EXCURSÃO GEOGRÁFICA DIDÁTICA: INSTRUMENTO DE PRÁTICA E ENSINO EM GEOGRAFIA

EXCURSÃO GEOGRÁFICA DIDÁTICA: INSTRUMENTO DE PRÁTICA E ENSINO EM GEOGRAFIA

(Parte 1 de 3)

ANO 09 – n. 30Fevereiro 2011

ISSN 1677 – 8049 GEOGRAFIA

Adler Guilherme Viadana Agostinho Paula Brito Cavalcanti

Publicação de textos no formato de pré-impressão do Departamento de Geografia e História da Universidade Federal do Piauí – UFPI.

GEOGRAFIA Publicações Avulsas, ano 09, n. 30, p. 1-21 (fevereiro 2011)

Reitor da Universidade Federal do Piauí

Luiz de Sousa Santos Júnior

Diretor do Centro de Ciências Humanas e Letras

Pedro Vilarinho Castelo Branco

Chefe do Departamento de Geografia e História

Verônica Maria Pereira Ribeiro

Coordenador do Curso de Licenciatura em Geografia Manuel Nascimento

Expediente print version GEOGRAFIA Publicações Avulsas Ano 09 - n. 30 (fevereiro 2011)

Coordenador e Editor:

Prof. Agostinho Paula Brito Cavalcanti (MSc/DSc) agos@ufpi.br / agos@ufpi.edu,br

Endereço para correspondência:

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ Departamento de Geografia e História Campus da Ininga, s/n 64.049-550 - Teresina / Piauí Tel. (86) 3215-5778 / (86) 3215-5777

GEOGRAFIA/Universidade Federal do Piauí, Departamento de Geografia e História, Coordenação de Geografia, Ano 09, nº 30 (fevereiro 2011). Teresina: UFPI, 2011. 1. GEOGRAFIA Publicações Avulsas. I. Universidade Federal do Piauí - Coordenação de Geografia

ISSN 1677 – 8049 CDD 910

GEOGRAFIA Publicações Avulsas, ano 09, n. 30, p. 1-21 (fevereiro 2011)

Conselho Editorial:

Adler Guilherme Viadana (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Rio Claro) Agostinho Paula Brito Cavalcanti (Universidade Federal do Piauí - UFPI) Alcindo José de Sá (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE) Antônio Carlos de Barros Corrêa (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE) Antônio Cordeiro Feitosa (Universidade Federal do Maranhão - UFMA) Antonio Fábio Guimarães Vieira (Universidade Federal do Amazonas - UFAM) Carlos Alexandre Leão Bordalo (Universidade Federal do Pará - UFPA) Elisabeth Mary de Carvalho Baptista (Universidade Estadual do Piauí - UESPI) Edgar Aparecido da Costa (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul - UFMS/Corumbá) Enéas Rente Ferreira (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Rio Claro) Espedito Maia Lima (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB) Fadel David Antonio Tuma Filho (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Rio Claro) Giovanni de Farias Seabra (Universidade Federal da Paraíba - UFPB) Herbe Xavier (Pontifícia Universidade Católica - PUC/Minas) Josefa Eliane Santana de Siqueira Pinto (Universidade Federal de Sergipe - UFS) Joseli Maria Silva (Universidade Estadual de Ponta Grossa - UEPG) José Luís Lopes de Araújo (Universidade Federal do Piauí - UFPI) Liége de Sousa Moura (Universidade Estadual do Piauí - UESPI) Lucivânio Jatobá (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE) Maria Teresa de Alencar (Universidade Estadual do Piauí - UESPI) Norberto Olmiro Horn Filho (Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC) Paulo Roberto Teixeira de Godoy (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Rio Claro) Paulo Roberto Joia (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul - UFMS/Aquidauana) Ricardo Wagner Ad-Víncula Veado (Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC) Roberval Felippe Pereira de Lima (Universidade Federal do Rio Grande do Norte- UFRN/Caicó) Samuel do Carmo Lima (Universidade Federal de Uberlândia - UFU) Silvana Quintella Cavalcanti Calheiros (Universidade Federal de Alagoas - UFAL) Simone Cardoso Ribeiro (Universidade Regional do Cariri - URCA/Crato) Solange Terezinha de Lima Guimarães (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Rio Claro) Vanice Santiago Fragoso Selva (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE)

GEOGRAFIA Publicações Avulsas, ano 09, n. 30, p. 1-21 (fevereiro 2011)

Adler Guilherme Viadana* Agostinho Paula Brito Cavalcanti **

RESUMO O presente trabalho tem por objetivo uma abordagem metodológica sobre a excursão geográfica didática, tratando da prática pedagógica, dentro do planejamento do ensino e pelo contato com a realidade para a formação do profissional e professor de Geografia. Os procedimentos metodológicos seguiram uma seqüência de encaminhamentos assim constituída: pesquisa bibliográfica e observações de campo. Os resultados mostraram que a excursão geográfica didática é importante instrumento na formação de professores e acadêmicos, como meio para o desenvolvimento da percepção sobre o território, num contexto menos formal que a sala de aula. Nas conclusões foi enfatizada a importância da excursão geográfica como recurso didático, pois oferece potencialidades formativas que devem ser levadas em consideração no processo de ensino e aprendizagem e como prática pedagógica acessível e eficaz. Palavras-chaves: Geografia, Metodologia, Pesquisa.

ABSTRACT The present work has for objective a methodological approach on the didactic geographical trip, treating of the pedagogic practice, inside of the planning of the teaching and for the contact with the reality for the professional's formation and teacher of Geography. The methodological procedures followed a sequence of directions constituted like this: researches bibliographical and field observations. The results showed that the didactic geographical trip is important instrument in the teacher’s formation and academics, as middle for the development of the perception on the territory, in a context less formal than the classroom. In the conclusions the importance of the geographical trip was emphasized as didactic resource, because offers formative potentialities that they should be taken into account in the teaching process and learning and as accessible and effective pedagogic practice. Key-words: Geography, Methodology, Research.

* Professor Adjunto (Livre Docente) - Universidade Estadual Paulista (UNESP - Rio Claro) adlergv@rc.unesp.br

** Professor Associado (Pós Doutor) - Universidade Federal do Piauí (UFPI - Teresina/PI agos@ufpi.br

A excursão geográfica didática, denominação dada à atividade desenvolvida pelo pesquisador em Geografia que se desloca de seu gabinete de trabalho para a área ou local de seu interesse (objeto de estudo) como instrumento para prática e o ensino, visa à compreensão e explicação das diferentes organizações espaciais, com a finalidade de realizar observações e levantar informações.

Refere-se a um conjunto de atividades práticas orientadas para a busca de um determinado conhecimento, realizada de maneira sistemática através da realidade empírica e pela utilização de métodos próprios e técnicas específicas de pesquisa e que os resultados obtidos venham a ser apresentados de forma peculiar através de relatórios.

Procurando contribuir para seu revigoramento no âmbito da ciência geográfica em nosso país, os autores deste trabalho se propuseram a redigir este texto, que tem como objetivos evidenciar a importância da prática de campo através dos fundamentos históricos da excursão geográfica didática no Brasil; da excursão geográfica didática como instrumento de prática e ensino em Geografia e dos

GEOGRAFIA Publicações Avulsas, ano 09, n. 30, p. 1-21 (fevereiro 2011) pressupostos teóricos metodológicos da prática de campo.

A importância dessa prática para a construção do conhecimento geográfico, a partir da extração de informações na elaboração e execução das pesquisas, aliadas às técnicas necessárias para um desempenho satisfatório, devendo-se considerar um conjunto de processos, quando da aferição da verdade terrestre, é considerada de significativa relevância e viabilizada através do estudo da paisagem, relacionando os aspectos físicos e humanos do espaço.

Atualmente a excursão geográfica deve ser incentivada e valorizada, devido sua inestimável contribuição para a prática didática e pedagógica do ensino e da aprendizagem, utilizando-se a observação e experimentação para a coleta de dados e buscando um conhecimento verdadeiro e objetivo, através do contato direto com a realidade observada.

A ciência geográfica brasileira através de sua história contemporânea consolidase em termos teóricos, metodológicos e práticos na procura de um conhecimento e análise as diversas interfaces entre a natureza e a sociedade, havendo a necessidade de buscar e compreender as múltiplas realidades espaciais naturais e humanas não fragmentadas de nosso território, mas como uma totalidade em constante dinamismo.

Os trabalhos pioneiros dos naturalistas que passaram pelo Brasil principalmente ao longo do século XVIII, denotaram padrões inovadores de técnicas de investigação, com a realização das viagens de cunho eminentemente científico, onde as pesquisas tinham um nível de detalhamento bastante significativo, influenciando sobremaneira o desenvolvimento de nossa Geografia e sua definição como disciplina que lida com os fenômenos associados ao espaço (Cavalcanti, 2010).

Os estudos geográficos na atualidade em nosso país estão evoluindo respaldados pela inserção de métodos e técnicas de representação espacial com o advento de novas abordagens para o estudo da organização do espaço, seja através da análise geoecológica, da percepção, do turismo, da cultura, da economia e da política; pelo incremento das teorias das redes geográficas e dos recursos naturais; através das inovadoras técnicas concebidas pelos sistemas geográficos de informação (SIG), geoprocessamento, sensoriamento remoto e sistemas de posicionamento

GEOGRAFIA Publicações Avulsas, ano 09, n. 30, p. 1-21 (fevereiro 2011) global (GPS); ou ainda quanto às pesquisas aplicadas reportadas ao planejamento, gestão e monitoramento ambiental, urbano e agrário.

Inserem-se nesse contexto a prática de campo entendido como um direcionamento pragmático para o ensino e pesquisa em Geografia, processada através das excursões geográficas com fins didáticos.

Como fundamentos históricos deste recurso metodológico destacam-se alguns trabalhos que se tornaram clássicos e fundamentais para o desenvolvimento das excursões geográficas didáticas no âmbito da Geografia brasileira.

Ao discutir o sentido geográfico de posição e situação, dando ênfase à necessidade de assimilação da consciência de espaço e do desenvolvimento de observação da paisagem, com o intuito de interpretá-las de modo correto, Carvalho (1941) publica na Revista Brasileira de Geografia o trabalho “A Excursão Geográfica” discorrendo sobre o significado dessas excursões, na busca de despertar o interesse dos professores e acadêmicos do contato com a natureza, através do processo de aprendizagem, equivalendo às atividades teóricas em sala de aula.

A respeito das excursões geográficas, julga serem necessários os seguintes encaminhamentos:

1. Preparo preliminar; 2. Preparo psicológico; 3. Organização da excursão; 4. Observações dirigidas; 5. Relatório de acadêmicos.

Após o preparo e organização da excursão deve-se processar o estudo da paisagem, onde os acadêmicos devem saber observar e os professores devem procurar sistematizar os conhecimentos indispensáveis a esse procedimento.

Tendo por propósito a transposição dos obstáculos referentes à realidade exposta em campo, sugere em primeiro lugar o estudo dos aspectos relacionados com a Geografia Física, observando o levantamento da topografia da região, solos, posição das camadas rochosas, trabalho das águas correntes e vida vegetal e animal. A seguir reporta-se aos aspectos relativos à Geografia Humana que denomina de estudo das comunidades.

A partir destas condições pode-se desenvolver, segundo o autor, um inquérito sistemático, de acordo com a metodologia composta por quatro itens: 1. Problemas da casa; 2. Tipos de povoamento; 3. Horizonte de trabalho; 4. Questão da circulação.

Ao comentar a preocupação com a realização de excursões geográficas,

GEOGRAFIA Publicações Avulsas, ano 09, n. 30, p. 1-21 (fevereiro 2011) pela organização destas com orientação científica e aplicação de métodos e técnicas para trabalhos de campo, Prunes (1943) publica no Boletim Geográfico o trabalho intitulado “Plano de estudo de uma excursão geográfica” onde procura oferecer aos acadêmicos um ensino de Geografia constituído por uma formação científica de acordo com os objetivos dessa ciência, permitindo um melhor conhecimento da terra brasileira e de seus habitantes, através de dados constantes de observações iniciais, notas e investigações, divididos em: povoamento e colonização; informes relacionados à natureza e relevo do solo; indústria e comércio do solo; dados referentes à população; indústria e comércio do solo; divisão administrativa; pecuária; agricultura; habitação rural; meios de transporte e comunicação e finanças públicas.

Dando ênfase ao interesse que as excursões geográficas vêm despertando entre os geógrafos nos últimos tempos, resultado do ensino da Geografia, Costa Pereira (1943) publica também no Boletim Geográfico o trabalho que tem por título “Reflexões à margem de quatro excursões geográficas” quando observa que o desenvolvimento geográfico somente pode ser conseguido no contato direto com a natureza e questiona a não promoção mais frequente desta prática, com o desenvolvimento do exercício da observação direta.

Ressalta ainda que os resultados advindos das excursões geográficas importantes para o país, não deveria haver preocupação dos custos para promovê-las e que esta excursão, quando bem ordenada e supervisionada pode oferecer a melhor documentação sobre a região percorrida.

Em seguida realça o fato de ser indispensável fixar de maneira clara e precisa os objetivos desses trabalhos, de acordo com a importância do tema geográfico, com objetivos próprios de acordo com o modo de se considerar a finalidade da Geografia que deve sempre se preocupar com a visão integrada do espaço.

Ressalta o valor da excursão geográfica, com a realização de levantamento dos aspectos físicos e formas de ocupação humana, essenciais para a estruturação física das diversas regiões brasileiras. Reportando-se ao ano de 1943, acentua que no Brasil, a era da Geografia de campo, que se realiza pela observação direta dos diferentes meios e paisagens, ainda não chegou verdadeiramente à análise do quadro físico, humano e econômico, devendo ser estudado e compreendido exaustivamente num futuro próximo.

GEOGRAFIA Publicações Avulsas, ano 09, n. 30, p. 1-21 (fevereiro 2011)

Tendo por finalidade a pesquisa geográfica original e devendo possuir seus próprios métodos, pois cabe ao professor ensinar como se trabalha no campo, para chegar à descoberta das relações entre os fatos e as novas interpretações da Geografia, Ruellan (1944) publica “O trabalho de campo nas pesquisas originais de Geografia Regional” onde relata que a dificuldade de uma excursão geográfica não deve desencorajar os professores e acadêmicos e que nesse tipo de excursão não é preciso ir ao campo para reencontrar o que já foi escrito ou dito, porque isto pode prejudicar o pesquisador, tirando-lhe parte de suas faculdades de observação.

As excursões podem ser de dois tipos: a excursão de reconhecimento e a investigação minuciosa. Nesse artigo dedica-se exclusivamente ao primeiro tipo, explicando que a excursão de reconhecimento pode variar de alguns dias a algumas semanas e que se destina a revelar ao pesquisador, os traços essenciais da região que se propôs a estudar, devendo-se descrever os elementos básicos levantados; tipos de equipamentos e materiais utilizados e procedimentos adotados, além do reconhecimento e análise das formas do relevo; relações entre relevo e estrutura; pesquisas climatológicas; pesquisas hidrográficas; pesquisas biogeográficas, pesquisas em Geografia Humana e ainda ser confeccionado um relatório a partir do qual serão extraídos os resultados, de maneira a sobressair às características da região visitada.

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