Cuidados com população de rua

Cuidados com população de rua

(Parte 6 de 7)

– Atuar com estratégia de redução de danos;

– Fazer busca ativa de agravos prevalentes na rua, priorizando a tuberculose, DST, hepatites

virais, dermatoses, uso abusivo de álcool e outras drogas, entre outros;

– Realizar atividades em grupo.

45Manual sobre 0 Cuidado à saúde junto a PoPulação eM situação de rua

O técnico em saúde bucal (TSB) da equipe do Consultório na Rua deverá desenvolver suas ações em articulação com uma equipe de Saúde Bucal Modalidade I ou I, da Estratégia Saúde da Família ou outras estratégias de organização da atenção básica da área correspondente ao campo de atuação do Consultório na Rua, conforme definição do gestor local. A equipe de Saúde Bucal deverá se responsabilizar pelo atendimento da população e programar atividades em conjunto com o técnico em saúde bucal da equipe do Consultório na Rua. As atividades do TSB serão extraclínicas, com a supervisão indireta do cirurgião-dentista.

As atividades extraclínicas do TSB devem estar de acordo com suas competências técnicas e legais da profissão. Seguem abaixo as principais ações a serem realizadas na equipe do Consultório na Rua:

A seguir, contextualizamos doisrelatos de experiências que ilustram a abordagem multiprofissional.

5.1 relAto de experiÊnciA do SerViço SociAl no Atendimento À peSSoA em SitUAção de rUA

Uma Escola de Vida

“O saber daquele que nada sabe.” (Sócrates) Angélica da Silveira

que senti diante do título de um artigo“Por sorte, existem moradores de rua”. O enfoque do texto,

Apesar de já passados muitos anos, ainda me recordo do sentimento de interrogação e indignação algo religioso e assistencialista, não me agradou. Mas o tempo me mostrou, sem falso moralismo, que

– Trabalhar junto a usuários sobre o tema de álcool, crack e outras drogas, agregando conhecimentos básicos sobre redução de danos;

– Articular junto à rede de saúde;

– Realizar articulação intersetorial;

– Apoiar o desenvolvimento da autonomia;

– Realizar atividades educativas e culturais (educativas e lúdicas);

– Acompanhar o cuidado das pessoas em situação de rua.

1. Acompanhar, apoiar e desenvolver atividades referentes à saúde bucal com os demais membros da equipe do Consultório na Rua, buscando aproximar e integrar ações de saúde de forma multidisciplinar;

2. Realizar ações educativas, atuando na promoção de saúde e prevenção de doenças bucais;

3. Encaminhar e agendar pacientes para a equipe de Saúde Bucal;

4. Desenvolver em equipe ações de promoção da saúde e prevenção de riscos ambientais e sanitários, visando à melhoria da qualidade de vida da população;

6. Organizar o ambiente de trabalho, considerando a sua natureza e as finalidades das ações desenvolvidas em saúde bucal.

MINISTÉRIO DA SAÚDE46 a população em situação de rua é sim uma bela escola de vida.

criança!” Foi um balde de água geladaou melhor, foram baldes e mais baldes durante muitos anos...

Desde os primeiros contatos com essa população, percebi que meus conceitos e valores seriam confrontados a cada atendimento. Não foram poucas as vezes em que precisei me calar para ouvir, como dizia Sócrates, o “saber daquele que nada sabe”. Citando apenas um exemplo, relato minha agonia e preocupação durante os meses de gravidez de uma jovem de 20 anos, grávida pela primeira vez e em situação de rua desde a infância. Preocupei-me com o enxoval, com o lugar que a abrigaria juntamente com o bebê, com sua alimentação durante a gravidez e com a confecção de documentos, para que o filho pudesse ter um registro de nascimento. Ela parecia não dar a menor importância a tudo que eu dizia e não se movia para tomar as providências necessárias. Só percebi que estava no caminho errado quando ela me disse: “Porque você se preocupa tanto com isso? Eu vivi sozinha na rua a minha vida toda e estou muito bem! A única coisa que me preocupa é se vou conseguir ser MÃE para esta

Não se pode negar que, à primeira vista, um grupo de moradores de rua é um triste espetáculo que faz vir à tona nossos sentimentos mais solidários e de compaixão. A possibilidade de ser um profissional em condições de ajudá-los nos dá, a princípio, o estímulo necessário para mergulhar naquele novo mundo.

O serviço social possui as ferramentas para reinseri-los socialmente, por meio dos projetos de formação e emprego, busca das origens familiares e referências antigas, feitura de documentos, escuta, aconselhamento, orientação e acompanhamento. Pode parecer muito, mas pode ser muito pouco. Com alguns, percebe-se que é impossível conseguir algum resultado positivo, e a frustração aparece inevitavelmente. vem a vontade de largar tudo. vem um turbilhão de sentimentos: cansaço, raiva, pena, culpa etc. Somente a experiência nos mostra que não somos nenhum monstro por sentirmos tudo isso. A complexidade dos casos, aliada aos poucos recursos de que dispomos na rede de saúde e assistência social, leva-nos, frequentemente, a questionar a qualidade da nossa formação profissional e, muitas vezes, a uma baixa autoestima. É preciso ter consciência de todos os elementos envolvidos para o sucesso no acompanhamento de uma pessoa em situação de rua para que não se tome para si toda a responsabilidade dos casos malsucedidos.

violênciaNesse círculo que se forma, vê-se a formação de um grupo repleto de contradições. Uns

A começar pela população em geral, as pessoas em situação de rua são sempre vistas como um grupo indesejável. Os usuários das unidades de saúde não se sentem bem em dividir o mesmo espaço; as famílias têm medo quando um deles está em frente à sua casa; os comerciantes querem vê-los longe para não espantar a freguesia; algumas políticas públicas querem tirar deles a liberdade de ir e vir para que não enfeiem a cidade. A violência física e moral estão em todos os lugares. E violência gera plenamente organizados, com leis, valores e hierarquia próprios, dormindo reunidos para se protegerem, dividindo o pouco que têm. Outros onde a solidão toma conta, os roubos e agressões se repetem.

Enfim, cada pessoa em situação de rua tem sua própria história e sua própria forma de lidar com ela. A maioria se viu forçada a ir para rua em decorrência de transtornos mentais, dependência química ou desajustes familiares. Algumas se “acostumaram” e não se veem mais vivendo dentro de quatro paredes, outras anseiam em voltar para casa, mesmo que ela não exista mais. A nós profissionais de serviço social cabe desenvolver a capacidade de perceber onde e quando intervir, sem a ansiedade de querer resolver todas as questões que envolvem a vida de um morador de rua. É possível fazer uma boa intervenção, com ações aparentemente simples. E aprender a valorizar as pequenas conquistas

47Manual sobre 0 Cuidado à saúde junto a PoPulação eM situação de rua também evita que a frustração tome conta. O simples fato de chegarem no dia e horário agendado para uma consulta, em alguns casos, pode ser uma grande vitória!

Mas é por meio do trabalho interdisciplinar que conseguiremos sempre os melhores resultados. O atendimento a uma pessoa em situação de rua requer a união de vários profi ssionais. Uma vez na rua, nenhum aspecto mais daquela vida pode ser abordado individualmente.O sucesso no acompanhamento dos casos dependerá da nossa capacidade de dividir, respeitar e se apoiar nos diversos saberes!

5.2 relAto de experiÊnciA de AtUAção integrAdA dA Atenção BÁSicA e SAÚde mentAl

Construindo um Caminho de Volta

Branca Eliane Bittencourt vera Lúcia Martins

Bernardo já estava uma árvore quando eu o conheci. Passarinhos já construíam casas na palha do seu chapéu. Brisas carregavam borboletas para o seu paletó. E os cachorros usavam fazer de poste as suas pernas. Quando estávamos todos acostumados com aquele Bernardo-Árvore, ele bateu asas e avoou. virou passarinho. Foi para o meio do cerrado ser um arãquã. Sempre ele dizia que o seu maior sonho era ser um arãquã para compor o amanhecer.

Manoel de Barros

Nas sociedades contemporâneas, nos grandes centros urbanos, os loucos errantes, se silenciosos e solitários, dirigindo-se apenas a seus interlocutores imaginários, podem ser vistos transitando num anonimato extremo, às vezes, quase mimetizados ao ambiente, à margem do ir e vir previsível e planejado do cidadão comum.

O caso W, que este trabalho pretende apresentar, retratou perfeitamente essa descrição durante os 12 anos de sua trajetória pelas ruas de Belo Horizonte.

Trata-se de um sujeito portador de sofrimento mental, cujo percurso desde a ruptura ao restabelecimento possível dos laços sociofamiliares agrega três aspectos cruciais. São eles a psicose, a surdez e um longo tempo de moradia na rua.

O desencadeamento da psicose levou W a buscar na rua uma solução para seu sofrimento psíquico.

Já nos primeiros contatos, evidenciava-se que o caso era perpassado pela presença de um sofrimento mental. Além do apego aos fragmentos de objetos recolhidos nas ruas e peculiarmente organizados

MINISTÉRIO DA SAÚDE48 e armazenados, W guardava as refeições novas que lhe eram oferecidas e alimentava-se de comida deteriorada. Em certos períodos, quando a mãe se aproximava, ele demonstrava que não a reconhecia.

As diversas intervenções com seus avanços e retrocessos, que tornaram necessária a reinvenção das ações propostas para a consolidação do projeto terapêutico de W, demonstram a importância da articulação de uma rede composta por diversos atores.

Após 12 anos na rua e quase dois anos de intervenção do CAPS, em julho de 2006, W finalmente voltou para casa. Desde outubro/ 07 referenciado à equipe daESF da unidade básica, continua em tratamento. Encontra-se inserido, com a mãe, em escola para aprendizagem e aperfeiçoamento de libras, onde também frequenta oficinas terapêuticas. Sob iniciativa dele e de sua família, busca-se atualmente sua inserção no mercado de trabalho por meio de vagas destinadas a portadores de deficiência.

Temos convicção de que o desfecho da história deste caso clínico não teria sido o mesmo sem a articulação de ações intersetoriais, que envolveu atores e serviços diversos: a família de W, a equipe de abordagem de rua, as equipes de Saúde Mental e ESF do Centro de Saúde Carlos Chagas, o CAPS e a equipe da ESF do Centro de Saúde Ribeiro de Abreu.

O sucesso das intervençõesesteve fortemente associado à capacidade de as equipes envolvidas romperem com o lugar comum de sua prática cotidiana e, assim, serem capazes da reinvenção necessária levando em contaa especificidade da história de W.

Ao CAPS coube, de início, compreender a singularidade da demanda e, a partir daí, ampliar o conceito de crise, sem repetir o engodo histórico que remete à associação da loucura com a periculosidade. Nesta, o louco representaria risco para si ou para terceiros e o que estaria em questão seria a urgência em debelar o perigo e proteger a sociedade. Em “Saúde Loucura”, Nicácio (1989, p. 98) enfatiza que “as pessoas são atendidas porque estão mal e não porque são perigosas; a responsabilidade dos serviços é em relação ao sofrimento, e não à periculosidade – isso quer dizer que temos uma responsabilidade terapêutica”.

Entre os fatores propiciadores de uma estabilização que permitiu a W abdicar da barreira concreta de proteção que construíra para si, com os recursos que a psicose lhe permitia, ressaltamos a importância do restabelecimento de uma comunicação mais eficaz, por meio da entrada de uma técnica de enfermagem do CAPS que domina a linguagem de sinais, da obtenção do engajamento de W ao tratamento e da possibilidade do uso minimamente sistemático de uma medicação adequada.

A flexibilidade constituiu característica permanente durante a condução do projeto terapêutico de W, construído sobre os princípios do respeito ao sujeito, sua singularidade e liberdade, como norteadores das estratégias que visavam a conseguir o seu consentimento e engajamento voluntário ao tratamento. Sustentamos essa oferta, apesar de suas inúmeras voltas para a rua. Aliás, seu livre trânsito entre o CAPS e a rua foi um dos eixos da condução deste caso. Afinal, ainda conforme Nicácio (1989, p. 9), “está previsto o direito do cidadão de abandonar o tratamento e a obrigação dos serviços de não abandonarem esse cidadão a si mesmo”.

A história de W é, pois, um relato de que a reforma psiquiátrica é tarefa a ser construída por muitas mãos, no incansável atar e desatar dos nós que constroem, diariamente, a rede capaz de sustentá-la.

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