 mL do produto a 31% por m2, em solos arenosos, e de 150 a 240 mL, em solos argilosos. Após a aplicação, o solo deve ser encharcado para forçar a penetração do fungicida a uma profundidade de 10 a 15 cm. O produto é muito fitotóxico e exige um intervalo de 14 a 21 dias entre a aplicação e o plantio. Deve ser manuseado com cuidado por ser irritante às mucosas e à conjuntiva.

• Quintozene (Pentacloronitrobenzeno): tem sido utilizado no controle de fungos fitopatogênicos, normalmente veiculados pelo solo, que formam esclerócios: Rhizoctonza, Sclerotium, Sclerotinia, Macrophomina e Botrytis. A aplicação é feita, geralmente, no sulco de plantio, durante a semeadura, acoplando-se, para isso, um implemento que fornece continuamente a quantidade adequada do produto. Gasta-se mais ou menos 300 a 600 g do produto a 75% por kg de semente de amendoim ou de algodão. Também pode-se tratar todo o solo, usualmente canteiros, gastando-se 2 litros da calda por m2, obtida pela dissolução de 300 a 750 g do produto a 75% em 100 litros de água. O quintozene apresenta longa persistência no solo, uma vez que é estável e praticamente insolúvel em água, com baixa volatilidade. Algumas culturas, como as de cucurbitáceas e tomateiro são muito sensíveis, podendo sofrer danos quando plantadas em solos tratados.

7.2. FUNGICIDAS PROTETORES OU RESIDUAIS

Produtos químicos protetores ou residuais são aplicados nas partes suscetíveis do hospedeiro e formam uma camada superficial protetora antes da deposição do inóculo. Fungicidas não-sistêmicos aplicados em folhagens, ramos novos, flores e frutos, ferimentos dos ramos podados e em sementes são tipicamente desse grupo.

Para o bom desempenho da ação protetora, quando aplicado na parte aérea das plantas, o composto químico, precisa ter uma série de características, além da fungitoxicidade inerente: deve ser quimicamente reativo, mas não deve se decompor facilmente pela ação das intempéries; deve ser capaz de reagir num meio aquoso, mas sem hidrolisar sobre o hospedeiro, nem lixiviar pelo primeiro banho de chuva; deve ser capaz de se espalhar por toda a superfície a ser protegida, mas sem formar uma camada tão fina que comprometa sua eficiência; deve ser capaz de redistribuição durante as chuvas, cobrindo as áreas não cobertas pelos depósitos iniciais, mas sem escorrer excessivamente com a água de pulverização; deve ser suficientemente molhável para formar suspensão na água de pulverização, mas não tão molhável a ponto de os depósitos serem levados pela chuva.

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