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Hartmut Günther (hartmut@unb.br) para fins descritivos, moda e mediana em lugar da média; e estatísticas paramétricas para fins inferenciais.

Do ponto de vista da análise estatística, medições em nível nominal freqüentemente podem ser convertidas em escalas intervalares. Quando existem apenas duas alternativas, codificadas como ‘0’ e ‘1’, não há necessidade de operações adicionais. Exemplos são perguntas solicitando respostas como sim vs. não, presente vs. ausente, ou sexo. Já itens oferecendo mais de duas alternativas, p. ex. estado civil, região de nascimento, afiliação religiosa, podem ser convertidos em uma série de alternativas binárias através do processo de codificação dummy, permitindo operações estatísticas reservadas a escalas intervalares e de razão (veja, p. ex., Tabachnick & Fidell, 1996, ou Stevens, 1986).

Até este ponto tratamos do desenvolvimento de um instrumento para survey como se fosse independente da maneira de aplicação, i.é, da interação pesquisador— respondente. Após considerações gerais sobre esta interação, trataremos separadamente de entrevistas pessoais, entrevistas por telefone, aplicação de questionários pelo telefone e via Internet.

A apresentação dos itens de um survey pode ser conceitualizada como um estímulo de que se espera alguma resposta, algum comportamento, que por sua vez precisa ser de alguma maneira registrado para poder ser analisado. Desta maneira, há potencialmente três atores envolvidos direta ou indiretamente: quem administra o instrumento, quem responde ao instrumento e quem transcreve a informação registrada no instrumento para o processamento e a análise dos dados. Enquanto o objetivo da pesquisa é verificar e analisar variações na resposta, devem ser minimizadas a variabilidade no comportamento de quem responde, a variabilidade atribuível a quem e/ou como se administra o instrumento e a maneira da transcrição das respostas. Vantagens e desvantagens das diferentes formas de aplicação de instrumentos de survey relacionam-se diretamente ao poder de minimizar a variabilidade indesejada e ressaltar a variabilidade desejada. A Tabela 2 sumaria esses inter-relacionamentos.

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Antes de comentar os quatro modos de apresentar o instrumento de survey, seguem-se algumas considerações.

Estimulação concorrente. No caso do instrumento auto-aplicável, é impossível controlar o ambiente onde o respondente preenche o questionário. Já numa interação pessoal pode-se controlar - até certo ponto - a estimulação concorrente pela escolha do local. Não se deve esquecer que o comportamento do entrevistador pode representar uma estimulação concorrente: imagina-se manuseando uma prancha com o instrumento, lápis, três fotos - dentre as quais o respondente deve escolher uma- mais o material usado, além daquele a ser usado. Se o entrevistador não for bem treinado, correrá o risco de confundir o respondente antes de obter alguma informação válida. Escolhendo para a aplicação um local calmo, de acesso restrito, com uma boa mesa, reduzem-se interferências indesejadas.

Pessoas envolvidas na administração de survey. Quanto aos atores envolvidos na administração de um instrumento de survey, ainda se considera o seguinte: o primeiro ator, que apresenta o instrumento ao respondente no contexto de entrevistas, precisa ser bem treinado para assegurar que a estimulação seja a mais semelhante possível em todos os contatos com os respondentes. A opinião emitida pelo respondente deve representar sua reação às alternativas apresentadas, não a quem as apresentou. Dentro de certos limites, isto pode até ser automatizado quando os itens são apresentados via computador, ou gravados, no caso de entrevistas por telefone. Obviamente, quanto mais padronizada a apresentação dos estímulos, i.é, dos itens, mais se perde o elemento humano de uma interação, aspecto que leva em conta a situação e o estado de espírito da situação (vide Krosnick, 1999). A preocupação com uma maior padronização da apresentação dos itens acontece em levantamentos de

Aplicação do Estímulo: Controle da variabilidade na Aplicação do Instrumento

Baix o Alto

Transcrição da Respost a:

Controle da variabilidade na transcrição das respostas ao instrumento

Baixo Entrevist a Pessoal Questionário enviado via correio ou aplicado em grupo

Alto

Entrevista via Telefone Questionário enviado via e-mail/internet.

Tabela 2: Formas de aplicação de instrumentos: vantagens e desvantagens

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Hartmut Günther (hartmut@unb.br) dados que: (a) se assemelham a testes, (b) solicitam informações mais objetivas ou (c) coletam dados entre muitos respondentes que precisam ser apurados de maneira rápida.

Considerando o segundo ator (o respondente), a maneira de apresentar os estímulos, itens, deve corresponder às suas habilidades, sejam intelectuais (saber ler) ou físicas (ver, ouvir, discriminar cheiro ou gosto). O que foi dito a respeito da compreensão da linguagem acima estende-se ao uso de símbolos e fotografias. O é entendido e interpretado como ‘concordância'? Aquela foto, caso escolhida pelo respondente como representando um escritório mais confortável, permite a inferência de que o respondente é dinâmico?

Quanto ao modo de registrar as respostas de um survey, convém pensar, desde o planejamento da pesquisa, no processamento e na análise dos dados. Enquanto respostas a perguntas abertas precisam ser decifradas, transcritas, codificadas, digitadas e verificadas quanto à consistência face às demais respostas (a proverbial mulher de 12 anos que relatou dois abortos e três gravidezes), o uso de um computador na apresentação dos itens e no registro das respostas facilita a apuração e assegura maior fidedignidade aos dados.

Questionários que contêm apenas perguntas objetivas podem ser acompanhados de um cartão especial para registro das respostas, que por sua vez pode ser lido mecanicamente. No caso da transcrição por alguém dos dados registrados numa folha de respostas, ou no próprio questionário, deve-se pensar nas capacidades de quem transcreve ou digita. Antes do instrumento ser entregue ao digitador, deve ter sido ‘limpo' de tal maneira que não requira julgamento adicional por parte dele (p. ex., o respondente marcou um 3 ou um 4 naquele item).

O layout do questionário deve permitir orientação no que diz respeito à seqüência da informação a ser transcrita. Se há texto como resposta a perguntas abertas, não somente deve ser legível, mas também claro. Outra questão refere-se ao que deve ser transcrito: o texto todo? apenas uma parte? que parte? O layout e as instruções ao respondente devem facilitar a leitura das respostas pelo digitador. No caso de itens de escolha múltipla, devem ser apresentados números em vez de palavras ou letras e pedir que o respondente os circule em vez de marcar com X.

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Do ponto de vista da estandardização das perguntas e do potencial para transcrever as respostas, a aplicação pessoal de instrumentos é a mais problemática. Além de exigir treinamento para os aplicadores e para as pessoas que transcrevem as respostas (especialmente a perguntas abertas), é o método mais demorado e mais caro. Sua vantagem é permitir acesso a informações mais delicadas, à parte ser indispensável na fase inicial, estudo-piloto de qualquer tipo de procedimento.

Em instrumentos auto-aplicáveis pode-se trabalhar com imagens ou apresentar várias alternativas a uma pergunta. No caso de entrevistas, tal uso é mais complicado. Estímulos visuais podem ser preparados para apresentação repetida a respondentes em entrevistas pessoais. Já no caso de entrevistas por telefone, as alternativas precisam ser curtas para que os respondentes não tenham dificuldade de lembrá-las.

Do ponto de vista da padronização das perguntas, questionários auto-aplicáveis reduzem essa fonte da variabilidade. No que se refere à transcrição das respostas, depende da proporção de perguntas abertas. A desvantagem mais citada de survey por correio é a taxa de resposta. Dillman (1972, 1978; Dillman, Christenson, Carpenter & Brooks, 1974; Dillman & Frey, 1974) apresenta uma série de procedimentos que se têm mostrado eficazes para assegurar uma taxa de devolução acima de 50 por cento. Por outro lado, Krosnick (1999) cita pesquisas mais recentes que sugerem que baixas taxas de resposta não significam necessariamente baixo grau de representatividade, especialmente no caso de amostras probabilísticas (vide também Fraser-Robinson, 1991).

Do ponto de vista da padronização das perguntas e do potencial para transcrever as respostas, a entrevista por telefone - especialmente com apoio de computador - tem grande valor. Embora também precise do treinamento dos entrevistadores, reduz-se consideravelmente o uso de papel, visto que as perguntas são apresentadas na tela do computador para o entrevistador, que as lê para o entrevistado. A seqüência de perguntas pode ser programada de forma que, dependendo da resposta, uma ou outra pergunta seja indicada para ser a próxima. Admitindo que nem toda a população tem acesso a telefone, é preciso

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Hartmut Günther (hartmut@unb.br) atentar para a representatividade da população-alvo e da amostra atingida. Em 1988, porém, Rodrigues e colaboradores conseguiram utilizar esta técnica com sucesso no Brasil (vide também, Lavrakas, 1993, 1998).

Do ponto de vista da padronização das perguntas e do potencial para transcrever as respostas, instrumentos distribuídos por meio de e-mail têm grande potencial. Além do mais, são mais rápidos do que survey por telefone e mais baratos, porque eliminam custos de entrevistador (survey pessoal ou por telefone), papel, impressão, selo (survey pelo correio). A problemática de amostragem inerente ao uso do telefone para a coleta de dados é ainda mais séria no uso de e-mail e Internet: a população-alvo atingível é mais restrita. Schafer & Dillman (1998) relatam um experimento contrastando diferentes maneiras de contato com respondentes, chegando à conclusão de que técnicas utilizadas em survey por correio são igualmente válidas para surveys por e-mail. Desta maneira, este caminho tem grande potencial para populações que têm acesso a e-mail, seja dentro de uma organização, seja por outras características comuns.

A presente capítulo tratou de bases conceituais de questionários, da estrutura lógica, dos elementos e do contexto social da aplicação do instrumento. Concluiu-se o texto com considerações acerca de diferentes formas de questionários conforme a maneira de sua aplicação: entrevista individual, pelo telefone, por correio convencional ou eletrônico.

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