Teoria das representações sociais e ALCESTE-contribuições teórico-metodológicas na pesquisa qualitativa

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Pesquisa, Teoria e Metodologia

Teoria das representações sociais e ALCESTE: contribuições teórico-metodológicas na pesquisa qualitativa

The social representations theory and ALCESTE: theoretical-methodological contribution in qualitative research

Dulcian Medeiros de Azevedo1

Francisco Arnoldo Nunes de Miranda²

1Professor Assistente I, Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Caicó, RN - Brasil 2 Professor Adjunto IV, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal, RN - Brasil

RESUMO - Objetivou-se divulgar e demonstrar o uso da Teoria das Representações Sociais (TRS) e do Analyse Lexicale par Contexte d’un Ensemble de Segments de Texte (ALCESTE) na pesquisa em saúde. As Representações Sociais são uma modalidade de conhecimento particular, com a função de elaborar comportamentos e facilitar a comunicação entre indivíduos, a partir de dois universos (consensual e reificado). O ALCESTE auxilia na análise de conteúdos textuais densos e carregados de sentidos diversos, sejam eles escritos ou obtidos a partir da fala, objetivando não o cálculo de sentido, mas a organização tópica do discurso num contexto léxico. A TRS configura um ambiente de investigação rico, permitindo ao pesquisador vivenciar possibilidades de aprendizado e cenários de pesquisa diversos, que aliada ao trabalho de dados textuais executado pelo ALCESTE, forma uma ótima escolha no campo da investigação científica em saúde. Entretanto, destaca-se que os estudos representacionais não prescindem do ALCESTE como ferramenta obrigatória. Palavras-chave: Pesquisa Metodológica em Enfermagem; Pesquisa Qualitativa; Enfermagem.

ABSTRACT - The objective was to communicate and demonstrate the use of the Social Representations Theory (SRT) and Analyse Lexicale par Contexte d’un Ensemble de Segments de Texte (ALCESTE) in health research. Social representations are a particular kind of knowledge, with the task of developing behaviors and facilitate communication between individuals from two populations (consensual and reified). The ALCESTE assists in the analysis of dense and loaded textual content with different meanings, whether written or obtained from the talks, aiming not the meaning calculation, but the topical organization of discourse in a lexical context. SRT sets up a rich research environment, allowing the researcher to experience the possibilities of learning and research various scenarios, which combined with the work performed by ALCESTE textual data, is a great choice in the field of scientific research in health. However, it is emphasized that representational studies does not require ALCESTE as an obligatory tool. Keywords: Nursing Methodology Research; Qualitative Research; Nursing.

1. INTRODUÇÃO Este artigo se baseia num recorte da produção científica dos autores, mediante a pesquisa junto a 28 familiares de portadores de transtorno mental e usuários de álcool e outras drogas, dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de Natal-RN, em meio ao processo de Reforma Psiquiátrica vivenciado na capital potiguar1 .

O questionamento de pesquisa decorreu da participação do familiar junto à dinâmica de funcionamento das atividades propostas pelos CAPS, através de entrevistas individuais realizadas nos próprios serviços de saúde mental, pressupondo-se a existência de espaços propícios ao diálogo, adequadamente pertinentes aos princípios da agenda terapêutica, propostas em harmonia com os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) e da própria Reforma.

Percorrer o caminho subjetivo e multifacetado do discurso dos familiares, imerso num ambiente de objetos de estudo tão complexos quanto a loucura e o uso de substâncias psicoativas, obrigou os autores a empregar um referencial teórico-metodológico flexível, intercambiável e instigador da aprendizagem que é a Teoria das Representações Sociais (TRS).

Esta teoria é entendida como uma modalidade de

Saúde & Transformação Social Health & Social Change

Autor correspondente

Dulcian Medeiros de Azevedo Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

Rua André Sales, 667.

Email: professordulcian@gmail.com

Artigo encaminhado 30/08/2012 Aceito para publicação em 1/10/2012

conhecimento particular que desempenha a elaboração de comportamentos e a comunicação entre pessoas, onde são produzidos e determinados comportamentos, além de definir a natureza dos estímulos que nos cercam e nos provocam, e o significado das respostas a emitir2 . Na enfermagem, a

TRS direciona o profissional no desenvolvimento de estudos em diversos campos do conhecimento, auxiliando também em pesquisas de fenômenos sociais que comprometem amplamente a sociedade.

Nesse sentido, a TRS contribui na mediação entre o processo de autoconhecimento e autodesenvolvimento, na melhoria da qualidade da assistência ao usuário, percepção de problemas e auto-avaliação profissional, reafirmando o seu caráter de pesquisa aplicada, voltada aos problemas e objetos da prática profissional cotidiana do enfermeiro 3,4 .

A adesão por parte de alguns profissionais enfermeiros a essa teoria decorre de uma particularidade comum, pois a mesma apresenta amplas possibilidades de pesquisar problemas cotidianos que vão além do enfoque mais tradicional, centrado no modelo biomédico e na abordagem quantitativa5 . A TRS seria capaz de proporcionar a compreensão da prática do enfermeiro na interface da qualidade e da quantidade de atividades e procedimentos de pesquisa, voltados ao atendimento das demandas dos usuários e dos serviços de saúde mental.

Do ponto de vista operacional, trabalhar com um universo de dados tão extenso e multidimensional sob o olhar da TRS requereu o emprego metodológico de algo que pudesse facilitar o entendimento geral dos discursos familiares, mantendo a unidade de significados e demarcando fielmente o caminho lógico das representações sociais (RS). Tal artifício metodológico foi intercambiado pelo Software Analyse Lexicale par Contexte d’un Ensemble de Segments de Texte (ALCESTE), considerado pioneiro no uso da informática na análise de conteúdo, criado na França na década de 1970 6-8 .

O ALCESTE tem sido introduzido no Brasil em algumas pesquisas, em especial naquelas com enfoque e uso da TRS e, basicamente, na área da saúde. Ele realiza a análise léxica das palavras de um conjunto de textos, independente da origem de sua produção, podendo ser tanto comunicações verbais e/ou escritas, quanto manifestações discursivas 6,7,9 .

Esse recurso informacional foi desenvolvido para atender às demandas decorrentes da utilização de multimétodos em pesquisa, com geração de volumes consideráveis de informações sobre um dado objeto de estudo, muito comum nas pesquisas qualitativas em saúde. Portanto, objetivou-se divulgar e demonstrar o uso da TRS e ALCESTE na pesquisa em saúde.

2. TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS: ABORDAGEM SÓCIO-COGNITIVA E ESTRUTURAL

A TRS tomou corpo e status de teoria a partir do estudo seminal de Serge Moscovici2 (1978), denominado “La psychanalyse, son imagem et son public”, que buscava a compreensão do fenômeno da psicanálise perante o entendimento da sociedade parisiense, contribuindo substancialmente para o entendimento da psicanálise naquele contexto.

O autor2 resgatou o conceito de representações coletivas, inicialmente proposto por Émile Durkheim e, de alguma forma, esquecido por seus contemporâneos, a partir do estudo em que analisou as diversas maneiras pelas quais a psicanálise era percebida (representada), difundida e propagandeada ao público parisiense.

Os resultados levaram à conclusão de que as RS são resultantes das interações diárias dos sujeitos psicossociais, e ocorrem na interface da psicologia e da sociologia. Ambas interatuam, modificam, acrescentam, suprimem elementos dos quais os sujeitos, nas suas elaborações, compartilham essa construção produtora de sentido e significado, que serve aos mesmos como um guia prático para orientação social10 .

Da teoria, foi constatada a existência de dois universos, o universo consensual e o reificado, como produtores de sentido e orientação na sociedade contemporânea. As RS são forjadas na interface desses dois universos, como uma formar particular e peculiar de compartilhamento dos sujeitos psicossociais2 .

O universo consensual é entendido como o campo do senso comum, elaborado e reelaborado no dia-adia pelas interações estabelecidas numa probabilidade discursiva sobre algo inquietante, assunto, acontecimento e pessoa, ou ainda, fato de interesse e importância para os sujeitos sociais. Já o reificado é aquele identificado como o universo da ciência, envolvendo seus pressupostos teóricos e critérios técnico-metodológicos, o que exige para seu reconhecimento formal a neutralidade, a validade e o rigor2 .

Dessa forma, estes universos atuam em conjunto sobre a realidade psicossocial, através de um espaço interacional e dinâmico, com níveis de informação

circulante variados, capazes de modificar, adaptar ou ajustar a compreensão perante um fenômeno.

As RS, por sua natureza, apresentam-se como uma construção capaz de transformar algo desconhecido e não-familiar, em algo conhecido ou familiar2 . A transformação do familiar revela a interdependência da realidade psicossocial, cujos elementos estruturais e estruturantes são característicos de seu aspecto conceitual e figurativo.

A construção conceitual é a capacidade de transformar algo desconhecido em conhecido, atribuindo-lhe um sentido, simbolizando-o. Já a construção figurativa diz respeito ao movimento que permite transformar algo abstrato, recuperando seu sentido quase físico no espaço da concretude, figurando-o. A transição entre as construções conceituais e figurativas se dá no contexto sóciocultural, revelando o posicionamento do sujeito frente às questões que envolvem inquietações, conflitos e diversidades do seu desenvolvimento humano2 .

As RS são entendidas como uma modalidade de conhecimento particular, que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos numa sociedade produtora de efeitos no plano da interação social, utilizando-se da pressão à inferência, do engajamento e da dispersão da informação, como forma de compartilhamento dos sujeitos psicossociais numa dada realidade2 .

Os processos sócio-cognitivos das RS, objetivação e ancoragem, atuam simultaneamente modificando a realidade psicossocial através do espaço interacional frente a um determinado objeto do seu interesse ou do grupo que pertence. O envolvimento entre sujeito, objeto e contexto, independente do resultado dessa aproximação, pode revelar a qualidade do processo de elaboração das RS5 .

A ancoragem está situada no nível dos conceitos e categorias, com a função de trazer para categorias as imagens conhecidas, ou ainda, ocorre por meio da inserção do objeto de representação num marco de referência conhecido e, portanto, já dominado. A objetivação está relacionada ao conceito, e tem a função de duplicar um sentido por uma figura, significando a materialização de um objeto

Outra abordagem reconhecida da TRS é a estrutural, capitaneada pelo desenvolvimento e elaboração de mais uma teoria a partir de suas bases, a Teoria do Núcleo Central (TNC). A TNC foi proposta em 1976 por Jean-Claude Abric em estudos sobre representações sociais e comportamentos, através da hipótese de que a organização de uma representação social apresenta uma característica particular.

Tal característica diz respeito ao fato de que não apenas os elementos da representação são hierarquizados, mas toda representação é organizada em torno de um núcleo central, constituído de um ou de alguns elementos que dão significado à representação12 .

Autores 1,12 afirmam que toda representação social está organizada em torno de um núcleo central e de elementos periféricos e intermediários. A natureza do núcleo central é essencialmente social e ligada às condições históricas, sociológicas e ideológicas diretamente associadas aos valores e normas.

O sistema periférico se associa às características individuais e ao contexto imediato e contingente, o que permite adaptações e diferenciações em função do vivido, integrando as experiências cotidianas às informações e práticas diferenciadas 1,12 . O núcleo central estruturante, ou núcleo duro, determina a natureza e a relação dos conteúdos das RS, possuindo duas funções fundamentais: a função geradora que qualifica, cria ou transforma o significado de todos os elementos constitutivos da representação social; e a função organizadora, que determina a natureza dos elos, unindo e estabilizando os diferentes elementos da representação social12 .

Por sua vez, os elementos periféricos são a interface entre o núcleo central, reificado, e a realidade dinâmica em constante transformação no dia-a-dia dos sujeitos psicossociais. Os elementos periféricos têm três funções: a função concretizadora, a função de regulação, e a função de defesa12 . Os elementos intermediários são constituídos de conteúdos mais flexíveis que interagem com os elementos periféricos e o núcleo central, em graus variados de pressão, inferência, engajamento e dispersão da informação11 .

Após quatro décadas de sua elaboração, a TRS continua despertando fascínio e interesse naqueles que se propõem a estudá-la. Multiplicam-se pesquisas e estudos em diferentes áreas do conhecimento, extrapolando a circunscrição da psicologia social, servindo de ferramenta a outros campos, com propostas teóricas diversificadas.

Atualmente, a TRS circula por várias áreas de conhecimento das ciências humanas, sociais e da saúde, tanto na Europa como nas Américas, incluindo o Brasil, apresentando nuances, seja em suas esferas

de domínio (antropologia, psicologia social, história, filosofia, enfermagem), especialmente nas concepções grupais e sociais aplicadas, seja na forma de identificar os objetos de representação num determinado

Na área das Ciências da Saúde, foi realizado um levantamento de fontes teórico-metodológicas para a TRS presente em artigos de periódicos, exceto os de ciências médicas. Num total de 45 artigos, em 19 periódicos, foram encontradas 138 referências, correspondendo a 69 obras com abrangência para a

TRS, e participação de 49 autores13 .

O achado mais significativo foi a constatação de que dos 19 periódicos analisados, 9 eram do domínio exclusivo da Enfermagem, demonstrando a utilização e importância desse referencial no desenvolvimento de pesquisas empíricas, fortalecendo o conhecimento científico e a interdisciplinaridade na área.

Já no domínio exclusivo da Enfermagem, outro estudo demonstra a força que o uso da TRS possui, enquanto referencial teórico-metodológico na fundamentação e guia de grande parte da produção do conhecimento em pesquisas, especificamente no que tange às dissertações e teses dos programas de pós-graduação em enfermagem no Brasil4 .

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