doenca desconhecida saude publica

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A nova Inspetoria também objetivava levar à população informações que possibilitassem a prevenção da doença, para tanto, previa-se a montagem de uma campanha de educação. A medida tinha como focos principais a conscientização sobre a possibilidade de cura dos casos de câncer precocemente diagnosticados e adequadamente tratados, o esclarecimento sobre o perigo de formas alternativas de cura – charlatanismo – e a eliminação dos fatores que a medicina da época imputava como causas predisponentes e manifestações pré-cancerosas. Em relação ao charlatanismo, é importante ressaltar que a ação da saúde pública não visava somente a curandeiros e outros não iniciados nas ciências médicas.

Pelo contrário, ela se voltava também para os médicos e farmacêuticos que faziam uso de tratamentos e fórmulas não validados pela medicina do período. No que concerne à eliminação de causas predisponentes da doença, a saúde pública trabalhava com a concepção de que irritações continuadas – principalmente as cutâneas – poderiam levar à formação de tumores cancerosos, e nesse sentido, era imperioso evitá-las. A propaganda deveria ser feita por meio de folhetos, cartazes, conferências, palestras, filmes e exposições educativas. As enfermeiras visitadoras também deveriam levar as informações sobre a doença às famílias sob seus cuidados.

Um outro aspecto inovador da legislação sobre o câncer criada com o DNSP dizia respeito à possibilidade de o Governo elaborar acordos com associações ou estabelecimentos privados, com fim de fundar-se um insti- tuto de câncer, no qual deveriam ser elaboradas pesquisas experimentais e oferecido tratamento gratuito aos necessitados. Esse instrumento certamente foi inspirado no processo de expansão do Instituto de Radiun de Paris e sua transformação em Fundação Curie. Criado ainda durante a Primeira Guerra para abrigar as pesquisas de Marie Curie sobre radioterapia, o instituto recebeu um aporte financeiro do médico Henri de Rothschild, em 1920, que lhe possibilitou construir um dispensário no qual foram iniciados tratamentos unindo cirurgia e radioterapia. Associando essas atividades à pesquisa biomédica sobre o câncer, a Fundação Curie acabou se transformando numa instituição modelar para novas iniciativas em diversas partes do mundo.

Apesar do esforço dos sanitaristas em trazer o problema do câncer para a órbita da saúde pública, sua ação

Organograma do Departamento Nacional de Saúde Pública, 1923

não logrou obter resultados imediatos, ficando a Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas com uma ação bastante limitada em relação ao câncer. Seu relatório referente ao ano de 1927 informava que a única medida com relação ao câncer que a saúde pública havia conseguido pôr em prática havia sido a ampliação de quesitos nos atestados de óbitos pela doença, com o objetivo de obtenção de dados mais confiáveis para as estatísticas (Sanglard, 2005).

Com o objetivo de reverter esse quadro, ainda em 1927, o DNSP enviaria o médico Sergio Lima Barros de Azevedo à França e à Alemanha para estudar as medidas que estavam sendo tomadas nesses países contra a doença. O relatório apresentado por ele quando de sua chegada ressaltava a importância atribuída à educação sanitária nesses países. Também enaltecia o sistema francês que tinha como base o funcionamento de centros regionais de tratamento espalhados por todo aquele país, circundados por uma rede de proteção social filantrópica. A partir das informações obtidas, Azevedo propunha algumas medidas a serem tomadas em nosso País. A principal delas seria a ampliação das estatísticas sobre a doença, favorecendo uma ação mais adequada da saúde pública. Para tanto, propunha a notificação compulsória da doença e a criação de uma rede de laboratórios de saúde pública apta a proceder aos exames de biópsia e soro-reação de casos suspeitos. Outro aspecto que seu relatório valorizava dizia respeito à capacitação do médico para a elaboração de um diagnóstico inicial qualificado. A seu ver, essa capacitação deveria ser adquirida por meio de publicações especiais dirigidas aos médicos, conferências ministradas nas sociedades médicas e cursos especiais sobre o tema oferecidos nas faculdades médicas. Por fim, Azevedo propunha que seguíssemos a orientação francesa no estabelecimento de uma rede de controle da doença. Essa deveria ter como base a criação de centros regionais de tratamento dotados de uma parte hospitalar e ambulatorial e outra voltada para os estudos laboratoriais sobre a doença. A esses centros deveria somar-se um serviço social voltado para o acolhimento dos doentes (Azevedo, 1927).

Apesar de grande parte dos médicos do período comungarem com as propostas de Azevedo, a saúde pública brasileira na época não tinha uma estrutura capaz de suportar uma organização tão complexa e custosa. Assim, o DNSP, por toda a sua existência, se limitou a pôr em prática iniciativas voltadas para a divulgação de conhecimento sobre a doença como forma de evitá-la ou tratá-la precocemente e medidas de refinamento de sua notificação. Embora o câncer fosse visto pela classe médica como um problema de grande importância, os níveis de sua incidência e o valor simbólico a ele atribuído não se comparavam aos de outras doenças como a malária, a tuberculose e a sífilis, vistas como empecilhos ao desenvolvimento do País e marca de seu atraso. Assim, mesmo considerado relevante, o controle do câncer, por muito tempo, ficou relegado a um plano inferior, em que somente medidas de baixo custo e pouco alcance seriam tomadas.

O Instituto do Radium de Belo Horizonte

Nossa primeira instituição unicamente voltada para as pesquisas radiológicas e o tratamento do câncer surgiu em 1922, em Belo Horizonte. Sua criação deve-se ao médico Eduardo Borges da Costa, na época diretor da Faculdade de Medicina de Minas Gerais. Borges da Costa formou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e elaborou sua tese de doutoramento nos laboratórios do Instituto Oswaldo Cruz, no qual se aproximou da medicina experimental. Posteriormente transferiu-se para Belo Horizonte, onde ingressou na equipe de cirurgiões da Santa Casa de Misericórdia. Com a criação da faculdade em 1911, foi chamado para a cadeira de clínica cirúrgica. Em 1918, quando da entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial, incorporou-se ao grupo da faculdade que se apresentou como voluntário. Ao fim do conflito, Borges da Costa voltou triunfante a Belo Horizonte, recebendo diversas homenagens por sua iniciativa patriótica.

Impressionado com a atmosfera de cruzada contra a doença existente na Europa, ele se dedicou à missão de

34 O INCA E O CONTROLE DO CÂNCER NO BRASIL

Entrada prédio onde funcionou o Instituto de Radium de Belo Horizonte, hoje Hospital Borges da Costa da UFMG criar na capital mineira um instituto unicamente voltado para as pesquisas e o tratamento do câncer, nos moldes do Instituto de Radiun de Paris. Aproveitando a popularidade auferida por sua participação no conflito europeu e o interesse pela doença também existente no País, ele conseguiu obter apoio dos Governos federal e estadual para a construção do instituto e compra do rádio – que naquele momento custava uma verdadeira fortuna.

O Instituto foi erguido em um terreno doado pela prefeitura, próximo à Faculdade de Medicina. Instalado num belo prédio de estilo neoclássico, especialmente construído para abrigá-lo, foi inaugurado em 7 de setembro de 1922, durante os festejos de comemoração do cen- tenário da independência. Tinha como objetivo oficial o estudo do rádio e demais substâncias radioativas; as aplicações terapêuticas do rádio e dos raios X; e estudos, pesquisas e tratamento do câncer, pré-canceres e doenças afins (Salles, 1966:63). Em suas dependências, contava com um serviço de roentgenterapia, inicialmente chefiado por Jacyntho Campos, e de curieterapia, chefiado por Mário Penna. Na parte administrativa, o Instituto contava com total autonomia frente à Faculdade de Medicina.

Segundo as histórias contadas pelos veteranos médicos da Faculdade de Medicina de Minas Gerais, o surgimento do Instituto deveu-se em muito a boa relação do Brasil com a Bélgica na época. Dois anos antes da fundação do Instituto, o rei Alberto I tinha vindo ao Brasil e visitado Belo Horizonte com o então presidente Arthur Bernardes. Como resultado dessa visita, no ano seguinte seria fundada a companhia Belgo Mineira para a produção de ferro a partir das jazidas de minério da região. Os interesses belgas logo se voltaram para outros campos. Como eles mantinham o monopólio da produção do rádio, elaborado a partir do minério extraído das jazidas existentes no então Congo Belga, tinham grande interesse em financiar a criação de institutos que fizessem uso do produto, que naquele momento era comercializado por quantias exorbitantes. Por isso, teriam feito um lobby junto às autoridades do Estado e dado apoio financeiro à criação do Instituto do Rádio de Belo Horizonte1.

Um importante momento da história do Instituto do Rádio de Belo Horizonte foi a visita de Marie Curie e sua filha Irene à instituição, em agosto de 1926. As duas foram conhecer o Instituto e proferir conferências sobre a radioatividade e suas aplicações na Medicina. Até hoje as paredes da Faculdade de Medicina envergam placas comemorativas a essas visitas.

O Instituto funcionou regularmente por muitos anos. Em 1950, com a morte de Borges da Costa ele recebeu o seu nome e, em 1967, foi integrado à Faculdade de Medicina da UFMG. Nesse período já estava em decadência e, dez anos mais tarde, foi desativado em virtude das péssimas condições de sua edificação. Em 2001, a UFMG pôs em marcha uma grande reforma de suas instalações, reinaugurando-o em 2003. Hoje, o Hospital Borges da Costa faz parte do complexo do Hospital das Clínicas da UFMG, funcionando como centro voltado para a oncologia adulta e pediátrica, para a quimioterapia e cirurgia ambulatorial e atende a um grande número de pessoas, principalmente crianças de várias regiões do estado, que vêem a Belo Horizonte buscar tratamento para a doença.

1 Informações provenientes de depoimento informal prestado pelo Dr. João Amilcar Salgado, em 1/09/2007.

Marie Curie em visita ao Instituto do Radium de Belo Horizonte em 1926

Assinatura de Marie Curie e de sua filha Irene no livro de visitas do Instituto do Radium de Belo Horizonte

As primeiras instituições filantrópicas voltadas para o câncer

Transformado em preocupação do campo médico a partir do início do século X e em objeto de atuação da saúde pública no alvorecer da década de 1920, o câncer passaria também a ser alvo das atenções dos grupos socais que neste período se voltavam para a ação filantrópica. Num contexto de valorização da saúde como redenção do País, setores de nossa elite econômica, sob a influência dos ideais do campo médico, passam a apoiar iniciativas em relação ao câncer como forma de suplementar a atuação estatal.

Por muito tempo a ação da filantropia no Brasil esteve voltada prioritariamente ao campo hospitalar, tendo como principais instituições as Santas Casas de Misericórdias e outras irmandades e ordens terceiras li- gadas à Igreja católica. A partir do final do século XIX, essa atuação se modificaria, deixando de se circunscrever à prática religiosa e de assistência aos necessitados. O desenvolvimento da pesquisa médica experimental e seus promissores resultados no controle de diversas doenças atraíram o interesse da elite econômica que se voltava para a filantropia, as novas possibilidades de ação relacionadas ao financiamento a instituições de pesquisa e ou de tratamento de enfermidades específicas.

A criação e manutenção de instituições médicoassistenciais e a organização de entidades civis voltadas à resolução de problemas sociais foram as grandes áreas de atuação da atividade filantrópica na primeira década do século X; e as ligas foram a expressão mais típica da ação filantrópica desse período. Bastante diferenciadas entre si, e congregando um grande número de partici-

Prédio do Hospital da Santa Casada Misericórdia de São Paulo onde funcionou o Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho pantes, elas se voltavam para os mais diversos problemas sociais, em que vislumbravam o poder de auxiliar o Estado ou defender causas de grupos específicos. São desse período a já observada liga pró-saneamento, as ligas nacionalistas, eugênicas e várias outras. No campo da saúde, essas instituições atuaram em relação a diversas doenças como a tuberculose, a sífilis, a lepra etc. Seu trabalho se voltou tanto à busca de fundos para a criação e manutenção de instituições de cuidados com os doentes, como para as ações de educação sanitária e propaganda.

O patrocínio à criação de institutos e hospitais foi outra forma de ação filantrópica no campo da saúde. Segundo a historiadora Gisele Sanglard (2005), a medicalização dos hospitais ocorrida no século XIX, ao gerar uma nova mentalidade médico-assistencial, fez com que essas instituições se tornassem um campo fértil para o investimento filantrópico laico. Até então, a medicina hospitalar sempre esteve nas mãos da filantropia religiosa, no entanto, o desenvolvimento das ciências médicas e o processo de expansão e centralização das ações de saúde sob a égide do Governo federal possibilitaram o encontro do capital industrial com a ciência e com a medicina hospitalar, a partir do surgimento de um novo discurso que via a regeneração do pobre como uma tarefa da medicina – e não da Igreja – organizada pelo Estado e assistida por seus novos mecenas.

Em relação ao câncer, a criação de um conjunto de instituições filantrópicas no campo da pesquisa e do tratamento se relacionou ao fato de esse modelo já ser a base do combate à doença em diversos países da Europa. Na França, por exemplo, a transformação do Instituto de Radiun, criado pelo Instituto Pasteur, que se tornou a Fundação Marie Curie, em 1920, se deveu à doação de uma grande soma pela família Rothschild, que possibilitou o desenvolvimento da vertente terapêutica da instituição que se juntou à pesquisa científica no campo da radioterapia. Com o final da Primeira Grande Guerra, a Liga Francesa Contra o Câncer patrocinaria a criação de centros e dispensários anticancerosos, por aquele país. No Brasil, observa-se o surgimento de iniciativas com o mesmo sentido. À medida que se ampliava o sucesso na utilização do rádio para tratamento da doença, surgiam novas iniciativas de instituições filantrópicas para a utilização dessa técnica.

São Paulo tomaria a primeira iniciativa nesse sentido. Ainda em 1920, Arnaldo Vieira de Carvalho fundador e primeiro diretor da Faculdade de Medicina de São Paulo, subiu à tribuna da Sociedade de Medicina e Cirurgia para sugerir a criação de um instituto de radioterapia na cidade.

“É espantoso o número, cada vez mais crescente, de casos de câncer. Impressionado pelos resultados que a cirurgia tem apresentado na cura desse mal, e ao mesmo tempo assombrado com o que a Europa nos manda dizer a propósito de seu tratamento por meio de radium, ocorreume de levantar aqui a idéia de tomarmos a iniciativa da fundação do instituto de radio de São Paulo” (Palma Guimarães, 190)

Arnaldo Vieira de Carvalho era o mais afamado médico da cidade, já havia participado de várias iniciativas filantrópicas, como a criação da Policlínica de São Paulo. Também havia presidido importantes associações como a Sociedade de Medicina e Cirurgia e a Sociedade Eugênica de São Paulo. Sua proposta foi prontamente aceita na Sociedade de Medicina, que nomeou uma comissão para levantar fundos para a nova instituição, integrada por ele próprio, Oswaldo Portugal e Raphael Penteado de Barros. O grupo não teve dificuldades em obter as primeiras doações, conseguindo em quatro meses auferir mais de quinhentos contos de reis. No entanto, a morte de Arnaldo, em 1920, adiaria a inauguração do Instituto. Embora constituído de direito em 1921, ele só começaria a funcionar em 1929, nas instalações do Hospital Central da Santa Casa da Misericórdia, sob a direção de Ovídio Pires de Campos.

Caracterizado como uma instituição filantrópica sem fins lucrativos, o Instituto do Câncer Dr. Arnaldo tinha como objetivos estatutários o diagnóstico, prevenção e tratamento do câncer. Prestava serviços gratuitos aos que não tinham condições de pagar por tratamentos particulares, e cobrava dos doentes com melhores condições econômicas. Durante muitos anos suas ativi- dades se realizaram nas enfermarias do Hospital Central da Santa Casa. Somente em 1934, a instituição conseguiu inaugurar suas instalações próprias, em terreno contíguo ao da Santa Casa. O Instituto contava com 20 leitos e era composto pelos serviços de rádio, radioterapia e eletroterapia, cirurgia geral e ginecologia, otorrinolaringologia, urologia e gastro-enterologia. Contava também com um laboratório de anatomia patológica e análises clínicas. O radiodiagnóstico e a cirurgia eram a alma da instituição, que desde a sua instalação recebia várias centenas de doentes anualmente, em busca de diagnóstico e tratamento. Esses ocupavam os leitos do Instituto somente quando em tratamento de tumores, sendo que os considerados incuráveis eram removidos pela própria Santa Casa para seu asilo de inválidos. O Instituto do Câncer Dr. Arnaldo contava com rendas próprias, provenientes do tratamento de doentes contribuintes, de donativos particulares e de auxílios dos poderes públicos estadual e federal. Em outubro de 1936, pelo Decreto Federal nº 1.146, a instituição foi considerada de utilidade pública (Portugal, 1936). Até hoje, o Instituto do Câncer Dr. Arnaldo continua funcionando regularmente como hospital voltado para o tratamento do câncer. Conta com mais de cinqüenta leitos, nos quais atende a doentes do SUS e de diversos convênios, um centro cirúrgico, laboratórios e o pronto atendimento para caso de emergência. Como diversas outras instituições do mesmo perfil, é membro da Associação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Combate ao Câncer (ABIFCC).

Muito antes da inauguração do Instituto Arnaldo

Vieira de Carvalho, outra iniciativa filantrópica no campo da cancerologia agitaria o campo médico. Ainda em 1922, uma proposta de criação de um hospital voltado ao tratamento do câncer, na então capital federal, moveria os médicos e a filantropia carioca. O projeto surgiu de entendimentos entre o diretor da Inspetoria da Lepra, Doenças Venéreas e Câncer do DNSP, Eduardo Rabello, com o industrial Guilherme Guinle, num processo que também congregou um seleto grupo de médicos empenhados em homenagear a memória de Oswaldo Cruz através da criação de uma obra grande vulto.

Em 25 de agosto de 1922, antigos colegas e discípulos de Oswaldo Cruz criaram oficialmente uma entidade jurídica denominada Fundação Oswaldo Cruz, com o objetivo de unir o nome “do grande saneador do Brasil” ao primeiro hospital de câncer no Distrito Federal. Como seu presidente de honra foi escolhido o industrial e grande benemérito Guilherme Guinle. Já contando com recursos auferidos numa grande campanha posta em marcha para construir um monumento em sua homenagem, o grupo reorientou o projeto em direção à construção de um hospital para estudos e tratamento do câncer. Apoiados pelo seu presidente de honra, que se propunha a financiar a construção e o aparelhamento da nova instituição, o grupo elaborou os planos para a construção do hospital (Sanglard, 2005).

O malogrado processo de construção do hospital foi analisado detalhadamente pela historiadora Gisele Sanglard (2005). Ela mostra que o motor que movia essas atividades era a convergência dos interesses de Guilherme Guinle em atuar em prol da saúde pública, com os objetivos do diretor da Inspetoria da Lepra, Doenças Venéreas e Câncer, Eduardo Rabello, de ter na iniciativa filantrópica o esteio necessário para pôr em prática sua proposta de controle das doenças de responsabilidade de sua inspetoria. A concepção de enfrentamento da doença de Eduardo Rabello, que aproximava a ação estatal da iniciativa filantrópica, já existia em relação a diversas doenças, e se reforçaria em relação ao câncer, a partir das décadas seguintes, com a criação de diversas ligas voltadas para a doença.

Em 1922, no já citado Congresso Nacional dos Práticos, Eduardo Rabello já apostava no Instituto do Câncer a ser criado em parceria com os Guinle. Em seu discurso afirmava: “Posso, entretanto, anunciar que também nesta parte vai ter seguimento o programa de luta contra o câncer estabelecido pelo Departamento de Saúde Pública, pois, mercê de generosa doação da família Guinle, que já fez a oferta à Fundação Oswaldo Cruz, vamos ter brevemente um Instituto de Câncer onde se trate não só da parte experimental como também da terapêutica, empregando-se neste último caso todas as ar- mas de que dispomos” (Rabelo, 1924 apud Kroeff, 1946, p. 2).

Ainda em 1922, Carlos Chagas, diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública, reafirmava a esperança na criação do Instituto no discurso de inauguração do primeiro instituto exclusivamente voltado para o tratamento do câncer, naquele tempo criado em Belo Horizonte. Em seu discurso informava “Eu vos posso anunciar, com alegria, meus ilustres amigos, que não será em vão o grande exemplo civilizador da vossa iniciativa. Do altruísmo de brasileiros ilustres, que bem entenderam cultivar em obras de ciência a memória abençoada de mortos queridos, espero e me fio, seguro de que também na Capital do pais teremos em breve organizados os trabalhos sobre o câncer, em moldes amplos, facultados pela generosidade de moços de fortuna e de sentimento” (Chagas, 1922).

Apesar da convergência de interesses entre a saúde pública e a filantropia, nesse momento representada por Guilherme Guinle, a parceria não logrou obter sucesso. Durante vários anos, o projeto caminhou a passos lentos, sendo que, em 1936, Guilherme Guinle, sem obter o apoio que imaginava do Governo federal, resolveu retirar seu auxílio à instituição, o que a tornou inviável. Ainda naquele ano, ela foi extinta, e o prédio iniciado doado à prefeitura do Distrito Federal, que, a seu modo, concluiu a edificação, instalando no local o Hospital Municipal Barata Ribeiro (Sanglard, 2005).

Projeto para o Hospital do Câncer, de autoria do arquiteto Porto D’ave

40 O INCA E O CONTROLE DO CÂNCER NO BRASIL

A chegada aos anos 1930

A transformação do câncer em problema de saúde pública nos anos 1920 foi o efeito e também a causa da intensificação do interesse médico pela doença. A questão principal era conhecer a sua incidência no País, ou melhor, mostrar que essa era muito maior do que mostravam as estatísticas existentes na época. O próprio Carlos Chagas, diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública, no discurso de inauguração do Instituto do Radium de Belo Horizonte, em 1922, questionava: “Qual a freqüência do câncer entre nós? Onde estão os dados de uma estatística aproximada, que nos habilitem a ajuizar da difusão do mal e apreciar suas conseqüências saciais? Sabemos apenas, e tanto basta para avivar a nossa previdência, que as afecções cancerosas fazem elevado número de vítimas em toda a vasta extensão do nosso território” (Chagas, 1922). Vários outros médicos alertavam para o problema da subnotificação e indicavam a constante ampliação dos casos de câncer no País. Sem contar com uma base estatística segura para suas afirmações, esses apóstolos da luta contra a doença tomavam como base suas observações clínicas e a observação da freqüência de doentes em diversos hospitais da cidade.

A valorização da doença pelo campo médico tinha como principais espaços institucionais a Academia Na-

Construindo uma política de controle do câncer para o país

Brasão da Academia Nacional de Medicina cional de Medicina, a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro e os Congressos Médicos. Seu melhor exemplo pode ser visto na proposta de Fernando de Magalhães apresentada ao Congresso Nacional dos Práticos, realizado pela classe médica, no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da independência (1922).

Nesse momento, Fernando Magalhães ocupava a presidência da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro e, por isso, era relator do tema no congresso. Seu projeto inspirava-se no modelo de organização de combate à doença existente na França e também foi apresentado em seção da Academia Nacional de Medicina. Bastante abrangente, o projeto se voltava para os diversos aspectos da prevenção e tratamento da doença que começavam a ser prática na Europa e, sob o título de “A luta contra o Câncer”, previa a criação de Institutos do Câncer, de caráter estatal, em vários pontos do País, voltados para a pesquisa científica sobre a doença; a criação de hospitais públicos exclusivos para cancerosos, estabelecendo-se por lei que a sua hospitalização se daria somente nesses estabelecimentos; a notificação compulsória dos casos de câncer e a utilização dos princípios de profilaxia geral em todos os locais em que surgissem casos da doença; a visita de enfermeiras da saúde pública aos cancerosos para orientá-los no seu tratamento e nas medidas de precaução de seus familiares; o aperfeiçoamento do ensino do câncer nas faculdades médicas; a divulgação de noções básicas da doença para a população; e a organização de reuniões médicas regulares em vários estados do Brasil, sob o patrocínio do Governo, para informação das estatísticas e conhecimento das observações e os conceitos clínicos sobre a doença (Magalhães, 1922). Os espaços institucionais ocupados por Fernando Magalhães já mostram a centralidade que seu pleito adquiria, além disso, a observação das revistas de medicina do período deixam claro que essas preocupações também estavam no horizonte de diversos outros atores de nossa elite médica.

A construção do câncer como problema médico de âmbito nacional, a partir dos anos 1920, se deu simultaneamente ao desenvolvimento de técnicas que ampliaram a capacidade da medicina frente à doença. No início dos anos 1920, a radioterapia começava a se mostrar uma importante aliada da medicina européia no tratamento dos cânceres epiteliais e ginecológicos. Esse processo ampliou o interesse dos médicos brasileiros na nova técnica, fazendo surgir institutos de radioterapia volta- dos para o tratamento de cânceres. Além disso, os gabinetes de diagnóstico radiológico passaram a atrair os médicos interessados em novas formas de tratamento do câncer. O Serviço de Radiologia da Faculdade de Medicina, criado em 1919, foi um deles; lá trabalhava o médico Antonio da Costa Junior, que começou utilizar o rádio com sucesso em casos de câncer de pele, escrevendo diversos artigos no Brasil Médico, enaltecendo a nova técnica (Carvalho, 2006). Dois anos depois, Firmino Doellinger da Graça – que há anos dirigia um serviço de diagnóstico radiológico na Beneficência Portuguesa, e tinha se especializado em radioterapia em instituições européias e americanas – criou e equipou um consultório particular para tratar os portadores de câncer. De maior amplitude foram o Instituto do Câncer de Belo Horizonte, fundado em 1922, e o Instituto do Câncer Dr. Arnaldo, inaugurado em 1929, já observados anteriormente.

Ao desenvolvimento da radiologia viria se juntar uma nova técnica cirúrgica que chegou ao Brasil, em meados dos anos 1920, pelas mãos do cirurgião Mario Kroeff. A eletrocirurgia ou diatermia era elaborada por

Brasão da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro

43 CONSTRUINDO UMA POLÍTICA DE CONTROLE DO CÂNCER PARA O PAÍS

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