Aspectos vocais do cantor erudito - 17.12.12

Aspectos vocais do cantor erudito - 17.12.12

(Parte 2 de 7)

Behlau et al. (2008) dizem que a voz é uma manifestação com base psicológica, mas de sofisticado processamento muscular. Quando a harmonia muscular é mantida, obtém-se um som de boa qualidade para o ouvinte e produzido sem esforço ou desconforto para o falante. Esses atributos caracterizam a eufonia.

Neste sentido, a denominação “normal”, referente ao uso adequado das estruturas fonatórias, articulatórias e de ressonância para a produção vocal pode parecer um pouco equivocado, já que existe uma grande variabilidade intrafalante e interfalante, além de certa dose de subjetividade nesse conceito (BEHLAU et al., 2008).

Pode-se dizer então, que quando uma voz é clara, harmoniosa, de intensidade e altura medianas e adequadas para o sexo e a idade do falante, bem como para a situação de emissão, ela é uma voz “adaptada”, ou seja, ela se adéqua às necessidades do falante.

Ainda Behlau et al. (2010) constatam que o uso da voz na execução da profissão pode acarretar algumas alterações vocais definidas como transtornos vocais ocupacionais, decorrentes tanto de questões ambientais como individuais, ao exercer o cargo profissional.

3.2 Fisiologia da Fonação

Os órgãos que utilizamos na produção da fala não têm como função primária a articulação de sons. Na verdade, não existe nenhuma parte do corpo cuja única função esteja apenas relacionada com a fala. As partes do corpo utilizadas na produção da fala têm como função primária outras atividades como, por exemplo, mastigar, engolir, respirar ou cheirar (SILVA, 2001), ou seja: este que chamamos de aparelho fonador ou aparelho vocal, nada mais é do que a união de partes dos sistemas respiratório e digestório.

A aquisição de produção vocal voluntária exigiu, portanto, o desenvolvimento de uma série de vias neurais que conectam a musculatura laríngea e as áreas cerebrais correspondentes (BEHLAU et al., 2008), uma vez que, inicialmente, não está provado que a função da linguagem, tal como ela se manifesta quando falamos, seja inteiramente natural, isto é: que nosso aparelho vocal tenha sido feito para falar, assim como nossas pernas para andar. [...] é por acaso e por simples razões de comodidade que nos servimos do aparelho vocal como instrumento da língua; os homens poderiam também ter escolhido o gesto e empregar imagens visuais em lugar de imagens acústicas. (SAUSSURRE, 2010, p. 16).

Tal atividade complexa depende da interação dos diversos níveis do sistema nervoso central e do periférico, alem da ação programada e coordenada dos receptores sensoriais (BEHLAU et al., 2008).

Para Pinho e Pontes (2008), a produção da fala envolve três processos básicos: a produção do sinal laríngeo pela vibração das pregas vocais, a ressonância e a articulação do som gerado que ocorrem no trato vocal supraglótico. A fonação tem origem no córtex cerebral, que ativa os núcleos motores do tronco encefálico e da medula, transmitindo os impulsos nervosos para a musculatura da laringe, dos articuladores, do tórax e do abdome.

A musculatura intrínseca da laringe é movida pela atividade do nervo Vago, que é o décimo par de nervos cranianos (X par – Vago) e é o principal responsável não só pelas atividades motoras da laringe, como também pelas relativas à fonação e à deglutição. O nervo Vago possui três ramos de interesse para o nosso estudo, os nervos faríngeo, laríngeo superior e laríngeo inferior ou recorrente (PINHO; PONTES, 2008).

A musculatura intrínseca da laringe tem sua fixação dentro da laringe e é responsável pela variação da frequência, amplitude e vibração das pregas vocais. Essas variações proporcionadas pela musculatura intrínseca permitem a produção das mudanças acústicas e perceptivas na voz, isto é, o pitch, o loudness e a qualidade vocal. (CARDOSO, 2012, p. 5).

A musculatura extrínseca da laringe é formada pelos músculos que possuem fixação dentro (no osso hioide) e fora da laringe. Ela é formada por oito músculos que estão dispostos abaixo e acima do osso hioide. Essa musculatura realiza ajustes que contribuem para as alterações perceptuais da voz, influenciando a tensão do fechamento das pregas vocais (CARDOSO, 2012 p. 8).

A produção vocal necessita de pressão subglótica (possibilitada pela caixa torácica) dos mecanismos abdominais, promovendo a constância da pressão e do volume pulmonar (CARDOSO, 2012). Segundo a teoria mioelástica, para que a voz seja produzida, é necessário que um fluxo aéreo subglótico passe pelas pregas vocais aduzidas, formando pufs de ar vocalizado.

Assim é que, muitos teóricos relatam ser a respiração o combustível da voz.

Miller (2000), por exemplo, afirma que o controle respiratório é a base essencial para um vocalismo habilidoso.

Não obstante, vale ressaltar que este som ainda é um som bruto que será lapidado e ganhará a forma acústica final somente após ser filtrado pelas caixas de ressonância. Ou seja, ele é formado na glote, o que a caracteriza como a fonte da voz, mas antes de sair pelas vias aéreas ele ainda é formatado mais uma vez, nas chamadas caixas de ressonância, compostas pelas cavidades faríngea, oral e nasal. “A intensidade vocal é controlada essencialmente pela ação combinada da pressão de ar subglótico e o uso efetivo dos ressonadores supraglóticos” (PROCTOR, 1980, citado por MILLER, 2000, p. 35).

As cavidades faríngea, oral e nasal funcionam como filtros para o sinal sonoro produzido na laringe, modificando-o e amplificando-o para a dispersão no meio.

3.3 Voz Profissional

Ao longo do tempo, o ser humano passou a utilizar a voz de maneiras bem distintas e cada vez com maiores exigências. Assim, surgiu o uso ocupacional da voz, isto é, aquele em que, segundo Nagano e Behlau (2001), a voz é essencial para o exercício da atividade profissional e não há treinamento específico para sua utilização.

Para este fim, uma alteração vocal moderada já faz uma grande diferença na performance profissional. São usuários da voz ocupacional os professores, padres, telefonistas, operadores de telemarketing, conferencistas e afins.

Diferentemente, ainda, há o uso profissional da voz que é aquele em que a voz é essencial para o exercício da atividade profissional e há um treinamento bastante específico para a sua utilização. Usuários profissionais da voz são os cantores profissionais e atores, para os quais mesmo uma discreta alteração vocal poderá causar consequências sérias, e os quais são os formadores da elite vocal. (KOUFMAN; ISAACSON, 1991).

No que tange ao uso profissional da voz, mesmo o termo “voz adaptada”, segundo Behlau et al. (2008), deixa a desejar e um termo melhor aceito seria “voz preferida”, o qual contempla também questões culturais e modismos, bem como exigências de cada estilo musical.

Qualquer perturbação da voz causada por alterações funcionais pode ser uma disfonia, ou seja, os distúrbios vocais ocasionados pelo mau uso da voz contribuem para a mudança no tecido laríngeo, que resultam em malformações como nódulos, pólipos, úlceras de contato e outros. Tais alterações caracterizam-se por desvios na altura, intensidade, qualidade ou outros atributos vocais que interferem na produção vocal ideal para a atividade profissional.

Pinho (2004) descreveu que os variados tipos de disfonias caracterizam-se por uma diversificação de padrões acústicos, localizações anatômicas e etiologias, considerando a alteração vocal como sendo somente sinal de um maior envolvimento neuromuscular durante a emissão vocal.

Para evitar tudo isso, cantores profissionais usam técnicas e exercitam suas pregas vocais, a fim de criar maior força e resistência (FACINCANI et al., 2001). E é isso que os distingue dos cantores amadores, que por definição, são aqueles que cantam informalmente, apenas para diversão e entretenimento próprios e de amigos, sem fazer disso um meio de vida e ainda só entendem superficialmente do tema (FERREIRA et al., 2004).

Não é necessário saber qualquer coisa sobre fisiologia vocal para cantar, mas algum conhecimento dos processos musculares envolvidos na fonação podem ajudar grandemente o entendimento e desenvolvimento da técnica vocal (THOMPSON, 2004, p. 3).

Facincani et al. (2001) supõem que muitas queixas vocais aconteçam pelo fato de o cantor não aquecer previamente a voz, o que lhe proporcionaria às estruturas que compõem o aparelho vocal melhores condições para ter eficiência vocal, com menor desgaste possível.

Os autores acima citados acreditam, também, que cantores e atores sejam atletas da voz e, como tal, utilizam vários músculos no seu exercício profissional. Assim, precisam de treino, cuidados físicos, dedicação e hábitos saudáveis para manter-se “em forma”.

Precisam de exercícios específicos para os músculos que trabalham, com o objetivo de criar resistência e força vocais, assim como ser aquecidos da mesma forma que os outros músculos do corpo, conforme atletas profissionais o fazem, em consonância com seus treinadores e preparadores físicos, a fim de evitar lesões e melhorar seu desempenho profissional.

3.4 A Voz para o Canto Erudito

A música cantada pode ser divida em dois grandes grupos, em se tratando de estilo musical: música popular e música erudita. A música erudita é aquela cujo público, tradicionalmente, pertence às classes sociais mais abastadas e é, portanto, aquela com público mais restrito (CANDÉ, 2001).

No entanto, com o boom da globalização e da informação tecnológica, todos passam a ter acesso a esse estilo e a música erudita deixa de ser a música da elite e passa a ser a música, ainda de poucos, mas dos que buscam por ela.

O canto erudito, por sua vez, não foge a essa realidade e, por ter exigências vocais muito maiores também não possui muitos intérpretes atualmente, já tendo tido, outrora, muito mais simpatizantes. Ele pressupõe, segundo Behlau et al. (2010), necessariamente a existência de um treinamento vocal prévio e o desenvolvimento de uma voz nesse nível exige dom, empenho, dedicação e anos de estudo continuado.

De fato, Miller (2000) afirma que o cantor lírico precisa dominar sua respiração, agilidade ao cantar, ressonância, nasalidade, dinâmica, apoio diafragmático e o controle emoção/técnica.

Exatamente por ter um aprendizado específico, o perfil do cantor erudito é completamente diferente do cantor popular. O cantor erudito desenvolve uma consciência vocal particular, geralmente conhecendo a fisiologia básica da produção da voz, e valorizando as regras de higiene vocal. (BEHLAU et al., 2010, p. 338).

A técnica do cantor erudito exige, quando bem executada, uma série de adaptações respiratórias, vibratórias, ressonantais e posturais. Behlau et al. (2010) afirmam que essas adaptações podem ser consideradas antinaturais e antifisiológicas, por não corresponderem ao mecanismo comumente empregado na fala coloquial ou no canto popular.

Por outro lado, Thompson (2004), explanando sobre diferentes técnicas vocais, afirma que a voz deve ser produzida sem nenhum aperto ou desconforto. De fato, a voz cantada deve ser o mais agradável possível, não só ao ouvir, mas também ao cantar propriamente falando.

O canto erudito classifica as vozes de seus intérpretes, para fins de repertório, segundo sua extensão vocal, tessitura, agilidade, localização das notas de passagem (Passaggio), impostação e projeção, entre outros.

A classificação mais simples para cantores eruditos os divide em seis categorias: soprano, mezzo-soprano, contralto, tenor, barítono e baixo. Cada autor lhes atribui extensões vocais - apesar de aproximadas, diferentes. As tabelas a seguir mostram as extensões vocais para vozes femininas e masculinas.

Tabela 1: Extensão Vocal das Vozes Femininas Classificação

Vocal Descrição

Extensão vocal segundo

Soprano É a voz mais aguda e a mais comum entre as mulheres.

Sol2 ao Dó4

Dó3 ao Dó5

Si2 ao Fá5

Mezzo-Soprano Intermediária. Nem tão aguda quanto o soprano nem tão grave quanto o contralto.

Fá2 ao Si4

Lá2 ao Lá4

Lá2 ao Dó5

(Parte 2 de 7)

Comentários