Estruturando uma matriz de decisão para uma construtora

Estruturando uma matriz de decisão para uma construtora

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Estruturando uma matriz de decisão para uma obra civil

Antonio Fernando Navarro1 w.scribd.com/antoniofernandonavarro

Introdução

Em uma obra civil, ou de construção civil, inúmeros são os riscos mensuráveis, alguns parcialmente mensuráveis e outros nem tanto. Esses riscos não decorrem única e exclusivamente da obra ou na obra, como por exemplo, um acidente durante a realização de uma atividade, ou a queda de uma ferramenta sobre um carro que esteja passando nas proximidades.

Há riscos não de todo percebidos, mas que são riscos, como por exemplo, a elaboração de um excelente projeto e a escolha inadequada do local, ou o lançamento de um projeto em um local muito bom, porém com a economia em crise.

Riscos, para nós são evento súbitos, possíveis, futuros, independente da vontade das partes e que podem ser mensurados de alguma maneira, até para que se possa repô-los, não planejados, que trazem como consequência perdas ou danos.

Somente nessa pequena definição trazemos à luz alguns conceitos que não são tão comuns assim, ou tão bem entendidos, como por exemplo, a diferença entre uma perda e um dano, ou o fato de existirem riscos com vários graus de mensuração.

Quando se menciona que um risco é um evento não planejado e associando a uma construção civil, nos vem à mente uma das inúmeras obrigatoriedades legais, através das normas regulamentadoras inseridas na Portaria nº 3,214/78, que trata da proteção do prédio em construção com a instalação de telas ou malhas finas, para conter materiais que possam ser projetados e atinjam

1 Antonio Fernando Navarro é Físico, Engenheiro Civil, Engenheiro de Segurança do Trabalho (da Universidade Federal

Fluminense) e Mestre em Saúde e Meio Ambiente, tendo atuado em atividades industriais por mais de 30 anos como Gerente de Riscos, principalmente em seguradoras e para o IRB Brasil Re, nesse, como Perito de grandes sinistros. Também é professor da Universidade Federal Fluminense – UFF do curso de Ciências Atuatriais.

terceiros à obra. Ora, se a tela não é instalada e reconhece-se que há o risco, esse deixa de ser não planejado, para ser planejado. Os danos causados passam de culposos para dolosos, na medida em que propositalmente deixou-se de cumprir uma lei.

Ainda empregando os textos legais, há a obrigatoriedade dos trabalhadores empregarem cintos de segurança quando executarem atividades a mais de dois metros de altura. Se um gerente determinar que o trabalhador conclua rapidamente uma atividade em altura e não lhe permita o tempo necessário para que busque seu EPI e o utilize corretamente, também estará a empresa incorrendo em responsabilidade legal. Más, este não é tema de nosso artigo.

O propósito aqui é o de trazer à luz os conceitos de Matriz de Decisão, a fim de que, com o conhecimento dos mesmos possamos, em primeiro lugar, poder fazer uso de instrumentos de avaliação e análise de riscos e de oportunidades, para poder ampliar suas oportunidades de negócios e ou a redução de seus riscos, assim como aprender a hierarquizar os riscos e inseri-los em matrizes decisórias para alcançar seu intento.

Existem inúmeras formas de identificação dos riscos, conforme seus propósitos.

Se a empresa deseja ampliar o nível de segurança dos trabalhadores quanto a ocorrência de acidentes do trabalho, a empresa pode utilizar-se não só da legislação específica como também de “ferramentas de análise de riscos” difundidas em artigos, literaturas específicas e nos programas de capacitação para a formação dos técnicos de segurança e dos engenheiros de segurança do trabalho. Contudo, os demais riscos não são tão facilmente enquadrados nessas ferramentas ou planilhas.

Alguns dos exemplos a seguir demonstram o quão difícil pode ser esse enquadramento:

Uma empresa participa de uma concorrência para a execução de uma obra.

Durante a elaboração do projeto executivo e após a realização das análises necessárias descobre que o projeto fornecido pelo contratante precisará ser alterado em alguns de seus aspectos. Isso significará um aumento dos custos contratuais.

Há legislação específica que trata da questão do “equilíbrio econômicofinanceiro” de um contrato, podendo o mesmo, em uma instância última ser rescindido. Assim, houve perdas com o cancelamento do contrato? Sim, porque muitos se dedicaram a estuda-los e a empresa mobilizou recursos que não serão ressarcidos.

Uma empresa assume um contrato de execução de uma obra, em cujo contrato há severas multas por atrasos. Ao longo do cronograma, e com o “mercado” aquecido, há falta de trabalhadores qualificados. Também, em função dessa mesma mudança de cenários podem faltar materiais de obra, como o aço para as ferragens, o concreto para as estruturas, pelas elevadas demandas de mercado, a falta ou restrição de fornecimento de materiais e ou equipamentos. Em um contrato justo, esse tipo de ocorrências não justifica atrasos.

Quase sempre nos contratos há previsões de atrasos em decorrência de fatores climáticos anormais. Hoje choveu e não houve obra. Amanhã também choverá e não ocorrerá obra. Se isso vier a ocorrer além daquilo que é esperado a empresa não pode ser penalizada. Destarte o fato de que muitas das atividades não podem e não devem ser executadas sob chuva, principalmente pela ocorrência de raios, isso por razões de segurança do trabalho. Nesses casos, um adequado planejamento da obra pode transferir os trabalhadores para atividades em ambientes internos ou protegidos e mesmo aplicar os programas de capacitação periódica previstos em contrato.

Muitos outros podem ser os exemplos de situações ou fatos que podem causar perdas econômico-financeiras e prejudicar o “caixa” da empresa. Até por essa razão, a aplicação de ferramentas adicionais de decisão, como uma matriz decisória passa a ser importante. De quando em vez são apresentadas situações envolvendo grandes obras ou mesmo obras que requerem elevada competência técnica onde itens importantes ou relevantes foram esquecidos ou não previstos.

Assim, depois de entendermos o que é uma matriz decisória e como é estruturada poderemos não só elaborá-las como também aplica-las para os mais diversos fins. Sim, porque não há uma única Matriz que possa abranger todas as áreas de conhecimento ou mesmo todas as atividades de uma empresa.

Um Balancete Mensal é uma matriz decisória, por mais estranho que possa parecer, pois que, através de suas informações os acionistas da empresa podem tomar suas decisões. Desta maneira, a aplicação de um questionário para a composição de uma Matriz Decisória deve ter um objetivo, qual seja, o de estabelecer planos de ação.

Um plano de ação não é tão somente um plano derivado de uma Ata de Reunião. É uma estruturação hierarquizada de responsabilidades, onde se tem:

• problema observado;

• consequências que podem advir da persistência do problema sem qualquer ação neutralizadora;

• identificação do responsável pelas ações corretivas ou eliminatórias;

• prazos exigidos para as soluções; • responsáveis pela verificação da eficácia das ações tomadas;

• prazos futuros definidos para que se avaliem se os problemas não voltaram a ocorrer;

• problemas que são devidos a falhas da empresa, quase sempre pela ausência de procedimentos, ou procedimentos que apresentam lacunas em suas interpretações;

• desdobramentos dos efeitos das não conformidades;

• custos envolvidos na solução dos problemas e nos impactos para a empresa se os mesmos não forem solucionados, entre outros.

Os planos não devem seguir modelos pré-determinados, do tipo: “se isso é bom para uma empresa também o é para a nossa”, isso porque nem todas as empresas possuem estruturas de pessoal capazes de identificar as não conformidades e de corrigi-las eficazmente. Contudo, os planos de ação devem ser avaliados por ocasião da definição de estratégias, metodologias, avaliações de riscos, entre outras.

Também é importante que haja registros desses planos de ação e que esses venham a ser incorporados aos procedimentos ou planejamentos da empresa. Uma empresa que avalia e reconhece seus próprios erros é uma empresa madura para o mercado. É uma empresa que tende a se aproveitar de sua flexibilidade de mudanças para concorrer com as demais empresas do mercado.

O que é uma Matriz Decisória?

Uma matriz decisória é apenas mais um instrumento ou uma ferramenta de gestão, onde são informados itens que sejam relevantes, a critério da própria empresa ou de quem a aplica, e, a partir daí, podem ser atribuídas notas ou pontos específicos a cada questão. A partir daí pode ocorrer a hierarquização das ações reparadoras, mitigadoras ou de proteção.

Para que os resultados sejam mais uniformes e não dependam unicamente do grau de conhecimento ou cultura de quem aplica os questionários, são formuladas perguntas e para essas podem ser atribuídas várias respostas. Por exemplo, se em um projeto há precisão do empastilhamento das paredes laterais com pastilhas cerâmicas de 25 x 50 m na cor gelo, e o mercado não tem a quantidade disponível, pode substituí-las por pastilhas de 50 x 50 m?

Por exemplo, imaginemos um questionário onde a pergunta básica seja:

A empresa tem implementado um plano de ação para o atendimento às emergências ambientais? Para essa questão podemos ter três respostas, como a saber:

(1) a empresa não possui plano de ação para atendimento a emergências; (2) a empresa possui um plano para atendimento a emergências ambientais, porém está em fase de capacitação de seus empregados; (3) a empresa possui um plano e esse é do conhecimento de todos.

A alta gerência da empresa pode admitir que um de seus pontos fortes é a da facilidade de moldar-se às mudanças e de ter profissionais capacitados capazes de atender com facilidade aos planos ou aos projetos apresentados.

Há empresas que são capazes de realizar vários projetos com a mesma competência. Outras que não têm nem a cultura e nem o pessoal necessário para isso. Uma construtora que executa somente edifícios residenciais para as classes C e D dificilmente terá condições de executar obras de alto luxo, porque há muitas diferenças na execução do projeto.

Voltando ao questionamento anterior, suponhamos que o auditor tenha entendido que a nota atribuída ao item é 3. Para ele, foi apresentado um plano e informado que todos têm conhecimento do plano de Emergência.

Um bom Auditor não se contenta apenas em ouvir respostas, o que é muito comum. Também não deve se basear somente naquilo que leu nos procedimentos e nas planilhas de treinamento com as assinaturas de todos os envolvidos. O profissional deve ir a campo e formular aleatoriamente perguntas sobre o procedimento para algumas pessoas. Em vista das respostas obtidas ele irá lançar a nota máxima ou não. Nesse processo deve haver imparcialidade.

Não pode existir o “quase”. Até mesmo em função disso percebe-se que há muitas empresas certificadas e que os empregados não tem o conhecimento de muitas das normas aplicadas às suas atividades.

Qual a diferença entre ações pontuais e ações sistêmicas?

Uma ação é pontual é localizada ou é restrita, daí a razão do nome estar relacionado a ponto. Por exemplo, um encarregado não conhece bem os procedimentos da empresa. Assim, passa a ser natural que muitos de seus funcionários também não o saibam. Se a chefia não conhece os procedimentos como irá repassar parra seus subordinados, e mais ainda, cobrar deles o cumprimento do contido nos procedimentos?

Uma ação é sistêmica quando um gerente não conhece bem os procedimentos a que é obrigado a cumprir. Seguindo uma cadeia hierárquica, seus encarregados e os subordinados desses também passam a não conhecer os procedimentos.

Em análises sobre SMS realizadas no Mar do Norte voltadas para empresas da área de Óleo e Gás, percebeu-se que em empresas onde as gerências encontravam-se focadas no atendimento aos prazos, exclusivamente, terminavam deixando de lado questões como organização e limpeza e mesmo o atendimento às regras de Segurança, Meio Ambiente e Saúde. Para essas empresas, voltadas a atendimento de prazos, “atalhos”, ou o descumprimento parcial ou total dos procedimentos, não era incomum. Quando mencionamos gerente, poderemos estar nos referindo à alta direção do empreendimento.

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