Cuidados com população de rua

Cuidados com população de rua

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Assim, citamos abaixo alguns pontos importantes relacionados ao território que devem ser observados pela equipe na realização do diagnóstico:

– Forma como a população em situação de rua circula no território; – A relação da comunidade com essa população;

– Características geográficas, econômicas e sociais;

– Aspectos históricos e políticos;

– Divisão administrativa;

– Condições de vulnerabilidade e violência;

– Condições sanitárias e ambientais;

– Determinantes de saúde e doença;

– Cultura local;

– Equipamentos existentes no território (governamentais e não governamentais).

Grupo social: considerando ser a população em situação de rua, um grupo social que tem a maioria de seus direitos negados por um processo de exclusão social, ao qual Castel (1997, p. 28-29) denomina de “sobrantes”, indivíduos “que foram inválidos pela conjuntura econômica e social dos últimos vinte anos e que se encontram completamente atomizados, rejeitados de circuitos que uma utilidade social poderia atribuir-lhes”.

No entanto, apesar da realidade citada acima, verificamos que pela convivência grupal – que é necessidade fundamental do ser humano – na rua essa população ressignifica suas relações sociais, constituindo novos grupos que se caracterizam por identidades definidoras de comportamento e da necessidade da sobrevivência.

Assim, é comum encontrarmos os indivíduos em situação de rua acompanhados ou próximos das mesmas pessoas, dormindo nos mesmos lugares, reconstruindo vínculos afetivos, que em muitas das vezes reproduzem o contexto familiar, até com denominações peculiares, tais como: família da rua, irmão da rua, mãe/pai da rua, filho da rua.

Dessa forma, citamos abaixo alguns pontos importantes relacionados ao grupo social que devem ser observados pela equipe na realização do diagnóstico:

• Necessidade de identificar se o indivíduo está ou não vinculado a outra pessoa ou a algum grupo social na rua;

MINISTÉRIO DA SAÚDE36

• Faixa etária do grupo ao qual o indivíduo encontra-se inserido; • Relações de gênero estabelecidas nos grupos;

• Uso de álcool e outras drogas;

• Atividades econômicas;

• Possíveis envolvimentos com ações ilícitas;

• Condições de risco e vulnerabilidade;

• Potencialidades do grupo social;

• Fluxos de circulação dos grupos no território;

• Prostituição masculina e feminina;

• Relações com o comércio e a comunidade local.

Singularidade do sujeito: cada ser humano traz consigo a marca da sua história e trajetória de vida, o que determina a sua singularidade. A partir desse princípio, o profissional de saúde que trabalha com população em situação de rua não pode deixar de considerar todos os aspectos subjetivos que contribuem para construir a identidade do sujeito e o lugar que hoje ocupa na sociedade e em seu contexto de vida.

Reconhecer que o indivíduo em situação de rua tem uma história que em algum momento o levou para a rua, é fator primordial para a realização do diagnóstico por parte do profissional de saúde. Vale ressaltar que nos dias de hoje encontramos nos contextos urbanos os chamados “filhos” e “netos” da rua, pessoas que já nasceram e se criaram em situação de rua, tendo menores oportunidades de inclusão social.

Dessa forma, citamos abaixo alguns pontos importantes relacionados à singularidade do sujeito que devem ser observados pela equipe na realização do diagnóstico:

– História de vida do sujeito; – vínculos familiares;

– Queixas e demandas principais de saúde;

– Potencialidades do indivíduo;

– Grau de instrução;

– Origem do sujeito;

– Faixa etária;

– Tempo em situação de rua;

– Uso de álcool e outras drogas;

– Condição de saúde (sofrimentos emocionais, doenças crônicas, dermatoses, tuberculose etc.);

– Uso de medicamentos;

– Forma de geração de renda;

– Riscos e vulnerabilidades.

Para realizar o diagnóstico conforme acima descrito, a equipe deverá construir um planejamento de ações diárias, como um roteiro a ser seguido em território na abordagem ao usuário. Esse roteiro deve contemplar os pontos de atendimento que serão realizados pela equipe a cada dia da semana, bem como outros fatores relacionados ao seu processo de trabalho no contexto de cada território, levando em consideração os diferentes perfis de grupo e observando os critérios para a gestão de riscos eminentes no atendimento in loco.

37Manual sobre 0 Cuidado à saúde junto a PoPulação eM situação de rua

A seguir, desenvolvemos orientações de ferramentas para processos de trabalho que devem nortear as equipes do Consultório na Rua no que se refere à cartografia, abordagem e acolhimento.

4.1 cArtogrAFiA

Iacã Macerata

Claudia de Paula

Laila Louzada Ana Lúcia Gomes

Entendemos Cartografia como a leitura de diversos mapas existentes no território traduzindo-se por informações, impressões, observações, sinalizações, sentimentos que contribuem para a construção de um certo campo produtor de subjetividades e devem ser levados em consideração no dinamismo dos diversos contextos da rua.

A grande função da cartografia é criar uma imagem para a equipe que não necessariamente vai dar conta de todos os fatores que componham esse território; a equipe deve procurar se familiarizar com ele. Pode fazer desenhos da área, construindo uma imagem própria do território, e essa imagem é dinâmica, vai mudar e é importante que mude.

A primeira etapa da construção do diagnóstico é a cartografia do campo de atuação das Equipes dos

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