Esquema corporal

Esquema corporal

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Fundamentos da Educação Infantil Prof. Dorival Rosa Brito 1

Ao se estudar como ocorre a construção do esquema corporal no indivíduo, necessita-se estudar outro conceito que, comumente, é mal empregado: imagem corporal. Este é eminentemente da ordem do inconsciente enquanto o esquema corporal é em parte consciente e também, pré-consciente.

Imagem Corporal

Pretende-se neste capítulo apresentar como a psicomotricidade concebe a imagem corporal e como se conecta com a visão infantil do próprio corpo enquanto instrumento uno de si mesma e de relação com o meio e com os outros. O caminho narcisista trilhado pela criança na fase em que se descobre fusão de um corpo sentido globalmente e a imagem especular11 vai exercer um papel dominante sobre si mesma. Pode-se também afirmar que através do corpo a criança declara a sua individualidade e se intera através dele com o meio, formando com isso sua maneira de ser. Pelo exposto até aqui é pertinente afirmar que toda relação corporal implica uma relação psicológica.

Narcisismo e imagem do corpo

A criança se apropria de seu corpo no momento em que se desliga do amor objetal que a une a sua mãe.

O caráter narcisista vem com a expansão da visão de si mesma que a criança passa a ter. A atividade motora é o meio pelo qual a criança percebe seu corpo globalmente, ao passo que no nível sensorial apenas parcelas de imagens, através das zonas erógenas, eram percebidas. A libido narcisista se inspira na imagem global do corpo. a) Da identificação ao narcisismo

Segundo Le Boulch (1992) a criança adquire o conhecimento de seu “corpo próprio” introjetando a imagem de outra, e em primeiro lugar, o corpo da mãe.

A identificação é o processo pelo qual a criança, em seu meio, harmoniza-se posturalmente em relação a outra pessoa pela ligação afetiva que possui com ela.

A função de interiorização inicia-se aos três anos, quando o narcisismo infantil alcance um nível elevado; a criança se conscientiza da sua individualidade através da personalidade, negando os modelos até então impostos. Esta personalidade terá como característica a oposição às atitudes de outras pessoas, para se afirmar.

O ambiente familiar influencia com as relações que nele se operam na identificação e na atitude narcisista. O comportamento da criança se torna peculiar; indo do desejo de aprovação ao desejo de ser apreciada e outros meio típicos de expressar seus sentimentos de independência através dos quais ela quer afirmar-se. b) Jogos simbólicos e imaginação

A imaginação é o mundo alternativo infantil para o qual a criança se volta quando a realidade não é propícia para experimentar seus personagens.

Até agora, os jogos funcionais tornaram possível à criança confrontar-se com o mundo dos objetos, permitindo-lhe a aquisição de numerosas praxias e desenvolvendo a função de ajustamento. A emergência da função de interiorização, que é paralela ao rápido desenvolvimento da função simbólica, vai passar além do jogo funcional ao jogo simbólico, verdadeira atividade projetiva própria para criar um universo mágico onde o real e o imaginário se misturam (LE BOULCH, 1992, p. 97).

Dessa maneira a criança passa a correlacionar ambos as realidades, sem que o imaginário venha a interferir no tangível. O jogo simbólico se insere no tempo e espaço ao mesmo tempo em que o objeto ou outra pessoa encontram-se presentes e a criança tem de confrontá-los. Nesse jogo, a criança vive uma experiência real no imaginário, e assim se torna apta a perceber a verdade do mundo real.

c) O conflito edipiano

O conflito edipiano é a forma como os psicanalistas se referem ao momento da descoberta dos órgãos genitais, do interesse pela diferenças entre os sexos e à confusão quanto ao papel dos sexos na relação com a mãe. Le Boulch (1992) afirma que os psicanalistas descrevem as relações entre a criança e os pais baseados em uma família monogâmica, nos moldes da cultura ocidental vigente, e na repressão sexual histórica atrelada a este modelo de unidade familiar. Pode-se analisar a questão do confronto entre a criança

1 A imagem especular constitui-se na da descoberta pela criança de sua própria imagem no espelho, por volta de seis meses de idade. A princípio a criança fica surpresa com a imagem que vê. Observa seu reflexo, sorri para si mesma sem se reconhecer. Ao ver a imagem do adulto que a segura, sorri para ela e se volta surpresa quando este lhe fala. A representação que ela possui deste adulto vai se somar à imagem especular dele

Fundamentos da Educação Infantil Prof. Dorival Rosa Brito 2 e o papel da mãe e do pai como a o modo como o indivíduo reage à erotização da relação com os progenitores, ora potencializando o componente sexual e direcionando-o a um dos pais, o que acaba por distanciá-lo do outro membro parental, tornando-o hostil a seus olhos, ora tendendo a incorporar com maior intensidade uma imagem de masculinidade e feminilidade, provavelmente aquela que assumirá a criança no futuro.

A forma mais simples do complexo de Édipo consiste no amor do menino pela mãe e no ódio pelo pai.

Sentindo, pelo pai, apenas ódio, o conflito é menos complicado e manifesta-se em hostilidade aberta contra a figura paterna, tornando-se portanto uma luta externa. Na realidade, porém, isto raramente acontece, pois há quase sempre, uma atitude ambivalente do menino para com o pai, isto é, ao mesmo tempo que o odeia, também o quer bem. Estes sentimentos ambivalentes constituem o aspecto mais importante para o desenvolvimento do complexo. No sentido inverso, o mesmo ocorre com a menina. Entretanto, as relações objetais edipianas no sexo feminino são um pouco mais complexas, pois a menina precisa dar um passo maior que o menino para ir de encontro (sic) ao seu objeto amoroso. Isto porque, no início da fase fálica, tanto um como outro estão fortemente ligados à mãe. Assim, ao contrário do menino, a menina precisa desligar-se emocionalmente da mãe, ou melhor, trocá-la pelo pai e passar a considerá-la uma rival. (D’ANDREA, 1991, p. 61-2)

Sendo o complexo de Édipo um fenômeno hoje visto como uma etapa natural no desenvolvimento do ser humano, embora envolto pela codificação cultural própria de cada época ou civilização, é possível identificá-lo e compreendê-lo à medida que, a cada etapa do processo de formação da personalidade, novos significados vão sendo adicionados ao corpo e à imagem da criança como ela vê a si própria.

Percepção e imagem do corpo

A imaginação exerce uma função de catalisador na evolução da imagem do corpo. Ao adquirir a visão conjuntural das estruturas do mundo real, a criança passa a operar no mundo objetivo e utilizar sua imaginação criadora para interferir no ambiente. Neste momento, observa Oliveira (1997), “ela apreende sua imagem especular como um reflexo, uma imagem, uma representação, um símbolo”.

As etapas do desenvolvimento natural, sem a presença de déficits e a prevenção para estes são vistas mais claramente com a noção dos passos da evolução das praxias, da percepção e da representação mental do espaço em uma perspectiva global.

Para Wallon, a imagem do corpo se constrói progressivamente, por um processo de amadurecimento neurofisiológico da criança. O reconhecimento da própria imagem do corpo, depois da imagem do corpo de quem está próximo é um processo tônico-postural. Para ele, uma criança sente prazer em se descobrir, em se tocar. Percebe os objetos que são colocados sobre sua perna, seu braço, sua mão e, por fim, sobre seu tronco. O espelho representa uma ajuda que facilita o aparecimento das “identificações sucessivas” em que ela se identifica, se distingue das coisas e, por fim, do resto do mundo que ora dominar mais tarde. Tudo isto a criança consegue realizar por um processo de maturação, e passa por um processo de conscientização progressiva do corpo próprio como uma realidade distinta do meio circundante (OLIVEIRA, 1997).

Percebendo-se como indivíduo inserido na perspectiva espacial, a criança começa a notar todas as diferenças, não só no nível corporal, mas também do seu meio com relação ao alcance de seus movimentos.

a) Do corpo vivido à imagem visual do corpo

A imagem da criança refletida no espelho constitui-se em uma experiência de descoberta pessoal rica em significados; Lacan (apud Oliveira, 1997) foi um dos pioneiros a salientar o estágio do espelho como fundamental para o desenvolvimento do esquema corporal. Para ele, a criança, até mais ou menos seis meses de idade, possui uma visão de corpo fragmentado, retalhado, e com a imagem especular começa a se ver de forma integrada, organizada, como um todo.

As reações posturais e gestuais são os movimentos que a criança vai realizar até perceber que ela possui o domínio sobre a imagem refletida.

A experiência do espelho desencadeia a apropriação da imagem especular, permitindo a fusão de duas realidades do corpo: uma primitiva, feita de sensações viscerais, musculares e cinestésicas difusas organizadas como um todo nos ajustamentos práxicos e posturais; a outra, que servirá de trama à organização do esquema corporal, verdadeira imagem visual representada por uma figura fechada destacando-se sobre um fundo interior, no qual certos elementos mal localizados já tenham sido identificados (LE BOULCH, 192, p. 9).

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Para verificar se uma criança realizou o trabalho perceptivo e conquistou uma imagem visual fiel de seu corpo, pode-se recorrer a dois testes, quais sejam, o desenho da figura humana e os quebra-cabeças.

Grafismo e imagem do corpo: Em Le Boulch (1992), localiza-se a definição da atividade gráfica da criança pequena na zona de comando da cinestesia; e a partir dos 2 anos e meio o controle visual exerce gradualmente uma maior influência na execução dos tratados. Representações mentais podem conceber modelos visuais e o valor simbólico expresso.

Ainda de acordo com Le Boulch, estipula-se que aos três anos aproximadamente a primeira representação figurada ocorre – consistindo em uma figura circular com linhas irregulares no interior do circulo. Entretanto, ocorre uma discrepância entre a aquisição da noção concreta da imagem do corpo (experiência do espelho) e a possibilidade da representação gráfica.

Após esta fase, a criança aprende a desenhar um círculo com a representação de olhos, nariz e boca. Os membros inferiores vêm em seguida, embora a criança aprenda a utilizar os membros superiores, principalmente as mãos, antes dos outros.

Aos quatro anos, além da representação já descrita, a criança pode ocasionalmente acrescentar cabelos à figura, e coloca também outro círculo para representar o tronco, com os membros.

Aos cinco anos, mãos e pés são desenhados, com dedos em forma de traços e os pés como continuidades diferenciadas das pernas. Os membros superiores partem de duas linhas do tronco, às vezes da cabeça.

Entre seis e sete anos, o grafismo da imagem corporal já possui suas características fundamentais, contudo os detalhes precisos e variados são relativos e próprios de cada criança.

Utilização dos puzzles: Segundo Le Boulch (1992), quando há defasagem entre a representação mental e o grafismo, faz-se necessário, para auferir o nível de representação visual, uma “prova de esquema corporal”, elaborada por Daurat, Meljak, Stambak e Bergés, constituída das seguintes partes:

Primeira prova: Na “fase de evocação”, a criança deve formar o corpo humano com suas partes. É a análise da representação mental das características da figura humana.

Segunda prova: Para ser realizada logo após a primeira. A criança recebe todas as peças do puzzle e através da percepção poderá corrigir todos os erros eventuais.

Terceira prova: Usando sua percepção, a criança controla a montagem de um modelo de personagem. b) Fusão da imagem visual e das sensações táteis e cinestésicas

As sensações táteis e cinestésicas, segundo Le Boulch (1992), são essenciais para demonstrar o quanto estas influenciam a estrutura de referência formada através da descoberta do espaço pela criança.

A correlação entre o que é visualizado e o que é sentido está condicionada ao jogo de interiorização, ou seja, a atenção centrada sobre o corpo beneficiará a criança.

Insuficiência de nosso sistema educativo: A concepção educativa vigente, na visão de Le Boulch (1992), pouco tem contribuído para o desenvolvimento da sintonia entre o exterior e o próprio corpo, na criança.

Afirma o supracitado autor que, para muitos educadores, a tarefa em si é o alvo do esmero e da metodologia nela implícita; ao passo que o proveito pedagógico que dela deveria depreender-se acaba por ficar em segundo plano. Em uma abordagem superficial, o método audiovisual, por exemplo, retrata uma forma de educação voltada para o exterior e a imagem.

Percebe-se que na cultura em voga, de espectro intelectualista, a descoberta do corpo se processa de fora para dentro, colocando o indivíduo como mero espectador de si mesmo, tendo de basear-se em modelos externos pré-concebidos.

Condições do uso da função de interiorização: Existe uma ludicidade própria na função de interiorização e que se dá com maior eficácia “durante a realização das praxias familiares e bem automatizadas, as quais não criam nenhuma apreensão nem bloqueio” (LE BOULCH, 1992). Tendo seu bem-estar proporcionado, a criança encontra condições favoráveis para uma tomada de consciência. Ao educador cabe delimitar a oscilação entre a atenção e o fim perseguido pela criança.

O comportamento automanual da criança de cinco anos e meio sofre importante mudanças. Tem mais consciência de sua mão, de sua utilidade, servindo-se dela nas suas experiências. Diz-se que ela conclui com a esquerda suas tarefas motoras finas. Na realidade, ela interessa-se às vezes menos por aquilo que leva a cabo em seus utensílios do que sente durante a manipulação (GESELL apud LE BOULCH, 1992, p. 102).

Diversas outras atividades motoras da criança são significativas para a percepção de si mesma; o desenvolvimento a partir de todas as simples tarefas (vestir-se, rabiscar, abrir uma porta, rolar no chão etc.) através das quais a criança se movimenta deveria ser mais valorizado e explorado pelo adulto para

Fundamentos da Educação Infantil Prof. Dorival Rosa Brito 4 verificação do que é sentido durante a execução da tarefa. Dessa maneira há uma maior associação entre informações visuais e informações táteis e cinestésicas. a) Reforço verbal dessas percepções

A experiência concreta de que decorre a percepção pela criança deve estar também ligada à verbalização – um dos níveis de utilização da função simbólica, na opinião de Le Boulch (1992) “deverá seguir passo a passo as verdadeiras aquisições feitas no plano cinestésico”. Daí conclui-se que a percepção visual deve estar relacionada a uma associação cinestésica verbal.

Conseqüências da evolução da imagem do corpo no pólo motor do comportamento

Observa-se que certas aptidões são conquistas psicomotoras significativas para a criança. Entretanto, observou Le Boulch que no desenvolvimento motor pode ocorrer o que se chama de “desaparição e ressurgência de aptidões”.

Se no desenvolvimento global, aos três anos, a criança registra um grande impulso na exploração sensório-motora, e esta habilidade motora permitir-lhe-á a programação de uma resposta baseada em uma representação mental. a) A importância do tratamento consciente da informação nesta passagem

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