As Diferentes Abordagens do Conceito de Território

As Diferentes Abordagens do Conceito de Território

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Na sua obra metamorfoses do espaço habitado, o autor nomeia território como configuração territorial e define-o como o todo. Quanto ao espaço, é conceituado como a totalidade verdadeira, semelhante a um matrimônio entre a configuração territorial, a paisagem e a sociedade. Para o autor:

Podem as formas, durante muito tempo, permanecer as mesmas, mas como a sociedade está sempre em movimento, a mesma paisagem, a mesma configuração territorial, nos oferecem, no transcurso histórico, espaços diferentes. (SANTOS, 1996, p. 7).

Estes espaços diferentes, as espacialidades singulares, são resultados das articulações entre a sociedade, o espaço e a natureza. Assim, o território poderá adotar espacialidades particulares, conforme há o movimento da sociedade (nos seus múltiplos aspectos: sociais, econômicos, políticos, culturais e outros).

Para SANTOS (2002a), a formação do território perpassa pelo espaço e a forma do espaço é encaminhada segundo as técnicas vigentes e utilizadas no mesmo. O território pode ser distinguido pela intensidade das técnicas trabalhadas, bem como pela diferenciação tecnológica das técnicas, uma vez que os espaços são heterogêneos.

O território para SANTOS (2002a) configura-se pelas técnicas, pelos meios de produção, pelos objetos e coisas, pelo conjunto territorial e pela dialética do próprio espaço. Somado a tudo isto, o autor vai mais adiante e consegue penetrar, conforme suas proposições e metas, na intencionalidade humana.

Já na sua obra de 2003, p. 19, SANTOS expõe a categoria território como: “[...] um nome político para o espaço de um país”.

SANTOS (2002b) tenta realizar uma leitura múltipla do território, uma vez que o mesmo necessita desta leitura. Assim, inclui mais um item para suas análises: conclui que o trabalho é um dos pontos fortes para a compreensão do território. Portanto, o autor labuta sobre as muitas faces do capital e sugere aos pesquijsadores adentrarem no mundo do trabalho para efetuar uma ampla compreensão do mesmo. Urge um embate teórico entre as rugosidades, as periodizações, as técnicas, o território, a emoção e o trabalho, objetivando o entendimento da sociedade, do espaço e das razões que formam e mantém um território.

3. Considerações finais.

Feita a explanação das idéias de alguns dos principais autores da literatura pertinente ao tema proposto neste ensaio, algumas considerações devem ser apontadas.

A primeira conclusão que deve ser mencionada é que a idéia de relação de poder aparece, direta ou indiretamente, nos ensinamentos de todos os autores apresentados neste ensaio para a caracterização do território. Primeiramente com Claude Raffestin e a sua obra Por uma geografia do poder, publicada originalmente em 1980, as idéias de poder, de mecanismos de controle e dominação perpassaram pelos demais autores aqui estudados como fundamentais para a caracterização do território.

Nas diversas obras estudadas, o conceito de território foi retratado com diferentes abordagens:

Claude Raffestin enfatizou o caráter político-administrativo do território, tratando-o como um espaço físico de uma nação, marcado pelo poder e pela projeção do trabalho humano.

Rogério Haesbaert foi mais além, analisando o território em uma tríplice abordagem: jurídico-política, econômica e cultural. Assim, além do caráter do poder estatal, salientou o aspecto humano da identidade social, bem como os aspectos econômicos da relação capital-trabalho, todos presentes na constituição do território.

A principal contribuição de Marcelo Lopes de Souza reside em seus apontamentos sobre a existência dos múltiplos territórios dentro do território do Estado-Nação. Assim, além de uma abordagem política, trabalha os aspectos culturais dos múltiplos territórios (prostitutas, homossexuais, gangues, mendigos, narcotráfico etc.) que podem apresentar uma existência temporária ou permanente no tempo e no espaço.

Marcos Aurélio Saquet também vislumbra o território numa abordagem política, econômica e cultural, produzido pelas relações de poder articuladas pode um determinado grupo social. Além disso, não deixa de ressaltar a abordagem da natureza, já que esta faz parte do território e dele é indissociável.

Manuel Correia de Andrade retrata o território com uma abordagem profundamente política e econômica de ocupação do espaço, referindo-se tanto ao pode político estatal como ao poder econômico das grandes empresas na constituição do território.

A abordagem econômica prevalece nos apontamentos de Caio Prado Júnior sobre a questão do território.

Por sua vez, Milton Santos caracteriza o território com uma abordagem política, considerando-o como “o nome político para o espaço de um país”. O espaço, muito mais amplo, seria a totalidade, englobando a configuração territorial, a paisagem e a sociedade. O território passa a ser formado no desenrolar da História, com a apropriação humana de um conjunto natural pré-existente. Além dos aspectos políticos, o autor também realça a importância dos aspectos sociais, econômicos e culturais entrelaçados em virtude do movimento da sociedade no decorrer dos diversos momentos históricos e do desenvolvimento das técnicas, chegando à conclusão de que o trabalho é um dos pontos fortes para a compreensão do território.

Enfim, sem maiores delongas, vale a pena assinalar que este pequeno ensaio não tem a mínima pretensão de ser uma proposta conclusiva e acabada. Muito pelo contrário, é apenas uma pequena tentativa de se fomentar a discussão a respeito das diversas abordagens existentes sobre o conceito de território, um assunto de grande interesse acadêmico e de relevada importância para a ciência geográfica.

4. Referências bibliográficas.

ANDRADE, Manuel Correia. A questão do território no Brasil. São Paulo: Hucitec; Recife: IPESPE, 1995.

CANDIOTTO, Luciano Zanetti Pessoa. Uma reflexão sobre ciência e conceitos: o território na geografia. In: RIBAS, A. D.; SPOSITO, E. S.; SAQUET, M. A.

Território e Desenvolvimento: diferentes abordagens. Francisco Beltrão: Unioeste, 2004.

HAESBAERT, Rogério. Des-territorialização e identidade: a rede “gaúcha” no nordeste. Niterói: EdUFF, 1997.

A multiterritorialidade do mundo e o exemplo da Al

Qaeda. Terra Livre, São Paulo, v. 1, n. 18, jan. /jun. 2002, p.37- 46.

RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. Tradução de Maria Cecília França. São Paulo: Ática, 1993.

SANTOS, Milton. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1985.

_ Metamorfoses do espaço habitado: fundamentos teóricos e metodológicos da Geografia. São Paulo: Hucitec, 1996.

_ A natureza do espaço: técnica e tempo. Razão e emoção. São

Paulo: Edusp, 2002a.

SANTOS, M.; SOUZA, M. A. A. de; SILVEIRA, M. L. (org.). Território: globalização e fragmentação. São Paulo: Hucitec; Annablumme, 2002b.

SANTOS, M.; SILVEIRA, M. L. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2003.

SAQUET, Marcos Aurélio. O território: diferentes interpretações na literatura italiana. In: RIBAS, A. D.; SPOSITO, E. S.; SAQUET, M. A. Território e Desenvolvimento: diferentes abordagens. Francisco Beltrão: Unioeste, 2004.

SPOSITO, Eliseu Savério. Sobre o conceito de território: um exercício metodológico para a leitura da formação territorial do sudoeste do Paraná. In: RIBAS, A. D.; SPOSITO, E. S.; SAQUET, M. A. Território e Desenvolvimento: diferentes abordagens. Francisco Beltrão: Unioeste, 2004.

SOUZA, Marcelo José Lopes de. O território: sobre espaço e poder. Autonomia e desenvolvimento. In CASTRO, I. E. de; GOMES, P. C. da C.; CORRÊA, R. L. (Orgs.). Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, p.7- 116.

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