Palma Forrageira - Cultivo, Uso Atual e Perspectivas de Utilização no Semiárido

Palma Forrageira - Cultivo, Uso Atual e Perspectivas de Utilização no Semiárido

(Parte 2 de 7)

de todo o plantel nacional. Ademais, a palma forrageira representa a base de sustentação do gado no semi-árido, oferecendo, ainda, perspectivas de outras alternativas econômicas (alimentação humana, matéria prima para cosméticos, utilização na produção de fármacos, etc.).

Nos 95 milhões de hectares do Semi-árido do Nordeste, em função das condições ambientais, a pecuária, tem se constituído, ao longo do tempo, em uma das principais atividades econômicas e desempenha um papel importantíssimo no sistema agropecuário da região. No entanto, um dos maiores entraves tecnológicos para o êxito desta atividade é a produção de forragens para os rebanhos, que apresenta como fator determinante à deficiência hídrica no solo, associado às altas temperaturas e forte evapotranspiração. O uso de algumas espécies vegetais já adaptadas ao semi-árido, certamente minimiza a escassez de forragens na estação seca. Segundo dados do IBGE (2001) a região Nordeste do Brasil apresenta um rebanho 21.875.110 cabeças de bovinos, 7.336.985 cabeças de ovinos e 8.032.529 cabeças de caprinos, representando, respectivamente, 13,2%, 51% e 93% do rebanho brasileiro. A maioria dessa população tem como base alimentar a utilização de pastagens nativas ou cultivadas, no entanto, com a estacionalidade de produção das forrageiras é necessária a busca de alimentos alternativos.

A palma se consolidou, no Semi-árido nordestino (Figura 1), como forrageira estratégica fundamental nos diversos sistemas de produção pecuário, no entanto, é uma planta de enorme potencial produtivo e de múltiplas utilidades, podendo ser usada na alimentação humana, na produção de medicamentos, cosméticos e corantes, na conservação e recuperação de solos, cercas vivas, paisagismo, além de uma infinidade de usos. É a planta mais explorada e distribuída nas zonas áridas a semi-áridas do mundo, contudo sua real dimensão produtiva ainda não foi plenamente conhecida no Nordeste.

A palma apresenta-se como uma alternativa para as regiões áridas e semi-áridas do nordeste brasileiro, visto que é uma cultura que apresenta aspecto fisiológico especial quanto à absorção, aproveitamento e perda de água, sendo bem adaptada às condições adversas do semiárido, suportando prolongados períodos de estiagem. A presença da palma na dieta dos ruminantes nesse período de seca ajuda aos animais a suprir grande parte da água necessária do corpo. Segundo Silva et al. (1997) um fator importante da palma, é que diferentemente de outras

Figura 1. Estados nordestinos: em cinza, plantadores de palma forrageira.

forragens, apresenta alta taxa de digestão ruminal, sendo a matéria seca degradada extensa e rapidamente, favorecendo maior taxa de passagem e, consequentemente, consumo semelhante ao dos concentrados. A palma frequentemente representa a maior parte do alimento fornecido aos animais durante o período de estiagem nas regiões do semi-árido nordestino, o que é justificado pelas seguintes qualidades: a) bastante rica em água, mucilagem e resíduo mineral; b) apresentam alto coeficiente de digestibilidade da matéria seca e c) tem alta produtividade.

Cultivos bem conduzidos de palma forrageira produzem uma biomassa superior a 150 toneladas de matéria verde/ha/ano (ou 15 toneladas de matéria seca/ha/ano), desde que se associem práticas agronômicas adequadas e variedades de elevado potencial produtivo. Nas principais regiões semi-áridas do Nordeste a palma se constitui no principal alimento fornecido aos rebanhos, independentemente da época do ano.

2. Histórico da introdução da palma no semi-árido nordestino Em 1798, com nova ordem régia, novos jardins botânicos foram instalados em

Pernambuco. O jardim de Olinda receberia plantas e sementes vindas de Caiena, trazidas pelos portugueses, essa remessa incluía muitas especiarias, mas não está claro se o cacto cochonilheiro estava entre elas. Embora nos anos seguintes o jardim tenha recebido diversas outras remessas de plantas e sementes, a palma pode ainda não ter estado entre elas, pelo menos até 1818, quando o governador solicitou a coroa, então instalada no Rio de Janeiro, o envio de várias plantas, e entre elas cactos com a cochonilha. De fato, desde 1811 D. João VI mandara promover no Real Horto Rio a cultura dos cactos com a cochonilha (Real Horto, 2003).

Em seu livro o frei comenta que no Brasil há um cacto conhecido como Urumbeba, que serve de alimento a variedades silvestres de cochonilha, distintas da cochonilha fina mexicana, mas cuja utilidade para a produção de carmim merecia destaque. Não esta claro, entretanto, se além da urumbeba nativa se teria cultivado a essa altura no sul do Brasil alguma variedade inerme do cacto cochonilheiro, trazida de fora. Sabe-se que os cactos com a cochonilha fina foram contrabandeados do México para o Haiti por um naturalista francês em 1777 (Gibson, 2003).

A palma forrageira cultivada no Nordeste brasileiro é utilizada quase que exclusivamente na alimentação animal. Está hoje muito bem adaptada a região semi-árida de diversos Estados. Duas espécies de palma - originárias do México (Domingues, 1963) – são utilizadas pelos agropecuaristas como forrageira para rebanhos: a palma “doce ou miúda” (Nopalea cochenillifera) e a palma “graúda ou gigante” (Opuntia ficus-indica), existindo ainda uma variação desta, conhecida como palma redonda (Arruda, 1983). De acordo com Pessoa (1967) as duas espécies de palma são também conhecidas como palma sem espinho, palmatória e no Sul do país como figo da Índia, figueira da Índia e figueira da Barbária.

Segundo Souza (1966) e Farias et al. (1984) a data de introdução da palma forrageira no

Nordeste não é bem definida, existido ainda muita controvérsia sobre o assunto. Pessoa (1967) relatou que possivelmente tenha ocorrido antes de 1900, enquanto Pupo (1979) afirmou que a introdução dessa cactácea se deu pelo Estado de Pernambuco, oriunda do Texas (EUA), por volta de 1880.

No início do século passado, dois grandes empresários da indústria têxtil, Delmiro

Gouveia e Herman Lundgren, importaram do México a palma para o nordeste brasileiro. A palma hospeda naturalmente um inseto conhecido como Cochonilha e, sua fêmea, ao se alimentar da seiva da planta, produz ácido carmínico que é a substância química de um corante vermelho de alta qualidade, denominado carmim, que se destingue por sua estabilidade quando submetido à oxidação, luz e altas temperaturas. O objetivo dos empresários era produzir o corante para ser empregado no processo de tingimento dos tecidos em suas indústrias. A tecnologia de produção era bastante simples. A palma era cultivada e quando o palmal crescia, o inseto era destinado à infestação. Depois de adulto, era coletado e posto a secar em lonas e, depois de secos eram triturados e transformados em pó. Este pó já poderia ser destinado às linhas de produção como corante. No início da década de 20, os derivados do petróleo (tintas e esmaltes sintéticos) começaram a ser lançados no mercado de maneira intensiva e acabou por inviabilizar o processo de produção do carmim (Suassuna, 2004).

3. Classificação botânica

Face à complexidade do gênero Opuntia, provocada pelas variações fenotípicas reguladas por condições climáticas, pela poliploidia que ocorrem em um grande número de populações, pela alta capacidade de hibridação, a taxonomia do gênero é muito difícil, razão pela qual poucos pesquisadores se dedicam ao seu estudo (Scheinvar, 2001). No mundo, já foram descritas cerca de 300 espécies de cactáceas pertencentes ao gênero Opuntia, distribuídas desde o Canadá até a argentina (Scheinvar, 2001; Reinolds & Arias, 2004). A palma forrageira sem espinho não é nativa do Brasil, foi introduzida por volta de 1880, em Pernambuco, através de sementes importadas do Texas- Estados Unidos. No Nordeste do Brasil são encontrados três tipos distintos de palma: a) gigante - da espécie O. fícus indica (Figura 2); b) redonda – (Opuntia sp); e miúda - (N. cochenillifera).

Na família das cactáceas, existem 178 gêneros com cerca de 2.0 espécies conhecidas. Todavia nos gêneros Opuntia e Nopalea, estão presentes às espécies de palma mais utilizadas como forrageiras. São plantas de extrema importância alimentar e econômica nas zonas áridas e semi-áridas do globo terrestre. Os cladódios (folhas modificadas) alimentam, além do homem, diversas espécies de animais domésticos e selvagens.

O fruto da palma forrageira, conhecido comercialmente como figo-da-india, é ovóide, grande, amarelo ou roxo e com espinhos no pericarpo, possui elevado valor nutritivo, apresentando também na sua composição fibras, carboidratos solúveis e cálcio, sendo rico em vitaminas (principalmente A e C) e magnésio. A polpa, amarelo-ouro tem aparência porosa, com pequenas e numerosas sementes pretas (Pimienta-Barrios, 1990; Saénz et al., 1998; Askar & El- Samahy 1981). Tem sabor doce, com leve acidez e bastante refrescante (Lopes, 2005), motivo do interesse em ampliar a diversificação de consumo, aproveitando o alto potencial e agregando valor ao produto, que neste trabalho é o fermentado do fruto (vinho).

Entre as espécies selvagens e cultivadas mais utilizadas, 12 espécies pertencem a Opuntia e uma Nopalea. Segundo Bravo (1978) as palmas forrageiras pertencem ao reino Vegetal, subreino Embryophita, a divisão: Angiospermae, a tribu Opuntiae, à classe Liliateae, família Cactaceae, subfamília Opuntioideae, gênero Opuntia, subgênero Opuntia e Nopalea. Outra classificação taxonômica : Briton y rose, 1963, en Bravo-Hollis, 1978.

Reino: Vegetal Subreino: Embryophyta División: Angioserma Clase: Dicotiledoneae Subclase: Dialipetalas Orden: Opuntiales Familia: Cactaceae Tribu: Opuntiae Subfamília: Opuntioideae Gênero : Opuntia Subgênero: Platyopuntia

Nome Binomial : Opuntia ficus-indica (L.) Mill

Espécie: vários nombres

4. Variedades de palma forrageira cultivadas no semi-árido nordestino

No Nordeste Brasileiro, são cultivadas predominantemente duas espécies, a O. ficusindica, (Palma gigante) e a N. cochenillifera, (Palma miúda ou doce). As duas espécies mencionadas não possuem espinhos (são inermes) e foram obtidas pelo geneticista Burbanks, a partir de espécies com espinhos. Foram introduzidas no Brasil por volta de 1880, em Pernambuco, através de sementes vindas do Texas, nos Estados Unidos, onde demonstraram grande utilidade. Não toleram umidade excessiva e em solos profundos apresentam extraordinária

Figura 2. Palma gigante.

capacidade de extração de água do solo, a ponto de possuir cerca de 90-93% de umidade, o que torna importantíssima para a região do polígono das secas. (Pupo, 1979). Outras variedades têm sido geradas ou introduzidas pela Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária - IPA, com objetivo de obter clones mais produtivos e com melhor valor nutritivo. Dentre as variedades testadas, o clone IPA-20 tem se mostrado promissor, com produção 50 % maior do que a variedade gigante, a mais cultivada no Estado de Pernambuco (Santos et al., 1994). Os materiais de palma IPA-20, IPA-90-110, IPA 90-1 e IPA 90-156 produzem mais que a cultivar gigante, que é a mais cultivada na região. A seguir serão apresentadas as características agronômicas das variedades gigante, redonda e miúda.

4.1. Palma gigante (Opuntia ficus-indica L.) Mill.

Chamada também de graúda, azeda ou santa. São plantas de porte bem desenvolvido e caule menos ramificado (Figura 3), o que lhes transmite um aspecto mais ereto e crescimento vertical pouco frondoso. Sua raquete pesa cerca de 1,0 -1,5 kg, apresentando até 50 cm de comprimento, forma oval-elíptica ou subovalada, coloração verde-fosco. As flores são hermafroditas, de tamanho médio, coloração amarelo brilhante e cuja corola fica aberta na antese. O fruto é uma baga ovóide, grande, de cor amarela, passando à roxa quando madura. Essa palma é considerada a mais produtiva e mais resistente às regiões secas, no entanto é menos palatável e de menor valor nutricional.

4.2. Palma redonda (Opuntia sp.)

É originada da palma gigante, são plantas de porte médio (Figura 4) e caule muito ramificado lateralmente, prejudicando assim o crescimento vertical. Sua raquete pesa cerca de 1,8 kg, possuindo quase 40 cm de comprimento, de forma arredondada e ovóide. Apresenta grandes rendimentos de um material mais tenro e palatável que a palma gigante. Figura 4. Palma redonda.

Figura 3. Palma gigante ou graúda.

4.3. Palma doce ou miúda (Nopalea cochenillifera Salm-Dyck)

São plantas de porte pequeno e caule bastante ramificado (Figura 5). Sua raquete pesa cerca de 350 g, possuem quase 25 cm de comprimento, forma acentuadamente obovada (ápice mais largo que a base) e coloração verde intenso brilhante. As flores são vermelhas e sua corola permanece meio fechada durante o ciclo. Nos três tipos, as raquetes são cobertas por uma cutícula que controla a evaporação, permitindo o armazenamento de água (90-93% de água).

5. Clima e solo 5.1. Clima - as condições climáticas do Semi-árido são caracterizadas por períodos secos e precipitações pluviométricas variando de 400 a 800 milímetros, irregularmente distribuídas e concentradas no verão. A temperatura oscila entre 23ºC a 28ºC, com amplitude diária de mais ou menos 10ºC. A luminosidade média é de 2.800 horas de luz ao ano. A cobertura vegetal predominante é a caatinga constituída por plantas efêmeras, suculentas ou carnosas e lenhosas, geralmente, tolerantes a longos períodos de estiagem.

A má distribuição e irregularidade de chuvas no Semi-árido são responsáveis por estiagens prolongadas, resultando em sérios prejuízos econômicos para os pecuaristas, que, assim, são forçados a comercializar o rebanho, periodicamente, com preços abaixo do mercado, em função da falta de alimentos (Felker, 2001). Na época das chuvas a disponibilidade de forragens é quantitativamente e qualitativamente satisfatória, todavia nas épocas críticas do ano, além da escassez de forragens o valor nutritivo se apresenta em níveis bastante baixos o que acarreta queda de produtividade e compromete a produção de leite e carne (Lima et al., 2004).

Diante desse cenário, a produção de alimentos para as populações e para os rebanhos na região, deverá ser baseada em espécies vegetais que apresentem características de alta adaptabilidade às condições edafo-climáticas regionais. Devido à influência da irregularidade de distribuição das chuvas sobre a alimentação de ruminantes nas regiões semi-áridas é necessário buscar alternativas para a alimentação do rebanho. Assim, uma alternativa seria a utilização de uma fonte energética de menor custo e disponível na região (Melo et al., 2003). Neste caso, a utilização da palma forrageira. poderia ser uma alternativa para as regiões semi-áridas do Brasil

Figura 5. Palma doce ou miúda.

Segundo Felker (2001), a palma forrageira, ao lado dos atributos de resistência a estiagens prolongadas, podem fornecer energia, água e vitamina A, garantindo o suprimento de alimentos extremamente importantes para a manutenção dos rebanhos, evitando frustrações na atividade pecuária, nos períodos de seca.

O bom rendimento dessa cultura está climaticamente relacionado a áreas com 400 a 800mm anuais de chuva, umidade relativa acima de 40% (Viana, 1969) e temperatura diurna/noturna de 25 a 15ºC (Nobel, 1995). Vale ressaltar que umidade relativa baixa e temperaturas noturnas elevadas encontradas em algumas regiões do semi-árido podem justificar as menores produtividades ou até a morte da palma.

(Parte 2 de 7)

Comentários