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Apesar da importância e originalidade das pesquisas qualitativas da Escola de Chicago, não se pode deixar de lado suas pesquisas quantitativas. Em 1929, Shaw e outros pesquisadores publicaram uma obra sobre a delinquência urbana em que recensearam cerca de 60 mil domicílios de "vagabundos, criminosos e delinquentes" de Chicago, para demonstrar as taxas de criminalidade em diferentes bairros.

E. Burgess, um dos nomes mais representativos da Escola de Chicago, apontava, em 1927, que os métodos da estatística e dos estudos de caso não são conílitivos mas mutuamente complementares e que a interação dos dois métodos poderia ser muito fecunda. Afirmava que as comparações estatísticas poderiam sugerir pistas para a pesquisa feita com estudos de caso, e que estes poderiam, trazendo à luz os processos sociais, conduzir a indicadores estatísticos mais adequados.

É preciso destacar que a sociologia da Escola de Chicago abriu caminhos para a sociologia como um todo, principalmente no que diz respeito à utilização de métodos e técnicas de pesquisa qualitativa. O trabalho de campo tornou-se uma prática de pesquisa corrente também na sociologia e não apenas na antropologia.

Também proporcionou vários temas de pesquisa à sociologia contemporânea e desenvolveu novas correntes teóricas, como as teorias do rótulo e do desvio.

Dentre os estudos mais representativos desta corrente estão os de Howard Becker e Erving Goffman. Outsiders: studies in the sociology of deviance (1963), de

Howard Becker, sobre músicos profissionais fumantes de maconha, discute os processos pelos quais os desviantes são definidos como tais pela sociedade que os cerca, mais do que pela natureza do ato que praticam.

The Presentation ofSelfin Everyday Life (1959), de Goffman, analisa os "desempenhos teatrais" dos atores sociais em suas açóes do dia-a-dia.

A Escola de Chicago abriu caminho para correntes teóricas que, mesmo não podendo ser diretamente associadas a ela, não deixam de apresentar certa influência de sua abordagem metodológica, como a fenomenologia sociológica e a etnometodologia. A primeira busca sua fundamentação na filosofia de Husserl, que faz uma crítica radical ao objetivismo da ciência. O argumento de Husserl é o mesmo de W Dilthey e Max Weber: os atos sociais envolvem uma propriedade—o significado — que não está presente em outros setores do universo abarcados pelas ciências naturais. Proceder a uma análise fenomenológica é substituir as construções explicativas pela descrição do que se passa efetivamente do ponto de vista daquele que vive a situação concreta. A fenomenologia quer atingir a essência dos fenómenos, ultrapassando suas aparências imediatas. O pensamento fenomenológico traz para o campo de estudo da sociedade o mundo da vida cotidiana, onde o homem se situa com suas angústias e preocupações. A etnometodologia apóia-se nos métodos fenomenológicos e hermenêuticos com o objetivo de compreender o dia-a-dia do homem comum na sociedade complexa. Harold Garfínkel estabeleceu as bases metodológicas e o quadro conceituai da etnometodologia em Studies in Ethnomethodology, publicado em 1967 nos EUA. Garfínkel define sua teoria como uma forma de compreender a prática artesanal da vida cotidiana, interpretada já numa primeira instância pelos atores sociais. A etnometodologia procura descobrir as práticas e representações segundo as quais as pessoas negociam, cotídianamente, a sua inserção nos grupos.

A sociologia de Garfinkel repousa sobre o reconhecimento da capacidade reflexiva e interpretativa de todo ator social. Estas duas escolas, a fenomenologia e a etnometodologia, inserem-se na tradição metodológica qualitativa ao tentar ver o mundo através dos olhos dos atores sociais e dos sentidos que eles atribuem aos objetos e às ações sociais que desenvolvem.

ESTUDOS DE CASO

O termo estudo de caso vem de uma tradição de pesquisa médica e psicológica, na qual se refere a uma análise detalhada de um caso individual que explica a dinâmica e a patologia de uma doença dada. Este método supõe que se pode adquirir conhecimento do fenômeno estudado a partir da exploração intensa de um único caso. Adaptado da tradição médica, o estudo de caso tornou-se uma das principais modalidades de pesquisa qualitativa em ciências sociais. O estudo de caso não é uma técnica específica, mas uma análise holística, a mais completa possível, que considera a unidade social estudada como um todo, seja um indivíduo, uma família, uma instituição ou uma comunidade, com o objetivo de compreendê-los em seus próprios termos.

O estudo de caso reúne o maior número de informações detalhadas, por meio de diferentes técnicas de pesquisa, com o objetivo de apreender a totalidade de uma situação e descrever a complexidade de um caso concreto.

Através de um mergulho profundo e exaustivo em um objeto delimitado, o estudo de caso possibilita a penetração na realidade social, não conseguida pela análise estatística.

Diferente da "neutra" sociologia das médias estatísticas, em que as particularidades são removidas para que se mostre apenas as tendências do grupo, no estudo de caso as diferenças internas e os comportamentos desviantes da "média" são revelados, e não escondidos atrás de uma suposta homogeneidade.

Moacir Palmeira7 mostra que a pesquisa quantitativa pressupõe uma padronização e se ilude com a ideia de que questões formalmente idênticas tenham o mesmo significado para indivíduos diferentes. A observação direta, diz o autor, apresenta a vantagem metodológica de permitir um acompanhamento mais prolongado e minucioso das situações. Essa técnica, complementada pelas técnicas de entrevista em profundidade, revela o significado daquelas situações para os indivíduos, que sempre é mais amplo do que aquilo que aparece em um questionário padronizado.

O tipo' de dados e de procedimentos de pesquisa que normalmente se relacionam com o método de estudo de caso, como a observação participante e as entrevistas em profundidade, têm suas origens em uma tradição de pesquisa antropológica nas sociedades "primitivas".

Não é possível formular regras precisas sobre as técnicas utilizadas em um estudo de caso porque cada entrevista ou observação é única: depende do tema, do pesquisador e de seus pesquisados. Como os dados não são padronizados e não existe nenhuma regra objetiva que estabeleça o tempo adequado de pesquisa, um estudo de caso pode durar algumas semanas ou muitos anos. O pesquisador deve estar preparado para lidar com uma grande variedade de problemas teóricos e com descobertas inesperadas, e, também, para reorientar seu estudo. E muito frequente que surjam novos problemas que não foram previstos no início da pesquisa e que se tornam mais relevantes do que as questões iniciais.

Uma proposta de Pierre Bourdieu é "boa para pensar" a utilização do estudo de caso em ciências sociais.

Bourdieu, em Introdução a uma sociologia reflexiva, explica a importância da "interrogação sistemática deum caso particular" para retirar dele as propriedadesgerais ou invariantes, ocultas "debaixo das aparênciasde singularidade".

"É ele [o raciocínio analógico] que permite mergulharmos completamente na particularidade do caso estudado sem que nela nos afoguemos, como faz a idiografia empirista, e realizarmos a intenção de generalização, que é a própria ciência, não pela aplicação de grandes construções formais e vazias, mas por essa maneira particular de pensar o caso particular que consiste em pensá-lo verdadeiramente como tal. Este modo de pensamento realiza-se de maneira perfeitamente lógica pelo recurso ao método comparativo, que permite pensar relacionalmente um caso particular constituído em caso particular do possível.".

O MÉTODO BIOGRÁFICO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

A utilização do método biográfico em ciências sociais vem, necessariamente, acompanhada de uma discussão mais ampla sobre a questão da singularidade de um indivíduo versus o contexto social e histórico em que está inserido. Para Franco Ferrarotti9, por exemplo, cada vida pode ser vista como sendo, ao mesmo tempo, singular e universal, expressão da história pessoal e social, representativa de seu tempo, seu lugar, seu grupo, síntese da tensão entre a liberdade individual e o condicionamento dos contextos estruturais. Portanto, cada indivíduo é uma síntese individualizada e ativa de uma sociedade, uma reapropriação singular do universo social e histórico que o envolve. Se cada indivíduo singulariza em seus atos a universalidade de uma estrutura social, é possível "ler uma sociedade através de uma biografia", conhecer o social partindo-se da especificidade irredutível de uma vida individual. Ou, como afirma Norman Denzin10, inspirado em Sartre, o homem é "um singular universal".

Aspásia Camargo, ao defender a utilização do "método biográfico" para estudar a elite política brasileira, lembra que os ganhos iniciais dos estudos de História de Vida podem ser identificados em pesquisas sobre o comportamento desviante desenvolvidas pela Escola de Chicago.

A autora, ao adotar a abordagem de História de Vida, concentrou-se em estudar o que chamou de inner circle, um pequeno número de pessoas que formulam e implementam políticas estratégicas. Para ela, reconstituir suas Histórias de Vida é o melhor caminho para conhecer estes indivíduos que tomam decisões estratégicas, suas origens, seus instrumentos para controlar e manter o poder, seus valores e interesses. Uma das dificuldades desta abordagem, apontada pela autora, é que se limita àquelas pessoas que "querem falar". Para muitos membros da elite, o silêncio e a discrição são a regra pois "quanto mais destacados e politicamente ativos forem os atores, mais conscientes são também do risco de conceder informações 'verdadeiras' sobre seu próprio desempenho ou de seus pares. A autora aponta como seus melhores informantes os políticos aposentados, os excluídos, os exilados, os perdedores: aqueles que, ao contrário de temer o interesse do pesquisador, procuram denunciar injustiças, traições, corrupção e os interesses do grupo. A autora propõe que se supere a dicotomia determinismo e livre-arbítrio, como princípios conflitantes queobjetivam explicar o desempenho individual e a açãosocial, para enxergar nas trajetórias singulares o reflexodas condições históricas e culturais em que seinserem. A abordagem de História de Vida cria "umtipo especial de documento no qual a experiência pessoalentrelaça-se à ação histórica, diluindo os antagonismosentre subjetividade e objetividade"12. O objetivoé estabelecer uma clara articulação entre biografiaindividual e seu contexto histórico e social. Ao tomarcomo exemplo algumas das trajetórias mais significativasda elite política dos anos 30, a autora afirma quevê, em cada uma delas, "o reflexo perfeito das condiçõeshistóricas e culturais do período, sem no entantoperder seu caráter singular e típico".

Um estudo exemplar para discutir a relação indivíduo e sociedade a partir de uma análise de biografia é o de Norbert Elias, Mozart: sociologia de um génio1*.

Esta análise é uma importante referência teórica para compreender o que uma determinada trajetória diz sobre o momento histórico, cultural e político em que ocorreu, sobre comportamentos e valores que reflete ou antecipa e as condições sociais existentes para o aparecimento de um artista singular.

Norbert Elias estuda não apenas Mozart, mas a posição que o compositor ocupou na sociedade de sua época, as determinações que pesaram sobre seu destino pessoal e os constrangimentos que sofreu no exercício de sua criação. O autor pensa a liberdade de cada indivíduo inscrita numa cadeia de interdependências que o liga aos outros homens, limitando o que é possível decidir ou fazer. Elias busca compreender como o homem que se tornou o "símbolo do maior prazer musical que o mundo conhece" encontrou uma morte prematura.

Analisa os dois elementos que considera fundamentais para explicar o curso trágico da vida de Mozart: a relação com o pai e os conflitos com a aristocracia de corte.

Elias revela que as razões pelas quais Mozart se sentiu um fracasso só podem ser entendidas considerando- se o conflito existente na Áustria, e em quase toda a Europa da segunda metade do século XVIII, entre os padrões de uma classe mais antiga, a aristocracia de corte, e os de outra, a burguesia em ascensão.

Na geração de Mozart, um compositor que quisesse ter sua música reconhecida e garantir a subsistência dependia de um cargo numa corte. Elias lembra que os músicos eram tão indispensáveis nos palácios dos príncipes quanto pasteleiros, cozinheiros e criados: tinham o mesmo status na hierarquia da corte.

Ao apresentar o modelo das estruturas sociais em que vivia um músico no século XVIII — e a posição dominante dos padrões cortesãos de comportamento, sentimento, gosto musical e vestuário —, Elias demonstra o que Mozart era capaz de fazer como indivíduo, e o que não era capaz de fazer, apesar de sua grandeza e singularidade. Mozart viveu o drama de um artista burguês na sociedade de corte: a identificação com o gosto cortesão e a vontade de ter sua música reconhecida pela nobreza; e o ressentimento pela humilhação de ser tratado como serviçal pelos aristocratas da corte. Ao contrário do pai, nunca aceitou esta posição e, consciente do valor de sua música, queria ser reconhecido como igual (ou superior) por quem o tratava como inferior.

Norbert Elias chama a atenção para a curiosa contradição dos desejos dos outsiders: a tentativa de rompe com o establishment e, ao mesmo tempo, a luta pelo reconhecimento e aceitação deste establishment. Para ser um músico da corte, além de qualificações musicais, era necessário assimilar o padrão de comportamento cortesão. Mas Mozart não tinha as habilidades necessárias para conquistar os nobres: odiava bajulações, era franco, direto e até rude com as pessoas de quem dependia.

Com pouco mais de 20 anos, desistiu de seu posto relativamente seguro de regente da orquestra e organista da corte de Salzburgo e foi ganhar a vida como artista autónomo, dando aulas de música e concertos para o público vienense, vendendo seu talento e suas obras em um mercado incipiente, predominantemente composto de aristocratas da corte.

Elias mostra que o conceito de génio é aplicado a Mozart com os olhos do presente, já que esta noção surgiu muito depois de sua morte, com o romantismo. Na sua época, era muito difícil se estabelecer como artista autónomo e conseguir "dar rédea livre às suas fantasias", como Mozart desejava. Elias, analisando a mudança na posição social do artista — do patronato ao mercado livre —, lembra que Beethoven, nascido em 1770, quase 15 anos depois de Mozart, conseguiu com muito menos problemas libertar-se da dependência do patronato da corte, impor seu gosto a um público pagante e alcançar sucesso com a venda de suas composições para os editores. Mozart antecipou atitudes e sentimentos de um tipo posterior de artista: o artista livre, que confia acima de tudo em seu talento, numa época em que a estrutura social não oferecia tal lugar para os músicos. Mozart nasceu numa sociedade que não permitia a existência de um artista individualizado e independente, "foi um gênio antes da época dos gênios".

Para Norbert Elias, o caso individual de Mozart tem uma importância paradigmática: interessa a todos compreender como surge um talento criativo singular. Norbert Elias lembra que a "sociologia de um génio" não é feita para reduzir ou destruir sua fama, mas para melhor compreender sua dimensão humana. O autor, ao fornecer instrumentos para compreender como um indivíduo se transforma, após sua morte, em "gênio", permite pensar como indivíduos se transformam em modelos para as demais pessoas de suas sociedades e de suas épocas. Elias demonstra que somente condições muito particulares de existência (sociais, históricas, familiares e psicológicas) permitiram o reconhecimento ãa genialidade de Mozart.

Sua análise contribui para questionar a visão essencialista que percebe o indivíduo como encarnação de um gênio, como algo que está contido em si próprio, inexplicável, hereditário, que vem do berço. Elias demonstra que o indivíduo se faz por suas atividades e pelas condições que dispõe para realizá-las no contexto histórico e social em que existiu. Norbert Elias ajuda a compreender a vida não só de Mozart, mas a trajetória de outros indivíduos considerados génios, revolucionários, heróis ou loucos.

Elias, um estudioso que combina sólida formação em filosofia, psicologia e sociologia, mostra que o caso de Mozart é "bom para pensar" a relação de um indivíduo com o mundo em que vive e contribui para transformar.

Foi a partir desta perspectiva que desenvolvi minha tese de doutorado sobre a trajetória de Leila Diniz, buscando entender como ela se tornou um modelo para as pessoas de sua época. Ao tomar emprestado o título da minha tese de uma música de Rita Lee, Toda mulher é meio Leila Diniz, tento demonstrar que ao analisar a vida de Leila Diniz estou analisando, também, o "campo de possibilidades" e as questões colocadas para as mulheres de sua geração, particularmente na cidade do Rio de Janeiro. Analiso, através de uma trajetória singular, as transformações dos papéis femininos ocorridos na década de 60, principalmente no que diz respeito à sexualidade, conjugalidade e maternidade. Inicio com a desconstrução do mito Leila Diniz, através de uma análise minuciosa de cinco materiais biográficos (dois livros, dois vídeos e um filme feito sobre a vida da atriz). Inspirada em Michael Pollak, realizei entrevistas em profundidade com os familiares de Leila Diniz, buscando apreender o "não-dito" no material biográfico. Tomando como referência os estudos de Pierre Bourdieu, comparei a trajetória artística de Leila Diniz com a trajetória de Cacilda Becker. Através destas duas atrizes, discuto o campo do teatro, cinema e televisão no Brasil, do início do século até a década de 70.

Howard Becker15 tem algumas reflexões interessantes sobre a utilização do método biográfico nas ciências sociais. Este autor considera que a principal diferença entre o método biográfico nas ciências sociais e as biografias e autobiografias tradicionais está na perspectiva a partir da qual o trabalho é realizado e nos métodos utilizados. O pesquisador, alerta Becker, deve estar consciente do fato de que as biografias, autobiografias e Histórias de Vida não revelam a totalidade da vida de um indivíduo, mas apenas uma versão selecionada de modo a apresentá-lo como o retrato de si que prefere mostrar aos outros, ignorando o que pode ser trivial ou desagradável para ele, embora de grande interesse para a pesquisa.

Howard Becker enfatiza o valor das biografias, atribuindo grande importância às interpretações que as pessoas fazem de sua própria experiência como explicação para o comportamento social. Defendendo a utilização de outras fontes, para serem cotejadas às Histórias de Vida, Becker utiliza a imagem do mosaico para pensar sobre este tipo de método. Para ele, cada peça acrescentada num mosaico contribui para a compreensão do quadro como um todo. O método biográfico pode acrescentar a visão do lado subjetivo dos processos institucionais estudados, como as pessoas concretas experimentam estes processos e levantar questões sobre esta experiência mais ampla.

A utilização do método biográfico em ciências sociais é uma maneira de revelar como as pessoas universalizam, através de suas vidas e de suas ações, a época histórica em que vivem.

OBJETIVIDADE, REPRESENTATIVIDADE E CONTROLE DE BiAS NA PESQUISA QUALITATIVA

Muitos cientistas sociais acusam a pesquisa qualitativa de não apresentar padrões de objetividade, rigor e controle científico, já que não possui testes adequados de validade e fidedignidade, assim como não produz generalizações que visem à construção de um conjunto de leis do comportamento humano. Outra crítica diz respeito à falta de regras de procedimento rigorosas para guiar as atividades de coleta de dados, o que pode dar margem para que o bias do pesquisador venha a modelar os dados que coleta, que, portanto, não podem ser usados como evidência científica. Cientistas sociais como Max Weber, Pierre Bourdieu e Howard Becker acreditam ser fundamental a explicitação de todos os passos da pesquisa para evitar o bias do pesquisador. Recusam a suposta neutralidade do pesquisador quantitativista e propõem que o pesquisador tenha consciência da interferência de seus valores na seleção e no encaminhamento do problema estudado. A tarefa do pesquisador é reconhecer o bias para poder prevenir sua interferência nas conclusões. Para os autores citados, não existe outra forma para excluir o bias nas ciências sociais do que enfrentar as valorações introduzindo as premissas valorativas de forma explícita nos resultados da pesquisa.

Não podendo ser realizada a objetividade nas pesquisas sociais, e o conhecimento objetivo e fidedigno permanecendo como o ideal da ciência, o pesquisador deve buscar o que Pierre Bourdieu chama de objetivação: o esforço controlado de conter a subjetividade.

Trata-se de um esforço porque não é possível realizálo plenamente, mas é essencial conservar-se esta meta, para não fazer do objeto construído um objeto inventado.

A simples escolha de um objeto já significa um julgamento de valor na medida em que ele é privilegiado como mais significativo entre tantos outros sujeitos à pesquisa. O contexto da pesquisa, a orientação teórica, o momento sócio-histórico, a personalidade do pesquisador, o ethos do pesquisado, influenciam o resultado da pesquisa. Quanto mais o pesquisador tem consciência de suas preferências pessoais mais é capaz de evitar o bias, muito mais do que aquele que trabalha com a ilusão de ser orientado apenas por considerações científicas.

Wright Mills, em A imaginação sociológica17, propõe que o cientista social seja autoconsciente, reconhecendo que, necessariamente, seus valores estão envolvidos na escolha dos problemas estudados e, por isso, devem ser permanentemente explicitados. E precisamente quando se pretende uma objetividade absoluta, quando se crê ter recolhido fatos objetivos, quando se eliminam dos resultados da pesquisa todos os traços da implicação pessoal no objeto de estudo, que se corre mais o risco de se afastar da objetividade possível.

Howard Becker é um dos cientistas sociais que mais tem se preocupado em refletir sobre a questão da objetividade nas ciências sociais. Para refutar a pretensa neutralidade dos surveys, Becker levanta o problema, bastante frequente, dos entrevistadores que induzem ou falsificam seus dados com respostas imaginárias para entrevistas que nunca foram realizadas. Mas se o bias do pesquisador pode afetar os dados coletados em pesquisas mais controladas, não afetará muito mais em pesquisas qualitativas, onde o pesquisador tem um número maior de oportunidades de escolher apenas as evidências que lhe são convenientes? Os pesquisadores qualitativos têm muito mais liberdade do que os entrevistadores de surveys e podem ter vários tipos de atitudes que vão desde sorrisos até intervenções mais diretas. Como, então, podem ser consideradas objetivas as conclusões baseadas em dados que podem ter sido assim coletados?

Becker lembra que o entrevistado de um survey é abordado por alguém que nunca viu antes e espera nuncamais ver de novo. Uma vez que ele não é constrangidopor nada além das pressões que surgem na situaçãoimediata da entrevista, estas pressões têm grande probabilidadede exercer um efeito de bias sobre o que elediz. Já as pessoas que um pesquisador qualitativo estuda,em geral, são observadas de diferentes maneiras durante um longo período de tempo, o que torna maisdifícil que elas fabriquem o seu comportamento durantetoda a duração da pesquisa. A pesquisa qualitativa,através da observação participante e entrevistas emprofundidade, combate o perigo de bias, porque tornadifícil para o pesquisado a produção de dados que fundamentemde modo uniforme uma conclusão equivocada,e torna difícil para o pesquisador restringir suasobservações de maneira a ver apenas o que sustentaseus preconceitos e expectativas.

Para Becker, as técnicas de pesquisa qualitativa permitem um maior controle do bias do pesquisador do que as da pesquisa quantitativa. Por meio, por exemplo, da observação participante, por um longo período de tempo, o pesquisador coleta os dados através da sua participação na vida cotidiana do grupo ou da organização que estuda, observa as pessoas para ver como se comportam, conversa para descobrir as interpretações que têm sobre as situações que observou, podendo comparar e interpretar as respostas dadas em diferentes situações. Ele terá dificuldade de ignorar as informações que contrariam suas hipóteses, do mesmo modo que as pessoas que estuda teriam dificuldade de manipular, o tempo todo, impressões que podem afetar sua avaliação da situação. Observações numerosas feitas durante um longo período de tempo ajudam o pesquisador a se proteger contra seu bias, consciente ou inconsciente, contra "ver apenas o que quer ver".

Becker também discute a questão do bias do pesquisador ao tratar da hierarquia de credibilidade dos informantes da pesquisa qualitativa. Em geral, são entrevistados aqueles que estão nos níveis superiores de uma organização, que parecem "saber mais" sobre o problema estudado, do que aqueles que estão nos níveis inferiores. Uma das maneiras de evitar este bias é entrevistar todos os envolvidos, comparando as versões dos superiores com as dos subordinados, evitando, conscientemente, ficar a favor de um lado ou de outro. Outra maneira de evitar o bias é assumir, também conscientemente, "de que lado o pesquisador está", explicitando esta escolha nas conclusões da pesquisa.

Outro possível bias decorre do fato da pesquisa ficar restrita aos indivíduos e organizações que permitam ser pesquisados, deixando de lado aqueles que se recusam a ser estudados. Este fato pode ter sérias implicações nos resultados das pesquisas, já que aqueles que resolvem falar devem ter motivações e interesses bastante diversos daqueles que se recusam a falar. Mais uma vez, a única forma de tentar minimizar este problema é explicitando detalhadamente os limites das escolhas feitas. Além disso, Becker enfatiza a necessidade de tornar explícitos os resultados negativos dos estudos, de mostrar as dificuldades os (dês) caminhos percorridos pelo pesquisador até chegar aos resultados de sua pesquisa. Em geral, os pesquisadores "escondem" as suas dificuldades em seus relatórios de pesquisa, preferindo mostrar apenas "o que deu certo".

Diferentemente dos dados estatísticos, que podem ser resumidos em tabelas, os dados da pesquisa qualitativa não se prestam a tal resumo. Um dos problemas da pesquisa qualitativa é que os pesquisadores geralmente não apresentam os processos através dos quais suas conclusões foram alcançadas. O pesquisador deve tornar essas operações claras para aqueles que não participaram da pesquisa, através de uma descrição explícita e sistemática de todos os passos do processo, desde a seleção e definição dos problemas até os resultados finais pelos quais as conclusões foram alcançadas e fundamentadas. Becker chama esta solução para o problema da apresentação dos resultados da pesquisa qualitativa de "história natural" das conclusões. Se este método for empregado, outros estudiosos serão capazes de acompanhar os detalhes da análise e ver como e em que bases o pesquisador chegou às suas conclusões.

Isso daria, então, a oportunidade de outros pesquisadores fazerem seus próprios julgamentos quanto à adequação da prova e ao grau de confiança a ser atribuído à conclusão.

Na discussão sobre a representatividade dos dados coletados através de uma pesquisa qualitativa está embutida a questão da possibilidade (ou não) de sua generalização, a partir do modelo das ciências naturais que se impõe como paradigma. Nas abordagens que privilegiam a compreensão do significado dos fatos sociais, a questão da representatividade dos dados é vista de forma diferente do positivismo.

Partindo do princípio de que o ato de compreender está ligado ao universo existencial humano, as abordagens qualitativas não se preocupam em fixar leis para se produzir generalizações. Os dados da pesquisa qualitativa objetivam uma compreensão profunda de certos fenómenos sociais apoiados no pressuposto da maior relevância do aspecto subjetivo da ação social. Contrapõem- se, assim, à incapacidade da estatística de dar conta dos fenómenos complexos e da singularidade dos fenómenos que não podem ser identificados através de questionários padronizados.

Enquanto os métodos quantitativos supõem uma população de objetos comparáveis, os métodos qualitativos enfatizam as particularidades de um fenômeno em termos de seu significado para o grupo pesquisado.

É como um mergulho em profundidade dentro de um grupo "bom para pensar" questões relevantes para o tema estudado.

O reconhecimento da especificidade das ciências sociais conduz à elaboração de um método que permita o tratamento da subjetividade e da singularidade dos fenómenos sociais. Com estes pressupostos básicos, a representatividade dos dados na pesquisa qualitativa em ciências sociais está relacionada à sua capacidade de possibilitar a compreensão do significado e a "descrição densa" dos fenómenos estudados em seus contextos e não à sua expressividade numérica.

A quantidade é, então, substituída pela intensidade, pela imersão profunda—através da observação participante por um período longo de tempo, das entrevistas em profundidade, da análise de diferentes fontes que possam ser cruzadas — que atinge níveis de compreensão que não podem ser alcançados através de uma pesquisa quantitativa. O pesquisador qualitativo buscará casos exemplares que possam ser reveladores da cultura em que estão inseridos. O número de pessoas é menos importante do que a teimosia em enxergar a questão sob várias perspectivas.

Um motivo pelo qual as pessoas se preocupam com a possibilidade de as conclusões das pesquisas qualitativas não serem objetivas é que os pesquisadores às vezes surgem com conclusões bastante diferentes a respeito de organizações ou comunidades supostamente semelhantes. Se os métodos são objetivos, pergunta-se Becker, dois estudos do mesmo grupo não deveriam produzir resultados semelhantes? Não, ele mesmo responde, já que os pesquisadores podem ter se preocupado com questões e enfoques diferentes. A diferença de resultados indica não a falta de objetividade dos pesquisadores mas que estavam observando coisas diferentes a partir de enfoques, teóricos e metodológicos, diferentes. Não se deve esperar resultados semelhantes e sim que estes resultados sejam compatíveis, que as conclusões de um estudo não contradigam, implícita ou explicitamente, as de outro.

Seja qual for o método, qualitativo ou quantitativo, ele sempre dirige sua atenção apenas para certos aspectos dos fenómenos, os que parecem importantes para o pesquisador em função de suas pressuposições.

A totalidade de qualquer objeto de estudo é uma construção do pesquisador, definida em termos do que lhe parece mais útil para responder ao seu problema de pesquisa. É irreal supor que se pode ver, descrever e descobrir a relevância teórica de tudo. Na verdade, o pesquisador acaba se concentrando em alguns problemas específicos que lhe parecem de maior importância.

Por fim, cabe assinalar as possíveis consequências de uma interação de longo prazo com o objeto de estudo, em que é difícil evitar sentimentos de amizade, lealdade e obrigação, que podem provocar censuras nos resultados da pesquisa. O pesquisador, em suas conclusões, corre o risco de censurar dados considerados "negativos" pelo grupo, vistos como comprometedores de sua imagem pública ou sua auto-imagem.

Este bias pode ser evitado reproduzindo cuidadosamente um relato completo de todos os eventos observados, em momentos diferentes do dia ou ano, procurando membros de grupos diferentes da comunidade ou organização. Observar aspectos diferentes, sob enfoques diferentes, pode não só contribuir para reduzir o ôias da pesquisa como, também, propiciar uma compreensão mais profunda do problema estudado.

PESQUISA QUALITATIVA: PROBLEMAS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

Grande parte dos problemas teórico-metodológicos da pesquisa qualitativa é decorrente da tentativa de se ter como referência, para as ciências sociais, o modelo positivista das ciências naturais, não se levando em conta a especificidade dos objetos de estudo das ciências sociais. Os dados qualitativos consistem em descrições detalhadas de situações com o objetivo de compreender os indivíduos em seus próprios termos. Estes dados não são padronizáveis como os dados quantitativos, obrigando o pesquisador a ter flexibilidade e criatividade no momento de coletá-los e analisá-los. Não existindo regras precisas e passos a serem seguidos, o bom resultado da pesquisa depende da sensibilidade, intuição e experiência do pesquisador. Mesmo os pesquisadores que usam métodos de pesquisa qualitativa criticam a falta de regras de procedimento rigorosas para guiar as atividades de coleta de dados e a ausência de reflexão teórica, o que pode dar margem para que o bias do pesquisador venha a modelar os dados que coleta. Ruth Cardoso18 apontou para a falta de uma crítica teórico-metodológica consistente no campo das ciências sociais e para algumas das armadilhas e limitações das pesquisas qualitativas. A autora descreve um "indisfarçado pragmatismo (muitas vezes confundido com politização)" que dominou as ciências sociais contemporâneas e desqualificou o debate sobre os compromissos teóricos que cada método exige.

Eunice Durham concorda com esta crítica ao afirmar que ocorreu uma politização crescente dos estudos em ciências sociais, com a preocupação dos pesquisadores em descobrirem uma aplicação imediata e direta dos resultados de sua pesquisa que beneficie a população estudada. Sem deixar de ver como necessária a identificação do pesquisador com seu objeto, porque sem ela é impossível a compreensão "de dentro", Durham adverte para o risco de se explicar a sociedade através das categorias "nativas", sem uma análise científica sobre as mesmas e sem uma reflexão teórica e metodológica sobre a postura militante do cientista social.

Aaron Cicourel20 já havia advertido para o perigo de o pesquisador ficar tão envolvido com o grupo estudado que poderia se tornar um "nativo", sem compreender as consequências desta "conversão" para os objetivos da pesquisa, como, por exemplo, "tornar-se cego para muitas questões importantes cientificamente".

Cicourel aponta para as faltas de regras processuais claras que definam o papel do pesquisador no campo desde o momento de sua inserção.

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