O que é leitura - Maria Helena Martins

O que é leitura - Maria Helena Martins

(Parte 1 de 8)

- Falandoem leitura

ÍNorcr - Como e quando começamoía ler .

- Ampliando a noção de leitura - O ato de ler e os sentidos, as ernoções e a razão.

- A leitura ao jeito de cada teitor.

- Indicações para leitura

- Bibliografia...

Falando em leitura, podemos ter em mente alguém lendo jornal, retrista, folheto, mas o mais comum é pensarmos em'leitura de livros. E quando se diz que uma pessoa gosta de ler, "vive lendo", talvez seia rato de biblioteca ou consumidor de romances, histórias em quadrinhos, fotononelas'

Se{passa em cima dos livros", via de regra.estuda nurito. Sem dúvida, o ato de ler é uzualmente relacionado com a escrita, e o.leitor visto como decodificador da letra. Bastará porém decifrar' palavras para acontecer a leitura? Como expli- earíamos as expressões de uso corrente "tazer a leitura" de um gesto, de uma situação; "ler o olhar de alguémi'; "ler o tempo", "ler o espaço", indicando que o ato de ler vai além da escrita?

Se alguém na rua me dá um encontrãÓ, minha reação pode ser de mero desagrado, diante deO maís difícil, mesmo, é a arte de desler

Mario Ouintana

LIarfu Helena Martins uÍÍÌa batkJa casual, ou de franca defesa, diante

& urn empurrão proposital. Minha resposta a rse irrcidente retela meu modo de lê-lo. Outra coha: à vezes passamos anos vendo objetos oüÌïtrÍË, um ìfiaso, um cinzeiro, sem jamais tê-los ü tm enxergado; limitamo-los à sua função brativa ou utilitíria. Um dia, por motivos c ns'r diversos, nos en@ntramos diante de um #es cqno se fose algo totalmente novo. O fionrnato, a @r, a figura que representa, seu oonlEido Fasam a ter sentido, melhor, a tazer rcntilo pna nóe.

Só então se estabeleceu uma lÍgação efetiva

ãilu" nós e esìe objeto. E consideramos sua belezac.l ÍElira, o rkJícrllo ou adequação ao ambiente cÍfi q.E s eÍrcontra, o material e as partes que o cmpaern. Podemos me$no pensar a sual'Èilúrie, as circunstâncias de sua criação, as ipnçõca do autor ou fabricante ao fazê-lo, oÈãüdro de sua realização, as pessoas que o tnwlfuhran no decorrer de sua produção e, drpob de pronto, aquelas ligadas a ele e.as que o iigÍprrn txr a quem desagradq. Perguntamo-nos

Fr que não tínhamos enxergado isso antes; à rc essa questão nos o@rre por um segundo, .uÍtras ela é duradoura, mas dificilmente voltamos a olhá-lo da mesma maneira, não importa com qre intenskJade.

O que aconteceu? Até aquele momento o . obiÉ'to era apenas algo mais na parafernália de

O Ete é Leiura coisas ao nosso redor, com as quais temos fami- liaridade sem dar atenção, porque não dizem nada em particular, ou das quais temos uma visão preconcebida. De repente se descobre um sentido, não o sentido, mas apenas uma maneira de ser desse objeto gue nos provocou determinada reação, um modo especial de vê-lo, enxergá-lo, percebê-lo enfim. Podemos dizer que afinal lemos o vaso ou o cinzeiro. Tudo ocorreu talvez de modo casual, sem intenção consciente, mas porque houve uma conjunção de fatores pessoais com o momento e o lugar, com as circunstâncias.

lso pode acontecer também com relação a pessoas com quem convivemos, ambientes e situações cotidianas, causando um impacto, uma surpresa, até uma revelação. Nada de sobrenatural. Apenas nossos sentidos, nosa psique, nossa razão responderam a algo para o que já estavam potencialmente aptos e sôentão se tornaram disponíveis.

Será assim também que acontece com a leitura de um texto escrito?

Com freqüência nos contentamos, por economia ou preguiça, em ler superficialmente, "passar'os olhos", como se diz. Não acrescentamos ao ato de ler algo mais de nós além do gesto mecânico de decifrar os sinais. Sobretudo se esses sinais não se ligam de imediato a uma experiência, uma fantasia. uma necessidade nossa. Reagimos assim ao que não nos interessa no momento. Um discurso político, utníì conversa, uma língua l0 Lfuria HelenoMttiru coMo E QUANDO CoMEçAMOS A LER

Desde os nossos primeiros contatos oom o mundo, percebemos o calor e o aconchego de um berço diferentemente das mesmas sensações provocadas pelos braços carinhosos que Íx)s enlâçam. A luz excessiva nos irrita, enquanto a penumbra tranqüiliza. O som es'tridente ou um grito nos assustam, mas a canção de ninar embala nosso sono. Uma superfície áspera desagrada, rn entanto, o toque macio de mãos ou de um pano como que'se integram à nossa pele. E o úeiro do peito e a pulsação de quem nos amamenta ou abraça podem ser convites à satisfação ou ao rechaço. Começamos assim a compreender, a dar sentidô ao que e a guem nos cerca. Esses também são os primeiros passos para aprender a ler. Tratase pois de um aprendizado mais natural estrangeira, uma aula expositiva, um quadro, uma peça musical, um livro. Sentimo-nos isotados do processo de comunicação que essas mensagens instauram - desligados. E a tendência natural é ignorá-las ou rejeitá-las como nada tendo a ver com a gente. Se o texto é visual, ficamos cegos a ele, ainda que nossos olhos continuem a fixar os sinais gráficos, as imagens. Se é sonoro, surdos. Quer dizer: não o lemos, não o compreendetrlos, impossível dar-lhe sentido porgue ele diz muito pouco ou nada para nós.

Por essas razões, ao começarmos a pensar a questão da leitura, fica um mote que agradeço a Paulo Freire:

"a leitura do mundo piecede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele".

.D.t, .D

Iúaria HeleruMmtinsO Ete é Leitura do çn se ooshrma pensar, mas tão exigente e snplexo oorrp a própria vida. Fragmentado c, il) rrEgÌx) tempg, constante como nossas cryerÍircias de confronto com nós mesrnos e oqn o rundo. LsnbÍo no%Ínente Paulo Freire: "ninguém

Gú.8 nirguém, como tampouco ninguém se cdh.rca a si ÍrE$Tp: os hornens se educam em oonrmhão, mediatizados pelo mundo". Parodhrdoo e taÍnbém ousando divergir neste caso, s poderia dizer: ninguém ensina ninguém a ler; o mrerdizado é, em última instância, solitário, ãnbra - desencadeie e se desenvolva na convi-

*Ída otxn os outros e com o mundo. Exaçro? HeÍn ülflb. os esnrdos da linguagem vêm rwelando, cada urr oÍxn maior ênfase, que aprendemos a ler rpã dc professores; que, para aprender a ler r ffiipreender o processo da leitura, não estamos dEfparús, temos condições de fazer algumas cobr sozinhos e necesitamos de alguma orien- Er@, rtss uma vez propostas instruções unifor- nrú#, elas não raro causam mais confusão do q.earxiliam.

Trnbém as investigações interdisciplinares vêm aiderrciando, mestno na leitura do texto escrito, rfr ser apenas o conhecimento da língua que ooíÊr, e sim todo um.sistema de relações interpe$oais e entre as várias áreas do conhecimento e da spressão do homem e das suas circunstâncias l,Ias 'b Ete ìais o intrigava aam as figurinlus desenhdas emfuíxo dos inugms, e que provarcImente darcriun

' ser hsetos desconhecidos". .

de yida. Enfim, dizern os pesquisadores da linguagem" ãn cresoente convicção: aprendemos a ler l€Ído. Eu diria üvendo.

lso fz peÍÌsÍìr que o aprendizado -de Tarzan rËo -iit prta oO.a da imaginação de Edgar Rice

ilffrseüos desconhecidosVários tinham pernas,

furroughs, Aos dez anos, remexendo nos escomhrc da cabana de seu falecido pai, o garoto'macaco @pon com alçns livros, e teve seus primeiros aü,tato6 oom a'palavra impressa, através de uma cartilha. Tentou de início pegar as imagens que a ilustrmm, percebendo então serem apenas regresentaçOes das figuras reais. Mas "o que mais o intrifpa eram as figurinhas desenhadas embaixo de irnageÍÌs, e que provavelmente deveriam ser nss em nenhum descobria bocas e olhosl" Não

@b irnaginar que esses sinais fossem as letras O aftaUeó. Observando e refletindo, percebeu ffi ptrtcos a relação entre os "insetozinhos" e ar inngens que os acompanhavam; eles não eram nnmrib ÍÌurìerosos, repetiam-se várias vezes' Asim, nil.rna "tarefa extraordinária", aprendeu a ler

--rn p6tir a menor noção das letras, nem da [irçlagprn escrita, sem mesmo saber que essas coba existiam". Fascinante! tmpossível, diriam os mais céticos'

De fato, numa criança dede um ano de idade sern oontato com a civilização tal façanha parece apenas coisa de ficção. Mas os inúmeros escritores qre têm recriado a aprendizagem da leitura quase sempre apresenta m-na í ntencio na I mente como al go mágico, senão enquanto ato, enquanto processo de descoberta de um universo desconhecido e maravilhoso

Certamente aprendemos a ler a partir do nosso contexto pessoal. E temos que valorizá-lo para poder ir além dele. Ese o recado de Sartre, em seu relato autobiográfico, no qual apresenta uma perspectiva mais realista, mas não menos fascinante da iniciação à leitura:

"Apossei-me de um livro intitulado Tribulações de um chinês na Chína e o ffansportei para um quarto de despejo; aí, empoleirado sobre uma cama de armar, fiz de conta que estava lendo: seguia com os olhos as linhas negras sem saltar uma única e me contava uma história em voz alta, tomando o çuidado de pronunciar todas as sílabas. Surpre- enderam-me - ou melhor, tiz com que me surpreendessem -, gritaram admirados e decidiram que era tempo de me ensinar o alfabeto. Fui zeloso como um catecúmeno; ia a ponto de dar a mim mesmo aulas particulares: eu montava na minha cama de armar com o Sem Família, de

Hector Malot, que conhecia de cor e, em parte recitando. em parte decifrando, percorri-lhe todas as páginas, uma após outra: quando a última foi virada; eu sabia ler.

"Fiquei louco de alegria: eram minhas aquelas vozes secas em seus pequenos herbários, aquelas vozes que meu avô reanimava com o olhar, que ele t7F tIllaria Heleru MartinsO que é Leiura qlívia e eu nãõ! Eu iria escutá-las, encher-me-ia de dhr.rrsos cerirnoniosos e saberia tudo. Deixa- K'rHtE wgabundear pela biblioteca e eu dava dto à sabedoria humana. Foi ela quem me fez

" , . Nunca qaravatei a terra nem fareiei ninhos, ndn herborizei nem ioguei pedras nos passarinhos.

lilc os liwos foram meus passarinhos e meus

Ídr*rç. npus animais domésticos, meu estábulo e rrgr cÍrÍlpo; a biblioteca era o mundo colhido rrrn espelho; tinha a sua espessura infinita, a sua 1wiÍ#e e a $ta imprevisibilidade. Eu me lançava a inrcrínb anenturas: era preciso escalar as cadeiras, sÍ nxrs, oom o risco de provocar avalanches que rÍrt ter'nm sepultado. As obras da prateleira

$.F€Íbr ftcaram por muito tempo fora do meu atcarne; qrtras, mal eu as descobri, me foram airrebõExlas das mãos; outras, ainda, escondiam-se: an c apar*rara um dia, começara a lê-las, acreditava Ëõ Íepcto no lugar, mas levava uma semana fô reeÍìcontftá-las. Tive encontros horríveis: úrla um álbum, topava com uma.prancha em

ErÍrEi, irÌsetos horríveis pulavam sob minha vürta. Deitado sobre o tapete, empreendi áridas víryc através de Fontenelle, Aristófanes, Rúdab: as frases resistiam-me à maneira das coba; ormpria observá-las, rodeáìas, fingir que me afrtava e retornar subitamente a elas de modo a srpreendê{as desprevenidas: na maioria das vezes, gur&viln sêu segredo."

Aí temos duas sínteses literárias do processo de aprendizagem da leitura; uma altamente ficcional, outra autobiográfica. Ambas evidenciam a curiosidade se transformando em necessidade e esforço para alirnentar o irnaginário, dewendar os segredos do mundo e dar a conhecer o leitor a si rnesmo através do que lê e como lê. Embora os exernptos se refiram ao texto escrito, tanto

Burroughs quanto Sartre índicam que o conhecimento da língua não é suficiente para a leitura se efetivar. Na verdade o leitor préexiste à descoberta do significado das palavras escritas; foi-se configurando no decorrer das experiências de vida, desde as mais elementares e individuais às oriundas do intercâmbio de seu mundo pessoal e o universo social e cultural circundante.

Quando começamos a organizar os conheci- mentos adquiridos, a partir das situações que a realidade impõe e da nosa atuação nela; quando começamos a estabelecer relações entre as expe- riências e a tentar resolver os problemas que se nos apresentam - aí então estamos procedendo leituras, as quais nos habilitam basicamente a ler tudo e quálquer coisa. Esse seria, digamos, o lado otimista e prazeroso do aprendiz'ado da leitura. Dá-nos a irnpressão de o mundo estar ao nosso alcance; não só podemos compreendê-lo, conviver com ele, mas até modificá-lo à medida que incorporamos experiências de leitura

Não obstante, em nossa trajetória existencial, interpõem-se inúmeras barreiras ao ato de ler..

Maria HeleruMartins

CrJando" desde cedo, vêem-se carentes de convívici hurnano ou oom relações sociais restritas, quando ruas condições de sobrevivência material e cultural são prrárias, refreando também suas expectativas, as àrssoõ tendern a ter sua aptidão para ler ügualÍrnÍrte constrangida. Não que sejam incapazes tLnrc pessoõ com graves distúrbios de caráter ertolOgicol. A questão aí está mais ligada às

""ndiçõ.. de vida, a nível pesoal e social'

Ern 151, realizouse uma pesquisa sobre "Televbfu e Cnmunicação Publicitária no Meio Rural"' AlglJnt dos depoimentos colhidos entre moradores

Oo=lnetiot do Estado de São Paulo foram divulga-

fu pda Revista tsto É - Uma mulher (37 anos, cmda, dois filhos, trabalhadora na roça, moradora ern Cur*ra) disse a respeito da televisão | "Para 6wrk elevíúo tem'quQ nber ler. Eu não seí W,s'tfu não entendo nada". bsa declaraçâo, aparentemente sem sentido, dstr trarÌsparecer uma lógica, revelando um' prffi de reflexão acerca da leitura. E isso, em úttirna irstância, demonstra tratar-se de alguém que p-dtkla o ato de ler no seu cotidiano: tem condi- cõc+ enrbora pre<rírias, de dar sentido-às coisas, no t"Salho, na vida doméstica, nas relações humanas'

Ádçrnab, m eondicionar a leitura da TV à leiturado -tsto escrito, assemelhando a linguagem das ìinngens à dos signos lingüísticos, rompe com o coínpoítamento usual que vê ambqs as linguagens ilndependentes e tamkÉm exigindo capacidades

O que é Leitura diferentes para compreendê-las. Sua afirmação, nesse sentido, se aproxima da noção da leitura proposta aqui. Outra inferência do racioc'ínio expresso está na importância dada à leitura da escrita como ponte para outro entendimento, o que é comum à maioria das pessoas.

seria de se perguntar .em que medida essa mulher vê sua capacidade de dar sentido às coisas bloqueada pelo seu analfabetismo e qual a extensão de sua frustração diante disso. Como teria acres. centado que "quando compreende, esquece logo,', tem-se aí um dado elucidativo: o que se lhe oferecé para ler na televisão pouco ou nada significa para ela, por isso nâo chega a fixar na memória; seu universo de intereses é outro, outras as suas necessidades reais ou de fantasia.

A psicanálise enfatiza que tudo quanto de fato impressionou a nossÍì mente jamais é esquecido, mesmo que permaneça muito tempo na obscuri- dade do inconsciente. Essa constataçâo evidencia a importáncia da memória tanto para a vida quanto para a leitura. Principalmente a da palavra escrita - daí a valorização do saber ler e escrever -, já que se trata de um signo arbitrário, não disponível na natureza, criado como instrumento de comunicação, registro das relações humanas, das ações e aspirações dos homens; transformado com freqüência em instrumento de poder pelos domi- nadores, mas que pode também vir a ser a liberação dos dominados.

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