O caminho da servidão

O caminho da servidão

(Parte 2 de 4)

17Prefácio da Edição Norte-Americana de 1975 linguagem corrente nos Estados Unidos, seu significado é com frequência quase o oposto, pois, para camuflar-se, movimentos esquerdistas deste país, auxiliados pela confusão mental de muitos que realmente acreditam na liberdade, fizeram com que “liberal” passasse a indicar a defesa de quase todo tipo de controle governamental.

Interrogo-me ainda, perplexo, sobre a razão pela qual os que de fato creem em liberdade neste país não só permitiram que a esquerda se apropriasse desse termo quase insubstituível, mas chegaram a colaborar nessa manobra, passando a usá-lo em sentido pejorativo. Isso é lamentável sobretudo porque daí resultou a tendência de muitos verdadeiros liberais a se autodenominarem conservadores. É sem dúvida verdade que, na luta contra os adeptos do estado todo-poderoso, o verdadeiro liberal deve às vezes fazer causa comum com os conservadores. Em certas circunstâncias, como na Inglaterra de hoje, ser-lhe-ia difícil encontrar outro meio de trabalhar efetivamente pelos seus ideais. Mas o verdadeiro liberalismo distingue-se do conservantismo e é perigoso confundi-los. Embora elemento necessário em toda sociedade estável, o conservantismo não constitui, contudo, um programa social; em suas tendências paternalistas, nacionalistas, de adoração ao poder, ele com frequência se revela mais próximo do socialismo que do verdadeiro liberalismo; e, com suas propensões tradicionalistas, anti-intelectuais e frequentemente místicas, ele nunca, a não ser em curtos períodos de desilusão, desperta simpatia nos jovens e em todos os demais que julgam desejáveis algumas mudanças para que este mundo se torne melhor. Por sua própria natureza, um movimento conservador tende a defender os privilégios já instituídos e a apoiar-se no poder governamental para protegê-los. A essência da posição liberal, pelo contrário, está na negação de todo privilégio, se este é entendido em seu sentido próprio e original, de direitos que o estado concede e garante a alguns, e que não são acessíveis em iguais condições a outros. Talvez seja necessária ainda uma palavra para esclarecer por que estou permitindo que este livro reapareça sem absolutamente nenhuma modificação, depois de decorridos quase doze anos. Várias vezes tentei revê-lo, e há numerosas passagens em que eu gostaria de apresentar explicações mais pormenorizadas, ou de ser mais cauto, ou de fortalecer a argumentação com maior número de ilustrações e provas.

Mas todas as tentativas de reescrevê-lo só demonstraram que eu nunca poderia redigir novamente um livro tão breve cobrindo um campo tão amplo; e parece-me que, entre os méritos que ele possa ter, o maior é sua relativa brevidade. Fui portanto forçado a concluir que, se lhe quiser fazer quaisquer acréscimos, devo elaborar estudos à parte. Comecei a executar essa tarefa escrevendo vários ensaios, alguns dos quais analisam mais minuciosamente certas posições filosóficas e econômicas em que este livro mal toca6. Sobre as origens das ideias aqui criticadas, em especial, e suas relações com alguns dos movimentos intelectuais mais poderosos e marcantes de nossos tempos, teci comentários em outro estudo7. E em breve espero complementar o sumaríssimo capítulo central deste livro com uma análise mais extensa das relações entre igualdade e justiça8.

Há, porém, um tópico sobre o qual o leitor com razão esperaria um comentário meu neste prólogo, comentário esse que, mais do que qualquer outro, pediria um novo livro. Pouco mais de um ano após a primeira edição de O caminho da servidão, assumiu o poder na Inglaterra um governo socialista, que durou seis anos. Devo responder, pelo menos brevemente, à pergunta sobre se essa experiência confirmou ou desmentiu minhas apreensões. Em todo caso, ela deu novo alcance a minha argumentação, e creio poder acrescentar que revelou a muitos, aos quais raciocínios abstratos nunca teriam convencido, serem reais as dificuldades por mim apontadas. Com efeito, não muito depois da ascensão do governo trabalhista, numerosas questões postas de lado por meus críticos norte-americanos, como sendo produto de simples fantasia, tornaram-se temas centrais de debates políticos na Inglaterra. Em pouco tempo, até mesmo documentos oficiais estavam analisando com atenção o perigo do totalitarismo criado pela política de planejamento econômico. Nada ilustra melhor a maneira pela qual a lógica inerente à política socialista levou, involuntariamente, aquele governo a um tipo de coerção que lhe causava desagrado, do que a passagem seguinte do Economic Survey for 1947 (que o primeiro-ministro apresentou ao parlamento em fevereiro daquele ano) e os acontecimentos que vieram depois.

Há uma diferença essencial entre o planejamento totalitário e o democrático. O primeiro subordina todos os desejos e todas as preferências individuais às exigências do estado. Com esse objetivo, emprega vários métodos de coerção sobre o indivíduo, privando-o da liberdade de escolha. Tais métodos podem ser necessários mesmo numa democracia, na situação extremamente crítica de uma grande guerra. Por isso, o povo britânico conferiu ao governo, durante a guerra, poderes especiais para intervir no setor trabalhista. Mas em tempos normais o povo de um país democrático

não transferirá para o governo sua liberdade de escolhaIndividualism and Economic Order, Chicago, 1948. The Counter Revolution of Science, Glencoe, I; 1952.Um esboço antecipado do modo pelo qual pretendo tratar esse assunto encontra-se em quatro conferên-

cias minhas publicadas pelo Banco Nacional do Egito em The Political Ideal oj the Rule oj Law, Cairo, 1955.

19Prefácio da Edição Norte-Americana de 1975

Um governo democrático deve portanto conduzir o planejamento econômico de modo a preservar ao máximo a liberdade de escolha de cada cidadão.

O ponto interessante dessa profissão de boas intenções é que, seis meses mais tarde, o mesmo governo viu-se, em plena paz, obrigado a fazer votar leis autorizando-o a intervir no campo trabalhista. A importância disso não diminui, como querem alguns, pelo fato de esses poderes nunca terem sido empregados; pois, quando se sabe que as autoridades podem usar a coação, poucos esperam o seu emprego efetivo. Mas é difícil compreender como pôde o governo insistir em tais ilusões, se o mesmo documento proclama que lhe caberia então “declarar qual o melhor uso dos recursos, tendo em vista o interesse nacional” e “estipular qual o dever da nação em matéria econômica: determinar o que é mais importante e quais serão os objetivos políticos”.

Evidentemente, seis anos de governo socialista na Inglaterra nada produziram que se assemelhasse a um estado totalitário. Mas os que alegam que isso desmentiu a tese de O Caminho da Servidão na realidade deixaram escapar uma das afirmações fundamentais do livro: a mais importante transformação que um controle governamental amplo produz é de ordem psicológica, é uma alteração no caráter do povo. Isso constitui um processo necessariamente lento, que se estende não apenas por alguns anos, mas talvez por uma ou duas gerações. O importante é notar que os ideais políticos de um povo e sua atitude em face da autoridade tanto são efeitos quanto causas das instituições políticas sob as quais ele vive. O que significa, entre outras coisas, que mesmo uma vigorosa tradição de liberdade política não constitui garantia suficiente, quando o perigo consiste precisamente em novas instituições e novas orientações políticas que ameaçam corroer e destruir pouco a pouco aquele espírito. Sem dúvida, as consequências poderão ser evitadas se o mesmo espírito se reafirmar a tempo, e se o povo não apenas puser abaixo o partido que o vinha conduzindo para cada vez mais longe do caminho perigoso, mas também reconhecer a natureza da ameaça e mudar resolutamente de orientação. Não há ainda muitas razões para pensar que isso se deu na Inglaterra.

Mesmo assim, saltam aos olhos as mudanças por que passou o caráter do povo britânico, não apenas durante o governo trabalhista, mas ao longo do período muito maior em que gozou das bênçãos de um estado previdenciário paternalista. Essas mudanças não podem ser demonstradas com facilidade, mas são sentidas com clareza por quem mora no país. A título de ilustração, citarei algumas passagens significativas de uma pesquisa sociológica sobre o impacto causado nas atitudes mentais dos jovens pelo excesso de regulamentação. A pesquisa refere-se à situação anterior à subida do governo trabalhis- ta ao poder, por volta da época em que este livro foi publicado pela primeira vez, e examina sobretudo os efeitos das regulamentações do tempo da guerra, as quais o governo trabalhista tornou permanentes.

clareiras em que um indivíduo ainda pode fazer escolhas

É especialmente na cidade que a esfera de escolhas livres tende a desaparecer. Na escola, no local de trabalho, no vaivém do dia a dia, mesmo no arranjo e no suprimento do próprio lar, muitas das atividades em geral facultadas aos homens são quer proibidas, quer impostas. Escritórios especiais, denominados Agências para Orientação dos Cidadãos, são criados para guiar o povo desnorteado através do matagal de regras e para indicar aos obstinados as raras [o rapaz da cidade] está condicionado a não levantar um dedo sem antes se reportar mentalmente a algum regulamento. O programa de um jovem comum da cidade para um dia comum de trabalho mostra que ele passa grandes períodos das horas em que está acordado movimentando-se de forma predeterminada por diretrizes de cuja elaboração

e cujo acerto não pode julgarA inferência de que um jo-
dizer que ele já sofre de uma dose exagerada de controles
ou ter utilidade para outros[Os jovens] são obrigados a

não participou, cuja finalidade precisa raramente entender, vem da cidade necessita de mais disciplina e de um controle mais estrito é excessivamente apressada. Seria mais certo Olhando para seus pais e irmãos ou irmãs mais velhos, descobre que também eles estão presos a regulamentos. Ele os vê tão aclimatados a essa situação, que raramente planejam e realizam por conta própria qualquer excursão ou iniciativa social. Assim, não vislumbra um período futuro em que um vigoroso espírito de responsabilidade lhe possa ser útil engolir tantos controles externos sem sentido a seus olhos que procuram a fuga e a compensação numa ausência de disciplina tão completa quanto possível9.

Haverá excesso de pessimismo em recear que uma geração criada sob tais condições não rompa os grilhões aos quais se habituou?

Creio, pelo contrário, que essa descrição antes confirma plenamente o que de Tocqueville previu sobre um “novo tipo de servi- dão”, que apareceria quando, Barnes, L. J. Youth Service in an English Country. a Report Prepared for King George’s Jubilee Trust. Londres, 1945.

21Prefácio da Edição Norte-Americana de 1975 depois de ter subjugado sucessivamente cada membro da sociedade, modelando-lhe o espírito segundo sua vontade, o estado estende então seus braços sobre toda a comunidade. Cobre o corpo social com uma rede de pequenas regras complicadas, minuciosas e uniformes, rede que as mentes mais originais e os caracteres mais fortes não conseguem penetrar para elevar-se acima da multidão. A vontade do homem não é destruída, mas amolecida, dobrada e guiada; ele raramente é obrigado a agir, mas é com frequência proibido de agir. Tal poder não destrói a existência, mas a torna impossível; não tiraniza, mas comprime, enerva, sufoca e entorpece um povo, até que cada nação seja reduzida a nada mais que um rebanho de tímidos animais industriais, cujo pastor é o governo. Sempre pensei que uma servidão metódica, pacata e suave, como a que acabo de descrever, pode ser combinada, com mais facilidade do que em geral se pensa, com alguma forma aparente de liberdade, e que poderia mesmo estabelecer-se sob as asas da soberania popular10.

O que de Tocqueville não considerou foi por quanto tempo tal governo permaneceria nas mãos de déspotas benevolentes, quando seria tão mais fácil para qualquer grupo de rufiões conservar-se indefinidamente no poder, desprezando todo o decoro tradicional da vida política. Talvez eu deva também recordar ao leitor que nunca acusei os partidos socialistas de visarem deliberadamente a um regime totalitário, ou sequer suspeitei que os líderes dos velhos movimentos socialistas jamais mostrassem tais inclinações. O que afirmei neste livro, e o que a experiência inglesa me vem tornando cada vez mais evidente, é que as consequências imprevistas mais inevitáveis da planificação socialista criam um estado de coisas em que, persistindo a mesma orientação, as forças totalitárias acabarão dominando. Saliento explicitamente que o socialismo só pode ser posto em prática mediante a utilização de métodos que a maior parte dos socialistas desaprova, e acrescento mesmo que nisso os velhos partidos socialistas eram inibidos por seus ideais democráticos, e não possuíam a rudeza necessária para realizar a tarefa que escolheram. Temo que a impressão deixada pelo governo trabalhista seja de que tais inibições são, afinal de contas, menores entre os socialistas britânicos do que o foram entre seus companheiros socialistas da Alemanha 25 anos antes. Sem dúvida os sociais-democratas alemães, na década de 1920, sob condições De Tocqueville, A. Democracy in America. Parte I, livro IV, cap. VI. Seria necessário ler todo esse capítulo para dar-se conta da perspicácia com que de Tocqueville conseguiu prognosticar os efeitos psicológicos do moderno estado previdenciário. Diga-se de passagem que foram suas frequentes referências à “nova servidão” que me sugeriram o título deste livro.

econômicas iguais ou mais difíceis, nunca chegaram tão perto do planejamento totalitário como o governo trabalhista britânico.

Como não posso aqui examinar em detalhe os efeitos dessas orientações políticas, citarei de modo conciso a opinião de outros observadores, menos suspeitos do que eu. Algumas das condenações mais enérgicas, na realidade, vêm de homens que pouco antes haviam sido membros do Partido Trabalhista. Assim, Ivor Thomas, em obra aparentemente destinada a explicar por que deixou o partido, chega à conclusão que, “sob o ponto de vista das liberdades humanas fundamentais, há pouca escolha entre comunismo, socialismo e nacional-socialismo. Todos eles são exemplos do estado coletivista ou totalitário. Na sua essência, socialismo pleno não é apenas o mesmo que comunismo, mas dificilmente se diferencia do fascismo11”.

O mais grave dessa evolução é o crescimento da coerção administrativa arbitrária e a progressiva destruição do estado de Direito, fundamento da liberdade britânica, e isso pelas exatas razões aqui analisadas no capítulo VI. Evidentemente, esse processo se iniciara muito antes da ascensão do último governo trabalhista, e havia sido acentuado pela guerra. Mas as experiências de planejamento econômico sob o governo trabalhista levaram essa evolução a tal ponto que se tornou hoje duvidoso se se pode dizer que o estado de Direito ainda prevalece na Inglaterra. O “novo despotismo” sobre o qual um ministro da Suprema Corte de Justiça advertiu a Inglaterra há 25 anos é, como The Economist observou em data recente, não mais um simples perigo, mas um fato concreto12. Trata-se de um despotismo exercido por uma burocracia conscienciosa e honesta, em prol daquilo que ela sinceramente acredita ser o bem do país. Mas, apesar disso, o governo é arbitrário, e na prática não está sujeito a um efetivo controle parlamentar. A sua máquina poderia ser eficaz para outros fins, que não os de ordem beneficente para os quais é agora usada. Duvido que tenha havido muito exagero quando, há pouco tempo, um eminente jurista britânico, em cuidadosa análise dessas tendências, chegou à conclusão de que, “na Inglaterra de hoje, vivemos à beira da ditadura. A transição seria fácil e rápida, podendo ser realizada em plena legalidade. Se considerarmos os poderes incomensuráveis de que goza o atual governo, bem como a ausência de qualquer fiscalização eficaz como seria uma constituição escrita ou uma segunda câmara realmente ativa, veremos que já foram dados The Socialist Tragedy. Londres, Latimer House, 1949. p. 241 e 242.Em artigo publicado no número de 19 de junho de 1954, onde é analisado o Report on the Public Inquiry Ordered by the Minister of Agriculture into the Disposal of Land at Crichel Down (Cmd. 9176, Londres, H. M. Stationery Office, 1954). O artigo merece estudo cuidadoso por parte de todos os que se interessam pela psicologia de uma burocracia planificadora.

23Prefácio da Edição Norte-Americana de 1975 tantos passos em direção à ditadura que os que ainda faltam são relativamente pequenos”13.

Para uma análise mais minuciosa da política econômica do governo trabalhista inglês e de suas consequências, nada posso fazer de melhor do que remeter o leitor à obra Ordeal by Planning, do professor John Jewkes (Londres, Macmillan, 1948). É o estudo mais bem feito que conheço sobre um exemplo concreto dos fenômenos que analisei aqui em termos genéricos. Ele complementa este livro melhor do que tudo quanto eu pudesse acrescentar, e é uma lição cuja importância vai muito além da Grã-Bretanha.

Parece agora improvável que, mesmo se outro governo trabalhista vier a subir ao poder na Inglaterra, ele retome as experiências de nacionalização e planejamento em larga escala. Mas nesse país, como em todo o mundo, a derrota sofrida pelo violento ataque do socialismo sistemático apenas tem dado, aos que desejam ardentemente a preservação da liberdade, uma pausa para respirar, durante a qual devemos reexaminar nossas ambições e desfazer-nos de todos os elementos da herança socialista que representam um perigo para a sociedade livre. Sem semelhante revisão de nossos objetivos sociais, é provável que continuemos a ser arrastados na mesma direção para a qual um socialismo completo apenas nos teria conduzido um pouco mais rapidamente.

F.A. Hayek Keeton, G. W. The Passing of Parliament. Londres, 1952.

Prefácio da edição ingleSa de 1976

Este livro, escrito nas horas vagas entre os anos de 1940 e 1943, enquanto minha mente ainda tinha por ocupação fundamental problemas de teoria econômica pura, tornou-se para mim, como era de se esperar, o ponto de partida de mais de trinta anos de trabalho num novo campo. Esta primeira experiência numa nova direção foi motivada pelo desgosto que me causava a interpretação totalmente errônea dada pelos círculos “progressistas” ingleses ao caráter do movimento nazista, o que me levou de um memorando ao então diretor da London School of Economics, Sir William Beveridge, a um artigo publicado na Contemporary Review em 1938. A pedido do professor H. G. Gideonse, da Universidade de Chicago, ampliei o artigo para que fosse publicado em seus Public Policy Pamphlets. Por fim, tendo em vista as circunstâncias, ao constatar que todos os meus colegas britânicos mais competentes estavam preocupados com os problemas mais prementes da condução da guerra, expandi-o relutantemente na forma deste pequeno tratado. A despeito do sucesso de todo inesperado do livro – no caso da edição norte-americana, não cogitava de início, ainda mais do que no da britânica – senti-me por muito tempo um tanto insatisfeito com ele. Embora tivesse declarado com franqueza no seu início que se tratava de uma obra política, fui levado, pela maioria de meus colegas cientistas sociais, a considerar que aplicara minha capacidade no campo errado, e sentia-me eu próprio temeroso de que, indo além da economia técnica, pudesse ter excedido minha competência. Não falarei aqui da fúria que o livro despertou em certos meios, ou da curiosa diferença entre sua acolhida na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos – que comentei ligeiramente, vinte anos atrás, no prefácio à primeira edição norte-americana em brochura. Apenas para indicar o caráter da reação generalizada, mencionarei que um filósofo muito conhecido, cujo nome não vou citar, escreveu a outro para censurá-lo por haver elogiado esse escandaloso livro que, “é claro, (ele) não lerá”.

Mas embora tenha feito um grande esforço no sentido de retornar à economia propriamente dita, não fui capaz de libertar-me da sensação de que os problemas em que tão impremeditadamente embarcara eram mais desafiadores e importantes que os da teoria econômica, e de que muito do que dissera em meu primeiro esboço carecia de clarificação e aperfeiçoamento. Quando o escrevi, também não me tinha, de modo algum, libertado o suficiente de todos os preconceitos e superstições que dominavam a opinião geral, e menos ainda aprendera a evitar todas as confusões prevalecentes de termos e conceitos de que me tornei, a partir de então, muito cônscio. E a análise das consequências das políticas socialistas que o livro tenta fazer é sem dúvida incompleta se não se faz acompanhar da necessária explanação sobre o que uma ordem de mercado adequadamente orientada exige e pode alcançar. Foi sobretudo a esse último problema que dediquei o trabalho que realizei desde então nesse campo.

O primeiro resultado desses esforços de explicação da natureza de uma ordem de liberdade foi um livro substancial, chamado The Constitution of Liberty (1960) (N.do E.: publicado em português, sob o título Os Fundamentos da Liberdade, pela Editora Visão Ltda. e a Editora Universidade de Brasília, em 1983.), no qual tentei essencialmente expressar sob nova forma e tornar mais coerentes as doutrinas do liberalismo clássico do século XIX. A consciência de que a nova formulação deixara irrespondidas algumas questões relevantes levou-me em seguida a um esforço suplementar no sentido de apresentar minhas próprias respostas num trabalho em três volumes intitulado Law, Legislation, and Liberty1, cujo primeiro volume foi lançado em 1973, o segundo em 1976, e o terceiro está em vias de ser concluído.

Nos últimos vinte anos em que permaneci empenhado nessas tarefas, acredito ter aprendido muito sobre os problemas analisados no presente livro que, segundo me parece, jamais reli durante esse tempo. Tendoo feito presentemente com vistas a este prefácio, não mais me sinto no dever de me desculpar; ao contrário: pela primeira vez, estou bastante orgulhoso dele – e não menos da intuição que me levou a dedicá-lo “aos socialistas de todos os partidos”. De fato, embora eu tenha aprendido nesse intervalo muita coisa que não sabia quando o escrevi, surpreendeume muitas vezes nessa releitura o quanto já havia percebido no início e que meu trabalho posterior confirmou. E embora, espero, minhas obras posteriores venham a ser mais gratificantes ao especialista, estou agora pronto a recomendar, sem hesitação, este primeiro livro ao leitor comum, desejoso de uma introdução simples e não-técnica ao que acredito ser ainda uma das questões mais ameaçadoras que teremos de resolver.

O leitor provavelmente perguntará se isso significa que ainda estou disposto a defender todas as principais conclusões deste livro: e a resposta é, em linhas gerais, afirmativa. A mais importante ressalva que tenho a acrescentar deve-se à circunstância de que, nesse meio tempo, a terminologia se modificou e, por essa razão, o que digo no li- vro pode dar margem a falsas interpretações. Quando o escrevi, socia- N. do E.: publicado em português sob o título Direito, legislação e liberdade, tradução patrocinada pelo Instituto Liberal. São Paulo: Ed. Visão, 1985, 3v. Esse volume foi publicado em 1979

27Prefácio da Edição Inglesa de 1976 lismo significava, inequivocamente, a estatização dos meios de produção e o planejamento econômico central que ela tornava possível e necessário. Nesse sentido, por exemplo, a Suécia está hoje muito mais distante do socialismo em matéria da organização que a Grã-Bretanha e a Áustria, embora a Suécia seja tida em geral como bem mais socializada. Isto se deve ao fato de que socialismo passou a significar sobretudo a redistribuição extensiva da renda por meio da tributação e das instituições do estado previdenciário (welfare state). Na última acepção do termo, os efeitos que analiso neste livro se produzem muito mais lenta, indireta e imperfeitamente. Acredito que o resultado final tenda a ser quase o mesmo, ainda que os processos pelos quais é produzido não coincidam de todo com o que é descrito no livro.

Afirmou-se com frequência que eu sustentara que qualquer movimento na direção do socialismo levaria forçosamente ao totalitarismo. Conquanto o perigo exista, não é isso o que o livro diz. O que ele contém é a advertência de que, a menos que retifiquemos os princípios de nossa política de governo, advirão algumas consequências bastante desagradáveis, que a maioria dos defensores dessa política não desejam.

Os pontos que hoje considero falhos neste livro são, sobretudo, a pouca ênfase que dei à relevância da experiência do comunismo na Rússia – falha talvez perdoável quando lembramos que, quando o escrevi, a Rússia era nossa aliada na guerra – e o fato de não me ter libertado inteiramente de todas as superstições intervencionistas então em voga, o que me levou a fazer várias concessões que hoje reputo injustificadas. E sem dúvida não tinha ainda plena consciência de como as coisas iam mal em certos aspectos. Ainda pensava estar formulando uma pergunta retórica quando indagava, por exemplo (p. 91), se Hitler obtivera seus poderes ilimitados de maneira estritamente constitucional – “quem sugeriria que o estado de Direito ainda prevalecia na Alemanha?” –, só para descobrir mais tarde que os professores Hans Kelsen e Harold J. Laski, e é provável que muitos outros juristas e cientistas políticos socialistas, seguidores desses influentes autores, haviam justamente afirmado isso. De maneira bastante generalizada, novos estudos das tendências do pensamento e das instituições contemporâneas levaram-me, na realidade, a ficar mais alarmado e preocupado. E tanto a influência das ideias socialistas quanto a crença ingênua nas boas intenções dos detentores do poder totalitário cresceram acentuadamente desde que escrevi este livro.

Por muito tempo, ressenti-me de ser mais conhecido pelo que considerava um panfleto de ocasião que por meu trabalho estritamente científico. Depois de reexaminar o que escrevi naquela época, à luz de cerca de trinta anos de estudos mais aprofundados sobre os problemas que então levantei, já não me sinto assim. Embora o livro possa conter muitas afirmações que, quando o escrevi, não tinha condições de demonstrar de forma convincente, constituiu um esforço genuíno para encontrar a verdade e deu lugar a descobertas que ajudarão mesmo àqueles que discordam de mim a evitar graves perigos.

F.A. Hayek introdução

“Poucas descobertas são mais irritantes do que as que revelam a origem das ideias”. – Lord Acton

Os acontecimentos contemporâneos diferem dos históricos porque desconhecemos os resultados que irão produzir. Olhando para trás, podemos avaliar a significação dos fatos passados e acompanhar as consequências que tiveram. Mas enquanto a história se desenrola, ainda não é história para nós. Ela nos conduz a um terreno desconhecido, e só de quando em quando podemos vislumbrar o que está à nossa frente. Tudo seria bem diverso se nos fosse dado reviver os mesmos fatos com o pleno conhecimento do que tivéssemos visto antes. Quão diferentes as coisas nos pareceriam, quão importantes e até mesmo alarmantes se nos afigurariam mudanças que agora mal notamos. Talvez seja uma felicidade para o homem o fato de que ele jamais poderá ter semelhante experiência e de que ignore quaisquer leis a que a história deva obedecer.

Contudo, embora a história nunca se repita em condições idênticas, e exatamente porque o seu desenrolar nunca é inevitável, podemos de certo modo aprender do passado a evitar a repetição de um mesmo processo. Não é preciso ser profeta para dar-se conta de perigos iminentes. Uma combinação acidental de vivência e interesse muitas vezes revelará a um homem certos aspectos dos acontecimentos que poucos terão visto.

As páginas que se seguem são o resultado de uma experiência que se aproxima tanto quanto possível dessa oportunidade de vivermos duas vezes o mesmo período histórico – ou, pelo menos, de observarmos duas vezes uma evolução de ideias muito semelhante. Enquanto tal experiência tem pouca probabilidade de ser obtida em um único país. pode-se vir a adquiri-la, sob certas circunstâncias, vivendo alternadamente e por longos períodos em países diferentes. Embora as influências sofridas pela tendência do pensamento, na maioria das nações civilizadas, sejam em grande parte semelhantes, essas influências não operam ao mesmo tempo nem com a mesma rapidez. Dessa forma, indo de um país para outro, é possível observar duas vezes fases análogas de um processo intelectual. Os sentidos, em tais circunstâncias, adquirem uma agudeza especial. Quando ouvimos serem expressas pela segunda vez as opiniões de há vinte ou 25 anos, ou reclamadas as mesmas medidas, estas opiniões e medidas adquirem um novo sentido como sintomas de uma tendência definida. Elas sugerem, se não a necessidade, pelo menos a probabilidade de que o rumo dos acontecimentos será semelhante. Faz-se hoje necessário declarar esta verdade amarga: é o destino da Alemanha que estamos em perigo de seguir. Reconheço que esse perigo não é imediato, pois as condições na Inglaterra ainda estão de tal modo distantes daquelas que em anos recentes ocorreram na Alemanha, que se torna difícil acreditar estarmos marchando na mesma direção. Contudo, embora a estrada seja longa, é uma estrada na qual, à medida que se avança, é mais difícil voltar atrás. Se, a longo prazo, somos os criadores do nosso destino, de imediato somos escravos das ideias que criamos.

Somente reconhecendo o perigo a tempo poderemos ter esperança de evitá-lo. Não é com a Alemanha de Hitler, a Alemanha da presente guerra, que a Inglaterra já apresenta semelhanças. Mas os que estudam as correntes de ideias dificilmente deixarão de observar que há mais do que uma semelhança superficial entre o rumo do pensamento na Alemanha durante e após a Primeira Guerra Mundial e o atual rumo das ideias neste país. Nele por certo existe agora o mesmo propósito de que a organização introduzida no país para fins defensivos seja mantida para fins produtivos. Há o mesmo desprezo pelo liberalismo do século XIX, o mesmo e espúrio “realismo” e até cinismo, a mesma aceitação fatalista de “tendências inevitáveis”. E pelo menos nove em cada dez lições que os nossos reformadores mais vociferantes tão ansiosamente desejam que aprendamos com esta guerra são as mesmas que os alemães aprenderam com a última guerra e que muito contribuíram para produzir o regime nazista. Nas páginas deste livro teremos a oportunidade de mostrar que há ainda numerosos outros pontos em que, com um intervalo de quinze a 25 anos, parecemos seguir o exemplo da Alemanha. Embora não nos agrade lembrar o fato, não faz muitos anos que a política socialista daquele país costumava ser considerada pelos progressistas como um exemplo a seguir, assim como, em anos mais recentes, a Suécia foi o modelo para o qual se voltavam os olhos progressistas. Todos aqueles cuja memória vai mais longe sabem quão profundamente, durante pelo menos uma geração, antes da última guerra, o pensamento e a prática dos alemães influenciaram os ideais e a política na Inglaterra.

Passei cerca de metade da minha vida de adulto na Áustria, onde nasci, sempre em estreito contato com a vida intelectual alemã, e a outra metade nos Estados Unidos e na Inglaterra. Nos últimos doze anos, durante os quais este país tornou-se para mim um lar, fui-me convencendo sempre mais e mais de que no mínimo algumas das forças que destruíram a liberdade na Alemanha também estão em atividade aqui na Inglaterra, e de que o caráter e a origem desse perigo

31Introdução são, se possível, ainda menos compreendidos aqui do que o foram na Alemanha. A suprema tragédia, ainda não percebida, está em que, na Alemanha, foram em grande parte pessoas de boa vontade, homens que eram admirados e tidos como exemplos nos países democráticos, os que prepararam o caminho para as forças que agora representam tudo o que detestam – se é que eles mesmos não as criaram. Contudo, a nossa possibilidade de evitar um destino semelhante depende de encararmos o perigo e de estarmos dispostos a revisar mesmo as nossas mais caras esperanças e ambições no caso de estas se revelarem a fonte desse perigo. Ainda são bem escassos os sinais de que possuímos a coragem intelectual para reconhecer perante nós mesmos a possibilidade de termos errado.

Poucos estão prontos a admitir que a ascensão do nazismo e do fascismo não foi uma reação contra as tendências socialistas do período precedente, mas o resultado necessário dessas mesmas tendências. Esta é uma verdade que a maioria das pessoas reluta em aceitar, mesmo quando as semelhanças entre muitos aspectos detestáveis dos regimes internos da Rússia comunista e da Alemanha nacional-socialista são amplamente reconhecidas. Em consequência, muitos dos que se julgam infinitamente superiores às aberrações do nazismo e detestam com sinceridade todas as suas manifestações trabalham ao mesmo tempo em prol de ideais cuja realização levaria diretamente à tirania que odeiam.

Todos os paralelos entre a marcha dos acontecimentos em diferentes países são, sem dúvida, enganosos; mas os meus argumentos não se baseiam apenas em tais paralelos. Tampouco afirmo que uma evolução nesse sentido seja inevitável. Se o fosse, não haveria razão para escrever estas páginas. Essa evolução pode ser evitada se as pessoas perceberem a tempo onde as levarão os seus esforços. Mas até época recente havia pouca esperança de que fosse bem-sucedida qualquer tentativa para lhes fazer ver esse perigo. Parece, todavia, que agora a ocasião é propícia a uma discussão mais completa de todo o assunto. Não há apenas o fato de que a existência do problema é agora admitida de modo mais amplo: há também razões especiais que, nesta conjuntura, tornam imperativo considerar de frente tais questões.

Talvez se diga não ser este o momento para se debater um ponto sobre o qual as opiniões conflitam violentamente. Mas o socialismo de que falamos não é um assunto partidário, e as questões aqui discutidas pouco têm a ver com as questões em disputa entre partidos políticos. Para o nosso problema, pouco importa o fato de alguns grupos desejarem menor grau de socialismo do que outros, de que estes queiram o socialismo em função do interesse de um grupo e aqueles, no inte- resse de outro. O importante é que, se considerarmos as pessoas cujas opiniões influem nos acontecimentos neste país, todas elas são em certa medida socialistas. Se já não está em voga acentuar que “agora todos somos socialistas”, isso ocorre apenas porque o fato é demasiado óbvio. Dificilmente haverá alguém que duvide de que devemos continuar caminhando para o socialismo, e muitos há que estão tentando desviar esse movimento no simples interesse de um grupo ou de uma classe em particular. É porque quase todos o desejam que estamos marchando nessa direção. Não há nenhum fato objetivo que torne essa marcha inevitável. Mais tarde, teremos alguma coisa a dizer sobre a pretensa inevitabilidade da “planificação”. A questão principal está em saber aonde esse movimento nos levará. Se as pessoas cujas convicções lhes emprestam agora um impulso irresistível começarem a ver o que apenas uns poucos já compreenderam, não será possível que recuem horrorizadas e abandonem o propósito em que durante meio século tanta gente de boa vontade se tem empenhado? Saber onde nos levarão essas ideias comuns à nossa geração é problema não para um partido mas para cada um de nós – e problema da mais importante significação. Poder-se-á imaginar maior tragédia do que, no esforço de modelar conscientemente o nosso futuro de acordo com elevados ideais, estarmos de fato e involuntariamente produzindo o oposto daquilo por que vimos lutando?

Há, porém, um motivo bem mais premente para que procuremos compreender a sério, neste momento, as forças que criaram o nacional-socialismo: o fato de que isto nos capacitará a entender nosso inimigo e o que está em jogo entre nós. Não se pode negar que ainda são pouco conhecidos os ideais positivos pelos quais estamos lutando. Sabemos que lutamos pela liberdade de conduzir nossa vida de acordo com nossas próprias ideias. Isso é muito, mas não é o bastante.

Não é o suficiente para nos dar a firme convicção de que necessitamos a fim de resistir a um inimigo que usa a propaganda como uma de suas armas principais, e não apenas do modo mais ruidoso, mas também nas suas formas mais sutis. É ainda mais insuficiente quando temos de enfrentar essa propaganda não só nos países sob o controle do inimigo mas em outras regiões, onde os seus efeitos não desaparecerão com a derrota das potências do Eixo.

Não é o bastante se precisarmos demonstrar aos outros que aquilo por que lutamos é digno de seu apoio, e tampouco basta para nos guiar na construção de uma nova Europa a salvo dos perigos diante dos quais o velho mundo sucumbiu. É lamentável que os ingleses, ao tratar com os ditadores antes do conflito, não menos que em suas tentativas de propaganda e na discussão dos alvos de guerra, tenham

33Introdução mostrado uma íntima insegurança e incerteza quanto a objetivos que só podem ser explicados pela confusão acerca dos próprios ideais e da natureza das diferenças que os separam do inimigo. Fomos enganados, tanto por nos termos recusado a acreditar que o inimigo era sincero ao esposar algumas crenças das quais compartilhamos, como por termos acreditado na sinceridade de algumas de suas outras alegações. Não se enganaram, tanto os partidos da esquerda como os da direita, ao acreditar que o partido nacional-socialista estava a serviço dos capitalistas e contra todas as formas de socialismo? Quantos aspectos do sistema de Hitler não nos foram apontados como exemplo pelos círculos mais inesperados, sem que se notasse que eles eram parte integrante desse sistema e incompatíveis com a sociedade livre que esperamos preservar? É impressionante o número de erros perigosos que cometemos antes e depois do início da guerra por não entendermos o nosso adversário. Chega-se a ter a impressão de que não desejamos compreender a sequência dos fatos que produziram o totalitarismo porque tal compreensão poderia destruir algumas das mais caras ilusões a que nos apegamos.

Nunca seremos bem-sucedidos ao tratar com os alemães se não compreendermos o caráter e a evolução das ideias que agora os governam. A teoria, mais uma vez apresentada, de que eles são pervertidos por natureza é dificilmente defensável e não dignifica os que a sustentam. Essa teoria desonra a longa série de pensadores ingleses que durante os últimos cem anos de bom grado se tem apropriado do que há de melhor – e não apenas do melhor – no pensamento alemão. Negligencia o fato de que John Stuart Mill, quando escreveu há oitenta anos o seu grande ensaio Da Liberdade, inspirou-se, mais do que em quaisquer outros homens, em dois alemães – Goethe e Wilhelm von Humboldt1 – esquecendo ainda que dois entre os mais influentes antepassados intelectuais do nacional-socialismo – Thomas Carlyle e Houston Stewart Chamberlain – foram um escocês e outro inglês. Nas suas formas mais cruas esse ponto de vista é uma desgraça para aqueles que, mantendo-o, adotam as teorias raciais alemães em seus piores aspectos.

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