Glossário de álcool e drogas

Glossário de álcool e drogas

(Parte 1 de 6)

Brasília 2006

Presidência da República

Gabinete de Segurança Institucional Secretaria Nacional Antidrogas

Brasília 2006

Presidência da República Gabinete de Segurança Institucional

Catalogação da Publicação feita pela Biblioteca da Presidência da República

Glossário de álcool e drogas / Tradução e notas: J. M. Bertolote. Brasília: Secretaria Nacional Antidrogas, 2006.

132 p.

1. droga – dicionário 2. Álcool - dicionário ���������

Sumário

Prefácio à edição brasileira

O consumo de substâncias que podem produzir alterações mentais acompanha a humanidade há milênios. Durante esse longo tempo, diferentes grupos de pessoas passaram a associar essas substâncias a contextos variados, incluindo festas e comemorações, rituais religiosos, tratamentos de doenças, etc. Além disso, várias dessas substâncias têm o potencial de induzir, em algumas pessoas, um padrão de consumo problemático e com perda de controle, denominado dependência. A dependência não acontece com todos os usuários, mas quando ocorre, pode ser entendida como uma doença. Interessantes essas substâncias, as drogas: algumas podem ser úteis no tratamento de doenças, mas elas próprias podem gerar doenças. Assim, podem ser muito diferentes os conceitos que uma pessoa tenha com relação a essas substâncias se ela for um profissional de saúde, tiver um familiar ou amigo com consumo problemático de substâncias, ou um jovem consumidor que observa várias pessoas de seu grupo experimentando substâncias sem aparentar maiores problemas.

Diante desse cenário, entende-se como muitas vezes é difícil que diferentes interessados no tema álcool e outras drogas consigam estabelecer um diálogo produtivo. Por exemplo, a própria palavra “droga” pode assumir significados diversos para pessoas diferentes: um medicamento, uma substância usada para diversão, um veneno, algo que “vicia”. Às vezes, ao denominarmos de “drogas” algumas substâncias que, do ponto de vista técnico, poderiam perfeitamente ser entendidas como tal, geramos discordância e até protestos. Mas não é de se estranhar que haja esse tipo de desentendimentos, se as pessoas usam a mesma palavra para significados tão diversos.

Para auxiliar numa maior clareza de conceitos e, portanto, facilitar a comunicação é que são importantes trabalhos como esse “Glossário de Álcool e Drogas”, elaborado por um grupo de pesquisadores internacionalmente reconhecidos por suas contribuições na área, com apoio da Organização Mundial de Saúde e dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, agora editado pela SENAD, com tradução para o português de José Manoel Bertolote.

O consumo de substâncias psicoativas é considerado uma questão de saúde pública extremamente relevante em praticamente todo o mundo. Nenhuma abordagem isoladamente tem qualquer chance de sucesso no manejo dessa situação. Dessa forma, é fundamental que gestores, pesquisadores, aqueles envolvidos em prevenção, tratamento, redução de danos, e outros interessados em temas relacionados a álcool, tabaco e outras drogas possam ter uma linguagem comum para que uma discussão frutífera possa realmente ocorrer. Assim, temos a possibilidade de avançar na busca de soluções mais efetivas para os problemas associados ao consumo de substâncias psicoativas.

Paulina do Carmo Arruda Vieira Duarte

Diretora de Prevenção e Tratamento Secretaria Nacional Antidrogas

Introdução

Este glossário visa fornecer um conjunto de definições de termos relativos ao álcool, ao tabaco e a outras drogas que será útil a clínicos, administradores, investigadores e outras pessoas interessadas neste tema. São fornecidas definições explicativas, amiúde incluindo efeitos psicoativos, sintomatologia, seqüelas e indicações terapêuticas para cada classe geral de drogas psicoativas e para algumas classes a elas relacionadas. São também definidas as principais categorias diagnósticas deste campo, bem como conceitos-chave de uso científico e popular.

O glossário não tem como objetivo a cobertura completa de todos os termos e expressões relativas ao álcool e às drogas. Entre os domínios que foram parcialmente excluídos figuram o da produção e comercialização de drogas (lícitas e ilícitas), as gírias e outras expressões derivadas do jargão de usuários, os nomes de certas drogas, e termos técnicos de algumas disciplinas científicas em particular. No geral, os termos médicos, psiquiátricos e de outras disciplinas sem uma aplicação específica às drogas foram excluídos, mas muitos deles podem ser encontrados numa publicação irmã desta, o Lexicon of psychiatric and mental health terms1. Em sua cobertura das modalidades terapêuticas, o glossário buscou antes definir o que não é evidente por si só, mais que tentou ser completo. Só foram incluídos termos de outros idiomas (que não o inglês) quando correntes na literatura pertinente de língua inglesa.

Como regra geral, a origem histórica dos termos não foi coberta pormenorizadamente, embora amiúde tenha-se indicado a situação atual de certos termos (preferido, desvalorizado, etc.) e sua relação com outros, mais antigos ou mais recentes. Todavia, indicouse a posição histórica de certos conceitos-chave, principalmente aqueles disseminados pelas publicações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

1 Lexicon of psychiatric and mental health terms, 2.ed. Geneva, World Health Oraganization, 1984. [Adaptação brasileira: Glossário de termos de psiquiatria e saúde mental da CID-10 e seus derivados. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997.]

Em linhas gerais, optou-se pela ordem alfabética de expressões ou frases segundo a forma mais provável de sua busca (ao invés de palavras isoladas), o que significa sua ordenação segundo um adjetivo ou um substantivo (mais relevante na expressão). Forneceram-se, sempre que pareceu útil, referências cruzadas com outros termos e expressões. Se, por acaso, um termo não for encontrado, recomendase que o leitor busque-o por outro componente de expressões em que possa figurar. Sobretudo, recomenda-se a consulta de verbetes cognatos, nos quais termos relacionados entre si são freqüentemente definidos, de maneira explícita ou implícita.

Sempre que pareceu adequado, incluíram-se os códigos das categorias diagnósticas da CID-102, em geral ao lado do verbete inicial, mas ocasionalmente no corpo do texto da definição. Os nomes das drogas seguem as recomendações da lista internacional de nomes genéricos (INN)3.

Usou-se o negrito em certas palavras ou frases constantes das definições para indicar que esses termos são também definidos alhures no glossário.

Thomas Babor

Robert Campbell Robin Room

John Saunders. Tabular list. Geneva, World Health Organization, 1992. [Versão em língua portuguesa: Classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde. 10a.

Revisão. (CID-10). Vol. 1. São Paulo, Editora da USP, 2000.] 2 International Classification of diseases and related health problems. Tenth revision. Vol.

3 International nonproprietary names (INN) for pharmaceutical substances. No. 8. Geneva,World Health Organization, 1992.

Agradecimentos

Normal Sartorius, Diretor da Divisão de Saúde Mental da

Organização Mundial (OMS) da Saúde por ocasião da preparação deste glossário, contribuiu com sugestões gerais e apoiou sua realização. As fases iniciais foram coordenadas por Marcus Grant, então membro do Programa de Abuso de Substâncias da OMS, e, posteriormente, pelo Dr. Aleksander Janca, da Divisão de Saúde Mental da OMS. Leland Towle, no Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo dos Estados Unidos da América (EUA) e Jack Blaine, do Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos EUA contribuíram como consultores do projeto. O trabalho foi financiado pelo Projeto Conjunto da OMS/Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (antigo ADAMHA) sobre Diagnóstico e Classificação de Transtornos Mentais e Problemas relacionados ao Álcool e às Drogas.

abstinência

A abstenção do uso de droga ou (particularmente) de bebidas alcoólicas, por questão de princípio ou por outras razões.

Quem pratica a abstinência de álcool é chamado de “abstêmio” ou “abstêmio total”. A expressão “atualmente abstinente”, freqüentemente empregada em inquéritos populacionais, geralmente define uma pessoa que não ingeriu bebidas alcoólicas nos últimos 12 meses; esta definição não coincide necessariamente com a descrição que o próprio indivíduo faz de si como um abstêmio.

O termo “abstinência” não deve ser confundido com “síndrome de abstinência”.4

Veja também: sobriedade; temperança.

abstinência condicionada

Uma síndrome com sinais e sintomas semelhantes à abstinência, ocasionalmente vivenciada por indivíduos dependentes de álcool ou opiáceos em abstinência, que são expostos a estímulos previamente associados com o uso de álcool ou outras drogas. De acordo com a teoria clássica do condicionamento, estímulos ambientais não condicionados, temporariamente associados a reações não condicionadas de abstinência tornam-se estímulos condicionados capazes de eliciar os mesmos sintomas de abstinência. Em outra versão da teoria do condicionamento, uma resposta inata compensatória aos efeitos de uma substância (tolerância aguda) torna-se condicionalmente relacionada aos estímulos associados ao uso da substância. Se os estímulos são apresentados sem a administração concreta da substância, a resposta condicionada é eliciada como uma reação compensatória do tipo da abstinência.

4 Deve-se, no entanto, diferenciar “abstêmio” (pessoa que não bebe ou não usa drogas) de “abstinente” (pessoa que presentemente não está bebendo, que não está usando drogas).

abstinência protraída

A ocorrência de sintomas da síndrome de abstinência, geralmente leves, mas desconfortáveis, por várias semanas ou meses após a síndrome de abstinência física aguda ter passado.

Esta é uma condição mal-definida descrita em dependentes do álcool, dependentes de sedativos, e dependentes de opióides. Os sintomas psíquicos, como ansiedade, agitação, irritabilidade e depressão, são mais proeminentes que os sintomas físicos. Os sintomas podem ser precipitados ou exacerbados pela visão do álcool ou da droga de dependência, ou pelo retorno ao ambiente previamente associado ao uso de álcool ou de outra droga.

Veja também: abstinência condicionada.

abuso (de drogas, de álcool, de substâncias, de produtos químicos ou de substâncias psicoativas)

Um grupo de termos muito utilizado embora com significados variáveis. Na 3a. edição revista do Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Psiquiátrica Norte-Americana (DSM-I-R), “abuso de substância psicoativa” é definido como “padrão desajustado de uso indicado pela continuação desse uso apesar do reconhecimento da existência de um problema social, ocupacional, psicológico ou físico, persistente ou recorrente, que é causado ou exacerbado pelo uso recorrente em situações nas quais ele é fisicamente arriscado”. Trata-se de uma categoria residual, ao qual é preferível o diagnóstico de dependência, quando for o caso. O termo “abuso” é algumas vezes utilizado de forma desaprovativa para designar qualquer tipo de uso, particularmente o de drogas ilícitas. Devido à sua ambigüidade, o termo não é usado na 10a. revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) (exceto no caso de substâncias que não produzem dependência; veja mais adiante); uso nocivo e uso arriscado são os termos equivalentes na terminologia da OMS, embora eles geralmente digam respeito apenas aos efeitos físicos e não às conseqüências sociais. O emprego de

“abuso” também é desestimulado pelo Escritório de Prevenção do Abuso de Substâncias dos EUA, embora expressões como “abuso de substâncias” sigam sendo amplamente utilizadas na América do Norte, para se referir, de modo geral, aos problemas do uso de substâncias psicoativas.

Em outros contextos, o abuso já indicou padrões de uso nãomédico ou não aprovado, independentemente das conseqüências. Assim, a definição publicada em l969 pela Comissão de Peritos da OMS em Dependência de Drogas foi “uso excessivo de droga, persistente ou esporádico, inconsistente ou sem relação com a prática médica aceitável” (veja uso indevido de álcool ou droga).

abuso de analgésicos Veja abuso de substâncias que não produzem dependência.

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