TRABALHO-DE-PESQUISA-Erick-Erickson (Fases Iniciativa X Culpa e Competência X Inferioridade) - Parte II

TRABALHO-DE-PESQUISA-Erick-Erickson (Fases Iniciativa X Culpa e Competência X...

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I Apresentação

Desde a concepção, as pessoas passam por processos de desenvolvimento, os quais podem ser observados no cotidiano de cada indivíduo. A partir do estudo destes processos, os cientistas do Desenvolvimento Humano vêm desenvolvendo várias vertentes teóricas, tentando identificar, analisar, explicar e controlar estes processos, cada um à sua maneira. Diante disto, nos deteremos neste trabalho, a detalhar algumas formulações teóricas do cientista Erick Homburger Erickson, sobre sua Teoria Psicossocial, enfatizando as Crises Iniciativa versus Culpa e Competência versus Inferioridade.

I Metodologia

Revisão de literatura baseada no teórico e sua suas concepções para futura fundamentação teórica;

Observação naturalista de duas crianças, sendo uma correspondente à Fase Crítica

Inicitativa versus Culpa e a outra correspondente à Fase Crítica Competência versus Inferioridade;

Uso de Questionários de Anamnese, para coleta de dados sobre as crianças no ambiente familiar (pais) e no ambiente escolar (educadores); Entrevista Informal com as crianças analisadas;

Comparação dos resultados obtidos na pesquisa com os fundamentos da Teoria Ericksoniana.

I Objetivos

Observar e Identificar os aspectos comportamentais, cognitivos, sociais e emocionais das crianças que se enquadram nas Crises Psicossociais Ericksonianas;

Categorizar os aspectos comportamentais, cognitivos, sociais e emocionais observados e identificados nas crianças, para posterior comparação com a Teoria Psicossocial de Erickson, e futura confirmação ou contestação da mesma.

IV Revisando a Literatura

Considerado um Neofreudiano, o alemão Erick Homburger Erickson iniciou seus primeiros estudos na área da Psicanálise com Ana Freud, tornando-se psicanalista infantil nos Estados Unidos anos depois. Sua grande experiência pessoal e profissional lhe possibilitou modificar e ampliar a teoria freudiana, dando ênfase à influência social sobre o desenvolvimento da personalidade, afirmando que o desenvolvimento do ego é vitalício, enquanto Freud confirmava que as vivências trazidas da infância é que moldavam de forma permanente a personalidade do indivíduo. Erickson também deslocava a ênfase à centralidade do impulso sexual e versava sobre o surgimento de um senso de identidade, onde esta identidade não seria formada na sua totalidade no fim da adolescência, pois necessitava de vivências experienciadas após esta época do desenvolvimento. Surge então, a Teoria Psicossocial Ericksoniana, dividindo-se em oito estágios durante o ciclo de vida, onde cada estágio representa uma “crise” na personalidade, as quais surgiriam de acordo com o desenvolvimento maturacional do indivíduo e as mesmas deveriam ser resolvidas satisfatoriamente para que o ego fosse formado de maneira saudável.

(...) “o êxito na resolução de cada crise é o desenvolvimento de uma determinada virtude ou força.” (Papalia, 2006).

Tabela 01 - Os Oito Estágios do Desenvolvimento Propostos por Erickson

Virtude a ser Desenvolvida no Ego Algumas Características Desenvolvidas em cada Crise

Confiança x Desconfiança básica (0 á 1 ano)

Confiança na mãe ou cuidadora e na própria capacidade de fazer as coisas acontecerem, tendo como elemento essencial o apego inicial seguro.

Autonomia x Vergonha (culpa) (2 à 3 anos)

Atividades motoras como caminhar, agarrar e outras habilidades físicas que levam à livre escolha, a criança aprende a ter o controle com o treinamento esfincteriano, mas pode desenvolver a vergonha se não for orientada adequadamente.

Iniciativa x Culpa (4 à 5 anos)

Capacidade de organizar atividades afim de algum objetivo, torna-se mais enérgica, agressiva e imperativa. O conflito edípico com o genitor de mesmo sexo pode levar á culpa.

Competência x Inferioridade (6 à 12 anos)

Absorvem todas as regras básicas sociais e culturais, inclusive habilidades nas atividades escolares e uso de instrumentos específicos.

Identidade x Confusão de papéis (13 á 18 anos)

Tendência à adaptação do senso de self a mudanças físicas da puberdade, faz-se a escolha profissional, adquire identidade sexual adulta e busca novos valores.

Intimidade x Isolamento (19 à 25 anos)

Estabelece vários relacionamentos íntimos que vão além do amor adolescente, tendência a casar-se e formar grupos familiares.

Generatividade x Estagnação (26 à 40 anos)

Gerar e criar filhos, centra-se na realização profissional e treinar a próxima geração.

Integridade do Ego x Desespero (41 acima)

Integrar os estágios anteriores, chegar a um acordo com a identidade básica e aceitar o self.

Observa-se maior sustentação na teoria de Erickson do que na de Freud, basicamente pela ênfase às influências sociais e culturais sobre o desenvolvimento humano e também pelas “crises” no desenvolvimento após a adolescência, uma vez que Erickson traz seus conceitos até a velhice.

Detalharemos agora duas das Crises, uma vez que pesquisamos, observamos e colhemos dados referentes às mesmas, para posterior comparação com as principais concepções teóricas.

Iniciativa versus Culpa (4 à 5 anos) Mais ou menos de acordo com a fase Fálica de Freud, esta é a terceira fase de Erickson e caracteriza-se pela aquisição de novas habilidades ou capacidades na criança, onde a mesma torna-se capaz de fazer algum planejamento, assumir a iniciativa para atingir algum objetivo específico, e experimentar novas habilidades cognitivas, tentando conquistar o mundo que a cerca.

“Com a alfabetização e a ampliação de seu círculo de contatos, a criança adquire o crescimento intelectual necessário para apurar sua capacidade de planejamento e realização” (Erickson, 1987, p. 116.).

É um período de muita energia, vigor e ação, onde a criança pode até chegar a ser agressiva em alguns momentos. Deve-se tomar muito cuidado com a falta de aconselhamento e disciplina, podendo a criança vir a tornar-se muito impetuosa e imperativa, mas também com o excesso disso, ao colocar-lhe muitas limitações ou punições, o que poderá vir a ocasionar culpa além do necessário e inibir sua criatividade e as interações sociais. É importante entender que a culpa gerada em algumas ocasiões é necessária para que possam ser desencadeadas outras funções importantes como a consciência e o autocontrole. A realização de suas ações é controlada para que se consiga aprovação social, a partir do momento que a criança está aprendendo a fazer muitas coisas novas e estas, terão esta aprovação ou não. Este é o ponto chave desta fase, ou seja, este conflito que marca uma quebra entre duas partes da personalidade, uma parte que continua sendo criança cheia de inocência e vontade de experimentar coisas novas e a outra parte, que está se tornando um adulto, onde se observa constantemente a correção de suas ações.

“As crianças que aprendem a regular esses impulsos opostos desenvolvem a “virtude” do propósito, a coragem de imaginar e perseguir metas sem ser indevidamente inibida pela culpa ou pelo medo de punição” (Erickson, 1982.).

A meta final deste processo seria o alcance de um equilíbrio entre a tendência de exagerar na competição e na realização de tarefas e a tendência de ser reprimido e dominado pela culpa. Se esta crise não for desenvolvida satisfatoriamente, a criança pode se transformar num adulto que está sempre se esforçando por sucesso ou num adulto muito exibido, convencido de suas próprias virtudes e intolerante com as diferenças individuais ou mesmo, inibido em excesso e pouco espontâneo, vindo a sofrer de doenças psicossomáticas e impotência.

“O despertar de um sentimento de culpa, na mente da criança, poderá ficar atrelado à sensação de fracasso, o que gera uma ansiedade em torno de atitudes futuras” (Erickson, 1987, p. 119.).

As virtudes alcançadas, como o propósito e a iniciativa podem ser direcionados positivamente para a formação da responsabilidade. Erickson alerta também para o perigo da personificação, ou seja, quando a criança exagera na fantasia de ter outras personalidades, ao tentar escapar da frustração de ser incapaz de realizar algumas atividades, fazendo-se ser totalmente diferente do que é por muitas vezes, podendo vir a se tornar compulsiva por esconder seu verdadeiro “eu”, nesse caso, ser tendenciado a passar o resto da sua vida desempenhando “papéis” e afastando-se cada vez mais do contato consigo mesmo e atrapalhando a formação da sua identidade e personalidade.

Competência versus Inferioridade (6 à 12 anos) A quarta fase para Erickson, é caracterizada pelo controle da atividade física e intelectual, no sentido do equilíbrio às regras do método de aprendizado formal, uma vez que o principal contato social se dá na escola no início da escolarização, ou em outro meio de convívio mais amplo do que apenas o familiar. Acontece o desenvolvimento do repertório de capacidades que a sociedade exige da criança, que se ela for incapaz de desenvolver as habilidades esperadas, vai experimentar um senso de inferioridade, necessitando após disso, do equilíbrio dos processos para que consiga estabelecer a humildade e a competência. A criança aprende a valorizar e reconhecer que podem existir recompensas a longo prazo de suas atitudes atuais, fazendo surgir um senso de perseverança e interesse pelo futuro. Surgem as habilidades e interesse por instrumentos de trabalho, onde se obtém prazer nas realizações de tarefas consideradas difíceis, fazendo com que o ego progrida e não retorne às fantasias da fase anterior.

“A terceira infância é uma época para aprender as habilidades que nossa cultura julga importantes. Ao assumir responsabilidades que combinem com suas crescentes capacidades, a criança aprende sobre o funcionamento da sociedade, seu papel nela e o que significa fazer um bom trabalho ” (Erickson, 1982.).

Estas realizações são uma forma ideal, reguladora e metódica, para direcionar sua energia psíquica, dando-lhe a sensação de conquista e de ordem preparando-a para o futuro. Nessa época a criança já tem ideia do que quer ser quando crescer, apoiada nos indícios de responsabilidade e planejamento. Por outro lado, Erickson alerta para o formalismo, ou seja, a repetição de formalidades ás vezes desnecessárias para determinadas ocasiões, empobrecendo sua personalidade e prejudicando suas relações sociais.

V Analisando a Teoria

Iniciativa versus Culpa (4 à 5 anos) Indivíduo Analisado 1

Criança do sexo feminino, 04 anos, educação infantil, teve iniciação escolar aos 2 anos e 3 meses.

Observou-se, primeiramente no contexto escolar, os aspectos presentes na relação social da criança. Confirmando a teoria ericksoniana, a criança avaliada apresentou comportamentos agressivos em alguns momentos, capacidade de criação e iniciativa em certas atividades, se esforçando para realização das mesmas. Muito observadora e atenta às normas e combinados e sempre aberta à mudanças. Participa de atividades psicomotoras no período semanal, desenvolvendo suas capacidades de planejamento e interação social. Está sendo trabalhado o processo de autonomia nas atividades coletivas e o desenvolvimento de virtudes como responsabilidade, companheirismo, amizade, respeito, honestidade e solidariedade. Encontra-se em processo de desenvolvimento sócio-afetivo, não apresentando sentimentos negativos como inveja, ciúmes, egoísmo e desrespeito. É reforçada positivamente através de elogios.

No contexto familiar, a mesma não tem irmãos. Sua rotina é basicamente a de programações infantis na televisão e brincar de escola com as bonecas. Comparece à escola todas as tardes e pela manhã a cuidadora (tia) interage totalmente com ela. Sua alfabetização está em processo de iniciação, onde a mesma já conhece todos os códigos linguísticos e consegue escrever o próprio nome. Às vezes, necessita de ajuda para realizar as tarefas de casa. Tem organização com os próprios objetos pessoais. Tem muita espontaneidade e habilidades linguísticas. Algumas vezes, ao sentir ciúmes, se esconde e chora. Ao ser contrariada, resmunga e responde, indo pro castigo ou sendo privada de benefícios. Obedece e entende as regras ou combinados, infringindo algumas e corrigindo-se.

Competência versus Inferioridade (6 à 12 anos) Indivíduo Analisado 2

Criança do sexo feminino, 08 anos, educação fundamental (3º ano), teve iniciação escolar aos 4 anos e 5 meses.

Observamos no contexto escolar os aspectos relacionados com a socialização e aprendizagem de habilidades escolares. Afirmando as características da Teoria de Erickson, a criança apresenta iniciativa e esforço nas atividades e brincadeiras, capacidade de criatividade e planejamento de ações com humildade. Tem autonomia de concluir todas as suas tarefas escolares sozinha e ajuda aos colegas por iniciativa própria, comandando brincadeiras e tem ótimo relacionamento social. Nunca foi punida no ambiente escolar, pois apresenta responsabilidade, respeito, companheirismo, honestidade, amizade e solidariedade em sala de aula. É reforçada positivamente através de elogios. Participa de atividades complementares, desenvolvendo suas capacidades motoras e cognitivas.

No contexto familiar não possui irmãos. Relaciona-se muito bem com os colegas, brincando quase que diariamente com outras crianças. Frequenta a escola todas as tardes, passando as manhãs em casa com a cuidadora (mãe) fazendo as tarefas de casa e realizando atividades lúdicas com a mãe. Ler e escreve fluentemente e tem várias habilidades matemáticas. Quanto à organização cotidiana, conhece as regras de organização, mas desvia sua atenção, distraindo-se com outros assuntos e deixando as responsabilidades de lado. Tem grandes habilidades artísticas como desenho e pintura e também habilidades motoras (faz aula de ballet). Ao ser contrariada, fica chateada e chora, mas entende as razões das punições após uma conversa, sendo que a punição sempre é a retirada de privilégios.

A partir do exposto, contata-se que a maioria dos aspectos e características observadas nos ambientes naturais analisados, segue o modelo ericksoniano.

VI Conclusão

A partir da realização deste trabalho, tivemos a oportunidade de nos aprofundar sobre os estudos do Desenvolvimento Humano, em especial sobre o Teórico Erick Erickson e sua Teoria Psicossocial, a qual teve grande relevância para os avanços e complementação das ideias propostas por Freud referentes à Psicanálise. Decorrendo sobre as duas Fases Críticas Iniciativa x Culpa e Competência x Inferioridade, realizamos observações naturalista de duas crianças, uma em casa fase e complementamos estas observações com a realização de Entrevistas de Anamnese com os pais ou cuidadores e também com os educadores nos ambientes familiar e escolar, afim de sistematizarmos os dados coletados e podermos enfatizar os aspectos cognitivos, sociais e emocionais necessários para a construção da identidade e dos padrões de personalidade de cada indivíduo analisado. Diante do exposto, concluímos que na realidade cotidiana as crises psicossociais tem grande fundamentação no processo de desenvolvimento, uma vez que os indivíduos em análise estão de acordo com a maioria dos aspectos e padrões Ericksonianos.

VII Referências

BEE, Helen. O Ciclo Vital. Porto Alegre. Artmed, 1997.

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