Palma Forrageira - Cultivo, Uso Atual e Perspectivas de Utilização no Semiárido

Palma Forrageira - Cultivo, Uso Atual e Perspectivas de Utilização no Semiárido

(Parte 3 de 7)

Na Paraíba, a palma forrageira é cultivada nas Microrregiões do Carirí Ocidental e

Oriental, Curimataú Ocidental e Oriental, Campina Grande, Serra do Teixeira, Umbuzeiro, Itaporanga, Piancó, Cajazeiras e Seridó Oriental. Nas primeiras sete microrregiões é onde concentram - se as maiores áreas cultivadas, pois o clima reinante é ameno, com temperaturas baixas à noite (13-18ºC) e umidade relativa do ar (UR), altas, (em torno de 80%), também, à noite, fatores climáticos esses muito importantes do ponto de vista do enchimento (nutrição) dos cladódios.

Pelas características morfofisiológicas das espécies da família Cactaceae, especialmente as palmas forrageiras – O. ficus-indica e N. cochenillifera, possuem os requisitos para suportar os rigores de clima e as especificidades físicoquímicas dos solos das zonas semi-áridas. O sucesso agroecológico da palma diz respeito à sua capacidade de captação diária de CO2 e a perda de água, fenômenos que ocorrem geralmente à noite, cujo intercâmbio de gases é, atualmente conhecido como metabolismo ácido das crassuláceas – Crassulacean acid metabolism – CAM (Nobel, 2001), diferindo da assimilação fotossintética das plantas clorofiladas C3 e C4, caracterizadas por formarem como primeiro produto da fotossíntese, ácidos com três e quatro moléculas de Carbono, respectivamente. Essas características são extremamente importantes do ponto de vista ambiental, podendo ser utilizadas para reduzir os danos causados pelo efeito estufa ao ambiente, resultante do aumento na concentração de CO2 e outros gases na atmosfera.

5.2. Solo - as condições edáficas do Semi-árido são caracterizadas por solos rasos, pedregosos ou arenosos, com pouca matéria orgânica, porém ricos em minerais solúveis e pH neutro ou próximo de sete. A palma forrageira é uma cultura relativamente exigente quanto às características físico-químicas do solo. Desde que sejam férteis, podem ser indicadas áreas de textura arenosa à argilosa, sendo, porém mais freqüentemente recomendados os solos argiloarenosos. Além da fertilidade, é fundamental, também, que os mesmos sejam de boa drenagem, uma vez que áreas sujeitas a encharcamento não se prestam ao cultivo da palma. Evitar o plantio em áreas marginais, pois a palma não tolera terras duras e pedregosas, pobres em nutrientes e salinas.

No Nordeste brasileiro, desde a sua introdução e devido à grande rusticidade e facilidade de desenvolvimento e propagação das mudas, a espécie vem sendo cultivada em condições adversas, nas piores áreas das propriedades e sem o mínimo manejo e tratos culturais necessários ao seu desenvolvimento. O resultado disso é a baixa produtividade nos plantios. Como termo de comparação, no México, país com características ambientais semelhantes às do Nordeste seco, onde se faz o plantio com mudas selecionadas, preparo de solo, adubação, densidade de plantio e tratos culturais, são garantidas colheitas médias anuais da ordem de 400 toneladas por hectare (volume capaz de suprir as demandas energéticas de 220 caprinos ou 20 bovinos), representando cerca de 8 a 10 vezes mais o volume atualmente obtido no Semi-Árido brasileiro, que só consegue produzir o suficiente para 2 caprinos ou 2 bovinos por hectare.

Como qualquer outra planta, a palma necessita de adubação, sendo um fator determinante na produção de matéria verde, exigindo maior quantidade quando se trata de plantio de palma adensado. Segundo Teles et al. (2002) o espaçamento de plantio da palma forrageira varia de acordo com a fertilidade do solo, quantidade de chuvas, finalidade de exploração e com o consórcio a ser utilizado. A adubação pode ser orgânica e/ou mineral. Em caso de se optar pela adubação orgânica, pode ser utilizado estrume bovino e caprino, na quantidade de 10 a 30t/ha na época do plantio, e a cada dois anos, no período próximo ao início da estação chuvosa. Dependendo do espaçamento de plantio e nível de fertilidade do solo, nos plantios mais adensados usar 30 t de esterco de curral/hectare, bem curtido e livre de ervas daninhas. Para a adubação mineral, é necessário se proceder a uma análise do solo para uma melhor orientação quanto aos níveis a serem recomendados.

5.2.1. Tipos de solos explorados com a palma forrageira A palma forrageira, planta dotada de sistema radicular fasciculado de crescimento horizontal, se mantém a poucos centímetros de profundidade em relação à superfície do solo. Quando explorada em regime de cultivo requer solos de textura leve, preferencialmente os argiloarenosos ou areno-argilosos não sujeitos a encharcamento, para que alcance um bom desenvolvimento vegetativo e produtivo. Entretanto, desde que se faça a descompactação do solo através de mecanização, e se adicione matéria orgânica ao mesmo, outros tipos de solo também podem ser usados para este fim. Excetuando-se, todavia, os solos com afloramentos rochosos e aqueles íngremes, onde a aração ou gradagem não se aplicam.

Neste aspecto, em se tratando das microrregiões paraibanas “Cariri e Curimatau”, com muita freqüência, se encontram grandes plantações dessa cultura em solos dos tipos Bruno não Calcico e Litólico, solos esses cuja estrutura, em estado natural, é bastante compactada, porém, depois de mecanizados, se tornaram aptos ao cultivo dessa forrageira. No Estado de Alagoas, a palma vem sendo tradicionalmente cultivada em latossolo vermelho - escuro, podzólico vermelho-amarelo e solos escuros e pedregosos. Observa-se, deste modo, que o tipo de solo, por si só, não constitui impedimento para o cultivo de palma forrageira.

Para a região de interesse do cultivo da palma a ocorrência das classes de solos relacionadas a seguir, serve como indicativo do seu uso juntamente com uma breve descrição de suas características (EMBRAPA/CNPS. Sistema brasileiro de classificação de solos. Rio de Janeiro, 1999.):

5.2.1.1. Argissolos Vermelho-Amarelos Eutróficos (Podzólicos Vermelho-Amarelos Equivalentes Eutróficos) - Classe caracterizada por solos com horizonte B textural, de profundidade média a profundos (Figura 6), bem drenados, textura média nas camadas superficiais passando a argilosa em profundidade, moderada susceptibilidade à erosão hídrica e fertilidade natural média a alta.

Situam-se em relevo plano a suave ondulado e, em determinados locais, podem apresentar perfis com caráter plíntico e/ou solódico. A aptidão agrícola para agricultura de sequeiro, do conceito central desses solos, é classificada como 2 abc, ou seja, aptidão regular em qualquer nível de manejo considerado, tendo como principal restrição as características adversas do clima regional

5.2.1.2. Luvissolos Crômicos Vérticos (Brunos não Cálcicos Vérticos) - Classe caracterizada por solos pouco profundos ou rasos, com horizonte B textural pouco espesso e com cores avermelhadas (Figuras 7 e 8), bem a imperfeitamente drenados, com presença de fendas e “slickensides” na porção inferior do perfil (caráter vértico), existindo áreas onde este caráter não se manifesta.

Figura 6. Argissolo com palma gigante em Bonito de Santa Fé, PB.

É bastante freqüente a presença de calhaus e matacões cobrindo a superfície do terreno.

Ocorrem normalmente em relevo suavemente ondulado e plano. Do ponto de vista químico, são eutróficos e apresentam alta disponibilidade de nutrientes para as plantas. Não obstante, para a utilização agrícola de sequeiro, em virtude da excessiva deficiência hídrica regional, foram incluídos na classe 5n, ou seja, na de terras com aptidão regular para pastagens naturais. A utilização da prática de irrigação deverá ser bastante cautelosa, pois em muitos locais, apresentam caráter solódico, ou seja, com 6 a 15% de saturação com sódio trocável nos horizontes subsuperficiais.

5.2.1.3. Neossolos Regolíticos Eutróficos (Regosolos Eutróficos) - Classe constituída de solos normalmente arenosos (Figura 9), pouco desenvolvidos, não hidromórficos, com horizontes na seqüência A e C, podendo ou não apresentar fragipan logo acima da rocha. São profundos a moderadamente profundos, porosos, moderada a excessivamente drenados.

São pouco desenvolvidos, mas apresentam contato lítico em profundidade superior a 50 cm. Em conseqüência da textura grosseira predominante, estes solos possuem baixa capacidade de troca de cátions e, conseqüentemente, baixa capacidade de retenção e disponibilidade de água, características que se constituem nas suas principais limitações ao uso agrícola. Do ponto de vista da aptidão para agricultura de sequeiro foram enquadrados na classe 2 (a)b(c), ou seja, com

Figura 9. Neossolo Regolítico plantado com palma em Pocinhos, PB.

Figura 7. Luvissolo Crômico plantado com palma em Monteiro, PB. Figura 8. Luvissolo Crômico plantado com aptidão restrita para cultivos que utilizem práticas agrícolas de baixo ou alto nível tecnológico, e regular para aquelas de nível intermediário í.

5.2.1.4. Neossolos Litólicos Eutróficos (Solos Litólicos Eutróficos) - Classe caracterizada com afloramento de rocha, rasos. Ocorrem em relevo suave ondulado a plano, e, pedregoso (Figura 10) dependendo do local de ocorrência. A principal diferença para os solos dessa última classe devese ao fato dos solos apresentarem um horizonte nátrico, isto é, com saturação com sódio trocável superior a 15%.

Normalmente são eutróficos, apresentando altos valores de soma e saturação de bases, e solódicos em virtude de apresentarem, na superfície do solo, camada com saturação com sódio trocável que atende aos requisitos desse caráter. Quanto à aptidão agrícola para cultivos de sequeiro, também foram incluídos na classe 5n, devido às características restritivas do clima regional.

5.2.2. Limpeza do terreno e preparo do solo

A adaptação da área quanto ao desmatamento é igual a que se faz para as demais culturas semi-tecnificadas. Ou seja, compreende apenas desmatamento, destocamento e remoção dos materiais. Em se tratando de uma cultura permanente cuja área deve ser mecanizada, é recomendável evitarem-se áreas com declividades superiores a 5% (Costa et al., 1973), com afloramento rochoso ou com excesso de pedras superficiais soltas.

Escolhida a gleba para o plantio, as operações antes de plantar incluem análises do solo e fertilização, sendo necessária à limpeza do terreno. Nesta deve ser feito a retirada da vegetação espontânea, que será encoivarada fora da área e deixar se decompor naturalmente. Nunca fazer queimadas (Figura 1) dentro da área, pois, o fogo, degrada o solo física, química e biologicamente. Figura 1. Queimadas no semi-árido.

Figura 10. Neossolo Litólico plantado com palma em Pocinhos, PB.

Uma vez desmatada e destocada, se a área for representada por solos compactados a mesma deverá ser arada e gradeada conforme determinam as orientações técnicas, ou seja, o primeiro corte seguindo a declividade do terreno e o segundo no sentido transversal a este. Porém, se os solos apresentarem tendência arenosa duas gradagens são suficientes. O solo deve ser arado (Figura 12) a uma profundidade de 30 a 50 cm para assegurar uma boa drenagem e uma boa armazenagem de água, e erradicar as ervas daninhas que competem com as palmas forrageiras, principalmente nos primeiros estágios depois de plantadas. Adicionalmente o solo deve ser rasgado com um subsolador para melhorar a drenagem e evitar alterações em seu perfil.

Em solos arenosos e livres de ervas daninhas, as operações antes de plantar podem se restringir à escavação de covas individuais ou de sulcos. Junto com a preparação do solo há uma fertilização de fundação com esterco de curral.

6. Plantio Quando se vivem períodos de invernos normais, as plantas que vão fornecer as mudas permite que as raquetes permaneçam túrgidas o ano todo, e neste caso o plantio deve ocorrer nos meses de novembro e/ou dezembro, pois se realizado nessa época, assegura que no início do inverno seguinte as plantas já estejam enraizadas, condição esta que evita o tombamento das plantas em conseqüência do impacto das primeiras chuvas e proporcionando um bom desenvolvimento inicial da plantação. A orientação da raquete deve ser no sentido Norte/Sul.

Todavia, nos anos de invernos escassos, quando normalmente, as plantas matrizes atingem estágios críticos de desidratação reduzindo, portanto, a capacidade de enraizamento no solo seco, o plantio só deve ser realizado quando as raquetes readquirirem um certo teor de umidade (turgidez) (Figura 13). Pois se plantadas muito murchas na época acima referida, a tendência é que a elevada temperatura do solo elimine em definitivo a grande maioria das raquetes plantadas. Figura 13. Raquetes túrgidas, ideal para o plantio.

Figura 12. Solo arado pronto para o plantio.

Na definição do sistema de plantio, deve ser levado em consideração a necessidade do uso da forragem a ser gerada pela palma. Quando não há palma na propriedade ou, se existe, é insuficiente para atender a demanda, recomenda-se usar sistemas de plantios adensados com vistas a alcançar uma razoável oferta de massa verde a partir de um ano de idade da cultura. Porém, quando o objetivo é gerar reservas estratégicas adicionais prevendo evitar escassezes futuras, sugerem-se adotar sistemas de plantios menos adensados. Neste caso, embora a densidade populacional por unidade de área seja menor que nos plantios adensados, os resultados finais geralmente são satisfatórios, pois graças à possibilidade de um bom manejo cultural no tocante aos tratos culturais/fitossanitários e adubação orgânica em cobertura, obtêm-se materiais de boa qualidade alem de preservar meio ambiente. Os plantios muito adensados, via de regra, impossibilitam essas ações. Neste contexto, em se tratando de palma forrageira, em que pense ser uma cultura até então pouco pesquisada, já existe uma significativa quantidade de modelos de plantio. Sobretudo, quanto a espaçamento, sistemas de arranjo e posição dos propágulos no solo.

O plantio da palma geralmente é realizado no terço final do período seco (outubro a dezembro), pois quando se iniciar o período chuvoso os campos já estarão implantados, evitandose o apodrecimento das raquetes que, plantadas na estação chuvosa, com alto teor de água e em contato com o solo úmido, apodrecem, diminuindo muito a pega devido à contaminação por fungos e bactérias. Por ocasião do plantio, a posição do artículo, que é um cladódio, também denominada pelo produtor de “raquete” ou de “folha”, pode ser inclinada ou vertical dentro da cova, com a parte cortada da articulação voltada para o solo (Figura 14) e, plantada na posição da menor largura do artículo, obedecendo à curva de nível do solo. O espaçamento depende do sistema adotado pelo produtor. Quando se pretende fazer cortes a cada dois anos e obter maior produção, pode-se optar por plantio em sulcos em espaçamento adensado (Figuras 15, 16 e 17) de 2,0 x 0,10m, ou 2,0 x 0,20m, que demandará mais adubação e capinas.

Figura 14. Artículo inclinado para baixo. Figura 15. Espaçamento 2,0 x 0,20m.

O cultivo de palma em espaçamento adensado tem sido mais utilizado recentemente.

Nesses espaçamentos, os tratos culturais e a colheita são dificultados, aumentando os gastos de mão-de-obra. Além desses aspectos, neste caso, ocorre uma maior quantidade de nutrientes extraídos do solo, considerando que em espaçamento 2,0 m x 1,0 m tem-se 5.0 plantas/ha, sendo necessário um maior cuidado com as adubações, enquanto que no espaçamento 1,0 m x 0,25 a quantidade de plantas é duas vezes menor, ou seja, 40.0 plantas/ha,.O cultivo adensado da palma, ou seja, a utilização de espaçamentos menores (2,0 x 0,10m ou 2,0 x 0,20m) tem sido recentemente usados como forma de obter altas produtividades.

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