Mídia de massa e as histórias em quadrinhos

Mídia de massa e as histórias em quadrinhos

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MÍDIA DE MASSA E AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS – O LADO HISTÓRICO DAS PUBLICAÇÕES1

Peter Ferreira2

Resumo:

Este artigo tem como objetivo demonstrar e discutir as mídias de massa a partir das produções de histórias em quadrinhos, bem como apontando o seu lado histórico. Ainda neste estudo iremos aprofundar questões que podem dar uma direção – na relação com os quadrinhos – ao entendimento sobre os diversos momentos que a mídia brasileira vivenciou.

É perceptível neste estudo a observação sobre o processo das mídias de massa e a relação que elas possuem com a produção de quadrinhos, sendo abordadas desde os conceitos de comunicação até a evolução midiática no Brasil. É interessante neste caso que, o ponto que é delimitado na mídia para então debater como os quadrinhos foram desenvolvidos em meio à exploração mercadológica.

Palavras-Chave: Mídia de Massa, Quadrinhos, Brasil.

Abstract:

This article aims to demonstrate and discuss the mass media from the production of comics, as well as pointing your hand history. Although this study will further issues that may give a direction - the relationship with the comic - the understanding of the various moments that experienced the Brazilian media.

It is noticeable observation in this study on the process of mass media and the relationship they have with the production of comics, being addressed from concept to the evolution of communication media in Brazil. It is interesting that in this case, the point is

1 Adaptação do trabalho acadêmico elaborado pelo autor através da monografia “Chico Bento: As Representações

Sociais do Discurso entre Modernidade e Tradição”.

2 Graduado em Licenciatura e Bacharelado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte – Uni-BH.

bounded in the media and then discusses how comics have been developed through the marketing operation.

Keywords: Mass Media, Comics, Brazil.

Introdução:

Num mercado que interliga a forma cultural da sociedade com os meios de comunicação (especificamente o Brasil), a mídia possui um atrativo de popularizar traços culturais de determinadas sociedades e a transmitindo de maneira a serem colocadas no nosso dia a dia.

Estas difusões que entram no cenário social (quer seja através do radio, televisão ou jornais e revistas) permite que elas consigam enraizar na cultura brasileira de modo que se consolida e gera uma nova ideia sobre a sociedade. Mas esta é uma linha que serve apenas de reflexão para entender o que será tratado mais a frente.

De acordo com Ferreira (2012):

As histórias em quadrinhos são uma forma de demonstração de imagens em arte que coliga textos escritos e figuras animadas com o intuito de narrar histórias dos mais variados tipos. (FERREIRA, 2012, p.14).

Neste caso, é dado uma visão geral do que seria as histórias em quadrinhos, mas ao mesmo tempo, podemos colocar esta citação para estudar este processo e a sua representatividade como uma peça difusora de cultura ou ideia. Tratado de início, será dada seguir o estudo pontuando estas discussões em quatro tópicos.

No primeiro tópico, será apresentada de forma geral as histórias em quadrinhos, bem como a trajetória que ela percorreu e a interligação com os momentos de época em que eram publicadas.

No segundo tópico, é dada uma análise dos conceitos de mídia de massa e a abordagem histórica, com atos descritivos de sua ação até o uso de termos de comunicação para interligar o surgimento da indústria cultural e a transmissão de informações para exploração de determinada cultura como mercadoria. Estas

Interligado com o primeiro tópico, o terceiro trará uma abordagem das mídias de massa no Brasil, tratada de forma geral e a sua trajetória. Neste tópico, ela pode ser entendida como “a identidade midiática brasileira”, devido à influencia que ela trouxe para construção de uma identidade nacional, principalmente nas décadas de 1960 e 1970.

Com o quarto tópico, é aprofundada a produção de quadrinhos no Brasil, com abordagens de produção e uso da linguística na composição dos mesmos. Interessante é a questão que Moacy Cirne deixa em suas observações sobre o uso da narrativa e a estruturação de um objeto para montagem de quadrinhos, interligados com o cotidiano ou cultura.

Histórias em Quadrinhos – Quadro Geral:

Para entrarmos nestas discussões sobre a mídia de massa e os quadrinhos, se faz necessário conhecer a construção das histórias em quadrinhos, demonstrando apenas pontos que será pertinente nesta questão.

Em linhas gerais, histórias em quadrinhos são demonstrações que interliga imagens com textos corridos, na qual figuras animadas transmitem narrativas de contos criados por seus autores.

Ela ganha conotação de Nona Arte3 , dando sequência à classificação de Ricciotto

Canudo em 1923. O termo "arte sequencial" (traduzido do original sequential art), criado pelo quadrinista Will Eisner com o fim de definir o arranjo de fotos ou imagens e palavras para narrar uma história ou dramatizar uma ideia, e utilizado para definir a linguagem usada nesta forma de representação, sendo no entanto um termo mais abrangente.

Mas a utilização de pinturas desenhadas de forma sequenciada, objetivando contar uma história, existe desde o período “pré-histórico”, ao ser retratada o fato do cotidiano. Mas a estrutura das histórias em quadrinhos como é conhecida hoje – com a utilização de balões

3 Em 1923, Ricciotto Canudo publica o “Manifesto das sete artes”, sendo somente após manifestos em 1977, outros estudiosos classificaram outras manifestações culturais, colocando os quadrinhos como nona arte.

para os diálogos – teve seu início nos Estados Unidos, em 1894, com a publicação de Yellow Kid, no jornal New York World (BIBE-LUYTEN, 1985).

Dessa maneira, foram batizadas de comics (cômico, em inglês), e, mesmo com o surgimento de diferentes gêneros (aventura, terror, erótico e outros), o termo foi mantido, para designar qualquer história em quadrinho.

O surgimento do gênero “aventura” ocorreu no período de quebra da bolsa de Nova

York em 1929, que foi uma época de grande crise financeira e desesperança por parte da população mundial, popularizando-se nos anos que se seguiram.

Nesse gênero foram criados os primeiros “super-heróis”, como Flash Gordon, Mandrake e Fantasma (BIBE-LUYTEN, 1985; CIRNE, 1972).

Segundo Martín Feijó em seu livro O que é Herói, ela parte da interpretação que estes heróis são aqueles que protegem, ajudam e salvam as pessoas, a cidade e até o planeta, é sempre forte, possui a capacidade de estar presente em todos os lugares em que há alguém precisando dele, sendo capaz de derrotar o mal e restabelecer a ordem.

Revela-se também que o herói possui uma capacidade ímpar de se colocar ao lado do fraco e do injustiçado, sendo aquele que defende o bem e consegue superar obstáculos que os seres humanos mortais não conseguiriam.

Na constituição da estrutura heroica destes seres dotados de habilidades sobrehumanas, é detectável que este mito se encontra inserido no processo social, podendo ser observado desde os primórdios da civilização, a começar pelos xamãs ou pajés tribais, passando pelos sacerdotes faraônicos, os imperadores e os santos católicos, observado também pela genialidade dos artistas da renascença e dos cientistas modernos, chegando aos astros da música e do cinema.

As funções ideológicas nas Histórias em Quadrinhos tiveram seu auge durante a

Segunda Guerra Mundial, com os principais personagens combatendo nazistas em suas histórias, e o surgimento de novos heróis, que vieram como resposta aos anseios da sociedade.

Por causa dessa utilidade, as histórias em quadrinhos foram proibidas nos países que compunham o Eixo4 , evitando que suas ideias ganhassem força em seus territórios. Foi nesse período de grande angústia e incertezas que surgiu o Superman, um herói dotado de poder

4 Países: Alemanha, Itália e Japão.

suficiente para consertar os problemas que afligiam o mundo (BIBE-LUYTEN, 1985; FEIJÓ, 1984).

Atualmente, o estilo comics americano continua predominante, mas ela vem perdendo espaço cada vez mais para os quadrinhos japoneses, conhecidos como mangás. Elas carregam uma profundidade nos traços e sua caracterização, além de algumas revistas retratarem ao ponto de enaltecer a cultura japonesa.

É desde trato que estaremos discutindo, a retratação da cultura nos quadrinhos, além de estar interligando este objeto (os quadrinhos) com a mídia de massa.

Mídia de Massa e a História:

Dadas produções de revistas em quadrinhos, entendemos que elas nascem a partir da necessidade de narrar o cotidiano desde a pré-história até ganhar uma “consciência” singular, que neste caso, pode ser entendida como o reconhecimento como arte.

Mídia de massa5 , historicamente, significa produtos de informação e entretenimento centralmente produzidos e padronizados, distribuídos a grandes públicos. Entende-se como a disseminação de informações, os quais se reúnem em um sistema organizado. Ela tem como característica chegar a uma grande quantidade de receptores ao mesmo tempo, partindo de um único emissor.

As sociedades receptoras geralmente são urbanas e complexas e passam por processos múltiplos e dinâmicos em que há um grande poder da mídia sobre seus habitantes.

No período entre guerras do século passado6 e com a difusão das comunicações de massa, há uma crescente demanda de informação para “propagar” ideologias e doutrinas a fim de formar consciência da população. Neste período, o uso de vários mecanismos para este propósito é usado, com o intuito de manipular a opinião da população (tanto alemã e italiana quanto americana).

5 Ou Mass Media é o termo usado para definir a mídia que é pública e impessoal (não é feita de uma maneira direta), exibida para pessoas distintas e em pontos diferentes de um espaço geográfico. Exemplos: jornais, televisão, rádios, cinema e Internet.

6 Compreendido na época da Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

Neste momento nasce a teoria hipodérmica7 , que visava estudar os fenômenos das comunicações de massa fazendo ligação direta com as trágicas experiências totalitárias daquele período histórico. Possuía um alto valor de persuasão e que para isso adotava técnicas para manipular o público, passando pelo viés da teoria hipodérmica e a teoria do espelho8 .

Para entender estas teorias é fundamental definir o conceito de sociedade de massa, que é constituída por um conjunto de indivíduos que, enquanto seus membros são considerados iguais, indiferenciáveis, mesmo que provenham de ambientes diferentes, heterogêneos e de todos os grupos sociais, fazendo com que estes permaneçam com seus interesses ou informações interligados.

A composição desta estrutura é feita por pessoas que não se conhecem, que estão separadas umas das outras no espaço e que têm pouca ou nenhuma possibilidade de exercer uma ação ou influência recíprocas.

Isso faz com que teorias como hipodérmica e espelho tenham bases empíricas e científicas para a elaboração de efeitos da difusão em forma de propaganda e a consequência sobre o comportamento consciente das pessoas.

Para contrapor a teoria hipodérmica, Harold Lasswell9 iniciou sua análise, conhecida como análise de conteúdo10 , apontando uma forma conveniente de descrever um ato da comunicação, consistindo em responder questões como por exemplo: quem, diz o quê, por meio de qual canal, a quem, com que efeito. Isso faz com que o receptor deixe de ser um sujeito abstrato e passa a ser também objeto de análise na teoria, em que a sociedade agia como um corpo humano em que tudo funcionava, e as disfunções não eram levados em consideração.

Colocando estes apontamentos, é apresentado de fato que não podemos separar a mídia de massa de outros elementos da comunicação, pois eles representam a história da interação humana e pode dividir-se em quatro episódios que se sobrepõem. Cada episódio é caracterizado pela utilização de novas formas de comunicação, que transformam a sociedade.

7 Segundo este modelo, uma mensagem lançada pela mídia é imediatamente aceita e espalhada entre todos os receptores, em igual proporção. Os conceitos foram elaborados pelos americanos, na década de 1930. Seu principal objetivo foi fornecer bases empíricas e científicas para a elaboração de sistemas de comunicação, com ênfase nos efeitos da comunicação sobre o comportamento da população.

8 Diz que as notícias são da forma como a sociedade as conhece porque a realidade assim a determina.

9 Foi um cientista político e teórico da comunicação americano. É considerado um dos fundadores da psicologia política.

10 Metodologia utilizada pelas ciências sociais para estudos de conteúdo em Comunicação e textos que parte de uma perspectiva quantitativa, analisando numericamente a frequência de ocorrência de determinados termos, construções e referências em um dado texto.

O primeiro episódio é o da exteriorização, na qual ela exprime-se pelo corpo, contendo sistema de gestos e o uso da palavra, sem deixar de se referenciar ao seu meio ambiente imediato. O homem é, portanto, o único médium de comunicação e só a comunicação interpessoal 1 é possível.

O segundo episódio é o das linguagens de transposição, tais como o desenho e o esquema, o ritmo e a música e, sobretudo a escrita fonética. É neste episódio é que podemos caracterizar as formas de demonstração de imagens e ideias sobre o imaginário do homem, como é o caso dos quadrinhos.

A amplificação caracteriza o terceiro episódio, que começa com a implantação da

Imprensa e que conhece o seu apogeu com o satélite. As mídias coletivas e as mídias de massa criam uma nova concepção de sociedade, a já citada sociedade de massa.

A gravação de sons e de imagens, tornada acessível a todos, graças à técnica moderna, fornece novas linguagens, trazendo a aurora do quarto episódio.

Estes episódios foram contribuições para o surgimento de novas denominações ao consolidar outros termos de mídia de massa, como o surgimento do conceito de indústria cultural.

O conceito de Indústria Cultural trata da produção da cultura como mercadoria, entendendo que o mercado impõe o mesmo esquema de organização e planejamento administrativo das fabricações em série aos produtos simbólicos, como revistas, jornais e outros.

Indústria Cultural surge através da Escola de Frankfurt12 , quando houve uma atenção para a extrema importância da mídia como fomentador da cultura de mercado e formadora do modo de vida contemporâneo. Dentre os principais pensadores desta escola destacam-se Adorno e Horkheimer, “criadores” deste conceito.

Adorno e Horkheimer no livro Dialética do Esclarecimento apontaram um novo conceito com relação à cultura e a massificação da cultura.

1 É um método de comunicação que promove a troca de informações entre duas ou mais pessoas.

12 Nome dado ao grupo de pensadores, filósofos e cientistas sociais alemães (marxistas) que se dedicaram aos estudos de variados temas que compreendiam desde os processos civilizadores modernos e o destino do ser humano (a partir de 1922) na era da técnica (ou tecnologia) até a política, a arte, a música, a literatura e o cotidiano. Principais pensadores: Theodor Adorno, Max Horkheimer, Hebert Marcuse, Erich Fromm e Walter Benjamin.

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