considerações acerca da relação mãe bebê da gestação ao puerpério

considerações acerca da relação mãe bebê da gestação ao puerpério

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Contemporânea - Psicanálise e Transdisciplinaridade, Porto Alegre, n.02, Abr/Mai/Jun 2007

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Considerações acerca da relação Mãe-Bebê da Gestação ao Puerpério1

Consideration about Mother-Child relationship from the Pregnancy to the Postpartum

Juliane Callegaro Borsa2

Resumo: O presente artigo consiste em uma revisão teórica acerca de alguns conceitos relacionados à formação do vínculo mãe-bebê. Para esta compreensão, serão abordados aspectos referentes à gestação, parto e puerpério, no âmbito físico e emocional, bem como as idéias básicas de alguns autores dedicados ao estudo da relação mãe-bebê. Para isso, serão utilizados alguns conceitos-chave, extraídos de autores reconhecidos como Bowlby, Winnicott, Spitz, Lebovici e Mahler. Como literatura de apoio foram utilizados artigos sobre a relação mãe-bebê e formação do vínculo, assim como outros textos da literatura que tratam sobre o tema.

Abstract: The present paper is a theoretical review about some aspects concerning formation of the mother-child attachment. For this understanding, we will be discussing aspects of pregnancy, partum and postpartum, in their physical and emotional aspects as well as the basic ideas of some authors dedicated to the study of the mother-child relationship. For this, will be using some concept-key, extracted of the recognized authors like Bowlby, Winnicott, Spitz, Lebovici and Mahler. As support literature had been used papers about mother-child relationship and attachment, as well as others literary texts whose broach this subject.

Descritores: Amor, ambivalência, simbiose, maternidade e vínculo. Keywords: Love, ambivalence, symbiosis, motherhood and attachment.

1 Trabalho realizado em Porto Alegre, 2006. 2 Psicóloga; Mestranda em Psicologia Clínica, PUCRS, Bolsista CNPq, Pesquisadora do Grupo de Avaliação e Intervenção em Psicoterapia e Psicossomática da Profª.

Maria Lúcia Tiellet Nunes.

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Diferentes teorias têm fundamentado as pesquisas sobre a relação mãe-bebê, sendo reconhecidas em virtude da relevância do vínculo materno-infantil para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo saudável da criança ao longo de toda a sua vida. Do ponto de vista do seu desenvolvimento global, as relações afetivas entre mãe e bebê possuem grande destaque nas pesquisas realizadas por vários autores que se dedicam ao estudo da díade. A formação do vínculo mãe-bebê é essencial na infância e sua importância é maior nessa idade do que nos períodos posteriores. A atitude emocional da mãe orienta o bebê, conferindo qualidade de vida à sua experiência e servindo como organizador da sua vida psíquica, por possibilitar identificações que poderão influenciar seu desenvolvimento a posteriori (Spitz, 1996; Klaus, Kennel e Klaus, 2000; Maldonado, 2002).

Nesta perspectiva, torna-se fundamental compreender os momentos iniciais para a formação do vínculo mãe-bebê, considerando, neste sentido, o período da gestação ao puerpério como momento privilegiado para este entendimento. É neste período que a mulher depara-se com inúmeras mudanças físicas e emocionais. A troca de papéis, as mudanças na rotina diária, as abdicações e preocupações, as atenções dedicadas ao bebê são algumas das características deste período, que estão diretamente relacionadas à qualidade do vínculo que será formado entre a mãe e seu bebê. Para que seja possível uma troca afetiva favorável entre a díade, a mãe necessita estar apta a estabelecer este vínculo, o que só será possível a partir de uma boa vivência de suas experiências relacionadas à gestação e ao puerpério (Borsa e Dias, 2004).

A opção em desenvolver esta breve revisão teórica advém do interesse em compreender a relação mãe-bebê e a formação do vínculo entre a díade, tendo em vista a importância desta relação para o desenvolvimento da criança ao longo de toda sua vida.

Gestação: Construindo uma Relação de Amor

A gestação é um evento complexo, onde ocorrem diversas mudanças na vida da mulher. Trata-se de uma experiência repleta de sentimentos intensos, variados e ambivalentes que podem dar vazão a conteúdos inconscientes da mãe. A relação da mãe com seu filho já começa na gestação e será a base da relação mãe-bebê, a qual se estabelecerá depois do nascimento e ao longo do desenvolvimento da criança (Brazelton e Cramer, 2002; Caron, 2000; Klaus e Kennel, 1993; Raphael-Leff, 1997 e Soifer, 1992). De acordo com estudo realizado por Piccinini, Gomes, Moreira e Lopes (2004), a relação mãe-bebê começa, de fato, no período pré-natal, indo ao encontro dos achados teóricos sobre

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Disponível em: w.contemporaneo.org.br/contemporanea.php 312 este tema. Os resultados do presente estudo apóiam a idéia de que no período pré-natal os pais já constroem a noção de individualidade do bebê, reconhecendo alguns de seus comportamentos e características temperamentais. Ademais, desde muito cedo os pais estabelecem um modo costumeiro de interação com o feto, através de informações, tais como, sexo, maneira de movimentar-se e determinam a estruturação de um padrão de interação precoce, que tende a continuar após o nascimento. Este estudo apontou a existência de uma relação maternofetal bastante intensa, a qual é embasada especialmente nos sentimentos ou expectativas da gestante sobre o bebê. Os resultados sugerem que conhecer o bebê antes do nascimento, estar com ele, pensar sobre ele, imaginar suas características, traz implicações para a construção da representação do bebê, da maternidade e para a posterior relação mãebebê.

O período da gestação é caracterizado por inúmeras mudanças e, ainda, por sentimentos ambivalentes que estão intimamente relacionados à história e às experiências vividas pela gestante ao longo da sua vida. Para Brazelton & Cramer (2002), a gravidez de uma mulher reflete toda a sua vida anterior à concepção, suas experiências com os próprios pais, sua vivência do triângulo edipiano, as forças que a levaram a adaptar-se com maior ou menor sucesso a essa situação e, finalmente, separar-se de seus pais. Tudo isso, para os autores, influi em sua adaptação ao novo papel. A gravidez dá às mães uma nova oportunidade de elaborarem velhos conflitos de separação, promovendo uma nova fase em seu processo de se desprender (individuação) das relações simbióticas originais. Assim, a gravidez não é só um período de ensaios e expectativas, mas constitui também uma fase em que velhos relacionamentos podem ser mentalmente retrabalhados, podendo ser concebida como um período de constante confronto entre a satisfação de desejos e o reconhecimento da realidade.

Para Brazelton (1988), a maioria das mulheres experimenta uma combinação de sentimentos de desamparo, ansiedade e agradável expectativa; a energia que é retirada de suas vidas diárias é utilizada para selecionar esses sentimentos. O período de gravidez, segundo o autor, é uma época para que se aprenda tanto sobre si mesma e sobre o novo papel, quanto seja possível. Considerando este aspecto, Maldonado (2002) considera que a gravidez implica a perspectiva de grandes mudanças o que, evidentemente, envolve perdas e ganhos, e isso, por si só, justificaria a existência de sentimentos opostos entre si. Por fim, Caron (2000), aponta o período da gestação como um terremoto hormonal, físico e psicológico que encerra os maiores desafios, segredos e incertezas do ser humano, ou seja, a gestação é cercada de mistérios insolúveis e estranhas reações que acompanham todo desenvolver do processo até o parto (Caron, 2000). Assim, o parto e os primeiros momentos com o bebê encerram este período que, por sua vez, é repleto de expectativas e fantasias. Para Maldonado (2002), a gravidez é considerada um período

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Disponível em: w.contemporaneo.org.br/contemporanea.php 313 de grande vulnerabilidade, no qual os sentimentos ambivalentes são características marcantes. Esses, contudo, assumem nova configuração após o parto. A realidade do bebê imaginário, na barriga da mãe não é a mesma realidade do bebê recém-nascido. Muitas mães tendem a negar antecipadamente a realidade do seu bebê nas primeiras semanas de vida, sentindo-se assustadas e confusas diante dos primeiros cuidados. No momento em que a criança adquire vida própria, diferente da vida intrauterina, ela incorpora-se, efetivamente, como um novo integrante na família, o que, sem dúvida, transforma o equilíbrio familiar, que já havia passado por algumas transformações durante a gravidez (Soifer, 1992).

A Chegada do Bebê e os Primeiros Meses do Puerpério

O nascimento do bebê é um período emocionalmente vulnerável, devido às profundas mudanças intra e interpessoais desencadeadas pelo parto. Com o parto quebra-se a imagem idealizada do bebê ao mesmo tempo em que este passa a se tornar um ser independente da mãe, recebendo todo o carinho e atenção que antes era desprendido à gestante. Este momento é, portanto, onde a mãe irá atribuir um novo significado à experiência da maternidade (Borsa e Dias, 2004). Neste contexto, segundo Klaus, Kennel & Klaus (2000), o apoio emocional é um ingrediente essencial para todas as mulheres. Ele é necessário para o aumento não só da saúde física e emocional da mãe durante o nascimento da criança, mas também com a relação especial que estabelece a ligação entre pais e deles com o bebê.

Os primeiros dias após o nascimento são carregados de emoções intensas e variadas. As primeiras vinte e quatro horas constituem um período de recuperação da fadiga do parto. A sensação de desconforto permanece lado a lado com a excitação pelo nascimento do filho. Assim, compreende-se o quanto é complexo este momento para vida da mulher possibilitando inúmeros sentimentos ambivalentes. A labilidade emocional é o padrão mais característico da primeira semana após o parto, já que a euforia e a depressão alternam-se rapidamente, essa última podendo atingir, em muitos casos, grande intensidade (Maldonado, 2002).

O primeiro trimestre do puerpério caracteriza-se como um período de transição onde a mulher torna-se especialmente sensível e confusa, com o aparecimento de sintomas ansiosos e depressivos. Durante a gravidez o filho é muitas vezes sentido como parte do corpo materno e, por essa razão, o nascimento pode ser visto como uma amputação de parte do seu corpo. Após o parto, a mãe percebe que o bebê é outra pessoa; nesse sentido torna-se necessário elaborar a perda deste bebê da fantasia para entrar em contato com o bebê real. Com o desaparecimento gradativo desta imagem idealizada, vem muitas vezes desapontamento, desânimo e a impressão de ser incapaz de enfrentar a nova realidade (Maldonado, 2002).

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Neste contexto, há aspectos difíceis e bastante objetivos na relação mãe-bebê que justificam essas reações. Assim, nas primeiras semanas, mãe e filho se conhecem muito pouco, pois ainda não se estabeleceu entre eles um padrão de comunicação e, com freqüência, a mãe não sabe distinguir quais são as necessidades do bebê. É, portanto, no início uma relação bem pouco estruturada, não-verbal e, por isso, intensamente emocional. Essas características dão margem a amplas possibilidades de interpretações projetivas por parte da mãe. Como já foi mencionado anteriormente, as atitudes maternas em relação ao bebê são, em geral, ambivalentes. É comum que a hostilidade seja reprimida e encoberta por formações reativas freqüentemente estimuladas pela família (Maldonado, 2002; Soifer, 1992). Compreende-se que os três primeiros meses após o parto (o puerpério) marcam um período significativamente importante, quanto à formação do vínculo, tanto para a mãe quanto para o bebê, podendo determinar a qualidade da ligação afetiva que irá se estabelecer entre os membros da díade (Borsa e Dias 2004; Maldonado, 2002).

A Relação Mãe-Bebê e a Formação do Vínculo

Muitos são aqueles que se dedicaram a estudar a relação mãe-bebê e a formação do vinculo e do apego. Dentre eles, através de uma breve síntese, referiremos as contribuições John Bowlby, Donald Winnicott, Renné Spitz, Serge Lebovici e Margareth Mahler. Segundo Wendland (2001), é possível observar que todos os pensadores psicanalíticos conferem especial atenção às primeiras vivências e à formação do vínculo entre a mãe e o bebê, das quais emergem a relações ulteriores da criança. A expressão ‘formação do vínculo’, de acordo do Klaus, Kennel & Klaus (2000), refere-se ao investimento emocional dos pais em seu filho. É um processo que é formado e cresce com repetidas experiências significativas e prazerosas. Ao mesmo tempo outro elo, geralmente chamado de ‘apego’, desenvolve-se nas crianças em relação a seus pais e a outras pessoas que ajudem a cuidar delas. É a partir dessa conexão emocional que os bebês podem começar a desenvolver um sentido do que eles são, e a partir do que uma criança pode evoluir e ser capaz de aventurar-se no mundo (p. 167).

Dentre as concepções psicanalíticas, a teoria do apego de Bowlby foi a das que mais deu impulso às pesquisas com implicações clínicas nas últimas três décadas. O destaque que tem merecido as concepções de Bowlby deve-se, sobretudo, às repercussões do vínculo afetivo no desenvolvimento e saúde mental da criança. A ênfase de Bowlby nas competências precoces e na tendência inata do recém nascido influenciou, profundamente, os estudos sobre as interações entre as mães e seus

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Disponível em: w.contemporaneo.org.br/contemporanea.php 315 bebês, atribuindo ao segundo um papel ativo na construção da relação (Wendland, 2001). O termo Apego nomeia as relações afetivas que os indivíduos estabelecem ao longo da vida. As relações de apego estabelecidas inicialmente com os pais e, posteriormente com outras pessoas, ocorrem com o propósito de garantir ao ser humano a proteção, o suporte e a segurança necessária para sua saúde mental. De acordo com o autor (1989),

qualquer forma de comportamento que resulte em uma

pessoa (criança) alcançar e manter a proximidade com algum outro indivíduo claramente identificado (mãe), considerado mais apto para lidar com o mundo" (p.39).

Bowlby reforça a importância de os pais fornecerem uma base segura a partir da qual a criança ou o adolescente possa explorar o mundo de forma a se sentirem física e emocionalmente amparados, confortados se houver um sofrimento e encorajados se estiverem ameaçados. De acordo com o autor, estudos comprovam que crianças que obtiveram um apego seguro com suas mães tendem a se tornar, no futuro, indivíduos cooperativos, autoconfiantes e sociáveis. No entanto, esses mesmos estudos confirmam que as crianças que não estabeleceram uma relação de apego satisfatória tendem a se tornarem emocionalmente afastadas, hostis ou anti-sociais. Essas crianças mostram uma mistura de insegurança que inclui tristeza e medo, intimidade alternada com hostilidade. Com isso Bowlby reforça a idéia de que à medida que a criança cresce, o modelo de apego que esta conseguiu estabelecer inicialmente com a mãe se tornará cada vez mais uma propriedade da própria criança, o que significa que ela tenderá a impô-lo, ou algum derivado dele, às novas relações que irá estabelecer ao longo da vida (Wendland, 2001; Bowlby, 1989; Mondardo e Valentina, 1998).

Outro autor que trouxe contribuições significativas na compreensão da relação mãe-bebê foi Donald Winnicott. Para Winnicott (1998; 2001), é só na presença de uma mãe suficientemente boa que a criança pode iniciar o processo de desenvolvimento pessoal e real. A mãe suficientemente boa é flexível o suficiente para poder acompanhar o filho em suas necessidades, as quais oscilam e evoluem no percurso para a maturidade e a autonomia. A mãe suficientemente boa possui sensibilidade peculiar que a leva a poder sentir como se estivesse no lugar do bebê; é por esta via que ela responde às suas necessidades que são inicialmente corporais e posteriormente, necessidades do ego. Winnicott (2000), salienta que a mãe pode vir a falhar em satisfazer as exigências instintivas, mas pode ser perfeitamente bem sucedida em jamais deixar que o bebê se sinta desamparado, provendo as suas necessidades egóicas até o momento em que ele já possua introjetada uma mãe que apóia o ego e que tenha idade suficiente para manter essa introjeção apesar das falhas do ambiente a esse respeito. Quando o par mãe-bebê funciona bem o ego da criança é apoiado em todos os aspectos. O bebê bem cuidado

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Disponível em: w.contemporaneo.org.br/contemporanea.php 316 rapidamente estabelece-se como pessoa ao passo que o bebê que recebe apoio egóico inadequado ou patológico tende a apresentar padrões de comportamento caracterizados por inquietude, estranhamento, apatia, inibição e complacência (Winnicott, 1998, 2000, 2001).

Assim, tanto a mãe quanto o ambiente devem ser suficientemente bons para que haja no bebê, de fato, no bebê uma formação emocional saudável. Entretanto, caso a mãe não seja suficientemente boa e esse cuidado apresente falhas onde se estabeleça carências que não são corrigidas, o bebê poderá ter um comprometimento na constituição de sua subjetividade devido a esta deficiente relação materna. A privação de relações objetais ao longo do primeiro ano de vida é um fator muito prejudicial, que leva a sérios distúrbios emocionais na criança, como se esta estivesse sendo privada de algum elemento vital à sobrevivência (Winnicott, 1998).

Winnicott (2001) cita a relevância da atenção que a mãe dedica ao seu bebê utilizando a expressão Preocupação Materna Primária (p21). Este conceito diz respeito ao estado psíquico atingido pela mãe saudável, colocando-se em posição de oferecer um ambiente suficientemente bom para o desenvolvimento das potencialidades inatas de seu bebê. Essa condição organizada poderia ser comparada a um estado de retraimento ou de dissociação, ou a uma fuga, ou mesmo a um distúrbio em nível mais profundo. A mãe que desenvolve esse estado fornece um contexto para que a constituição da criança comece a se manifestar, para que as tendências ao desenvolvimento comecem a desdobrar-se e para que o bebê comece a experimentar movimentos espontâneos e se torne dono das sensações correspondentes a essa etapa inicial da vida. Essa preocupação única e a abertura para o bebê que se cria dentro da mãe são cruciais no processo de vínculo (Winnicott, 1998, 2000, 2001).

bebê e conferir qualidade de vida ao bebê

Em se tratando da relação da díade e do sentimento materno em relação ao bebê, Spitz (2000), apontou como inestimável a importância dos sentimentos da mãe em relação ao seu filho. Para o autor quase todas as mulheres se tornam meigas, amorosas e dedicadas na maternidade. Criam na relação mãe-filho o que se denomina Clima Emocional Favorável (p99), sob todos os aspectos, ao desenvolvimento da criança. São sentimentos maternos em relação ao filho que criam esse clima emocional. O amor e afeição pelo filho o tornam um objeto de continuo interesse para a mãe e, além desse interesse persistente, ela oferece uma gama sempre renovada, rica e variada, todo um mundo de experiências vitais. O que torna essas experiências tão importantes para a criança é o fato de que elas são interligadas, enriquecidas e caracterizadas pelo afeto materno e a criança responde afetivamente a este afeto. Portanto a atitude emocional e a afetiva da mãe servirá para orientar os afetos do

Sobre a relevância da relação mãe-bebê, Spitz (2000), aponta outro aspecto importante na relação da díade: A mãe representa os dados ambientais, ou seja, a mãe é o representante do ambiente. Pode-se alegar

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Disponível em: w.contemporaneo.org.br/contemporanea.php 317 que a mãe não é o único ser humano no ambiente da criança, nem o único que tem influência emocional; o ambiente compreende pai, irmãos, parentes e outros, podendo ter todos eles significado afetivo para a criança. Mesmo o ambiente cultural e seus costumes têm influencia já no decorrer do primeiro ano de vida. Entretanto, é importante lembrar que, na cultura ocidental, estas influências são transmitidas à criança pela mãe ou seu substituto. Bowlby (1989) reforça essa idéia ao dizer que durante os primeiros anos de vida de um indivíduo, o modelo de self em interação com a mãe é o que exerce a maior influencia. Isto não causaria muita surpresa, já que em todas as culturas conhecidas, a grande maioria dos bebês e crianças interage muito mais com a mãe do que com o pai.

De acordo com Lebovici (1987), a interação mãe-bebê é hoje concebida como um processo ao longo do qual a mãe entra em comunicação com o bebê, enviando-lhe mensagens enquanto que o bebê, por sua vez, responde à mãe como a ajuda de seus próprios meios. A interação mãe-bebê aparece assim como o protótipo de todas as formas ulteriores de troca. Nesta relação, as palavras e as frases são substituídas, muitas vezes, por mensagens extraverbais como os gestos, as vocalizações, sorrisos, etc. Sobre este aspecto, acrescenta:

“No momento em que, pela primeira vez, uma mãe toma seu recém nascido nos braços, toca-o, fala-lhe, ela o olha, ela lhe oferece seu cheiro e seu calor; já suas características de mãe são além de dados objetáveis tais como aparecem a nós, adultos: são igualmente e em conjunto outros tantos estímulos interacionais que o bebê pode receber, pois ele tem já capacidades sensoriais: visuais, auditivas, olfativas, etc”.

Por fim, cumpre revisar as relevantes contribuições de Margareth

Mahler ao desenvolvimento infantil, as quais reforçam as idéias desenvolvidas por Bowlby quanto ao estabelecimento, através dos cuidados parentais, de uma base segura aos filhos. Suas contribuições referem-se à importância fornecida às relações de objeto precoces, ou seja, ao vínculo com a mãe, às angústias de separação e aos processos de luto nas etapas evolutivas. Mahler destacou o papel da fantasia de simbiose e do processo de individualização, ilustrando a importância dos movimentos de aproximação e distanciamento, bem como sistematizou, por fim, uma forma de terapia conjunta mãe-bebê. (Mahler, 1993; 1982; Mondardo e Valentina, 1998). Sua teoria do Processo de Separação- Individuação apóia-se sobre uma comparação do desenvolvimento da criança normal e da criança psicótica. Tendo reconhecido duas formas de psicoses infantis, ela opõe sua forma autística e simbiótica e as compara ao que ela chama a etapa autística e a etapa simbiótica do desenvolvimento. A evolução normal ou patológica da criança seria conseqüência da forma como se configurariam as etapas anteriores e, principalmente, esta última fase do desenvolvimento mental. A origem da enfermidade mental estaria, pois, nas dificuldades encontradas pela

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