manual- cuidados de enfermagem em diabetes mellitus

manual- cuidados de enfermagem em diabetes mellitus

(Parte 1 de 10)

Departamento de Enfermagem da Sociedade Brasileira de Diabetes

Cuidados de Enfermagem em Diabetes Mellitus

Organização:

Sonia Aurora Alves Grossi Paula Maria Pascali

São Paulo 2009

MANUAL DE ENFERMAGEM4 MANUAL DE ENFERMAGEM4

MANUAL DE ENFERMAGEM5

Capítulo I6

Índice Diabetes Mellitus

Capítulo I18

O Manejo do Diabetes Mellitus Sob a Perspectiva da Mudança Comportamental

Capítulo I32

Assistência de Enfermagem na Prevenção dos Fatores de Risco

Capítulo IV42

Monitorização da Glicemia

Capítulo V56

Insulinas: Dispositivos e Técnica de Aplicação

Capítulo VI76

Assistência de Enfermagem aos Pacientes em Uso de Antidiabéticos Orais e Hormônios Incretínicos e Inibidores da DPP- 4

Capítulo VII8

Assistência de Enfermagem aos pacientes em Hiperglicemias

Capítulo VIII114

Assistência de Enfermagem aos Pacientes em Hipoglicemia

Capítulo IX124

Cuidados de Enfermagem na Prevenção das Complicações nos Pés das Pessoas com Diabetes Mellitus

Capítulo X138

Cuidados Com a Pele da Pessoa com Diabetes Mellitus

Capítulo XI160

Assistência à Família do Portador de Diabetes Mellitus

MANUAL DE ENFERMAGEM6

Capítulo I

Marilia de Brito Gomes

Professora Associada do Departamento de Medicina Interna/Serviço de Diabetes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro(UERJ)

Roberta Cobas

Professora Adjunta com atuação de Visitante na Disciplina de Diabetes e Metabologia/ Serviço de Diabetes da UERJ.

• Reconhecer o diabetes mellitus(DM) como um problema de saúde pública no país.

• Relacionar os critérios de diagnóstico e a classificação do DM.

• Estabelecer as diferenças entre DM do tipo 1 e DM do tipo 2.

• Discorrer sobre as complicações agudas e crônicas do DM.

PALAVRAS CHAVES Diabetes mellitus, diabetes mellitus tipo 1, diabetes mellitus tipo 2, classificação, diagnóstico,complicações,hipoglicemia.

CONTEXTUALIZAÇÃO Nas últimas décadas o DM tem se tornado um sério e crescente problema de saúde pública devido ao aumento de sua prevalência, morbidade e mortalidade. Recente estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) estimou que até 2030 o número de indivíduos com diabetes será de aproximadamente 366 milhões(1). Estudo na década de 80 mostrou que a prevalência média de DM na faixa etária de 30 a 70 anos no Brasil era de 7,6%, com cerca de 30 a 50% dos casos não diagnosticados(2). Entretanto, dados mais recentes da região de Ribeirão Preto (interior do Estado de São Paulo) demonstraram que essa prevalência pode ter aumentado em aproximadamente cinco pontos porcentuais(3). De acordo com dados da OMS estima-se que ainda neste século nosso país terá aproximadamente 1 milhões de indivíduos com diabetes(1). Relatos do Sistema Único

MANUAL DE ENFERMAGEM7 de Saúde mostram que o diabetes é a quinta indicação de hospitalização e está entre as dez maiores causas de mortalidade no país (4).

» Diagnóstico»e»Classificação»do»Diabetes

O Diabetes Mellitus é um grupo de doenças metabólicas caracterizadas por hiperglicemia resultante de defeitos na secreção e/ou ação da insulina. Sua classificação, assim como seus critérios diagnósticos, vem sofrendo modificações nos últimos anos acompanhando a evolução dos conhecimentos sobre sua fisiopatologia e epidemiologia. Em 1997, a Associação Americana de Diabetes (ADA) propôs nova classificação do diabetes(5), baseada em aspectos fisiopatológicos, dividindo-o em quatro grandes classes clínicas: diabetes tipo 1, diabetes tipo 2, outros tipos de diabetes e diabetes gestacional. Foram eliminados, desta forma, os termos insulinodependentes e insulino-independentes. Esta classificação foi, em seguida, adotada pela Organização Mundial de Saúde e Sociedade Brasileira de Diabetes(6,7). Os critérios diagnósticos de diabetes atualmente aceitos são apresentados na Tabela 1.

*(adaptada da referência 7); **glicemia realizada a qualquer hora do dia; *** poliúria, polidipsia e perda de peso não explicada

Tabela 1 – Valores de Glicemia plasmática (mg/dl) para diagnóstico de diabetes e estágios pré-clínicos*

O diagnóstico de diabetes deve ser sempre confirmado a menos que haja hiperglicemia inequívoca com descompensação metabólica aguda ou sintomas óbvios de DM(7).

» Diabetes»tipo»1»(DM1) É uma doença crônica podendo acometer diferentes faixas etárias

ClassificaçãoJejum 2h após 75g de glicose Casual

Tolerância à glicosediminuída

Glicemia normal <100 <140 > 100 e < 126≥ 140 e < 200

Diabetes≥ 126≥ 200≥ 200** (com sintomas clássicos)***

MANUAL DE ENFERMAGEM8 sendo mais comumente diagnosticada em crianças, adolescentes e adultos jovens. Corresponde a cerca de 5-10% dos casos de diabetes. Pode ser classificado em auto-imune e idiopático, cuja fisiopatologia ainda é pouco conhecida, porém um componente autoimune não é envolvido.

O DM1 auto-imune caracteriza-se pela destruição progressiva e insidiosa das células β produtoras de insulina das ilhotas pancreáticas, usualmente levando à deficiência absoluta de insulina. Evolui em estágios desde uma predisposição genética (principalmente associada ao sistema HLA DR/DQ/DP) modulada por fatores ambientais (infecciosos, dietéticos, tóxicos) que levam ao desenvolvimento de uma insulite auto-imune (produção de anticorpos contra componentes da ilhota e ativação de linfócitos T), diminuição progressiva da secreção de insulina e da tolerância à glicose, até a deficiência absoluta de insulina com surgimento da hiperglicemia (estágio clínico). Alguns pacientes podem recuperar parcialmente a função das células β nos primeiros meses após o diagnóstico, fase conhecida como ‘lua de mel’.

Os marcadores imunológicas da destruição das células β incluem os auto-anticorpos contra as células das ilhotas (ICA), contra a insulina (IAA), contra a descarboxilase do ácido glutâmico (anti-GAD65) e tirosina-fosfatases (IA-2 e IA-2 β)(8-1). Recentemente outros fatores, além dos descritos acima, têm despertado interesse no estudo da história natural do DM1. A resistência à insulina poderia participar como um acelerador do desenvolvimento da doença já que submeteria a célula β a maior demanda de produção de insulina(12). Além disso, uma maior taxa de apoptose da célula β induzida por esta sobrecarga, levaria a exposição de antígenos que desencadeariam uma resposta imune em indivíduos geneticamente suscetíveis, interligando os dois mecanismos fisiopatológicos(12). De fato, segundo Kiberege(13), crianças com maior alteração de peso desde o nascimento desenvolvem DM1 em idade mais precoce. A idade diagnóstica constitui outro fator preditor importante da história natural do DM1. A apresentação do DM1 em idades mais avançadas refletiria uma evolução mais insidiosa da doença com maior preservação da capacidade secretória residual da célula β e maior reserva de insulina(13-15) resultando em maior duração do estágio pré-clínico da doença. Esta forma de Diabetes auto-imune com evolução lenta é conhecidda como LADA (diabetes auto-imu-

MANUAL DE ENFERMAGEM9 ne latente do adulto).

Pacientes com DM1 usualmente apresentam sintomas clássicos do diabetes precedendo o diagnóstico (poliúria, polidipsia, perda inexplicada de peso, polifagia, visão turva). Necessitam de insulinoterapia para sobreviver.

Representa 90% a 95 % dos casos de diabetes acometendo indivíduos em qualquer idade, porém mais frequentemente diagnosticado após os 40 anos. É provocado por um defeito na secreção e na ação da insulina (resistência à insulina), podendo haver predomínio de um componente sobre o outro. Cerca de 80% dos pacientes com DM2 apresentam sobrepeso ou obesidade e mesmos naqueles com peso normal, pode ocorrer maior predomínio de gordura na região abdominal. A maior prevalência de sobrepeso e/ou obesidade em crianças e adolescentes vem resultando em aumento gradativo da prevalência de hipertensão arterial, dislipidemia, DM2 em jovens(16-17). Ocorre forte predisposição genética(1). Muitos pacientes não apresentam os sintomas clássicos do diabetes e podem permanecer durante anos sem diagnóstico da doença(1). O risco de desenvolver diabetes tipo 2 aumenta com a idade, excesso de peso, sedentarismo e frequentemente encontra-se associado a hipertensão arterial e dislipidemia.

Estes pacientes não necessitam de insulina para sobrevivência, mas com a evolução da doença podem necessitar de insulinoterapia para obtenção de controle glicêmico satisfatório(5, 18- 20).

» Outros»tipos»específicos»de»diabetes»

Envolvem os defeitos genéticos das células β (ex: ‘maturity onset diabetes of the young’ -MODY), os defeitos genéticos na ação da insulina (ex: defeitos genéticos do receptor da insulina), doenças do pâncreas exócrino (ex: pancreatite crônica), endocrinopatias (ex: síndrome de Cushing, acromegalia), diabetes quimicamente induzido ou induzido por drogas (ex: glicocorticóides), infecções, formas incomuns de diabetes imunomediado e outras síndromes genéticas, algumas vezes, associadas ao diabetes(5,19-20).

» Diabetes»gestacional»(DG) É definido como qualquer grau de intolerância à glicose com início

(Parte 1 de 10)

Comentários